Autor: Nelson

  • Obediência e Contra-Revolução

    A propósito de alguns pensamentos de Santo Inácio de Loyola relacionados com a obediência, Dr. Plinio tece substanciosos comentários a este tema que marca profundamente a diferença entre o revolucionário e o contrarrevolucionário.

     

    Como todos sabem, Santo Inácio de Loyola concebeu a Ordem Religiosa que ele fundou, à maneira de um exército; por isso, deu-lhe o nome de Companhia de Jesus. Companhia naquele tempo queria dizer batalhão, regimento ou exército. Era, portanto, Exército de Jesus. E para que os sacerdotes da Companhia de Jesus tivessem toda a eficácia na sua luta contra os restos do Renascimento e a explosão protestante, ele quis que fossem marcados com todas as notas do espírito militar, entre as quais um eminente espírito de obediência.

    A condição militar supõe a obediência, e um exército sem obediência é um exército aniquilado. De maneira que faz parte da honra militar a disciplina. Portanto, uma das notas de esplendor da condição militar, aos olhos de todo mundo, é a compenetração e a varonilidade com que o militar obedece.

    Para o revolucionário a obediência é uma vergonha

    Falo de compenetração e varonilidade e já temos aqui um dos pontos de atrito entre o espírito da Revolução e o da Contra-Revolução. De acordo com o espírito revolucionário, obedecer é uma vergonha, mandar também não é uma beleza. O bonito é não obedecer nem mandar, mas ser igual a todo mundo. Isto porque o revolucionário procede da ideia de que todo homem é inteiramente capaz de conhecer todas as verdades de que seu espírito precisa para se orientar; e de governar as suas paixões desordenadas, de maneira a praticar o bem e evitar o mal. Em consequência, todos os homens são perfeitamente iguais. Não há nenhuma razão para um homem dar conselho ou uma ordem a outro, nem sofrer a vigilância, a fiscalização de outro. Portanto, não há motivo para haver disciplina.

    Então, o revolucionário interpreta a obediência como uma atitude de alma vergonhosa do indivíduo indolente e mole, que tem preguiça de escolher o seu próprio caminho, de encontrar as verdades necessárias para se orientar na vida. É, então, por moleza que um homem defere essa atribuição a outros e se deixa guiar.

    Seria mais ou menos como um indivíduo que, por preguiça de abrir os olhos e olhar em torno de si, os fecha, dá a mão para um outro e diz: “Guie-me, porque ao menos assim eu vou babando pelo caminho.” Se um homem tem olhos e meios de caminhar, ele vai se conduzir por si.

    Então, para o espírito revolucionário a obediência é uma vergonha.

    Para o contrarrevolucionário é um ato de bom senso, de fidelidade e de força

    O militar considera o contrário. Ele sabe que a unidade de ação só pode resultar de uma unidade de mando; e para que uma grande ação de conjunto se desenvolva é preciso uma grande capacidade. Ora, os homens não têm a mesma capacidade, e um exército bem constituído deve destilar os seus valores. De maneira que os de mais altas qualidades cheguem à cúpula e sejam capazes de encontrar e de indicar o caminho para aqueles que estão numa categoria intermediária; e estes por sua vez orientem os menos graduados. Dessa forma, no topo da hierarquia militar há aqueles que são mais competentes, ou se presume que o sejam, pelos estudos que fizeram. Nos países que realizam operações militares, existe uma hierarquia de competências, de idades, de experiência, que vai distribuindo os conhecimentos e a capacidade de impulso da cúpula, sucessivamente, aos vários graus da escala militar até a base. E com isso se forma a ordenação de um exército.

    Conforme essa interpretação, a obediência é uma virtude. Ela é antes de tudo um grande ato de lucidez pelo qual uma pessoa reconhece que pode não ter tanta capacidade quanto uma outra; e algo que mais comprova ser cretino um indivíduo, se este imagina que ninguém possa ser mais capaz do que ele. Porque isto indica que ele não vê dois dedos diante do nariz; é incapaz de olhar para cima. Ora, a mais nobre das posições da cabeça do homem é olhar para cima.

    É um ato de bom senso, de lucidez, reconhecer que outros, por serem mais inteligentes, terem mais competência ou mais experiência, são mais capazes do que nós para encontrar o caminho.

    Fazer o que o outro quer é um ato de ascese. Porque somos sempre tendentes a conceder demais para nós mesmos, a arranjarmos pequenos confortos, pequenas regalias, pequenas exceções, pequenos prazos, pequenas traições por onde não cumprimos o nosso dever. E cumprir a vontade de um outro é muitas vezes dolorido, porque temos a impressão de que uma coisa é de um jeito, e o outro nos diz que é de um jeito diferente. Dolorido porque renunciamos a uma porção de vantagens pessoais para fazer o que o outro está mandando. Então, é preciso ter varonilidade, decisão, capacidade de enfrentar o sofrimento, a dor, de fazer o que deve ser feito; isto caracteriza o verdadeiro espírito militar.

    Exatamente ao contrário do que pensa a Revolução, para a Contra-Revolução a obediência é um ato de bom senso, de fidelidade e de força. Portanto é uma honra.

    Nosso Senhor Jesus Cristo, paradigma da virtude da obediência

    Entre as Ordens Religiosas, aquela que, por sua analogia com o espírito militar, mais ensina a grande virtude da obediência é a Companhia de Jesus. Virtude essa cujo paradigma foi Nosso Senhor Jesus Cristo, a respeito do Qual diz a Escritura: “Ele se fez obediente até a morte, e morte de cruz”(1). É belo vermos como Ele não se deixou vergar por nenhum poder da Terra, falou com a cabeça erguida e com divina e vigorosa altaneria contra todos os grandes da sinagoga e os grandes que representavam o Império Romano em Israel. É pulcro contemplar Jesus falando Àquele que era verdadeiramente superior a Ele, o Padre Eterno, nas orações que fazia.

    A meu ver — naturalmente é uma impressão pessoal —, os mais belos trechos do Evangelho são as orações de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando Ele se dirige ao Padre Eterno. Sendo a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, perfeitissimamente igual ao Padre Eterno — inferior, é verdade, na sua natureza humana —, Ele se dirige a Deus Pai com um respeito, um afeto, uma submissão, uma naturalidade, uma união, que, segundo me parece, constituem as páginas mais sublimes do Evangelho. O que não é dizer pouco, porque no Evangelho tudo é sublimíssimo; o Evangelho é uma concatenação de sublimidades, umas depois das outras. Tais orações mostram Nosso Senhor Jesus Cristo obedecendo, no ato de prestar a reverência à autoridade devida.

    Ninguém poderá jamais exprimir o que foi o modo pelo qual Nosso Senhor obedeceu a Nossa Senhora e a São José. Não se tem ideia do respeito, da exatidão, da prontidão com que Ele fazia esses atos de obediência. Tocamos aqui em mistérios divinos da Alma de Nosso Senhor Jesus Cristo, e percebemos a fímbria de uma obediência transcendente, glorificando e santificando todas as obediências que depois d’Ele se prestariam, ao longo dos séculos, a todas as autoridades legítimas das quais o Redentor era a mais alta expressão e ao mesmo tempo o fundamento.

    Obedecer sempre, exceto se a ordem colidir com a Doutrina Católica

    Na obediência há uma coisa particularmente dura. Em princípio, aquele que obedece pratica o ato de obediência porque reconhece em quem manda maior inteligência e capacidade; paradoxalmente, o resultado desse princípio é obedecer a quem tem menos inteligência e menos capacidade. Porque nesta Terra nem sempre a relação se faz de maneira que os mais inteligentes, os mais capazes, nem mesmo os melhores subam mais. Embora seja o normal, nem sempre isso ocorre.

    Mas, em atenção ao princípio de que o homem não deve discutir os seus superiores, a não ser quando se trata de uma colisão contra a Doutrina Católica e a Lei de Deus — neste caso é preciso não obedecer, porque a Doutrina Católica e a Lei de Deus estão acima de tudo —, ele precisa submeter-se e obedecer, mesmo vendo que aquele que manda é menos, sabe menos. Porque se cada um começar a discutir o superior, tudo se desagrega. Ao menos atendendo ao superior, ainda que menos capaz, uma obra comum se realiza.

    É uma espécie de requinte, uma sublimidade da obediência. E até lá, em inúmeros episódios, os jesuítas da época áurea manifestaram o seu espírito de obediência.

    Maravilhoso fato ocorrido com Santa Teresa de Ávila

    Compreende-se assim que membros de nosso Movimento, especialmente filhos da obediência — a expressão é de Santa Teresa de Jesus, que era filha da obediência —, gostem de um trecho de Santo Inácio de Loyola que passarei a comentar. São as normas que ele deixou para um jesuíta e que estão no testamento do Santo.

    Desde que um jesuíta entra na Ordem, seu primeiro cuidado será abandonar-se plenamente ao governo de seu superior.

