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  • Verdades diminuídas e virtudes amesquinhadas

    Esquecidos de que o Catolicismo é a única escola do perfeito e completo heroísmo, que sobrenaturaliza e santifica a personalidade inteira do indivíduo, e implica em uma imolação total de si mesmo tendo em vista uma finalidade superior, muitos católicos chegaram a ter uma visão diminuída das verdades de sua própria Religião. Verdades que, em lugar de serem tidas por seus venturosos adeptos como um meio de triunfo espiritual sobre o pecado, a concupiscência e o erro, pesam duramente como se fossem onerosas correntes de cativeiro moral, dolorosos instrumentos de suplício, cujo portador tudo faz por atenuar seu peso e amesquinhar seu volume, diminuindo assim esse ônus que, entretanto, longe de ser um fardo cruel, um estigma de cativeiro, é na realidade um salva-vidas sem cujo auxílio o homem não subsiste na vida espiritual.

    Ocupa lugar de destaque nessa triste galeria de verdades diminuídas, de virtudes amesquinhadas, de sofismas interiores mais ou menos conscientes e covardes a noção que habitualmente se tem de “bondade”.

    Segundo a opinião corrente, o que é uma pessoa boa? A Moral, para a grande maioria de nossos contemporâneos, varia quase completamente segundo a situação de cada qual e, não raras vezes, o que em uma senhora seria tido como imperativo preceito de Moral, em um moço parecerá ridículo e desprezível defeito.

    A bondade, pois, segundo esses censuráveis conceitos, varia conforme o sexo e a idade. Não há, talvez, expressão de que tão frequentemente se abuse quanto a de “bom rapaz”. Verificando-se a que série incontável de indivíduos ela é dada, fazendo-se o levantamento dos defeitos que um rapaz pode ter, sem por isso deixar de ser “bom” segundo a opinião corrente, comprova-se que, desde que ele não tenha matado, ferido ou espancado gravemente alguém, desde que não tenha roubado pelo processo do arrombamento, é qualificado de bom. Pode esse rapaz esbanjar criminosamente sua mocidade arrastando-a pelos mais miseráveis antros da cidade, ter os vícios mais lamentáveis, praticar as mais censuráveis leviandades no terreno sentimental, como seja alimentar esperanças e provocar decepções, movido apenas pela vaidade e pelo capricho, tudo isso será considerado muito engraçado, típico de um jovem que não queira passar por inteiramente desinteressante.

    Evidentemente, segundo essas abomináveis regras de Moral, há restrições a estabelecer. Um moço que contraia imprudentemente um noivado com o intuito de jamais cumprir sua promessa de casamento fará uma coisa muito engraçada. Mas se a vítima da aventura, ao invés de ser uma pessoa estranha aos adeptos dessa singular Moral, for uma filha, irmã ou parente, tudo isso passará a ser qualificado infalivelmente de genuína crapulice. Um rapaz que, a título de “rapaziada”, arme um “rolo”, fará algo de muito divertido. Mas se, durante o “rolo” ferir alguém gravemente, e por isso andar às voltas com a polícia, deixará de ser tido como um “bom rapaz” para ser um “indivíduo que até tem ficha na polícia”. Em última análise, tudo isso reverte em uma adoração do êxito.

    Tudo aquilo que não teve mau êxito será desculpável, por pior que seja. Tudo o que não fere os interesses pessoais é jocoso e interessante. Tudo o que os fira será censurável e digno de condenação.

    Um homem vai ao altar, jura manter uma fidelidade plena à sua esposa, depois rompe o compromisso assumido, por um ato libérrimo de sua vontade. Contra esse homem só existe a reprovação dos parentes de sua esposa, os quais acham muito natural que outros façam o mesmo com pessoas que lhes são perfeitamente estranhas.

    Vê-se como a Moral mundana é inteiramente vã, representando apenas a sobrevivência de alguns vagos princípios da Moral católica(*).

    Plinio Corrêa de Oliveira
    Revista Dr Plinio 256 (Julho de 2019)

    * Cf. Bondade. Em O Legionário n. 463, 27/7/1941.

     

  • Roma sparita

    A Roma dos Papas não tinha a monotonia das grandes cidades modernas, mas possuía muita fisionomia, porque as pessoas, ao fazerem suas residências, comunicavam-lhes seu caráter, seu modo de ser, com o pitoresco que causa o sorriso.

     

    Vou expor o que era a Roma papal, para termos um pouco a ideia de que tipo de cidade se tratava, e depois iremos considerar algumas fotografias selecionadas de um álbum chamado “Roma sparita”, ou seja, “Roma desaparecida”. Quer dizer, a Roma papal que foi demolida pelas reformas nela introduzidas pela Casa de Sabóia, a qual unificou a Península Italiana e se tornou a única dominadora da Cidade de Roma, onde estabeleceu a sua capital, transformando-a, de cidade antiga que era, numa grande cidade do tipo moderno.

    Cidade não planejada, com muita fisionomia

    O que vem a ser a Roma do tempo dos Papas? É, ao mesmo tempo, uma Roma medieval com todas as características da vida medieval, um tanto reformada no tempo do período do “Ancien Régime”(1), e uma cidade eminentemente eclesiástica.

