Autor: Nelson

  • Os homens, as nações e a Lei de Deus

    A humanidade anda sôfrega à procura da paz. Em número cada vez maior pululam em torno de nós movimentos, associações, campanhas que tentam levar as pessoas a se conscientizar da necessidade de um mundo melhor.

     Os meios propostos para se alcançar esse fim são muito variados, mas traduzem, na sua maioria, o mesmo estado de espírito no qual o homem ocupa o centro e Deus nem sequer é mencionado.

    Ora, o que são as obras humanas dissociadas de Deus? Nada mais do que vaidade. Tudo se torna carente de significado quando não é feito em função do ideal primeiro traçado para o homem: amar, glorificar e servir a seu Criador.

    Eis a meta que deve nortear a humanidade, como nos ensina o Catecismo da Igreja Católica:

    “Deus, infinitamente perfeito e bem-aventurado em Si mesmo, num desígnio de pura bondade, criou livremente o homem para o tornar participante da sua vida bem-aventurada. Por isso, sempre e em toda parte, Ele está próximo do homem. Chama-o e ajuda-o a procurá-Lo, a conhecê-Lo e a amá-Lo com todas as suas forças” (n. 1).

    A propósito desta fundamental doutrina, comentava certa vez Dr. Plinio(1):

    A ordem, a paz, a harmonia, são características essenciais de toda alma bem formada, de toda sociedade humana bem constituída. Em certo sentido, são valores que se confundem com a própria noção de perfeição.

    Todo ser possui um fim próprio e uma natureza adequada à obtenção deste fim. Por exemplo, uma peça de relógio tem uma finalidade específica, e, por sua forma e composição, é adequada à realização dessa finalidade.

    A ordem é a disposição das coisas segundo sua natureza. Portanto, um relógio está em ordem quando todas as suas peças estão dispostas segundo a natureza e a finalidade que lhes são próprias. Assim também se diz que há ordem no universo sideral porque todos os corpos celestes estão ordenados segundo sua natureza e fim.

    A ordem, por sua vez, engendra a tranquilidade, e a tranquilidade da ordem é a paz.

    Quando um ser está inteiramente disposto segundo sua natureza, encontra-se em estado de perfeição.

    Logo, o acerto, a fecundidade e o esplendor das ações humanas — quer individuais, quer sociais — também estão na dependência do conhecimento de nossa natureza e fim.

    Ora, as regras desta perfeição se encontram na Lei de Deus, que Nosso Senhor Jesus Cristo não veio abolir, mas completar(2), nos preceitos e conselhos evangélicos.

    A Lei divina, que depois do pecado original tornou-se um jugo muitas vezes difícil de ser carregado pelos homens, é, na verdade, inerente a seu ser e a mais alta expressão da lei natural(3), formando, por conseguinte, a única e verdadeira bússola para o reto desenvolvimento da humanidade e do progresso da sociedade(4).

    O Decálogo — continua Dr. Plinio — não poderia ser contrário à natureza que o próprio Deus criou em nós, pois sendo Ele perfeito, não pode haver contradição em suas obras.

    Por isso, os Dez Mandamentos nos impõem ações que a nossa própria razão nos mostra serem conformes com a natureza.

    Através da prática dos Dez Mandamentos os homens não só reverenciam, amam e glorificam a Deus, mas também alcançam para a nação a verdadeira paz e ordenação(5), como faz notar Santo Agostinho:

    “Imaginemos um exército constituído de soldados como os forma a doutrina de Jesus Cristo; governadores, esposos, pais, filhos, mestres, servos, reis, juízes, contribuintes, cobradores de impostos como os quer a doutrina cristã! E ousem [os pagãos] ainda dizer que essa doutrina é oposta aos interesses do Estado! Pelo contrário, cumpre-lhes reconhecer sem hesitação que ela é uma grande salvaguarda para o Estado, quando fielmente observada.”(6)

    Em outros termos — comenta Dr. Plinio —, a posse da verdade religiosa é a condição essencial da ordem, da harmonia, da paz e da perfeição.

    Foi esta luminosa realidade, feita de uma ordem e uma perfeição antes sobrenatural e celeste, do que natural e terrestre, que se chamou a Civilização Cristã, produto da cultura cristã, a qual por sua vez é filha da Igreja Católica.

    Neste sentido, a cultura católica é o cultivo da inteligência, da vontade e da sensibilidade segundo as normas da Moral ensinada pela Igreja. Já vimos que ela se identifica com a própria perfeição da alma. Se ela existir na generalidade dos membros de uma sociedade humana — embora em graus e modos acomodados à condição social e à idade de cada qual —, ela será um fato social e coletivo, e constituirá o mais importante elemento da própria perfeição social.

    De onde decorre com evidência cristalina que não há verdadeira civilização senão como decorrência e fruto da verdadeira Religião.

     

    1) Excertos adaptados do artigo “A Cruzada do século XX” publicado em Catolicismo n. 1, janeiro de 1951.

    2) Cf. Mt 5, 17.

    3) Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2070.

    4) Ver nesta edição “A Lei de Deus e a boa ordenação da sociedade – I”, p. 12-17.

    5) Ver nesta edição “O tecido social perfeito”, p. 18-23.

    6) Epist. CXXXVIII al. 5 ad Marcellinum, cap. II, n. 15, in PL 33, 532.

  • Oração da despretensão e das santas proezas

    Ó minha Senhora, Mãe de justiça e de misericórdia, modelai a minha alma de tal maneira que, inteiramente despretensioso, eu seja capaz das mais santas proezas. Afastai de mim a consideração de minhas qualidades naturais e até das sobrenaturais que a graça, implorada por Vós, possa me alcançar.

    Abri minha alma para o exame sincero, leal, varonil de meus defeitos, sem buscar atenuantes e pretextos para indulgências falsas para comigo. Dai-me a verdadeira contrição pelas minhas faltas e o propósito de nunca reincidir nelas.

    Assim, ó minha Mãe, serei verdadeiramente capaz de realizar todas as proezas por Vós, porque sei bem que só aos despretensiosos Vós concedeis as grandes vitórias.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Composta em 4/2/1980)

  • Vocação para harmonia e síntese

    Agraciado pela Providência com um cordial e generoso “savoir faire”, o povo brasileiro desponta na História para exercer a importante missão de harmonizar as mais diversas nacionalidades. É o que, através de vívidos exemplos, nos mostra Dr. Plinio na exposição abaixo transcrita.

    Quando consideramos o futuro do gênero humano e nos colocamos diante da idéia da unidade das nações1, nos referimos um tanto aos dias de hoje, mas, sobretudo, voltamos nossos olhos para o dia de amanhã. Poderíamos nos perguntar, então, se já existem povos que constituam essa unidade e qual o papel deles no concerto universal.

    América Latina e o mundo vindouro

    Creio que, por algum lado e de certo modo, esse plano está se realizando na América Latina, a qual representa o mundo de amanhã. Sua história é ainda tão recente que seu próprio passado é o dos outros povos europeus. Quando estes começam a decair, brotaram as nossas raí­zes e desabrocharam de forma incipiente as nossas glórias.

