Autor: Nelson

  • Santo Abraão – Franqueza e métodos diretos

    Sabendo sempre jogar a cartada franca na hora certa, apesar de passar por diversos dissabores, Santo Abraão conseguiu converter uma cidade pagã destruindo todos os ídolos ali existentes. Que Maria Santíssima faça chegar logo o dia em que o ídolo da Revolução possa ser derrubado por nós. Mesmo que sejamos lapidados, Nossa Senhora nos restaurará para fazermos as obras que Ela deseja.

     

    Chegaram ao meu conhecimento alguns dados sobre a interessante vida de um Santo do século IV chamado Abraão, que evidentemente não deve ser confundido com Abraão, patriarca do povo de Israel.

    Durante a festa de casamento, foge para uma gruta

    Ele era da cidade de Edessa, nascido de uma família nobre e rica. Quando os pais, que deitavam muita esperança em seu futuro, viram-no ficar moço, deliberaram casá-lo com uma moça igualmente nobre e rica para o realce da família. Na realidade, ele não tinha vontade de se casar e fez muitas insistências neste sentido, mas a família exerceu tão grande pressão que ele, cedendo, contraiu o casamento.

    As bodas se deram em meio a grandes pompas e festividades, as quais, à maneira oriental, duraram uma semana inteira e deveriam culminar com uma grande festa no último dia, depois da qual começava a vida conjugal entre os nubentes.

    Eles já estavam casados no religioso, e naquele tempo o casamento religioso produzia os efeitos civis com todos os vínculos estabelecidos.

    Após cada dia de festa ele ficava mais contrariado com o rumo que tinha tomado, até que fugiu de casa discretamente, indo localizar-se num lugar completamente ermo, mais ou menos a duas milhas de distância de sua cidade.

    Então os pais, a esposa e toda sua família começaram a procurá-lo por todos os lados. Foram primeiro aos lugares de prazer; não o encontrando, procuraram-no nos locais de trabalho, principalmente no Fórum, que naquele tempo não era como hoje, ou seja, um lugar onde se distribui a justiça, mas uma espécie de imensa praça pública na qual se tratavam os negócios, havia mercado, faziam compras e vendas, era o centro da vida da cidade. Entretanto, ali também ele não estava. Então, ordenaram uma busca sistemática nos arredores da cidade e, afinal de contas, encontraram-no numa gruta que ele mesmo tinha murado do lado de dentro, de maneira a deixar apenas um pequeno quadrilátero por onde passar pão e água.

    Os parentes o descobriram lá, interpelaram-no e ele explicou ter se casado contra a própria vontade, e que o matrimônio, não tendo sido consumado, fora nulo. Como Abraão insistia que não queria saber do casamento, a moça teve que desistir, e ele ficou na gruta. É um bonito exemplo de homem que se subtrai à ação do contexto.

    Ordenado sacerdote

    Nessa gruta ele permaneceu durante muitos anos e ali recebeu a notícia de que seus pais tinham morrido deixando-lhe uma imensa fortuna, da qual ele podia dispor. Porém, ele não queria essas riquezas, porque dentro do isolamento em que vivia bastavam-lhe um manto, uma túnica e um recipiente de barro no qual recolhia a água que corria na própria gruta onde morava. Entretanto, sendo precavido, constituiu um parente seu como procurador para administrar a fortuna. Deu ordem para distribuir a metade para os pobres, e não indicou o que devia ser feito com o resto.

    Continuou a viver durante muitos anos na gruta e tornou-se um homem muito admirado pelo povo que, de vez em quando, ia lá para visitá-lo.

    Certo dia apareceu o bispo diocesano querendo falar com ele. Abraão, muito humilde, declarou ao prelado que não podia compreender como um homem de tal categoria dignava-se ir ter com ele, um simples eremita que vivia na sua gruta, isolado.

    O bispo disse ter um assunto muito grave para tratar com ele. Toda aquela zona já estava convertida, com exceção de uma cidade de bom tamanho e importante que havia nas proximidades, a qual ainda era completamente pagã, rejeitava e matava todos os sacerdotes que iam se estabelecer lá. Não sabendo mais o que fazer, pareceu conveniente ao prelado conferir a ordenação sacerdotal ao eremita Abraão, que gozava de tal fama de santidade, e convidá-lo a se transferir para a cidade, onde seria vigário, assumindo a responsabilidade pelo culto.

