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  • Escravidão de amor, desponsório místico e troca de vontades

    Cada pessoa deve procurar levar uma vida de tal modo unida a Nosso Senhor que seus pensamentos, olhares e gestos, por mínimos que sejam, se conformem à mentalidade do Redentor.

     

    Pedem-me para comentar a frase de São Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20). Embora nunca tenha lido comentários de exegetas sobre isso, vou dar a impressão que me causa este texto tão conhecido.

    Cada um deve atingir um tipo de santidade para imitar perfeitamente Nosso Senhor

    Nosso Senhor Jesus Cristo tem a respeito de cada um de nós um desígnio enormemente abrangente. Um modo superficial de considerar o texto de São Paulo seria afirmar que “não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” significa realizar os desígnios de Nosso Senhor a meu respeito e, portanto, devo abandonar meu próprio egoísmo e fazer a vontade d’Ele. Nisto está a vida d’Ele em mim.

    Tudo isso é correto, mas é uma concepção muito limitada a respeito dessa vida d’Ele em cada um de nós. A meu ver, chega-se ao fundo do assunto considerando o seguinte:

    O desígnio de Nosso Senhor para cada homem não é apenas que um, por exemplo, seja religioso; outro chegue a uma alta posição num governo e faça um decreto estabelecendo a união entre a Igreja e o Estado, em termos muito convenientes para a Igreja; e que outro funde uma escola, uma Universidade Católica… Sem dúvida, isso tudo faz parte dos desígnios da Providência, mas nunca, absolutamente nunca, os desígnios divinos sobre um homem se cifram exclusivamente naquilo que se poderia chamar a obra da vida dele.

    Deus tem o desígnio de que sejamos inteiramente configurados em nossa alma, de maneira a realizar um tipo de santidade, pela qual, sendo cada qual o que é, imite a Ele perfeitamente, dentro desta via que procede das peculiaridades de cada um. E seja, por assim dizer, uma reedição d’Ele. É isso que Ele quer.

    A personalidade de Deus é imensamente rica. E todos os homens que Ele criou, desde Adão até os últimos que vão existir, constituem uma série dentro da qual cada um deve imitar a personalidade d’Ele num ponto, como se Ele não tivesse sido senão aquilo. Assim todos os homens repetem de algum modo, num grau maior ou menor, Nosso Senhor Jesus Cristo, à maneira de uma coleção. De maneira que, visto o conjunto, dê uma superimagem de Nosso Senhor que apresente no Céu uma noção global d’Ele. De modo que Ele, olhando a humanidade toda glorificada no Céu, Se veja representado. E nessa representação encontre sua glória.

    Esse é um pensamento que tem seu fundamento no fato de Deus ter feito a Criação ao longo de seis dias, e no sétimo descansou. E ao contemplar os seres criados, viu que cada coisa era boa, mas o conjunto era melhor (cf. Gn 1, 31).

    O modo de fazer todas as coisas envolve uma perfeição espiritual

    Assim também a Nosso Senhor Jesus Cristo, enquanto Homem-Deus, vai ser dada essa glória de que todos os homens no Céu, no seu conjunto, representarão a Ele, como a Criação representa a Deus. Cada bem-aventurado no Céu O representa bem, mas o conjunto representa melhor, e proporciona uma noção global d’Ele que nenhum homem deu; exceção feita da Santíssima Virgem. Porém Ela também faz parte do conjunto que representa a Ele, embora seja a parte mais esplêndida, mais gloriosa — de longe! — entre as meras criaturas. A tal ponto que sem Nossa Senhora tudo isso não valeria nada; mas com Ela vale inimaginavelmente.

    Então, Ele quer que eu toque toda a minha vida — mas a minha vida abrange meus olhares, meus pensamentos, meus gestos, por mínimos que sejam, e que, no fundo, exprimem algo de minha mentalidade. Ele quer que seja como a mentalidade d’Ele, vista nesse ângulo minúsculo que se chama “a individualidade de Plinio Corrêa de Oliveira”. Mas isso é assim com todos aqueles que andam pela rua, inclusive os que estão se perdendo.

    Por exemplo, eu poderia agora querer um copo d’água. Do ponto de vista moral, é inteiramente indiferente que eu beba ou não a água. Mas se eu bebê-la agora de modo oportuno, temperante, agirei de acordo com Ele; se eu ingerir essa água de um modo inoportuno, intemperante, por uma razão sem fundamento, embora o beber água seja neutro, a ocasião escolhida por mim para ingeri-la envolve uma razão moral.

    O modo de fazer todas as coisas neutras envolve uma perfeição espiritual, com vistas a fazer a vontade d’Ele e ser a cópia d’Ele em tudo, mas aquela cópia que só eu serei, e mais ninguém. Se eu ratear, ninguém mais fará; e se fizer bem feito, estará bem feito por toda a eternidade.

    Isso envolve a nossa vida inteira, em dois sentidos: toma-nos por inteiro, de um lado; e, de outro lado, é por uma vida procedida d’Ele que somos capazes disso. Porque Ele vê que pela nossa mera natureza humana, em consequência do pecado original, somos incapazes de alcançar essa perfeição. Por esta razão recebemos d’Ele a vida da graça, dom criado por Ele, que é uma participação na sua vida divina. Recebemos essa participação e passamos a viver com uma categoria por onde participamos da vida do próprio Deus, o que nos torna capazes de realizar o plano d’Ele a nosso respeito.  

    Portanto, se eu considero minha vida assim e me entrego a isso, posso dizer que já não sou eu que vivo; nesse sentido de que não faço os meus planos, senão os planos de Deus.

    É Ele que vive, mas de um modo singular, porque não sou como uma marionete nas mãos de Deus. Eu entendo, quero e sinto por iniciativa minha, proveniente da graça d’Ele, como Ele queria que eu fizesse. Ou seja, é um penetrar fundo, como mais profundo não se pode penetrar.

    Belezas que dão realidades extraordinárias

    Assim, compreendemos também os segredos da misericórdia de Deus, porque entendemos bem o amor que Ele tem a cada um de nós, para chegarmos a tal ponto que estejamos unidos com Ele. Quer dizer, ao sermos criados Deus teve o plano de que tal perfeição d’Ele, que nunca ninguém teria conhecido — ao menos entre os homens e exceção feita, naturalmente, de Nossa Senhora —, brilhasse em nós; é como se Ele tirasse de dentro de Si mesmo um raio de luz e o desse para nós. E é um dos como que infinitos modos de ser d’Ele. Ou seja, fazendo-nos isso, não poderia deixar de nos amar infinitamente, porque Ele é infinito.

    O amor que o Criador tem a nós é um reflexo do amor que Ele tem a Si próprio. Compreende-se melhor também por que Nosso Senhor morreu por nós: para termos a graça e podermos realizar esse plano.

    Estou apenas coligando dados correntes da Doutrina Católica. Mas esses dados conduzem a um plano suntuoso, fabuloso! E de um gênero de união como não se pode imaginar que exista, nem d’Ele conosco, nem entre nós. Porque como duas quantidades ligadas a uma terceira estão ligadas entre si, vê-se como o nexo existente entre todos os filhos da luz é uma coisa seríssima, gravíssima, dulcíssima.

    Há uma realidade mais bonita ainda, que é a seguinte: De fato, nós constituímos assim um todo chamado Humanidade, que Deus honrou unindo a natureza humana hipostaticamente a Ele. Mas essa Humanidade é apenas uma unidade do universo, porque nós fazemos parte da Criação. E na Criação existem os Anjos; se bem que a união hipostática não se tenha dado neles, os Anjos por sua natureza são muito superiores a nós, são puros espíritos. E os Anjos deveriam realizar um universo assim também. Mas eles não realizaram porque muitos deles apostataram, e se tornaram demônios.

    Os planos se superpõem, de maneira que nessa sociedade dos homens, tomados os que se salvem e entrem para o Céu, eles preenchem o lugar dos anjos decaídos. E nós ao mesmo tempo formamos com os Anjos um todo à parte. É de uma grandeza desconcertante! E isso, mais o Céu empíreo, mais a Criação que vai continuar — Sol, Lua, tudo isso vai continuar — forma então o todo dos todos, no pináculo do qual está Nossa Senhora, que é mera criatura. E acima d’Ela, Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Compreende-se nesta perspectiva a Encarnação, o “Verbo Se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14); tudo isso forma, por sua vez, belezas que dão realidades extraordinárias, feitas para serem meditadas por cada um de nós.  

    Às vezes nos regalamos, por exemplo, com um dito espirituoso francês. Entretanto muito mais são de regalar as coisas que Deus diz e faz. No Céu nós vamos contemplar isso eternamente.

    E pensar que se põe em risco toda esta maravilha, por um mau olhar na rua… Cai-se morto na hora e vai-se para o Inferno. Quer dizer, o que nós nos expomos a perder, a qualquer momento, é uma coisa inimaginável! Somos uns doidos, uns cretinos, nem sei dizer o que somos, quando nos arriscamos a perder isso!

    Desponsório místico que se realiza na alma de cada um que se entrega a Nosso Senhor

    Há, entretanto, outra realidade a considerar que constitui um universo dentro desse universo.

    Está na intenção de Nosso Senhor que certas perfeições d’Ele sejam especialmente representadas por outras criaturas; e para que essas perfeições brilhem bem, Ele quer uma família de almas. Então, às vezes, é uma nação; outras vezes, uma área de civilização; às vezes uma Ordem religiosa. São famílias de almas chamadas a representar de algum modo uma determinada perfeição ou uma constelação de perfeições d’Ele.

    De todas essas representações, a família religiosa é a que tem mais riqueza de representação dos que as outras, porque a natureza do vínculo criado por ela é muito mais forte do que nas outras.

    Entre os indivíduos de uma mesma pátria, por exemplo, há aquela vinculação natural baseada em tradições e laços históricos. Nesse conjunto natural há também os elementos sobrenaturais, que levam a constituir-se uma grande nação católica a qual pode formar um corpo místico dentro do Corpo Místico.