    Quando falo de uma cidade medieval, o que eu quero indicar? Era uma cidade raras vezes planejada de antemão. Por exemplo, se tomarmos, em São Paulo, o bairro Higienópolis, perceberemos que o traçado das ruas não foi espontâneo: as casas não foram se acrescentando umas às outras normalmente, mas houve uma empresa que planejou e fez o loteamento do bairro, devido ao qual todas as ruas são em linha reta e se cortam em ângulo reto, fazendo do bairro uma espécie de tabuleiro de xadrez. O mesmo se poderia dizer do bairro do Pacaembu, que foi urbanizado por uma grande empresa norte-americana.

    Na época em que o Pacaembu foi urbanizado, o urbanismo tipo Higienópolis estava fora de moda. Tinha-se considerado que as avenidas retilíneas, cortando-se em ângulo reto e formando quarteirões quadrados, eram monótonas. Então fizeram zigue-zagues e curvas no Pacaembu, que existem também em outros bairros de São Paulo: Pinheiros, Jardim América, Jardim Europa, em que não se usa mais a linha reta, mas as grandes curvas macias.

    Porém o que nos interessa no momento é o fato de que as ruas não foram feitas por cada morador, que colocou sua casa onde queria, portanto, um pouco mais recuada da rua, ou um pouco mais para a frente, e dando à via pública um gráfico todo casual, fortuito; aquilo foi planejado de antemão.

    Também as construções eram menos planejadas do que se tornaram depois. Uma família construía uma casa; nascia um filho, mandava construir um quarto no teto da residência; nascia outro filho, colocava dois quartos. De repente um velho, que morava num quarto da casa, começava a ter reumatismo: abria-se uma janela no lugar onde devia entrar sol para o ancião se aquecer. Não se incomodavam em saber se a casa ficava simétrica ou assimétrica, bonita ou feia. Era uma necessidade do velho para não ficar reumático. O idoso ficava muito pouco consolado com a ideia de sentir seu reumatismo, para evitar que quem passasse fora achasse feia a janela que ele ia abrir. Ele queria o sol sobre a perna ou o braço doente. Quer dizer, circunstâncias imprevistas foram formando essas cidades.

    Por causa disso, elas não tiveram a monotonia das grandes cidades modernas e possuíam muita fisionomia: porque as pessoas que iam fazendo essas construções imprevistas comunicavam seu caráter, seu modo de ser, sua fisionomia às casas que estavam sendo construídas.

    De onde Roma, como todas as cidades desse tipo, era uma cidade com fisionomia. A esse dote de ter fisionomia, nós poderíamos chamar, em certo sentido, de pitoresco. O pitoresco é a fisionomia quando, pelo imprevisto, ela faz sorrir um pouco.

    O Panteon e o túmulo de Adriano

    Há outra coisa que se acrescentava à Roma: ela era uma cidade velhíssima, nascida mitologicamente de Rômulo e Remo. Portanto, uns sete, oito séculos antes de Jesus Cristo. E com aquele senso de conservação existente na Europa, do qual nós, brasileiros, não temos uma ideia. Até hoje certos prédios do tempo dos remotos romanos são utilizados para uso comum. O Panteon de Roma era o templo onde adoravam todos os deuses gentílicos antigos. E, para a Roma de antigamente, era uma igreja bem grande. O Panteon esteve franqueado ao culto pagão até o momento em que Constantino mandou fechá-lo. Quando o Imperador deu a ordem de fechar, não pensem que, à moderna, derrubaram o Panteon; ele mandou instalar uma igreja católica ali. E o Panteon é hoje uma paróquia. As pessoas se casam, são batizadas, confessam-se lá, e a igreja funciona como qualquer outra. Ali, há séculos, Júpiter era adorado, e agora é adorado Nosso Senhor Jesus Cristo. E o prédio ainda se conserva.

    A sepultura do Imperador Adriano foi aproveitada: é uma torre cilíndrica de pouca altura e imenso diâmetro. Foi utilizada, durante a Idade Média, para fortaleza. Depois, uma parte dessa fortaleza foi aproveitada para palácio. O túmulo de Adriano não existe mais. Mas podem-se visitar as muralhas da fortaleza e o palácio, que agora é museu. De maneira que houve a seguinte mutação: de sepultura de Adriano para fortaleza, de fortaleza para palácio, de palácio a museu.

    Em Roma havia mais de 400 igrejas

    Vejamos, agora, as fotografias.

    Eis um pórtico, um arco numa rua no gueto de Roma. A rua existe para uma casa que está em cima.

    Ali, uma rua popular, com a roupa lavada, estendida e gotejando em cima de quem passa; duas velhas comentam qualquer coisa. É a pequena vida caseira que sai da casa e se espraia pela rua afora. Reconheçamos que é bem diferente da Avenida Paulista(2).

    Observem um recanto da velha Roma. Uma casa, o alinhamento caprichoso da rua, uma bonita torre no meio de casarões velhos, que eu quase chamaria leprosos. Um dossel sobre a imagem talvez de Nossa Senhora com o Menino Jesus. Nichos com imagens de Santos assim eram frequentes na Roma daquele tempo.

    Vejam a escadaria que perfura uma casa a qual já foi construída assim. A rua é uma escadaria que passa no meio da velha casa, sem eira nem beira, tem um bonito balcão de alguma família nobre ou rica que mora aqui. E isso é uma coisa muito comum até hoje na Itália. Metade da casa é cortiço, a outra metade é um palácio de nobres.