    O eremita, pelas instâncias do bispo, percebeu que era vontade de Deus e concordou em deixar sua ermida para ser ordenado sacerdote, dirigindo-se depois para a cidade, onde assumiu corajosamente a função de vigário.

    Os pagãos o lapidaram, deixando-o quase morto

    Entrou sozinho e ignorado na cidade hostil. Ali chegando, ajoelhou-se no chão diante do povo, e pediu a Deus que convertesse aquela cidade. As pessoas, andando de um lado para outro, não ligaram para ele.

    Santo Abraão estudou uma técnica de apostolado que lhe parecia mais própria a trazer a si os infiéis. Havia na cidade um templo pagão que passava toda a noite aberto. Quando anoiteceu, o santo sacerdote entrou com cuidado numa hora em que não havia ninguém, pegou todos os ídolos, jogou-os no chão reduzindo-os a cacos, varreu e levou tudo embora. No dia seguinte, ao raiar da aurora, ele ficou esperando o resultado.

    Logo de manhã, os primeiros que foram adorar os ídolos não os encontraram e notaram, por alguns sinais, que tinham sido quebrados. Percebendo ter sido o padre quem se ocupara disso, foram até ele e o lapidaram, deixando-o quase morto.

    Pelo fim do dia, Santo Abraão restabeleceu-se um pouco e, com os restos de voz e de saúde que ainda conservava, começou a increpar o povo contra os ídolos e a exortá-lo à conversão. Contudo, os infiéis não se converteram. Pelo contrário, indignaram-se, deram-lhe uma sova vigorosa, e o maltrataram fortemente.

    Santo Abraão, que gostava das táticas diretas, dirigiu-se então a Deus, dizendo: “Meu Deus, Vós me fizestes nomear vigário nesta cidade, e eu apanho todos os dias… Que solução há para este caso?! Dai-me saúde!”

    A oração de um Santo move montanhas. Ele rezou por si mesmo, levantou-se em perfeito estado de saúde e começou a pregar. A população da cidade ficou meio impressionada com o milagre, mas não se converteu.

    Cumprida a missão, regressa para a gruta

    Em certo momento, eles tiveram um caso muito complicado de interesse comum e não havia meio de solucionar. Um deles disse: “Olha, quem deve saber resolver esse assunto é o padre. Ele é inteligente e, ademais, precisamos reconhecer que desde quando está entre nós não tem feito senão dar exemplos muito bons, ajudar todo mundo que ele pode e distribuir esmolas. Os nossos ídolos, afinal de contas, o que eram? Ele os quebrou e não se salvaram a si próprios. O padre, entretanto, curou a si mesmo. Por que havemos de estar ainda acreditando nesses ídolos? Não tem propósito nossa conduta com ele; devemos procurá-lo e começar por pedir-lhe perdão de nosso mau procedimento, e então rogar um conselho para resolver a situação dentro da qual nos encontramos.”

    Assim, foram todos a Santo Abraão que os recebeu muito benignamente. Evidentemente, quando resolveram procurá-lo já estavam abalados na sua infidelidade e propensos a uma conversão. Durante a conversa declaram que queriam converter-se. Começou, então, o trabalho enorme da conversão da cidade: batizar, orientar todas as pessoas, até a população inteira mudar. Nessa ocasião, Santo Abraão aproveitou o dinheiro que ele tinha com o primo para mandar construir uma igreja na cidade. Vemos como tudo é feito com método, direito.

    Construída a igreja, todos estariam no direito de esperar que as coisas continuassem bem. O vigário orientaria o povo, tudo correria perfeitamente. Entretanto, numa bela manhã vão procurá-lo, mas ele não estava na igreja. Tinha fugido mais uma vez… Assim como fugira da esposa, ele fugiu também da paróquia e voltou para a gruta.