    A doutrina do Corpo Místico chega a tal ponto que, por exemplo, eu vi certa vez uma referência antiga, da Idade Média, ao “corpo místico da Universidade de Paris”. A Universidade de Paris naquele tempo era uma espécie de crisol de ortodoxia muito especial, que a Santa Sé tomava muito em consideração.

    Assim também uma família religiosa constitui um “corpo místico”, no qual o Fundador deve representar de modo mais excelente as qualidades que o corpo todo tem que espelhar. Mas cada um dos membros daquela família, chamado a espelhar determinada perfeição de Nosso Senhor, reflete essa qualidade enquanto existente no Fundador, e é uma repetição do Fundador, como o conjunto dos fundadores é uma repetição de Nosso Senhor.

    Então, os vínculos de alma entre súdito e Fundador tomam toda a analogia com as relações existentes na sagrada escravidão a Maria, ensinada por São Luís Maria Grignion de Montfort.

    A meu ver, a escravidão de amor não é senão o desponsório espiritual visto em seus efeitos. Porque se Nosso Senhor Jesus Cristo é o Esposo e a Igreja a Esposa, isso significa que a alma fiel deve portar-se face a Ele com a receptividade, o amor, a docilidade da verdadeira Esposa em relação ao verdadeiro Esposo.

    Cada um de nós é um membro dessa Igreja. Portanto, esse desponsório místico se realiza na alma de cada um de nós.

    Então, se alguém resolve fazer-se escravo de Nosso Senhor para ser obediente a tudo quanto os representantes d’Ele nos mandam, isto se dá por causa de um desponsório místico havido anteriormente, e que nós queremos tornar mais efetivo, mais consistente, mais durável, exatamente por meio dessa submissão.

    Creio que a troca de vontades é a própria essência dos desponsórios. Feita a troca de vontades, está realizado o desponsório místico, o qual é um processo que se consuma no momento em que as vontades se uniram completamente. Assim, compreende-se que a escravidão de amor, o desponsório místico e a troca de vontades sejam aspectos de um mesmo processo unitivo; eles vão quase se revezando ou se sucedendo numa mesma realidade total.

    Mas o ponto de partida é o momento em que nos enlevamos por Nosso Senhor Jesus Cristo, por Nossa Senhora, pela Igreja, e nos maravilhamos de tal maneira que aceitamos que Ele nos governe como acabo de expor. É a realização da frase de São Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”. 

     

    Plinio Corrêa de Oliveira, (Extraído de conferência de 9/7/1988)

  • Reino de Maria nos corações

    Numa época tão marcada pela incerteza a respeito do futuro da humanidade, o mês dedicado a Maria nos coloca novamente diante da necessidade do reinado desta misericordiosa Mãe, na Terra. O que falta para que este Reino de Maria seja instaurado?

    Como afirmava Dr. Plinio(1), a resposta a esta crucial indagação encontra-se no coração humano, e dependerá sempre do auxílio de Nossa Senhora.

    A Civilização Cristã é possível ou não?

    O reinado de Nossa Senhora pelo qual, gota a gota, estamos dando a nossa vida, é realizável e vem ao nosso encontro como nós caminhamos ao encontro dele? Existirá alguma vez na Terra isto que, no momento, se nos afigura como uma miragem maravilhosa chamada Reino de Maria? Ou é preciso reconhecer que o mundo é do demônio?

    Primeiramente, consideremos o que se entende por Reino de Maria.

    Ele será o conjunto de homens, de coisas que se conformarão com a Lei de Deus, porque Maria só é Rainha onde Deus é Rei. O Reino de Cristo é, evidentemente, o Reino de Deus; o Reino de Maria é o Reino de Cristo.

    Ora, o Reino de Maria, o Reino de Deus, o que são?

    Essas expressões tão bonitas só têm sentido se as considerarmos como uma era futura, de luz e de glória, na qual, não digo cada homem individualmente, mas a generalidade dos homens viverá em estado de graça, cumprindo a Lei de Deus.

    E, portanto, o Reino de Maria se compõe de dois elementos essenciais. Um interno: se amará a Deus e se cumprirão os Dez Mandamentos; e outro, externo: como consequência, as famílias, as associações, as instituições, as áreas de civilização, tudo isso se organizará de acordo com o pensamento da Santa Igreja.

    Põe-se, então, o problema-chave: a Lei de Deus é admiravelmente bela, os Dez Mandamentos são lindos, mas dificílimos de serem cumpridos duravelmente na sua integridade. Porque são muito grandes a atração do pecado e a preguiça do homem em realizar os esforços necessários para evitar as ocasiões de pecar. Habitualmente, quando uma circunstância concreta tenta alguém, o demônio acrescenta a essa ação natural uma tentação dele.

    Como se pode evitar uma queda? Se ela não for evitável, a Civilização Cristã é uma quimera!

    De fato, se Deus enviar sua graça e os homens quiserem corresponder a ela, não pecarão e permanecerão na amizade d’Ele.

    Trava-se em nós, portanto, uma batalha constante entre o demônio — que exerce sobre nós uma ação preternatural para nos levar ao estado de criatura coberta de pecados — e Deus, que quer nos levar para o Céu, e para isso nos eleva à ordem sobrenatural, nos protege e ajuda.

    Assim, o pêndulo de nossa vontade está continuamente convidado por Deus para subir e pelo demônio para descer.

    A Civilização Cristã fica dependendo, em última análise, da correspondência que o homem dê à graça de Deus.

    Então, a grande luta de nossa vida é, como leões, contra o demônio e contra aqueles que querem perder as pessoas. Devemos, pois, fazer todo o possível para que não pequemos e as outras almas sejam salvas.

    O homem que se preocupe somente com sua alma e não com a salvação das outras, está fora da Lei de Deus, porque o homem deve amar o seu próximo como a si mesmo por amor a Deus. Portanto, ele tem a obrigação de salvar os outros, e não pode ser indiferente a que alguém se perca.

    Se eu pedir, não só para mim, mas para os próximos a mim, para todo o gênero humano que se levantem como um só homem e passem a servir Maria, então terei lutado valentemente pela instauração do Reino de Maria.

    De posse dessas considerações, devemos pedir a Nossa Senhora que faça de nós almas de oração, de fogo, que “incendeiem” o mundo.

    Teremos, assim, a possibilidade — cada um dentro de si mesmo — de proclamar o Reino de Maria, e dizer: “Em mim, ó minha Mãe, Vós sois a Rainha, eu reconheço o vosso direito e procuro atender às vossas ordens. Dai-me luz de inteligência, força de vontade, espírito de renúncia para que as vossas ordens sejam efetivamente obedecidas. Ainda que o mundo inteiro se revolte e Vos negue, eu Vos obedeço”.

    E no mundo, nessa torrente de desordem, de pecado, há um brilhante puro, um brilhante adamantino. Esse brilhante é a alma daqueles que podem afirmar: “Em mim Nossa Senhora manda”. A Santíssima Virgem continua a ter, assim, uns enclaves no mundo: aqueles que, pela consagração, se fazem seus escravos e, reconhecendo todo o poder d’Ela sobre eles, declaram: “Esteja o mundo revoltado como estiver, eu me levanto e começo a Contra-Revolução, para que Ela reine sobre os outros também”.

    É o reinado de Nossa Senhora vista enquanto mandando em mim e fazendo de mim um soldado da Contra-Revolução, que luta para tornar efetiva a realeza de Maria na Terra.

    1) Cf. conferências de 31/5/1975 e 11/5/1994.

  • Páscoa

    Disse São Paulo que, se Cristo não tivesse ressuscitado, vã seria nossa Fé. É no fato sobrenatural da Ressurreição que se funda todo o edifício de nossas crenças. (…)

    Cristo, Senhor Nosso, não foi ressuscitado: ressuscitou. Lázaro, foi ressuscitado. Ele estava morto. Outrem que não ele, isto é, Nosso Senhor, o chamou da morte à vida. Quanto ao Divino Redentor, ninguém O ressuscitou.

    Ele mesmo a Si próprio se ressuscitou. Não precisou que ninguém O chamasse à vida. Retomou-a quando quis.

    Tudo quanto se refere a Nosso Senhor tem sua aplicação analógica à Santa Igreja Católica. Vemos freqüentemente, na História da Igreja, que quando ela parecia irremediavelmente perdida,  e  todos os sintomas de uma próxima catástrofe pareciam minar seu organismo, sobrevieram sempre fatos que a têm sustido viva contra toda a expectativa de seus adversários. Fato curioso, às vezes, não são os amigos da Santa Igreja que vêm em seu socorro: são seus próprios inimigos. Numa época delicadíssima para o Catolicismo, como foi a de Napoleão, não ocorreu o episódio mil e mil vezes curioso de se ter reunido um Conclave para eleição de Pio VII, sob a proteção das tropas russas, todas elas cismáticas e obedecendo a um soberano cismático? Na Rússia, a prática da Religião Católica era tolhida de mil maneiras.

    As tropas desse país asseguravam, entretanto, na Itália, a livre eleição de um Soberano Pontífice, precisamente no momento em que a vacância da Sé de Pedro teria acarretado para a Santa Igreja prejuízos de que, humanamente falando, ela talvez não se pudesse ter soerguido jamais.

    Estes são meios maravilhosos de que a Providência lança mão para demonstrar que Ela tem o supremo governo de todas as coisas. Entretanto, não pensemos que a Igreja deveu sua salvação a Constantino, a Carlos Magno, a D. João d’Áustria, ou às tropas russas. Ainda mesmo quando ela parece inteiramente abandonada, e ainda mesmo quando o concurso dos meios de vitória mais indispensáveis na ordem natural parece faltar-lhe, estejamos certos de que a Santa Igreja não morrerá.

    Como Nosso Senhor, ela se soerguerá com suas próprias forças, que são divinas. E quanto mais inexplicável for, humanamente falando, a aparente ressurreição da Igreja — aparente, acentuamos, porque a morte da Igreja nunca será real, ao contrário da de Nosso Senhor —, tanto mais gloriosa será a vitória. Nestes dias turvos e tristonhos de 1943, confiemos pois. Mas confiemos, não nesta ou naquela potência, não neste ou naquele homem, não nesta ou naquela corrente ideológica, para operar a reintegração de todas as coisas no Reino de Cristo, mas na Providência Divina que obrigará novamente os mares a se abrirem de par em par, moverá montanhas e fará estremecer a terra inteira.