    Quer dizer, não discutir, não analisar, seguir inteiramente o que o superior mandar. O superior é uma necessidade; pela ordem natural das coisas ele ali está representando Deus. A única coisa aonde a obediência não chega é aceitar a heterodoxia ou o mal.

    Segundo: se um jesuíta caísse nas mãos de um superior que dominasse seu juízo, seria desejável que ele estivesse inteiramente disposto a isso.

    Quer dizer, se um jesuíta estiver nas mãos de um superior menos competente, o qual lhe fizesse pensar uma determinada coisa, ele deve obedecer.

    Conhecemos esse fato maravilhoso, na vida de Santa Teresa de Jesus: inverno rigoroso, nada se planta; sua superiora lhe diz: “Irmã Teresa, vá ao jardim e plante esses aspargos de cabeça para baixo.”

    Era uma asnice, mas não um pecado. Tratava-se de uma ação de si indiferente. Ela vai ao jardim e planta os aspargos de modo errado, e no prazo adequado, apesar do inverno, os aspargos vicejam maravilhosamente. A bênção de Deus tinha caído sobre a obediência. E houve um milagre para provar quanto Deus gosta daqueles que sacrificam sua opinião ao modo de pensar dos superiores.

    É o oposto do durão que tem quinze objeções e, depois de vencidas essas objeções, vem com mais três ou quatro ininteligíveis, as quais são o último recurso que ele emprega para recalcitrar de todo jeito. E quando obedece resmunga, e executa o serviço ordenado de modo malfeito.

    Aqui é o contrário. Deve haver inteira placidez nas mãos do superior, que manda aquilo que o jesuíta deve fazer.

    Terceiro ponto: em todas as coisas onde não há pecado, é preciso que eu siga o juízo do superior e não o meu.

    É o mesmo princípio.

    Três modos de obedecer

    Quarto ponto: há três maneiras de obedecer. A primeira quando fazemos o que nos é mandado em virtude da obediência. E essa maneira é boa. A segunda, que é melhor, quando obedecemos a simples ordens. A terceira e a mais perfeita de todas, quando não esperamos a ordem do superior, mas a prevemos e adivinhamos a sua vontade.

    Numa Ordem Religiosa, na era clássica, quando um superior, em nome da santa obediência, mandava um religioso fazer alguma coisa dizia-lhe: “Ajoelhe-se porque o senhor vai receber uma ordem em nome da santa obediência.” Parece que na Companhia de Jesus a fórmula, lindíssima, era esta: “Pela graça e pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo.” Isso significava que o inferior ia receber uma ordem em nome da santa obediência. Ajoelhava-se e o superior dava uma ordem. Se esta fosse negligenciada, cometia um pecado mortal. Portanto tinha que ser cumprida, custasse o que custasse. Esse tipo de ordem se fazia de modo relativamente raro, somente quando o inferior se encontrava em estado de revolta.

    Mas há um outro modo mais corrente, conforme o qual o superior simplesmente afirma: “Padre Fulano, o senhor agora vai fazer tal coisa.” A violação de uma ordem assim não implica em pecado mortal, mas em pecado venial, às vezes em simples falta, mas era uma atitude contra a obediência.

    Existe um terceiro modo de obediência, pelo qual o súdito adivinha o que o superior quer e vai fazer antes de ser mandado. Então, conforme Santo Inácio de Loyola, é bom obedecer acuado entre a espada e a parede; melhor é obedecer apenas com uma ordem que não é tão imperativa; mas o ideal é ter o espírito feito de tal maneira que, antes mesmo de o superior dizer o que quer, o religioso obedece.

    Santa Teresinha obedecia a uma superiora cheia de caprichos

    Para entendermos o pleno sentido de tudo isso, devemos imaginar a época de Santo Inácio, São Francisco Xavier, São Francisco de Borja, o qual foi Geral da Companhia de Jesus.

    Suponhamos Santo Inácio, em seu convento, rezando, pensando, dando ordens, tudo em virtude de uma doutrina altíssima, sublimíssima, bem como de visões e revelações que ele recebia de Deus Nosso Senhor. É sabido que os “Exercícios Espirituais” lhe foram ditados por Nossa Senhora, na gruta de Manresa. Ele era um homem que difundia em torno de si o sobrenatural. O que devia fazer o bom súdito? Compreender o espírito, a mentalidade, a doutrina de Santo Inácio, de maneira que antes mesmo de este falar já entendia o que ele queria, e executava a vontade do Santo. O súdito se tornava, assim, um outro Santo Inácio. E o espírito de Santo Inácio se transmitia para ele, mais ou menos como o espírito de Elias passou para Eliseu.

    Consideremos, por exemplo, Santa Teresinha tendo que prestar obediência a uma superiora que deixava muito a desejar, como era a sua.

    São duas situações em que se obedece em condições completamente diferentes. Qual é a obediência mais bonita? A de um súdito de Santo Inácio que, olhando enlevado para o Santo e procurando haurir seu espírito, ser outro ele mesmo, procura adivinhar o que Santo Inácio quer? Ou a de uma Santa Teresinha do Menino Jesus diante da superiora, como Nosso Senhor Jesus Cristo no Pretório de Pilatos, e carregando de forma invisível, por cima do véu de religiosa, uma verdadeira coroa de espinhos?

    Realmente não sabemos, mas vemos a beleza dos dois estilos, dos dois modos de obediência, e como em todas as circunstâncias a obediência é uma verdadeira maravilha.

    Obedecer não apenas ao superior, mas aos que ocupam escalões intermediários

    São maravilhas da obediência que o mundo revolucionário não conhece, e sobre as quais é construído o mundo contrarrevolucionário. Isto arrepia um revolucionário e ao mesmo tempo o acachapa, porque com sua independenciazinha, sua liberdadezinha, ele fica tão pequeno como uma pulga insignificante e suja. E nós, diante da grandeza dessas duas situações extremas, compreendemos bem o esplendor da Contra-Revolução.

    Quinto ponto: deve obedecer indiferentemente a toda espécie de superiores, sem distinguir o primeiro do segundo, nem do último, mas considerar em todos igualmente a Nosso Senhor, de que eles ocupam o lugar, e lembrar-se de que a autoridade se comunica ao último por aqueles que estão acima dele.

    O pensamento contido nesse princípio é o seguinte: no alto da pirâmide está Santo Inácio de Loyola; numa porção de escalões inferiores há menos santos e menos Inácios. É fatal. E no nível mais baixo estaria aquele que corresponderia ao sargento dentro de uma instituição militar. Mas é preciso obedecer, porque, diz ele, a autoridade que está acima se comunica pelos inferiores. Nada de querer obedecer somente àquele que está no mais alto, mas, pelo contrário, sempre fazer tudo de acordo com as demais autoridades que estão abaixo. O único modo de fazer a vontade dos superiores é obedecer aos que estão em baixo.

    São Charbel Mackhluf e o caso da lamparina

    Lembro-me de um fato que faz parte da obediência, no sentido de que o súdito não somente deve cumprir o que manda o superior, mas também receber sem protesto as punições por ele impostas, mesmo quando essas punições são injustas ou pitos insultantes que, em tese, o inferior não tem a obrigação de aceitar. É uma das formas de obediência: a paz e a serenidade diante da repreensão injusta.

    Li a biografia, que é uma verdadeira maravilha, de São Charbel Mackhluf, monge oriental do rito maronita. Ele vivia em um convento situado num dos montes do Líbano, cujos religiosos se dedicavam à oração e a algum trabalho manual, como fazer cestinhas e objetos análogos, no silêncio mais completo.

    Ele era um homem tão obediente que pedia licença para tudo. E nessa tebaida santíssima seu superior tinha raiva de São Charbel. Às vezes, este ia pedir uma ordem para o superior, que lhe dizia o seguinte: “Será possível que o senhor seja tão imbecil que não saiba resolver isso por si? E precisa vir me pedir uma ordem?”

    Imaginemos São Charbel de capuz, alto, de barba grande, fisionomia tranquila e recolhida, e com a cabeça baixa. Depois de receber uma descompostura, ele olhava para o superior, à espera da ordem, porque o regulamento assim o exigia. O superior afinal dava uma ordem, e São Charbel saía para cumpri-la.

    Era um homem indomável. Pois homens que sabem obedecer são indomáveis. No primeiro convento onde ele havia ingressado, nunca era permitido a entrada de mulher. Certo dia, por uma razão qualquer, entraram algumas mulheres lá. O fato se repetiu duas ou três vezes. Sem dar satisfação a ninguém, São Charbel mudou-se para outro convento. Era um direito natural que ele exercia: “Eu vim aqui para me santificar; a regra foi infringida e minha salvação eterna está comprometida com esse fato. Aqui está meu direito: saio deste convento e vou para outro.”

    Indomável! Mas de outro lado, era o mais domável dos homens. Depois de passar anos debaixo das descomposturas desse superior, uma noite ele se lembrou de que lhe faltava uma parte do Breviário para rezar. Evidentemente não era meia-noite ainda.

    Ele se dirigiu à capela para rezar e depois foi à sua cela para terminar as orações, levando um pouco de fogo. Chegando lá, viu que não tinha azeite na lamparina, mas apesar disso acendeu-a e continuou a rezar.