    Para lá se dirigiu o bispo, acompanhado de uma grande parte do clero, a fim de pedir ao santo eremita que reassumisse as funções de vigário. Porém, este declarou que a missão que recebera do prelado estava cumprida, pois a cidade se convertera. Agora, ele pedia o consentimento do bispo para permanecer como eremita na gruta; ao que o prelado acedeu.

    Educa uma sobrinha, que depois caiu numa vida devassa

    Depois de algum tempo, ele recebe um emissário da cidade contando-lhe que seu irmão tinha morrido, deixando uma grande fortuna, cuja herdeira universal era uma menina, a respeito da qual o falecido deixara a recomendação de que fosse educada pelo santo eremita.

    Santo Abraão considerou ter responsabilidade para com essa menina e, portanto, era obrigado a fazer alguma coisa por ela. Sendo, até o fim da vida, amigo dos processos diretos, ele disse: “Pois bem, mandem vir a menina que eu a educo.”

    Chegada a sobrinha, ele mandou murar outra parte da gruta, mantendo um orifício na parede pelo qual, em certas horas do dia, ele ensinava para ela tudo quanto uma menina daquele tempo precisava saber.

    Passaram-se os anos, e a menina correspondia bem à educação recebida. Entretanto, uma circunstância qualquer a levou a decair na vida espiritual e dizer a ele que queria sair. Por fim, ela acabou fugindo para a cidade.

    Como a jovem já estivesse em sua maioridade, Santo Abraão considerou que não tinha mais nada a fazer. Porém, começou a receber notícias de que a sobrinha vivia em condições miseráveis, e caíra moralmente tão baixo que estava praticamente perdida.

    Então ele considerou que era desígnio da Providência tomar outra atitude enérgica, audaciosa, um tanto surpreendente, dessas atitudes que os santos adotam, e a respeito das quais a Igreja diz que se deve admirar, mas não imitar. Atitudes que, de si, intrinsecamente falando, não são pecados, mas podem constituir ocasião próxima de pecado, à qual ninguém pode se expor, a menos que movido por uma ação da graça. Nesta hipótese, então, com garantias e auxílios sobrenaturais especiais, a pessoa vai enfrentar aquela ocasião. Mas é muito delicado, só mesmo quando ela tem certeza de estar sustentada por uma graça especial pode expor-se a isso.

    Santo Abraão mandou vir a indumentária de um soldado e, apesar de estar velho, foi à cidade e entrou no estabelecimento onde a sobrinha levava uma vida devassa. Ela estava oferecendo um banquete, e a certa altura apareceu vestida com um luxo indecente, imoral, e não reconheceu o tio. A conversa seguia o seu curso, mas como ele era um homem muito inteligente e dotado, ela achou graça na prosa dele. As outras pessoas presentes foram, aos poucos, pelo movimento natural das coisas, afastando-se e deixando os dois conversando sozinhos.

    Quando os dois estavam a sós, ele tirou o elmo de soldado e disse:

    — Minha sobrinha, você me reconhece?

    Ela teve um choque, caiu de joelhos, baixou os olhos e disse:

    — Eu não ouso olhar-vos.

    — Por quê?

    — Porque sinto que caí num pecado muito profundo e que não sou digna de vossa presença.

    — Largue tudo isso e vamos para a gruta!

    Ela se levantou, ficou em pé durante algum tempo hesitando, e ele continuou:

    — Deixe todos esses trapos com que você está vestida, tome uma roupa simples e fuja comigo.

    Como se vê, ele era especialista em fugas para o Céu!

    A sobrinha concordou e disse:

    — Mas o que vou fazer desses trajes preciosos?

    — Pouco importa, deixe-os abandonados. Salve a sua alma!

    Sucesso da ação direta, franca, clara e positiva

    Ela voltou para a gruta com ele, fez penitência a vida inteira. Ele ainda ficou até o fim da vida com ela na gruta, e assim terminou a história dos dois. Não sei se ela foi canonizada. Ele é venerado pela Igreja com o nome de Santo Abraão.

    É uma linda vida que nos situa num ambiente de franqueza e retidão, onde o povo, por mais degradado que estivesse, suportava as verdades e os métodos diretos.

