Autor: Nelson

  • Hediondez do pecado e beleza da confissão – II

    Com seu dolorosíssimo padecimento na Cruz, Jesus Cristo pagou o preço de nossos pecados e nos reabriu as portas do Céu. Infelizmente, porém, o homem continua a ofendê-Lo, a cada vez que transgride os mandamentos divinos. E a cada vez, o infinito perdão de Nosso Senhor se oferece àquele que, com firme propósito de emenda, procura a assistência de um confessor.
    Acompanhemos a conclusão das considerações de Dr. Plinio sobre o Sacramento da Reconciliação, dirigidas a um auditório de jovens ouvintes.

     

    A  metáfora das esculturas de moços que adquirem vida insuflada por Deus, e modelam ou deformam sua fisionomia moral conforme pratiquem a virtude ou se entreguem ao vício, ajuda-nos a compreender como o pecado ofende o Senhor. Este, desde toda a eternidade, pensou em nos criar com as maravilhas que depositou em cada um de nós. Não há homem que não seja uma obra-prima d’Ele. O mais coxo e estropiado, o mais desagradável de trato, possui um lado de alma por onde foi chamado a ter determinada perfeição moral como nenhum outro teve nem terá.

    Cada homem representa mais para seu genitor do que a escultura para o artífice. O pai ama mais o filho do que o escultor a escultura. Ora, criar é superior a gerar. Assim, Deus ama mais a criatura do que o pai ama o filho, ou o artista a sua realização em pedra. Com sua visão simultânea do passado, presente e futuro, Deus acompanha os passos de todos e cada indivíduo. E não apenas os nossos movimentos externos, nossas atitudes e gestos, mas, sobretudo, o que vai em nossa alma, a todo instante. Conhece o que pensamos, queremos, sentimos, seja em relação ao bem, seja quanto ao mal. Com sua onipresença augusta, vê cada criatura como se só esta existisse.

    Nosso Senhor sofreu em vista dos nossos pecados

    Como consideramos naquela metáfora, o escultor se aflige com a “escultura” que decai. O mesmo, entretanto, não se pode dizer de Deus com relação ao filho que peca. O Padre Eterno, causa de sua própria felicidade, possui no Céu o gáudio completo e imperturbável que nenhuma ofensa ou acontecimento contrário aos seus desígnios, neste mundo, é capaz de incomodar. Deus não sofre.

    Podemos, contudo, dizê-lo no tocante ao Homem-Deus, unido hipostaticamente à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, encarnado no seio puríssimo de Maria Virgem, para redimir o gênero humano. Do alto da Cruz, Jesus Cristo discerniu todos os nossos atos de virtude, tendo-se dado por bem pago. E também todos os nossos pecados, sofrendo por causa deles, com gemidos e estertores, a ponto de exclamar: Meu Pai, meu Pai, por que me abandonastes? (Mt 27, 46), e, por fim, bradar: Tudo está consumado (Jo 19, 30).

    Nosso Senhor padeceu com a intenção de nos salvar, acompanhando com sua presciência divina o que haveríamos de fazer. Conforme as explicações de alguns estudiosos da Paixão, do ponto de vista médico, Jesus, como todos os condenados à crucifixão, estava com os braços estendidos e os pés sobre um pequeno apoio, tal como aparece nas imagens do Crucificado. Permanecendo muito tempo nessa posição, a pessoa começa a sentir falta de ar. Para respirar melhor, é obrigada a se levantar ou abaixar um pouco. Ora, cada vez que o Redentor fazia esses movimentos — e à medida que o ar diminuía, eram eles mais freqüentes e intensos — os pregos cravados nos sagrados pés e mãos rasgavam mais os seus músculos. De maneira que Ele fugia de uma aflição para uma dor, e de uma dor para uma aflição.

    Todo esse martírio, Nosso Senhor deu por bem empregado, por amor às suas “esculturas”. Como Lhe seria fácil ordenar às legiões de anjos do seu Pai que viessem libertá-Lo daquela situação, fazendo-O descer de modo triunfante do patíbulo ao qual fora condenado! Em seguida, caminharia serenamente em direção à casa de Anás e Caifás, ao pretório de Pilatos, com tanta suavidade que seus algozes ficariam estarrecidos de pavor. Que vitória magnífica!

    Porém, quis padecer aquele tormento até o fim, transpor os umbrais da morte e nos abrir as portas do Céu. Tudo para salvar cada um dos homens. Esta é a realidade.

    Nobreza e elevação do arrependimento

    Devemos ter presente esse sacrifício inaudito que custou nossa salvação, quando fizermos o exame de consciência e trazermos a lume os pecados que cometemos. “Que fiz eu? Infligi outros tantos tormentos Àquele que tanto me amou! Desfigurei minha alma com as faltas cometidas. Fui relapso, mole, não evitei as ocasiões de pecado, cedi às tentações, ofendi a Nosso Senhor. Não combati como deveria os meus defeitos, e estes me dominaram. Ora, o Criador me concedeu tantos dons! Depois que fui batizado, e até certo tempo de minha infância, era uma pessoa inocente. Anjos esvoaçavam em torno de mim, cantando a nova maravilha que Deus havia criado. Ou seja, eu mesmo. E agora penso em que estado se encontra minha alma! Meu Deus, pequei!”

    Essa atitude caracteriza o verdadeiro arrependimento. Como a contrição é nobre, razoável, elevada! Diante de alguém assim contrito, tem-se o desejo de ajoelhar ao seu lado e pensar: “Como eu quereria que essa lepra do pecado fosse curada em sua alma. Mãe de Deus, Maria Santíssima, Vós podeis tudo com vossas súplicas irresistíveis; sois a Co-redentora do gênero humano; por vosso intermédio, recorro a Deus. Salvai este meu irmão. Arrancai-o de tal pecado e de tal vício. Estou disposto a sofrer por ele, conquanto que melhore”.

    Quão belo é ver alguém que, estando num triste estado de culpa, faz seu exame de consciência para em seguida se confessar! Que maravilha há nessa atitude de alma!

    Porém, às vezes o espírito humano é tão miserável que todas essas considerações não lhe bastam. Ele não se arrepende. Pensa: “O pecado é tão agradável, que voltarei a cometê-lo”. Entretanto, sem que perceba, conserva no fundo do coração um resto de amor a Deus. Um anjo sussurra-lhe ao ouvido palavras de temor, recebe uma graça e cogita: “Que louco sou eu! Transformei-me num trapo moral. Se não me arrepender e continuar a pecar, e morrer nessa situação, serei condenado ao inferno por toda a eternidade. Oh! horror! Expulso da presença de Deus para todo o sempre, porque não O amei como devia. E a qualquer momento posso morrer… Com o auxílio da graça e a proteção de Nossa Senhora, não pecarei mais!”

    A necessidade do firme propósito

    Além do arrependimento, é necessário o firme propósito de nunca mais ofender a Deus. A palavra “nunca” merece ser analisada com profundidade. A pessoa tem de pensar no que lhe cumpre renunciar para não voltar a cair. E estabelecer um programa de emenda que a possibilite permanecer na prática da virtude.

    Digamos, por exemplo, que ela seja obrigada a fazer determinado percurso, todos os dias, para ir ao trabalho, ao colégio, etc. No caminho há uma banca de jornal onde, além dos periódicos, estão também expostas revistas imorais que constituem para ela ocasião próxima de pecado.

    Ou a pessoa se sente fortalecida pela graça e nunca mais deitará olhares para a banca, ou tem de tomar a deliberação de mudar seu trajeto, para evitar de uma vez por todas aquela perigosa proximidade com o pecado: “Andarei pelo outro lado, embora seja um caminho mais longo. Sirva para me humilhar e formar minha vontade na linha do bem”.

    Importa, pois, estudar o que se deve fazer para não cair novamente.

    Outro exemplo: as más companhias. O pecador arrependido deve pensar: “Tal indivíduo tem sobre mim uma péssima influência e me conduz ao pecado. Se ele portasse uma doença contagiosa, eu o evitaria? Provavelmente. Ora, com seus defeitos e maldades conscientes, ele transmite a pior das doenças, que é a falta grave contra Deus, e não vou evitá-Lo? Onde está meu firme propósito de emenda?”

    Como é igualmente belo ver uma pessoa que pesa essas circunstâncias e sente no seu interior a força, inspirada pela graça, de dizer: “Não mais cometerei pecado”, e cumpre seu propósito!

    O reerguimento após anos de quedas

    Por vezes a pessoa não tem essa força, mas deseja seriamente não cair, e sabe que, na hora da tentação, pelos rogos de Nossa Senhora, obterá a graça de resistir. Diz à Santíssima Virgem: “Vede que mulambo sou eu. Sinto-me fraco, nem sinto desejo de que me concedais o vigor de alma necessário para vencer a tentação. Porém, rezarei tudo quanto possa e farei algum esforço, minha Mãe, para caminhar em direção a Vós. No momento, estou disposto a não cometer pecado. Estarei assim amanhã? Ah, minha Mãe…! Não sei. Mas desejo querer. Tende pena de mim e obtende-me o perdão”.

    Após essa prece, ela recebe um graça e persevera no bom caminho.

    Há casos de pessoas que caem inúmeras vezes no pecado e, por fim, se reerguem definitivamente. Já comentamos em outras ocasiões o fato tocante narrado por Louis Veuillot — célebre escritor católico francês do século XIX — em seu livro Perfume de Roma. Conta ele que, durante sua visita à Cidade Eterna, estando junto aos muros de uma velha igreja, reparou numa pedra na qual se distinguiam certas inscrições. Leu-as, anotou-as e as publicou: “Ano tanto, tal data: perdão, meu Deus, pequei! Confessei-me no dia tal. Dia tanto: perdão, meu Deus. Pequei e mais gravemente. Confessei-me…”

    Em síntese, tratava-se de um diário de quedas e ascensões sucessivas, ao longo de anos. Aos poucos aquela alma ia melhorando, adquirindo novas energias morais, e subiu lentamente a imensa montanha da vida espiritual. Em certo momento, recebeu uma graça insigne, emendou-se de modo completo, e escreveu na pedra: “Aleluia! Magnificat! Neste ano, não pequei mais!”

    Impressionado, Louis Veuillot comenta que, se essa pedra estivesse salpicada com sangue de mártires vertido no Coliseu, ele não a veneraria mais do que como então se apresentava a ele, “tingida” do sangue de uma alma contrita e humilhada.

    Como isso é verdade!  E esse sangue, nós o podemos verter pela prática assídua da confissão, seguida da Comunhão.

    A paz restabelecida entre Criador e criatura

    Após o exame de consciência, contrita, detestando cada um dos seus pecados, a pessoa diz para si mesma: “Não tive vergonha de cometê-los, não devo ter vergonha de declará-los ao sacerdote. Vou contá-los para me humilhar”.

    Dirige-se ao confessionário, ajoelha-se e afirma: “Padre, andei mal! Fiz tais coisas, com tais agravantes. Perdoai-me!”

