Autor: Nelson

  • PERFEIÇÕES DA VIRGEM-MÃE, BELEZAS DA IGREJA

    Nossa Senhora é a imagem perfeita da Igreja Católica. Dr. Plinio escolhe esta afirmação de Santo Agostinho, quando se vê na contingência de optar por um tema que seja bem-assimilado por seu auditório de jovens.

     

    A propósito da festa de Nossa Senhora das Mercês, gostaria de fazer alguns comentários sobre um trecho de Santo Agostinho. O grande Bispo de Hipona se dirige à Santíssima Virgem neste  belíssimo louvor: Ó Maria, cumpristes perfeitamente a vontade do Pai Celeste. Vossa maior honra, vossa maior felicidade não foi de ter sido a Mãe, mas a discípula de Cristo. Bem-aventurada sois  por terdes ouvido o Verbo de Deus e conservado (suas palavras) em vosso coração. Vós guardastes a verdade de Cristo em vossa  inteligência, mais ainda que sua carne em vosso seio. Não se saberia comparar-Vos às mulheres do Antigo Testamento, a Ana, a Suzana. A que alturas não Vos elevastes acima delas? Aqui ainda não falamos na santa virgindade, mas em vossas outras  virtudes: ó Maria, há no mundo alguém que as ignore?

    Para exemplo e ensinamento para todas as mulheres convém somente não esquecer vossa santa e admirável modéstia. Vós fostes julgada digna de conceber o filho do Altíssimo e, entretanto, permanecestes a mais humilde de todas as criaturas; porque fizestes sem cessar a vontade de Deus, sois segundo a carne e o espírito, a Mãe de Cristo, sua Mãe e sua irmã, mulher única, mãe e  virgem, e Vós o sois corporalmente e espiritualmente.

    Mãe de nosso Chefe, que é o Salvador, Vós sois também e perfeitamente mãe de todos os membros de Cristo, porque cooperastes, por vossa caridade, para o nascimento dos fiéis na Igreja.

    Única entre todas as mulheres sois, ainda uma vez, mãe e virgem. Mãe de Cristo e virgem de Cristo. Foi por Vós, ó Mãe do Senhor, que a dignidade virginal começou (a florescer) sobre a terra. Por  Vós, ó Maria, que merecestes ter um filho, mas que o merecestes sem deixar de ser virgem. Para honra do Salvador Jesus, o pecado não se aproximou de Vós. Sabemos que  para vencer o pecado e   o vencer inteiramente foi dada graça abundante Àquela que foi digna de conceber e de cuidar do Impecável.

    A beleza e a dignidade da terra sois Vós, ó Virgem, que fostes sem cessar a imagem da Santa Igreja. Por uma mulher, a morte; por uma mulher, a vida. E esta última sois Vós, ó Mãe de Deus.

    Assim como Maria, a Igreja é Virgem e Mãe

    É um lindo trecho de Santo Agostinho, talvez num estilo não inteiramente acessível às novas gerações. Por outro lado, seria muito ingrato dessorarmos o santo Autor, tirando o pensamento dele de dentro das palavras majestosas que ele escreveu.

    De maneira que me parece suficiente, para aproveitarmos bem esta passagem, compreendermos um pouco a frase final dele, quando fala que Nossa Senhora é a imagem perfeita da Igreja Católica.  Procuremos, então, analisar em que sentido a Igreja é virgem e é mãe, e de que modo ela é, por sua vez, imagem de Nossa Senhora.

    A Igreja é virgem nessa acepção da palavra de que ela é de uma santidade absoluta, sem nenhuma forma de condescendência com o erro nem com o mal. Nela não existe qualquer espécie de mácula. Ela é, portanto, intacta como uma virgem.

    De outra parte, ela é mãe porque todos os homens nascem para a vida espiritual de dentro da Igreja, são engendrados por ela para a existência cristã. Se não fosse a Igreja, nenhum homem poderia salvar-se. E ela procede como mãe em relação aos filhos, os nutre com os Sacramentos, com a vida sobrenatural da graça; ela os ensina por meio do Magistério infalível; ela os guia através da  autoridade da hierarquia eclesiástica, de maneira tal que ela exerce, em relação a cada homem, a cada um dos católicos, todos os ofícios e todos os misteres que a mãe exerce em relação ao filho.

    Esse paralelo se torna ainda mais esplendoroso quando podemos dizer, a exemplo de Nossa Senhora, que ninguém é mais virgem do que a Igreja, e ninguém é mais mãe do que a Esposa Mística de Cristo.

    Tomem-se todas as instituições e todas as mães da terra, e nenhuma teve nem terá uma maternidade mais copiosa do que a Santa Igreja. Desde o momento em que ela foi fundada, até o fim do  mundo, todos os homens que se salvarem serão gerados nela e será ela que os conduzirá à vida eterna.

    Aceitar ou recusar a Fé, salvar-se ou  condenar-se

    Naturalmente, haverá pessoas que se salvarão sem serem católicas. São aquelas que não tiveram oportunidade de conhecer a Igreja, porque viveram em regiões longínquas, porque nunca ouviram falar dela, etc., e não puderam adivinhar que a Igreja Católica existia.

    Porém, Santo Tomás de Aquino ensina que, antes de essas pessoas morrerem, elas recebem de algum modo — quiçá por seus Anjos da Guarda — a revelação sobre os mistérios essenciais da Fé cristã, e são convidadas, no seu derradeiro momento de vida, a crer ou a recusar. Se creem, elas se salvam; se recusam, condenam-se. Assim, segundo a doutrina tomista, no último instante todas as pessoas que se salvam acabam pertencendo à Igreja Católica, se não pelo batismo da água, pelo batismo de desejo.

    E por esse ensinamento vemos como Santo Tomás de Aquino concebe o papel da Fé na salvação e o papel da Igreja para cada católico. Imaginemos a situação: a alma está nos últimos transes, talvez o homem até sendo dado por morto por todos os circunstantes. Mas vem um Anjo e revela as verdades essenciais da Fé, aquelas sem as quais ninguém se pode salvar. E naquele momento a  pessoa é levada a fazer um ato de amor àquilo e tem para isso as graças suficientes. Mas é possível que, por força de seus vícios, em vez de um ato de amor tenha um ato de ódio. Se ela amar, se  salvará; se ela odiar, se perderá.

    O amor à Igreja é uma fonte de virtudes

    Compreende-se, então, como o amor a Deus, o amor à Igreja Católica é a fonte de todas as virtudes. Quem ama se salva, porque depois praticará os  Mandamentos e cultivará as melhores qualidades morais. Quem não ama, se perde, porque cortou com a raiz de todos os valores da piedade.

    Quantas e quantas vezes tenho ouvido lamentações de pessoas que apresentam dificuldades em tocar a vida espiritual, em perseverar na prática dos Mandamentos, ou pelo menos problemas para  progredir na virtude. A solução qual é?

    Uma das muitas soluções — porque a Igreja é a cidade da salvação onde para tudo há diversas saídas— é exatamente aumentar nossa Fé, é aumentar o nosso amor à Igreja Católica. Aumentando esse  amor, cresce igualmente a nossa determinação para praticar o bem e a nossa repulsa ao mal. E, cumpre notar, muitas vezes as pessoas não têm suficiente aversão ao mal, porque no fundo não têm suficiente amor à Igreja.

    Infalibilidade papal, Eucaristia e Confissão: três belezas da Igreja

    Voltamos então ao pensamento que pretendíamos aprofundar: a Igreja é a figura de Nossa Senhora, e é resplandecente e bela na terra, e devemos procurar amá-la a fim de nos prepararmos para amar Nossa Senhora no Céu. É necessário que tenhamos os olhos sempre voltados para a Igreja eterna, a Igreja imutável, que não se identifica com as misérias presentes e transitórias, a Igreja que devemos amar acima de todas as coisas no mundo. A Igreja na sua hierarquia, nos seus mil aspectos verdadeiramente divinos.

    Recordemos, por exemplo, tudo quanto há de belo na infalibilidade papal, na figura de um homem infalível, governando a todos e a todos ensinando o caminho da verdade, num governo que não é temporal, mas do espírito. Nunca se concebeu, em matéria de governo, algo de tão bonito, de tão nobre quanto isso.

    Consideremos, de outro lado, a Eucaristia. Deus verdadeira e realmente presente entre nós, embora oculto de modo misterioso sob as espécies eucarísticas, conferindo ao homem a possibilidade  de ter com Deus um convívio tão íntimo e até insondável.

    Deus entra nesse homem e como que se faz um com ele. Pode-se imaginar coisa mais esplêndida do que o Todo Poderoso condescender em ter tal familiaridade com cada um dos homens que Ele  criou? Depois, o sacramento da Penitência. Pode-se conceber que inferno seria o mundo sem o confessionário? Se nós não pudéssemos nos abrir sobre os nossos pecados, e não tivéssemos a  certeza do perdão? Que horror seria a incerteza sobre se Deus nos perdoou ou não, se estamos ou não em estado de graça, etc., etc.

    Que obra-prima de sabedoria existe no confessionário, e no fato de o segredo de confissão nunca ser traído! E quanto mais o mundo afunda numa decadência moral, mais aparece os raios de luz  que partem da Igreja, mais compreendemos o quanto ela é bela e digna de amor. Quando nós pensarmos em tudo isso, encontraremos mais resolução para combater os nossos pecados e para  praticar a virtude.

    Que Nossa Senhora das Mercês nos ajude a isso. “Mercê” é uma graça, é um favor. Nossa Senhora das Mercês é Nossa Senhora dos favores, disposta a todo momento a nos conceder dons excelentes e a nos convidar a pedi-los.

    Tenhamos para com Ela esse tipo de relação muito filial e muito confiante, certos de que sobre nós descerão as misericórdias de nossa Mãe santíssima.

     

  • Hierarquia e amor de Deus

    O homem com espírito hierárquico se enleva com tudo de superior que ele vê, está voltado para Deus e dispondo sua alma para adorá-Lo por toda a eternidade, no Céu. E o indivíduo que, diante das qualidades dos outros, sente-se espezinhado ou indiferente, está se preparando para o antro de todas as revoltas, que é o Inferno.

     

    Mais de uma vez tenho exposto a doutrina clássica da Igreja sobre a desigualdade, mostrando no que ela dá glória a Deus, por que é necessária, enfim, tudo quanto São Tomás de Aquino afirma a esse respeito.

    Entretanto, tenho a impressão de que a mera explanação doutrinária não basta, e seria preciso fazer uma exposição vivencial do assunto por onde pudéssemos, por assim dizer, apalpá-lo, para depois aplicarmos mais facilmente a doutrina. E vou tentar, portanto, tocar o tema com a mão; vejamos como ele se deixa manusear.

    Diante dos pombos, na Praça de São Marcos…

    Estive algumas ocasiões — podem imaginar com que encanto! — na Praça de São Marcos, em Veneza. Sempre que vejo a Catedral, é com o mesmo entusiasmo, como se fosse a primeira vez. A laguna, as gôndolas, as duas colunas com o leão alado e com São Teodoro e o dragão, — entre as quais figura o lugar onde eram decapitados os réus de morte —, a entrada do Palácio Ducal… Oh! Que palácio! Se ali morasse, não um doge veneziano, mas um imperador — não das margens do Adriático, mas um imperador do Oceano Pacífico — aquele palácio ainda estaria superior ao personagem, de tal maneira é magnífico.

    Depois de considerar todas essas maravilhas, o olhar cai naturalmente para as bagatelas, entre as quais os pombos que existem em quantidade na Praça de São Marcos. Os turistas costumam levar saquinhos com miolos de pão e outros alimentos semelhantes, que eles compram por ali, os jogam e os pombos vêm comer.

    Eu ficava prestando atenção nos turistas — porque é interessante viajar olhando não só os monumentos, mas os homens e, no caso, também os pombos e os turistas lidando com eles. E eu analisava a reação de almas humanas em relação às aves, e diante do problema da desigualdade.

    Quer dizer, eu me transformava de admirador da Praça de São Marcos em observador de uma criatura de Deus, a qual vale mais do que qualquer monumento. Porque qualquer alma humana, enquanto espiritual, sobretudo enquanto batizada, vale incomparavelmente mais do que a Catedral de São Marcos, o Palácio Ducal, e é até mais interessante, quando se sabe analisá-la.

    …as atitudes dos turistas

    Observando os turistas, eu notava que muitos deles tomavam uma atitude de superioridade em relação aos pombos. É natural: criaturas humanas, seres inteligentes que jogavam no chão a comida e os pombos vinham comer.

    De vez em quando, alguns pombos pousavam na mão de um turista, pois se tornaram aves muito mansas à força de serem bem tratadas pelos transeuntes. Outras vezes, os pombos voavam junto ao rosto das pessoas, e estas queriam pegá-los, iam atrás deles, mas não conseguiam; as aves esvoaçavam e saiam elegantes, para voltar de novo.

    E eu percebia que aquela sensação de superioridade, ligeiramente depreciativa, cedia lugar a uma impressão de encanto. No pombo, aquele movimento da cabeça, aquelas asas cor de chumbo muito matizado, aquelas pequenas estrias coloridas no pescoço — verde um pouco nacarado —, a graça e, sobretudo, a vitalidade, a variedade, sua instabilidade ordenada  fazem desta pequena ave uma maravilha criada por Deus.