    Duas irmãs da Caridade de São Vicente de Paulo, com seus lindos chapéus bretões, andando numa espécie de praça de terra, sem calçamento, da velha Roma, com uma magnífica palmeira se espraiando suavemente no clima romano. Uma nobre torre antiga e mais adiante outra torre. Roma era uma cidade com mais de 400 igrejas.

    Cidade das fontes

    Esse terreno foi rebaixado para a construção das casas. Mas aqui, por qualquer razão, o dono não quis que rebaixasse e ficou alto. E permaneceu a árvore que se eleva de modo pitoresco aqui. Um muro, uma água parada e uma bela igreja ao fundo.

    Pormenor da vida do tempo: um cachorro, que procura comida pela rua. É um cão sem dono, na infeliz situação dos cachorros sem dono.

    Uma senhora conduzindo o filho para passear. A criança está vendo o cachorro, mas ela está tocando uma espécie de corneta para ver o que o cão faz. Manifestação musical do gênero italiano. O cachorro é utilitário e está se preocupando exclusivamente com a comida. Não liga para nada.

    Aqui o reboco da casa caiu, mas ela pode durar mais mil anos. Não pensem que a escada é para escorar a casa; está encostada do lado de fora para qualquer coisa. Um cavalo bem lustroso e bonito, uma porta com um nobre arco, um pátio cimentado de pedras, mas sem qualquer regularidade.

    Outra viela romana. Nas cidades medievais as ruas eram muito estreitas para caber tudo dentro das muralhas. A iluminação pública já havia começado. Aqui há um poste com iluminação a gás, que era o grande progresso do momento. Também significava progresso a placa com o nome da rua.

    Está chovendo, duas senhoras passam abrigadas num guarda-chuva insuficiente, e aqui há uma comerciante oferecendo algum produto. Notem a desigualdade do solo, como é tudo feito mais ou menos ao acaso.

    Isso não se vê de jeito nenhum em rua moderna: um arco comunicando uma casa com a outra. Eu não sei por que se condena isso, que é uma coisa que pode prestar muito serviço.

    Uma bela torre. Está mal cuidada e velha, mas é nobre como uma velha marquesa que conserva sua nobreza, apesar de todas as devastações do tempo e do dinheiro.

    Numa praça pública, um homem dança, e outro não presta atenção na dança. Esse aqui parece um aleijado apoiado num bordão, e vai andando com uma sacola e uma caixa de música. Essas cidades eram todas muito musicais. Cantava-se, tocava-se violino, dançava-se mais ou menos em todos os lugares e ouvia-se música sair de todas as janelas, com a voz bonita e o senso melódico tão frequente na Itália.

    Cena pitoresca mais uma vez. O burrico puxado pelo homem, carregado, que vai devagarzinho pela cidade. Provavelmente um vendedor ambulante.

    Aqui, uma como que pequena coluna, e dali brota água. Roma é a cidade das fontes, em geral com água muito límpida, muito boa.

    Significado da palavra ”pitoresco”

    Uma torre que foi fortaleza durante a Idade Média. Tudo caiu, mas ao lado foi construído um pitoresco jardim suspenso. Um dos pitorescos em Roma são os terraços como esse, onde se colocam guarda-sóis grandes e há restaurantes no local. Um homem toca violino para os que comem e bebem, e ficam olhando o movimento da rua, onde se vê um monge dominicano atravessando-a. A cidade dos Papas era a cidade dos frades.

    Esse menino tem um lado pitoresco. É um menino de rua que não teve nenhuma educação e, portanto, está deitado na carroça como estaria em sua casa. Se ele estivesse de bruços na cama, tentando pegar um rato no quarto dele, sua atitude não seria diferente. Apesar disso, o gesto todo dele não deixa de ter certa harmonia e muita naturalidade. Não é um gesto feio. Tem certa harmonia de posição e de atitude, e a naturalidade de uma pessoa que se sente completamente à vontade na cidade. É a cidade dele, feita para ele, na qual ele está em casa como em sua residência particular.

    Esse inteiro “laissez faire”(3) faz parte do pitoresco da atitude do menino. Alguém diria que isso não deveria ser assim, e que ele não é um menino educado. Não é verdade. A educação tem vários graus. Ele possui essa forma principal e mínima de educação, que é a virtude. Ele está composto, direito, porque é um menino que teve uma educação pura. A pureza é o principal da educação, e não as maneiras. Maneiras ele não tem, mas possui a compostura do menino direito. É o essencial.

    A ideia que eu tenho de pitoresco é imaginar morando ali gente que são os pais e tios desse menino e desse outro que está atrás. Talvez esse casal e esses dois homens sejam moradores aqui. E gente do povinho, inteligente como é habitualmente o italiano, gente que mora nos casebres, mas que se pôs numa situação muito pitoresca: tendo sempre diante dos olhos esse templo, a torre e o Tibre milenários, e que presencia tudo isso como de um terraço. O cenário é magnífico: encostado num templo pagão, uma torre do fim da Idade Média, olhando o rio romano passar como quem vê a vida fluir com toda a navegação do Tibre.