    Era tarde da noite, todos já recolhidos, e o superior, vendo a luz acesa na cela de São Charbel, foi para lá rugindo de raiva. Porque pessoas assim são a favor de todas as liberdades, exceto da liberdade de alguém rezar mais ou fazer mais penitência. Bateu na porta e entrou.

    — Que é isto? Luz acesa a esta hora, onde é que se viu?

    O Santo quieto.

    — Explique-me qual a razão, porque nesta hora todos já devem estar recolhidos.

    — Padre, eu vos peço desculpas, mas o dia inteiro, pela ordem de Vossa Paternidade, eu estive trabalhando e só agora encontrei tempo para rezar o Breviário.

    — Rezar o Breviário?! E como conseguiu azeite para a sua lamparina? De onde o retirou?

    Respondeu São Charbel:

    — Padre, a lamparina não tem azeite, está cheia de água.

    O superior viu a mecha da lamparina ardendo na água e apenas disse o seguinte: “Reze por mim.” Saiu e fechou a porta.

    Aquela era a chama da obediência, ardendo até na água. São os milagres da obediência.

    Temos assim a explicação profunda a respeito desta obediência que nós, como contrarrevolucionários, devemos amar tanto.  v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 13/11/1971)
    Revista Dr Plinio 162 (Setembro de 2012)

     

    1) Fl 2,8.

     

  • São Roberto Belarmino – Santidade acima de tudo

    São Roberto Belarmino, dotado de qualidades intelectuais extraordinárias, de tal modo causou grandes devastações à heresia protestante, que se poderia afirmar ser a luta contra o protestantismo o sentido fundamental de sua vida.

    Chamado a Roma por Gregório XIII, passou a formar alunos de colégios ingleses e alemães, preparando-os para as lutas espirituais que teriam de travar contra a heresia ao regressar para seus países. Esta ação de São Roberto Belarmino, unida a de outros santos, teve uma repercussão fabulosa no futuro da Igreja.

    Além de desempenhar singular papel na direção da Companhia de Jesus, São Roberto foi exímio diretor de consciências. Entre as almas por ele dirigidas está a de São Luiz Gonzaga.

    Entretanto, de nada lhe teriam servido todos os seus dons e obras se ele não tivesse sido santo. O que seria deste varão se não correspondesse à graça?

    Acima de tudo, o grande mérito de Roberto Belarmino é o da santidade.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 12/5/1967)

  • Consagração a Nossa Senhora e a graça divina – II

    Dirigindo-se a um grupo de jovens discípulos que se consagraram a Nossa Senhora segundo o método de São Luís Grignion de Montfort, Dr. Plinio os alenta no caminho da vocação empreendida, incentiva-os na prática da virtude, e lhes aponta a Mãe Imaculada como advogada e infalível auxílio nos perigos, à qual devem recorrer como filhos, plenos de confiança.

     

    Como é belo, meus caros, olhar para cada um de vós que vos consagrastes a Nossa Senhora, e considerar quanta dificuldade enfrentastes para chegar até este ponto! Como, afinal, o atingistes?

    Através da graça, o convite divino para a vocação

    A graça vos fez conhecer outros membros do nosso movimento que vos convidaram a fazer parte dele. Cada um procure lembrar-se como foi o primeiro contato, a primeira conversa. Quando isso ocorreu, vós víeis apenas um jovem a vos dirigir a palavra. Mas, de fato, o respectivo anjo da guarda pairava e ajudava no íntimo de vossa alma, a fim de que atendessem o convite. Visitastes a sede, apreciastes as apresentações, as aulas, os jogos, o ambiente. Voltastes para casa entusiasmados, com saudades, desejando logo regressar.

    Pensáveis que eram saudades dos amigos, de tal ou tal coisa. Na realidade, era Deus, pela sua graça, a rogos de Maria, que atuava em vossa alma. Como vós, muitos outros vieram. E dentre eles, vários também receberam graças para se fixarem em nossas fileiras e continuar a caminhada nas vias da vocação.

    A cada passo, a graça vos acompanhou. Ela é obtida por Aquela a quem o anjo disse ser cheia de graça. Tudo o que pedimos — para o bem de nossa alma ou para as nossas legítimas necessidades temporais — por meio de Maria Santíssima, obtemos, e sem a intercessão d’Ela torna-se mais difícil para nós alcançarmos os dons celestiais. Estamos aqui porque Nossa Senhora rogou por nós. Ela é a Rainha dos anjos e ordenou que esses espíritos puríssimos os orientassem para o caminho que tomaram.

    Cada um de nós tem um anjo da guarda. Portanto, pairam sobre o meu querido auditório, digamos cerca de 400 anjos… Não os vemos, mas a Igreja ensina que eles estão presentes. E basta a doutrina católica dizer para eu crer mais do que se os visse.

    Um espetáculo assistido pelos Céus

    Imaginemos o júbilo havido no Céu, enquanto se realizava esta cerimônia que, devido à alegria de todos os participantes, poder-se-ia chamar uma festa! As três Pessoas da Santíssima Trindade, Maria, todos os anjos e santos do Paraíso tinham como que sua atenção voltada para cá. E quando, por exemplo, recebíeis de lembrança a pequena imagem de Nossa Senhora das Graças, os anjos rezavam à Mãe de Deus pelos senhores; no momento em que a osculavam, os anjos depositavam — em espírito — um respeitoso beijo nos pés da Santíssima Virgem, no Céu.

    Portanto, um magnífico ato acaba de se passar aqui, e coloca um primeiro termo às batalhas que travastes.

    Alguém dirá: “Dr. Plinio, são pequenas lutas de menino, de adolescente…”

    Respondo: “Vai a alma inteira nisso. Passei por essas fases da vida, e sei o que custou.”

    As batalhas se tornarão maiores

    Meus caros, eu vos felicito! Mas, essas contendas se referem ao passado e ao presente. Quanto ao futuro, não vos iludais; ao invés de diminuírem, elas aumentarão. E é próprio ao homem, à medida que cresça, desejar lutas cada vez maiores. Devemos procurar subir aos píncaros da seriedade, galgar as culminâncias do esforço, fiéis à Lei de Deus e, mesmo quando tivermos a impressão de que tudo nos convida para o mal, dizer: “Salve Rainha, Mãe de misericórdia…”

    Sejamos realistas: cada um possui todos os meios para não pecar, mas ninguém pode garantir que não cairá. Precisamos nos preparar. Se acontecer a desgraça, a catástrofe de cometermos um pecado mortal, devemos confiar, não desesperar, mas imediatamente nos dirigir até os pés de uma imagem de Nossa Senhora ou segurar o Rosário e dizer: “Salve Rainha, Mãe de misericórdia”, “lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer — nunca se ouviu dizer! — que alguém tivesse recorrido à vossa proteção e fosse por Vós desamparado… Gemendo sob o peso dos meus pecados, me prostro a vossos pés…”

    É a prece não apenas do homem inocente, mas também do que cometeu pecados e se lamenta sob o peso deles, podendo mesmo acrescentar: “Se nunca se ouviu dizer, não seja eu o único infeliz em que se desminta vossa clemência. Mil vezes não! Ó minha Mãe, reerguei-me, dai-me ânimo para ir me confessar e continuar sempre e sempre essa luta que me levará ao Céu!”

    Confiança e determinação contra o pecado

    Peçamos aos anjos, aos santos, aos nossos padroeiros, que nos obtenham uma pureza, a qual nunca conheça manchas, bem como a confiança por onde, se por desgraça uma nódoa tisnar nossa alma, nos voltemos mais uma vez a Nossa Senhora, dizendo: “Minha Mãe, vossa misericórdia é maior do que minha miséria, tende pena de mim”, e retomemos a carga contra o pecado. É o que vos desejo de modo muito especial.

    Importa nos lembrarmos de que os demônios no inferno provavelmente se enchem de ódio ao considerar esse ato, essas palavras e a recepção calorosa com a qual são acolhidas de vossa parte. Vós sois presas que os anjos arrancaram das garras satânicas, e os adversários de vossa alma não deixarão de arquitetar planos para vos perder.

    Porém, a Virgem Maria, sob a invocação de Nossa Senhora das Graças, calca aos pés a cabeça da serpente, esmaga e sempre esmagará o demônio. Assim, sob a proteção d’Ela, imitando-A, deveis levar vossa vida subjugando o mal dentro de vós, rejeitando as tentações, e também fora de vós, combatendo a Revolução, empenhando-se na vitória da Contra-Revolução e trabalhando pelo advento do Reino de Maria.

    Convocados para uma grande batalha

    Somente conseguiremos isso se formos autênticos devotos de Nossa Senhora. Conforme explica São Luís Grignion, precisamos fazer todas as vontades d’Ela, as quais conheceremos cumprindo antes de tudo os Mandamentos da Lei de Deus e da Igreja, observando-os durante a vida inteira por amor a Nossa Senhora, a quem nos consagramos, e porque Ela assim o deseja.