    Esta é a hora verdadeiramente celeste. O ministro de Deus ergue sua mão e traça o sinal da salvação, dizendo: “Eu te absolvo dos teus pecados, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.

    Então sucede algo que escultor algum poderia dar a uma estátua viva: a graça para não pecar mais. O pecador se inclinara diante do padre como um miserável verme, uma larva que se arrasta na terra e, de repente, torna-se borboleta e começa a voar! É a indizível beleza da alma que se ajoelha desfigurada pelo pecado e se ergue limpa e justificada. Aceitando a penitência imposta pelo sacerdote, recebe a absolvição.

    Uma vez mais, estão seladas as pazes entre o pecador e Deus, entre o Criador e a criatura.

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • Vós sois Rainha

    “Em mim, ó minha Mãe, Vós sois Rainha. Eu reconheço o vosso direito e procuro atender às vossas ordens.

    Dai-me ‘lumen’ de inteligência, força de vontade, espírito de renúncia para que as vossas ordens sejam efetivamente obedecidas por mim. Ainda que o mundo inteiro se revolte e Vos negue, eu Vos obedeço.”

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 31/5/1975)

  • Rainha dos Apóstolos

    Como Nossa Senhora exercia sua realeza sobre os Apóstolos?

    A situação era, debaixo de todos os pontos de vista, delicada; uma dessas situações que a sabedoria divina, por assim dizer, se empenha em resolver com brilho especial. A Santíssima Virgem era Rainha do Céu e da Terra. Portanto, Rainha e Mãe da Santa Igreja Católica. Porém, na Igreja, Ela não possuía um cargo especial de jurisdição.

    Quer dizer, a Hierarquia Católica foi, desde o primeiro instante, constituída essencialmente pelo papa, pelos bispos e pelos sacerdotes incumbidos de participar, com os bispos e sob a ordem destes, do governo da Igreja. Ora, Nossa Senhora, sendo do sexo feminino, não podia pertencer à Hierarquia. Isso criava, então, uma situação bonita e complexa: Ela era Rainha da Igreja, mas na Igreja era súdita daqueles de quem Ela era Rainha. E Maria Santíssima devia prestar, enquanto membro da Igreja discente, homenagem, reverência, obediência àqueles de quem Ela era Rainha.

    Mas, de outro lado, ponham-se, por exemplo, na posição de São Pedro — o Chefe da Igreja, o Príncipe dos Apóstolos: dar ordens a Nossa Senhora, sua Rainha? Ele ordenava e Ela obedecia. Mas, pensem um pouco… Que Rainha!

    Imaginemos — para termos uma pálida ideia dessa situação — que a esposa de um rei fosse, de repente, parar numa ilha que é dirigida por um governadorzinho qualquer das terras de seu marido. A função de governador é dele, a rainha reinante propriamente não governa. Mas como ele vai dispor a respeito da rainha?

    E essa comparação não é inteiramente verdadeira. Porque Nossa Senhora não era Rainha apenas, mas Esposa do Divino Espírito Santo e Mãe do Rei da Igreja, que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Ela possuía uma autoridade de outra natureza, de outro tipo, sobre a Igreja Católica.

    Ela obedecia a São Pedro, de uma obediência efetiva, humilde, enlevada, cheia de entusiasmo; nunca ninguém obedeceu melhor à Sagrada Hierarquia do que a Santíssima Virgem, porque, sendo a obediência à Sagrada Hierarquia uma virtude essencial, então Nossa Senhora a praticou de um modo inconcebivelmente perfeito. Mas, de outro lado, Ela possuía esse reinado sobre as almas dos Apóstolos, que Ela exercia de modo perfeito.

    Quer dizer, Nossa Senhora tinha um conhecimento, antes de tudo, profundo, bem entendido, sobrenatural, da mentalidade de todos os Apóstolos, sacerdotes e discípulos de Nosso Senhor. Ela privava, conversava com eles.

    O que era esse conversar? Não pensemos que consistia apenas numas consultinhas. Devia ser normalmente um trato por onde eles e Nossa Senhora discorriam; não iam eles contar novidades insípidas, banais, mas falavam das coisas de Deus e de tal maneira que havia uma comunicação de alma, propriamente uma conversa.

    Naturalmente, compreendemos como seria a conversa de qualquer pessoa com Nossa Senhora. Quer dizer, a pessoa balbucia alguma coisa e Ela se põe a falar. O resto é enlevo, veneração, admiração, é absorção e tudo quanto podemos imaginar.

    Mas eles também diziam algo. Não eram solilóquios em que apenas Ela falava. Eles conversavam. E, como boa Mãe, Maria Santíssima gostava de ouvir o que eles tinham a dizer. E Ela sabia qual a missão de cada um na Igreja, porque conhecia o passado, o presente e o futuro; na economia da Providência, Nossa Senhora conhecia não só a função que eles tinham, ou teriam, mas o que Deus queria que fizessem: de um, que convertesse um povo; de outro, que morresse lapidado; de outro, que construísse uma igreja; de outro, que transpusesse o mar e fosse fundar uma cristandade num ponto remoto.

    Conhecendo tudo isso, em todo trato que tinha com eles, Ela ia dispondo a alma de cada um de acordo com os desígnios de Deus. Daí decorria um convívio lindíssimo, maravilhoso, que os Apóstolos e os que se aproximavam d’Ela sabiam notar e respeitar no mais alto grau.

    Vemos assim o efeito de Pentecostes. Os Apóstolos, que tinham tratado com Nosso Senhor, foram tão frios com o Redentor na hora extrema; dir-se-ia que não entenderam Nosso Senhor. Mas depois de terem recebido o Espírito Santo, a vista deles ficou inteiramente clara; conhecendo a Mãe de Deus, insondavelmente perfeita, mas infinitamente inferior a Nosso Senhor Jesus Cristo, eles, entretanto, sabiam admirá-La, dar-Lhe o apreço e a veneração que deviam.

    Assim, na Igreja nascente Ela irradiava, para um círculo inicial de pessoas, toda essa beleza. Houve, então, um altíssimo grau de devoção a Nossa Senhora. E a primeira expansão da Igreja foi intensamente iluminada por este fogo maravilhoso: a presença e a ação de Maria Santíssima.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência  de 31/5/1972)

     

  • Rainha e Mãe…

    Trazendo em seu seio virginal o Salvador do gênero humano, Maria Santíssima foi, de algum modo, Rainha do sagrado fruto de suas entranhas, o Messias esperado das nações!

     

    Qual é o fundamento da realeza de Nossa Senhora? Por que Ela é Rainha? Em que consiste esse título?

    Antes de tudo, cumpre considerar que convém a um rei ser filho de uma rainha. Ora, sendo Nosso Senhor Jesus Cristo Rei de todos os homens — quer enquanto Deus, quer enquanto homem —, a realeza de Nossa Senhora resulta do fato de ser Ela a Mãe do Rei. Entretanto, há também uma razão muito mais profunda.

    Virgem concebida sem pecado original, cujas orações trouxeram o Salvador ao mundo

    Desde o pecado de Adão, havia quatro mil anos de separação entre Deus e os homens, durante os quais não se podia ir para o Céu, ficava-se no Limbo à espera do momento em que Nosso Senhor Jesus Cristo nascesse e resgatasse a humanidade.

    Aguardava-se, então, que Deus criasse aquela Virgem excepcional, dotada de uma santidade e de uma perfeição que os homens jamais poderiam imaginar, de cujo ventre nasceria o Salvador.

    Vendo qual era o estado miserável da humanidade, Maria Santíssima pedia a Deus que enviasse o Salvador à Terra nos seus dias. Ela ansiava também conhecer a Mãe do Salvador e poder servi-La como criada ou escrava. Podemos imaginar o que deve ter sido o estremecimento de alma de Nossa Senhora quando teve conhecimento, pela saudação angélica, de que essa pessoa era Ela mesma. Qual foi o sobressalto virtuoso, santo e ao mesmo tempo jubiloso da alma d’Ela, vendo que era escolhida para ser a Mãe de Deus?!

    Então compreendemos bem a perfeição da resposta da Virgem ao Anjo: “Eis a escrava do Senhor, faça-se em Mim segundo tua palavra” (Lc 1, 38). Quer dizer: “Eu julgava que não merecia, não estava ao meu alcance, mas, uma vez que vem de Deus o convite, faça-se em Mim segundo a tua palavra”. Nesse momento o Espírito Santo atuou em Nossa Senhora e foi concebido n’Ela Nosso Senhor Jesus Cristo.

    As relações de alma entre o Filho e a Mãe durante a gestação

    Começava então o período belíssimo em que Nosso Senhor Jesus Cristo vivia em Maria. Durante todo o tempo da gestação, Ela foi o sacrário dentro do qual Nosso Senhor dava glória ao Padre Eterno.

    Pelo conhecido processo do desenvolvimento da criança no claustro materno, Ele recebia d’Ela, continuamente, os elementos necessários para a formação de seu corpo. Mas não devemos imaginar que esta relação tão íntima entre a mãe e o filho, quando este vive no claustro materno, fosse apenas física e corpórea. Era também uma relação espiritual e sobrenatural.

    À medida que, do corpo e do sangue de Maria, Nosso Senhor ia formando o seu próprio Corpo, estabeleciam-se relações de alma entre Ele e Ela cada vez mais íntimas, de maneira tal que, no momento do nascimento, o processo de união de Jesus com Nossa Senhora também chegou a seu termo. E em Belém, quando Ela, pela primeira vez, O contemplou com seus próprios olhos, havia terminado um processo intimíssimo de união cujo verdadeiro alcance só poderemos compreender no Céu, na medida em que não haja nessa realidade tão sublimes mistérios que sobrepujem a qualquer compreensão.

    Nossa Senhora foi, de algum modo, Rainha de Nosso Senhor Jesus Cristo

    Mas não devemos imaginar que, nascendo Nosso Senhor, a união d’Ele com Ela diminuiu; pelo contrário, sendo a Virgem Maria cada vez mais santa e perfeita, a união d’Ela com Ele se desenvolvia sempre mais, de maneira que aquela união havida durante toda a gestação de Nosso Senhor Jesus Cristo, depois do nascimento foi crescendo ainda mais. E Nossa Senhora tinha mais união com Ele no momento da morte de Jesus do que em qualquer outra ocasião da vida, porque ali as relações entre os dois tinham chegado a um ápice.

    Ou seja, quando vivia em Nossa Senhora, Jesus estava em relação a Ela numa dependência completa, como está o filho no claustro materno, o qual não tem vontade própria, mas depende inteiramente da mãe. Nosso Senhor não iria ficar “independentoso” depois que nasceu. Pelo contrário, celebra-se  a obediência, a união d’Ele com seus pais. Quer dizer, Nossa Senhora foi tendo uma autoridade materna cada vez mais enriquecida em relação a Nosso Senhor, até o momento d’Ele morrer.