    Isso é pitoresco porque forma quadros. A palavra “pitoresco” vem de pintura: “pictus”, pintado. O pitoresco está no homem do povinho, com sua inteligência, sua vivacidade, inalando tudo isso sem saber bem o que é, e vivendo aqui à romana. Quer dizer, à noite, fazendo um jantar entre o parapeito e a casa, comendo uma polenta, bebendo vinho quente e tocando num instrumento de corda que talvez tenha uma corda ou duas a menos, e cantando a plena voz numa noite enluarada de Roma. Isso é pitoresco.  v

     

    (Continua no próximo número)

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 29/1/1977)

    Revista Dr Plinio 207 (Junho de 2015)

     

    1) Do francês: Antigo Regime. Sistema social e político aristocrático em vigor na França entre os séculos XVI e XVIII.

    2) Extensa via pública localizada entre as zonas centro-sul, central e oeste da cidade de São Paulo.

    3) Do francês: deixai fazer. Aqui tem o sentido de distender-se.

  • Oração: Mãe também dos pecadores

    Ó Deus, infinitamente bom e justo, tendes o direito de estar irado contra mim, que tanta ofensa Vos fiz. Entretanto, vossa Mãe é também a minha, e Ela conserva para comigo solicitudes, cuidados e paciências que todas as verdadeiras mães têm para com seus filhos. E nesta incansável misericórdia de Maria, tenho eu posto todas as minhas esperanças. Sede, pois, ó Senhor, paciente para comigo, porque assim o é vossa Santíssima Mãe!

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 22/4/1992)

  • Elo entre o Céu e a Terra

    “Meu último pensamento seja de amor ao Papa”. Esta é a frase acrescida por Dr. Plinio — de próprio punho — em sua carteira de identidade católica.

    Um dos principais pilares de sua espiritualidade era, sem dúvida, a profunda devoção que nutria em relação à Cátedra de Pedro, na pessoa do Romano Pontífice.

    Esta devoção tornou-se de tal modo manifesta no decorrer de sua vida, que não seria dificultoso reunir um incontável número de páginas contendo considerações repletas de Fé e submissão acerca do Santo Padre, o Doce Cristo na Terra.

    Por ocasião do dia do Papa — 29 de junho —, homenageando tão edificante devoção, Dr. Plinio traz em seu editorial excertos de conferências proferidas pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, nas quais ele manifesta seu entranhado amor ao Papado:

    “Já em minha infância, eu percebia que deveria haver uma autoridade infalível, a qual ensinasse a todos, pois, caso isso não fosse assim, não haveria possibilidade de as pessoas pensarem do mesmo modo, e a vida seria um caos, indigna de ser vivida. Então nasceu em mim uma pujante veneração ao Papado e, consequentemente, ao Episcopado e aos outros graus da Hierarquia”.

    Assim se manifestaria ele, dois anos mais tarde: “Tão grande é a fragilidade humana, que, inevitavelmente, cairíamos em erro, caso não houvesse um mestre infalível, o qual nos ensinasse toda a verdade.

    “Imaginemos uma cidade com milhares de habitantes, onde cada um possuísse ao menos um relógio. Nesta cidade haveria milhares de relógios. De nada serviriam esses relógios caso não houvesse um relógio posto por Deus, chamado sol, pelo qual os homens pudessem saber a hora certa.

    “Ora, à semelhança do sol que regra as horas, há um homem que, em matéria de fé e moral, não cai em erro. Este é o Santo Padre; de seus lábios abençoados só pode sair a verdade. Ele é o ‘relógio’ que regula a Humanidade; o Bispo dos bispos; o pastor dos pastores; o Rei da Igreja e de todas as almas. É a mais alta criatura que há na Terra. Não há rei, não há imperador, não há presidente da república, não há milhardário, não há nada, que valha tanto quanto o homem a quem Deus garantiu: ‘As portas do inferno não prevalecerão contra ti. Pedro tu és pedra e sobre essa pedra edificarei a minha Igreja’.

    “Assim sendo, nós devemos ser cuidadosíssimos em amar o Papado acima de todas as coisas da Terra.

    “Sem o Papado, a Terra seria um antro de confusão, de desordem e de horror.”

    Com o decorrer dos anos, tal amor ao Papa evidenciou-se cada vez mais, como se pode verificar nas seguintes palavras de Dr. Plinio:

    “Não é com meu entusiasmo dos tempos de jovem que eu me coloco hoje ante a Santa Sé. É com um entusiasmo ainda muito maior, pois à medida que vou vivendo, refletindo e ganhando experiência, compreendo e amo mais ao Papa e ao Papado.

    “E este amor não é abstrato. Ele inclui um especial amor à pessoa sacrossanta do Papa, seja ele o de ontem, como o de hoje ou o de amanhã. Amor de veneração, amor de obediência.

    “Insisto: amor de obediência. Pois desejo dar a cada ensinamento deste Papa, como de seus antecessores e sucessores, toda a adesão que a doutrina da Igreja me prescreve, tendo por infalível o que ela manda ter por infalível, e por falível o que ela ensina que é falível. Quero obedecer às ordens deste ou de qualquer outro Papa em toda a medida que a Igreja indica que sejam obedecidos. Isto é, não lhes sobrepondo jamais minha vontade pessoal, nem a força de qualquer poder terreno.”