    A Virgem Santíssima nos alcançou o dom da vocação, chamou-nos para sermos escravos d’Ela, e nos concederá graças especiais para perseverarmos. Assim, obteremos forças para vencer grandes batalhas.

    Na vida de um homem há situações em que ele tem a impressão de ser um navio abandonado no meio da tempestade, jogado de um lado para outro pelos ventos das tentações, dos problemas, e parece que o navio afundará.

    Mas, a nau tem um capitão: o próprio homem. Se ele rezar, tomar todas as precauções, não desistir mesmo quando julgar que o mar inteiro está entrando na embarcação, aos poucos a tormenta vai amainando.

    Quando a Providência Divina permite que passemos por tais provações, Ela está nos concedendo uma honra. Assim, cada um de vós, nas ocasiões difíceis, não se ache abandonado. Pense o contrário: “Estou convocado para uma grande batalha! É uma honra! Minha Mãe e de Jesus Cristo meu Senhor, tende misericórdia de mim e ajudai-me! Vou pôr mãos à obra, e ensinar a esta tempestade como são as coisas!”

    Como escravos da Virgem, estais começando hoje nova fase de vossa grande batalha. Pedi a Nossa Senhora, antes de tudo, uma intensa Fé Católica Apostólica Romana; que Ela vos dê a convicção e a rejeição do mal que há no pecado, bem como a admiração pelo bem existente na virtude, sobretudo na mais árdua de se manter quando jovem, a virtude da pureza. Implorai-Lhe firmeza na prática da castidade, e coragem para enfrentar o paganismo do mundo moderno.

    Dessa forma, tereis a glória de participar do desfile dos vencedores, quando for implantado o Reino de Maria, prometido pela Virgem Santíssima em Fátima, ao anunciar o triunfo final do seu Imaculado Coração sobre a face da Terra.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • Carinho purificador

    Não raras vezes, quando nos aproximamos de uma imagem da Santíssima Virgem, temos a impressão de se abrir para nós uma janela no céu da misericórdia d’Ela, através da qual nos inundam os fulgores maternos da compaixão, da bondade, da disposição de perdoar mais uma vez, e outra, e outra.

    Algo indefinido e sublime, de um carinho purificador de todas as nossas fraquezas, como se Nossa Senhora nos tocasse, não com seus dedos virginais, mas com seu olhar imaculado: Ela nos viu, nos fitou, e só de sentirmos os seus olhos pousando sobre nós, qualquer coisa muda em nossa alma, para melhor…

  • Porque foi santo…

    A vida de São Roberto Belarmino é uma obra-prima de serenidade abacial, dentro do auge da luta. Cardeal ocupadíssimo, entretanto ele sabia de tal maneira administrar bem o uso de seu tempo, que encontrava momentos de calma e de lazer para pensar e escrever obras tão profundas, a ponto de ser proclamado Doutor da Igreja.

    Portanto, horas e horas de serenidade, de meditação e de estudo, enquanto rugia a batalha contra o protestantismo.

    Pensador, polemista, homem de ação, diretor espiritual exímio, ele foi uma fortaleza que combateu pela Santa Igreja Católica em todas as direções. Mas por que ele foi tudo isso? Porque foi santo.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 12/5/1966 e 12/5/1967)

  • Gemendo e chorando neste vale de lágrimas…

    A propósito de episódios ocorridos em sua infância, Dr. Plinio pondera como esta vida é um vale de lágrimas, onde os sofrimentos, dramas e problemas são inúmeros e muitas vezes procuram nos abater.

     

    Na Salve Rainha, esta vida recebe o título de “vale de lágrimas”. Quando eu era jovem, ouvia na recitação da “Salve Regina” as palavras “in hac lacrimarum valle — neste vale de lágrimas”, e imaginava os vales que eu via frequentemente na serra existente no caminho de São Paulo a Santos, que naquele tempo se percorria de trem e não de automóvel.

    São serranias altíssimas e, às vezes, se via no cimo de um morro brotar uma mina de água de dentro de uma pedra, a qual percorria a superfície da pedra vagarosamente, sem pressa, formando pela espuma como que uns babados de cortina. Tinha-se a impressão de uma cortina de prata com uns bordados de renda, que descia do alto do morro até embaixo.

    Eu me lembrava do vale de lágrimas, e pensava: “Então essa vida é como a considera o autor da Salve Rainha(1)? Mas afinal de contas, se eu conseguir coisas desejáveis desta vida: ficar rico, ir à Europa para ver os monumentos do passado da Cristandade, a nobreza do presente, tomar contato com pessoas inteligentes e interessantes, que levam um tipo de existência toda especial, contemplar e oscular o caixão onde está sepultado Carlos Magno, ir à Place de la Concorde, em Paris, onde um amigo me mostrará qual o lugar exato onde estava a guilhotina em que Luís XVI e Maria Antonieta foram decapitados, rezar por eles, fazer um ato de execração contra o crime que então se cometeu, e de desagravo a Deus pelo horror desse crime, e depois continuar o passeio, isso não proporciona felicidade? É um vale de lágrimas ir a Paris, a Roma ou a Madri? Ou, pelo contrário, a afirmação que se faz na Salve Rainha, é equivocada?”

    Quando fiquei um pouco mais velho, compreendi.

    Tudo na Terra é efêmero e passageiro

    Não é que a todo o momento esteja acontecendo uma coisa que nos arranque lágrimas; isso evidentemente não é verdade, graças a Deus. Mas quando ficamos um pouco mais velhos, começamos a pensar no passado e percebemos as ciladas pelas quais passamos já quando éramos meninos. Quantas ilusões, quantas desilusões, quantos “bluffs”, quantas esperanças rachadas!

    Mais tarde conhecemos pessoas — será um colega, um parente, um vizinho — que nos parecem pessoas perfeitas, e pensamos: “Se ficar amigo deste, eu terei a minha alma completamente satisfeita.” Aproximamo-nos dele e começamos uma amizade. De repente vemos que tudo é ilusão.

    Por quê? Como? Ele, de quem sou tão amigo, é de fato meu amigo? Ou, pelo contrário, quando vê qualquer coisa em mim um pouquinho superior a ele, fica ácido comigo? Se fosse meu amigo, se contentaria, se alegraria em ver-me superior a ele em algum ponto. Mas não: ele começa a querer mesquinhar o que estou fazendo ou dizendo, a caçoar, debicar e, sob pretexto de brincadeira, saem coisas amargas. Esse não é meu amigo, vou procurar outro; e constatamos que tudo é ilusão.

    O tempo passa e nos lembramos da expressão francesa: “Tout passe, tout casse, tout lasse… et tout se remplace — Tudo passa, tudo se quebra, tudo enfastia… e tudo se substitui”. Quer dizer, tudo é efêmero. A previsão do futuro aliada à lembrança das desilusões do passado constitui um vale de lágrimas.

    Uma desilusão nos tempos de infância

    Lembro-me de um episódio de meu tempo de menino de colégio, e que me marcou profundamente. Eu vinha do Colégio São Luís, situado na Avenida Paulista, descendo a pé pela Avenida Angélica até minha casa nos Campos Elíseos, conversando com um colega de minha idade que me parecia um bom rapaz.

    Por uma razão da qual não me recordo, nós tínhamos sido os primeiros a sair do colégio, de maneira que íamos na frente; depois outros grupos de alunos vinham descendo por aquela avenida. De repente ouço, bem atrás de nós, um menino que chamava por aquele que estava ao meu lado:

    — Fulano! Fulano!

    Olhei com o canto dos olhos para o que vinha ao meu lado, para ver o que ele fazia. Ele não respondia e fingia que não estava ouvindo. Mas o outro corria, enquanto nós dois não estávamos correndo, porque nunca gostei de andar muito depressa; eu caminhava devagar, e ele acertava o passo pelo meu.

    Resultado: a voz do menino chamando pelo meu companheiro era cada vez mais insistente. Percebia-se que se tratava de um amigo que gostava muito dele e queria estar com ele para conversar. Poderíamos perfeitamente descer conversando os três, é uma coisa banal. Eu nem tinha notado aquele menino no Colégio São Luís, no meio daquela multidão de alunos, mas pouco me incomodava; e pensava: “Deixa entrar um outro na conversa, não tem importância nenhuma”.

    O meu amigo, afinal, quando notou que a voz estava se tornando mais próxima, parou, voltou-se de costas e disse num tom amargurado:

    — Hum! Mas que pressa e que mania de falar comigo, que coisa cacete! O que quer comigo esse tipo?

    Pensei: “Mas ele retribui uma simpatia desta maneira? Amanhã vai chegar minha vez. Ele de repente fica saturado da minha companhia como se saturou daquele menino. Isso é um amigo?”

    E o que se deu foi o contrário: antes dele se saturar da minha companhia, eu me saturei da dele e rompi as relações com ele como se arranca uma folha morta de uma árvore.

    Quando se vai ficando moço compreende-se como as dificuldades, as incompreensões e as incompatibilidades pelas quais passam os adultos são ainda mais difíceis. Mesmo no seio de uma família feliz aparecem problemas que preocupam o esposo ou a esposa.