    Se tal for necessário para o cumprimento da divina promessa: “as portas do inferno não prevalecerão contra ela”.

    Esta certeza tranquila no poder da Igreja, tranquila de uma tranqüilidade toda feita de espírito sobrenatural, e não de qualquer indiferença ou indolência, podemos aprendê-la aos pés de Nossa Senhora. Só Ela conservou íntegra a Fé, quando todas as circunstâncias pareciam ter demonstrado o fracasso total de seu Divino Filho. Descido da Cruz o Corpo de Cristo, vertida pela mão dos algozes, não só a última gota de Sangue, mas ainda de água, verificada a morte, não só pelo testemunho dos legionários romanos, como pelo dos próprios fiéis que procederam ao sepultamento, aposta ao túmulo a pedra imensa que lhe devia servir de intransponível fecho, tudo parecia perdido. Mas Maria Santíssima creu e confiou.

    Sua Fé se conservou tão segura, tão serena, tão normal nestes dias de suprema desolação, como em qualquer outra ocasião de sua vida. Ela sabia que Ele haveria de ressuscitar. Nenhuma dúvida, nem ainda a mais leve, maculou seu espírito. É aos pés d’Ela, portanto, que haveremos de implorar e obter essa constância na Fé e no espírito de Fé, que deve ser a suprema ambição de nossa vida espiritual. Medianeira de todas as graças, exemplar de todas as virtudes, Nossa Senhora não nos recusará qualquer dom que neste sentido lhe peçamos.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído do “Legionário”, nº 559, de 25/4/1943)

  • EXTRAORDINÁRIA MANIFESTAÇÃO DE FÉ

    Em sua infinita sabedoria, a Divina Providência frequentemente se aproveita de certos fenômenos que tocam nossos sentidos corporais para, através deles, exercer determinada ação em nossas almas. Assim, por meio daquilo que atinge sua percepção física, o homem discerne algo de sobrenatural que lhe enriquece o espírito.

    Um exemplo. Estamos passando diante de uma linda catedral gótica, sentimo-nos atraídos pela imponência de suas linhas, e entramos: igreja vazia, silenciosa, recolhida, com seus grandes vitrais batidos de sol, povoando de pedras preciosas o solo do templo. O ambiente e o colorido logo nos prendem o interesse pelas vistas. De repente, alguém toca o órgão, despertando nossa sensibilidade pelo ouvido. Mas, ao mesmo tempo em que a beleza da arquitetura, da luminosidade e do som nos colhe, age também em nós um toque da Graça, pelo qual percebemos uma misteriosa analogia daquelas maravilhas sensíveis com certas riquezas sobrenaturais, com valores da Fé, com virtudes e princípios católicos.

    Mais: aquela grandiosidade de formas, aquela envolvente musica de órgão, aquela radiosa policromia dos vitrais, são símbolos de determinadas perfeições do Criador  e, por isso, tornam-se veículos para o homem conhecer algo do próprio Deus.

    É o que acontece quando se contempla a Catedral de Bourges, tida como uma das mais bonitas da França.

    Em sua ampla e esplendorosa fachada se sucedem portas e arcarias góticas, incrustadas de esculturas incontáveis. No centro, a grande rosácea, ponto de convergência de toda a decoração. O pórtico principal, formado por várias camadas de ogivas, prolonga-se sob um esguio e anguloso telhado, guarnecido por vigorosas colunas. À direita e à esquerda da entrada maior se abrem mais quatro, menores, também precedidas por fileiras de ogivas, recobertas de pequenas imagens talhadas em pedras.

    Cada um dos pórticos se enfeita com uma rosácea e uma imagem mais expressiva. Na principal está a figura de Nosso Senhor Jesus Cristo vitorioso, triunfante, deixando passar os fiéis pelas grossas e lavoradas portas de madeira. As entradas laterais obedecem à mesma estrutura, embora menos ricas, fazendo o papel de damas de honra que acompanham a rainha, completando-lhe a beleza arquitetônica e simétrica. O mesmo papel de acólito desempenham as colunas secundárias que separam as entradas menores da principal, assim como as ornamentações daquelas servem de respeitoso e enlevado “pendant” para as desta.

    De todo esse conjunto sobressai uma expressão harmoniosa do espírito Hierárquico predominante na época histórica em que foi construído. Tudo nele é ordem, é classe, é categoria: é o espírito da Idade Média.

    Agora, se tomarmos em consideração que todos os adornos da Catedral – e são inúmeros! – foram esculpidos em pedra, e que muitas dessas esculturas são genuínas obras de arte, facilmente percebemos que seus realizadores não se preocupavam com o tempo, nem com o trabalho e a mão de obra necessários para chegar a a essa maravilha da arquitetura cristã. Não se incomodavam com prazos, não tinham frenesis de terminar logo. Nada na Catedral de Bourges parece ter sido feito “a galope” ou “a toque de caixa”. Naquele tempo, não se marcavam datas para concluir edificações como essas. Pelo contrário, sabia-se que talvez várias gerações passariam, até que os homens pudessem admirar em todo o seu esplendor mais um grandioso templo católico.

    Para se ter um pouco ideia do trabalho que uma construção desse porte exigia, basta reparar na espessura das paredes, na quantidade imensurável de pedras utilizadas, na profusão de imagens e floreados góticos, de colunetas e arcarias: é quase uma orgia de labor e dedicação. É um esbanjamento de arte. Na verdade, uma extraordinária manifestação de fé.

    Chama particularmente a atenção as sequencias de ogivas formando arcadas que resultam numa composição de força e leveza, arrematadas por agulhas e florões de pedra que lhes conferem especial nota de elegância, todas apontando para o firmamento, como a dizerem aos homens: “Confiem, pois no Céu tudo se resolverá!”

                                                         . . .

    O edifício é imenso, porque as catedrais eram feitas para conter a população inteira da cidade, naquela época áurea da Civilização Cristã em que todos eram católicos. Assim, tornava-se possível que a maioria dos fiéis assistisse às missas e participasse das cerimônias litúrgicas dentro do recinto sagrado, ao abrigo das vicissitudes climáticas, nevascas, fortes calores, etc. A igreja era a própria casa do povo, porque era o palácio de Deus, onde havia lugar para ricos e pobres, reis e senhores feudais, autoridades eclesiásticas e representantes civis, para nobres e plebeus. Dentro, formavam uma só família cristã, sob o manto da Santa Madre Igreja e a celeste proteção de Maria Santíssima.

    Todos podiam se beneficiar da amplitude daqueles espaços interiores, das sólidas e imponentes colunas que se lançam para o alto abrindo-se e se encontrando em ogivas góticas, das grossas paredes de pedra e – mais que tudo – da maravilhosa luminosidade multicolorida, proporcionada por seus deslumbrantes vitrais. Verdadeiras rendas de vidros policromados, fundindo-se numa mescla de cores capaz de encantar ao mais insensível dos homens.

    Fixando-se neles a atenção, é-nos permitido discernir uma série de figurinhas que se movem, que tomam atitudes, que falam e gesticulam: em geral são representações de episódios do Antigo e do Novo Testamentos, cenas históricas da Cristandade, batalhas memoráveis, ou acontecimentos decisivos para a humanidade, como a Ressurreição dos mortos e o Juízo Final.

    Nessa feeria de cores predomina o azul, profundo, lindíssimo, lembrando o anil de certas asas de borboletas que embelezam nossos bosques tropicais. Talvez não fosse exagerado afirmar que o azul de Bourges é o azul da França, posto em vitrais que não só entusiasmam, como encerram lições de História Sagrada: os fiéis que não sabiam ler, acabavam conhecendo a Bíblia através daquelas luminosas e coloridas páginas de vidro…

                                  …

    Vale apontar, ainda, a beleza dos chamados botaréus, os contrafortes que arrimam as paredes externas da igreja. Parece que os medievais não possuíam pleno domínio dos cálculos necessários para garantir a estabilidade  de gigantescos edifícios como a Catedral de Bourges. Para evitar que ruíssem, erguiam do lado de fora uma série de arcos-botantes, colocados de encontro ao corpo da igreja.

    Mas essa função prática se oculta sob formas tão bonitas, tão elegantes, tão leves que, se alguém pensasse em tirar essas escoras, os artistas da França e do mundo inteiro protestariam. Compreende-se: quando se tem uma grande alma, até o não conhecimento leva ao belo…

    Eis a Catedral de Bourges, o fruto de almas cristianizadas e estuantes de fé, que acabaram dando origem a esse magnifico estilo gótico, por meio do qual nos aproximamos da grandiosidade e da força, da harmonia e leveza infinitas de Deus Nosso Senhor.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • Confiança: flexibilidade nas mãos da Providência

    A confiança vem da certeza interior de que a Providência irá conceder aquilo que Ela promete e que não conseguimos por nossas próprias forças. Os momentos em que é preciso confiar são os mais belos da vida de um homem.

     

    Confiança em Nossa Senhora! Que magnífico! Que extenso tema cheio de aspectos, de profundidade, de luzes, cheio também de santas exigências!

    Necessidade do auxílio da Providência

    Como deve ser a confiança em Nossa Senhora?

    A palavra “confiança” é cheia de doçura. Não há homem que não tenha necessidade de uma ajuda da Providência a todo momento de sua vida. Se ele é muito orgulhoso e não quer reconhecer a necessidade desse auxílio, o fardo que ele leva é pior, porque não há coisa mais terrível do que levar a vida no isolamento, sentindo a própria insuficiência. E não há homem que não seja insuficiente para a grande tarefa de viver.

    Há uma expressão francesa que diz: “Entra-se e grita-se; é a vida! Grita-se e sai-se; é a morte!” Entre dois gritos está a vida de um homem. E quanto é isto verdade! Quanto a vida é cheia de sofrimentos! O homem nasce, e à medida que ele vai adquirindo o uso da razão, de um modo mais ou menos confuso, se estabelece no espírito dele a ideia de que a vida deve ser de um determinado modo.