    O corolário dessa profunda devoção, cultivada cuidadosamente durante sua existência, foram as tocantes afirmações de Dr. Plinio, pronunciadas exatamente três meses antes de sua morte: 

    “O mesmo amor que devoto a Nossa Senhora e a Nosso Senhor Jesus Cristo, também o possuo em relação ao Papado. Pois há um princípio segundo o qual uma corrente vale conforme seu elo mais fraco. Poderá uma corrente ter cem elos, cada um deles com o diâmetro do braço de um atleta, mas estarem presos a um outro elo muito delicado, essa corrente tem o valor do elo frágil.

    “Ora, na corrente da tríplice devoção à Santíssima Trindade, à Maria e ao Papado, o elo mais frágil é o Papado, por ser o mais humano. Então, o modo mais vigoroso de amar a corrente inteira é oscular o elo mais fraco.

    “Ao dedicar meu inteiro amor ao Papado, meu ato toma o sentido de quem replica ao adversário: ‘Vocês estão recriminando tais e tais debilidades do Papado. Pois ali vai meu ósculo, ali vai minha fidelidade.’

    “Onde a infidelidade de alguns poderia tentar a fidelidade dos fiéis em sua totalidade, eu quero pôr a minha fidelidade inteira.”

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • Santa Clotilde, uma admirável flor-de-lis

    Segundo uma poética lenda, as armas do Rei Clóvis eram simbolizadas por figuras de sapos; quando ele e seus francos foram batizados, tais símbolos se transformaram em flores de lis. Bela imagem que poderia resumir a história de Santa Clotilde, cujo exemplo de virtudes fez despontar a aurora da santidade no Reino franco.

     

    A respeito de Santa Clotilde, Pourrat, no livro “Saints de France”, diz o seguinte:

    Santa Clotilde era princesa burgúndia, tendo visto toda a sua família assassinada por seu tio Gondebaud, que poupou somente Clotilde e sua irmã, tendo feito educá-las na religião católica, embora fosse ele ariano. Clóvis, Rei dos francos, tendo ouvido falar da beleza e virtudes da princesa, pediu-a em casamento ao tio. Não a obtendo, dirigiu-se diretamente a Clotilde, enviando-lhe seu anel real como penhor, através de um emissário. Clotilde aceitou.

    Embora se tratando de um pagão, e temendo então magoá-lo, Gondebaud permitiu o noivado. Casando-se com Clóvis, a princesa tudo fez para sua conversão. Nada obteve de início, pois seus filhos morriam logo após o Batismo e Clóvis atribuía o fato ao Sacramento. Clotilde rezava e penitenciava-se, até que raiou o dia da vitória de Tolbiac, quando o Rei franco, vencedor, fez-se batizar com seus soldados por São Remígio. Estava fundado o primeiro reino católico europeu. […]

    Santa Clotilde, sem dúvida, recebeu uma missão especial: ela tudo transformou. Uma lenda comum em Estrasburgo conta que no dia do Batismo dos francos, em Reims, um Anjo trouxe a Clotilde as armas do novo reino: as de Clóvis eram três sapos, que se transformaram em três flores de lis.

    O valor das lendas maravilhosas

    Notamos aqui mais uma manifestação do maravilhoso medieval. As armas do Rei pagão eram três sapos, mas, ao receber ele o Batismo, tornaram-se flores de lis. É a ação da Igreja, tocando o que é natural e decaído e transformando-o.

    Não encontro imagem mais bonita para o “Grand Retour”, que deve ter lugar por ocasião dos acontecimentos previstos em Fátima, do que essa de sapos que se transformam em flores de lis. A Bíblia fala de transformação das pedras em filhos de Abraão, que é uma coisa linda, mas esta é muito poética e bonita.

    Pode-se imaginar um sapo — com aquela pele rugosa, aquele aspecto horrível dos pântanos, aquela suficiência cafajeste, aquela falta de respiração dando ideia de sua avidez — que se transforma e se torna um lírio maravilhoso. Esta é a transformação que as almas, por ocasião do Reino de Maria, devem sofrer.

    Aí está o valor das lendas e do maravilhoso: às vezes, dizem muito mais do que um acontecimento autenticamente histórico. Toda a história de Santa Clotilde pode basear-se nisto: transformação de sapos em flores de lis.

    Alto senso católico

    Ela era de um meio ariano. Católica, casou-se com um rei pagão.

    Os bárbaros que invadiram a Europa nos séculos IV e V eram arianos que tinham ódio ao nome católico. Eles haviam sido pervertidos, na passagem do paganismo para o arianismo, por um bispo ariano, Úlfilas, que percorrera as regiões dos bárbaros. Portanto, a invasão dos bárbaros foi a dos hereges arianos, que já tinham atormentado de todos os modos o Império Romano do Oriente e o Império Romano do Ocidente. Este foi o sentido fundamental dos acontecimentos.

    Com a invasão da Europa, um dos antigos reinos, que decorreu da ocupação realizada na antiga colônia romana da Gália, foi o borguinhão. O Rei dos borguinhões se tornara ariano. Era irmão do antigo monarca católico, o qual ele havia destituído, e se proclamou rei. Tinha uma sobrinha, filha do Rei católico deposto e morto, mantida por ele na corte como uma espécie de “Gata Borralheira”. Tudo leva a crer que existia entre os borguinhões um partido católico, o qual olhava para essa sobrinha com esperança.