    Tendo passado da sensação de superioridade para a do fascínio, os turistas querem agarrar o pombo para terem tempo de observá-lo, mas percebem a instabilidade da ave que pode levantar voo a qualquer momento. Eles ficam meio inseguros e, de repente, começam a sentir, por algum lado, uma certa inferioridade em relação aos pombos. Porque estes possuem um tipo de vitalidade que, para dizer pouco, poucos homens têm. Ademais, o pombo é tão engraçadinho, tão pequenininho, tão vivo, e tem um jeitinho de olhar, que o observador percebe um mistério que ele não chega a explicitar, mas lhe vem à mente o problema: “Como é que um simples bicho tão inferior a mim é, entretanto, por alguns lados, tão superior a mim?”

    Em determinado momento, o pombo que estava na mão de um turista se destaca e voa. E, no voar, afirma sua independência e sua alteridade. Há um modo de o pombo ir embora pelo qual parece dizer: “Não me incomodo contigo. Estive um pouquinho em tua mão, mas agora voo.” E o voar dá ao pombo uma certa superioridade em relação ao homem, pois este não voa, é pesadão, atraído pela terra, seus passos o cansam. Então, olhando o pombo que corta o ar, o homem vai se entusiasmando, até que em determinado momento tem vontade de se apoderar da ave. Se ele pudesse, prendia-a numa gaiola e tentaria haurir aquilo de superior que há dentro dela.

    São poucas as almas que manifestam a seguinte reação: “Como esse pombo, que agora voa, é bonito e superior a mim, por algum lado! E eu gosto de contemplar essa superioridade dele!”

    O homem deve se alegrar ao contemplar a superioridade de outro

    Penso ter filmado, assim, em câmara muito lenta, o drama do igualitarismo.

    Essas sucessivas atitudes de alma de uma pessoa face ao pombo são uma espécie de apólogo, de conto, no qual se pode perceber a evolução do homem diante daquilo que é superior a ele em todas as ordens; não apenas na sua relação com uma ave, mas, sobretudo, com outros homens. E aí o problema da igualdade ou desigualdade entre os seres humanos encontra um meio de se exprimir.

    Por que é natural ao homem reto — ao ver em outro algo mais belo ou melhor do que aquilo que ele possui — exclamar: “Que bom! Então isto existe!”?

    Sendo bem entendida a ordem profunda das coisas, a qualidade de cada pessoa é complementar com a da outra, de maneira que aquele predicado, existindo isoladamente, não teria razão de ser.

    Exemplifico. Alguém tem um grande talento artístico e pinta um quadro. O pintor, enquanto tal, é muito superior ao homem que simplesmente admira o quadro. Entretanto, que sentido teria pintar se não houvesse outros que admirassem a pintura? Não é verdade que a capacidade de admirar de quem vai ao museu para ver o quadro — aptidão mais modesta do que a do pintor — é um complemento do pintor, e este não se explica sem o admirador? Mas não é verdade também que o admirador seria um órfão e um pobre coitado se, gostando de pinturas, não houvesse pintores que as realizassem?

    Portanto, se o pintor, ao invés de desprezar quem não sabe pintar — falando-lhe: “Animal! Dou-te um pincel, borra essa parede, vamos ver o monstro que sai! Olha a bela figura que eu fiz!” —, dissesse ao homem admirativo: “Tu és meu irmão ou meu filho, porque tua alma compreendeu aquilo que eu admirei”, e se unissem, nós teríamos, então, a harmonia da desigualdade.

    Sem dúvida, um belo quadro é uma grande coisa. Mas imaginem se Deus tivesse criado o mundo só com pintores. Que pesadelo! É preciso haver o pintor, mas também o padeiro, o ferreiro, o homem letrado; é necessário ter de tudo porque todas as qualidades são diferentes, mas se completam, formam um todo, a sociedade humana, a qual possui uma perfeição como conjunto, que um mundo constituído só de pintores ou de padeiros não poderia ter.

    Quer dizer, se considerarmos as coisas retamente, veremos que toda superioridade de outro homem deve constituir um gáudio para quem a contempla. Esta é a ordem reta posta por Deus.

    Reação de certos meninos diante de um colega que obtém prêmios na escola

    Alguém dirá: “Mas um homem, vendo um outro muito superior, pode pensar sempre o seguinte: Ele possui qualidades que eu não tenho, e que me completam?”

    Eu afirmo: Vamos devagar… Ele tem qualidades que desenvolveu e você não. Você foi o preguiçoso que deixou as qualidades dormindo dentro de si; ou foi o homem desatinado que deu a elas um desenvolvimento errado, fora da trilha da Doutrina Católica e do espírito da Igreja. Se você se tivesse desenvolvido como deveria, compreenderia melhor aquele que se desenvolveu como devia. E essa sensação de inferioridade contundida é a sua consciência, que geme sob o peso de sua preguiça.

    Não é raro encontrarmos em colégios a seguinte rea­ção: um menino tira uma série de prêmios no fim do ano; certos colegas dizem: “Esse é pretensioso!” Na realidade, aqueles são vagabundos, não querem estudar, não gostam de fazer qualquer esforço. O mínimo que se pode desejar é que eles batam palmas e declarem: “Graças a Deus que alguém fez o que não fizemos!” E cada um precisa pensar: “Se tenho vergonha na cara, ao menos devo aplaudir o mérito dos outros, já que eu não fui capaz de conquistar méritos para mim.”

    Se o menino que recebeu prêmios dissesse isso para os colegas que o chamam de pretensioso, o linchariam. Mas se esse colégio tivesse educadores bons, estes diriam aos alunos vagabundos, porque é uma coisa que eles precisariam ouvir.

    Muitas vezes, esses sentimentos invejosos de inferioridade vêm do fato de a consciência dizer à pessoa que ela deveria ter feito o que não fez, e o remorso dá uma dentada. A dentada do remorso converte a uns, por exemplo, São Pedro, e perde a outros, como Judas.

    Independente disso, Deus Nosso Senhor criou as pessoas desiguais, deu a alguns o talento de pintar, a outros de fabricar pincéis. Podemos estabelecer uma hierarquia: pintar quadro, o principal; excogitar, misturar e compor tintas, em segundo lugar. Para imaginar cores e produzi-las é preciso ser um grande artista; muitas vezes é o próprio pintor quem o faz, como por exemplo, Fra Angélico. Mas pode-se conceber como especialidades separadas. Em terceiro lugar está quem fabrica os pincéis.

    A complementaridade

    Isso forma uma hierarquia à maneira de graus nobiliárquicos, numa linha que não é estritamente nobiliárquica, mas uma escala de valores. E esses valores estão em relação uns com os outros, como os vários graus de nobreza, por exemplo, do duque ao plebeu, na medida em que a arte vai cedendo lugar ao trabalho meramente manual. Mas é a plebe digna, simpática, necessária dentro dessa ordenação geral posta por Deus.

    Então, esta ordenação, na qual habitualmente se quereria ver uma nota meramente política, é política apenas “per accidens”(1), pois se trata, fundamentalmente, da ordenação de todos os valores, inerente a qualquer atividade humana.

    Menciono esta hierarquia para sustentar a tese da complementaridade. Cada grau existe em função do outro, o maior deve amar o menor, o menor precisa amar o maior, cada um deve procurar a perfeição dentro do seu próprio grau, e assim se complementarem todos. Esta é a harmonia querida por Deus; as coisas andam bem quando funcionam assim.

    Apliquemos essas verdades à parábola inicial das pombas. Se um turista, vendo a pomba levantar voo, admira: “Como é bonito haver seres que voem. Como é belo voar!” Se ele sente, portanto, essa complementaridade admirativa, e pensa: “Nós compomos um todo, e neste todo há algo magnífico, superior e que transcende cada uma das partes, e me faz pensar em Deus”. Então, ele acertou e está na boa via.

    Mas se, pelo contrário, ele diz: “Ladrão, você tem reações que eu não teria, e possibilidades que não tenho. O fato de você estar vivo me machuca e me lesa. Fico com a impressão de que você me roubou; vou acabar com você”. Neste caso, ele romperia a obra de Deus.

    Donde o homem com espírito hierárquico, que se enleva com tudo de superior que ele vê, ama e se encanta, está voltado para Deus e dispondo sua alma para adorar o Criador, quando colocada durante toda a eternidade à vista da infinitude de Deus.

    Pelo contrário, o indivíduo que, diante das qualidades dos outros, sente-se amarfanhado, espezinhado ou pelo menos indiferente, está se preparando para o antro de todas as revoltas, que é o Inferno.

    Doutrina de São Tomás sobre a desigualdade

    Essas considerações servem de esboço para nos lembrarmos, em duas palavras, da doutrina de São Tomás a respeito da desigualdade. Muito elevada e belamente, ele não considera a questão em termos tão concretos, mas abstratos. Diz o seguinte(2):

    Deus, sendo infinitamente sábio, poderoso, bom, enfim, tendo todas as qualidades do Ser perfeito que é Ele, só poderia criar seres nos quais sua infinita perfeição reluzisse. Do contrário não Lhe dariam a devida glória.

    Mas, se é assim, Deus não poderia criar um único ser. Porque, sendo Ele infinito, um homem ou um Anjo não O espelharia adequadamente. Seria mais ou menos como um espelho tão pequeno que só refletisse uma pequena parte do rosto; não dá a imagem do indivíduo por inteiro, e nem sequer de sua fisionomia.

    Como afirma São Tomás, Deus não precisaria criar, mas tendo criado, era obrigado, por sua própria perfeição, a criar vários seres, e todos diferentes, para exprimir as diferentes perfeições d’Ele. Ora, acrescenta o Doutor Angélico, quando há diferença, não pode deixar de haver hierarquia.

    A condição para a sociedade humana espelhar bem a Deus é ser constituída de desigualdades. Na medida em que amamos essas desigualdades e, portanto, amamos um superior pela superioridade que ele tem, estamos, no fundo, amando a Deus.

    O espírito igualitário é frontalmente oposto a isso. E como ele odeia a Deus, odeia também todas as desigualdades. Porque cada desigualdade, estabelecendo uma relação entre superior e inferior, é uma imagem da relação entre Deus e o homem. Isso em qualquer terreno: superior de uma Ordem religiosa, general de um exército, diretor de um observatório ou dono de uma barbearia. O superior tem funções que lhe habilitam a olhar o seu inferior como Deus olharia uma criatura.

    Cuidado, superiores! Deus, amando as criaturas, amou-as de tal maneira que Se encarnou por elas. E o Verbo de Deus Se fez carne e habitou entre nós. Mais ainda: padeceu tudo quanto sofreu para nos salvar! Assim o superior deve amar o inferior. A missão do superior, como modelo de abnegação, não é deliciosa, mas terrível!  Prestai atenção, ó superiores!

    Feita esta ressalva, superior é superior, e para o inferior ele é a imagem de Deus.

     

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 9/1/1982)
    Revista Dr Plinio 185 (Agosto de 2013)

     

     

    1) Do latim: por acidente, por acaso.

    2) Cf. Suma Teológica, I, q. 47, a. 1-2.

  • Comentários à oração composta por Santo Agostinho ao Divino Espírito Santo

    Prece ao Espírito Santo

    Ó Divino amor, ó vínculo sagrado que unis o Pai e o Filho, Espírito onipotente, fiel consolador dos aflitos, penetrai nos abismos profundos do meu coração e fazei aí brilhar vossa resplandecente luz. Derramai vosso doce orvalho sobre essa terra deserta, a fim de fazer cessar sua longa aridez. Enviai os dardos celestes de vosso amor até este santuário de minha alma, de modo que nela penetrando acendam chamas ardentes que consumam todas as minhas fraquezas, minhas negligências e meus langores.

    Vinde, vinde doce Consolador das almas desoladas, refúgio no perigo e protetor na aflição desamparada.

    Vinde, Vós que lavais as almas de suas sordícies, e que curais suas chagas.

    Vinde, força dos fracos, apoio daqueles que caem.

    Vinde, doutor dos humildes e vencedor dos orgulhosos.

    Vinde, Pai dos órfãos, esperança dos pobres, tesouro dos que estão na indigência.

    Vinde, estrela dos navegantes, porto seguro dos que náufragos.

    Vinde, força dos vivos e salvação dos moribundos.

    Vinde, ó Espírito santo, vinde e tende piedade de mim. Tornai minha alma simples, dócil e fiel, e condescendei com minha fraqueza. Condescendei com tanta bondade, que minha pequenez ache graça diante de vossa grandeza infinita, minha impotência diante de vossa força, minhas ofensas diante da multidão de vossas misericórdias. Amém.

    (Fonte: prière au Saint-Esprit tirée des oeuvres du grand Docteur de l’Eglise d’Occident)

     

    Eu queria, antes de ser feita leitura, dizer o seguinte: o voo que essa oração tem, ainda quando não se detenha em analisar cada palavra. Mas Santo Agostinho começa e já vai voando não sei para que altura.

    A oração é lindíssima e há passagens que é preciso considerar.

    “Fiel consolador dos aflitos”. – A consolação não é apenas trazer um sentimento de doçura e de ânimo que possa compensar a aflição que se está sofrendo. Mas é o fortificador. “Consolador” propriamente é dar força. Então “fiel consolador” é quem dá força sempre. Tonificador e fortificador contínuo dos aflitos: isso nos dá muito mais precisão do que nós devemos pedir. Não é apenas que tenhamos uma sensação de alento, de ânimo, de doçura, nos abrolhos de uma provação muito profunda, mas que tenhamos a força para resistir a essa provação. E não se trata de uma força de bravata, de espadachim, é uma força forte mesmo! É disso que se trata.