    Essa ideia é muitas vezes influenciada por desejos, por sonhos irrealizáveis, mas pode também ser algo nascido da reta ordenação das coisas, de uma ponderação exata das circunstâncias, que leva o homem a desejar aquilo cuja realização seria razoável. Em busca disto começa a história da vida de um homem.

    Homens com e sem história

    O que é a história de um homem? Conhecemos, por exemplo, a história deste, daquele; depois tal outro que não tem história. O que é a vida dos homens sem história?

    Por mais modesta e apagada, ou por mais magnífica que seja a vida, ela tem história quando possui uma meta e há dificuldades para se alcançá-la. Mesmo quando a pessoa não consegue atingir a meta que traçou para si, ela tem uma história. Pode ser a história de um êxito ou de um fracasso. Por quê? Porque foi a trajetória de um esforço.

    Quais são os homens que não têm história? São os que não deixam sulco na História. São os que não tiveram meta. Toda vida humana é interessante desde que ali tenha havido uma meta e um método para alcançar esse objetivo.

    Um homem que, por exemplo, jornaleiro — hoje essa profissão não existe mais, era um ofício muitíssimo modesto —, que vende jornais andando pela rua, e gritando de um lado para outro, musicalizando: “O Estado, a Folha…” Às vezes víamos um homem maduro, que passara a vida inteira como jornaleiro, mas percebia-se nele a intenção de ter sido um determinado tipo de jornaleiro, e tinha ou não conseguido aquele intuito.

    É uma história anônima. Mas se uma pessoa se debruçasse sobre ela, conhecesse os pormenores, soubesse quais foram as metas, as tentativas, o fracasso e o êxito, se fosse um bom escritor, faria daquela vida um grande livro. Porque onde houve uma meta e um método, esta história mereceria ser escrita.

    Não merece ser escrita a história daqueles que não tiveram meta nem método, que passaram a vida vagueando de um lado para outro, sem querer e sem desejar nada, sem ter método para alcançar alguma coisa, ao sabor das circunstâncias, como uma cortiça jogada ao mar. Jogada no Atlântico, tanto pode ir parar no Mar Amarelo, como em Istambul, como pode passar cem anos flutuando nos espaços internos da baía de Guanabara e, depois, desintegrar-se. Não tem interesse, não houve meta, não houve método, houve apenas o jogo fortuito das circunstâncias… São os homens sem história.

    Necessidade da confiança para cumprir os desígnios de Deus

    Para os homens que possuem história, muitas vezes esta meta é verdadeira. Mas muitas vezes também a pessoa se engana. E chegar a conhecer a verdadeira meta da vida é uma graça. Alguns a têm nos primeiros albores da vida, outros quando a vida já vai madura, a mar alto! A Providência não quis lhes fazer conhecer antes a meta designada para eles. E eles foram vivendo na incerteza, à procura de uma meta, até o momento em que ela floresce dentro do mar onde eles estavam vagando sem sentido.

    Às vezes a Providência tem metas desencontradas para uma mesma pessoa, para prová-la. Então, chama um homem, primeiro para guerreiro. Ele luta e, de repente, a Providência dá um jeito, o homem descobre em si mesmo um talento diplomático enorme. Ele deixa de lado a espada e começa a usar a lábia, a gentileza; entra pela diplomacia.

    Em determinado momento, lhe vem a ideia, e é a vocação: “Eu devo ser padre, devo ser religioso… Vou — como São Pedro Armengol — ser um homem para resgatar os cativos… eu não quero outra coisa…”

    São vidas que parecem quebradas, mas se somam formando um todo, uma bonita unidade, que se percebe melhor depois, quando a pessoa morreu e vemos o caminho seguido por ela.

    Outro exemplo: Santo Inácio. Há uma beleza especial no fato de ele ter sido guerreiro antes de ser padre. E como embeleza ainda mais a vida deste Santo o fato de, entre o tempo de guerreiro e o de Fundador, ter passado um período de convalescença, com uma perna quebrada, lendo livro de cavalaria, depois livro de Santos, da biblioteca do velho castelo, e mandando quebrar três vezes a perna para consertar…

    Como é bonito que depois esse fidalgo deixasse a corte e se vestisse como um mendigo, e fosse para um grupo escolar onde os meninos davam risada dele. Aquele homem já feito quase não tinha cultura. Ele tinha passado a vida guerreando e não tinha tido tempo de estudar. Ele recebe com humildade os apodos, até que sua alma começa a luzir como uma tocha! É a Contrarreforma que brilha nele, talvez como em nenhum outro Santo.

    Como tudo isto é magnífico! Como estas coisas são feitas de tal maneira que o homem, para conhecer as vias de Deus, deve medir e pesar com sabedoria as circunstâncias.

    De outro lado, deve ouvir a voz de Cristo — “voz misteriosa da graça que fala às almas palavras de doçura e de paz” — e dar mais um passo, fazendo um ato de confiança:

    “Um impulso interno do lado bom de minha alma floresce quando eu formo a ideia de seguir tal rumo. Tudo quanto há de bom em mim fenece, quando penso no rumo oposto. Para lá eu devo andar! Há alguma coisa de Deus que me diz isso no interior da alma!”

    Quantas e quantas vezes o homem se confunde a respeito da voz de Deus! É preciso medir pela razão, pela sabedoria, se esse impulso interno está direito. “Medi, rezei para conseguir fazer bem. Medi e dei o passo! Está lançada a história, eu comecei!”

    Aqui aparece mais especialmente a necessidade da confiança. A pessoa formou aquela certeza e deve andar em determinada direção.

    Rezar, rezar muito e não duvidar

    Qual é o papel da confiança dentro disso?

    “Nossa Senhora me chamou para isto, e Ela não chama em vão. Se a Santíssima Virgem me chamou, eu obterei. Ela muitas vezes me fará passar pelas avenidas dos becos sem saída, muitas vezes me fará conhecer o tormento das situações que não têm solução. Mas eu devo resistir a esses tormentos com muita calma, devo estar sereno… Porque, em determinado momento, as mãos d’Ela abrem as muralhas do beco como se fossem cortinas, e eu passarei com facilidade”.

    É a confiança vinda daquela certeza interior, uma certeza meio do raciocínio e meio da graça, na qual nada é contra a razão, mas às vezes é mais do que a simples razão vê. Assim forma-se a resolução de fazer e seguir naquele rumo, sabendo que a Providência Divina acabará dando aquilo que a pessoa julga jamais conseguir. Esses são os mais belos momentos da vida do homem, em que ele diz: “Não consigo, não vou avante! ‘Salve Regina, Mater misericordiæ, vita, dulcedo et spes nostra, salve!'(1) Não tem saída, mas Vós, ó Mãe, sois a saída!”

    Quantos e quantos fatos — e não só na vida dos Santos — provam como a alma verdadeiramente confiante, que soube continuar a esperar, mesmo quando tudo parecia perdido, obtém a graça almejada. O que é preciso é, em primeiro lugar, rezar; em segundo lugar, rezar muito; em terceiro lugar, não duvidar que será atendida.

    Diante de obstáculos insuperáveis, a certeza do auxílio de Nossa Senhora

    Como se define a virtude da confiança?

    É a virtude pela qual o homem, levado pela luz da razão e pela luz da Fé, se convence de que um determinado caminho é o dele, e convencendo-se disso, diante dos obstáculos mais impossíveis, das dores mais terríveis, tem certeza de que Nossa Senhora o ajudará. Então, ele não se perturba, não duvida, e nas circunstâncias mais terríveis ele se mantém calmo e em ordem, porque sabe que Nossa Senhora virá em seu socorro. Esta é a virtude da confiança.

    A condição da virtude da confiança é não duvidar. Se o homem não duvida, a sua confiança será atendida e premiada. Pelo contrário, se duvida, ele pode não obter. E é por causa disso que a confiança é uma das condições fundamentais da oração. Uma oração confiante move as montanhas.

    Desse modo compreende-se como nós devemos nos preparar para a confiança. Custe o que custar e seja de que maneira for, confiar, confiar, confiar! Esperar contra toda esperança! Quando tudo parecer sem solução, confiança, confiança, confiança! A solução vem!

    Alguém dirá: “Mas, Dr. Plinio, confiar é tão doce, é um Céu na Terra! Nós não compreendemos onde está a virtude, por que pode haver sacrifício em professar uma confiança tão doce?!”

    O homem tem um desejo do Céu, no seu lado bom; mas, no seu lado ruim, ele tem uma misteriosa tendência para os abismos. E um homem que está confiando, e deve a paz e a alegria de sua alma à confiança, tem uma inclinação esquisita a duvidar. Ele fica desconfiado e lhe agrada perguntar-se a sim mesmo: “Será?!…” Agrada-lhe afligir-se, desesperar-se. Este se afunda…

    Isso se deu no episódio de São Pedro andando sobre as ondas.

    Nosso Senhor mandou-o ir até Ele, São Pedro começou a andar; mas, em certo momento, em vez de olhar para Nosso Senhor, olhou para as ondas. E, coisa terrível, veio a pergunta: “Será?”

    Nós não temos o direito de atirar a primeira pedra, mas São Pedro, numa hora destas, deve ter duvidado. Em vez de olhar para a face de Nosso Senhor, que lhe daria toda a certeza, olhou para as águas. Nem era preciso que houvesse água, podia haver vácuo, se ele confiasse caminharia em cima! Podemos imaginar que, para prová-lo, a onda tenha sido tão grande que o tenha feito perder a visão direta da face de Nosso Senhor, e por isso tenha começado a afundar.

    Até o momento em que pede ajuda a Nosso Senhor, que o salva. Mas ainda aí há a tentação da desconfiança: “Desta eu escapei, em outra não me meto — a alma humana é assim — chegando à terra firme, nunca mais navego!” Um homem que agisse assim pecaria contra a confiança!