    De outro lado havia Clóvis, que era um pagão, mas adotou a causa da Igreja em toda a Gália, mesmo antes de se converter ao Catolicismo. Ele resolveu pedir essa princesa em casamento, e colocar assim de seu lado o partido católico dos borguinhões, como também os católicos de todo o resto da Gália. E assim ele se casou com ela.

    Essa atitude de Santa Clotilde, aceitando um pagão para sair do domínio dos hereges, revela um alto senso católico. Ela se casa com Clóvis e começa a praticar a Religião Católica ao lado dele.

    Clóvis viu Deus em Santa Clotilde

    Eles discutiam, tinham alguma polêmica, e Clóvis perguntou-lhe algo sobre a religião dela? Nunca encontrei notícias a respeito disto, no pouco que tenho lido sobre o assunto. Mas tudo me leva a crer que não, e tenha sido apenas a prática constante da Religião que foi causando impressão no espírito de Clóvis.

    Isso sucedeu até que numa batalha, na qual, se não me engano, ele lutava precisamente contra os borguinhões, sentiu-se perdido. Resolveu então fazer uma promessa a Deus, que ele chamava o “Deus de Clotilde”: se ganhasse, ele se converteria à Religião Católica.

    Recordo-me do caso contado por Dom Chautard, sobre o advogado que esteve em Ars, no século XIX, viu o Santo Cura de Ars e voltou para Paris. Perguntado sobre o que vira, respondeu simplesmente: “Vi Deus num homem”.

    Com certeza, Clóvis tinha visto Deus em Santa Clotilde, e quando fez a promessa de se converter ao “Deus de Clotilde”, via que esse Deus era verdadeiro e vivo.

    Santa Clotilde teve filhos criminosos que se jogaram uns contra os outros, a par de um filho santo, que foi o famoso Saint Cloud. Ela foi de uma raça de sapos transformada numa pura flor-de-lis. Teve junto de si algumas outras flores-de-lis, mas o resto era sapo em via de transformação.

    O sol da santidade começou a brilhar para os francos

    E aí vemos a tragédia de sua vida. Era tão grande o peso do paganismo, dos maus costumes antigos, que se tornava necessária uma virtude heroica para não cair nos pecados do paganismo, ainda que se tivesse sido batizado como católico.

    Houve um fato curioso de uma índia muito piedosa, que o Padre Anchieta encontrou em São Paulo, quando esta não era mais do que o Pátio do Colégio. A índia estava bastante triste e ele perguntou-lhe o que sentia. Ela: “Estou, padre, com saudade de comer o braço de uma criança tapuia…” Ela era batizada, comungava e não comeria o braço da criança, mas tinha vontade de fazê-lo…

    O pessoal que rodeava Santa Clotilde não era antropófago, mas pouco faltava para que o fossem. Eram batizados, mas tinham saudades das coisas bárbaras.

    Ela no meio de tudo isto, era uma flor-de-lis das mais perfeitas e admiráveis, ensinando a virtude, a mansidão e dando também admiráveis exemplos de senso de sua própria dignidade.

    Santa Clotilde é uma espécie de “Chanteclair” daquela época: é a primeira que faz raiar o sol. Nela o sol da santidade começa a brilhar para os francos, trabalha para a conversão do Rei e dá exemplos das virtudes que o reino acabará por praticar. É uma santa admirável, que está na aurora dessa transformação dos sapos em flores-de-lis.

    É muito oportuno que lhe peçamos nos consiga a graça de vermos a hora da outra transformação de sapos em flores-de-lis. E, quando houver o “Grand Retour” e se começar a trabalhar para a construção do mundo futuro, sejamos o que ela foi no mundo dela: os precursores de um admirável progresso. Esse, então, verdadeiro, porque progresso em Nosso Senhor e em Nossa Senhora.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências  de 3/6/1964 e 5/6/1967)

  • Transmissão de um espírito

    Na vida de Santo Eliseu há um aspecto muito alto que é sua sucessão com relação a Santo Elias.

    Elias, no momento de abandonar a Terra, passou a Eliseu um manto, simbolizando com este gesto que lhe transmitia seu espírito.

    Tendo recebido o espírito de Elias, Eliseu ficou em condições de dirigir a incipiente Ordem do Carmo.

    Esta transmissão mostra bem qual é a importância da graça que se chama “um espírito”.

    Ao se falar em espírito jesuítico, carmelitano, beneditino, não se faz referência apenas a realidades meramente doutrinárias, mas são graças que se comunicam de pessoa para pessoa, a fim formar as grandes famílias de almas existentes na Igreja Católica. São graças susceptíveis de uma transmissão, e é essa transmissão que constitui propriamente a família de almas.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 14/6/1964)

  • Caminho para a devoção eucarística

    O devoto da Santíssima Virgem encontrará  no Coração de Maria o próprio Coração de Jesus, naquilo que este Coração tem de mais amoroso, mais terno e mais compassivo. Ora, onde mais se manifestam as finezas do Coração de Jesus é na Sagrada Eucaristia.