    Esses pagãos indecentes eram assassinos horrorosos, pois só faltou matarem o padre. Se não fosse o milagre que ele fez, restaurando por ação sobrenatural a sua própria saúde, seu apostolado teria cessado. No afã de fazer apostolado, ele quebrou os ídolos, enfrentou aquela gente, mas alcançou o objetivo que tinha em vista. Ele padeceu por amor à verdade, mas foi direto ao ponto. Resultado: converteu as pessoas.

    Isso feito, vemos o desapego dele. Tendo convertido aquela gente, Santo Abraão poderia ter levado uma vida tranquila, dormindo sobre os louros conquistados. Porém, estando a obra acabada e consolidada, ele foi embora. De fato, a Fé ficou estabelecida no lugar, foi possível implantar um clero, uma religiosidade normal. Então, ele fugiu porque fizera tudo para a glória de Deus e de Nossa Senhora.

    Tendo voltado para sua gruta, de lá saiu novamente para salvar a sobrinha, mas por um método direto também.

    Notamos como ele, jogando sempre a cartada franca na hora certa, passou por dissabores que um poltrão qualificaria de insucessos, mas uma pessoa que considera o todo de sua vida não pode deixar de reconhecer como sucessos admiráveis. Santo Abraão morreu admiravelmente bem sucedido. É o sucesso da ação direta, franca, clara e positiva.

    Peçamos a Maria Santíssima que faça chegar o dia em que também o ídolo da Revolução possa ser derrubado por nós com igual franqueza. É possível que sejamos lapidados, mas saberemos exercer o direito de legítima defesa. Nossa Senhora nos restaurará para fazermos por Ela as obras que Ela deseja.             v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 27/12/1974)
    Revista Dr Plinio 259 (Outubro de 2019)

  • Uma devoção de luta

    O Rosário confere à meditação da vida de Nosso Senhor a nota marial por excelência, tendo por detrás a grande verdade de Fé a qual devemos anelar, do fundo de nossa alma, que se torne um dogma: a Mediação Universal de Maria.

     

    Dada a grandeza da festa do Santo Rosário, é importante dizermos uma palavra sobre esta devoção que consiste na meditação dos mistérios gaudiosos, dolorosos e gloriosos da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo feita em três terços, cada qual com cinco mistérios.

    A pessoa verdadeiramente piedosa reza pelo menos um terço por dia

    Sem dúvida, é magnífico meditar a respeito dos mistérios da vida de Nosso Senhor. Ademais, os mistérios ali apontados, naquela enumeração, embora não sejam os únicos, estão muito bem concatenados e expostos, e podemos facilmente compreender o proveito que as almas têm com essa meditação.

    Entretanto, devemos reconhecer que outros métodos de meditação dos mistérios da vida de Nosso Senhor existem na Igreja. Nós temos, por exemplo, a meditação feita segundo os Exercícios Espirituais de Santo Inácio. Essa técnica inaciana pode aplicar-se a cada um dos mistérios do Rosário. Existe outra devoção que medita os mistérios dolorosos magnificamente: a Via-Sacra.

    Portanto, embora seja o Rosário uma devoção muito importante, considerado na sua última coerência ele não é senão uma outra apresentação de estilos de meditação e atos de piedade que a Santa Igreja, no seu empenho materno, multiplica de várias formas.

    E, por causa disso, fica sem uma explicação muito clara a seguinte questão: Por que todos os inimigos da Igreja detestam tanto o Rosário? Detestam-no e combatem-no mais do que todas as devoções congêneres. Por que também, de outro lado, o Rosário é objeto de uma predileção especial dos verdadeiros filhos de Nossa Senhora e da Igreja, de maneira que tenham eles um grande apreço, não só ao método, mas a alguns imponderáveis ligados ao próprio objeto de piedade usado continuamente como uma espécie de garantia de bênção, de favor de Nossa Senhora, a ponto de, por exemplo, não se conceber uma pessoa verdadeiramente piedosa que não tenha sempre consigo seu terço e que não reze pelo menos um terço por dia? E não se concebe um membro do nosso Movimento que não reze o Santo Rosário, isto é, os três terços todos os dias; ou que, não o podendo fazer por justas razões, não tenha por isso um grande pesar e uma viva esperança de retornar a rezar o Rosário.