    “…penetrai nos abismos profundos do meu coração e fazei aí brilhar vossa resplandecente luz”. – Aqui também é necessário considerar a palavra “coração”. Ela abrange a afetividade e ocupa aí não um lugar de contrabando, mas um lugar digno, porém é muito mais: são os abismos da alma onde se desenrola a Revolução tendencial; é – digamos assim – um certo “subconsciente da alma”. Então pede que esta força do Divino Espírito Santo penetre aí e que dê à pessoa o que é próprio à força. É um lugar misterioso da alma em que há trevas: é difícil perceber o que lá dentro se passa.

    Outro elemento a se observar: não pede tanto uma palavra quanto uma luz. Os senhores vêem o alcance da oração.

    “Derramai vosso doce orvalho sobre essa terra deserta, a fim de fazer cessar sua longa aridez.” – Ele supõe que as profundezas desta alma estejam na aridez. É, portanto, uma alma que está atormentada pela provação da aridez. O que pede então para isso? “Vosso doce orvalho sobre essa terra deserta…” Os senhores estão vendo que aí está mais próximo da palavra “consolação” no sentido comum do termo, ou seja, é um bálsamo, uma suavidade, um orvalho, algo desse gênero.

    “…vosso doce orvalho sobre essa terra deserta.” – Ele não se refere a uma terra seca, mas é uma terra onde não há nada, uma terra vazia. E é nesse vazio da alma que deve vir um doce orvalho. São esses vazios interiores que se tem e que se traduzem do seguinte modo: cada um de nós – isso constitui até uma obrigação de polidez – no trato, causa a impressão de bem-estar, de satisfação, etc. Porém há uma certa região da alma onde, por efeito do pecado original, a pessoa sente a saciedade de si mesmo e ao mesmo tempo uma espécie de insuficiência. Não se basta a si próprio, sente-se uma solidão interior que constitui um tormento. E querer fazer cessar esse tormento é uma das molas do instinto de sociabilidade. A pessoa fica com a ideia de que a companhia de A, B ou C pode estancar esse sentimento de carência e não há maior engano, porque ninguém pode fazê-lo a não ser o Divino Espírito Santo. E qualquer outra coisa que não seja isso, é uma ilusão e uma estupidez que não tem nome.

    “Enviai os dardos celestes de vosso amor até este santuário de minha alma, de modo que nela penetrando acendam chamas ardentes que consumam todas as minhas fraquezas, minhas negligências e meus langores.” – Os senhores estão vendo que ele toma esta “terra deserta” e a trata ao mesmo tempo de “santuário”, porque há uma continuidade na descrição do estado de alma da pessoa.

    Diz: “Enviai os dardos celestes de vosso amor até este santuário de minha alma“ – Esta terra deserta é ao mesmo tempo um santuário. Mas um santuário que ele figura abandonado, que compara a uma terra deserta. É um santuário que está no escuro. Como isso descreve bem certos estados de alma, certas crises espirituais, em que o interior da alma é ao mesmo tempo uma terra deserta e um santuário no escuro.

    Não sei se lhes é tão claro quanto me parece a ideia do santuário no escuro que precisa ser penetrado pelas flechas vindas do Céu, que só elas podem penetrar até lá. Vê-se que ele não espera de outrem esta solução, nem este arranjo. São as flechadas, os dardos vindos do Céu que podem penetrar nesta terra deserta e fazer ali algo que só Deus pode realizar.

    “Enviai os dardos celestes de vosso amor até este santuário de minha alma”. – O amor sobrenatural a Deus é algo que de Deus parte, que Ele mesmo dá. E que quando não dá, não vem de dentro da alma. É um dom dEle. E é pela oração que  devemos obter esse dom. E devemos pedi-lo por meio de Nossa Senhora, a Medianeira universal de todas as graças. E quando nossa alma está como terra deserta, ou santuário na obscuridão, é este o momento exato de pedir isto que vem do Céu, e que se acende porque só Deus pode iluminar isto. Só Deus pode acender, só Deus pode reacender e dEle é que tudo isso procede, a rogos de Nossa Senhora. Como é útil nós nos lembrarmos disso na nossa vida espiritual!

    “…de modo que nela penetrando acendam chamas ardentes que consumam todas as minhas fraquezas, minhas negligências e meus langores”. – Então, é nesta terra deserta, nas sombras tenebrosas desse santuário que está no escuro, que há “faiblesse, négligence et langueur” (fraquezas, negligências e langores). A enumeração é muito saborosa, porque não menciona perfídias, maldades, intenções atrozes, crueldades. Ele toma uma certa família de defeitos e menciona. Esses defeitos são: as fraquezas; negligências, que são um fruto da fraqueza: quando o indivíduo não resiste à fraqueza, o fruto normal é a negligência; langores… É quase a causa e o efeito. Os langores vêm das fraquezas, estas e os langores produzem as negligências. É, portanto, a alma mole.

    Isso é um estado de alma de um número incontável de fiéis de nossos dias diante da situação da Igreja Católica. E se os bons da causa da Contra-Revolução são tão isolados e tão abandonados, não o seriam se simplesmente essas almas não fossem nem negligentes, nem fracas, nem langorosas. Aqui Santo Agostinho tem em vista – por uma razão que não sei qual seja – uma linha especial de almas. Não são os bandidos, não são os que conspiram em guerras, os que querem morticínios, não é disso que se trata. Ele tem aqui especialmente em consideração os “santuários abandonados”, esse gênero de fraqueza e de moleza…

    “Vinde, vinde doce Consolador das almas desoladas, refúgio no perigo e protetor na aflição desamparada”. – Considerem bem aqui a ideia de uma doçura forte, ou de uma força doce. É muito próprio ao sabor das coisas celestes nos fazerem sentir a bondade, a doçura de Deus, ao mesmo tempo que ipso facto comunicam uma força muito grande. Por exemplo, quando somos objeto de uma graça que nos fale da doçura do Sagrado Coração de Jesus ou do Imaculado Coração de Maria, e experimentamos tal doçura. Sem percebermos saímos mais resistentes às tentações, mais fortes no perigo, mais perseverantes na Fé. Quer dizer, uma doçura que comunica força! Não há, portanto, uma dicotomia entre força de um lado e doçura de outro. A doçura comunica força, a força comunica doçura. É  uma coisa só.

    “…doce Consolador das almas desoladas”. – A desolação não é uma tristeza qualquer. É uma espécie de auge, de píncaro de tristeza. Na linguagem comum, quando se diz “estou desolado”, não se quer dizer apenas que estou muito triste. Mas “estou tristíssimo, em mim não há quase senão tristeza”. Não exclui naturalmente a fórmula de cortesia: “Estou desolado, estou…” Não exclui isso. Mas aí a palavra fica balofa, como tantas coisas que a cortesia neo-pagã torna balofas. Entretanto o sentido próprio da desolação é esse. Nós podemos falar da desolação de Nosso Senhor no Horto das Oliveiras, pois foi uma desolação.

    “…refúgio nos perigos”. Quais são os perigos? Os perigos que ele tem em vista não são principalmente os do corpo, mas os que afetam a alma. A salvação da alma é continuamente posta em perigo por toda espécie de circunstâncias. O refúgio nesse perigo é o Divino Espírito Santo, com suas graças, sua ação nas profundidades de nossa alma, etc. E com isso eu gostaria – se me fosse possível – comunicar às almas uma certa segurança. As pessoas sentindo dentro de si o enigmático desse santuário no escuro e desta terra árida, ficam achando que têm dentro delas problemas que não vão vencer, e se põem meio desanimadas de continuar no caminho da salvação. Se se tiver em vista que o Divino Espírito Santo é o Esposo de Nossa Senhora, e que não recusa coisa nenhuma a Ela, as pessoas terão ânimo, porque para tudo isso o Espírito Santo é o remédio. Podem pedir as graças dEle e obterão.

    “…Protetor na aflição desamparada” (détresse). – “Détresse” é uma palavra muito bonita. “Détresse” é uma aflição desamparada, um apuro muito carregado. Quantas situações de vida espiritual há assim? A pessoa está na “détresse”, pede ao Espírito Santo e contra o curso normal dos seus pensamentos, a concatenação normal das suas idéias, a pessoa sai da “détresse”. É uma impressão qualquer, uma coisa qualquer, que toca a alma e muda. É a ação do Divino Espírito Santo…

    “Vinde, Vós que lavais as almas de suas sordícies, e que curais suas chagas”. – A construção da frase, se está bem traduzida do latim, é a seguinte: Vós sois quem por excelência lava as almas. Quer dizer, “Vós que fazeis isto”, inclina o espírito a admitir: “Vós que sois o único a fazer isto”. É para onde propende o espírito.

    Aqui, mais uma vez, é um alento cheio de doçura. Porque as pessoas muitas vezes consideram o interior de suas almas e notam-no tão cheio de chagas purulentas, tão cheias de sordícies, que a pessoa desanima. Mas é claro que vai desanimar, porque ela não tem força para isso! É preciso uma força do Céu que lhe dê ânimo, que lhe dê meios para isto, ou que opere isto, por vezes sem que ela tenha que fazer outra coisa senão dizer “sim”. Entra aquela luz e cura a alma…

    Mas por que, na nossa vida espiritual, não temos toda a esperança, todo o ardor que este modo de ver a ação do Espírito Santo comunica? É ou não verdade que essa consideração daria às nossas almas outro élan para subir, para continuar para frente do que habitualmente nós temos?

    “Vinde, força dos fracos, apoio daqueles que caem”. – É tão claro que não tenho nada a dizer.

    “Vinde, doutor dos humildes e vencedor dos orgulhosos.” – Isso é muito bonito! O doutor que esclarece, que ensina aos que são humildes, antes de tudo em face dEle. E que, portanto, não são orgulhosos que imaginam que sua cabeça contém a solução para todos os problemas, mas sabem que é o Divino Espírito Santo que possui a solução para todos os problemas. E que é preciso rezar, é preciso pedir, é preciso implorar, mas implorar muitas vezes e com humildade. Eu não resolvo, eu Plinio, porque não sou capaz de resolver! Mas se eu rezar, também não obtenho. Se eu pedir por meio de Nossa Senhora, Ela que é Mãe de misericórdia reza por mim e Ela obtém. Mas aí é fácil, é seguro e é rápido que obterei. Isso me mantém alegre e de pé no meio das aflições que todo homem tem no meio desse vale de lágrimas. Eu tenho receio de estar dizendo banalidades…

    A oração tem uma concisão, uma substância extraordinária!

    “Vinde, Pai dos órfãos, esperança dos pobres, tesouro dos que estão na indigência”. – Aqui também se deve considerar o lado da vida espiritual, que é sempre o que o Santo tem em vista antes de tudo: a santificação de quem vai rezar, que vai usar a fórmula.

    “…Pai dos órfãos…” – Quanto órfão existe em matéria de vida espiritual! (…) Como o homem ao longo da viagem nesta terra é um órfão! Ainda que ele atinja os 81 anos, é um órfão! Então Ele é Pai dos homens que sentem a terrível orfandade desta vida. Esta vida é uma orfandade.

    “…Pai dos órfãos, esperança dos pobres…” – É aquele que não tem nada para esperar, e que internamente é um pobre, quer dizer, não tem títulos para pedir, não tem direito quase de pedir, vive da misericórdia. É dele que o Divino Espírito Santo é Pai cheio de bondade, de acessibilidade.

    “…tesouro dos que estão na indigência” – Não temos diante de Deus méritos nenhum para alegar. Estamos na indigência. Mas o Divino Espírito Santo é o nosso tesouro. Nós pedimos e Ele dá.

    Estão vendo quanta substância contém essa oração e quão magnífica ela é?!

    “Vinde, estrela dos navegantes, porto seguro dos que náufragos”. – São dois conceitos: um é a estrela dos navegantes. O que lembra a invocação a Nossa Senhora: Ave Maris Stella. Se Ela é a Estrela do Mar, Ela é a Estrela dos que navegam, evidentemente. Mas, então, por que se diz do Espírito Santo a mesma coisa que d’Ela se diz? Porque o que se diz da Esposa, se diz também do Esposo. E Ela é a Estrela dos navegantes porque Ela é a Esposa mística daquele que é a Estrela dos navegantes por excelência, que é o Divino Espírito Santo.

    Ou seja, para todos que vão andando pela vida, com os seus riscos, com seus problemas, etc., a Estrela é o Divino Espírito Santo. Ele fala primeiro dos navegantes e depois dos náufragos. O náufrago… pode se imaginar o navio que se destroçou. O sujeito se agarra a um destroço, a uma “épave”, e vai por onde as águas tocam. De repente, as correntes marítimas o levam para dentro de um porto. Esse porto é o Divino Espírito Santo. Quer dizer, os vagalhões da alma, das paixões, levam o homem de um lado para outro e ele está entregue às apetências mais desregradas, aos orgulhos mais desordenados, às coisas mais sem remédio. Para ele não há mais porto. Não há mais!… Ou seja, não haveria se não fosse a oração de Nossa Senhora ao Divino Espírito Santo, que é o porto seguro dos que naufragaram. Entrou lá, está tudo resolvido.

    “Vinde, força dos vivos e salvação dos moribundos”. – Vejam que bonita alternativa: força dos vivos e salvação dos que moribundos! Quase não se tem o que dizer… O homem está vivo, a vida é uma luta, ele precisa ter força. Mas ao morrer, precisa de uma graça autônoma de todas as que recebeu na vida: é a graça da boa morte. E esta salvação a pessoa tem se rezar ao Divino Espírito Santo.