    Então, a esse título, Nossa Senhora foi, de algum modo, Rainha de Nosso Senhor. E quem é Rainha de Nosso Senhor é Rainha de tudo, evidentemente. E a realeza de Maria vem do poder e autoridade que Ela exerceu sobre Aquele que é o Poder e a Autoridade, e que Nossa Senhora conservou até o fim de seus dias, e tem no Céu.

    Assim compreendemos por que Nossa Senhora é chamada a onipotência suplicante. Ela não é senão uma criatura humana, uma escrava de Deus. Mas, como Mãe de Deus, sua súplica é onipotente. É pela vontade de Deus que todos os desejos d’Ela são atendidos. Aquela que sempre é atendida por Aquele que é o Rei do Universo, evidentemente é a Rainha do Universo. A realeza de Maria tem como ponto de partida a realeza d’Ela sobre Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Então é uma realeza que contém todas as outras realezas, todas as alegrias, todos os direitos, etc. A autoridade d’Ela sobre a Igreja, sobre cada católico, resulta deste fato: Ela é a Mãe de Deus e tem com Deus essa relação. Então Ela é a Rainha.

    Por ser a Medianeira Universal, Nossa Senhora é a Rainha de cada alma individualmente

    O que significa a realeza de Maria vista, não desse ângulo altíssimo, mas num aspecto mais acessível à consideração de todos nós, homens?

    Todas as nossas preces, todos os nossos atos de adoração, de ação de graças, de reparação, de louvor que queremos fazer subir ao trono de Deus, devem ser feitos por meio de Nossa Senhora.

    E, em sentido inverso, todos os dons que recebemos dos Céus nos vêm por meio de Nossa Senhora. De maneira que Ela é o canal necessário entre nós e Deus. Não necessário pela natureza das coisas, mas Deus, por um ato de sua vontade livre, estabeleceu que fosse assim. Ela é, portanto, a Medianeira de todas as graças.

    É verdade de Fé que tudo aquilo que todos os santos pedissem, não por intermédio de Nossa Senhora, eles não receberiam. Mas tudo quanto Maria Santíssima pede, sem que nenhum santo peça, Ela recebe. Compreendemos, então, que qualquer oração que um de nós faça, ou é encaminhada por meio de Nossa Senhora, ou Deus Nosso Senhor ignora. Ela é a Medianeira Universal de todas as preces que vão para Deus, o canal de todas as graças que Deus concede aos homens.

    Esta grande verdade coloca Nossa Senhora na posição que Ela deve tomar no culto católico. E está, em larga medida, imbricada no livro de São Luís Grignion de Montfort a respeito da verdadeira devoção a Maria Santíssima. Quer dizer, o princípio da escravidão a Nossa Senhora se funda em grande parte nessa verdade, que faz par com a verdade de que a Santíssima Virgem é a onipotência suplicante.

    Minha vida é, em última análise, dirigida, ritmada, orientada segundo os desígnios da Providência, de acordo com as graças que eu recebo. Então, Nossa Senhora é minha Rainha, e Ela dispõe de mim como quer. Minha vida espiritual tem Maria Santíssima como centro. Ela é, portanto, Rainha de cada alma individualmente, pois, concedendo essas graças, Nossa Senhora governa as almas. Ela é, portanto, Rainha de todas as almas, Rainha dos Corações.

    A Rainha dos Corações, pela ação da graça

    Esta é uma linda invocação, cujo sentido é preciso entender, e que está muito relacionada com a devoção a Nossa Senhora conforme a escola de São Luís Maria Grignion de Montfort.

    O que vem a ser a Rainha de todos os corações?

    O coração não é principalmente símbolo da ternura e do afeto. Na linguagem da Escritura, que é evidentemente o sentido empregado pela Igreja quando fala de Nossa Senhora Rainha dos Corações, o coração significa o ânimo, a mentalidade, a vontade do homem.

    Ser Rainha dos Corações significa que Maria Santíssima tem poder sobre a mente e a vontade dos homens. Ela pode desvencilhar os homens dos defeitos que eles têm e tornar tão vivo o atrativo para o bem, que os leve — não por uma imposição tirânica, mas pela ação da graça — para onde Ela entenda. Então, Nossa Senhora Rainha dos Corações é, por excelência, Nossa Senhora Rainha.

    Nossa Senhora é também a Rainha da sociedade humana

    Como Maria Santíssima é Rainha do coração, da mentalidade de cada homem individualmente considerado, podemos dizer que Ela é Rainha da sociedade humana, da opinião pública, porque esta não é senão todas as mentalidades enquanto imbricadas umas nas outras, influenciando-se reciprocamente.

    O que quer dizer isso concretamente?

    Deus não criou o universo ao acaso; tudo que Ele faz é com conta, peso e medida. Consideremos o número enorme de camarões que existem no mar, e o número dos que houve desde o início do mundo e haverá até o fim. Essa imensa quantidade de camarões forma uma coleção que exprime a natureza “camarônica”, se assim se pudesse dizer, em todos os seus aspectos, de maneira que quando chegar a vez do último camarão criado se extinguir, está constituída uma série admirável de camarões que desapareceram, mas ficam nas realizações de Deus, na história do universo como uma perfeição que Deus fez.

    Assim também, quando estiverem reunidos no vale de Josafá para serem julgados, os homens notarão que são uma coleção e que tudo quanto há na natureza humana de possível foi de algum modo expresso por cada homem. De maneira que na obra de Deus faltaria algo se tal homem não tivesse sido criado. Cada um tem um papel num plano sublimíssimo, que se revelará por ocasião do Juízo Final. E depois ficará revelado para todo o sempre qual foi o plano de Deus com o gênero humano, e quais pessoas foram chamadas para o Céu porque mereceram, e quais foram para o Inferno.

    Assim, os homens são passíveis de serem vistos num olhar de conjunto. E o gênero humano visto em torno d’Aquele que é a sua expressão mais perfeita, e contém e sublima tudo quanto há no gênero humano de belo: Nosso Senhor Jesus Cristo. E, infinitamente depois d’Ele, mas incomensuravelmente antes de todos os homens, a Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, Nossa Senhora.

    Essa coleção dos homens que há, houve e haverá se chama gênero humano. E dentro do gênero humano não existe um salto. Os grandes saltos não estão na regra geral da obra do Criador. Entre o gênero humano e cada homem individualmente, existem os grandes grupos humanos, que são as raças. Dentro das raças, as nações; dentro das nações, as regiões; das regiões, as cidades; das cidades, as famílias; e dentro das famílias, os homens. Quer dizer, formam um conjunto de grupos que ligam o homem ao grupo supremo, que é o gênero humano; constituem então, de A até Z, a estrutura da humanidade.

    Nesse sentido o que é uma nação, um país? É, por sua vez, uma espécie de coleção, um dos aspectos da humanidade que se revela de certo modo; um denominador comum de todos os homens que constituem aquela nação e que exprimem uma virtualidade da natureza humana. Esse todo repete de algum modo dentro de si o que é o gênero humano. Essa coleção é como um mosaico constituído pelos indivíduos vivos, mas que têm uma projeção na História e uma continuação naqueles que viverão. É propriamente isto que constitui, na sua visão completa, a sociedade humana.

    Nossa Senhora é, então, Rainha desta enorme alma coletiva — se se pudesse usar esta metáfora — da humanidade, que é a opinião pública, com todas as interações, as interinfluências que a constituem.

    Uma sociedade que aceita o governo de Nossa Senhora

    Como é uma sociedade que obedece a Nossa Senhora? Santo Agostinho definiu isso perfeitamente, apresentando uma imagem magnífica da sacralidade, do respeito, da ordem, do bem-estar da alma e do corpo.

    Contra a afirmação dos pagãos de seu tempo de que a causa de tantas desordens no mundo era o fato de haver católicos, o Bispo de Hipona fez a seguinte apóstrofe: “Imaginai um reino onde o rei e os súditos, os generais e os soldados, os pais e os filhos, os professores e os alunos são católicos e procedem de acordo com a Doutrina Católica! Vós tereis a ordem humana perfeita. Ordem de paz, de glória, de sabedoria, de esplendor, de felicidade”.

    Essa é a ordem que nasce do fato de todo mundo fazer a vontade de Deus, e, portanto, a de Nossa Senhora, que é a Rainha. Essa é a descrição da ordem humana, tão completamente diversa da desordem que hoje reina.

    Qual é a razão pela qual reina essa desordem? No livro “Revolução e Contra-Revolução” tentamos explicar isso. A humanidade rompeu com Nosso Senhor Jesus Cristo e com Nossa Senhora, rompendo com a Santa Igreja, porque só está unido a Nosso Senhor Jesus Cristo e a Nossa Senhora quem está unido à Santa Igreja Católica. Rompendo cada vez mais com a Santa Igreja, a desordem foi entrando no mundo até esse auge em que estamos atualmente.

    Então há os que são chamados para restaurar essa ordem, implantar o Reino de Maria: a sociedade humana fazendo a vontade de Nossa Senhora. Porque Nossa Senhora é a Rainha efetiva de cada alma, dos grupos humanos menores: família, município, região; e dos grupos humanos soberanos: nações. Porque Ela é a Rainha efetiva do gênero humano. Daí deve nascer aquela ordem perfeita que algum dia existirá na sua plenitude, antes do mundo acabar.

    Rainha de cada um e do mundo inteiro

    Então nós não olhamos apenas com saudades para as épocas católicas que foram, mas, sobretudo, com esperança para a época católica que virá, o Reino de Maria, onde todas as coisas serão assim.

    Devemos viver apenas de uma grande saudade e de uma grande esperança? Não. Nós temos a possibilidade, cada um dentro de si mesmo, de proclamar o Reino de Maria, dizendo: “Em mim, ó minha Mãe, Vós sois Rainha. Eu reconheço o vosso direito e procuro atender às vossas ordens. Dai-me ‘lumen’ de inteligência, força de vontade, espírito de renúncia para que as vossas ordens sejam efetivamente obedecidas por mim. Ainda que o mundo inteiro se revolte e Vos negue, eu Vos obedeço”.

    E nessa torrente de desordem e de pecado que há na Terra, a alma de quem afirma isso é como um puro e adamantino brilhante. Assim, Nossa Senhora continua a ter uns enclaves no mundo: aqueles que a Ela se consagram, reconhecem todo o poder d’Ela sobre eles e dizem: “Esteja o mundo revoltado como for, eu me levanto e declaro: em mim Maria Santíssima manda, e por causa disso começo a Contra-Revolução, para que Ela mande também nos outros”.

    É a realeza de Nossa Senhora vista por dois lados: enquanto mandando em mim e, em segundo lugar, fazendo de mim um soldado da Contra-Revolução. Quer dizer, um varão que luta para tornar efetiva a realeza de Nossa Senhora na Terra.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 31/5/1972,  31/5/1974 e 31/5/1975)

  • Rainha da graça

    Maria é o receptáculo no qual se encontram todas as graças criadas por Deus. Ela é tão imensa na ordem da virtude e da santidade, que corresponde de modo superexcelente a essa torrente de graças, que A faz grande como ninguém.