    O século XX foi dos Estados Unidos; o XIX da Inglaterra; o período (quase mil anos) desde Carlos Magno até fins do século XVIII, da França. Espanha e Portugal não chegaram a ter primazia, mas deram origem à América Latina, e a história daqueles terá sua continuação nesta última, conforme os planos da Providência. Isso ocorrerá no século XXI, o qual, indubitavelmente, será do subcontinente latino-americano.

    Em função desse acontecer histórico, vale dirigir nossa atenção para o brasileiro e o hispano.

    Atualmente, fala-se muito e se cogita em estender o Pacto Andino desde o norte dos Andes até a Patagônia, abrangendo também o Brasil, embora ele nada tenha de andino. É um modo sul-americano de constituir uma grande unidade. E nos causa não pequeno entusiasmo a idéia de que essa magnífica unidade religiosa, étnica, cultural, eu diria lingüís­tica, estabeleça uma espécie de superestrutura arqui-política.

    A índole do brasileiro, ideal para a unidade das nações

    Quanto ao Brasil — onde nosso movimento foi fundado — percebo perfeitamente este fato: Deus criou suas características geográficas e a índole de seu povo de tal maneira que este adquirisse uma mentalidade a fim de servir idealmente para essa obra resumitiva do futuro. E a grande originalidade do brasileiro está em fazer compêndios dessa natureza. É sua missão na História.

    Para auferir esse talento de sintetizar, recordemo-nos dos clubes de Carnaval no Rio da década de 40, quando essa festa estava num auge e se apresentava menos como folia do que desfile do maravilhoso, feito pelo povinho dos subúrbios. Este é propriamente o sentido nobre e bonito do Carnaval. Então havia salões freqüentados por homens de cor vestidos à maneira das cortes de Luís XIV e Luís XV, cabeleira empoada e sapatos de fivela, acompanhados de “marquesas” de ébano! Aquilo que poderia parecer sumamente ridículo, era contudo elegantíssimo.

    Essa gente é de tal modo unida a Portugal que somos um povo luso-brasileiro, dotado de intensa cordialidade, vivendo num território imenso, e sempre de braços abertos para acolher os mais diversos imigrantes: desde o africano com seus costumes que adotamos, ao francês com sua cultura pela qual nos deixamos embeber. África e França se encontram harmoniosamente no ambiente brasileiro, em que a mulher de ébano se veste de Pompadour…2

    Por expressar esses valores, o Carnaval carioca conquistou a admiração do Brasil inteiro, e obteve certa fama no mundo todo. É uma arte bem brasileira conseguir algo que pareceria impossível, isto é, conciliar duas coisas tão opostas: a simplicidade da neta das selvas e a cultura da marquesa. E tal arte é alcançada sem estudar, sem usar laboratórios ou levantar problemas teóricos e resolvê-los, mas remexendo coisas com uma indolência naturalmente sábia, por onde elas vão se colocando no lugar próprio e de modo acertado.

    No fim das contas, o brasileiro nem percebe bem o que fez; boceja, alimenta-se de uma fruta e prossegue a toada normal de sua vida. Ele agiu com esse particular savoir faire [saber fazer] que possui, muito valioso por ser mais subconsciente do que consciente.

    Temperado pelo “azeite português”

    O Brasil descende de uma nação representativa para a Europa daquilo que esta precisava. Poder-se-ia comparar o continente europeu a uma carruagem magnífica — como as do museu do Palácio de Versailles que me deslumbraram em menino — cujas molas estivessem quebradas e o entrosamento dos eixos com as rodas pouco lubrificado. Por essa razão, ela andaria penosamente, sacudindo as plumas, quebrando os vidros, chiando por toda parte. Seria uma caricatura de carruagem.  Se alguém a azeitasse e consertasse o molejo, as plumas voltariam ao normal, os vidros não se partiriam, os passageiros não se segurariam nos damascos por receio de cair, e os rangidos grotescos desapareciam. E novamente se ouviriam a corneta dos postilhões, o trote elegante dos cavalos e os chicotes estalando no ar.  Era a carruagem que passava…

    Portugal é propriamente a nação-azeite da Europa, ele a complementa, mas seu florescimento não foi inteiramente conhecido por esta última. Ele possui a doçura, o afeto, a serenidade, afabilidade e uma acolhida que não se sente em nenhum outro lugar do velho mundo. Sua expansão, através da influência, teria dado à história do pensamento, do sentimento e da ação dos europeus o imbricamento e o contexto que lhes faltou.

    A Europa empurrou Portugal para um canto. Porém, ao mesmo tempo que plantava uvas para fabricar seu esplêndido vinho, a nação lusitana dentro de sua própria alma produzia azeite, o qual foi derramado pelo Brasil inteiro, embebendo-o e o transformando no povo “azeitado” por excelência. Suave, amável, compreensível, voltado a admirar os outros, comprazendo-se de encontrar neles uma qualidade, encantando-se quando aprende uma moda, um estilo e um arranjo novos. Não pensa em se comparar com ninguém. Senhor de uma vastidão de terras continental, distribuindo-as para os que as desejam, com toda naturalidade, como quem não está fazendo favor.

    Além disso, recebe no seu imenso território as mais variadas raças, penetrando-as no mais íntimo da alma e realizando isso de curioso: qualquer povo radicando-se neste País, ainda que sem miscigenação, ele “embrasileira”. É o resultado do “azeitamento”. De um modo inteiramente ordenado, o estrangeiro, sem perder as suas características originais, acaba passando por uma mutação na essência de seu espírito.

    Mais italiano no Brasil que na Itália…

    É fato notório que no Sudeste do Brasil a imigração italiana verificou-se torrencial.  Se compararmos o ítalo-brasileiro com o argentino, chileno ou uruguaio de ascendência italiana, ou até com o próprio filho da cantante Península, julgo realizar-se mais no Brasil do que na Itália, Argentina, Chile ou Uruguai a figura convencional e folclórica do italiano.

    A “Canaã” deles é o Brasil, para onde se mudam em grande quantidade. E posso dar o testemunho pessoal de que encontrei o autêntico ítalo no Brás, na Mooca, no Belenzinho3, e não comi na Itália uma pizza tão genuína como as elaboradas em certas pizzarias de São Paulo.

    Percebe-se dessa forma como a brasilidade penetra e muda algo nos povos, mesmo não havendo a mistura de raças. E tal mutação, que é indizível, efetua-se acrescentando e azeitando. A imagem adequada desse fato é a de uma gota de azeite espalhando-se sobre uma folha de papel, deixando intacta a substância desta, que nem sequer fica mais grossa, porém se faz transparente à semelhança de um vidro.