    Tudo isso se dá porque a vida é um vale de lágrimas. Lágrimas ora pelo que está acontecendo, ora na previsão do que pode vir a suceder.

    O tormento trazido por uma doença

    Por exemplo, as doenças. Às vezes ouvimos falar de alguém que contraiu um horrível mal, que o faz sofrer muito. São verdadeiros fantasmas. Precisamos entender que de um momento para outro uma doença dessas nos agride.

    Algo assim se passou comigo quando eu era pequeno. Acordei fraquíssimo pela manhã. Isso não acontecia comigo; como todo menino, eu acordava alegre, me levantava, ia dizer bom-dia a papai, mamãe, aprontava-me e começava a vida. Nesse dia eu não conseguia nem sentar-me na cama.

    Sendo meu quarto contíguo ao dos meus pais, pus-me a chamar:

    — Mamãe, mamãe — e ela veio.

    Eu disse a ela:

    — Estou me sentindo muito mal. Não sei o que eu tenho.

    — O que você sente?

    — Uma dor de garganta horrorosa.

    Ela mandou-me abrir a boca, viu que eu estava com uma inflamação medonha na garganta e chamou o médico. Este era homeopata. Tratava-se de um homem alto, teso, saudável, rubicundo, vermelho, tendo num dos dedos um anel com uma esmeralda linda. A esmeralda era o distintivo dos médicos. Eu, que gosto muito de pedras, quando estava com ele nunca perdia oportunidade de olhar para a esmeralda.

    Ele entrou no meu quarto, examinou-me e saiu com mamãe.

    Eu não fiquei sabendo o que eu tinha, e estava piorando cada vez mais.

    Logo depois, ela veio e me contou que o médico disse a ela o seguinte: “A senhora dê para o Plinio tais remédios de hora em hora. Pouco antes das três da tarde, esteja próxima a ele com uma toalha no colo, pois nesta hora ele deve expelir da garganta uma membrana infeccionada. Ele está com uma doença chamada crupe ou angina diftérica. Se ele expelir a membrana, está curado. Quando ele a expelir, feche a toalha porque a membrana está infeccionada; e mande queimar a toalha com a membrana e tudo o mais. Aí o Plinio está salvo. Se não for assim, terá que se fazer uma operação muito dolorida e perigosa”.

    Quando chegou mais ou menos três horas, comecei a dar sinais de mal-estar, inquietação. Ela, que era muito previdente, tinha mandado abrir no quintal da casa uma espécie de tumulozinho para essa membrana. Os micróbios ficariam sepultados ali debaixo da terra.

    Quando afinal de contas expeli a membrana, ela mandou uma criada ir correndo jogar nesse lugar a toalha com a membrana e pôr terra em cima, o que foi feito rapidamente. Depois ela foi falar pelo telefone com o médico, para contar que estava tudo em ordem.

    Quando o médico atendeu desde o seu consultório, mamãe disse a ele:

    — Dr. Murtinho…

    — Não precisa me dizer o resto porque pela sua voz eu já vejo. A senhora está contente porque a membrana foi expelida.

    — Muito obrigada, foi um alívio.

    Pode-se imaginar o que ela sofreu durante essas horas. Sofreu muito mais do que eu —não tem comparação! —, na previsão do que podia acontecer. Essa previsão é um tormento, a vida é mesmo um vale de lágrimas.

    Por isso, a única esperança verdadeira que o homem tem nesta vida é a de, no momento em que fechar os olhos com a consciência em paz, alcançar a felicidade eterna. v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência  de 24/9/1994)
    Revista Dr Plinio 174 (Setembro de 2012)

     

    1) A autoria da Salve Rainha é atribuída ao monge Germano Contracto que a teria escrito por volta de 1050, no mosteiro de Reichenan, na Alemanha.

     

  • Corpo humano e sistema feudal

    Dr. Plinio não tinha uma mentalidade livresca, mas analisava detalhada e profundamente a realidade, para depois elevar-se à teoria. Comentando diversos aspectos de regiões da Espanha, ele tira luminosas conclusões a respeito da sociedade, a qual, assim como o corpo humano, deve ser organizada feudalmente.

     

    Para considerarmos os diversos regionalismos espanhóis, tomemos como exemplo a Galícia. No meu modo de entender, existe uma forma de ser, uma espécie de alma galega, distinta da alma espanhola. Nessa espécie de espírito regional de um órgão da Espanha, chamada Galícia, existe uma mentalidade, uma peculiaridade própria feita para se desenvolver de um modo incompleto com vistas a se fundir num todo maior denominado Espanha.

    Galícia, Catalunha, Guipúscoa

    Qual o valor, o alcance ontológico da autonomia dessa região? É uma vida própria de um povo que deveria, normalmente, ter chegado a ser independente e autônomo, e sobre o qual a Espanha pesa como um manto de chumbo?

    Ou, pelo contrário, a Espanha é um rio do qual a Galícia é um confluente? E esse confluente é feito para morrer no rio principal, fundir-se com ele? Então estes regionalismos não seriam feitos para ter todo o seu desenvolvimento, mas para possuírem uma vida meramente local, fundida numa vida geral?

    Todo o problema das autonomias na Espanha tem sua raiz nesta questão. E quando isso não é devidamente considerado, nascem os mal-entendidos.

    É possível que alguns desses regionalismos tivessem se desenvolvido quase a nível nacional, fazendo de certas regiões quase nações, e outras que realmente não tendiam a isso. Por exemplo, a Catalunha tem, mais do que a Galícia, ares de uma nação que não chegou a se realizar inteiramente.

    Há, portanto, regiões da Espanha que dão a impressão de que talvez, no curso normal da História, deveriam ter tido um desenvolvimento para se tornarem quase completamente nações independentes, com cultura, vida, autonomia quase próprias. Quanto a outras regiões, entretanto, tem-se a impressão de que dariam para uma coisa menor, com formas ou graus de vitalidade diversos.

    Por exemplo, Guipúscoa(1), uma região tão pequena, mas com autonomias próprias. Quem julgasse que isso não deve ser assim, faria o papel de alguém que achasse feio o miosótis. Esta é uma flor naturalmente pequena, o que é muito diferente de uma flor que por natureza deveria ser grande, mas nasceu doente. A saúde do miosótis consiste em ter aquele tamanho, com aquele azul forte por onde ele afirma sua presença na ordem do real, de um modo encantador.

    Guipúscoa é um miosótis dentro do jardim que é a Espanha.

    A alma de uma nação

    Essas considerações nos colocam diante do seguinte problema:

    Aquilo que nós chamamos a alma de uma nação, ligada à sua psicologia, constitui um todo. A língua e a cultura dessa nação são a expressão da existência real desse todo. Essa alma não existe no sentido pampsiquista ou panteísta da palavra, mas também não se trata de uma mera figura. Há algo próprio a todos os espanhóis no sentido físico, e até étnico da palavra, que constitui um traço comum, orgânico, formando uma psicologia comum.

    Essa alma formaria uma cultura, uma civilização, e tem diante de Deus um quê de comum pelo qual ela é capaz de pecar ou praticar virtudes. E isso se deve ao fato, não de que há uma alma ontologicamente distinta das outras, mas é porque esse traço comum existente em toda a nação faz com que esta, às vezes, pratique solidariamente uma virtude ou um pecado. E haja então uma punição ou um prêmio para a nação nesta Terra, pois esse todo não vai ser premiado nem castigado na eternidade.

    Temos, assim, a ideia de um certo modo de encaixe da vida. Seria muito útil, debaixo do ponto de vista didático, se pudéssemos mostrar que algo de análogo se dá entre as células e os órgãos, e entre estes e o organismo, porque convenceria muito mais as pessoas da realidade do quadro que acabo de traçar.

    Creio que levaria até mesmo os cientistas a explicarem melhor as inter-relações existentes entre as células, órgãos e organismo, e chegaríamos a uma explicação melhor do feudalismo, e do que teve de errado o Estado unitário inaugurado pela monarquia absoluta no “Ancien Régime”(2).

    Duas sinfonias

    Existe um “principium vitæ”(3) próprio a cada célula. Este princípio corresponde a uma alma, não espiritual, mas biológica. Assim, um órgão seria uma “sinfonia” de milhões de princípios de vida menores, autônomos que, criados por Deus de um modo especial, fazem uma “sinfonia” correspondente ao tipo de vida próprio do órgão, que não é inteiramente o mesmo tipo de vida próprio ao organismo. Este, por sua vez, tem uma espécie de “principium vitæ” atuando em cada célula. De maneira que cada célula seria portadora de seu próprio princípio de vida e de algo do “principium vitæ” do organismo.

    Aliás, a possibilidade de se fazerem transplantes de órgãos e de se conservar com vida um membro amputado, por algum tempo, fora do corpo, depõe a favor da existência desse outro “principium vitæ”, além da alma espiritual. Um princípio de uma qualidade tão inferior que o membro ou o órgão não resiste muito tempo fora do organismo, mas este princípio existe.