    Transponho isso para a nossa vida de apostolado. A três por dois estamos numa situação que não tem saída, num embrulho sem arranjo. Às vezes pensamos que temos a solução na mão. Não temos! Em certo momento, se soubermos confiar, vemos aquilo sendo resolvido. Quando menos esperamos, num canto do horizonte a tempestade começa a passar. Daqui a pouco passa completamente. A primavera chega, vem o verão da confiança. Mas, depois, mais adiante as coisas vão se fazendo novamente esquisitas. “Ih, desta vez não sei se dará certo… Das outras deu, mas desta dará? Que complicação!” São os outonos da confiança. E depois vêm também os terríveis invernos da confiança, em que tudo parece ir contra e dar resultado desfavorável. É preciso confiar, rezar; rezar, confiar, porque Nossa Senhora acabará arranjando.

    Há um ponto delicado dentro disso. Tão delicado que, tanto quanto eu me lembro, o próprio Abbé Saint-Laurent, no Livro da Confiança, não trata. É o seguinte.

    Nossa Senhora quer que alguns façam uma obra na Terra, e deseja conservá-los para realizar esta obra. Mas de outros Ela dispõe que sejam vítimas expiatórias. E a vítima expiatória deve aguentar nas costas toda espécie de sofrimentos para obter o resgate dos outros. Uma espécie de mercedário, mas com vistas à outra vida. Sofre nesta vida para evitar que outros vão para o Inferno.

    E às vezes a Providência dá a entender: “Meu filho, resolvi abreviar a sua vida. E quero o holocausto completo. Você vai morrer!” A ideia da morte causa espavento! Causa dor e tormento! O homem chora diante da ideia da morte! Ele pede para ser daqui a pouco, para terminar tal negócio, acabar tal relação, para fazer tal outra coisa… “Não! Chegou a sua vez de morrer!” É preciso morrer com confiança.

    O que significa aí morrer com confiança?

    “Eu pensei que a Providência fosse me dar uma longa vida, e confiava que assim seria. Mas, de repente, por um pecado meu, ou porque Deus quis de mim o sacrifício por alguém que eu não conheço, mas que Ele quer salvar, a Providência me pede: ‘Meu filho, queres morrer por mim? É novo, é uma sugestão nova… Tu não sabias, tu não conhecias. Queres morrer por mim?’”

    E é preciso ter a confiança de dizer:
    — Senhor — ou Senhora —, se Vós o quereis, eu quero também!

    É o curso terrível e natural das coisas. É, por exemplo, Santa Joana d’Arc, a heroína da confiança. Confiou, venceu, mas em certo momento foi presa, vendida pelos borguinhões aos ingleses, submetida ao injustíssimo e infamíssimo processo da Inquisição contra ela e, depois, queimada viva.

    No último momento, o grande ato de confiança: “As vozes não mentiram! Realmente aquilo que foi prometido, acontecerá!” Ela deve ter tido alguma revelação.

    Os paradoxos da confiança

    A confiança é bifásica. Ela pede que confiemos de que as coisas vão correr de um determinado jeito, e normalmente correm. Mas, por uma razão excepcional, elas podem não correr. Então se deve começar a confiar num plano mais alto da Providência que não sabemos qual é.

    A confiança é para todos os momentos, para todas as formas. Ela exige, portanto, que tenhamos a certeza de que seremos socorridos, mas, paradoxalmente, ao mesmo tempo experimentemos a impressão de que o auxílio não virá. E fiquemos resignados caso a Providência queira qualquer outra coisa. A confiança comporta esta flexibilidade: quando confiamos numa coisa, se acontecer algo contrário, não nos revoltamos, e nos entregamos. É a confiança em Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Aí se compreende também toda a doçura e bondade que há no título de Mãe de Misericórdia, e como Nossa Senhora da Divina Providência é a Mãe de Misericórdia num sentido muito especial da palavra, uma espécie de requinte da invocação de Nossa Senhora Auxiliadora. Para Ela, devemos nos voltar em dias como estes.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de Conferência de 17/11/1984)

     

    1) Do latim: Salve Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, salve!

  • Santo Adalberto: Um Santo que se opôs à ala má da Igreja

    No dia 23 de abril comemora-se a festa de Santo Adalberto. Sobre ele o Padre Jean-François Godescard, em sua obra Vida dos Santos (não dispomos dos dados bibliográficos da obra citada), diz o seguinte:

    Terrível morte do Bispo de Praga

    Adalberto  nasceu em 956 de uma das mais ilustres famílias da Boêmia. Atacado, na infância, por uma doença mortal, seus pais fizeram um voto à Santíssima Virgem de consagrá-lo ao sacerdócio se ele se curasse. Suas preces foram ouvidas e o menino recobrou a saúde. Eles entregaram Adalberto ao Arcebispo de Magdeburgo, que lhe deu ótimos mestres, correspondendo a criança em tudo ao que dela se esperava em santidade e ciência.

    Em 973, recebeu as ordens sacras das mãos do Bispo de Praga, que pouco tempo depois morreu desesperado, soltando gritos horríveis e dizendo que ia se condenar porque havia negligenciado os deveres de seu estado e procurado com paixão as honras, as riquezas e os prazeres do mundo. Testemunha desse triste fim, Adalberto nunca mais pode esquecê-lo, tomando a lição para si o resto de sua vida. Escolhido para substituí-lo, entrou de pés descalços em Praga onde foi recebido com extraordinária alegria pelo povo, principalmente pelo Rei Boleslau.

    Essa diocese estava em deplorável estado: uma parte de seus habitantes ainda era idólatra. Os que professavam o Cristianismo o desonravam pelos vícios mais vergonhosos. Em vão Adalberto procurou fazer florir a piedade e a Religião. Lidava com um povo incorrigível. Desesperado por não conseguir nenhum bem, obteve do papa permissão para deixar o bispado e ir a Roma tomar o hábito monástico.

    Cinco anos depois foi mandado de volta, sendo-lhe prometido que poderia deixar seu rebanho novamente, se este não se mostrasse dócil. Recebido com alegria, seus diocesanos prometeram corrigir-se. Vãs promessas logo esquecidas. O Santo decidiu abandoná-los para sempre e retomar o caminho de seu mosteiro.

    Atravessando a Hungria, evangelizou-a com sucesso, mas o papa mandou que retomasse o governo de sua igreja. À notícia de sua volta, os habitantes de Praga enfureceram-se, massacraram inúmeros parentes do Santo, roubaram seus bens e queimaram seus castelos. Adalberto, informado dos acontecimentos, permaneceu perto de Boleslau, seu amigo, filho de um duque da Polônia.

    Conseguiu nesse país converter numerosos idólatras e dirigiu-se à Prússia, país ainda não evangelizado, onde parte dos habitantes de Dantzig pediram que fossem batizados. Mas foi numa pequena cidade prussiana que encontrou a morte, atacado por um grupo de pagãos. Quando, após o primeiro golpe, Adalberto agradeceu a Deus por poder sofrer por sua causa, o grão-sacerdote dos ídolos, atravessando-o com uma lança, disse “Alegra-te então agora, já que não desejas outra coisa senão sofrer por teu Cristo”. Era o dia 23 de abril do ano de 996.

    Ao longo da Idade Média, a vida da Igreja foi uma luta

    Essa narração é tão cheia de episódios quanto de ensinamentos. O primeiro deles é a respeito da situação da Igreja na Idade Média. Não se deve imaginar o período medieval como uma espécie de noite de rosas sobre as quais a Esposa de Cristo dormiu, coroada de glória, durante mil anos. Ao longo desse milênio, a vida da Igreja foi uma luta. Entretanto, ela venceu esse combate porque as almas generosas, chamadas por Deus para fazerem o sacrifício de sua vida, disseram “sim”.

    Há épocas em que a Igreja não mantém essa luta, porque as almas chamadas para sacrificarem sua vida a Deus dizem “não”; ou “talvez”, que é um dos mais detestáveis modos de dizer “não”. O resultado é que a Igreja é mal servida e, então, a Civilização Cristã degringola.

    Vejam essa situação na Idade Média. Praga já era uma das cidades importantes daquele tempo, uma espécie de sertão novo, porque toda aquela parte da Boêmia estava apenas recém-evangelizada e as terras pouco aproveitadas. A civilização estava pouco implantada e todos os olhos se voltavam para lá.

    Em Praga, nós encontramos um bispo investido da grande responsabilidade de consolidar o Reino de Nossa Senhora naquela zona: em primeiro lugar, confirmando na Fé os verdadeiros católicos; em segundo lugar, convertendo aqueles que não eram católicos.

    Qual é a situação do bispo? Trata-se de um homem que desempenha mal o seu cargo, e que morre em transes de desespero na presença desse jovem, depois chamado à santidade. Qual o ensinamento que nos dá a morte desse bispo?

    Atualmente existe uma insensibilidade moral péssima

    Notem a diferença entre o modo pelo qual o mal se apresentava na Idade Média e como ele se mostra hoje. Em nossos, dias, ninguém morre em transe de desespero. Pecadores iguais ou piores do que esse bispo morrem ouvindo música, completamente inconscientes de suas responsabilidades, despedindo-se de todo mundo e fingindo não perceber que estão morrendo. Quase mais ninguém tem um arrependimento “in extremis”. Por mais carregadas de vergonha ou de opróbrio que tenham suas consciências, morrem com indiferença.

    É uma insensibilidade moral péssima que multiplica o péssimo pelo péssimo. Essa insensibilidade era mais rara na Idade Média do que em nossos dias. E, embora a Igreja tivesse que lutar com muitas almas pouco recomendáveis, não se dava, ou era raro, o fato de uma morte insensível, cínica, simplesmente indecente como ocorre hoje. Pelo contrário, os maus morriam blasfemando, desesperando-se, ou se convertendo e se salvando. Mas era muito raro o mau morrer com esse cinismo com que a quase totalidade dos maus morre hoje.

    Quer dizer, a maldade de nossos dias não está em que se peca muito, mas no estilo de pecado, na indiferença e no cinismo dentro do pecado, o que antigamente não havia. O mau tinha, pelo menos, uma certa vibração diante do pecado.