    Grandiosa missão de harmonizar os povos

    Assim é ação de presença do povo brasileiro, que torna afáveis as coisas, encaminhando-as para a síntese.  Um exemplo peculiar: os imigrantes vêm para o Brasil com a idéia de, quando ricos, voltarem a viver na mãe-pátria. Entretanto, muito antes de granjear fortuna, já estão resolvidos a retornar ao seu país natal — para uma visita e não para morar lá outra vez. Querem residir no Brasil, e aqui morrer.

    Quer dizer, há uma nova forma de imperialismo, exercida pelo azeite, que domina, penetra e se faz sentir nas mais diversas localidades do ­País. Se o imigrante se fixa no Rio, torna-se carioca; se em São Paulo, fica paulista; em Minas, se “amineira”; no Rio Grande do Sul, se “engaúcha”.

    Assim, devido ao modo de ser de seu povo e ao ambiente por ele criado, o Brasil é um pólo de atração. Pode-se dizer que essa gente está preparada para contemplar com amor todas as etapas do passado e as variantes do espírito humano. E isso ela o faz simplesmente olhando, apreciando os valores, descartando os defeitos, destilando: tal coisa é má, não está de acordo com os ensinamentos da Igreja; tal outra, apesar de pagã, se encaixa na doutrina católica; e aquela outra foi predisposta por Deus para, em certo dia, servir aos interesses da Esposa Mística de Cristo.

    O brasileiro consegue apanhar e acertar todas essas coisas para constituir no fim do mundo a grande síntese da História. Seria o compêndio da doçura, abarcando a Terra com amor, compreendendo todos os valores humanos num só olhar, e usando de seu território de proporções continentais para alojar e harmonizar tudo, com vistas a uma síntese final.

    Essa missão encerra uma grandeza superior e mais bela do que as legiões de Júlio César avançando e estendendo as fronteiras do império romano… 

    1 ) Cf. “Dr. Plinio” número 87.

    2 ) Marquesa de Pompadour (1721-1764). Uma das mais prestigiadas damas da corte francesa, então estabelecida no Palácio de Versailles. Apesar de uma vida moral pouco louvável, destacava-se pelo luxo e elegância de seus trajes.

    3 ) Bairros paulistanos.

  • Brasilidade…

    Como muitos de meus conterrâneos, percorri parte considerável do Brasil e conheci brasileiros de todas as latitudes e longitudes. Comprazendo-me na observação de nossas características, sempre me maravilhei diante da seguinte ­realidade que pode passar por trivial e inexpressiva.

    Apesar da imensa extensão geográfica deste País, das influências locais centrífugas como, por exemplo, a predominância das imigrações hispânica, alemã e outras no Sul, e não obstante a nossa tão decantada heterogeneidade racial, acaba-se revelando no Brasil uma força centrípeta, discreta, doce, incessantemente ativa e invencível, que é a de aglutinação. Força tão assombrosa que nos permite conversar com alguém do Amazonas ou do Pará, do Rio Grande do Sul ou de Santa Catarina, sem que se notem — ou quase não se percebam — diferenças.

    Travemos contato com um brasileiro de olhos amendoados e nariz pouco adunco, ou com um de predominância indígena, um negro ou qualquer habitante típico de determinada região, e notaremos um denominador comum, um predicado que penetra todos os espíritos, e merece ser chamado de “brasilidade”.

    Essa peculiaridade nacional é uma das nossas grandes riquezas, consoante e harmônica com os tesouros naturais, as paisagens exuberantes, o litoral de beleza insuperável, nossas obras e monumentos históricos, coloniais e outros, que atraem a admiração de pessoas do mundo inteiro.

    Encanta-me igualmente reparar o fato de haver recantos da alma brasileira ainda mais ou menos intactos, ilesos, aonde aparecem em certos momentos lampejos dessa força de aglutinação sob aspecto diverso: traços psicológicos, intelectuais e morais.

    É quase proverbial a rapidez de intuição e a facilidade de correlações, tão típicas da inteligência do brasileiro de todos os quadrantes. Assim como qualquer coisa de filosófico e até de metafísico, que aflora muito nas canções caipiras e outras expansões populares. Filosofia, metafísica que não têm a claridade do sol, mas a da lua: difusa, esparsa e geral. Contudo, existe!

    Além disso, há no meio de toda a psicologia do brasileiro uma característica que julguei perceber nos mais variados ambientes, regiões e panoramas de nossa pátria: uma certa esperança — quase diria uma precognição — de que o Brasil ainda será um grande País. A Providência permitiu que não tivéssemos o progresso acelerado da Europa dos séculos XIX e XX, e assim estamos prestes a ingressar no século XXI com vastidões do nosso território que são, nas mãos de Deus, como folhas de pergaminho ainda em branco.

    E vivendo ao lado das gigantescas montanhas, das igrejas barrocas, das praias luminosas e acariciadoras, de uma Baía da Guanabara, ou dos pampas gaúchos, o brasileiro, imbuí­do como que naturalmente da Fé cristã, possui essa elevação de alma por onde sabe que algo acontecerá um dia que o colocará à altura de suas grandezas e dos valores depositadas pela Fé no seu coração.

    Tenho a convicção de que, quando chegar essa hora, pelos rogos de Maria Santíssima o Espírito Santo agirá sobre nós. E então, o mesmo fator determinante para que a antiga civilização européia se convertesse e desse origem à Idade Média, fará com que brote deste solo, não uma cristandade medieval, mas o que esta deveria ter sido se houvesse correspondido aos planos divinos. Persuadido estou de que as extensões do chamado “pulmão verde” do mundo estão reservadas para esse dia.

  • Hífen de ouro

    Diante de tantas maravilhas criadas por Deus no universo, pode-se pensar que seria talvez incompreensível que Ele não as coroasse com uma beleza complementar e suprema.

    Imaginemos um joalheiro que possua um escrínio repleto de pedras preciosas, avulsas, ainda não articuladas como jóias. Ele as toma e as espalha em cima de um lindo feltro que cobre sua mesa de trabalho, faz incidir sobre elas uma luz que realça o esplendor e o valor de cada uma, e se põe a admirá-las. O homem se encanta com aquele tesouro. Se for um joalheiro inteligente, breve lhe ocorrerá a seguinte idéia: “Como constituir um conjunto com essas pedras? Pois são tão belas que merecem ser reunidas num todo que as exceda em pulcritude. Como fazê-lo?”

    De fato, se as pedras são lindas, a jóia na qual se encaixarão o será mais, posto que o conjunto das coisas ordenadas adquire beleza superior ao mero amontoamento desarticulado dessas mesmas coisas. A ordem é um degrau a mais para o esplendor, e este, propriamente dito, decorre não só da graciosidade de cada parte, mas da ordenação com que as partes estão dispostas. Esta é a beleza das belezas.