    Eu toda a vida considerei muito pungente aquela cerimônia que havia nas arenas antes de começar o martírio. Havia jogo de gladiadores, depois imolavam os mártires. E os gladiadores entravam em ordem, paravam diante da tribuna do Imperador, e diziam: “Saudação a ti, ó César, os que vão morrer te saúdam! – Ave Caesar, morituri te salutant!” Quer dizer, uma coisa pungente. Aquele César – em geral um soldadão tosco, boçal, semi-bêbado, sensual, ordinário, venal, que tinha subido comprando seu cargo, refestelado na segurança da tribuna imperial – vê chegar junto a ele os que vêm em marcha, fortes, jovens, com espadas, com tridentes, com redes, com lanças, etc., para começarem o combate. E sabe que vão lutar apenas para divertir aquele pândego que está ali em cima! Situação triste na vida, mas é isto: são os “morituri” (os que vão morrer). Todo homem, quando está na iminência da morte, pode dizer não a um César imundo, mas a Deus infinitamente perfeito: “Ave, ó Deus, o que vai morrer te saúda!” É a última saudação antes da morte! Pois bem, para que essa saudação seja perfeita, é necessário o auxílio do Divino Espírito Santo, sempre a rogos de Maria, sem A qual nós não conseguimos nada.

    “Vinde, ó Espírito santo, vinde e tende piedade de mim. Tornai minha alma simples, dócil e fiel, e condescendei com minha fraqueza”. – É uma frase lindíssima, que a bem dizer perde sendo comentada, porque há uma beleza que qualquer comentário deslustra. É preciso tomar como uma fonte donde nasce a água. Não vale a pena captar a água; deixa brotar da fonte assim aos borbulhões. Assim está Santo Agostinho…

    Enfim, para meter a camisa de força do comentário de alto a baixo do texto, vem então o seguinte: “Vinde, ó Espírito santo, vinde”. – Os senhores vejam a ênfase: “vinde, vinde!  E tende piedade de mim”. Aquele necessitado de piedade implora com insistência, pede duas vezes: “Vinde, vinde!” E agora vem a enumeração do que quer da piedade. O ter misericórdia dele, para seu caso concreto, o que significa? Então vem: “Tornai minha alma simples, dócil e fiel”. As três palavras devem ser consideradas juntas, pois constituem uma espécie de tríptico. Simples é a alma que não tem requebros, vaidades, complicações. O contrário, portanto, de quem não quer se ver a si mesmo direito, que não quer olhar-se de frente, que não é “pão, pão, queijo, queijo”. Nosso Senhor disse: “Seja vossa linguagem sim, sim, não, não”. “Seja o vosso pensar interior sim, sim, não, não. Tenha a coragem de ver a verdade e o erro, mas também no que diz respeito a vós! Não é só o mundo objetivo, externo a vós, mas também no que diz respeito a vós interiormente. Tende essa coragem!”

    Esta é uma alma simples. A alma simples é dócil. Por que? Quanto mais uma alma é complicada em obedecer, tanto mais a essa alma falta simplicidade. Não sei se os senhores conhecem uma coisa que não sei se se usa hoje, mas antigamente, quando eu tinha tempo de prestar atenção nessas coisas, eu via os empregados às vezes passarem no chão uma espécie de carapinha de palha de aço para limparem o lugar, nem sei bem para o que era. Depois enceravam. Acho que era para tirar sujeira impregnada no chão.

    Há almas complicadas como aquelas palha de aço! Engruvinhada uma coisa na outra… Então se propõe uma coisa: “Pode, mas se der tal coisa, se fizer assim, e se acontecer de outro jeito, e se der uma carambola assim… então eu estou de acordo”. São as almas às quais faltam docilidade. Complicadas no obedecer. Pelo contrário, as almas simples recebem um convite do Espírito Santo: “Pois não”. Vão e fazem!… Nós poderíamos examinar um pouco: somos parecidos com a palha de aço ou retos como a lâmina de uma espada? É uma pergunta que se poderia fazer.

    Dócil e fiel. A fidelidade é muito difícil para a palha de aço; ela é muito mais fácil para o gládio. Alma-gládio e alma-palha de aço: não poderíamos fazer disso uma classificação para as almas? E se fôssemos nos analisar… Os senhores sabem o que acontece? A palha de aço começaria a ferver: “Não, é assim, mas é preciso considerar tal coisa, eu tenho tal atenuante! É verdade que tenho tal agravante… Eu vejo que você acha isso de mim e por isso é meu inimigo, você vê essa agravante! – como se ver a verdade em alguém fosse ser inimigo de alguém! – e também tem tal lado, tal, tal, tal! Em todo caso, você também tem tal coisa!” Eu não estou em jogo. Está em jogo você, meu caro! Vamos conversar… Isso é a palha de aço! Quanto há, por vezes, palha de aço em nossas almas.

    Alguém poderia, enquanto estou falando, responder: “Mas, Dr. Plinio, não tem saída, eu sou palha de aço mesmo!…” Meu filho, não diga isso… Você ajoelhe, reze a Nossa Senhora com confiança para que Ela faça vir sobre si o Divino Espírito Santo, e as coisas mudem.

     

    Mater mea, fiducia mea (Minha Mãe, minha confiança)

    “…e condescendei com minha fraqueza…” – Eu não conheço a etimologia da palavra “condescendência”. Mas sou tentado a achar, pelo sentido da palavra mais do que pela composição dela, que é “descer com”: “Tende a bondade de descer dentro de mim até o fundo, mas com bondade, em espírito de perdão, uma tendência a curar-me, a sarar as minhas chagas, e não a castigar-me. Descei até esse fundo culpado de minha alma, descei até lá, mas descei como Pai, como médico, como curador. Tende pena de mim, e sarai as minhas chagas!”. É uma oração que se pode fazer, que se deve fazer.

    E condescendei ao quê? À fraqueza. Mais uma vez é a preocupação com os lânguidos, etc. “Eu sou fraco, deveria ter energia e não tenho. Vejo outros que têm energia, e me pergunto: como é que vou sair desse buraco? Enérgico eu não sou…” Reze, meu filho! Reze com coragem, reze com ânimo! Você deixará de ser fraco.

    “Condescendei com tanta bondade, que minha pequenez ache graça diante de vossa grandeza infinita”. – Um poca, por exemplo, que só gosta de conversar sobre coisinhas, só trata de assuntinhos sem importância, que não tem alma grande para nada… Ele vê, por exemplo, uma reunião onde todos os presentes estão preocupados com grandes temas, e pensa: “Eu estou achando isso cacete. Eu gosto tanto de tratar de coisinhas… Eu tenho que resolver a que horas amanhã vou levar meus sapatos para consertar. E gosto de pensar nisso. Estão aí estas águias voando alto e eu sou tão chulo, tão droga… Eu tenho vontade de me esconder até”… Não faça isso. Faça o contrário. Mostre-se! Mas mostre-se ao olhar de Deus, o Qual, aliás, vê tudo… quer eu me mostre, quer eu não me mostre. Ele vê tudo… vê também se estou querendo me esconder como Adão e Eva depois do pecado. Então é melhor eu dizer: “Vede, Senhor, eu sou tão zero, tão poca, tão nada! Mas Vós podeis dar-me aquele nível para o qual Vós me criastes. Vinde e agi!”

    “…que minha pequenez ache graça diante de vossa grandeza infinita”. – O que significa “encontrar graça”? É Deus considerar do alto de Sua onipotência a minha impotência. E considerando exatamente a minha impotência, Ele vê nisso uma razão para sorrir e me tratar com bondade e me suspender, dar-me um poder que eu não tenho. Esse é o sentido dessa oração.

    … minha impotência diante de vossa força, minhas ofensas diante da multidão de vossas misericórdias”. – Tal é a multidão de vossa misericórdia, que encontro – para qualquer espécie de culpa que tenha – a vossa bondade que vem de encontro a mim.

    Isso seria o sentido da oração! A qual recomendo aos senhores que guardem. Eu peço a um dos senhores para dar ao Sr. Fernando a fim de guardar para mim, porque no meu bolso vai se transformar num “chiffon” a qualquer momento. E que a rezem de vez em quando, tendo um movimento para tal, pois seria sumamente conveniente.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Domingo, 20 de maio de 1990)

  • Uma verdadeira procura do Absoluto

    No colóquio de Óstia, entre Santa Mônica e Santo Agostinho, vemos a beleza de dois Santos conversarem sobre como seria a vida eterna dos bem-aventurados, e a alegria daquela mãe santa em ver o filho, outrora perdido, incendiado de desejos de contemplar o Céu.

    É uma verdadeira procura do Absoluto. Depois de terem considerado todas as coisas materiais, começaram a contemplar as espirituais e a alma, como elemento para se ter ideia da beleza da perfeição de Deus. Por fim, chegaram à conclusão de que, no ápice de tudo, figura a Sabedoria eterna e incriada.

    Esses dois Santos mantêm uma conversa que é uma oração, a qual vai subindo de ponto em ponto até chegar, num êxtase, ao seu ápice. Tudo isso com tanta simplicidade, junto à janela de um quarto dos fundos de uma hospedaria de Óstia, dando para um jardim. Uma verdadeira maravilha!

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 31/8/1965)

  • Santo Agostinho

    Quando lemos as “As Confissões” de Santo Agostinho, facilmente aquilatamos a profundidade de sua alma e a retidão de seu espírito de convertido. Podemos “ouvir” nas linhas o latejar de seu coração arrependido pelos pecados de sua vida passada, e nos é dado admirar, semeado por aquelas páginas imortais, o talento maravilhoso de um homem chamado por Deus a enriquecer a Igreja com altíssimos ensinamentos e explicitações.

    O belo e vigoroso alçar de uma águia aos ares, atraída pelos fulgores do sol, nada é em comparação com o voo luminosíssimo do pensamento de Santo Agostinho. Ele se eleva no firmamento da doutrina católica com um ímpeto que se diria quase inimaginável numa alma humana.

    Pois esse foi o grande Bispo de Hipona, uma das maiores intelectualidades que houve na História, um gigante da Fé, da sabedoria e da santidade, para todos os séculos até o fim do mundo..

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • Senso do maravilhoso: padrão para o conhecimento da verdade – I

    Desde criança, Dr. Plinio tinha encantos pela Europa; e, sendo moço, quando conheceu a Baía de Guanabara ficou maravilhado e se perguntava se poderia haver algo mais belo. Possuía ele em sua alma um padrão de maravilhoso, pelo qual avaliava todas as coisas.

     

    Toda criança tem uma tendência para o maravilhoso. De maneira tal que, colocando vários brinquedos diante de uma criança, normalmente ela se inclina para o mais colorido, que chama mais a atenção e dá mais a ideia do maravilhoso. E o espírito dela também tende a fixar-se de preferência nas coisas maravilhosas que vê.

    O mais alto padrão de civilização a que chegou o mundo

    Lembro-me de mim mesmo, em pequeno, em várias circunstâncias, vendo coisas maravilhosas e fixando minha atenção. Isso ia preparando o meu espírito para dar o primado da preferência e da atenção para certas coisas lindíssimas, mais do que outras. Com o fundo da ideia de que era possível haver uma ordem de coisas muito mais bonita do que aquela que eu tinha diante dos meus olhos. E, por causa disso, eu deveria tender a conhecer e admirar essas coisas mais bonitas.

    Então, desde muito pequeno, tive admiração pela Europa. Porque é o mais alto padrão de civilização a que tenha chegado o Ocidente, ou o mundo. E quando eu observava ilustrações da Europa em revistas, lembrava-me de coisas que tinha visto em menino e dizia: “Tudo isso é de todo teto superior ao que eu tenho aqui. Portanto deve haver um mundo assim, e a alma humana foi feita para considerá-lo, estimá-lo, amá-lo, respeitá-lo. E, não podendo estar lá, pode-se ver em fotografias — é a única missão verdadeira da fotografia! — as maravilhas que não se tem, e se encantando com elas!”

    E em certas ocasiões eu pensava: “Isto é maravilhoso!” E, levado por esse desejo do maravilhoso, cogitava a respeito de qualquer coisa: “Poderia ser ainda mais maravilhosa! Deus não é obrigado a criar o mundo mais bonito possível para os homens, nem há um mais bonito possível para o Altíssimo, porque, sendo Deus infinito, Ele pode sempre fazer o mais belo, que não tem limite. Por mais maravilhoso que Ele faça, nunca tocará n’Ele. Não há um limite do máximo. Vai até onde minha imaginação puder ir, até onde a sabedoria e a bondade do Criador quiserem que vá”.

    Um episódio tão conhecido entre nós: eu, em menino, querendo comprar Versailles com uma libra esterlina… Isso porque, na minha inteligência infantil, aquilo rompia todos os padrões de maravilhoso que eu tinha concebido até então. Lembro-me de vir-me à mente a seguinte ideia: “Nunca imaginei que pudesse haver uma coisa tão maravilhosa!”

    Assistindo a um filme sobre os funerais de Francisco José

    Mais tarde, fiquei encantado assistindo a uma fita de cinema que representava os funerais do Imperador Francisco José(1) — executados com precisão, uma coisa estupenda! —, e a Fräulein(2), que era uma senhora da nobreza e conhecia bem os personagens, ia indicando: “Agora o funeral vai passar em frente à igreja tal, e é a hora do Conde tal fazer uma saudação para a Duquesa tal…” Acontecia exatamente como ela dizia, e o funeral continuava.

    Aquilo me encantava! Por quê? Por causa de uma medida vaga de perfeição em matéria de funeral, muito incompleta, que eu concebera vendo os enterros, tão mais modestos, em São Paulo. E de repente me esbarrar com aquela cerimônia, que ultrapassava tudo quanto eu tinha imaginado, o meu senso do maravilhoso se abria e se escancarava! Daí uma espécie de respeito e entusiasmo por aquelas coisas, que a crítica da idade madura não fez senão confirmar.