    Proclamada a Rainha da graça, é a Rainha da ordem sobrenatural e, portanto, Rainha por plenitude.

    Eu gostaria de ver uma catedral dedicada a Ela, onde se unissem num só olhar, estes dois aspectos: Rainha intangível, mas curvada, com um sorriso, sobre os mais indignos e miseráveis, a dizer-lhes: “Continuo sendo vossa Mãe, e por isso me curvo até vós, por mais que estejam baixo. Até lá chega minha misericórdia e vos salva!”

    Essa harmonia que reúne os dois extremos da Criação é mais um título da grandeza d’Ela.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 25/9/1990)

  • Santo Estevão – Perfeito guerreiro e devoto de Nossa Senhora

    A Igreja, vista na sua totalidade, possui uma harmonia de aspectos opostos, mas afins, que mostra toda a sua beleza. Santo Estêvão foi um exemplo dessa harmonia: incomparável em toda forma de misericórdia, mas por isso mesmo um homem forte, combativo, que lutou intrepidamente pelo bem.

     

    As fichas a serem comentadas hoje versam sobre a vida de Santo Estêvão, Rei da Hungria, retiradas do livro Vida dos Santos, de Rohrbacher(1).

    Particular devoto da Santíssima Virgem

    Santo Estêvão é o grande monarca a cujo Batismo se deveu a conversão da nação húngara, até então pagã. O que Clóvis foi para a França, ele significou para a Hungria, com a imensa diferença de que Clóvis se converteu, mas ficou muito longe de ser um santo. Enquanto, pelo contrário, Estêvão foi um verdadeiro santo. Também os descendentes imediatos de Clóvis não foram santos, mas Santo Estêvão teve um filho canonizado: Santo Américo, sucessor de seu pai no trono real.

    Esta primeira ficha nos traz um dado especial sobre Santo Estêvão: sua devoção a Nossa Senhora.

    Santo Estêvão sempre manifestou predileção particular pela Santíssima Virgem. Por meio de um voto especial, colocou sua pessoa e seu reino sob a proteção de Nossa Senhora. Quanto aos húngaros, ao referirem-se à Mãe de Deus, não Lhe davam o nome de Maria, ou qualquer outro; diziam apenas “A Senhora” ou “Nossa Senhora”. À simples menção dessas palavras, inclinavam a cabeça e dobravam o joelho.

    O santo rei mandou construir em Alba Real magnífica igreja em honra da Rainha do Céu. Os muros do coro eram ornados de esculturas, o piso de mármore, possuía várias mesas de altar de ouro puro, enriquecidas de pedrarias, e um tabernáculo para a Eucaristia maravilhosamente trabalhado. O tesouro estava repleto de vasos de ouro e prata, cristal e de ricos paramentos.

    Santo Estêvão sempre desejou, pedindo mesmo em suas orações, que sua morte ocorresse no dia 15 de agosto, Assunção da Santíssima Virgem. Sua vontade foi satisfeita. Antes de expirar, erguendo as mãos e os olhos, exclamou: “Rainha do Céu, Co-Redentora do mundo, é ao vosso patrocínio que entrego a Santa Igreja, com os bispos e o clero, o reino com os grandes e o povo”; e, tendo recebido a Extrema-Unção e o Santo Viático, rendeu a sua alma.

    Guerreiro e juiz

    A segunda ficha apanha outro aspecto da personalidade dele: Santo Estêvão, guerreiro e juiz.

    À piedade e ao zelo de um apóstolo, Santo Estêvão da Hungria juntava a coragem de um guerreiro e herói. Nas instruções a seu filho, Santo Américo, ele próprio observa que passara quase toda a sua vida na guerra, repelindo invasões de nações estrangeiras. Logo que subiu ao trono, ainda duque – ele foi duque até o momento de se converter, quando o Papa o elevou à dignidade de Rei da Hungria –, procurou manter a paz. Porém, dirigidos pelos fidalgos, seus súditos, ainda pagãos, revoltaram-se. Pilhavam cidades e campos, matavam seus oficiais e insultavam o próprio Duque.

    O Duque Estêvão reuniu suas tropas e, levando nos seus estandartes a imagem de São Martinho e São Jorge, marchou contra os rebeldes que sitiavam Veszprém. Tendo-os derrotado, consagrou suas terras a Deus.

    Em 1002, tendo seu tio Gyula, Duque da Transilvânia, atacado a Hungria por várias vezes, Estêvão marchou contra ele, fê-lo prisioneiro, assim como sua família, e juntou seus Estados à monarquia húngara. Venceu e matou com as suas próprias mãos Kean, duque dos búlgaros. Com o mesmo êxito repeliu os bessos, povo vizinho da Bulgária. Mas sua justiça igualava seu valor. Atraídos por sua fama, sessenta bessos da nobreza deixaram sua terra, levando com eles famílias e riquezas, e vieram pedir ao santo Rei permissão para se estabelecerem no Reino da Hungria.

    Os fâmulos de um comandante de fronteira, levados pela cobiça dos despojos, atacaram-nos de improviso matando alguns, ferindo outros, e arrebatando os seus bens. Santo Estêvão deu ordem para que o comandante e suas tropas se apresentassem na corte. Ao defrontá-los, recriminou-lhes a desumanidade e comunicou-lhes que faria o mesmo com eles. Imediatamente mandou-os enforcar dois a dois em todas as avenidas do reino, a fim de que todos soubessem que a Panônia estava aberta aos estrangeiros e que nela encontrariam hospitalidade e proteção.

    A Civilização Católica é a fonte de todo bem e de toda grandeza temporal

    Aqui encontramos essas verdadeiras maravilhas da Igreja Católica sobre as quais jamais será suficiente insistir. Quando nos deparamos com uma acusação à Igreja, devemos procurar sua unilateralidade. Porque, em geral, tratando-se de uma acusação histórica, entra uma mentira; sendo uma acusação doutrinária, há uma unilateralidade. Os adversários da Igreja não querem tomar em consideração que ela, vista na sua totalidade, tem uma harmonia de aspectos opostos, mas afins, que faz toda a beleza da Esposa de Cristo. Aliás, também no universo, os contrários harmônicos constituem a beleza da ordem criada por Deus. Não se pode possuir verdadeiramente o espírito da Igreja se não se têm os olhos voltados para esta verdade e o espírito enlevado com ela.

    Essas duas fichas nos dão a fisionomia completa de Santo Estêvão e, portanto, da Igreja que o canonizou. Porque quando a Esposa de Cristo canoniza alguém, declara que esse Santo teve perfeitamente o espírito dela. De maneira que cada Santo, a seu modo, é uma imagem do espírito da Igreja. Assim, se raciocinarmos com uma lógica elementar, com um bom senso primário, encontramos a plena justificação de ambos os aspectos na vida de Santo Estêvão.

    Primeiro, o aspecto varonil e enérgico. Santo Estêvão está às voltas com inimigos irredutíveis que o odeiam por não ser pagão, querem depô-lo porque ele deseja trazer a luz do Evangelho para seu povo, e por isso se revoltam contra ele, dentro do reino, ou marcham de fora para o interior de seus domínios para exterminá-lo e eliminar a porção da nação húngara que já aderiu à verdadeira Fé. Esses homens são esses invasores, revoltosos, os inimigos da salvação eterna do povo húngaro.

    Ao mesmo tempo, são inimigos da soberania do povo húngaro, do direito que tem esse povo de escolher a verdadeira Fé, de atender ao apelo de Nosso Senhor Jesus Cristo, dessa liberdade que o homem tem quando obedece a Deus.

    Portanto, Santo Estêvão via seu povo atacado nos seus bens espirituais mais altos, porque a Fé é a fonte de todos esses bens, e agredido na sua própria soberania, no que ela tem de mais importante, porque o distintivo da soberania de uma nação é a mesma coisa do que o selo da liberdade de um homem: consiste em, sem embaraços, poder obedecer e servir a Deus. Essa é a própria definição de liberdade. Negar ao povo húngaro essa liberdade era recusar-lhe a sua soberania no que ela tem de mais essencial. Significava, ademais, comprometer o progresso do povo húngaro, porque a Civilização Católica, correspondendo inteiramente aos princípios da ordem natural e dando ao homem as forças sobrenaturais para obedecer aos princípios dessa ordem, é a fonte de todo bem e de toda grandeza temporal. De maneira que querer afastar a Fé católica de um país é desejar mantê-lo num paganismo abjeto e impedir seu verdadeiro progresso. Logo, tudo quanto consistia para a Hungria uma razão de ser e de viver estava empenhado nessa luta de Santo Estêvão.

    O centro da resistência de um país era o rei

    Naquele tempo a alma e o centro da resistência do país era o rei. O modo de desmantelar essa resistência era matar o monarca. Se um rei pagão pretendia eliminar Santo Estevão, não era belo, simbólico e nobre que o Rei santo o eliminasse com sua própria espada e suas próprias mãos? E que assim a infâmia cometida por um sangue régio fosse reparada pela fidelidade de outro sangue régio? Isso não é conveniente e bonito? Santo Estêvão cumpriu seus deveres de soberano, defendendo assim seu povo e a Santa Igreja Católica.

    Por que ele agiu de um modo tão enérgico com os indivíduos que mataram e roubaram essas pessoas que iam se asilar na Hungria? Elas pertenciam à própria nação do rei que ele tinha morto, ou que ia matar. Eram pessoas de categoria que, descontentes com o rei pagão, querendo se converter, passavam com seus rebanhos e suas economias para o território da Hungria. Elas chegam à fronteira – naturalmente desejavam se batizar – e pedem: “Nós queremos ingressar no reino de Estêvão e no reino de Cristo. Pedimos licença para entrar impunemente nós e os nossos.” Consulta-se o Rei, o qual diz: “Podem entrar, eu dou garantias para as pessoas e para os bens.” Abrem a fronteira e elas entram com toda a confiança, deixando as armas de lado – naquele tempo todo homem, sobretudo o chefe de família, era um guerreiro.  Mas aparecem uns bandidos infames que assaltam, matam algumas pessoas para serem donos dos haveres. São assassínios vulgares, agravados pelo aspecto da traição. Então, Santo Estêvão, que punia com pena de morte um assassinato comum, não haveria de mandar castigar esses homens? Alguém dirá: “Mas eles foram muitos.” Prova a mais de que se devia punir com pena de morte. Porque, se são muitos os criminosos, isso prova que o povo não está muito distante da prática desses crimes. E então é necessário punir para que o crime não se repita. O fato de serem muitos é uma prova a mais de que precisava punir.

    Praticou a justiça e a misericórdia ao mesmo tempo

    Ele cumpriu o dever inerente à majestade régia. O rei tem os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. É o supremo juiz do país. E os antigos, aliás muito acertadamente, consideravam o Poder Judiciário mais alto do que o Legislativo. Porque as Leis fundamentais são feitas por Deus. E o rei é o juiz que julga de acordo com as Leis fundamentais. O monarca não possui a plenitude do Poder Legislativo, enquanto o Poder Judiciário ele tem no sentido de que aplica a Lei de Deus. Então, Santo Estêvão agiu perfeitamente bem.