    Portanto, o joalheiro inteligente não poderia deixar de pensar: “Essas pedras têm tais e tais características, tais e tais encantos; mandarei fazer com elas uma jóia”. Ele analisa suas pedras e elabora o desenho segundo o qual elas estarão melhor dispostas para formar a jóia desejada: “No centro virá aquele brilhante magnífico; e para que o broche seja mais refulgente, incrustarei de um lado rubis, depois uma camada de safiras e outra de esmeraldas…” E assim por diante, seguindo sua valiosa inspiração, ele acaba compondo o objeto precioso.

    Sendo um grande joalheiro, sem hesitações nem contradições, decidido a executar o plano primeiro traçado por sua idéia, ele chama um de seus funcionários e lhe entrega aquele esboço: “Leve este desenho ao ourives e peça que me monte essa jóia, usando ouro do melhor quilate, a fim de que a beleza do metal complete o esplendor das pedras.”

    Dias depois, o ourives entrega a encomenda ao joalheiro. Este abre a caixa lavorada com esmero, abre as dobras de veludo, de seda, até que seus olhos se rejubilam com o fulgor da linda jóia ali encerrada. E o ourives lhe diz: “Senhor, aqui estão as suas pedras, e aqui está a jóia que idealizou. Eis a beleza que minhas mãos lhe entregam! Minhas homenagens!”

    Ora, Deus tendo criado todas essas maravilhas esparsas no universo, quais as gemas avulsas do joalheiro, haveria de lhes traçar uma ordem. Como centro dessa ordem, governando-a, resumindo-a num conjunto precioso, Ele pôs o gênero humano. E neste, foi intenção do Criador que existissem homens mais perfeitos, mais santos e mais admiráveis, e existisse o ápice, a jóia máxima: o Homem tão perfeito, tão inteligente, tão sábio e poderoso que excedesse em beleza, sabedoria, virtude e poder a todas as criaturas humanas.

    Em torno desse Homem, como os rubis e safiras ao redor do brilhante, dispor-se-iam todas as perfeições do universo. Esse é o Homem-Deus, hífen de ouro ligando de modo magnífico o Céu e a Terra.

    Todas as belezas do mar e do firmamento, todos os tesouros escondidos nas entranhas do solo, todos os variados encantos da fauna e da flora, todas as grandezas e maravilhas engendradas pelos homens em todos os tempos não constituem senão pré-figuras ou ecos d’Aquele que é o ápice da História: Nosso Senhor Jesus Cristo, de cujo Sangue infinitamente precioso vertido por nós em sua Paixão e Morte, nasceram todos os esplendores da Civilização Cristã. v

    Hífen de ouro(Extraído de conferências em 24/3/1984 e 13/10/1989)

  • Santo Inácio de Loyola – Alma repleta de lógica e enlevo

    Desde os bancos do Colégio São Luís, onde tomou conhecimento da vida e obra de Santo Inácio de Loyola, nutriu Dr. Plinio grande devoção ao fundador da Companhia de Jesus, e uma entusiasmada admiração pela lógica e clareza adamantinas do autor dos “Exercícios Espirituais”. Veremos, pelas suas considerações transcritas a seguir, como estes e outros preciosos predicados da alma inaciana o encantavam.

     

    Quando analisamos o modo de ser e de agir de Santo Inácio de Loyola, percebemos que o amor e o enlevo que ele tributava às instituições e aos ensinamentos da Igreja, redundavam em reflexos daquelas perfeições na sua própria alma, sem contudo empanar suas peculiaridades.

    Tornando-se ainda mais Santo Inácio

    Por exemplo, encantava-se com o modo de um Papa cuidar de uma fabulosa pluralidade de assuntos com inteira calma e sobranceria, conduzindo sem sobressaltos o orbe católico. Ora escrevendo uma bula pelo centenário de uma universidade ou de um estabelecimento católico famoso, autorizando a ereção de uma prelazia apostólica nas missões, resolvendo um delicado problema de relações com determinado país ou uma crise religiosa em tal outro, solucionando uma questão de corporações numa certa nação envolvendo problema moral bastante delicado, etc. — as mais variadas ações do Sumo Pontífice falavam de maneira intensa à alma de Santo Inácio.

    Especialmente o enlevava discernir a ação do Espírito Santo, possante, sábia, serena, imensa, pairando sobre a Igreja e governando-a. Na medida que se enlevava, a obra do Espírito Paráclito se prolongava em Santo Inácio e algo dessa qualidade da Igreja passava a viver nele, tornando-o capaz de, até certo ponto, agir do mesmo modo. Dir-se-ia que uma força sobrenatural doravante o habitava, fazendo-o mais ele mesmo, porque sua vocação e seu carisma específico se enriqueciam.

    Pode parecer um paradoxo que algo extrínseco passe a ser inerente a ele, orientando sua vida. Santo Inácio não se transformava num autômato?

    A meu ver, dava-se o contrário. Ele se tornava mais Santo Inácio de Loyola.

    A regra aplicada aos discípulos

    E é interessante notar que o sucedido com Santo Inácio se verificava, guardadas as proporções, entre ele e seus discípulos. Ou seja, quando se lê a história da Companhia de Jesus, vê-se que o Fundador procurou formar a mentalidade de seus seguidores de acordo com o que hauriu da Igreja, encaminhando-os para a perfeição. E os jesuítas, por sua vez, procuravam se conformar a Santo Inácio, tendo não poucos alcançado de fato a heroicidade de virtudes. Lembremo-nos, por exemplo, de São Francisco Xavier, entre os primeiros e, posteriormente, São João Berchmans, São Luís Gonzaga, etc.

    Tem-se a impressão, aliás, de que na Companhia de Jesus, mais do que nas outras ordens religiosas em relação aos respectivos fundadores, essa união e essa conformidade de alma manifestou-se sobremodo rigorosa e enfática, por razão compreensível. Na época em que Santo Inácio foi suscitado por Deus para impulsionar a Contra-Reforma, alguns aspectos da vida da Igreja pareciam de tal maneira alterados que, para se ter o perfeito conhecimento dela, era indispensável conhecer uma pessoa plenamente católica, e se estabelecer com esta um vínculo particular. Esta forma de contato pessoal era o meio de a Igreja manter sua influência sob o espírito dos fiéis.

    E para os jesuítas que tinham Santo Inácio como modelo, a união com a Igreja se fazia através do influxo da pessoa do seu fundador, conhecida nas horas de enlevo com o auxílio da graça, e assimilada, no sentido próprio da palavra, pela meditação, ponderação, etc.

    Portanto, para que um jesuíta do século XVI não se deixasse contaminar pelas idéias errôneas do tempo, deveria considerar os fatos através dos olhos de Santo Inácio.

    Doutrina personificada

    Por outro lado, cumpre admitir que é muito conveniente ao católico conhecer a doutrina personificada. Necessidade que também se explica facilmente.

    Imaginemos alguém que estudasse um compêndio de Doutrina da Igreja, mas nunca tivesse visto um bom católico. Ele não teria uma perfeita noção da Santa Igreja. Agora suponhamos o contrário: ele conheceu um católico no sentido pleno do termo, mas ainda não estudou essa doutrina… Quase se poderia dizer: quem conheceu a pessoa do bom católico entendeu a Igreja mais do que quem analisou apenas sua doutrina.