    Uma das belezas da Igreja Católica

    São numerosas as Ordens Religiosas que usam o Rosário como elemento integrante de seu hábito. É generalizado o costume de enterrar os defuntos com um Rosário entrelaçado nas mãos. Ou seja, para esperar a ressurreição dos mortos, o verdadeiro católico não se contenta em ir para a sepultura com um crucifixo, mas vai também com o Santo Rosário. As indulgências com as quais os Papas cobriram o Rosário são sem-número. A invocação de Nossa Senhora do Rosário é generalizadíssima: catedrais, dioceses, famílias religiosas, pessoas usando o nome “Rosário” em várias nações.

    De todos os lados o Rosário goza de uma influência, de uma aceitação da parte dos bons comparável apenas ao ódio que experimenta da parte dos maus. Há vários fatos que narram como o demônio, procurando atormentar esta ou aquela alma, recua quando a pessoa atormentada acena para ele com o Rosário. Todo mundo que tem mau espírito odeia o Rosário, subestima-o ou diretamente o combate. Por exemplo, os jansenistas o odiavam, os protestantes o odeiam.

    Poderíamos, então, nos perguntar a razão dessa glória tão especial do Rosário para a qual, afinal de contas, não encontramos um fundamento quando analisamos a última substância do Rosário, que é a meditação dos mistérios da vida e Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Parece-me que, de início, devemos reconhecer ser esta uma das belezas da Igreja Católica. Sendo ela enormemente precisa no seu pensamento teológico, é, entretanto, cheia de imponderáveis, os quais, por alguns aspectos, constituem o suco da devoção.

    Mediação Universal de Maria Santíssima

    Tomemos como exemplo a devoção admirável da Via-Sacra. Nela se encontra algo da ternura de São Francisco de Assis, e seus imponderáveis convidam a uma meditação enternecida, comovida da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua morte sacratíssima, de um modo especial. Há um espírito que flutua em torno da Via-Sacra que constitui, talvez, o melhor de sua eficácia. É uma graça específica ligada a essa forma de devoção.

    Também os Exercícios Espirituais de Santo Inácio são um modo não propriamente de devoção, mas de meditação que traz consigo uma graça especial de lógica, de energia, de honestidade de consciência e de generosidade ao pôr-se o fiel diante dos problemas relacionados com sua salvação eterna.

    No Rosário, a grande fonte de inspiração de nossa meditação e o alvo imediato de nossa oração é a Santíssima Virgem. A meu ver, é por causa dessa focalização muito especial de Nossa Senhora que o Rosário constitui a devoção marial por excelência, tendo por detrás a grande verdade de Fé que devemos anelar do fundo de nossa alma que se torne um dogma: a Mediação Universal de Maria.

    O sistema de rezar o Rosário apelando para Nossa Senhora em tudo, rezando Ave-Marias enquanto se considera algum episódio, ora relacionando a oração com aquele fato, ora concentrando o principal da atenção no mistério, ora na Ave-Maria, em todo caso, sempre numa união contínua com Nossa Senhora, eis o caráter marial que, a meu ver, constitui o suco do Rosário, pois esta devoção não teria sentido se a Mediação Universal de Maria não fosse verdadeira.

    Por representar um prelúdio de toda a teologia de São Luís Maria Grignion de Montfort, da verdade de Fé referente à Mediação Universal, o Rosário é tão odiado pelo demônio. E é por causa desse imponderável que nós nos devemos agarrar muito ao Rosário.

    Em suma, por causa da nota marial que o Rosário confere à meditação da vida de Nosso Senhor, é um sinal de predileção de Nossa Senhora o fato de alguém ter uma devoção especial ao Santo Rosário. Também é um sinal de que Ela ama alguém o fato de, através do Rosário, levar a alma a amar uma posição que só se justifica em face da Mediação Universal. Portanto, o Rosário é o verdadeiro símbolo da devoção do fiel a Nossa Senhora, daquele que quer pertencer a Ela plenamente.