    Esse homem podia, portanto, quando rogava para Nossa Senhora, dirigir-se a Ela com o espírito completamente tranquilo, com a consciência inteiramente distendida. E verdadeiramente chamá-La de Mãe de Misericórdia, implorar a compaixão d’Ela porque ele usou de misericórdia. Ao castigar essa gente, Santo Estêvão foi misericordioso para com os que eram ou poderiam vir a ser vítimas desses homens maus, se não fossem intimidados; quer dizer, ele praticou a justiça e a misericórdia ao mesmo tempo. Então, nós deduzimos daí que Santo Estêvão agiu perfeitamente bem.

    Temos, então, a imagem do perfeito guerreiro e devoto de Maria. Incomparável no perdoar, no estimar, em toda forma de misericórdia, mas por isso mesmo homem forte, valente, que passou o tempo inteiro na luta.

    Fisionomia do combatente católico por excelência

    Lembro-me de que certa vez, conversando com um senhor de uma lógica muito estrita, muito clara, com base em premissas extremamente pobres e limitadas, abrangendo sempre uma parte infinitesimal do horizonte, ele me dizia:

    “Eu não gosto do livro Imitação de Cristo. Li e não compreendo, porque se eu fosse fazer constantemente o que está ali – voltar o outro lado do rosto, não tomar em consideração o mal que os outros nos fazem, perdoar sempre, etc. –, eu me deixaria roubar, saquear! É a conclusão lógica da Imitação de Cristo.”

    Pensei com os meus botões: Para esse homem não há explicação possível. Ou lhe faço um simpósio, que de nenhum modo ele quer ouvir, ou ele não pode entender isso, porque se colocou previamente fora das perspectivas necessárias para essa compreensão.

    É preciso exatamente compreender que a Imitação de Cristo foi escrita para um ambiente no qual esses princípios que apresentei eram claríssimos, e havia até a tendência a exagerar o lado belicoso. Então, a Imitação de Cristo constituía uma nota dentro de um concerto, ou seja, a insistência em uma das vias que, conjugada com a outra, dá a perfeição da Moral Católica.

    Sem dúvida, sempre que possível é preferível perdoar, praticar a mansidão e não a violência. Mas não sendo possível é preciso arregaçar as mangas e lutar!

    Nisso se vê nossa fidelidade aos princípios da Igreja Católica, pelo auxílio e bênção de Nossa Senhora. Por vezes, as pessoas não compreendem o desassombro com que enfrentamos o que imaginam ser a opinião pública. De outro lado, não entendem também como somos corteses, gentis, amáveis e nunca tomamos a iniciativa do ataque. Entretanto, quando atacados, damos uma surra! É a fisionomia do combatente católico por excelência: enquanto não me agridem, não agrido. Porém, ai de quem me agredir, porque saio “com um quente e dois fervendo!”(2) É uma pequena aplicação do que acabamos de ver na vida de Santo Estêvão.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 10/9/1971)

     

    1) Cf. ROHRBACHER, René François. Vida dos Santos. São Paulo: Editora das Américas, 1959. vol. XV, p. 423, 428-430 e 442.

    2) Antiga expressão popular portuguesa, significando aqui uma reação imediata e indignada.

  • Harmonia: uma criatura de Deus

    Deus é admirável em todas as suas obras. Quando se enuncia esse princípio, o espírito se volta naturalmente para os seres de várias ordens por Ele criados, desde a pedra até o Anjo. Mas há algo também criado por Deus que não são os seres individuais: é o movimento universal de todas as coisas.

    Beleza própria do Universo

    Não podemos ter uma visão estática do universo, mas devemos considerar que o Criador comunicou-lhe movimento, o qual tem uma pulcritude própria, obedece a regras específicas e reflete, à sua maneira, a perfeição, a sabedoria, a beleza de Deus.

    Assim, poderíamos dizer, por exemplo, que a queda de uma folha morta de uma árvore é uma beleza da Criação. Realmente, quando a folha não é arrancada por um tufão, ela se desprende, num momento indefinido, e cai de modo suave, gradual, harmonioso, plácido, num ziguezague tão elegante que se diria estar voando e não propriamente caindo. E quando ela chega ao chão, seu pouso é leve, delicado; tem-se a impressão que a folha oscula a face da terra, antes de se desfazer e se transformar em terra ela mesma.

    Também os movimentos gerais dos astros têm uma grande beleza. Platão imaginava os astros como esferas de cristal que giram em torno de si mesmas, emitindo, cada uma, uma sonoridade própria, constituindo a beleza da música universal. Embora fantasiosa, é uma concepção muito bonita, que talvez contenha no fundo algo de verdadeiro. Quem sabe se as rotações não produzem um som com certa harmonia, que não captamos!

    Se uma pessoa conseguisse ver, em seu conjunto, a trajetória das estrelas, perceberia que elas realizam um movimento muito bonito.

    Pode haver coisa mais diferente de uma folha caindo do que uma estrela cadente? De modo bonito e majestoso, ela sulca o céu como um risco de fogo e de repente se apaga, dando a entender que a luz se recusa a pousar numa matéria tão vil como o chão; por isso ela se desfaz no ar.

    Subindo os graus da Criação, podemos considerar, por exemplo, o movimento dos pássaros ou das borboletas. Elevando-nos ainda mais, podemos analisar um exército em marcha.

    No livro L’Allemagne moderne, do tempo do Kaiser, há duas fotografias que foram um dos enlevos do meu tempo de menino. Uma dos batalhões do exército efetuando manobras no campo; e a outra, de uma carga de cavalaria. Percebe-se a glória daqueles capacetes de aço, couraças, corcéis brancos; e até daquela poeira – em cavalaria poeira é bonita, quando provocada pelo automóvel é horrenda. Pode-se dizer, por exemplo, “Que beleza, a poeira dos cavalos de Carlos Magno!”, ou “Carlos Magno chegando, nimbado de poeira!”

    Um dos modos interessantes pelo qual o homem compreende a beleza posta por Deus no Universo, consiste em analisar o movimento dos peixes. Em geral as pessoas gostam de ter aquário, não apenas para ver os peixes. Se estes ficassem paradinhos e não se movessem, o aquário perderia a graça. Mas as voltas que – sobretudo os peixes japoneses, com aqueles véus prestigiosos – dão dentro da água, giram o corpo, descem, sobem, e os véus executam danças as mais variadas. E são véus bonitos, vermelhos, dourados, e o peixe faz aqueles movimentos com a placidez do ininteligente: vai para frente, até bater a boca no vidro, e para ele não acontece nada, não se assusta, nem vê o que está fora do aquário. Pode-se colocar o dedo ali, que ele não liga, simplesmente faz uma curva elegante de desdém, mexe uma série de véus e vai para outro lado. É a beleza do movimento, da ação.

    A beleza da ação do homem

    A ação do homem – sobretudo se a considerarmos não como física, mas enquanto movimento espiritual – pode também ter muita beleza. Gosto muito de detectar beleza nas pequenas ações da vida de todos os dias, por exemplo, a do jardineiro que vai cortando a grama com seu alfanje e ela vai saltando. Tem-se a impressão de que ele está fazendo a barba da terra; o alfanje seria como uma navalha. De fato, trata-se de uma ilusão, pois ele não pode cortar a grama rente ao chão. O alfanje vai ceifando e decidindo o destino de milhares de folhas de grama que saltam. Quando o jardineiro termina o trabalho, o gramado fica direitinho, arranjado, tem-se a impressão até de que está limpo; é um movimento bonito. Nunca vi, mas me disseram que o movimento dos ceifadores de trigo tem beleza.

    Essas são ações materiais do homem. E as intelectuais?

    Por exemplo, um problema bem explicitado, formulado e depois resolvido. É o espírito do homem que está agindo. De uma situação pantanosa ele extrai o problema e define. E quando este parece insolúvel, ele o toca com a ponta de seu dedo mental e o desfaz: a solução é tal. É uma coisa bonita, digna, quer se trate de uma questão metafísica, quer política.

    A solução de um problema político tem a sua beleza como ação do homem. Este toma uma situação intrincada, cheia de dificuldades; montou-se contra ele um dispositivo sem saída. O homem olha, atina, e de repente percebe um parafuzinho que desmantelado arruína a máquina do adversário; ele o tira e o dispositivo cai. Isso tem pulcritude.

    Consideremos a luta à maneira dos torneios medievais: lança no peito do adversário, de frente, um dos dois cai do cavalo. Julgo isso muito mais bonito do que a rasteira, embora esta possua o seu charme próprio, inconfundível.

    Há certos homens a quem Deus concedeu o dom da ação de modo excelente

    Há certos homens a quem Deus concedeu o dom da ação de modo excelente. Qualquer coisa que realizem, uma deliberação, uma gentileza, uma manobra que atinge o seu auge, causam a impressão semelhante à produzida, por exemplo, por uma música bem tocada. Porque aquela atitude quase se destaca do objetivo, para constituir uma ação vista enquanto tal. E, isolada, tomada como técnica de realização, assume uma formosura e um brilho especial.

    Recordemos um problema resolvido por Talleyrand. No Congresso de Viena, a França era a grande derrotada. Talleyrand compareceu nessa reunião das grandes potências da Europa, por consideração de Metternich.

    Além deste, estavam o representante inglês, Lorde Castlereagh, o prussiano, o Czar da Rússia e seus conselheiros. Entra no salão o representante prussiano e vê Talleyrand, indolente, impassível. Já essa indolência tem beleza: é o fraco que pode ser esmagado pelo forte, mas é tão inteligente que não teme ver o touro chegar perto. Porque sabe que na hora “H” ele põe um lencinho vermelho e o touro passa de lado.

    Em certo momento, Talleyrand fez uma declaração, na qual se referia ao “direito dos povos”.

    O embaixador prussiano o interrompeu perguntando: “Eu quero saber o que faz o direito nessa reunião?!”

    Talleyrand sorriu e respondeu: “Uma coisa muito importante: ele lhe dá o direito de estar sentado aqui!”

    Depois de dito isto, o embaixador ficou quieto. Isso tem sabor! Esta ação é muito bonita porque mostra a superioridade da inteligência sobre a força. Esta vem e investe, aquela faz um laçarote e a força dobra-se diante do prestígio da inteligência. E este laçarote a inteligência faz com uma indolência, aliás aparente, pois detrás dela há uma sagacidade suma. Trata-se de uma indolência aristocrática, que com facilidade toca o barco para frente.

    Outra ação do mesmo Talleyrand. Napoleão está para cair. O futuro Carlos X, em nome de Luís XVIII de Bourbon, está nas fronteiras da França. Talleyrand quer se reconciliar com os Bourbons. Ele manda um emissário a Carlos X, levando uma mensagem somente com estas palavras: “Monseigneur, estamos fartos de glória; por fim, traga-nos a honra!”