    Nesse sentido, figuremos uma conversa entre jesuítas a respeito dos escritos de Santo Inácio. Não deveriam eles estudar o texto inaciano como o faria um crítico qualquer, ou seja, excluindo o fator enlevo. Não. Antes, deveriam procurar discernir a mentalidade do seu fundador ao conceber aquelas linhas, e chegar a cogitações mais altas, como, por exemplo, considerar que a matriz daquele estilo existia na alma de Santo Inácio, com uma superabundância da qual aquele livro ou aquela oração era uma parcela.

    Deveriam compreender que Santo Inácio era capaz de escrever a uma eminente autoridade eclesiástica, com um cunho enérgico e afirmativo, chamando-lhe a atenção por atitudes que causavam estranheza nos meios católicos fervorosos, bem como de usar de astúcias para resolver um grave problema, sem nada perder de sua seriedade, gravidade e firmeza.

    Os jesuítas, se fiéis à sua vocação, tinham de admirar essas qualidades de seu fundador, conformar-se com elas, enlevar-se com o enlevo dele pela Igreja, e procurar ver a ação do Espírito Santo instruindo e conduzindo as atitudes do grande Santo Inácio de Loyola.

    Encantos com os raciocínios do Mestre Costa

    Não me esquivo de aduzir um exemplo pessoal, de quem — embora não sendo jesuíta — cedo sentiu-se enlevado com a lógica luminosa de Santo Inácio, e desejou adquiri-la para toda a vida.

    Quando frequentei o Colégio São Luís, uma das matérias era lecionada por um jovem professor, ainda seminarista da Companhia de Jesus, ao qual chamávamos Mestre Costa (futuramente Pe. Costa). Ele desfiava seus raciocínios de caráter apologético, explicava isto, aquilo, aquilo outro, e me entusiasmava ver a coerência dos pensamentos dele: concatenados, determinados, caminhando a passos resolutos e direitos para a conclusão. Eram meus primeiros encantos com a lógica.

    Eu percebia os movimentos do raciocínio no espírito do Mestre Costa, ágil, lúcido, forte, e me alegrava admirar uma alma, uma inteligência que se movia assim. Mais. Sentia um verdadeiro alívio no meu interior, como se algo longamente estagnado começasse a se mexer e a andar. Era uma espécie de libertação da minha presença habitual em ambientes poucos afeitos à lógica, pouco reflexivos, amantes das impressões: “acho que… talvez seja… parecer-me-ia que…”. Sem me dar conta, meu temperamento desejava outra postura de alma, pedia uma definição. Afirme! Abra o peito e tome a responsabilidade da conclusão: diga que é assim, e assunto encerrado.

    Ora, no raciocinar do Mestre Costa havia isto: ele concluía. E de tal maneira que prendia o interlocutor na sua conclusão, sem possibilidades de fuga. Eu dizia para mim mesmo: “Um dia saberei também concluir, como o Mestre Costa!”

    Meu encantamento era tanto maior quanto percebia que o professor chegava a conclusões com as quais muitos estavam em desacordo. Em geral, os pretensos “espíritos fortes”, homens bigodudos, vistosos, com aparência de mandões e que julgavam a época da Religião já ultrapassada. Pois o Mestre Costa começava a dispor sua argumentação, pensamento a pensamento, comprimindo e silenciando o seu oponente, para as delícias de minha alma.

    Entusiasmo pela lógica inaciana

    Mas, em meio às suas digressões, essa lógica brilhava de maneira particular ao fazer o elogio da Companhia de Jesus e de Santo Inácio. Com uma característica curiosa: quando se exaltava nas exposições, a ponta do seu nariz movia-se ligeiramente. Essa peculiaridade atraía muito minha atenção, e era notada de forma especial quando ele se referia ao fundador. Eu pensava:

    “Está vendo? Esse homem é um brasileiro como eu, e hauriu as suas possibilidades mentais nesse mesmo Brasil em que estou. Se ele possui essa lógica dentro da alma, não a obteve da maré de relativismo que corroeu largamente a mentalidade atual, e sim de Santo Inácio, de quem ele é filho. O fundador dos jesuítas lhe concedeu essa dádiva.

    “Ora, se eu admirar infatigavelmente Santo Inácio, quem sabe este me concederá, a mim também, um pouco dessa lógica ? Depende de eu ser muito puro, inteiramente puro, intransigentemente puro… Porque este espírito não é dado a quem não é casto. Se eu perseverar na prática da castidade, começará a nascer em mim uma lógica como a do Mestre Costa, como a de Santo Inácio de Loyola. Vamos para a frente! Meu entusiasmo está adquirido!”

     

    Plinio Corrêa de Oliveira

     

  • Florença e a perfeição das formas – II

    Cidade com edifícios de proporções perfeitas, Florença, como todas as antigas urbes, viu transformarem-se em museu seus palácios e outras bonitas residências. Isso se deve ao fato de que seus habitantes, em determinado momento, quiseram romper com Aquele que disse de Si mesmo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6).

     

    Por certo, nesse casario há residências onde as escadas devem ter alguns degraus podres, as donas de casa brigam umas com as outras, de andar para andar, ameaçando-se com aquele rolo para fazer macarrão, e se vê um velho subir até o quarto andar, no qual ele foi morar por ser mais barato, mas tem medo por causa do coração… À noite ele sentiu umas dores no peito e não sabe se é bronquite ou começo de enfarte; então saiu muito preocupado e agora sobe devagarzinho, levando sua bengalinha e o jornal do dia debaixo do braço, e fumando o último cigarrinho que ele aspira até o fim, porque não pode comprar muitos; e vai curtir sua pobreza e seu isolamento junto a um gato no quarto que ele ocupa.

    O povinho que a Revolução massacrou

    Entrevê-se um formigamento de gente nesse casario. De gente vivaz, que fala, comenta, canta, trabalha, que quando dorme ronca; enfim, gente estuante de vida e, exceto o meu velho do gato, o resto todo com muita saúde. E esse velho, a doença dele é só velhice. Mas essa é inevitável…

    Esse formigamento de vida não há em um arranha-céu moderno, nem nas pobres “vilas-Moscou” das periferias de certas cidades. Ora, é este o povinho que a Revolução massacrou, proclamando a soberania popular. Em Florença, e em outros lugares, algo disso ainda vive.

    Notem, agora, aquela outra ponte que não tem construções colaterais e cujo traçado pode ser melhor apreciado. Vejam a beleza da ponte e também da iluminação pública. Que lampadários bonitos, delicados! Comparem com a iluminação que encontramos, por exemplo, em determinadas avenidas de São Paulo: as luminárias parecem esqueletos de não sei que animal pré-diluviano, que tinha um pescoço compridíssimo encimado por uma cabecinha inútil. Nesta ponte, ao contrário, tudo é proporcionado.