    Assim, a devoção a Nossa Senhora leva natural e espontaneamente à devoção eucarística. E é aí — neste culto à Eucaristia, que só pode ser plenamente fervoroso com o culto mariano, pelo culto mariano e no culto mariano — que os católicos encontrarão o alimento de sua vida espiritual.

     

  • AUXILIADORA DOS CRISTÃOS

    Em 24 de maio, a Igreja comemora a festa de Maria Auxiliadora dos Cristãos. Esta invocação da Santíssima Virgem foi especialmente cara a Dr. Plinio, desde sua infância. A jaculatória “Auxilium Christianorum, ora pro nobis” (Auxílio dos Cristãos, rogai por nós) brotava freqüentemente de seus lábios. Testemunho eloquente disto são os comentários transcritos abaixo, feitos em resposta à pergunta de um jovem ouvinte.

     

    Nossa Senhora Auxiliadora dos Cristãos! Por que o título de Auxiliadora? Nossa Senhora tem  como maior glória o ser auxiliadora? Para Ela não é glória maior ser Mãe de Deus? É claro!

    Para Ela não é gloria maior ser co-Redentora do gênero humano? É claro! Para Ela não é glória maior ter sido concebida sem pecado original? É claro!

    Por que, então, Nossa Senhora Auxiliadora? Por que tanta insistência em torno desta  invocação: Nossa Senhora Auxiliadora?

    Compreende-se, pois Ela, Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo e nossa Mãe, está  permanentemente disposta a nos ajudar em tudo aquilo que nós precisamos. São Luís Maria   Grignion de Montfort tem uma expressão que parece exagerada, mas que está absolutamente dentro da verdade: se houvesse no mundo uma só mãe reunindo em seu coração todas as  formas e graus de ternura que todas as mães do mundo teriam por um filho único, e essa mãe tivesse um só filho para amar, ela o amaria menos do que Nossa Senhora ama a todos e cada um dos homens.

    De maneira que Ela de tal modo é Mãe de cada um de nós e nos quer tanto a cada um de nós  — por desvalido que seja, por desencaminhado que seja, por espiritualmente trôpego que seja — que quando qualquer homem se volta para Ela, o primeiro movimento d’Ela é um  movimento de amor e de auxílio. Porque Nossa  Senhora nos acompanha antes mesmo de nos voltarmos para Ela. Ela vê nossas necessidades e é por sua intercessão que nós temos a graça de nos voltarmos para Ela. Deus nos dá a graça de nos voltarmos para Ela, nós nos voltamos e a primeira pergunta d’Ela é: “Meu filho, o que queres?”

    Mas nós temos dificuldade em ter isto sempre em vista. Por quê? Porque nós não vemos, e, na  nossa miséria, muitas vezes somos daqueles que não creem porque não vêem. Nós esquecemos. Não duvidamos, mas esquecemos, nos sentimos tão deslocados que dizemos: “Mas será mesmo? Depois, aconteceu-me isto, aconteceu-me aquilo, aconteceu-me aquilo outro, eu pedi a Ela e não fui atendido: por que vou crer que agora serei socorrido? Mãe de Misericórdia… para mim, às vezes sim, mas às vezes não… Nesta próxima provação, por que confiar que serei socorrido, ó Mãe de Misericórdia?!”

    É nessas horas, mais do que nunca, que devemos dizer: “Auxilium Christianorum, ora pro  nobis!” Nas horas em que nós não compreendemos, não temos noção do que vai acontecer, nós devemos repetir com insistência: “Auxilium Christianorum! Auxilium Christianorum! Auxilium Christianorum!”

    Porque para todo caso há uma saída. Nós às vezes não vemos a saída que Nossa Senhora dará  ao caso, mas Ela já está dando uma saída monumental.

    A esse título, portanto, muito especial, nós devemos repetir sempre: “Auxilium Christianorum!” Nossa insuficiência proclama a vitória d’Ela, canta a glória d’Ela. Por isso, esta prece deve estar nos nossos lábios em todos os momentos: “Auxilium Christianorum, ora pro nobis! Auxilium Christianorum, ora pro nobis!”

    Meus caros, rezemos, portanto, “Auxilium Christianorum! Auxilum Christianorum! Auxilium  Christianorum!” em todas as circunstâncias de nossa vida, e nossa vida acabará tal que, na hora de morrer, quando nós estivermos no último alento e ainda dissermos “Auxilium Christianorum”, daí a pouco o Céu se abrirá para nós.

  • O cone do Fuji-Yama

    O aspecto emocionante do Fuji-Yama é que ele faz surgir a ideia de como seria um cone perfeito. Vê-se nesse cone, sobretudo, o sublime. O fato de ele não existir, mas ser imaginário, insinua um cone de uma beleza como que irreal, que vai diretamente para o maravilhoso. A louçania da inocência vem disso: contemplar o “cone do Fuji-Yama” naquilo que nos rodeia.,

     

    Ao contemplar uma fotografia representando o Fuji-Yama, procura-se, quase instintivamente, colocar com a mão a ponta do cone. Mas ninguém faz ali o cone perfeito, que daria toda a beleza à montanha.

    Um sublime com clarões paradisíacos Embora seja uma coisa física, é à maneira de um  conhecimento metafísico, sob a forma de negação – não é este cone, nem aquele, nem aquele outro –, que aparece uma ideia de como seria um cone perfeito. E, a meu ver, o aspecto emocionante do Fuji-Yama é esse.