    Está dito tudo. Quer dizer, Napoleão ficou arrasado, pois teve glória sem honra. O que entra agora vem com honra, embora sem glória.

    O futuro Carlos X, grande deleitador de pratos desses, ficou contente, e assim se fez a reconciliação. Foi esta uma ação humana cheia de beleza.

    São Gregório VII, levando o imperador do Sacro Império Romano Alemão a pedir-lhe perdão em Canossa, fez também uma ação plena de pulcritude. Tornou patente a consciência de que o Papa tem de ser o mais alto hierarca da Terra; e de que um crime é tanto mais grave quanto mais nocivo à Cristandade; portanto, o ato praticado pelo imperador contra o papado é o mais grave de todos os crimes e pede uma penitência.

    O Pontífice estava numa região nevada, montanhosa, na pior das estações; o imperador, se quisesse, poderia ir até lá para pedir perdão, mas o Papa não se moveria de lugar. O imperador foi de trenó, às vezes andando de gatinhas pela neve para implorar clemência a São Gregório VII.

    Este deixou-o esperar durante três dias do lado de fora do castelo. Afinal, a pedidos de íntimos, e não por seu desejo, São Gregório VII recebeu Henrique IV.

    Vê-se aqui uma ação humana cheia de majestade, de sacralidade, em que o poder temporal tem que se dobrar diante do espiritual, porque a Terra está infinitamente abaixo do Céu. E ninguém tem o poder daquele a quem foi dito: “Tudo o que desligares na Terra será desligado no Céu; tudo o que ligares na Terra será ligado no Céu.”

    A atitude do famoso rei Poros, da Índia , diante de Alexandre é digna de nota. Este levou de roldão os povos da Ásia e chegou até a Índia, onde mandou prender esse homem, o qual foi acorrentado e reduzido a escravo, como se fazia aos povos dominados na Antiguidade. Quando o rei chegou diante de Alexandre, este lhe perguntou:

    – Como queres ser tratado?

    – Como rei!

    Ele respondeu com tanta e tanta grandeza que Alexandre disse-lhe:

    – Pois não! Desatem as correntes e tratem-no como rei.

    E o soberano retirou-se sem agradecimento, porque era rei.

    Outro exemplo de beleza nas ações humanas: o Duque de Saint-Simon pediu uma audiência para Luís XIV, a fim de entrar numa briga com o rei. Luís XIV sabia disso e mandou dizer a Saint-Simon: “Tal dia e tal hora, o senhor estaria livre?” Saint-Simon deu esta resposta magnífica: “Sire, je suis fait pour attendre vos heures” – “Majestade, eu sou feito para esperar suas horas.” Foi uma resposta humilde, mas com toda a classe que tem a humildade; uma ação de alta categoria de nobreza.

    Uma história dos atos humanos

    Se tivesse tempo, eu gostaria de escrever uma história dos atos humanos impressionantes, e uma teoria da ação humana. Tomaria os atos enquanto atos e não principalmente pela sua finalidade. E consideraria os estilos de ação, os modos, etc., ordenando-os e sistematizando-os.

    Essas coisas fazem com que a virtude da sabedoria torne a vida humana vivível. Não é preciso ir ao teatro, ao cinema, passear e nem conversar muito com os outros. Basta termos as antenas desdobradas para captar o que a vida quotidiana e a História oferecem de exemplos dessa natureza; e saber analisá-los.

    Às vezes, encontramos essas coisas em pequenas ocasiões porque as grandes são raras.

    Quando assisto a uma conferência, estando eu também na mesa, gosto muito de prestar atenção na co-relação entre as fisionomias dos ouvintes e os altos e baixos do conferencista. É uma coisa curiosíssima.

    Um conferencista controla seu auditório como um violinista toca seu violino. A questão é que, na maior parte dos casos, o conferencista não sabe dirigir o auditório. Se ele soubesse, seria uma coisa lindíssima observar as partes verdadeiramente boas de sua conferência, pois os auditórios, em geral, em que pesem os conferencistas, são juízes muito eficientes. Eles normalmente percebem o valor do conferencista, e sua sanção contra este não consiste nas poucas palmas no fim, mas no não-prestar atenção. Quando o conferencista começa a dizer coisas “pocas”1, a atenção do auditório desvia e some. É a vingança do ouvinte. Não podendo se levantar para protestar, ele deixa de prestar atenção; pode-se perceber como esta vai morrendo no auditório.

    Às vezes, formam-se ilhotas ou até arquipélagos de atenção. Quando o conferencista é razoável, aquilo se transforma em terra firme; quando é “poca”, os arquipélagos vão diminuindo, e por fim é o mar, onde existem um ou outro rochedo, um fanático de conferência que presta atenção; o resto está longe. Terminada a conferência, há aquelas palmas convencionais, que podem ser longas, mas têm o ruído de convencional; todo o mundo se levanta sem pressa. Quando o conferencista é cacete, ninguém tem pressa de sair, e nem coragem de se mover. Os ouvintes saem meio entorpecidos da conferência.

    (Extraído de Revista Dr. Plínio n° 137)

    1) Palavra criada por Dr. Plinio para exprimir algo medíocre, mesquinho.

  • Harmonia: uma criatura de Deus

    Deus é admirável em todas as suas obras. Quando se enuncia esse princípio, o espírito se volta naturalmente para os seres de várias ordens por Ele criados, desde a pedra até o Anjo. Mas há algo também criado por Deus que não são os seres individuais: é o movimento universal de todas as coisas.

    Beleza própria do Universo

    Não podemos ter uma visão estática do universo, mas devemos considerar que o Criador comunicou-lhe movimento, o qual tem uma pulcritude própria, obedece a regras específicas e reflete, à sua maneira, a perfeição, a sabedoria, a beleza de Deus.

    Assim, poderíamos dizer, por exemplo, que a queda de uma folha morta de uma árvore é uma beleza da Criação. Realmente, quando a folha não é arrancada por um tufão, ela se desprende, num momento indefinido, e cai de modo suave, gradual, harmonioso, plácido, num ziguezague tão elegante que se diria estar voando e não propriamente caindo. E quando ela chega ao chão, seu pouso é leve, delicado; tem-se a impressão que a folha oscula a face da terra, antes de se desfazer e se transformar em terra ela mesma.

    Também os movimentos gerais dos astros têm uma grande beleza. Platão imaginava os astros como esferas de cristal que giram em torno de si mesmas, emitindo, cada uma, uma sonoridade própria, constituindo a beleza da música universal. Embora fantasiosa, é uma concepção muito bonita, que talvez contenha no fundo algo de verdadeiro. Quem sabe se as rotações não produzem um som com certa harmonia, que não captamos!

    Se uma pessoa conseguisse ver, em seu conjunto, a trajetória das estrelas, perceberia que elas realizam um movimento muito bonito.

    Pode haver coisa mais diferente de uma folha caindo do que uma estrela cadente? De modo bonito e majestoso, ela sulca o céu como um risco de fogo e de repente se apaga, dando a entender que a luz se recusa a pousar numa matéria tão vil como o chão; por isso ela se desfaz no ar.

    Subindo os graus da Criação, podemos considerar, por exemplo, o movimento dos pássaros ou das borboletas. Elevando-nos ainda mais, podemos analisar um exército em marcha.

    No livro L’Allemagne moderne, do tempo do Kaiser, há duas fotografias que foram um dos enlevos do meu tempo de menino. Uma dos batalhões do exército efetuando manobras no campo; e a outra, de uma carga de cavalaria. Percebe-se a glória daqueles capacetes de aço, couraças, corcéis brancos; e até daquela poeira – em cavalaria poeira é bonita, quando provocada pelo automóvel é horrenda. Pode-se dizer, por exemplo, “Que beleza, a poeira dos cavalos de Carlos Magno!”, ou “Carlos Magno chegando, nimbado de poeira!”

    Um dos modos interessantes pelo qual o homem compreende a beleza posta por Deus no Universo, consiste em analisar o movimento dos peixes. Em geral as pessoas gostam de ter aquário, não apenas para ver os peixes. Se estes ficassem paradinhos e não se movessem, o aquário perderia a graça. Mas as voltas que – sobretudo os peixes japoneses, com aqueles véus prestigiosos – dão dentro da água, giram o corpo, descem, sobem, e os véus executam danças as mais variadas. E são véus bonitos, vermelhos, dourados, e o peixe faz aqueles movimentos com a placidez do ininteligente: vai para frente, até bater a boca no vidro, e para ele não acontece nada, não se assusta, nem vê o que está fora do aquário. Pode-se colocar o dedo ali, que ele não liga, simplesmente faz uma curva elegante de desdém, mexe uma série de véus e vai para outro lado. É a beleza do movimento, da ação.

    A beleza da ação do homem

    A ação do homem – sobretudo se a considerarmos não como física, mas enquanto movimento espiritual – pode também ter muita beleza. Gosto muito de detectar beleza nas pequenas ações da vida de todos os dias, por exemplo, a do jardineiro que vai cortando a grama com seu alfanje e ela vai saltando. Tem-se a impressão de que ele está fazendo a barba da terra; o alfanje seria como uma navalha. De fato, trata-se de uma ilusão, pois ele não pode cortar a grama rente ao chão. O alfanje vai ceifando e decidindo o destino de milhares de folhas de grama que saltam. Quando o jardineiro termina o trabalho, o gramado fica direitinho, arranjado, tem-se a impressão até de que está limpo; é um movimento bonito. Nunca vi, mas me disseram que o movimento dos ceifadores de trigo tem beleza.

    Essas são ações materiais do homem. E as intelectuais?

    Por exemplo, um problema bem explicitado, formulado e depois resolvido. É o espírito do homem que está agindo. De uma situação pantanosa ele extrai o problema e define. E quando este parece insolúvel, ele o toca com a ponta de seu dedo mental e o desfaz: a solução é tal. É uma coisa bonita, digna, quer se trate de uma questão metafísica, quer política.

    A solução de um problema político tem a sua beleza como ação do homem. Este toma uma situação intrincada, cheia de dificuldades; montou-se contra ele um dispositivo sem saída. O homem olha, atina, e de repente percebe um parafuzinho que desmantelado arruína a máquina do adversário; ele o tira e o dispositivo cai. Isso tem pulcritude.

    Consideremos a luta à maneira dos torneios medievais: lança no peito do adversário, de frente, um dos dois cai do cavalo. Julgo isso muito mais bonito do que a rasteira, embora esta possua o seu charme próprio, inconfundível.

    Há certos homens a quem Deus concedeu o dom da ação de modo excelente

    Há certos homens a quem Deus concedeu o dom da ação de modo excelente. Qualquer coisa que realizem, uma deliberação, uma gentileza, uma manobra que atinge o seu auge, causam a impressão semelhante à produzida, por exemplo, por uma música bem tocada. Porque aquela atitude quase se destaca do objetivo, para constituir uma ação vista enquanto tal. E, isolada, tomada como técnica de realização, assume uma formosura e um brilho especial.