    Esse mau bispo morreu com esses sinais de horror. Qual é o resultado? Ele é observado por um futuro Santo. E a vista desse horror faz bem e sacode a alma do jovem Adalberto. Este, então, entra na cidade de Praga de pés descalços e é recebido com extraordinária alegria pelo povo, principalmente pelo Rei Boleslau.

    Com esse modo de tomar posse, ele queria fazer sentir a sua execração à vida do antecessor e o seu propósito de ser um bispo penitente, enquanto o outro fora um bispo devasso, escandaloso. Era uma manifestação de reação, uma oposição à ala má da Igreja daquele tempo. Ele tomava posse de seu cargo por meio dessa atitude.

    Graves consequências para a Boêmia por ter rejeitado Santo Adalberto

    Fato curioso, que entra em contradição com o que ocorre depois: Santo Adalberto é recebido muito bem, com extraordinária alegria pelo povo e também pelo rei. Entretanto, apesar de fazer esforços, ele lidava com um povo incorrigível, que resistiu durante  toda a vida à ação dele. E foi, naturalmente, a cruz da sua vida. Ele pregou a esse povo, mas não conseguiu nada. Renunciou ao episcopado, e quis ser frade.

    Foi para Roma, e depois converteu gente na Hungria, na Polônia, na Prússia, mas o seu próprio povo ele não converteu.

    Vê-se, por aí, como não há nada de automático na vida da Igreja. E se é verdade que, muitas vezes, um Santo basta para converter uma região, um povo mau pode resistir à ação dos maiores Santos, como o povo de Israel se opôs à ação de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Homem-Deus.

    Qual é o resultado e a responsabilidade da rejeição a um Santo? A Boêmia continuou a ser uma região má até o protestantismo. Pouco antes da heresia protestante, começou a rebentar nela, com João Huss, explosões, manifestações de autêntico protestantismo. Os católicos perseguiram João Huss e mandaram matá-lo, mas o pré-protestantismo continuou a lavrar nas fileiras desse povo.

    Durante toda a luta contra a pseudo-Reforma protestante, a Boêmia foi uma das forças do protestantismo. Embora sujeita à Casa d’Áustria, foi uma nação sempre muito pouco católica. Separada da Casa d’Áustria, ela constituiu uma república de caráter socialista. O povo checo não apresentou nenhuma reação ponderável quando, afinal de contas, os comunistas tomaram conta da Checoslováquia.

    Quer dizer, era uma velha rejeição de um povo que gerou gente má até nossos dias. Com exceções, evidentemente. Houve ali gente muito boa, Santos, grandes homens de piedade, cruzados, vocações esplêndidas. Entretanto, um filão mau, apesar das pessoas boas, continuou e fez com que a Boêmia fosse, dentro do Império de Francisco José, um perpétuo problema.

    A América Latina encontra-se numa encruzilhada

    Temos que pensar muito nesse assunto, porque há algo disso com os povos latino-americanos no presente momento.

    As nações latino-americanas estão numa encruzilhada: ou elas ouvem a voz daqueles que as chamam para a verdadeira causa católica e as convidam a uma posição contrarrevolucionária, ou rejeitam. Se receberem, são séculos de glória católica, de salvação das almas que se abrem para um florescimento. Se rejeitarem, não há o que não possamos recear.

    Há na América Latina algo sobre o mistério da aceitação ou rejeição de um povo que nos deve levar a rezar muito e a compreender nossa responsabilidade.

    Alguém dirá: “Mas se Santo Adalberto não conseguiu nada, como é que nós vamos conseguir?”

    Essas são coisas que só no dia do Juízo Final se saberão. Não era desígnio da Providência que outros, além de Santo Adalberto, fossem chamados para evangelizar a Boêmia e não o fizeram? Não sabemos se havia ali, dentro da própria Boêmia, gente chamada a constituir um núcleo em torno de Santo Adalberto e que resistiu ao chamado, não formou esse núcleo e agiu frouxamente. No dia do Juízo Final essas coisas se saberão. O fato concreto é que Santo Adalberto cumpriu o seu dever. Provavelmente outros não o cumpriram, e daí veio o triste fim da nação boêmia.

    Devemos concluir, portanto, considerando a gravidade da nossa responsabilidade e a necessidade de rezarmos muito uns pelos outros, pedirmos a todos nossos Padroeiros, todos os Anjos e Santos do Céu, especialmente a Nossa Senhora, que nos deem forças para estarmos à altura da nossa missão. Porque nada há de mais glorioso do que ser os homens dos quais a Providência espera a salvação de um continente. E nada mais triste do que dizermos “não” ou “talvez” à Divina Providência. 

    (Extraído de conferência de 22/4/1966)

     

     

     

     

  • Esvoaça do lado de fora, mas não entra

    Certa ocasião, quando São Vicente Ferrer entrava em Barcelona — uma das maiores e mais ilustres cidades de seu tempo —, fizeram-lhe uma recepção tão extraordinária que de todas as janelas pendiam tapeçarias em sua honra, o povo o aclamava e ele caminhava debaixo de um pálio, cujas varas eram carregadas pelos principais da cidade. Então, alguém lhe perguntou, baixinho, ao ouvido:

    — Irmão Vicente, e a vaidade?

    — Esvoaça do lado de fora, mas não entra — respondeu ele.

    A resposta de um orgulhoso seria: “Nem sinto tentação”. E um pusilânime diria: “Pobre de mim, estou inundado de vaidade”.

    Este Santo deu a resposta certa: Como homem, posso e estou sendo tentado. Porém, a tentação esvoaça do lado de fora, mas, pela graça de Deus, ela não entra.

    De fato, neste vale de lágrimas é normal sermos tentados. A tentação tempera a alma. Quem diz “não” para o demônio sai mais forte, mais pertencente a Nossa Senhora. O servo bom e fiel que foi provado e venceu manifesta a sua fidelidade, faz render na luta os seus talentos, colhe louros e os entrega à sua Senhora.

    Somos soldados da Igreja Militante e devemos nos entusiasmar com isso.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 16/1/1970)

  • São José, modelo de confiança em meio à perplexidade

    “Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo. José, seu esposo, que era homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente. Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: José, filho de David, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo de seus pecados. (…) Despertando, José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado e recebeu em sua casa sua esposa” (Mt 1, 18-24).

    Como nos mostra Dr. Plinio, nessa passagem do Evangelho transparece uma das eminentes virtudes de São José: sua inabalável confiança na superior vontade de Deus.

     

    A grandiosa figura de São José sempre foi exaltada da maneira conveniente ao esposo de Maria Santíssima e pai adotivo de Jesus. Contudo, não será de todo supérfluo ressaltarmos uma faceta dessa luminosa alma, cujo brilho deve atrair de modo especial nossa admiração. Trata-se da heroica confiança por ele manifestada em decisivas ocasiões de sua vida ao lado de Maria e do Homem-Deus.

    Voto de castidade e casamento

    Como se sabe por fontes não inspiradas — as quais, entretanto, foram incorporadas pela Igreja na sua iconografia e na piedade popular — São José, por uma moção interna da graça, fizera voto de virgindade. Disposição esta que o afastava de uma existência matrimonial.

    Ora, algum tempo depois, ele e outros varões da Casa de David são chamados a comparecer diante do Sacerdote a fim de participar da escolha de um esposo para Nossa Senhora. Reza a piedade católica que o eleito seria aquele cujo bastão florescesse miraculosamente. Para a surpresa de São José, em seu cajado brotaram lindos lírios brancos…

    Assim, depois de a Providência incutir em sua alma os mais nobres desígnios de castidade perfeita, parece agora contrariá-los, realizando um milagre a fim de mostrar que ele deveria abraçar o casamento. Se nos colocarmos por um instante no lugar de São José, não será difícil compreendermos o dilacerante de tal perplexidade!

    Deus estaria permitindo ao demônio ludibriar um desejo de castidade? Não era possível, pois tal anelo acendia na sua alma toda forma de bem. Deus queria seu casamento? Não podia admiti-lo, pois tal ideia, legítima e louvável para qualquer outro, nele determinava o fenecimento de tudo aquilo que o levava para o ideal, para a renúncia, enfim, para o perfeito amor a Deus.

    Então, que caminho trilhar diante de duas vozes de Deus, diretamente contraditórias?

    Dilaceração cruel. Entretanto, inteiramente submisso à vontade divina, confiando contra toda confiança, ele se dispõe a casar com Nossa Senhora.

    Perplexidade das perplexidades

    Os dois cônjuges, levados por mútuo desejo de perfeição, revelam um ao outro seu propósito de manter a virgindade perpétua. Imensa alegria, profunda compreensão das duas almas, e o mistério se resolve.

    Por pouco tempo. Os meses passam e, num determinado dia, São José percebe que Nossa Senhora está esperando um filho. A dilaceração cruciante se lhe apresenta uma vez mais. Maria era tal que ele não podia duvidar de sua virtude. Mas, o fato era inegável, patente aos olhos de qualquer um. Como explicá-lo? Como não duvidar?

    São José não duvidou. Foi embora. Preparou-se para abandonar o lar, pois não lhe ocorria outra solução.

    Imagine quem possa a perplexidade na qual ele se abismava…

    Mas, tratava-se de um varão tão confiante nos desígnios divinos que, no pináculo do seu drama, decidiu fazer as coisas de modo racional. Uma vez que partiria para uma longa viagem sem destino certo, devia estar bem repousado e munido de suficientes provisões de água e comida. Talvez terá preparado um meio de transporte animal, além de uma série de providências, em que cada coisa era um estrangulamento de sua alma. Mas, um estrangulamento tão pacífico, tão sereno, tão repleto de confiança que adormeceu sobre isso.

    É interessante notar que o esposo castíssimo de Maria, embora se encontrasse na perplexidade das perplexidades, entretanto conseguia dormir. E quão mais belo o fato de ele ter dormido do que se permanecesse acordado, pois aquele terá sido dos sonos mais sublimes da História!