    A Tenho a impressão de que se vê no “cone do Fuji-Yama”, sobretudo, o sublime. O fato do cone  não existir, mas ser imaginário, insinua um cone de uma beleza como que irreal, que vai diretamente para o maravilhoso. E é claro que, no imaginar o cone maravilhoso, entra por detrás uma nota de sublimidade.

    No “cone do Fuji-Yama” há um sublime com clarões paradisíacos. Cada grau de beleza tem lampejos do grau superior, e o mais tênue dos graus possui um fulgor de sublimidade.

    Talvez nem todo o mundo veja o “cone do Fuji-Yama” das coisas. De onde me parece perceber que a louçania da inocência venha disso: ver o “cone do Fuji-Yama” naquilo que nos rodeia.

    A Civilização Cristã

    É uma alegria ver todas as coisas na sua ordem ideal, achar que foram feitas para essa ordem e perceber que clamam por ela; todo o movimento da natureza no Paraíso seria uma realização do “cone do Fuji-Yama”.

    E há nesta Terra uma civilização, não digo incompleta, mas com lacunas, que tende para a  realização desse “cone do Fuji-Yama” da natureza: é a Civilização Cristã.

    Daí decorre que tudo se apresenta numa ordem magnífica, que seria certo “otimismo” se não fosse o fato de haver pelo meio o inimigo do homem, o demônio e todo o resto.

    A Igreja Católica e a doutrina por ela ensinada facilitam a dar o “cone do Fuji-Yama” de tudo, e  apresentam o universo, toda a natureza, nessa ordem. Não está dito formalmente, mas é isto.

    Daí vem a certeza de que, ou acaba o mundo, ou as coisas têm de caminhar para essa ordem.  Porque há um clamor de todas as coisas para isso, e esse clamor ruge e pede a Deus por vingança quando é contrariado.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 5/9/1974, 5/5/1975 e 10/11/1980)

  • Gravidade e pensamento

    Imaginemos um estado de espírito caracterizado pelo comprazimento que experimenta diante dos bons e grandiosos aspectos da vida, prendam-se estes a pessoas ou a coisas diversas. Ao lado da grandeza e da bondade, agrada-lhe igualmente o que eles apresentam de distinção, de lógica interna, de seriedade, de respeito por si próprios. 

    Dir‑se‑ia, então, que a alma dotada dessa mentalidade seria comparável a uma ogiva, séria, sólida, pensativa, levando tudo para cima; calma, mas pesando e analisando tudo. Ao mesmo tempo, inflexível, disposta a se recolher, dizendo: “Quanto de bom existe nisso tudo! O que é a bondade? O que é o bem?” A partir dessa inquirição, eleva-se nas ascensões da contemplação de Deus, com naturalidade, sem agitação, trepidação nem excitação.

    A mesma impressão que nos daria uma alma assim, nos é proporcionada por certas catedrais medievais. Por exemplo, tempos atrás tive em mãos um bico-de-pena de autoria do famoso arquiteto Viollet Le Duc, retratando a Catedral de Notre-Dame de Paris, vista de cima para baixo. O desenho exprimia uma profunda reflexão, do teor que acima dissemos. Contentou-me perceber naquele edifício a seriedade de uma igreja toda feita de gravidade, estabilidade, pensamento, grandes considerações das linhas gerais, mil pormenores e detalhes harmônicos, panorama, e as torres que se levantam para o céu.

    Tão magnificamente para o céu, que nenhum artista se atreveu a completar aquelas torres. Porque só quem as planejou teria envergadura de alma suficiente para terminá-las. E as torres estão ali, ao mesmo tempo tragicamente incompletas, mas fazendo com que cada observador imagine no subconsciente uma torre ideal, segundo o seu próprio feitio. Dir‑se‑ia que elas acabam numa espécie de traçado pontilhado, a ser definido de acordo com o espírito de quem as contempla. De maneira que, se nos dissessem: “Olha, sabe de uma novidade!? Completaram as torres de Notre-Dame!”, ficaríamos surpresos: “Será que o fizeram corretamente?”

    Correto, segundo o quê? Conforme esse pontilhado que aqueles dois magníficos fragmentos de torre nos sugerem, incentivando-nos a voar a partir deles. São torres que convidam para o sonho.

    Esse estado de espírito que descrevi, tão fundamentalmente católico, de uma grande estabilidade contemplativa, satisfeita, disposta a qualquer luta, eu o vejo expresso assim, de maneira superlativa, em Notre-Dame de Paris, a igreja de uma beleza perfeita, alegria do mundo inteiro.

    Digo mais. Tenho razões para afirmar que esse estado de espírito foi o ponto de partida da Idade Média, e a Cristandade medieval só foi ela mesma na medida em que cavalgou, rezou, batalhou ou construiu segundo essa mentalidade e disposição de alma. Então, podemos tomar a cavalaria, a armadura do cavaleiro, a coroa de um rei, o “pulchrum” de uma aldeia, a estabilidade de uma corporação, a majestade de um castelo, e tantas outras maravilhas engendradas nessa época, e veremos que são filhas, são derivações daquele superior estado de espírito. v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de Conferência de 30/5/1981)