    Recordemos um problema resolvido por Talleyrand. No Congresso de Viena, a França era a grande derrotada. Talleyrand compareceu nessa reunião das grandes potências da Europa, por consideração de Metternich.

    Além deste, estavam o representante inglês, Lorde Castlereagh, o prussiano, o Czar da Rússia e seus conselheiros. Entra no salão o representante prussiano e vê Talleyrand, indolente, impassível. Já essa indolência tem beleza: é o fraco que pode ser esmagado pelo forte, mas é tão inteligente que não teme ver o touro chegar perto. Porque sabe que na hora “H” ele põe um lencinho vermelho e o touro passa de lado.

    Em certo momento, Talleyrand fez uma declaração, na qual se referia ao “direito dos povos”.

    O embaixador prussiano o interrompeu perguntando: “Eu quero saber o que faz o direito nessa reunião?!”

    Talleyrand sorriu e respondeu: “Uma coisa muito importante: ele lhe dá o direito de estar sentado aqui!”

    Depois de dito isto, o embaixador ficou quieto. Isso tem sabor! Esta ação é muito bonita porque mostra a superioridade da inteligência sobre a força. Esta vem e investe, aquela faz um laçarote e a força dobra-se diante do prestígio da inteligência. E este laçarote a inteligência faz com uma indolência, aliás aparente, pois detrás dela há uma sagacidade suma. Trata-se de uma indolência aristocrática, que com facilidade toca o barco para frente.

    Outra ação do mesmo Talleyrand. Napoleão está para cair. O futuro Carlos X, em nome de Luís XVIII de Bourbon, está nas fronteiras da França. Talleyrand quer se reconciliar com os Bourbons. Ele manda um emissário a Carlos X, levando uma mensagem somente com estas palavras: “Monseigneur, estamos fartos de glória; por fim, traga-nos a honra!”

    Está dito tudo. Quer dizer, Napoleão ficou arrasado, pois teve glória sem honra. O que entra agora vem com honra, embora sem glória.

    O futuro Carlos X, grande deleitador de pratos desses, ficou contente, e assim se fez a reconciliação. Foi esta uma ação humana cheia de beleza.

    São Gregório VII, levando o imperador do Sacro Império Romano Alemão a pedir-lhe perdão em Canossa, fez também uma ação plena de pulcritude. Tornou patente a consciência de que o Papa tem de ser o mais alto hierarca da Terra; e de que um crime é tanto mais grave quanto mais nocivo à Cristandade; portanto, o ato praticado pelo imperador contra o papado é o mais grave de todos os crimes e pede uma penitência.

    O Pontífice estava numa região nevada, montanhosa, na pior das estações; o imperador, se quisesse, poderia ir até lá para pedir perdão, mas o Papa não se moveria de lugar. O imperador foi de trenó, às vezes andando de gatinhas pela neve para implorar clemência a São Gregório VII.

    Este deixou-o esperar durante três dias do lado de fora do castelo. Afinal, a pedidos de íntimos, e não por seu desejo, São Gregório VII recebeu Henrique IV.

    Vê-se aqui uma ação humana cheia de majestade, de sacralidade, em que o poder temporal tem que se dobrar diante do espiritual, porque a Terra está infinitamente abaixo do Céu. E ninguém tem o poder daquele a quem foi dito: “Tudo o que desligares na Terra será desligado no Céu; tudo o que ligares na Terra será ligado no Céu.”

    A atitude do famoso rei Poros, da Índia , diante de Alexandre é digna de nota. Este levou de roldão os povos da Ásia e chegou até a Índia, onde mandou prender esse homem, o qual foi acorrentado e reduzido a escravo, como se fazia aos povos dominados na Antiguidade. Quando o rei chegou diante de Alexandre, este lhe perguntou:

    – Como queres ser tratado?

    – Como rei!

    Ele respondeu com tanta e tanta grandeza que Alexandre disse-lhe:

    – Pois não! Desatem as correntes e tratem-no como rei.

    E o soberano retirou-se sem agradecimento, porque era rei.

    Outro exemplo de beleza nas ações humanas: o Duque de Saint-Simon pediu uma audiência para Luís XIV, a fim de entrar numa briga com o rei. Luís XIV sabia disso e mandou dizer a Saint-Simon: “Tal dia e tal hora, o senhor estaria livre?” Saint-Simon deu esta resposta magnífica: “Sire, je suis fait pour attendre vos heures” – “Majestade, eu sou feito para esperar suas horas.” Foi uma resposta humilde, mas com toda a classe que tem a humildade; uma ação de alta categoria de nobreza.

    Uma história dos atos humanos

    Se tivesse tempo, eu gostaria de escrever uma história dos atos humanos impressionantes, e uma teoria da ação humana. Tomaria os atos enquanto atos e não principalmente pela sua finalidade. E consideraria os estilos de ação, os modos, etc., ordenando-os e sistematizando-os.

    Essas coisas fazem com que a virtude da sabedoria torne a vida humana vivível. Não é preciso ir ao teatro, ao cinema, passear e nem conversar muito com os outros. Basta termos as antenas desdobradas para captar o que a vida quotidiana e a História oferecem de exemplos dessa natureza; e saber analisá-los.

    Às vezes, encontramos essas coisas em pequenas ocasiões porque as grandes são raras.

    Quando assisto a uma conferência, estando eu também na mesa, gosto muito de prestar atenção na co-relação entre as fisionomias dos ouvintes e os altos e baixos do conferencista. É uma coisa curiosíssima.

    Um conferencista controla seu auditório como um violinista toca seu violino. A questão é que, na maior parte dos casos, o conferencista não sabe dirigir o auditório. Se ele soubesse, seria uma coisa lindíssima observar as partes verdadeiramente boas de sua conferência, pois os auditórios, em geral, em que pesem os conferencistas, são juízes muito eficientes. Eles normalmente percebem o valor do conferencista, e sua sanção contra este não consiste nas poucas palmas no fim, mas no não-prestar atenção. Quando o conferencista começa a dizer coisas “pocas”1, a atenção do auditório desvia e some. É a vingança do ouvinte. Não podendo se levantar para protestar, ele deixa de prestar atenção; pode-se perceber como esta vai morrendo no auditório.

    Às vezes, formam-se ilhotas ou até arquipélagos de atenção. Quando o conferencista é razoável, aquilo se transforma em terra firme; quando é “poca”, os arquipélagos vão diminuindo, e por fim é o mar, onde existem um ou outro rochedo, um fanático de conferência que presta atenção; o resto está longe. Terminada a conferência, há aquelas palmas convencionais, que podem ser longas, mas têm o ruído de convencional; todo o mundo se levanta sem pressa. Quando o conferencista é cacete, ninguém tem pressa de sair, e nem coragem de se mover. Os ouvintes saem meio entorpecidos da conferência.

    (Extraído de Revista Dr. Plínio n° 137)

    1) Palavra criada por Dr. Plinio para exprimir algo medíocre, mesquinho.

  • Santa Helena

    Santa Helena, Imperatriz e mãe de Constantino Magno, foi o grande tipo de mulher que vive só para Nosso Senhor Jesus Cristo. Matrona de alma elevada, de horizonte largo, compreendendo as coisas a partir dos seus aspectos mais sublimes, e que, com sua extraordinária influência, contribuiu para transformar um Império pagão em ordem temporal católica. Acima de tudo, foi a santa que encontrou e deu ao mundo um presente imensamente grandioso: a verdadeira Cruz de Cristo.

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • São Pio X, modelo de varão católico

    Quero que o último ato de meu intelecto e o último pulsar de meu coração seja um brado de amor e fidelidade ao Papado”, costumava repetir Dr. Plinio até seus derradeiros dias. Na verdade, depois  e sua entranhada devoção ao Santíssimo Sacramento e a Nossa Senhora, por nada tinha ele mais apreço do que à divina instituição do Papado, pela qual nutria imensa veneração. Sentimento que transparece nas palavras aqui transcritas, com as quais recorda a figura de um dos maiores Pontífices que já ocuparam a Cátedra de Pedro: São Pio X, cuja festa se celebra no dia 21 de agosto.

     

    Em 1903, após um dos mais longos pontificados da História, e numa idade muito avançada, faleceu o Papa Leão XIII. Logo depois das exéquias, de acordo com o secular costume da Igreja, todos os cardeais se reuniram na Cidade Eterna para o Conclave que elegeria o novo Sumo Pontífice.

    Conta-se que o então Cardeal Sarto, Patriarca de Veneza, foi um dos poucos, se não o único, a se dirigir a Roma tendo já em mãos o bilhete de passagem da volta, tão certo estava de que sobre ele não recairiam os votos de seus pares.

    E os fatos pareciam confirmar as despretensiosas expectativas daquele Purpurado, pois, ao final de alguns escrutínios, o sucessor de Leão XIII estava praticamente escolhido. Tratava-se do Cardeal Rampolla del Tindaro, que fora Secretário de Estado do falecido Papa, e cuja orientação de governo ele haveria de manter durante o novo Pontificado.

    Manteria, se uma inesperada atitude não viesse mudar o rumo dos acontecimentos. Tão logo se tornou claro qual seria o resultado da votação, levantou-se, trêmulo e indeciso, o Cardeal-Arcebispo de Praga, dizendo: “Eu tenho uma comunicação a fazer da parte do meu soberano, o Imperador da Áustria. Prevalecendo-se do direito que têm os monarcas austríacos de vetar alguém eleito para o Papado, quando tal escolha lhe parecer nociva aos interesses e às conveniências da Igreja Católica no seu país, o Imperador Francisco José, meu senhor, dá ordem de vetar o Cardeal Rampolla del Tíndalo para Papa”.

    Esse uso do veto ou seja, de proibição escandalizou todo o Conclave, porque há muito tempo os soberanos austríacos não exerciam esse direito. Era, portanto, um papel por demais antigo que Francisco José retirava da gaveta. Mas… retirou e mandou: não podia ser. O Cardeal Rampolla estava fora de cogitação.

    Sabendo que não seriam possíveis tratativas nem apelações, os cardeais dão início a novos escrutínios, fazendo valer a célebre subtileza da diplomacia romana dos grandes tempos. A cada turno de eleição eram proclamados os resultados, e em duas ou três vezes os votos para o Cardeal Rampolla retomaram por baixo e foram crescendo o suficiente para significar um desafio ao Imperador da Áustria, não porém o bastante para elegê-lo. Foi uma jogada astuta e inteligente, bem ao estilo do Vaticano…

    A eleição do Cardeal Sarto, futuro São Pio X

    Como era de se  esperar, caiu em definitivo a votação do Cardeal Rampolla, enquanto se levantava outro candidato: o Cardeal Sarto, Patriarca de Veneza, futuro São Pio X.

    Em suas Memórias do Papa Pio X, narra o Cardeal Merry del Val então monsenhor e secretário do Conclave que, depois de um daqueles decisivos escrutínios, fora encarregado de procurar o Cardeal Sarto, a fim de demovê-lo da resistência que este opunha à sua eleição. Entrando ele na Capela Paulina, reservada aos Purpurados, encontrou ali o Patriarca de Veneza, ajoelhado no solo de mármore, a cabeça entre as mãos, chorando e rezando diante de uma imagem de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano.