    Baía de Guanabara

    Indo em moço para o Rio de Janeiro, analisei várias vezes as três enseadas clássicas: Flamengo, Botafogo, Copacabana. Depois um trecho de mar mais adiante, que creio chamar-se Leblon — uma maravilha também!  Em todas, perguntei-me, subconscientemente, se era possível imaginar uma coisa mais bela. E cheguei à conclusão de que, mar por mar, eu não conseguiria imaginar mais bonito. Não quero dizer que não haja, mas minha inteligência não chegou a imaginar algo mais belo. E porque não chegou, vem meu assentimento inteiro de que aquela Baía é realmente uma maravilha.

    De onde vinha minha inteira adesão à Baía de Guanabara? Do fato de haver uma coincidência entre o que eu via e aquilo que, mais ou menos subconscientemente, representava a ideia que eu podia ter do maravilhoso de uma baía.

    Padrão de maravilhoso a respeito de todas as coisas

    Uma das perfeições do espírito humano é ter uma noção do que seria o ideal de todos os seres. Quer dizer, um conceito de maravilhoso a respeito de todas as coisas, e o hábito de confrontá-las com esse padrão maravilhoso que se deveria formar a respeito de tudo quanto se vê.

    Quando se diz, habitualmente, que alguém conheceu uma coisa inteiramente, afirma-se que a pessoa aprofundou-se naquele ponto. Ora, a expressão é verdadeira, porque em algum sentido se aprofunda; mas em outro sentido deve-se chegar até o píncaro. E a cognição inteira de algo vem da junção do mais profundo com o mais elevado, o mais admirável daquilo.

    Portanto, nós entendemos algo não apenas quando percebemos suas qualidades e defeitos, mas quando temos também um padrão mais ou menos instintivo do maravilhoso correspondente àquilo.

    Para que as almas almejem grandes ideais, grandes realizações, elas precisam habituar-se a terem uma plataforma em função da qual calculem as maravilhas das coisas. E saibam, portanto, aquilatar, avaliá-las pelos seus mais altos aspectos.

    Quando li os comentários de Cornélio a Lápide(3) sobre o Céu empíreo, tive uma explosão de entusiasmo: “Chegará uma ocasião em que conhecerei esse maravilhoso e me deleitarei com ele. E enquanto minha alma estiver vendo Deus face a face, que é a maravilha das maravilhas, meu corpo estará ao mesmo tempo — porque, com minha alma, forma uma só pessoa — em contato com maravilhas físicas, que facilitarão o meu corpo a acompanhar o “élan” de minha alma rumo a Deus!”  v

     

    (Continua no próximo número)

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 9/8/1988)
    Revista Dr Plinio 185 (Agosto de 2013)

     

     

    1) Imperador da Áustria-Hungria, falecido em 1916.

    2) Do alemão: senhorita. Aqui Dr. Plinio refere-se à sua preceptora alemã, Srta. Mathilde Heldmann.

    3) Jesuíta e exegeta flamengo (* 1567 – † 1637).

  • Santo Agostinho, farol de sabedoria e de amor a Deus

    De pecador a modelo de perfeição espiritual, Santo Agostinho abraçou a Fé católica com fervor e zelo invulgares, defendendo-a e a enriquecendo com a extraordinária inteligência que lhe foi concedida por Deus. Algumas facetas dessa grande figura da Igreja reluzem aos nossos olhos, comentadas por Dr. Plinio.

    Considerado um dos mais luminosos teólogos da Igreja em todos os tempos, Santo Agostinho legou à História não apenas seus tratados espirituais, como também a narrativa da própria conversão, a descrição de suas lutas interiores e de seu triunfo sobre o pecado. “Confissões”, a célebre obra do Bispo de Hipona, tem produzido inúmeros frutos de emenda de vida, de retomada do caminho da virtude, por parte dos que se deixaram tocar pelo exemplo desse herói da Fé.

    Antes de comentarmos uma eloquente passagem dessa autobiografia, convém tomarmos conhecimento de alguns breves contornos do perfil de Santo Agostinho.

    Retórico e filósofo ilustre

    “Pai por excelência de todos os Padres da Igreja, Doutor da graça, monge, pastor, teólogo, autor de uma obra monumental e escritor de gênio, Agostinho permanece o símbolo vivo do convertido, não cessando de influenciar o espírito e o imaginário da Europa.

    “Esse romano da África, de origem berbere, nascido no ano de 354, em Tagasta, na atual Argélia, alcançou grande renome por seu extraordinário domínio das artes liberais, e foi considerado por seus contemporâneos como o mais ilustre dos retóricos e o mais autorizado dos filósofos. Adepto de Cícero, o jovem Agostinho vai para Cartago, e depois para Roma e Milão, que era então a capital do Império. As suas peregrinações espirituais o levaram a aderir ao maniqueísmo, mas é o encontro com o cristianismo que vai revolucionar a sua existência. Aos trinta e dois anos, por insistência de sua mãe, Santa Mônica, e de Santo Ambrósio, e após uma revelação sobrenatural nos jardins da sua casa, Agostinho pede que seja batizado.

    “Diz uma tradição que, terminada a cerimônia do Batismo, Santo Ambrósio exclamou: ‘Te Deum laudamus!’, e que Santo Agostinho acrescentou: ‘Te Dominum confittemur!’; e assim, alternando suas frases um e outro, entre os dois improvisaram naquela ocasião os conceitos e palavras que compõem o cântico litúrgico do ‘Te Deum’.

    Incansável adversário da heresia

    “Depois de um breve retiro em Cassiciaco, Agostinho volta à sua terra natal, torna-se monge e consagra três anos à oração e ao estudo.

    “Em 391, O Bispo Valério de Hipona (atual Annaba) chama-o para junto de si. Agostinho suceder-lhe-á em 395 nessa importante sede episcopal. Começa então para esse pregador e catequista infatigável uma era de grandes controvérsias — contra os donatistas, em primeiro lugar, que negam aos ‘lapsi’ (apóstatas) o perdão da Igreja; em seguida contra os pelagianos, que atribuem exclusivamente ao homem o mérito da salvação.

    “O Bispo de Hipona descobre em si uma vocação de lutador contra as heresias, capaz não só de inscrever a sua reflexão nas problemáticas do seu tempo, como também de edificar uma autêntica Teologia perene. No fim da sua vida, já em plena invasão dos Vândalos, enfrentou um último desvio à Fé: o dos homeanos, que negam o dogma cristológico.

    A tristeza, companheira no fim da vida

    “Por volta do ano 430, os bárbaros devastam totalmente o norte da África. Ao atingirem Hipona, os invasores a cercaram e lhe impuseram um rigoroso assédio. Este acontecimento agravou a já amarga e triste ancianidade de Santo Agostinho, que sofreu mais do que todos, e se alimentou de dia e de noite com a torrente de lágrimas que brotavam de seus olhos ao ver como uns caíam mortos e outros fugiam, e ao considerar que as igrejas ficavam viúvas de seus sacerdotes, e as populações arrasadas se transformavam em desertos.

    “Como os horrores continuassem, reuniu seus monges e lhes disse: ‘Pedi ao Senhor que nos tire desta angustiosa situação, ou nos dê forças para suportá-la, ou me leve desta vida e me livre de presenciar tantas calamidades’.

    “O Senhor o ouviu e lhe concedeu a terceira dessas petições. Meses após o início do cerco da cidade, Santo Agostinho caiu enfermo. Compreendendo que o dia de sua morte se aproximava, mandou que escrevessem os Sete Salmos Penitenciais em grandes cartazes e os pregassem a uma das paredes de sua cela, de maneira a poder lê-los e rezá-los a partir do leito em que se achava prostrado. Assim foi feito, e o Santo, sempre com imensa emoção de alma, recitava constantemente ditas orações.

    “Pouco antes de sua morte, Santo Agostinho teve essas interessantes palavras: ‘Ninguém, por muito virtuosamente que tenha vivido, deve sair deste mundo sem fazer previamente confissão de seus pecados e sem receber a Eucaristia’.

    “Até o último momento de sua vida conservou perfeito estado de suas faculdades, seus membros e sua vista, de maneira que, com completa lucidez mental, no instante supremo, rodeado de seus monges que o assistiam com suas preces, aos 77 anos de idade e 40 de episcopado entregou seu espírito a Deus.

    Apaixonado investigador da verdade

    “Luminosíssimo farol de sabedoria, baluarte da ortodoxia, fortaleza inexpugnável da Fé, sobressaindo em talento e ciência entre os demais doutores da Igreja, Agostinho foi homem eminente, tanto pelos exemplos de ­suas virtudes, quanto pela riqueza de sua doutrina.

    “A obra que deixou é imensa. Cento e treze Tratados, entre os quais se destacam o ‘De Trinitate’ e ‘A Cidade de Deus’ que inaugura a teologia da História; 218 epístolas, mais de 500 ‘Sermões’, ‘Diálogos’ e ‘Comentários’ bíblicos, e, por fim, essa obra singular que são as ‘Confissões’, a primeira autobiografia de todos os tempos.

    “A sua teologia, feita de experiência e permanentemente existencial, eleva-se até a contemplação pura, sem ignorar a psicologia, a historicidade, a realidade humana. Da iluminação fulgurante da sua juventude ao final da sua velhice, Santo Agostinho nunca deixou de meditar sobre o dom feito por Deus ao homem, e que faz dele um investigador apaixonado da verdade.”

    “Dai-me o que me ordenais; ordenai-me o que quiserdes!”

    Vemos, portanto, como Santo Agostinho se destacou não apenas por suas insignes virtudes, mas também pela luminosa sabedoria que Deus lhe concedeu, a fim de a utilizar para o bem das almas e da doutrina católica.

    Em seu famoso livro autobiográfico — “Confissões” — tem ele esta linda passagem sobre a qual gostaria de tecer alguns breves comentários:

    “Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e sempre nova. Tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim, e eu lá fora a procurar-Vos! Disforme, lançava-me sobre estas formosuras que criastes. Estáveis comigo, e eu não estava convosco! Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós. Porém, chamaste-me com uma voz tão forte que rompestes a minha surdez. Brilhastes, cintilastes e logo afugentastes a minha cegueira! Exalastes perfume: respirei-o suspirando por Vós. Saboreei-Vos, e agora tenho sede e fome de Vós. Tocastes-me e ardi no desejo da vossa paz. Só na grandeza da vossa misericórdia coloca toda a minha esperança. Dai-me o que me ordenais, e ordenai-me o que quiserdes.

    “Ora, afirmou um sábio: ‘É já um efeito da inteligência saber que ninguém pode ser casto sem o dom de Deus’. Pela continência, reunimo-nos e nos reduzimos à unidade, da qual nos afastamos ao nos derramarmos por inumeráveis criaturas. Pouco Vos ama aquele que ama, ao mesmo tempo, outra criatura sem ser por vossa causa. Ó amor que sempre ardeis e nunca Vos extinguis! Ó caridade, ó meu Deus, inflamai-me! Ordenais-me a continência. Dai-me o que me ordenais e ordenai-me o que quiserdes!”

    Trata-se de um texto tão elevado e nobre que sua intelecção pode parecer, à primeira vista, um pouco árdua.

    Belos jogos de palavras

    Santo Agostinho faz alguns jogos de palavras, muito apreciados pelos antigos. Não sei como soam e que sabor têm na audição e no paladar espiritual das gerações posteriores à minha, mas a meu ver são lindíssimos.

    Como se sabe, Santo Agostinho se converteu na idade madura, após ter levado uma vida de pecados. Por isso, se dirige a Deus dizendo: “Tarde Vos amei”, e utiliza o primeiro jogo de palavras: “Ó Beleza tão antiga e sempre nova”. O Criador é antigo, pois, sendo eterno, existiu antes de todos os séculos. Mas é uma Beleza sempre renovada, porque é infinito, manifestando continuamente algo de inédito à nossa consideração. E o homem, adorando-O por tais predicados, encontra em Deus a plenitude, a perfeição expressa pelo aludido jogo de palavras. Este como que vincula dons antitéticos que o espírito humano não saberia unir.

    Exclama o Santo: “Eis que habitáveis dentro de mim e eu lá fora a procurar-Vos!”

    Em todos os homens, sobretudo nos batizados, Deus age de modo permanente através da ação da graça. Portanto, o Altíssimo permanecia no interior de Santo Agostinho. Porém, como um louco, ele O procurava fora, almejando um contentamento que as criaturas não dão, pois a verdadeira felicidade está dentro de nós.

    Vemos, então, outro jogo de palavras: dentro e fora. Ele possuía, no mais fundo da alma, aquilo que tinha o desatino de procurar fora.

    Continua o Bispo de Hipona: “Disforme, lançava-me sobre estas formosuras que criastes. Estáveis comigo, e eu não estava convosco!”

    Quer dizer, Deus habitava em seu interior, mas ele não permanecia com o Senhor. É uma antítese, sem ser uma contradição.

    Recebemos graças para obedecer às ordens divinas

    Em certo trecho, Santo Agostinho tem esta linda afirmação: Deus nos proporciona aquilo que nos ordena. O que significa isso?

    Quando o Criador nos prescreve um mandamento, nos concede anteriormente a possibilidade de observá-lo. Assim, antes de nos preceitua a castidade, Ele nos dá a graça para praticá-la. Pois Deus, ao contrário de certos dirigentes humanos, é um bom Pai e nos governa pelas regras da sua inesgotável misericórdia.