    A propósito da arquitetura desta ponte, vem-me à memória a seguinte comparação. A Ponte Alexandre III, de Paris, é muito bonita, construída no século XIX, porém ultra enfeitada.

    Esta aqui não tem um enfeite. A beleza está na linha dos arcos, mais nada. É o que se chamaria, na linguagem de hoje, um estilo despojado. Isso faz lembrar, em relação aos enfeites, um caso que se contava na Grécia.

    Realizou-se um concurso de arte — creio que de pintura, não me lembro bem —, no qual concorriam artistas de vários lugares. Um deles, persa, representou uma mulher com um traje riquíssimo que visava realçar a beleza de sua obra. Outro pintor, um grego, figurou uma grega com uma simples túnica branca.

    O júri deu a primazia à pintura grega.

    O persa protestou, argumentando que a sua estava muito melhor vestida. Os gregos responderam: “Tu a fizeste rica porque não soubeste fazê-la bela”.

    Uma construção estética reputada perfeita

    Vemos em outra fotografia a Catedral de Florença, toda feita de mármore branco e preto. A mesma coisa que nós encontramos nas fachadas laterais da Catedral de Orvieto, onde há mais mosaicos. Notem o choque: Florença, muito mais importante e mais rica do que Orvieto, nem tem comparação, ousa fazer para si uma catedral que não possui um mosaico na frente. Mas a superioridade de Florença, segundo o meu modo de entender, está exatamente em que cores bonitas, mosaicos, etc., são enfeites fáceis, para imaginações débeis. Na Catedral de Florença existe uma proporção perfeita entre a torre, o corpo da igreja e a abóboda com aquela torrezinha em cima. E depois o tamanho das naves laterais. E isso está tão bem calculado, como as rosáceas nas portas, as colunatas, a rosácea grande, que é uma construção estética reputada perfeita. Então, a reflexão, o equilíbrio, a profundidade, zombam do ornato, do charme, da graça, e Florença tem uma beleza autêntica a qual resiste à metralhagem dos olhares analíticos que querem encontrar um defeito.

    A Catedral parece dizer: “Eis-me aqui, despojada e sem maquiagem; eu sou eu, veja como sou linda!”

    Não sou um especialista em matéria de arte. Não afirmo, portanto, como quem se acha entendido, o seguinte. Mesmo porque o valor do argumento da autoridade de incontáveis críticos, que têm achado isto perfeito, pesa mais do que o meu. Mas, em minha opinião, essa cúpula se fecha muito belamente em cima, tem uma proporção bonita com a barra branca sobre a qual ela se pousa, porém ela é muito pesadona para o conjunto do edifício. Ao menos eu a sinto assim.

    Vemos na torre da Catedral, por exemplo, alguns vestígios do gótico nos vários andares, mas muito poucos. É muito bonito como os andares vão se afinando discretamente para cima. O branco está utilizado aqui magnificamente. Os vários espaços e dimensões, os ornatos dos diversos elementos, tudo está perfeitamente bem posto, e é muito bonito, não tem dúvida.

    Mania do despojado

    No interior da Catedral o despojamento vai bem mais longe. Não se pode negar que as dimensões, a altura das colunas são muito bonitas, que os arcos estão muito bem colocados, e que tudo quanto a Catedral apresenta é muito belo. Mas se tomamos, por exemplo, o altar do fundo, vemos como ele é pequeno em comparação com o tamanho da igreja, e como fica um espaço em cima, provavelmente destinado ao arejamento e à entrada de luz, mas que não traz nenhuma ideia piedosa. São meras janelas.

    Se fosse uma arquitetura elaborada segundo outra escola artística, essas colunas teriam, em cada ângulo, um nicho com a imagem de um Santo portando seu instrumento de martírio. Ali não: tem-se a impressão de que uma tropa de ladrões entrou e roubou os ornatos da igreja.

    Minha posição pessoal diante do monumento: respeito, admiração, vejo inegavelmente grandes valores artísticos, mas minha afinidade não vai para isso. A mania do despojado parece-me conter uma censura a Deus que não fez um universo despojado. É bonito que apareça, de vez em quando, alguma coisa despojada. Com isso eu concordo. Mas que haja a mania do despojado, com isso eu não posso concordar. E é como se apresenta a arte florentina.

    Os entusiastas do despojamento dirão: “Mas Dr. Plinio, assim aparece melhor a linha lógica”. Eu respondo: “Está bem, mas nem tudo que aparece melhor é bem feito”. Isso é para pessoas incapazes de perceber a linha dentro da pluralidade dos ornatos. Não julgo que eu esteja afligido por esse mal. Em uma obra de arte com uma muito bela linha e lindos ornatos, estes não estragam a linha.

    Residência de uma antiga família transformada em hotel

    Ainda em Florença, mas nos arrabaldes da cidade, há um hotel excelente. Ao que tudo indica trata-se da residência de uma antiga família de banqueiros — Florença foi um centro bancário muito grande — ou de nobres que viviam fora da cidade na opulência, e cuja propriedade foi transformada em hotel.

    A mim, que impressão dá? Como se trata de uma casa de uma família — seja de nobres ou de banqueiros — portadora de certa tradição, esta eleva e dignifica a vida de família, porque dá a ela uma nota de eternidade. A família percebe melhor as obrigações que lhe impõe um grande passado ao qual se sente ligada. Os mortos parecem ornatos dos vivos. E por outro lado, os que estão para nascer parecem a luz que entra para a família, a qual vive há séculos e pretende viver séculos ainda, na beleza de uma grande continuidade familiar.

    Vemos ali uma casa grande construída para se levar uma vida de família, não como se entende hoje, dentro de um apartamento, mas com quartos de dormir grandes, salões espaçosos; uma residência feita para que se passe muito tempo nela, com conforto, tempo para pensar, ler, conversarem uns com os outros, para formarem grupos de dois ou três e irem passear pelo jardim que, aliás, é magnífico.

    Podemos imaginar a magnificência de uma recepção dada numa propriedade como essa, à noite, com orquestra tocando, senhoras e senhores com trajes de gala, condecorações, desse tipo de recepções com tanta categoria que até os prelados do lugar apareciam. Então a hora da chegada do grão-duque, do cardeal-arcebispo, de tal autoridade militar, de tal grande artista que vai cantar, outro que vai acompanhar ao piano… Tudo isso em meio à conversa que rumoreja, enquanto incessantemente garçons fazem circular grandes pratos com pequenas delícias, bandejas repletas com taças e garrafas com bebidas. Se a noite é quente, uma parte dos convidados sai e conversa também do lado de fora.

    Tudo isso foi transformado em um hotel muito bem mobiliado, onde se paga para estar, e no qual um turista anônimo entra, mete-se nas cobertas durante a noite, e no dia seguinte sai.