    Que Nossa Senhora faça de nós lutadores inteiramente d’Ela

    Isso se confirma pelo ódio do demônio e dos maus a essa devoção. Por vezes eles são mais perspicazes do que os bons; e quando odeiam muito algo, nós já podemos ter a certeza de que aquilo é muito bom.

    A razão pela qual, ao decorarmos nossa sede principal, colocamos na porta da capela um Rosário pendente de uma espada, é para chamar a atenção para duas verdades ou dois pensamentos que devem marcar quem ali entra: antes de tudo, a fidelidade ao Rosário e, através dele, a essa devoção omnímoda a Nossa Senhora, que é, afinal de contas, a da Mediação Universal. Depois, a espada que nos lembra o espírito de luta.

    Não é por mero enfeite que aquilo está lá, mas foi colocado de propósito, daquele jeito, para chamar a atenção daqueles que entram e marcar como um prefácio, preparando por uma espécie de golpe na mentalidade de quem entra o espírito com o qual deve-se estar dentro daquela capela. Esse simbolismo é um estímulo contínuo que nós quereríamos dar para que, cada vez mais, praticássemos a devoção ao Santo Rosário.

    Fica, então, este pensamento para nos lembrar de que o Rosário é uma devoção de luta e nós estamos numa época de batalhas. Peçamos, pois, a Nossa Senhora que faça de nós autênticos lutadores inteiramente d’Ela. Não conheço melhor pedido para ser feito através do Santo Rosário. v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 6/10/1966)
    Revista Dr Plinio 259 (Outubro de 2019)

  • Razão de nossa serenidade

    Mãe incomparavelmente perfeita entre todas as mães, Nossa Senhora nos conhece, ama e quer bem com discernimento, bondade, paciência e carinho de uma intensidade extraordinária. Alcança-nos tudo o que nos convém e lhe pedimos confiantemente. Está disposta a nos obter o perdão de seu Divino Filho, mesmo para nossas piores faltas; alcança-nos as graças necessárias para nossa emenda, nossa salvação e, assim, brilharmos diante d’Ela por toda a eternidade. É a misericórdia dessa Mãe de perfeição incalculável.

    Por isso mesmo, é Ela a razão de nossa serenidade. Não temos motivo para estarmos perturbados nem agitados, posto termos uma Mãe celeste que se compadece de nós e nos acompanha a todo instante com sua insondável solicitude. Devemos permanecer sempre tranquilos: nossa Mãe vela por nós.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • Prece à Padroeira do Brasil

    Ó Senhora Aparecida, a hora é de aflição! Melhor do que qualquer  brasileiro, o sabeis Vós, que sois Mãe de todos eles. Crise sócio-econômica, crise moral, mais grave que tudo, crise religiosa! O que num país fica fora da crise, quando ela se instalou em todos esses domínios?

    Sem embargo de toda essa crise, vamos transpondo gloriosamente um marco histórico. Pois estamos entrando no rol das nações que, por sua importância, determinam o rumo dos acontecimentos presentes e têm em suas mãos os fios com que se tece o futuro dos povos.

    Neste momento de apreensões e esperanças de glória, ó Senhora, vimos agradecer-Vos os benefícios que, Medianeira sempre ouvida, nos obtivestes de Deus onipotente. Agradecemo-Vos o território de dimensões continentais, e as riquezas que nele pusestes.

    Agradecemo-Vos a unidade do povo, cuja variegada composição racial tão bem se fundiu no grande caudal étnico de origem lusa — e cujo ambiente cultural, inspirado pelo gênio latino, tão bem assimilou as contribuições trazidas por habitantes de todas as latitudes.

    Agradecemo-Vos a Fé católica, com a qual fomos galardoados desde o momento bendito da Primeira Missa. Agradecemo-Vos nossa História, serena e harmoniosa, tão mais cheia de cultura, de preces e de trabalho, do que de desavenças e de guerras. Agradecemo-Vos nossas guerras justas, iluminadas sempre pela auréola da vitória. Agradecemo-Vos nosso presente, tão cheio de esperanças, sem embargo das crises que nos assolam.