    Em sonhos, a revelação do anjo

    Com efeito, foi durante o repouso que ele recebeu em sonhos a revelação do anjo, anunciando-lhe que o Filho esperado pela Santíssima Virgem era o Verbo encarnado, concebido pelo Espírito Santo nas entranhas virginais de sua esposa.

    Dir-se-ia que essa revelação encerrava um fator de certeza menor do que o oferecido a Nossa Senhora durante a Anunciação, uma vez que uma aparição feita em sonho pode não passar de simples sonho. Porém, devemos crer que tal manifestação do Céu tenha sido acompanhada de elementos de persuasão interna, os quais racionalmente não permitiam qualquer dúvida.

    Assim, São José se tranquilizou, readquiriu a serenidade, não porque tivesse “tocado” no anjo (o qual, é claro, sendo puro espírito não pode ser apalpado), mas porque aquela explicação era talvez a única possível para o mistério diante do qual se achava. E esse homem de confiança heroica, deve ter feito o seguinte raciocínio: “Embora eu conheça as altíssimas virtudes de Maria, não tive a luz suficiente para imaginar que Ela fosse a Mãe de Deus. Porém, no sonho tudo se explicou, e agora vejo inteiramente confirmado tudo quanto me foi dado contemplar da personalidade d’Ela. Eis-me tranqüilo”.

    Então, pode-se dizer ter sido São José mais bem servido pelo fato de o anjo lhe aparecer “em sonhos” e não quando estivesse acordado. Porque, ao raciocinar daquele modo, ele fez um ato de fé extremamente belo e de incomparável louvor a Nossa Senhora.

    Encontro com a Santíssima Virgem após a aparição

    É-nos dado conjeturar que São José não tenha acordado com a aparição do anjo, mas permaneceu em repouso até a manhã seguinte. Quando despertou, estava todo impregnado pela suavidade e esplendor da revelação recebida.

    Como terá sido o primeiro encontro dele com Nossa Senhora depois desse fato?

    Quiçá, tivera Ela conhecimento das palavras do anjo a São José e não se surpreendeu quando este se apresentou para Lhe manifestar seu preito de amor e veneração à futura Mãe de Deus.

    Ambos se encontravam numa linda composição de situações. Admirando Nossa Senhora, São José pensava: “Eis minha esposa, tabernáculo de meu Deus”, e adorava o Verbo encarnado no seio puríssimo de Maria. Esta, por sua vez, durante a refeição, por exemplo, humildemente lhe perguntava se queria um pouco mais de ensopado…

    A partir de então, o que se depreendeu é algo de tanta beleza que ultrapassa nossa pobre capacidade imaginativa.

    Em meio às nossas incertezas, apelo a São José

    Recordo, ainda, outra perplexidade à qual São José, em companhia de Nossa Senhora, viu-se exposto: a perda do Menino Jesus em Jerusalém.

    São Lucas nos descreve o episódio, e da narração evangélica se conclui que Jesus não quis participar aos seus pais a decisão de permanecer na Cidade Santa. Resultado, Nossa Senhora e São José, aflitos, passaram três dias à procura do Menino, e finalmente o encontram no Templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os.

    Considere-se o contraste dessa situação. Maria e José estavam no auge do abatimento quando entraram no Templo e acharam Jesus. Este, já com o uso da sua inteligência, discutindo com os sábios, causando assombro e admiração ao seu redor. Nossa Senhora e São José O viram e a angústia se transformou em alegria, em júbilo. Tanto mais que ambos estavam certos da inocência e da retidão do Homem-Deus, o qual teria tomado aquela atitude movido por altos desígnios.

    Mas a perplexidade floresce na pergunta: “Filho, por que fizestes assim conosco?”

    Uma indagação sem desconfiança, de quem deseja ser ensinado por Jesus. São José sofreu com aquela provação, assim como Nossa Senhora, porém manteve a confiança inabalável nas superiores disposições de Deus.

    Creio não haver melhor modo de encerrar essas considerações senão recomendando que, em nossas dúvidas e perplexidades, quando nos sentirmos abalados na virtude da confiança, apelemos a São José, perfeito modelo de homem que soube confiar em meio às maiores provações.

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • PASSIO CHRISTI, CONFORTA ME

    Em outubro de 1944, Dr. Plinio começou a comentar, em sua coluna do “Legionário”, o plano pastoral do novo Arcebispo de São Paulo, destacando como dos mais  importantes o tópico sobre a caridade.

    “Atrair todos os elementos supracitados do Clero e da Ação Católica para a obra social e multifária da caridade cristã, em socorro de todas as necessidades físicas ou morais do nosso próximo, sem distinção de cor, de raça, de nacionalidade ou de classes”. É este um dos itens mais importantes do plano de ação do novo Arcebispo de São Paulo.

    Humildade e altivez cristãs

    “Socorro das necessidades físicas ou espirituais”: é bem este o conceito das obras de misericórdia que Nosso Senhor ensinou ao mundo, e que a Santa Igreja vem realizando  ininterruptamente através dos séculos. Todo o espírito da Igreja é feito de contrastes fecundos que se resolvem em uma divina harmonia. Durante a Idade Média, viajava  pela Europa um potentado muçulmano, feito prisioneiro pelos guerreiros feudais, defensores da Fé. Encontraram-no um dia muito pensativo, e aos que lhe indagaram o  motivo, respondeu: “Não posso  compreender como constroem monumentos tão altivos, esses homens tão humildes”.

    Almas humildes, construtoras de obras divinamente altivas, eis bem genuinamente representadas nesse traço as almas resgatadas pelo Precioso Sangue de Nosso Senhor  Jesus Cristo. Aparentemente, entre a humildade e a altivez, há uma contradição. O mundo pagão não compreendia essa contradição, e uma das acusações que os romanos  faziam aos mártires era precisamente que sua Religião glorificava a baixeza. Eles não sabiam que admirável sementeira de almas altivas eram aquelas escuras e misteriosas  catacumbas, em que patrícios e escravos, grandes e pequenos, se confundiam em torno dos altares, aprendendo de Jesus Cristo o segredo da humildade e da altivez de que Ele nos deu em sua vida terrena tão adoráveis exemplos.

    “Christianus alter Christus” (o cristão é um outro Cristo), e a humildade do cristão, ou a altivez do cristão, não é senão um reflexo da altivez e da humildade de Nosso Senhor  Jesus Cristo.

    Doçura e combatividade

    Outro contraste que o mundo não compreende, e que entretanto é tão harmônico e fecundo quanto o da altivez e da humildade do verdadeiro cristão, é o da doçura e da combatividade. Se o árabe de que falamos  observasse a vida dos Santos, esbarraria por certo neste mistério, e diria deles: “Não posso     compreender como almas tão pacíficas são tão belicosas, como almas tão belicosas podem ser tão pacíficas”. É que no catolicismo tudo é amor, e mesmo quando, por  necessidade, e imitando a Nosso Senhor, alguém empunha o látego que há de fustigar os erros do século, fá-lo por amor. Fá-lo por amor, e fá-lo com amor.

    A combatividade  cristã tem o sentido exclusivo de legítima defesa. Não há para ela outra possibilidade de ser legítima. É sempre o   amor de alguma coisa ofendida que move o cristão ao  combate. Todo combate é tanto mais vigoroso quanto mais alto for o amor com que se combate.

    E, por isso mesmo, não há, no católico, combatividade maior do que aquela com que ele luta pela defesa da Igreja ultrajada, negada, calcada aos pés. Por que combate ele?  Para defender os direitos das almas que se quer arrancar à Igreja. Para manter livres e desobstruídas as portas de acesso que devem permitir aos eleitos de Deus a    aproximação de sua Igreja. Para abater a insolência da impiedade, e para exaltar a Santa Madre Igreja.

    Para essas coisas é que se deve bater o católico. E, quando esgotados um a um, pacientemente, irremediavelmente, todos os meios pacíficos, o católico se ergue com o valor de um novo Macabeu, incendido em zelo pela Esposa de Cristo, ele bem pode dizer que em toda a sua combatividade só há uma coisa: amor.

    Abandonemos esse quadro e, em vez de olharmos para o guerreiro cristão, olhemos para a irmã de caridade. Ela que docemente se aproxima do leito em que agoniza um doente repugnante. É para ela um desconhecido, em que ela vê, entretanto, um membro do Corpo Místico de Cristo, que é a Santa Igreja Católica.

    E, por isso, aproxima-se dele cheia de sobrenatural ternura, desata os panos que ocultam a hediondez de suas chagas e recebe em pleno rosto, mais forte do que nunca, o  odor terrível das carnes em putrefação. No rosto da irmã de caridade a impassibilidade é completa. Ela olha para as chagas como se fossem pérolas, respira o odor da  podridão como se fosse um perfume.

    Sabe Deus que terríveis repugnâncias ela está esmagando em seu interior, e que luta tenaz, violenta, titânica ela tem de desenvolver para não abandonar o lugar de sacrifício em que Nosso Senhor Jesus Cristo a quer! Quanto amor! dirão os que atentarem apenas para a placidez de seu semblante e de seus gestos. Quanta combatividade! dirão os que forem mais penetrantes e desvendarem o tumulto da luta interior diante da qual a Religião não cede. Quanto amor nessa combatividade! Quanta combatividade nesse amor!

    Combatividade e amor, se o mundo contemporâneo pudesse compreender como se harmonizam essas virtudes, como é preciso amar até o que se combate… e combater com as duas mãos até o que, por vezes, se ama ternamente por mais de um título justo, como estaria diversa a face da terra!

    É para as santas pugnas da caridade cristã, pugnas interiores que aumentem em nós os mananciais de amor, pugnas exteriores, vitórias tanto mais jubilosas quanto mais  pacíficas, porque Cristo é o Rei da Paz, mas em todo caso vitórias que não desdouram com a energia e não perdem seu lustre se a luta aberta tiver sido o único meio para as  conseguir — é para as santas pugnas da caridade cristã que nosso Arcebispo nos conclama.