    Isto serve para exemplificar como é o feudalismo e a sua necessidade, pois sendo a natureza tão bem constituída por Deus e havendo no corpo humano tantos elementos análogos à sociedade humana, é compreensível que esta peça para ser organizada feudalmente, por uma razão científica semelhante àquela pela qual o corpo humano constitui um sistema feudal.

    Erraria quem visse o feudalismo apenas nobiliarquicamente. Sem dúvida, ele é um conjunto que possui a sua parte nobiliárquica como um componente muito importante, mas contém um mundo de outros corpos, mais ou menos autônomos, com vida própria. Por exemplo, as universidades.

    A Igreja é a vida dos Estados

    O grande organismo que permanece fora, acima e no fundo dessa estrutura, é a Igreja com sua influência. Ela é uma entidade tão soberana quanto o Estado, mas de uma soberania mais augusta, porque sobrenatural, enquanto a soberania do Estado vem de Deus, mas por ordem da natureza, e não da graça.

    A Igreja vive dentro de todos os Estados ao mesmo tempo, e o Estado, enquanto tal, não vive dentro da Igreja, embora possa ser um Estado católico. Por exemplo, não posso dizer: a Espanha é membro da Santa Igreja Católica. Enquanto nação, não é. Os espanhóis, sim, são membros da Santa Igreja Católica.

    Então, os Estados não vivem na Igreja, mas esta vive nos Estados e é a vida dos Estados. E a Igreja, que bem compreendida é inimiga da República Universal, é, entretanto, uma sociedade internacional sobrenatural imensa que realiza a mais radical e perfeita universalidade que se possa e se deva desejar. Daí o fato de toda a estrutura hierárquica da Igreja não estar sujeita às leis penais do Estado.

    Contudo, isso é assim em certos pontos, em outros não. Por exemplo, numa igreja em torno da qual haja um jardim onde, de vez em quando, se faça uma festa beneficente e outros atos do gênero, o Estado tem o direito de exigir da Igreja que mantenha limpo, decoroso e belo esse jardim. Nesse pormenor, a Igreja não é independente. É uma das razões pelas quais o clero fazia parte dos Estados Gerais(4). É uma complexidade lindíssima, e que é preciso saber admirar. v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 8/8/1991)
    Revista Dr Plinio 198 (Setembro de 2014)

     

    1) Província do País Basco, localizada no Norte da Espanha.

    2) Do francês: Antigo Regime. Sistema social e político aristocrático em vigor na França entre os séculos XVI e XVIII.

    3) Do latim: princípio de vida.

    4) Órgão político de caráter consultivo e deliberativo constituído por representantes do clero, da nobreza e do povo.

  • A beleza da hierarquia angélica

    Dr. Plinio tinha um apreço especial pelo estudo sobre os Anjos e grande devoção a eles. Comentando alguns trechos de um livro de Dionísio Areopagita, analisa a ordem, a atividade dos espíritos angélicos e faz aplicações desse tema aos indivíduos, à sociedade, a áreas de civilização e até mesmo a épocas históricas.

     

    Dionísio Areopagita, em seu Tratado da hierarquia celeste, descreve uma concatenação dos Anjos, apresentada por ele como a ordenação perfeita do ser criado. O puro espírito criado não teria necessariamente aquela ordenação, mas ele não está longe de dizer — ou até mesmo afirma — que os traços essenciais da ordenação são aqueles.

    A multiplicidade das criaturas

    O cabide que carrega todo o tema tratado por Dionísio é: uma vez que Deus criou, não poderia deixar de criar vários seres.

    São Tomás defende essa tese: O Altíssimo não poderia criar um só ser, porque nenhum ser único tem suficientes qualidades para refletir adequadamente as perfeições do Criador. Ora, a ordem do criado precisa refletir a Deus globalmente e não apenas em um de seus traços.

    Então, esquematizando, seria o seguinte:

    1. A ordem do criado tem que refletir a Deus globalmente, e não apenas em uma de suas perfeições.
    2. Refletir a Deus globalmente é algo de tão grande, que não pode ser feito por uma criatura, mas por várias, portanto por um universo, quer dizer, por um conjunto de criaturas que esteja em condições de dar esse reflexo global do Criador.
    3. Deus dispôs que essas criaturas fossem muitíssimas e dotadas de propriedades cujo conjunto, de fato, refletisse a Ele.

    Não me parece necessário que o número de seres fosse esse, nem que as criaturas fossem exatamente como são. Podiam ser criaturas numa quantidade diferente, cuja disposição e o inter-relacionamento entre elas adequadamente refletissem a Deus, num modo pelo qual os Anjos não refletem. Mas o Criador dispôs que fossem assim. Isso equivale a julgar que haveria outros universos possíveis. Isso é uma coisa que me parece absolutamente certa.

    A ordem na sociedade humana deve ser análoga à existente entre os Anjos

    Contudo, uma vez que Deus criou esse número de Anjos com essa natureza, não podia deixar de ser que eles estivessem ordenados como estão. Quer dizer, eles já foram criados assim em vista a refletir o Criador. E a ordenação, o inter-relacionamento entre eles, uma vez que são assim, seria necessariamente esse.

    E como a tarefa das criaturas consiste em refletir a Deus não só sendo, mas agindo sobre outros, essas criaturas não podiam existir enclausuradas sem terem contato umas com as outras. Tinham que se relacionar para que essas qualidades, esses predicados divinos se articulassem e representassem um só todo.

    Essas criaturas, assim articuladas, teriam que desempenhar um papel que, esquematicamente, é o papel que Dionísio atribui aos Anjos porque, na ordem absoluta do ser, um é aquele conhecimento amoroso dos Serafins, outro é aquela inteligência dos Querubins, outro é aquele poder dos Tronos, e assim por diante.

    Como nós, homens, estamos no mesmo universo que os Anjos, fazemos parte da mesma Criação, eles devem nos governar. Em consequência, nossa ordem deve ser análoga e consonante com a deles. E, como tal, o modo de nos relacionarmos e os traços fundamentais de governo da sociedade humana, feitos os descontos da diferença de naturezas, têm que ser análogos aos do mundo angélico.

    A força motora do governo legítimo

    Entretanto, não pode ser que alguns de nós sejamos apenas cognoscitivos e volitivos, como os Anjos. Vê-se que nossa natureza não comporta isso, mas está menos longe de nossa natureza do que se pode imaginar à primeira vista.

    Em muitos trechos dos seus discursos à nobreza romana, Pio XII encaixava o regime democrático, afirmando que as mais autênticas democracias devem ter instituições aristocráticas. Nesta perspectiva e tomando, portanto, a ideia de aristocracia no seu sentido mais amplo, quer dizer, as elites, é mais ou menos certo, a meu ver, que em face da missão de uma sociedade, do que ela é, do que deve fazer, há um maior descortínio das classes mais altas do que das mais baixas. E esse descortínio deve fazer com que as classes mais altas conheçam melhor o espírito do país, o que este é como um todo, amem-no com mais finura, de maneira tal que elas filtrem isso para as classes mais baixas. E que essa filtração produza, por sua vez, um impulso diretivo do poder sobre as classes mais baixas que é verdadeiramente a força motora do autêntico governo legítimo.

    As classes mais baixas, assim iluminadas e impulsionadas, têm uma capacidade de execução muito maior do que numa sociedade onde não haja isso. E disto decorre, propriamente, o vigor e a coesão de um corpo social.

    Alguém que inventasse copiar a ordem angélica para a ordem humana — não se inspirar, mas copiar —, faria as coisas mais pesadas, mais tontas que se possam imaginar.

    Por exemplo, é de experiência comum que, de vez em quando, saem da classe mais baixa elementos extraordinariamente dotados; mas não correspondem à figura clássica do homem muito inteligente, que vai ficar um “ploc-ploc”(1). São pessoas muito dotadas de dons naturais vivos, capazes de vencer as batalhas da vida e aproximarem-se da aristocracia merecidamente, afinarem-se.

    As raízes de uma árvore e a nobreza

    As raízes de uma árvore pegam matéria inerte nas capilaridades, assimilam-na e a transpõem para o estado de matéria viva, passando a circular dentro do fluxo vital da árvore. A matéria morta que passa a ter vida lembra um pouco uma ressurreição. Isto é uma maravilha que ocorre nas raízes de todas as plantas a todo momento.

    Há um fenômeno parecido com esse pelo qual a nobreza suga continuamente da plebe — uma sucção generosa, bondosa, honorífica para a plebe — os elementos aproveitáveis e os eleva, ejetando de si outros que, muitas vezes, se jogam eles mesmos para baixo.

    Nesse sentido, tenho certa reserva contra algumas instituições que, sob o pretexto de manter longevas as famílias, amarram-nas nos seus próprios tronos, de tal maneira que quando elas estão apodrecendo, ainda se mantêm sentadas ali.