    O prelado se ajoelha por sua vez junto do Cardeal Sarto, e com voz baixa lhe confia a mensagem de que era portador. Lentamente, o Patriarca levanta a cabeça, volta para o secretário a face sulcada de lágrimas, e lhe pede que anuncie a sua recusa formal ao sólio pontifício. Santo como era, tinha plena consciência de que o Papado significava uma responsabilidade tremenda, em meio a árduos combates em defesa da Igreja. Parecia repetir, daquele modo, as palavras do Divino Redentor no Horto das Oliveiras: “Pai, se for possível, afasta de mim este cálice”…

    Compadecido daquele varão que dava tais mostras de humildade, Monsenhor Merry del Val -, ele mesmo homem de rara virtude e futuro braço direito de São Pio X –, a fim de animá-lo e fazê-lo aceitar o cargo, disse-lhe:

    Coragem Eminência, o Senhor o ajudará!

    Novamente ocultou o Cardeal Sarto a cabeça entre as mãos, para terminar sua prece. O secretário do Conclave se afastou. “Nunca esquecerei” comenta ele “a impressão que me produziu este encontro, à vista de uma angústia tão intensa. Era a primeira vez que me punha em contato com Sua Eminência, e pressentia ter me achado em presença de um santo”.

    Poucas horas depois, o Cardeal Sarto, premido pelas reiteradas e insistentes  solicitações de vários membros do Sacro Colégio, decidiu desistir de sua oposição. Na manhã seguinte, era eleito por uma grande maioria, e aceitava a missão de suceder a São Pedro, sob o nome de Pio X.

    “O Anjo guardião do Paraíso”

    Homem de origem assaz modesta, o Cardeal Sarto (em italiano, sarto quer dizer alfaiate) nasceu na pequena aldeia de Riese, na qual até hoje se conservam a casa em que ele veio ao mundo e todas as lembranças de sua história desde menino. Riese tornou-se um lugar de peregrinação. Adolescente, Giuseppe Sarto deixou o lar paterno para ingressar no seminário da diocese de Treviso. Depois de completar seus estudos em Pádua, foi ordenado sacerdote, e, três décadas mais tarde, sagrado Bispo de Mântua. Em 1893 tornou-se Cardeal e Patriarca de Veneza, de onde partiu para ser eleito Papa.

    Apesar de sua ascendência humilde, São Pio X possuía tanta dignidade moral, e uma tal estampa pessoal que um jornalista francês, depois de entrevistá-lo, fez o seguinte comentário: “Quem se encontra e conversa com o Papa, conhece um homem tão forte e tão puro, que tem a impressão de estar diante do Anjo que a Escritura descreve como guardando a entrada do Paraíso Terrestre, com uma espada de fogo à mão”.

    De fato, diversos traços da vida de São Pio X revelam que ele foi realmente uma figura angélica, um modelo super-acabado de pureza e de fortaleza. Homem de alta estatura, muito robusto, como são em geral os italianos da região do Veneto, era dotado de vigorosa personalidade, e sobretudo, formado numa integridade e firmeza de princípios, bem como numa completa renúncia de si mesmo, que caracteriza o verdadeiro Santo da Igreja Católica.

    Por isso, assim que o mundo conheceu o nome do novo sucessor do Príncipe dos Apóstolos, uma intensa manifestação de júbilo e de louvores a Deus perpassou a Cristandade. Estavam os fiéis convictos de que Nosso Senhor lhes havia dado um Pastor sábio e virtuoso, atilado e prudente, em cujo coração pulsava zelo e amor ardentes pela Esposa Mística de Cristo, que a Providência acabava de confiar a suas firmes mãos de Soberano Pontífice. E ele de tal maneira a dirigiu com maestria e paternalidade, que a Igreja passou a viver um período de esplêndido florescimento, de brilho extraordinário, de profunda unidade e coesão na sua estrutura sagrada.

    O papa das primeiras comunhões

    Entre os inestimáveis benefícios que a Religião Católica lucrou no governo de São Pio X, destaca-se o de ele ter estabelecido a Primeira Comunhão para as crianças. Até então, a tendência corrente era de que uma pessoa só a fizesse quando inteiramente adulta, não sendo raro o caso de homens e mulheres que comungavam pela primeira vez nas vésperas de seu casamento.

    Essa atitude era determinada pela compreensível ideia de que a Comunhão é algo por demais sagrado para que as crianças se aproximem dela, pois não teriam critério para comungar com o respeito e a devoção necessárias.

    São Pio X, entretanto, entendia de modo diferente, e colocou a questão em outros termos. Dizia ele: “Não se trata de saber o que a criança é capaz de pensar, e sim que grau de inocência ela tem. Porque se fôssemos raciocinar em função de sua capacidade intelectual, então não deveríamos batizá-la nos primeiros dias após seu nascimento”.

    Um juízo muito acertado, cujo desenvolvimento é este: no momento do Batismo, embora o recém-nascido ainda não pense, a recepção do Sacramento significa para ele uma comunicação de graças extraordinárias, que agirão sobre sua alma até o dia em que comece a fazer uso da razão. E mesmo nesse início da vida de pensamento aquelas graças do Batismo lhe serão de extrema valia, guiando seus primeiros passos e o fortalecendo na Fé.

    É este um dos principais motivos pelos quais a Igreja inteira batiza as crianças logo depois do nascimento.

    E análogo princípio aplicou São Pio X, ao instituir a Primeira Comunhão para as crianças. Quer dizer, tomando em consideração que estas, via de regra, ainda conservam sua inocência, ser-lhes-á ocasião de graças superabundantes receberem a Sagrada Eucaristia. Para tanto, basta compreenderem a mudança de substância operada na hóstia no momento em que é consagrada, passando a ser, verdadeiramente, Nosso Senhor Jesus Cristo, em seu corpo e sangue, alma e divindade.

    Observadas essas condições, São Pio X determinou que a festa da Primeira Comunhão para as crianças fosse cercada de grande solenidade. E datam daí os ornamentos de que se revestem as igrejas e capelas nos dias de Primeira Comunhão, e os trajes cerimoniosos com que meninos e meninas se apresentam para receber a Jesus Sacramentado, símbolos da alma inteiramente inocente e virginal que vai de encontro ao seu Salvador.

    Atmosfera santificante cobrindo a Igreja

    Outro  precioso fruto do governo de São Pio X foi o espraiar-se de uma atmosfera sacrossanta por todos os ambientes católicos que dele recebiam a influência, produzindo um efeito vantajoso, santificante e magnífico. De tal maneira que, anos depois de sua morte, ainda persistiam o perfume e os ecos de seu pontificado. Tal se verificou sobretudo nos países distantes da Europa, aos quais naqueles tempos tardavam em chegar as transformações ocorridas no Velho Continente.

    Por exemplo, no Brasil. Eu nasci em 1908, quando há cinco anos já se encontrava São Pio X à frente  da Igreja. E fiz a minha formação religiosa envolto naquela atmosfera sacrossanta, a qual conduzia os fiéis a um respeito, uma confiança e uma admiração indizíveis por toda a sagrada hierarquia eclesiástica. E não apenas pelo que essa hierarquia tem de fundamental e organizado por ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo portanto, algo de suma perfeição como também pelos homens investidos nesses cargos, pois nos pareciam santos como era santa a missão deles, e como era santo o Papa Pio X.

    Assim, no meu espírito, como no de incontáveis católicos, os padres, os religiosos, as freiras, os bispos, e daí para cima até o Soberano Pontífice, todos se nos afiguravam de uma venerabilidade sem nome, dignos do nosso maior acatamento e inteira dedicação.

    Um remédio corriqueiro… e misterioso

    Ao longo de onze anos viveu a Igreja sob essa firme, paternal e abençoada proteção de São Pio X. Em agosto de 1914, após o assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando aliás, amigo do santo Pontífice -, arrebentou a Primeira Guerra Mundial.

    O Papa, que antevira o terrível conflito e suas trágicas conseqüências para os povos nele envolvidos, via redobrarem suas responsabilidades de pastor e guia das almas, aumentando-lhe o já pesado fardo que trazia sobre os ombros. Contudo, a despeito das graves e constantes preocupações, da grande amargura que lhe causavam os horrores da Guerra, seu estado físico não inspirava maiores cuidados. Animava-o o mesmo vigor e o zelo de sempre, até a noite de 18 de agosto, quando, depois de encerrados os compromissos do dia, despediu-se de seus assistentes e se recolheu aos aposentos pontifícios. Antes de se deitar, tomou um remédio corriqueiro que os médicos lhe haviam receitado para uma ligeira indisposição catarral. Nada de maior importância, afirmaram eles. Segundo estes, tratava-se de um incômodo trivial, motivado pela temperatura excessivamente alta daquele verão de 1914.

    Na manhã seguinte, porém, o Cardeal Merry del Val é chamado às pressas ao Vaticano: o Papa despertara com muita febre, e seu estado de saúde agravara-se de modo alarmante. Assim que o secretário entrou no quarto de São Pio X, este o reconheceu, estreitou-lhe as mãos com força, e apenas lhe pôde dizer: “Eminência… Eminência!”. Passaram-se alguns minutos, e as últimas palavras que o Cardeal ouviu de seus lábios foram um ato de entrega nas mãos da Providência: “Resigno-me totalmente”, disse o santo Vigário de Cristo. Pouco depois ele perdia a capacidade de falar, embora permanecesse consciente e dirigisse àqueles que o circundavam seu olhar sempre vigilante e perscrutador.

    Como piorou durante o dia, Papa recebeu o Viático e a Extrema-Unção com as menores formalidades possíveis, pois todos temiam um rápido desenlace. Ali estavam suas fiéis irmãs, chorando em silêncio, o secretário de todas as horas, e alguns de seus mais próximos auxiliares. Subitamente, ouviu-se o timbre do grande sino de São Pedro, que começava a dobrar pro Pontífice agonizante. A este sinal, foi exposto o Santíssimo Sacramento em todas as basílicas patriarcais de Roma, dando início às rogações especiais. Os graves acentos do bronze subiam aos céus, juntamente com as preces do povo fiel que, na praça do Vaticano, pedia a Deus por seu Pastor moribundo.

    Algumas horas depois, na madrugada do dia 20 de agosto, São Pio X suavemente adormeceu no Senhor. Nas páginas de suas famosas Memórias, o Cardeal Merry del Val, deixa transparecer certa estranheza em relação a essa misteriosa morte. “Ninguém”, escreve ele, “pôde explicar ainda a brusca mudança que se produziu na saúde do Papa, durante aquela noite…”

    A Igreja chorou a perda de seu “Anjo guardião”, que por ela velara com tanta diligência. Modelo de Pontífice e de varão católico, foi elevado às honras dos altares quarenta anos depois de partir para a eternidade.