    Com base nessa concepção, Santo Agostinho apresenta uma interessante justificativa para a castidade. Segundo ele, o bem de cada ser e o da ordem do universo é a unidade. O homem puro é aquele que ama a Deus acima de tudo, e as outras coisas por amor ao Criador. Pelo contrário, o impuro corre atrás de mil criaturas, e nessa espécie de pluralidade se afasta da unidade originária, primitiva, para a qual deve tender. Ao agir assim, ofende a ordem do universo.

    Tal visualização encerra uma maravilhosa repulsa da poligamia e do divórcio, e é mais valiosa, penso eu, do que qualquer refutação sociológica contra esses desvios morais. Pois a metafísica é muito mais apropriada para convencer o espírito humano do que os dados técnicos, mesmo quando acompanhados de argumentos de índole psico-social. Creio que em qualquer época de minha vida, esse raciocínio a favor da castidade, baseado no conceito da unidade, convenceria mais do que todos os outros.

    Com esses breves comentários é-nos dado recordar, então, a memória deste extraordinário varão de Fé e de sabedoria, exemplo fulgurante de amor a Deus, que foi o grande Santo Agostinho de Hipona.

  • Solução para todos os problemas – III

    Pela razão, uma pessoa pode ter certezas fragmentárias. Mas a certeza do conjunto das verdades que dizem respeito ao homem, a Deus e ao universo, somente pela Fé pode ser adquirida.
    Desde menino, Dr. Plinio possuía ardente Fé e, quando tomou conhecimento da infalibilidade pontifícia, acolheu essa verdade com fervor e entusiasmo, compreendendo
    que sem ela não poderia haver ordem humana.

     

    Por que a infalibilidade papal me tocou mais do que tudo?

    Sei que a infalibilidade é um carisma conferido por Nosso Senhor Jesus Cristo à sua Igreja.  Jesus, Deus e Homem verdadeiro, nosso Criador e Redentor, fundou a Santa Igreja Católica Apostólica Romana e, quando prometeu que as portas do Inferno não prevaleceriam contra ela, deu-lhe o carisma da infalibilidade. Se a Igreja caísse em erro, as portas do Inferno teriam prevalecido contra ela.  Eu creio, portanto, que a Igreja tem essa infalibilidade porque Nosso Senhor Jesus Cristo o afirmou. Mas por que razão isso de tal maneira me enche a alma?

    Infalibilidade da Igreja: fechadura que encerra todos os tesouros

    A explicação está no histórico que acabo de fazer. Se um menino, de passos incertos, que mede as dimensões daquilo que todo o homem pode atingir, vê como suas dimensões atuais são menores e não sabe como chegar à plenitude delas, nem que rumo dar, em que lado procurar o ponto terminal das suas dimensões, não sabe o que fazer de si mesmo e encontra a solução na Igreja, ele se põe normalmente na posição de discipulado, de súdito. E fica encantado quando ele sabe que este mestre para o qual a sua alma se volta, este rei que ele deseja ter para lhe guiar os passos, é um homem na Terra: o Papa. Quer dizer, está tudo predisposto nele para receber com entusiasmo esta verdade.

    Para mim, pessoalmente, o entusiasmo especial decorre do seguinte:

    Imaginemos que a porta deste auditório estivesse murada, tal como as outras três paredes, nós estivéssemos de fora, e uma pessoa me dissesse: “Plinio, todo o espaço contido por essa cubagem está cheio de pedras preciosas, de barras de ouro e de prata, tudo o que há de mais maravilhoso. Pertence a seu Movimento, e vocês podem aplicar esse tesouro para o apostolado, as boas obras, a glória de Nossa Senhora, como entenderem, mas com uma condição: vocês têm que descobrir a fechadura. E vou dizer mais: isso não foi dado só a vocês, mas a milhões de homens. Quem descobrir a fechadura ficará com o tesouro, quem não a encontrar, não terá o tesouro”.

    E vemos em torno de nós milhões de pessoas, as quais desistiram de procurar a fechadura. Moram perto do tesouro, dizem que são donos dele, mas caminham, comem, bebem, dormem, preocupam-se com outras coisas porque não têm mais a esperança séria de encontrar o tesouro.

    Mais ainda, cada um diz ao outro: “Está vendo? Todos esses não encontraram a fechadura, não sou eu que vou achá-la”. E desses milhões de homens que morrem e se sucedem, quase ninguém procura a fechadura.

    Em certo momento, um de nós encontra a fechadura, e — como todos os homens — tem na mão a chave por meio da qual aquela se abre. A questão é ter encontrado a fechadura, que é microscópica, minúscula…

    Ora, para mim a fechadura, através da qual tudo se abre, é a infalibilidade da Igreja.

    Não se pode ter inteira certeza sem a Fé Católica

    Com quanta certeza eu falei do bom senso e do raciocínio! O valor de um e de outro sinto em mim, todos os outros sentem também. Mas percebo que todas essas certezas que possuo, eu não teria tido personalidade nem força para adquiri-las se não fosse a Fé.

    Não é uma fé qualquer. A Santa Igreja Católica Apostólica Romana é única, e fora dela nenhuma outra merece o nome de Fé. Tendo a crença nessa infalibilidade, todos os tesouros se abrem para mim. Perdendo-a, as minhas certezas amolecem, meu bom senso se gelatiniza e eu não sou nada.

    Como fica horrível um homem reconhecer que ele não é nada! Por isso, o indivíduo que não se apoia nessa infalibilidade começa a mentir para os outros, dizendo ser alguma coisa, mas ele sabe que não é nada. Então, de zero ele passou para um valor negativo: um saco de vaidade e de mentira. É uma pessoa que não tem certeza da própria certeza e titubeia: “Será que é? Será que não é?”

    Um indivíduo assim, eu tenho vontade de pegar pela gola e dizer-lhe: “Você se diz católico? Você tem ou não certeza da Fé? Por que não conferiu seus dados com o Magistério da Igreja? Confira! Aí você terá certeza! Ande, ponha-se de pé — ou, muito melhor do que se pôr de pé, ponha-se de joelhos! Então você saberá o que precisa fazer, como deve pensar, encontrará o seu próprio rumo”.

    Assim, torna-se claro que tudo me predispôs a um particular fervor, a um particular entusiasmo para com essa verdade, sem a qual eu não creria em nenhuma ordem humana, não creria em absolutamente nada.

    Alguém dirá: “Mas o senhor então, no fundo, é um relativista”

    Explico: de nenhum modo sou um relativista. Eu acabo de dizer que o homem, tomando os conhecimentos que ele tem pela Fé e conjugando-os com os que ele possui pela razão, pode, no inteiro respeito e no desenvolvimento do seu bom senso, ter um tesouro magnífico de certezas. Mas sem a graça de Deus ele não consegue isso. Ele pode ter certeza num ou noutro ponto, como um cientista que encontrou uma reação química consegue ter certezas, mas certezas fragmentárias. Pedaços de certeza não formam uma certeza, como cacos de vidros não constituem um vitral. A certeza é do conjunto das verdades que dizem respeito ao homem, a Deus e ao universo. Isto é certeza!

    É em função disso que as certezas científicas e outras se encaixam, se ordenam. Mas não se pode ter inteira nem adequada certeza sem a santa Fé Católica, Apostólica, Romana.

    A Fé alarga os horizontes, ordena o pensamento

    É certo que a razão humana, sem recorrer à Revelação, encontra por si mesma muitas verdades que Deus também ensinou. Por exemplo, a unidade de Deus; o homem pode chegar a essa verdade pela razão. É certo que os Mandamentos da Lei de Deus o homem alcança por sua razão; a razão humana, sem recorrer à Revelação, chega a demonstrar que aqueles preceitos são verdadeiros.

    Mas, sem a graça de Deus, o homem não seria capaz de permanecer muito tempo com uma noção límpida dos dez Mandamentos. Embora sua razão pudesse conhecê-los, ele não seria capaz de praticá-los duravelmente. Isso só é possível pela graça de Deus.

    São Paulo diz que nós somos consortes da natureza divina; algo da própria vida de Deus vive em nós dessa maneira. Pela luz, pela força que nos vem da graça, a inteligência e a vontade podem crer, conhecer e praticar respectivamente o que devem. Com a graça, a inteligência se engrandece e passa a conhecer verdades que o homem jamais conheceria, nem mesmo antes do pecado original, se não fosse a Revelação.

    A fonte da graça é a Igreja Católica, e a cúpula da Igreja Católica é o Papa, a infalibilidade papal. Aqui temos a ordenação, o calor de alma com que nós, católicos, devemos viver.

    Drama pelo qual passam todos os homens

    Não quereria terminar a reunião sem mencionar, neste histórico, algo ao qual já me referi, de passagem, anteriormente.

    Para lhes tornar claro o assunto relativo à Fé e à Igreja, fiz quase uma espécie de narração biográfica do que eu poderia chamar a minha instalação dentro da Igreja. E julgaria andar mal se encerrasse sem dizer uma palavra sobre Nossa Senhora.

    Um drama de todos os homens, e que eu senti de um modo pungente — todos sentimos, a todo momento, de modo pungente —, é o seguinte: a desproporção e a fraqueza do homem diante da própria vida, do dever e do problema da verdade. Como eu me sentia pequeno, insuficiente, mole, preguiçoso!

    Aliás, o interesse do que estou expondo não consiste em terem sido fornecidos dados de minha biografia, mas em que essas realidades, de um modo ou de outro, são vividas por todo mundo.

    Quem não exaltou, em que língua não foram glorificadas as alegrias da inocência? Toda criança, máxime a batizada, as tem.

    Lembro-me dessas alegrias, que às vezes ocorriam nas minhas horas de reflexão, antes das sestas que, na minha primeira infância, eu era obrigado a fazer todos os dias.

    Evidentemente eu levava algum tempo para dormir, ficava pensando e, muitas vezes, dizia para mim mesmo: “Tudo isto é tão bom! Mas como é enorme!” Quando eu olhava na outra ponta da vida minha avó — que devia ter naquele tempo uns 60 anos —, pensava: “Idosa como ela está… eu tenho que chegar até lá. Quanto tempo para viver!”

    Quando eu encontrava velhos na rua, pensava: “Tenho que percorrer o caminho que chega até lá? Ah, não tenho fôlego para isso! Como vou viver tudo isso? Que esforço! Que coisa enorme!”

    Depois, veio a obrigação de cumprir o dever, estudar. E quando começou a batalha pelos Mandamentos, que dificuldade, que coisa penosa! E quantas e quantas vezes refleti: “Eu não conseguirei, porque isso importa em um sofrimento para mim, que não quero suportar. E não quero por moleza, porque como sou mole, não gosto de fazer esforço. Eu sofro com o esforço e não quero, portanto, fazê-lo. Sei que tenho culpa, mas é assim”.

    De outro lado, eu pensava: “Não devo omitir-me. Mas como?” Impasse sem solução.

    Nossa Senhora se debruça sobre o fraco, dizendo: ”Meu filho”

    Entendi bem qual era o elo indispensável para todas as soluções, a chave de tudo, quando, diante da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, na Igreja do Coração de Jesus, atentei melhor para o que queria dizer “Salve Rainha, Mãe de misericórdia”, etc., e comecei a ter devoção a Nossa Senhora. Aí compreendi a misericórdia d’Ela para quem não merece.

    Eu tinha ideia de que Ela amaria somente quem merecesse. E a falência de quem não tivesse méritos seria irremediável, pois Maria Santíssima não o quereria, os Anjos lhe voltariam as costas, Deus estaria encolerizado com ele. De outro lado, eu também não queria me esforçar. Parecia-me, portanto, não haver solução.

    Mas depois comecei a entender que Nossa Senhora ama a quem não merece, protege o ingrato, tem pena de quem não vale dois caracóis e deveria ser castigado, se debruça e diz: “Meu filho.” Ela sorri, estimula, perdoa, arranja um jeito industrioso e cheio de bondade para dissimular que não viu tal coisa, esquece tal outra, e sempre, sempre ajuda de novo, põe a pessoa de pé e lhe dá outro ânimo.

    Cada um de nós passa a vida inteira aprendendo isso e só entende mesmo no momento em que morre. É no Céu que compreende porque vê, e então pode amar inteiramente.

    Sem isto, como o jovem da magnífica metáfora contada no início da reunião(1), eu teria visto a montanha, tido o entusiasmo pelo castelo, mas depois menearia a cabeça e diria: “Não! Eu nasci para a planície”. Mas saberia estar mentindo, porque eu teria descido pelo resvaladouro abaixo.

    Tenho a alegria de vos falar a respeito do castelo, ao cabo de 72 anos de vida, em que procurei não propriamente me aproximar — se o castelo é a Santa Igreja, graças a Nossa Senhora estamos todos dentro dela —, mas penetrar dentro do castelo e tê-lo na minha alma o quanto possível. E se recebi essa graça é porque, no mais alto dos Céus, a Mãe de Misericórdia — vida, doçura, esperança nossa — teve pena de mim.

    E se os participantes desta reunião estão aqui, não é por outra razão.

    Correndo o olhar sobre o auditório, eu que gosto de observar as personalidades, vendo um ou outro, às vezes me aflora a ideia: “Como há de ter sido este, antes de pertencer ao nosso Movimento?” E percebo todo o ziguezague havido antes, e me dou conta do que a Mãe de Misericórdia dispôs, pediu. E quanto Ela chorou por nós ao pé da Cruz, quanto suas lágrimas se uniram ao Sangue redentor de Nosso Senhor Jesus Cristo para alcançar a nossa salvação!