    Olhando de longe para seu rebanho espiritual, Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota tem palavras de ternura e compaixão que são um eco da exclamação divina:  “Misereor  super turbam” — tenho pena desta multidão. E com que razão! Pio XII, na alocução magistral que recentemente publicamos, diz que é preciso ter um heroísmo   comparável ao dos mártires, para praticar com fidelidade e esmero a Religião em nossos dias. Assim, pois, as grandes cidades modernas são verdadeiros lugares de luta e  tormenta para os “christifideles” (fiéis cristãos) de nossos dias.

    No luxo dos salões aristocráticos, no conforto dos ambientes burgueses, na calma das classes pequeno-burguesas, na simplicidade das camadas operárias, na crua indigência  das classes pobres, em tudo isso se ocultam hoje terríveis tentações, cuja vitória custa e custa muito, custa sofrimento espiritual que é o sangue de alma. É preciso correr,  voar em auxílio dessas almas que sofrem para se manterem fiéis a Nosso Senhor ou para se aproximarem d’Ele. Toda demora é uma derrota, nesta tarefa, e toda negligência um crime. Por isso, Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota conclama uma verdadeira cruzada para a salvação de tantas almas aflitas em nossos dias.

    Socorrer sobretudo os inocentes que sofrem

    Mas isso não basta. Não basta fazer aceitar às almas o jugo duro e suave da moral cristã. É preciso ainda consolar os que sofrem  misérias físicas de toda a ordem.

    Para que relembrar o quadro doloroso que temos sempre diante dos olhos, os hospitais repletos que rejeitam doentes por falta de espaço, as pessoas doentes que definham por falta de dinheiro para a aquisição de remédios caríssimos, as pessoas sãs que vão imergindo lentamente no estado de doença por excesso de trabalho, necessário para a manutenção da família, ou por falta de alimentação?

    Por que relembrar com terror as inúmeras pessoas que, sem Fé nem horizontes  espirituais, arrastam na sombra de suas casas ou premidas nas paredes dos hospitais uma vida de desespero e de revolta? Tudo isso corta por demais o coração, e tudo isso ainda não é tudo. Existe o problema da infância, da infância inocente, da infância promissora, da infância que o ambiente deletério das grandes cidades torna tão cedo miserável e pecadora.

    Como bem acentua nosso novo Arcebispo, muito já se tem feito entre nós nesse sentido. A Cidade dos Menores da Liga das Senhoras Católicas é simplesmente uma  maravilha. Mas… quanto ainda há por fazer! E se de todos temos pena, que especialíssimo lugar ocupa em nosso coração a infância, que Jesus Cristo tão entranhadamente  amou!

    É necessária a caridade cristã

    É preciso muita caridade. Mas as palavras de nosso Arcebispo são muito  nítidas: do que precisamos é de  caridade cristã, e não simplesmente e uma filantropia qualquer. Por quê? Simplesmente porque sem a Igreja de Jesus Cristo não há caridade verdadeira. Não negamos que possa haver almas que vivem fora da Igreja, em nossa civilização  atual, e que fazem bem ao próximo.

    Elas possuíram a Fé, e essa Fé que perderam deixou nelas um vago perfume, como o que fica no vaso de que retiramos as rosas. São  essas as palavras do grande Pio X. Mas, de fato, a caridade ou é cristã ou não existe. […] E, no catolicismo, qual o maior foco da caridade? A contemplação da Paixão de  Nosso Senhor Jesus Cristo.

    É na meditação minuciosa do que sofreu o “Homem das Dores”, é na rememoração afetuosa e constante daquele em quem “do alto da cabeça até a planta dos pés não havia  um só lugar que fosse são”, é tendo diante dos nossos olhos dia e noite aquele que, sob a mão violenta de seus adversários, foi desfigurado a ponto de ser “um verme e não  um homem, o opróbrio dos homens e o escárnio do povo”, que nosso coração se dilata para a comiseração para com os próximos.

    Revendo em todo o sofrimento um sofrimento do próprio Cristo, em toda a chaga, uma chaga de Cristo, remediando todo sofrimento, curando toda chaga como se  debruçássemos nossa alma amorosa sobre tanta dor, como se aplicássemos com nossos próprios dedos à chaga de Cristo o bálsamo confortador, é com este meio que  verdadeiramente teremos a virtude da caridade.

    Narra a História que antes de Cristo não havia hospitais nem instituições de caridade. Foi uma católica, Fabíola, quem fundou o primeiro hospital. De lá para cá, quantas  obras de caridade se têm fundado! De onde nasceram? Das chagas santíssimas de Nosso Senhor Jesus Cristo pregado na cruz. Foi da Paixão de Cristo que nasceu o  reconforto de tantas criaturas sofredoras.

    Mas não é só. O melhor bálsamo para as dores humanas não é o remédio, é a compaixão. Compaixão, “com paixão”, é o sofrimento em união com o próximo, só porque o  próximo sofre. É o reflexo dos sofrimentos alheios em nossa própria alma. Como fazer brotar do coração humano, tão frio, tão duro, tão egoístico, a flor da compaixão?

    Pela meditação da Paixão de Cristo. As almas saturadas dessa meditação sabem verdadeiramente condoer-se do próximo. Só elas têm em seus gestos bastante ternura, em  sua voz bastante sinceridade, em seu procedimento bastante discrição, para instilar na alma sofredora do próximo o remédio inigualável da compaixão.

    Se, da Paixão de Cristo, brota a misericórdia, brotam as obras de misericórdia, brota a consolação, que jaculatória mais adequada para todos os que se aprestam a atender à grande mobilização da misericórdia cristã que Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota promoverá, senão esta: “Passio Christi, conforta me” (Paixão de Cristo, confortai- me)?

    Plinio Corrêa de Oliveira (Transcrito do “Legionário”, 22/10/1944. Subtítulos nossos.)

  • Homens-torre!

    Uma bela torre medieval posta ao lado de um simples edifício tem a capacidade de ressaltar a beleza e aumentar a importância deste. Dr. Plinio, com agudo senso de reversibilidades, transpõe este princípio para o papel de certos homens na História.

    Não raras vezes, encontramo-nos enlevados ao considerar os admiráveis monumentos da arquitetura gótica como, por exemplo, uma torre audaciosa e imponente de uma catedral ou de um castelo.

    Há um princípio peculiar que, aplicado nessas circunstâncias, resulta infalível: qualquer coisa posta em torno destas altaneiras edificações, por pouco de beleza que possua, parece tomar um esplendor incomum, ainda que seja em algo desproporcionado ao monumento que a sustenta.

    A beleza de uma torre está ligada a vários fatores: as proporções entre a largura e a altura, o tamanho de sua base e a maneira de seu acabamento. Quando essas proporções estão harmonizadas entre si, há uma bela torre. Sobretudo quando ela é feita de um material valioso, como o granito, de pedras resistentes e duradouras, então a torre lucra ainda mais em esplendor.

    Imaginemos a imensa torre de uma catedral em construção. Apenas a torre está inteiramente terminada, o restante da construção ainda está por se fazer e, por isso, quase não há nada edificado a sua volta. Entretanto, uma primeira capela pequenina, esboço da futura construção imponente, levanta-se como que aconchegada junto à torre.

    Embora a torre seja enorme em relação à pequena capela, existe um jogo de proporções pelo qual a capelinha fica encantadora, apoiada na torre monumental: é o esplendor da desproporção!

    Podíamos também imaginar uma construção de tamanho médio, a qual tivesse alguma proporção com a torre e, de algum modo, a complementasse. Este edifício, caso não houvesse a torre, seria comum, mas porque está ao lado de um torreão imponente, adquire uma beleza e um encanto próprios. A torre é que o realça, mas, de certa forma, ele também realça a torre.

    Tomado um elemento muito belo, por menor que seja a beleza dos outros que o circundam, o primeiro espalha em torno de si a sua grandiosidade.

    ***

    O que se dá com torres na arquitetura, dá-se também na História com personagens. Aparecem na História certos homens que são como torres. Alguns são esguios e se elevam com finura, inteligência e subtileza, como minaretes. Outros, pelo contrário, são atarracados e fortes, parecendo garras que se elevam até ao Céu. Outros, ainda, são proporcionados, nobres, equilibrados e parecem marcar a cadência dos tempos e a ordem das coisas, como o Imperador Carlos Magno.

    O Grande Carlos é a grande torre a partir da qual se construiu toda a muralha do Ocidente Cristão. Respeitado por todos os homens — até por aqueles que o odiavam —, ele realçou as qualidades de seus súditos. Roland, Olivier, Turpin… tantos outros, foram tudo quanto lhes coube ser porque estavam juntos dele. É verdade que a glória dele se enriqueceu com os feitos de seus homens. Contudo, o que ele proporcionou aos seus foi muito mais do que aquilo que recebeu deles. Ele não é célebre por causa dos outros, mas os outros são célebres por causa dele. E dele se irradia uma determinada luz que cobre o seu século e o seu entourage com esplendor.

    Pode-se dizer, em nível mais modesto, que há grandes personagens que aparecem na História de um povo, dos quais se tem impressão que todas as forças vivas da nação concorreram para produzir aquela figura; porém, quando passar a sua época, a nação entrará num período de “cansaço”, tal foi o esforço empregado para acompanhá-la. Durante algum tempo, a nação viverá agradavelmente da glória do passado. Até que — sendo uma nação amada por Deus — apareçam novamente personagens marcantes. Na esfera sobrenatural isto também ocorre: em determinado lugar, a Providência suscita repentinamente um santo. Este se ergue admiravelmente como padrão de perfeição espiritual para determinada época; ele, como que, personifica a virtude de sua era.

    Isto de tal maneira é assim que, quando entra em cena alguém que teve um contato especial com um destes santos, as pessoas dirão: “Ele foi discípulo de São tal”, ou então, “a este, São Fulano tocou com a mão na cabeça quando era pequeno”. São repercussões e ressonâncias daquela santidade que se multiplicam pelos tempos, fazendo com que as figuras ou as recordações religiosas mais augustas fiquem interligadas àquela marcante figura.

    Assim são os personagens capazes de personificar torres. São construções seguras nas quais os homens de sua época podem apoiar-se, tomando-os como guias seguros e fortes.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 21/12/1984)