    Agradecemo-Vos as nações deste Continente, que nos destes por vizinhas e que, irmanadas conosco na Fé e na raça, na tradição e nas esperanças do porvir, percorrem ao nosso lado, numa convivência sempre mais íntima, o mesmo caminho de apreensões e de ascensão.

    Agradecemo-Vos nossa índole pacífica e desinteressada, que nos inclina a compreender que a primeira missão dos grandes é servir, e que nossa grandeza, que desponta, nos foi dada não só para nosso bem, mas para o de todos. Agradecemo-Vos o nos terdes feito chegar a este estágio de nossa História, no momento em que pelo mundo sopram tempestades, se acumulam problemas, terríveis opções espreitam, a cada passo, os indivíduos e os povos. Pois esta é, para nós, a hora de servir ao mundo, realizando a missão cristã das nações jovens deste hemisfério, chamadas a fazer  brilhar, aos olhos do mundo, a verdadeira luz que as trevas jamais conseguirão apagar.

    * * *

    Nossa oração, Senhora, não é, entretanto, a do fariseu orgulhoso e desleal, lembrado de suas qualidades, mas esquecido de suas faltas.

    Pecamos. Em muitos aspectos, nosso Brasil de hoje não é o País profundamente cristão com que sonharam Nóbrega e Anchieta. Na vida pública como na dos indivíduos, terríveis germes de deterioração se fazem notar, que mantêm em sobressalto todos os espíritos lúcidos e vigilantes.

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • A luta, uma das glórias de Maria

    Concebida sem pecado original, Nossa Senhora esmagou e esmagará para todo o sempre a cabeça da maldita serpente. Agindo assim, Ela acrescenta às suas extraordinárias e singulares prerrogativas a glória da luta. Ela combateu, opôs um esforço a outro, despendeu todas as energias necessárias para aniquilar o adversário, derrotou-o e o tem a seus pés.

    Esse combate aumenta a glória da Filha do Padre Eterno, da Mãe do Verbo Encarnado, da Esposa do Divino Espírito Santo!

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 8/12/1991)

  • Feudo da Rainha do Céu

    É um fato curioso e edificante na vida da Igreja que, sendo esta depositária das verdades teológicas as mais altas e complexas, a massa dos fiéis, entretanto, servida por uma especial acuidade de visão, penetra e vive essas verdades ainda mesmo quando seu nível cultural pareceria vedar-lhe o acesso a qualquer atividade intelectual de ordem superior. Em tudo que se relaciona com a devoção a Nossa Senhora, esta observação se comprova com toda a clareza.

    Com efeito, a doutrina marial e a devoção à Virgem Maria têm crescido constantemente, desenvolvendo-se, porém, não à moda de hipérboles afetivas e meramente literárias, mas como uma torre de raciocínios, firme como o granito, à qual cada geração de teólogos acrescenta mais alguns andares solidamente esteados no esforço diligente desenvolvido pela razão a fim de descobrir todo o alcance e extensão das verdades reveladas.

    Entretanto, é tocante observar como a piedade popular, ignorando muitas vezes os argumentos da Teologia sagrada e deixando-se guiar em grande parte pela finura de sua sensibilidade, desce até  o âmago profundo das verdades teológicas ensinadas pela Igreja e sabe vivê-las com uma autenticidade de convicções e sentimentos que não se poderia explicar sem a ação do Espírito Santo.

    Não há um povo que não tenha ao menos um grande Santuário nacional erigido em honra de Maria Santíssima, no qual a Rainha do Céu faça chover sobre os homens, com abundância, as graças  espirituais e temporais.

    A Igreja nunca mandou que cada povo erigisse um Santuário nacional particularmente dedicado à Santíssima Virgem, mas se limitou a definir as verdades mariais. Na maioria dos casos, a piedade entusiástica dos fiéis tem seguido seu curso, a ponto de se poder sustentar que quase todas as festas de Nossa Senhora e as formas de piedade com que Ela é honrada nasceram na massa dos fiéis espontaneamente ou por meio de revelações particulares, sendo posteriormente sancionadas pela Igreja.