    A inalienabilidade de certo bem em determinada família, enquanto o mundo durar, revela o propósito de evitar que ela seja despojada imerecidamente de alguma coisa. Mas denota também a intenção de assegurar aquilo para a família, mesmo quando as mãos débeis dela não forem mais capazes de agarrar e sustentar.

    O Anjo não pode ser promovido para uma categoria superior, nem rebaixado a uma inferior. O homem pode. Se o anjo for um Querubim, sê-lo-á até no Inferno.

    Portanto, é preciso saber entender como se inspirar nisso.

    A esse respeito, poder-se-ia dar a seguinte regra:

    Para nos inspirarmos no mundo angélico, seria preciso ver como isso foi modelado pelo surto de vida natural e sobrenatural do começo da Idade Média até a Revolução Francesa, feitos os descontos da decadência que houve naquele período. Depois procurar ver no que aquilo, sem a intenção de imitar os Anjos, de fato imitava, para assim compreender como esta semelhança pode jogar, e como devemos fazer no Reino de Maria.

    A coisa errada, “ploc-ploc”, seria: vem o Reino de Maria, consultamos nossos especialistas em matéria de Anjos, eles nos dão os esquemas e organizamos uma sociedade. Não é isso! Precisamos ver como o bom impulso natural e sobrenatural vai movendo as coisas. E procurar interpretar esse impulso à luz do exemplo angélico, para em algum ponto retificar, apoiar, fazer o que executa o jardineiro com a planta.

    Ele não faz o plano da planta e puxa o vegetal para ser daquele jeito, mas toma as possibilidades de progresso da planta e a orienta, poda de cá, de lá, leva-a para o lugar onde incide mais sol, enfim, manobra, segundo uma ideia que ele tem da planta, o que há de autêntico e orgânico dentro dela.

    A pulcritude da abstração

    Para isso serve enormemente o estudo dos Anjos, porque, desde que se compreenda em que sentido aquele surto está imitando-os — e que as pessoas tenham consciência de que, deixando-se tocar por esse impulso, elas estão fazendo uma coisa angélica —, o surto fica ainda mais forte e toma mais autenticidade.

    Se, por exemplo, sou professor e percebo que é em virtude de um tal influxo angélico que estou agindo de determinado modo, compreendo como aquilo que surge em mim, como de minhas raízes, é “angeliforme”. Então, sou capaz de dar instintivamente àquilo uma espécie de perfeição que, se eu não soubesse isso, não daria.

    O exemplo dos Anjos faz sobre nós o papel do exemplo do Sol sobre a planta. Não se trata tanto de raciocínio, mas é um “heliotropismo” rumo aos Anjos, estando Deus acima. O Anjo aqui é um hífen para Deus.

    Seria preciso termos teólogos e artistas da sociedade que vai nascendo, capazes, antes de tudo, de senti-la no seu fluxo providencial, natural e sobrenatural. E saber apenas iluminar esse fluxo com o exemplo dos Anjos, e outras coisas tiradas da Teologia.

    Imaginemos uma sociedade que tivesse toda a atenção posta sobre aqueles que são de algum modo os maiorais dela, os Anjos, e sobre o fato de que tudo o que existe na Terra, provavelmente, é reflexo de algo de angélico para depois tocar algo em Deus e ser reflexo d’Ele. Por exemplo, o modo de o homem ver as coisas abstratas, que é o píncaro do pensamento humano por vários lados — e depois contemplar as coisas simbólicas que é também esse píncaro sob diversos aspectos —, levaria o homem a ser capaz de perceber na abstração um “pulchrum”, que é parecido com o “pulchrum” das abstrações do Dionísio.

    Quando ele fala de criaturas espirituais, que nem sequer podemos conceber, e desenvolve toda esta “ordenação com beleza” das coisas espirituais que acabamos de ver, dá-me a impressão de que em muitos dos trechos dele a abstração toca violino.

    O que há de encantador em muitos trechos do Dionísio?

    Ouvindo a leitura deles, várias vezes eu procurava ver se, além de acompanhar o pensamento, poderia apanhar no que estava essa beleza.

    Na pura abstração há certo modo de concatenar as ideias e de ver o “pulchrum” delas, bem como um certo senso do “pulchrum” que se desperta de vez em quando; isso é, penso eu, algo de parecido com o que o homem sentiria se visse um puro espírito. Mas infinitamente ainda mais se visse Deus, porque Deus é absoluto e o absoluto é a personificação de muita coisa que conhecemos como abstrato, visto por certo lado.

    Sentindo o belo da vida interna de Deus

    Outro dia, estávamos numa das nossas sedes em que se entoou o Credo. Em determinado momento cantou-se “Deum de Deo, lumen de lumine, Deum verum de Deo vero, genitum non factum, consubstantiálem Patri”(2). Nós todos já ouvimos isso mil vezes, mas no momento em que foi cantado me pareceu sentir o belo desta vida interna de Deus, por onde Ele toca e não é tocado, e tudo se passa sem que Ele decaia ao tocar nas coisas.

    Não podemos dizer que Deus seja uma abstração, mas nossa noção sobre Deus tem algo do abstrato, porque não corresponde a nenhuma imagem do sensível. Mas foi um momento em que de repente apareceu a beleza disso.

    Se tivéssemos o espírito inteiramente adestrado, seríamos capazes de ver nas abstrações todo o belo musical delas, que daria ao homem uma fome e uma sede de abstração, que tenho a impressão de que os povos do Oriente possuíam.

    De onde vinha exatamente o fato de eles se interessarem tanto pela manutenção da ortodoxia contra essa ou aquela heresia; e depois torcerem pela propagação dessa ou daquela heresia contra a ortodoxia, como alguém hoje poderia torcer por uma partida de futebol. A meu ver, porque eles pegavam isso e a mudança de qualquer matiz os tocava a fundo. Eram povos que estavam numa clave muito superior à nossa.

    E acrescento: só as almas capazes de verem isto assim compreendem o píncaro de uma cultura, de uma nação. Não digo que um aristocrata precisa ter necessariamente esta visão de espírito, mas afirmo que se não houver gente como estou dizendo para tocar esse fogo sagrado na mente do aristocrata, não teremos aristocracia.

    Se tivéssemos isso bem organizado e posto no espírito, compreenderíamos muito melhor algo da luz primordial(3) e até do senso do ser de cada um de nós, que fica preso no porão de nossa própria personalidade, como uma mercadoria no porão do navio, e que levamos do berço até a sepultura sem nunca desembalar esse tesouro, para fazê-lo tomar ar e procurar, enfim, adornar-se com ele.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 26/4/1984)

     

    1) Expressão onomatopeica criada por Dr. Plinio para designar o defeito de certas pessoas que, desprovidas de intuição e bom senso, querem explicar tudo por meio de raciocínios desenvolvidos de modo lento e pesado, à maneira de um paralelepípedo que, ao ser girado sobre o solo, emite o ruído “ploc-ploc”.

    2) Trecho, em latim, do Credo Niceno-Constantinopolitano: “Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai”.

    3) Termo cunhado por Dr. Plinio para significar a aspiração existente na alma de cada pessoa, ou num povo, para contemplar a Deus de um modo peculiar, refletindo d’Ele determinada perfeição. Ver Dr. Plinio, n. 54, p. 4.

  • Nossa Senhora das dores e o amor à incomodidade

    Apresentamos aos leitores um comentário de Dr. Plinio acerca de um trecho de D. Guéranger, abade beneditino de Solesmes, a propósito da festa das Sete Dores de Nossa Senhora. Assim se denominava então a comemoração do 15 de setembro, que hoje se chama “Nossa Senhora das Dores”.

    D. Guéranger mostra como Deus envia sofrimentos àqueles a quem ama, e como entre todas as  almas, depois da de Jesus Cristo, a mais amada por Deus foi a de Maria Santíssima, sujeita aos mais indizíveis padecimentos. Referindo-se às Sete Dores de Nossa Senhora, explica D. Guéranger que a Igreja se deteve no número sete pelo fato de este exprimir sempre a ideia de totalidade e universalidade, ou seja, todas as dores.

     

    Hoje é festa das Sete Dores de Nossa Senhora, colocada com muita propriedade logo depois da festa da Exaltação da Santa Cruz. Essa festa mariana foi estendida a toda a Igreja por Pio VIII, em agradecimento pela intercessão da Santíssima Virgem na libertação de Pio VII.

    A principal prova do amor que Deus tem por nós são os sofrimentos que nos envia São tantos os pensamentos que nos vêm a propósito do texto de D. Guéranger, que seríamos tentados a desenvolver excessivamente estas palavras. Parece-me entretanto oportuno concentrarmo-nos somente em duas idéias.

    A primeira delas é esta: que Deus, tendo amado com amor infinito ao seu Verbo Encarnado, a Nosso Senhor Jesus Cristo, e tendo amado com amor inferior a este, mas superior a todos os outros amores, a Nossa Senhora, deu-lhes tudo quanto há de bom. E por isso, deu-lhes também aquela imensidade de cruzes que, no caso de Nossa Senhora, é representada pelo número sete. Sete dores é também o símbolo de todas as dores. E Nossa Senhora poderia ser  chamada perfeitamente Nossa Senhora de Todas as Dores.