    Assim, há toda razão para encerrarmos a reunião rezando a Salve Regina. v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência  de 17/10/1981)
    Revista Dr Plinio 185 (Agosto de 2013)

     

     

    1) Cf. Revista “Dr. Plinio”, n. 183, p. 10.

     

  • Honra, louvor e glória – II

    Após considerar o fundamento da honra, Dr. Plinio a relaciona com a glória: tanto uma quanto a outra são merecidas por quem é autenticamente herói.

    Para compreendermos os dois modos de considerar a honra, imaginemos um menino cujo pai é couraceiro.

    Duas atitudes de um menino diante do pai couraceiro

    Nos dias de parada, um cavalo bem ajaezado, com bela aparência, aguarda o oficial couraceiro diante de sua casa. Um ordenança está perto do cavalo, para evitar que alguém mexa com o animal. O menino vê o pai sair com couraça, elmo, crina, espada; o ordenança bate a continência, e o oficial mete o pé no estribo, pula para a sela e cavalga.

    O menino acha aquilo excelente e exclama: “Eu também serei couraceiro!”

    Essa exclamação comum pode ser provocada no menino por duas atitudes interiores diferentes.

    A primeira é: “Como é bonito em si mesmo ser couraceiro! Como o homem, revestido de couraça, encontra ali a plena expressão do vigor de alma e de corpo, que é a excelência do homem! Meu pai fica combativo como um leão. Se encontrar o inimigo, ele combate como um herói; e se morrer, ele morre de um modo insigne, excelente. Como é belo ser assim! Eu também quero me tornar couraceiro, para ser tão excelentemente homem quanto é meu pai.”

    Outra atitude: “Que bonito! Papai agora vai a cavalo para o quartel e todo mundo olhará para ele; tal pessoa, que está lá em frente, vai saudá-lo, frenético, porque quer ser cumprimentado pelo couraceiro a cavalo, a fim de que os outros vejam. Eu também quero ter a importância de papai, ser saudado pelas pessoas dessa maneira e poder olhar os outros de cima”.

    Esse último é um modo errado de considerar a excelência. Não é querer uma perfeição para si mesmo, ser um homem excelente, mas desejar impor-se aos outros com a aparência da excelência, sem ter a preocupação de o ser. É querer ser palhaço, não couraceiro. São duas coisas completamente diferentes.

    A segunda atitude é mera vaidade; a primeira é honra.

    Querer tornar-se excelente é, no fundo, procurar ser um reflexo de Deus

    Nesse caso, o que é a honra? É o desejo eficaz — o que é o primeiro passo de uma realização — da criança querer ter para si uma excelência. Assim como o lenço branquíssimo, ligeiramente azulado e engomado, tem uma limpeza excelente, o couraceiro tem uma varonilidade excelente, e o menino aspira à varonilidade excelente, de alma e de corpo. Ele quer uma forma de excelência, e vai atrás dela.

    Portanto, aspirar a ter honra é, no fundo, o desejo de possuir uma virtude, praticá-la e de algum modo aproximar-se de um ideal.

    Se examinarmos até o fundo essa noção de ideal, perceberemos que ela nos dá um certo frêmito. Alguém tem o ideal de ser um guerreiro, e vê por detrás desse ideal algo que é maior do que o homem, e tem uma dimensão tão grande que a isto ele gosta de dar a sua vida.

    Porque na realidade esse frêmito que o homem tem quando percebe a grandeza do heroísmo, é uma atitude de alma por onde, subconscientemente, ele reconhece a existência de um Ser supremo, no Qual tocam todas as grandezas, que possui todas as perfeições e com o Qual o homem fica mais semelhante.

    Deus é onipotente, onisciente e capaz de todas as coisas, com grandeza. O homem, ficando herói, sente-se mais próximo, mais semelhante a Deus, como um espelho que recebe em si a imagem do Sol; ele não é Sol, mas brilha.

    Querer tornar-se excelente é, no fundo, procurar ser um reflexo de Deus. Há, portanto, nesse desejo da honra, para o homem que tem Fé, um anseio de ter uma virtude própria a Deus, um desejo de semelhança com Deus. E o desejo da semelhança com Deus é a definição da santidade. Santo é aquele que se tornou semelhante a Deus.

    E isto torna patente qual é o mais íntimo do conceito de honra: confunde-se com o conceito amplo e verdadeiro de santidade. A honra é o estado do homem quando ele pratica de modo excelente a virtude. E nisto tem uma particular semelhança e união com os anjos e com Deus. Porque o homem que tem de um modo excelente certas virtudes se parece com os anjos, e dessa forma se assemelha a Deus. É por mediação que isso se faz.

    Honra, louvor e glória de Nosso Senhor Jesus Cristo

    Agora, poder-se-ia perguntar qual é a diferença entre honra, louvor e glória.

    São Tomás de Aquino exprime isso magnificamente. Louvor é o reconhecimento público da honra. Eu presto honra a alguém quando louvo a qualidade que esse alguém realmente tem.

    É possível haver honra sem louvor? Sim. Nosso Senhor Jesus Cristo é a Honra. A palavra “honra”, sendo um termo humano, diante d’Ele estala, porque Ele é Deus. Mas, enfim, pode-se dizer que Ele é a Honra. Entretanto, Nosso Senhor, em muitas ocasiões, não recebeu louvor, mas vitupério; por exemplo, quando o povo preferiu Barrabás. A falta de louvor não tira a alguém a honra, porque esta consiste no se parecer com Deus. E o fato de os outros não reconhecerem a semelhança que nós temos com Ele, não nos tira essa semelhança.

    A natureza humana santíssima de Jesus tinha a máxima semelhança possível com Deus. E na sua natureza divina Ele era o próprio Deus. E os insultos do povo, que preferiu Barrabás a Nosso Senhor, não Lhe tiraram a honra. Ele foi louvado quando o povo O recebeu em Jerusalém, cantando “Hosana ao Filho de Davi.”

    Um louvor não Lhe faltou ininterruptamente nesta Terra: o de Nossa Senhora, o qual vale mais do que todos os louvores de todos os homens ao longo da História, no mundo inteiro. E até o último momento, quando Jesus disse “Consummatum est”, Ela O louvou. Nosso Senhor conhecia esse louvor e o último olhar que Eles trocaram, eu estou certo de que, entre outras disposições de alma, esse olhar traduziu louvor. Louvor d’Ela a Ele: “Meu Filho!” E d’Ele a Ela: “Minha Mãe!” Quer dizer, são louvores inefáveis que os lábios humanos não sabem exprimir.

    Um homem deve impor o louvor que lhe é devido pelo cargo que ocupa

    Então, pergunta-se: O homem que tem honra deve procurar o louvor? A resposta é: Deve procurar e até impor o louvor! Com um cuidado: o louvor, pelas suas qualidades pessoais, ele pode lamentar que os outros não lhe deem, mas não deve reclamar nem queixar-se, porque pode entrar apego; afinal, somos concebidos no pecado original.

    Ele precisa querer e impor o louvor merecido ao cargo. E um homem não tem o direito de desmerecer o cargo, fazendo ações que não estão de acordo com o louvor que o cargo merece.

    A glória de um Bem-aventurado

    E o que é glória?

    A glória é um louvor insigne. Glorioso é aquele que foi louvado, de um modo insigne, por todos os seus contemporâneos, de modo a seu nome perdurar por toda a posteridade.

    Esse louvor da multidão corresponde a uma virtude, que já não é excelente, mas excepcional; dir-se-ia, por analogia, principesca ou régia, tem um grau que está para os outros graus de virtude, como um príncipe ou um rei está para os súditos de hierarquias inferiores. Tal glória tem o santo.

    Quando a Igreja canoniza alguém e afirma que merece a honra dos altares, Ela declara que ele está no Céu e ali ocupa um lugar insigne; ele tem grande intimidade com Deus, extraordinária proximidade com Nossa Senhora. A Igreja, então, proclama que, por causa disto, na Terra ele merece essa glória. Então, o nome dele é lembrado pelos séculos dos séculos.

    Recordo-me de um fato da vida de Victor Hugo, literato francês do século XIX. Ele foi admitido na Academia Francesa e, segundo uma convenção, quem pertence a tal Academia é considerado imortal.

    Quando lhe disseram isso, Victor Hugo afirmou:

    — Imortal, eu? Não pense que eu me iludo a esse respeito. Quem é imortal é Dom Bosco, lá em Turim.

    — Mas, como assim?

    — Eu vejo que a Igreja vai canonizar Dom Bosco, e quando isso ocorrer, até o fim do mundo, em todos os lugares da Terra, onde houver um padre católico, num certo dia do ano vai ser lembrado o nome de Dom Bosco. Isso só deixará de ser feito quando não houver mais padre para celebrar a Missa, e o mundo, portanto, tiver acabado. Este é um imortal.

    É a pura verdade. Aliás, São João Bosco disse isso de si. Ele teve uma doença muito grave e longa; e, com o telégrafo que já havia, na Europa inteira se soube disso. Era ainda a Europa aristocrática e monárquica do século XIX, e São João Bosco recebeu cartas de incontáveis lugares: príncipes, soberanos, castelães etc., oferecendo-lhe seus castelos, suas propriedades, para ele descansar. Diante do maço de cartas, disse sorrindo aos sacerdotes: “Vejam, eu renunciei a tudo e me meti no meio dos pobres. E não há um homem na Europa que disponha de tal número de castelos para fazer a sua convalescença”.

    A diferença entre a glória de ser herói e a glória de ser santo

    Alguém dirá: “Mas Dr. Plinio, o Marechal Foch, por exemplo, que venceu a Primeira Guerra Mundial, foi um herói, mas não um santo”.

    É preciso explicar que relação há entre santo e herói. O herói é aquele capaz de expor a sua vida ou de praticar ações tão árduas que cheguem ao limite extremo do sacrifico que o homem pode suportar, em favor de uma causa elevada e nobre.

    Segundo esse critério, o Marechal Foch foi um herói porque, expondo sua vida, realizou uma ação extremamente árdua. Ele recebeu uma causa muito comprometida, devido ao avanço alemão; concebeu o sistema de resistência e conduziu aquela guerra dentro das dificuldades que lhe eram inerentes, de maneira a alcançar a vitória. Foch foi herói num ponto da vida dele, durante alguns anos de guerra. É por isso que o mundo o aclama.

    Ora, quanto ao santo, quando o Papa o canoniza, ele decreta que aquele indivíduo praticou as virtudes em grau heroico, e por isso foi santo. Ou seja, foi um herói capaz de qualquer heroísmo por amor de Deus.

    Então, honra e glória merece quem é autêntico herói. E tudo se funde num conceito amplo de santidade, que não é o conceito corriqueiro, comum, mas é esse conceito total que a Igreja declara, quando Ela define alguém como santo.

    Quando o Papa, sentado no seu trono, canoniza um santo, ouvem-se as trombetas de Michelangelo soarem num terraço pouco visível do interior da Basílica de São Pedro, no ponto onde a cúpula se assenta sobre a parede. Então, o som sobe pela cúpula e desce para a Basílica! E os sinos do Vaticano começam a tocar; e, em seguida os sinos das igrejas de Roma põem-se também a soar e anunciam a glória desse verdadeiro herói. Esse tem verdadeiramente honra, louvor e glória.  v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência  de 15/2/1980)

     

  • Verdadeira cultura e santidade

    Tudo quanto o homem admira e ama, de algum modo penetra nele. Por isso, embora um santo possa ser, sob muitos aspectos, menos culto do que um indivíduo não santo, a santidade é a seiva no tronco da verdadeira cultura.

     

    A palavra “cultura” tem um sentido distinto daquele de palavras afins, tais como “inteligência”, “instrução”, “educação” e “civilização”. Empregarei o termo “cultura” não como este ou aquele especialista pode utilizá-lo, mas conforme ele é usado na linguagem portuguesa-brasileira e na dos povos ibero-americanos, tanto quanto eu possa conhecer.

    A inteligência, como é fácil notar, é a capacidade do homem de penetrar, de tomar conhecimento da realidade. Ela se distingue da cultura porque a inteligência é uma qualidade nativa, e a cultura, enquanto tal, não o é.

    Informação, instrução, erudição e cultura

    A instrução é o conjunto de conhecimentos que o homem adquire mediante a inteligência. Quer dizer, não é uma pura memória, mas uma memória pela qual as coisas estão explicadas e entendidas. Não é, portanto, a memória de um bicho, nem a memória de uma criança.

    A memória entendida, explicada, das coisas se atinge por meio do estudo e da reflexão; ou seja, por meio de um esforço intelectual que não é inteiramente o comum, feito pelo homem a qualquer hora do dia. É por causa disso que certas informações estão excluídas do conceito de instrução. Por exemplo, conhecer o horário dos trens, dos ônibus, não é instrução, mas sim uma informação corrente; não é uma informação sobre algo que a pessoa adquire por uma concentração, por um maior esforço do pensamento.

    Erudição é o ápice da instrução, mas não é ainda propriamente a cultura. Chamamos de erudito aquele que tem um notável cabedal de conhecimentos adquiridos com um esforço intelectual árduo. Quer dizer, a instrução arduamente adquirida, de alta categoria e copiosa, se chama erudição.

    A cultura está para o homem como a agricultura para a terra. Se quiséssemos fazer uma espécie de paralelismo implicante, poderíamos falar de “antropocultura”, ou de “homocultura”, quer dizer o cultivo do homem. O que é então cultura? É o aprimoramento que a alma humana recebe pelo fato de, não só ter uma grande instrução, mas degustar devidamente a sua instrução. De maneira que ela se enobrece, se eleva com a sua própria instrução.