    Notem o conforto, a estabilidade, a dignidade. Não é verdade que uma família como essa pareceria estar destinada a durar séculos? Entretanto, está morta, como uma concha que se encontra na praia, na qual o respectivo caramujo morreu. Por que morreu? Porque essa gente toda foi rompendo com Aquele que disse de Si mesmo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6).

    Paganizou-se, estancou.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 23/11/1988)

     

  • Rainha e Mãe de misericórdia

    As primeiras palavras da Salve-Rainha inspiram a quem as recita a plena confiança de que será atendido, apesar de suas misérias.

     

    Pediram-me para fazer o comentário da Salve-Rainha. Devido ao pouco tempo de que disponho, vou comentar apenas as primeiras palavras desta bela oração: “Salve Rainha, Mãe de misericórdia…”

    Rainha que tudo tem e tudo pode

    Salve, em latim, é uma saudação, e passou assim para o português. Os latinos costumavam dizer salve como saudação, sem nenhum nexo e sentido com a ideia da salvação, “salvai-me”. Não é isso, é uma mera saudação. Então, “eu Vos saúdo”.

    Agora vem outro ponto: “…Rainha, Mãe de misericórdia”.

    Vemos aqui uma harmonia muito bonita. O autor da oração coloca antes de tudo o título d’Ela de Rainha.

    Nossa Senhora é Rainha? Evidentemente, Ela o é, pois é a Mãe do Rei, e um Rei que faz tudo quanto Ela deseja.

    Maria Santíssima é chamada a Onipotência Suplicante. Ela, de Si, é uma criatura humana como nós, mas a súplica feita por Ela é onipotente, porque pode tudo diante de Deus.

    Assim, também enquanto suplicante, Maria é Rainha, porque Aquela que pode tudo é Rainha. Então, vem desde logo uma ideia posta ao alcance do fiel: Aquela a quem ele vai se dirigir é uma rainha; logo, Ela tem e pode tudo.

    A rainha e o rei são de uma riqueza enorme. Normalmente são as pessoas mais ricas do reino, que dispõem da maior soma de poderes, honrarias e riquezas de toda ordem. Ela é a Rainha, quer dizer, tudo quanto Lhe peçamos Ela pode dar.

    Ademais, Deus, que é o Filho d’Ela, concede tudo quanto sua Mãe insondavelmente perfeita Lhe pede. O resultado é que, quando pedimos alguma coisa a Ela, temos a certeza de que Ela pode dar, porque Ela tem. Isso nos leva a nos encher de confiança no nosso pedido.

    Não há carinho como o materno

    Mas vem logo depois: “Mãe de misericórdia”.

    Mãe já traz consigo a ideia de misericórdia, porque o mais misericordioso e compassivo dos entes, numa época em que a instituição da família funcione normalmente, é a mãe. Mesmo o pai pode ser muito bom e seu afeto é indispensável para completar a educação do filho. Mas o carinho é com a mãe.

    Lembro-me de ter assistido, certa vez, a uma cena minúscula em casa, entre meu pai e minha mãe.

    Eu costumava, naquele tempo, sair logo depois do almoço para meu escritório de advocacia. Minha mãe me acompanhava até a porta do elevador, junto à qual tem uma escada. Às vezes eu estava com muita pressa e me impacientava com a lentidão do elevador, e descia a escada a toda pressa. Lembro-me de que, enquanto eu descia, ouvia minha mãe dizer: “Filhão, cuidado com o corre-corre.” Era um último sinal de carinho.

    Mas um dia desci muito precipitadamente e esqueci um objeto em casa. Chegando na rua, senti falta do objeto e voltei para apanhá-lo. Passei ao lado de uma pequena sala de estar onde ela e meu pai costumavam ficar durante o dia. Estavam conversando, certos de que eu tinha ido embora.

    Meu pai estava sentando numa poltrona e minha mãe, em pé junto a ele, dizia:

    — João Paulo, hoje para o jantar eu mandei fazer tal prato. Você acha que o Plinio ficará satisfeito ou seria melhor preparar outra coisa?

    Não parei para olhar, mas tive a impressão de que meu pai estava louco para tirar uma sesta, e respondeu negligentemente que estava bem.

    Não satisfeita com a resposta, ela acrescentou:

    — Não, mas quem sabe se fizer de tal outro jeito seria melhor.

    — Também está bem — respondeu ele.

    Como ele estava querendo dormir e ela continuava a insistir, ele disse:

    — Bem se vê que mãe é mãe. Se fosse comigo eu diria: “Rapaz, tem aqui para jantar tal coisa, se você não quiser, vá jantar num restaurante”.

    Ora, mamãe queria exatamente evitar que eu fosse para o restaurante, pelo gosto de estar e conversar comigo. É o carinho da mãe que é todo especial, único.

    Mãe toda feita de misericórdia

    Entretanto, não contente com esta ideia, o autor da Salve-Rainha pôs: “Mãe de misericórdia”. É uma Mãe toda feita de misericórdia.

    O que quer dizer “misericórdia”? Cordis, em latim, é o coração. Miseri, os miseráveis. Portanto, para com os miseráveis Ela é “toda coração”. Os miseráveis são aqueles que não têm do que viver, estão na miséria. Porém, moralmente falando, são os pecadores que ofenderam muitas vezes a Nossa Senhora e deram a Ela razão para estar descontente. Se esses pecadores se voltarem e rezarem para Ela, encontrarão n’Ela uma Mãe de misericórdia toda disposta a atender.

    Então, está tudo reunido para inspirar a maior confiança: Ela é uma rainha que tem tudo e pode tudo; é Mãe de misericórdia, “toda coração”, inclusive para os filhos mais miseráveis.

    Quem pode deixar de ter toda a confiança na bondade d’Ela em que será atendido, quando faz esta oração?

    (Extraído de conferência de 5/3/1992)

     

  • A verdadeira paz interior

    Evocando o sublime exemplo da Santíssima Virgem durante a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, Dr. Plinio nos ensina que a verdadeira paz não está na ausência da dor, das angústias nem da luta, mas na tranqüilidade que brota da ordem.

    Na Ladainha Lauretana, Nossa Senhora é invocada como a Regina Pacis, Rainha da Paz. Procuremos analisar o significado mais profundo desse título que a devoção católica atribuiu à Santíssima Virgem.

    A paz referida nessa invocação pode ser considerada sob dois aspectos. Em primeiro lugar, a do íntimo das almas; segundo, a exterior, isto é, da sociedade.

    Conceito errôneo de paz interior

    Para compreendermos a primeira acepção, devemos antes tomar em conta que diversos conceitos e palavras atinentes a assuntos de piedade sofreram, ao longo dos últimos tempos, ponderosas distorções no modo de defini-los.

    Assim, costuma-se julgar que a paz interior de uma pessoa consta de dois elementos. Ela não é assaltada por nenhuma tentação, nem se vê, portanto, às voltas com lutas internas. Sua vida espiritual é tranqüila, distendida, agradável, sem problemas. Essa pessoa se assemelharia a alguém que está sentado dentro de um helicóptero em ascensão, no qual, sem qualquer esforço, chega ao céu com toda a paz.