    Por causa disso, se é verdade que todas as gerações a chamarão Bem-Aventurada, a um título menor, mas imensamente real, todas as gerações poderão também chamá-la “infeliz”.

    Se isso é assim, nós deveríamos compreender melhor que quando a dor entra em nossa vida, estamos recebendo uma prova do amor que Deus tem por nós. E que enquanto a dor não penetrar em nossa existência, nós não temos todas as provas desse amor de Deus. E eu acrescentaria que não temos a principal prova do amor de Deus para conosco.

    O que isto significa? Há membros de nossa família de almas para cujas fisionomias eu olho e, depois de analisá-las, sou levado a pensar: a este, falta-lhe ainda sofrer, falta no fundo uma nota de maturidade, uma nota de estabilidade, uma nota de racionalidade, uma elevação que só tem aquele que sofreu, e que sofreu muito. Quem leva uma vida sem sofrimentos, leva uma vida em que essas notas não transparecem na fisionomia. E o que é muito pior: não transparecem na alma.

    Nós devemos nos convencer de que isso é assim, ou seja que sofrer é um dom de Deus. E que quando começam acontecer os contratempos — as dificuldades com o apostolado, os mal-entendidos  com os amigos ou com nossos superiores, a saúde que anda mal, os negócios que dão errado, as encrencas dentro de casa — não devemos tomar tudo isso como um bicho de sete cabeças. Nós não devemos, imitando a mentalidade holywoodiana, exclamar impacientes: “Como foi que uma coisa dessas pôde acontecer?”

    Não, essa não deve ser nossa atitude! Quando não sofremos, aí então é que devemos nos perguntar perplexos: “Como é que está acontecendo isto: eu não estou sofrendo nada!?” Pois o normal é  sofrer. Aquele a quem Deus ama, aquele a quem Nossa Senhora ama, esse sofre! Deus não pode recusar a um filho a quem ama aquilo que Ele deu em abundância aos dois entes que mais amou, que são Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora.

    Devemos pois nos imbuir bem da ideia de que o normal na vida é sofrer. Sem dúvida devemos pedir à Providência que nos livre das privações, das provações, das crises nervosas e de toda espécie  de coisas penosas, mas se estiver nos planos da Providência que sejamos submetidos à prova, devemos bendizer a Deus, bendizer a Nossa Senhora por estar sofrendo.

    São Luís Grignion chega a dizer que quem não sofre deveria fazer peregrinações e orações pedindo o sofrimento, embora ele condicione tal pedido à aprovação de um diretor espiritual, porque se trata de uma súplica muito séria. Mas ele diz isso porque sabe que quem não sofre não vai indo tão bem na vida espiritual quanto poderia ir, e às vezes vai indo inteiramente mal.

    Todos aqueles que querem seguir a Nosso Senhor são incômodos

    Bossuet tem uma expressão estupenda a respeito de Nosso Senhor Menino: “Aquele Menino incômodo”, que se aplica a todos aqueles que querem seguir a Nosso Senhor: são incômodos eles também.. Às vezes, tenho a seguinte sensação experimental: começo a dar um conselho, a dar um exemplo, a pedir um sacrifício, e no semblante do interlocutor vai aparecendo algo que revela serem incômodas as minhas palavras para ele. Como seria mais fácil para mim contar uma piada, fazer uma brincadeira, acabar a conversa com um tapinha nas costas e dispensar o outro de uma  obrigação! Como o mando seria agradável se fosse isso!

    Mas mandar é o contrário. Mandar é estar exigindo que o subordinado tome as coisas a sério, que as olhe pelo seu lado mais profundo, mais alto e mais sublime. Que veja de frente sua própria alma, que se examine a si mesmo detidamente, procure corrigir efetivamente e seriamente seus defeitos. Mas como isso é incômodo! Pois bem, o peso de sermos incômodos é um dos maiores pesos que existe e também este nós devemos carregar.

    Nossa Senhora teve um filho que lhe trouxe tantos divinos incômodos. Quando meditamos sobre a dor d’Ela, sobre a seriedade e a sublimidade da existência d’Ela e de nossa própria existência, Nossa Senhora das Dores também se torna para nós maternal e estupendamente incômoda.

    A resignação alegre diante dessa incomodidade, a coragem de sermos incômodos em todas as circunstâncias, o amar de preferência aos nossos amigos incômodos, que nos lembram oportuna ou importunamente o dever: essas são as virtudes que no dia das Sete Dores de Nossa Senhora devemos pedir a Ela.

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • A Cruz permanece de pé

    O obelisco encimado por uma cruz, colocado na Praça de São Pedro, nos evoca o lema dos cartuxos: “Stat Crux dum volvitur orbis” – Enquanto o mundo gira, a Cruz permanece de pé. O universo inteiro pode ser sacolejado, porém nada destruirá a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Ela tem a promessa da indefectibilidade, da indestrutibilidade.

     

    Na Criação existem seres de uma grande durabilidade que nos falam da eternidade de Deus, o único Ser absoluto, perfeito e eterno, em função do qual e para Quem tudo existe. Essas criaturas muito duráveis falam-nos do Criador pela sua imutabilidade e aparente ou relativa indestrutibilidade.

    Símbolo da eternidade de Deus

    Por sua natureza pétrea e sua integridade, o obelisco é um exemplo adequado das coisas duráveis, que nada destrói.

    Nesse sentido, pareceu-me de muito bom gosto terem colocado no centro da Praça de São Pedro um obelisco encimado por uma cruz, que nos evoca o lema dos cartuxos: “Stat Crux dum volvitur orbis” – Enquanto o mundo gira, a Cruz permanece de pé. Quer dizer, não há quem mude, quem derrube, quem abata a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ela é sempre a mesma, contra ventos e tempestades.

    Esse monumento monolítico enorme, com forma de agulha, encontrava-se originariamente no Egito, onde os faraós mandavam erigir grandes pedras com inscrições, contando fatos do reinado deles ou coisas do gênero, que eles queriam comunicar à posteridade.

    O pagão que mandou esculpir aquele obelisco não imaginava estar esculpindo um símbolo da eternidade de um Deus que ele não conhecia, e da indestrutibilidade de uma Igreja que ainda não tinha nascido.

    Uma “desobediência” heroica

    Na época em que esse obelisco foi transladado ao seu atual lugar, no século XVI, não havia os meios mecânicos que temos hoje, e a suspensão era feita através de um sistema de cordas, complicadíssimo, amarrando a pedra de vários lados, de maneira a ser puxada ao mesmo tempo por várias forças.

    Para não haver desordem e evitar acidentes existia uma ordem do Papa, que era o Rei de Roma naquele tempo, condenando à morte quem falasse. Era preciso que tudo fosse feito no maior silêncio, de maneira a só se ouvir, na imensidade da praça, a voz dos mestres e contramestres.

    Os homens foram levantando a pedra e, em certo momento, um dos operários, o qual era um experiente marinheiro, percebeu que a corda segurada por ele estava tão quente, pela pressão exercida, que iria se incendiar. Se o fogo se ateasse, o obelisco cairia e mataria muitos dos circunstantes.

    Esse homem, com o risco da própria vida, resolveu atrair sobre si a pena de morte, pedindo para trazerem água. Então ele gritou: “Acqua alle funi!”(1)

    Trouxeram depressa água para o operário e, tendo ele apontado o lugar, este foi regado, salvando-se com isso a pirâmide de cordas, e o obelisco pôde ser erguido.

    Terminado o trabalho, houve um decreto do Papa Sisto V recompensando com honrarias o Capitão Benedetto Bresca, contratado para a ereção daquele obelisco, pelo ato de heroísmo praticado: enfrentou a morte, desobedecendo à ordem papal. Evidentemente, aquela ordem deveria ser desobedecida, caso contrário seria a ruína da obra.

    A obra onde está autenticamente a Cruz é inatingível

    Com que olhos deve-se olhar para esse obelisco egípcio, no centro da Praça de São Pedro?

    A meu ver, com aplauso, porque de si é uma coisa bonita. Em primeiro lugar, um monólito como aquele é uma obra-prima da natureza e do engenho humano. Mas também o símbolo que está posto ali é muito bonito.

    O Egito foi a mais gloriosa das nações antigas. Colocar o obelisco no centro da praça, encimado por uma cruz simbolizando o triunfo da Igreja sobre toda a sabedoria pagã antiga, evidentemente é belo e bom, pois indica a perenidade da Esposa de Cristo no movediço de todas as circunstâncias humanas.

    O universo inteiro pode ser sacolejado, porém nada destruirá a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Ela tem a promessa da indefectibilidade, da indestrutibilidade.

    É também a presença da verdadeira Cruz em uma obra que assegura a sua inatingibilidade. O cosmo inteiro pode abalar-se de todas as formas; onde, de modo autêntico, está a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora, ninguém e nada atingem.

     

    Plini0 Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 1/9/1973 e 8/8/1979)

     

    1) Do italiano: Água para as cordas!