    Dou um exemplo. Na Europa há excelentes museus com excelentes guias. Através destes últimos pode-se compreender o que é uma instrução sem cultura. Em relação aos objetos de um museu, eles são notavelmente instruídos e transmitem o que sabem como verdadeiros papagaios. Um guia, por exemplo, se coloca diante de um quadro e diz: “Este quadro é de El Grecco; foi pintado em tal época e se destaca por tal tonalidade; no fundo está tal personagem; olhem tal jogo de luz…” Instruído ele é, mas não tem o mínimo de cultura. Quer dizer, a sua personalidade não assimilou nada daquilo; ele não teve uma admiração por aquelas coisas, não se deixou penetrar nem embeber por elas.

    O erudito, muitas vezes, não é um homem culto; é um indivíduo que adquire uma grande soma de conhecimentos com um esforço árduo, mas não inalou aquilo, não assimilou. Ele não admirou, não amou e não se modelou de acordo com aquilo. O resultado é que a pessoa dele teve um aprimoramento apenas de superfície, meramente intelectivo, mas seu interior não é de um homem culto.

    Aprimoramento do homem considerado como um todo

    Então o que vem a ser a cultura? A cultura resulta do princípio de que tudo quanto o homem admira e ama, de algum modo penetra nele e se incorpora a ele. Aquilo que o homem rejeita faz crescer nele o contrário do que rejeitou. Se, por exemplo, eu entro num quarto imundo e tenho uma rejeição proporcionada àquela sujeira, o meu senso de limpeza cresceu. Se passando pela Rua Pará ou Avenida Angélica(1) percebo uma coisa imoral e a recuso, a minha pureza aumentou. Quer dizer, a rejeição do mal, do erro, do que não deve ser visto, aumenta em mim o contrário daquilo que vi.

    Chegamos então à conclusão de que a cultura é o aprimoramento do homem considerado como um todo; ela é fruto da instrução, mas não se identifica com a instrução, porque o indivíduo pode ser muito instruído e nem um pouco culto.

    Creio que as ciências naturais, como são estudadas habitualmente hoje em dia, proporcionam uma instrução sem cultura. Pois a pessoa que as estuda não é levada, senão raríssimas vezes, a ter uma admiração filosófica ou artística pelo objeto de seu estudo. De maneira que é um puro jogo de dados, o qual não traz um aprimoramento. É preciso outra posição diante das ciências naturais para que elas nos sejam enriquecedoras, porque, à força de estudar sem admiração e amor, a capacidade de admirar e amar se embota. Então a capacidade de ser culto desaparece. É uma banalização.

    Estudo das ciências naturais e plenitude humana

    Podemos agora perguntar de que natureza é essa penetração que a coisa admirada ou amada produz no indivíduo.

    Na ordem cronológica, ela começa por um ato de inteligência; é antes de tudo uma flexibilização, um adestramento da inteligência.

    Pode haver formas de instrução que são anticulturais. Porque se a instrução consiste apenas em enfileirar raciocínios, a alma desenvolve apenas um dos aspectos de sua personalidade. Ela fica capaz do raciocínio quadrado(2), que às vezes contém a verdade inteira, mas outras vezes até se afasta da verdade. A verdadeira instrução deve exercer na alma todas as faculdades que puder.

    Por causa disso eu fico muito encantado quando vejo, ainda hoje, a existência de grandes sábios — às vezes especialistas em ciências naturais ou outras matérias — que têm um grande interesse por um ramo qualquer da Literatura, da Arte, da Filosofia ou da História; isto prova uma plenitude humana: além de serem capazes daquilo que cuidam, o seu espírito os remeteu em outras direções.

    Acho bonito que um homem seja, digamos, especialista em formiga e tenha ao mesmo tempo interesse por Homero, por exemplo. Ele não ficou do tamanho de uma formiga, mas tem uma dimensão humana; possui uma cultura mais ampla do que a pura especialização que adquiriu.

    Essa é exatamente uma das recriminações que o verdadeiro católico deve fazer ao estudo das ciências naturais como geralmente é feito hoje em dia.

    Por exemplo, uma das faculdades intelectuais mais próprias do espírito católico, e que o espírito tecnicista poda, é a capacidade de distinguir. São Tomás de Aquino dizia que distinguir é pensar. Tomar coisas análogas, distingui-las uma da outra e depois ver por onde elas são semelhantes ou diferentes, exige sutileza, ponderação, indica uma plenitude do espírito humano; e quem é capaz de fazer isto é uma pessoa culta.

    Plenitude dos modos de operar da inteligência e enobrecimento da vontade

    Assim, a cultura não é unicamente uma plenitude puramente filosófica ou técnica, mas sim uma coisa muito mais vasta do que isso: a plenitude de todos os modos de operar da inteligência humana.

    Em segundo lugar, a cultura é um enobrecimento do fortalecimento da vontade. Esse enobrecimento é algo de imponderável. Até agora não consegui uma definição que me satisfizesse inteiramente para a palavra “nobre”. O que é uma vontade nobre? Mais importante do que ser forte é ser nobre. Há alguns sintomas que caracterizam a vontade nobre. Um deles é ser mais capaz de querer, de ser ávida de se apossar mais dos bens do espírito do que dos bens da matéria. Por exemplo, um homem que tenha mais vontade de ser virtuoso do que rico revela nobreza de vontade. Porque esta vontade quer uma coisa mais nobre.

    A virtude é intrinsecamente um bem da alma. E sendo um bem da alma, é mais nobre do que um bem para o corpo. Então um homem que quer as coisas do espírito tem uma vontade mais nobre.

    Mostraram-me uma estrofe de uma poesia de Molière(3), a respeito do covarde. Entre outras coisas, o covarde dizia: “Eu prefiro viver dois anos desta vida a mil anos de História, de maneira que me deixem fugir”.

    Essa é a vontade sem nobreza. Porque, colocado entre a realização de um grande feito, que a alma magnânima quer, e a prática de uma série de pequenas ações, ele prefere as coisinhas. Porque ele prefere a vida do corpo; a vida da alma, a grandeza das ações, não lhe dizem nada.

    O próprio da cultura — fazendo-nos apetecer as coisas do espírito, e dentre elas as mais altas, portanto as maravilhosas, as metafísicas, as sobrenaturais, o próprio Deus — é dar à nossa alma uma nobreza cristã, uma nobreza católica, e nos fazer santos.

    Ordenação da sensibilidade

    A cultura tem uma repercussão na sensibilidade. Pelo fato de o homem estudar, pensar muito e querer coisas nobres, há uma repercussão destas coisas na sua sensibilidade. Esta deixa de apetecer as coisas puramente materiais e começa a apetecer as espirituais; e depois a apetecer as sobrenaturais e divinas. Quer dizer, a sensibilidade se eleva.

    Por exemplo, ela perde qualquer coisa de grossamente natural, material, que ela tem nativamente, em virtude de nossa condição animal e do pecado original. E sua sensibilidade não só se eleva, mas fica então em condição de ser combativa. Para ser combativa, supõe-se que se desenvolva o que nela é ordenado. Somente desenvolvendo as forças de ordem, dentro da sensibilidade, é que se podem toldar os elementos de desordem. Temos assim uma noção de cultura que toma o homem inteiro.

    Agora, me restaria perguntar que relação há entre esse conceito de cultura e a santidade. Evidentemente, a cultura perfeita equivale à santidade. Esta é a mais alta forma de cultura, embora — e aqui existem matizes que se devem conservar — um santo possa ser, sob muitos aspectos, menos culto do que um indivíduo que não é santo; e até do que uma pessoa que certamente vai para o inferno.

    Grandes reflexões sobre fatos comuns da vida

    Perceberemos melhor esta relação entre cultura e santidade se considerarmos um outro ponto da questão, que é o seguinte: a cultura é necessariamente filha da instrução? Um analfabeto pode ser mais culto do que um alfabetizado?

    Considerem, por exemplo, o tapete hindu que está na Sala da Tradição(4). Este tapete foi provavelmente feito por um analfabeto. Este analfabeto era um homem menos culto do que um eleitor alfabetizado, que saiba desenhar seu nome ou até ler um jornal? Que relação há nesse caso entre instrução e cultura?

    Há certos povos onde o ambiente de muito pensamento, numa atmosfera de muita orientação da atenção para as coisas do espírito, leva o indivíduo a refletir notavelmente sobre coisas que estão ao alcance de todo mundo. E a deduzir, a partir delas, consequências muito altas, de ordem metafísica, religiosa, e também estética, ou de qualquer outra ordem.

    Não está absolutamente provado que Homero soubesse ler e escrever. Há quem sustente até que Homero não existiu — eu acho que existiu —, e que a Ilíada foi um conjunto de canções populares compostas por analfabetos da Grécia primitiva, reunidas depois no período da literatura clássica num só todo. Seja como for, a pessoa que compôs a Ilíada, por exemplo, teve uma alta cultura ao lado de nenhuma instrução. Quer dizer, soube tirar grandes reflexões, grandes consequências de realidades que estão ao alcance de todo mundo. E na linguagem corrente, a meu ver, erroneamente, isto não é considerado instrução.

    Segundo nos mostra o Evangelho, um espírito muito elevado, apetente das grandes coisas, pode chegar a uma grande cultura sem ter tido propriamente o que a linguagem corrente chama de instrução. Todas as parábolas do Evangelho são altíssimas conclusões tiradas dos fatos comuns da vida: um filho que foge e gasta a herança, fica reduzido à mendicância, e que volta para a casa do pai; o lírio do campo que não tece, não fia, cujas pétalas formam um tecido mais bonito que o manto de qualquer rei. Estas são observações comuns da vida do homem, há mais de mil anos, a partir das quais Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Sabedoria eterna e encarnada, soube tirar altíssimas consequências.

    Santa Teresinha e Viollet-le-Duc

    Então, estamos obrigados a reconhecer o seguinte: o conceito de instrução como é hoje apresentado — segundo o qual é necessário saber ler e ter um estudo sistemático num estabelecimento — é pobre. Pois um homem pode adquirir uma grande instrução sem ler nem escrever, pela consideração elevada de coisas puramente naturais e comuns.

    Nesse sentido, convém lembrar Santa Teresinha do Menino Jesus, que tinha uma instrução como as moças então possuíam, e conhecia muito bem a Doutrina Católica. Ela fazia reflexões de um grande alcance, capaz de deter a atenção de teólogos de fôlego. Mais ainda, de abrir, de traçar um caminho novo para as almas e mostrar que este caminho tem uma cidadania no firmamento da vida espiritual. É uma literatura intelectual muito delicada, sendo que a instrução dela certamente não estava na proporção do que tudo isto significa. Já em pequena, ela era uma pessoa que tinha muito enlevo pelas coisas da natureza, enquanto conduzindo a Deus.

    Somos então levados a perguntar se o verdadeiro nervo da instrução e da cultura não está exatamente nesta apetência que a alma deve ter das coisas elevadas que conduzem a Deus. Com esta apetência, a pessoa, mesmo não estudando, acaba, em certo sentido da palavra, se cultivando. Se estudar, ela se cultiva também, porque será capaz de uma análise profunda e elevada das informações que a instrução lhe dá.

    Houve pessoas não santas que foram mais cultas do que Santa Teresinha?

    Sem dúvida! Por exemplo, Viollet-le-Duc(5), um grande especialista em arte gótica, era um homem que pegou algo do espírito da arte gótica, do contrário não poderia ter feito a obra que realizou. Entretanto, possuindo um senso artístico provavelmente mais afinado do que Santa Teresinha, Viollet-le-Duc não viu no gótico o que Santa Teresinha veria, desde que a sua atenção se pusesse nisso. Porque o mais fundo, o mais elevado, não puramente estético, mas que estava além da estética, isso Santa Teresinha via, e ele, mesmo sendo artista, não via. Quer dizer, em um sentido minor da palavra, Viollet-de-Duc foi mais culto do que Santa Teresinha; no sentido major da palavra, não.

    Cultura católica

    A santidade é a seiva no tronco da verdadeira cultura. As outras formas de cultura são apenas manifestações de tal ou qual elevação de alma, mas que não chegam ao fundo como a santidade chega. Embora mereçam o nome de cultura, não são falsas culturas, mas cultura minor.

    A consequência disto é que a única cultura, no sentido pleno da palavra, é a cultura católica. É evidente. A santidade é o que mais leva os homens à cultura, embora não se possa afirmar — seria um pouco simplório — que basta ser santo para ter uma grande cultura. São José de Cupertino(6), por exemplo, não daria origem, por ele mesmo, a uma grande cultura. Mas uma sociedade que tem santos é capaz de cultivar de modo incomparável seus próprios dotes naturais como ela nunca cultivaria não possuindo santos.   v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 15/8/1971)
    Revista Dr Plinio 161 (Agosto de 2011)

     

    1) Situadas em São Paulo, no bairro Higienópolis.

    2) Adjetivo empregado por Dr. Plinio, proveniente do termo “quadratice” com o qual ele significava uma inveterada estreiteza de vistas e, em consequência, de iniciativa (cf. “Dr. Plinio” nº 103).

    3) Um dos grandes escritores franceses do Grand Siècle das artes e letras.

    4) Sala existente na então Sede principal do Movimento fundado por Dr. Plinio

    5) Eugène Emmanuel Viollet-le-Duc (1814 – 1879), francês, arquiteto famoso por suas restaurações de edifícios medievais.

    6) São José de Cupertino, Presbítero, séc. XVII (cf. “Dr. Plinio” nº 150).