    Em conseqüência, ela não tem nenhuma cruz ou sofrimento. Não tem angústia a propósito de doenças, de carências materiais ou por dificuldades familiares. Para ela, tudo transcorre numa serena e perfeita ordem, sem atritos nem adversidades com os quais tenha de lutar.

    Tal é o conceito corrente de paz interior.

    A paz externa, fruto da prosperidade econômica?

    Vejamos agora a idéia comum que se tem de paz externa.

    O Papa Pio XII tinha como lema do seu brasão pontifício esta frase tirada de Isaías (32, 17): Opus Iustitiæ Pax — A obra da justiça é a paz. Ora, segundo a noção hoje propalada, a paz não é a obra da justiça, da virtude, mas de uma certa prosperidade materialista. Importa, antes de tudo, a estabilidade econômica, as contas bancárias de todos conservadas e nutridas, as aposentadorias asseguradas, as pessoas alimentadas, com o conforto e bem-estar diários garantidos. Não há brigas por questões pecuniárias, todos vivem alegres e tranqüilos. Então a paz reina na nação.

    Quando todos os povos se encontrassem nessa feliz situação, alguns imaginam que não haveria confrontos internacionais, nenhum país desejaria agredir outro e a população mundial levaria uma existência calma e pacífica.

    A Rainha da Paz não teria padecido angústias

    De acordo com esse equivocado conceito, a devoção a Nossa Senhora Rainha da Paz consistiria em cultuar a Mãe de Deus enquanto protetora desse róseo estado de coisas, pois é o modelo da pessoa que nunca teve provações, angústias, dores. Ela foi concebida sem pecado original e, portanto, sua vida inteira foi muito calma, sem dificuldades. Teve um Filho e um marido muito bons, residiu numa pequena cidade chamada Nazaré, onde não havia atrito de nenhuma espécie, e Ela passava seus dias inteiramente desanuviada.

    Verdade é que seu Filho, a certa altura, sofreu e Maria, durante a Paixão, experimentou algum desgosto, do qual logo se recuperou, resignada. Pouco depois Ela O viu subir aos céus, e se alegrou ao perceber o Filho bem colocado. Acabaram-se os problemas, Ela passou o resto de sua vida na tranqüilidade doméstica, sob os filiais cuidados do apóstolo João.

    Esse é o ideal de certas mentalidades, quando falam de Nossa Senhora da Paz.

    Um predicado que não exclui lutas e sofrimentos

    Ora, a procura de uma correta interpretação desse título mariano nos levaria a considerar que a primeira notícia de Nossa Senhora nas Sagradas Escrituras no-La mostra como adversário do demônio, e como Aquela que esmagaria a cabeça da serpente: “Porei inimizade entre ti e a mulher”, disse Deus à víbora, entre tua descendência e a dela” (Gn, 3, 15). Ou seja, há uma atitude fundamental de repulsa e de combate ao mal naquela que é invocada como Rainha da Paz.

    Além disso, como se infere das palavras divinas, todas as lutas travadas pela Igreja e pelos católicos contra os adversários da Fé têm na mulher, isto é, em Nossa Senhora, o primeiro exemplo de coragem e de força para vencê-los.

    Então, se a paz fosse simplesmente ausência de luta, como a Virgem Maria seria a Rainha da Paz?

    Mais ainda. Se a paz consiste em não ter sofrimento nem angústias, como explicar as palavras de Simeão dirigidas a Nossa Senhora, segundo as quais um gládio de dor transpassaria o coração d’Ela?

    Na verdade, Maria sofreu um dilúvio de dores na Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ela viu surgirem e crescerem as antipatias, as animosidades e o ódio em relação a seu Divino Filho; d’Ele ouviu a predição de que sofreria e morreria crucificado, e não O abandonou um só instante, acompanhando-O e partilhando de seu martírio até o Consummatum est no alto do Calvário, até a deposição do Corpo sagrado na sepultura. E tudo Ela sofreu numa atitude de luta e de paz, para a redenção do gênero humano, para esmagar o demônio e vencer a morte.

    Assim, a autêntica noção de paz não exclui a luta nem o sofrimento. E onde está a Rainha da Paz, está a inimizade contra a serpente e contra o mal.

    Possui a paz quem deseja a ordem

    O que é a paz?

    Segundo a definição de Santo Agostinho, a paz é a tranqüilidade da ordem. Quando uma alma possui firme propósito de se manter em ordem, custe o que custar, embora enfrentando as maiores dificuldades, angústias e perturbações, ela tem a paz. Por isso diz São Francisco de Sales que Nosso Senhor Jesus Cristo, no Horto das Oliveiras, não perdeu a paz nem a alegria na fina ponta de sua alma, porque estava disposto continuamente a cumprir seu dever.

    Do mesmo modo podemos afirmar que Nossa Senhora não deixou de ter paz nem mesmo no Calvário, pois seu espírito estava em ordem, realizando sua missão de Co-redentora da humanidade.

    Portanto, quando a ordem vence e incute, quer interna, quer externamente, sua tranqüilidade própria, ainda que em meio a uma série de lutas e sofrimentos, a paz impera. Tanto mais vigorosa e resoluta, quanto maiores as dificuldades em face das quais deve se afirmar. Esse conceito se aplica às instituições, aos povos e à vida espiritual de cada pessoa.

    Paz de fundo de alma, mesmo na “amargura muito amarga”

    Aplica-se, sobretudo, como acima evocamos, ao Divino Redentor e à sua Mãe Santíssima, em cujos lábios a piedade católica colocou aquelas palavras do profeta: “Eis na paz minha amargura muito amarga” (Is 38, 17).

    Ao tecer essas considerações, longe estou de pretender que não se deve apreciar as épocas de tranqüilidade, ou as horas de distensão e bonança que a Providência nos permite desfrutar em nossa vida. Antes, devemos pedir a Deus, por meio de Nossa Senhora, que nos conceda essas épocas de “respiração”, onde não haja dores ou dificuldades. Contudo, não podemos fazer disso o ideal da paz, pois sabemos que são momentos de consolações no meio de lutas e trabalhos. Como os tiveram, aliás, Nosso Senhor Jesus Cristo e sua Mãe em Nazaré, em casa de Lázaro, Maria e Marta, etc.

    Assim, ao invocarmos a Rainha da Paz, peçamos a Ela que imprima bem vivo em nossa alma o amor à paz verdadeira que é a tranqüilidade da ordem, e não a ausência da dor e da luta. E quando nos acharmos opressos por dificuldades, roguemos-Lhe que nos conceda, complementarmente à paz interior alicerçada na ordem, alguma distensão, dispondo circunstâncias propícias que nos façam respirar um pouco na vida.

    É um pedido legítimo que, estou certo, Ela atenderá com a abundância de sua maternal misericórdia.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 10/7/1964)
    Revista Dr Plinio 124 (Julho de 2008)