    Isto porque a piedade popular sente viva e profundamente que Nossa Senhora é, na realidade, a Mãe de todos os homens, e especialmente dos que vivem no aprisco da Igreja de Deus. E sente, ainda, que a mediação d’Ela é a porta segura para se ter acesso junto ao trono do Criador.

    Fazendo estas reflexões, lembro-me de Aparecida do Norte e das impressões profundas que tenho colhido sempre que ali vou rezar aos pés da Padroeira.

    Onde, no Brasil inteiro, um lugar para o qual, com tanta e tão invencível constância, se voltam os olhos de todos os brasileiros?

    Quem, ao ouvir falar em Nossa Senhora Aparecida, pode não se lembrar das súplicas abrasadoras de mães que rezam por seus filhos doentes; de famílias que choram, no desamparo e na miséria, o bem-estar perdido e se voltam para o trono da Rainha da clemência; de lares trincados pela infidelidade; de corações ulcerados pelo abandono e pela incompreensão; de almas que vagueiam pelo reino do erro à procura do esplendor meridiano da  Verdade; de espíritos transviados pelas veredas do vício que procuram, entre prantos, o Caminho; de almas mortas para a vida da graça e que querem encontrar, nas trevas de seu desamparo, as fontes de uma nova Vida?

    Onde se pode sentir de modo mais vivo o calor ardente das súplicas lancinantes e a alegria magnífica das ações de graças triunfais?

    Onde, com mais precisão, se pode auscultar o coração brasileiro que chora, que sofre, que implora, que vence pela prece, que se rejubila e que agradece, do que na Aparecida?

    E sobretudo, onde é mais visível a ação de Deus na constante distribuição das graças, do que na vila feliz, que a Providência constituiu feudo da Rainha do Céu?

    Plinio Corrêa de Oliveira

    (“Pro Maria fiant maxima”, Legionário, N.º 379, 17 de dezembro de 1939)

     

  • O Rosário

    Se algum apóstolo quiser saber como será julgada sua vida no tribunal do Eterno Juiz, não indague tanto dos caminhos que palmilhou, ou das gotas de suor que de sua fronte gotejaram. Indague, sim, das horas passadas de rosário em punho aos pés do Tabernáculo.

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • Finura no trato e santidade

    A civilização cristã, nascida do Preciosíssimo Sangue de Cristo, produziu frutos em abundância. Um deles foi o trato cavalheiresco.

     

    Para se entender as relações entre finura no trato e santidade, deve-se compreender bem o que significam trato e finura.

    O trato é um conjunto de fórmulas por onde expressamos para com os outros a nossa atitude de espírito, interior. Quer dizer, o trato envolve de fato duas coisas: em primeiro lugar uma conduta e depois maneiras.

    Há um modo de tratar que não é apenas feito de maneiras, mas de elevação de espírito. Por exemplo, tratar os outros com benignidade, força, fidelidade, nobreza; isso não é exatamente igual à maneira.

    Imaginemos um homem que deve dinheiro a seu amigo. O modo pelo qual esta relação de crédito e débito se desenvolve diz respeito ao trato. O lidar de um com outro em torno de uma situação naturalmente tensiva pode ser mais elevado ou menos, mais generoso ou menos, independente das maneiras de cortesia que nesse trato se empregam.

    Os modos de cortesia são as fórmulas, a linguagem, as expressões do rosto, os gestos das mãos, a atitude de toda a pessoa; isso constitui um elemento secundário e extrínseco do trato.

    A santidade necessariamente conduz a um trato muito elevado, no sentido fundamental da palavra, ou seja, no seu aspecto profundo. Uma pessoa que é santa — a santidade é a raiz de todo procedimento perfeito — tem em relação aos outros uma conduta e um trato exemplares. Ela trata os outros com toda a distinção, com todo o esmero, respeito, afeto, ou com toda a força e energia que as circunstâncias exigem. Sob esse aspecto, a santidade é co-idêntica com a perfeição no trato.

    Onde foi tirado o verdadeiro amor a Deus, não pode haver autêntico amor aos homens

    No sentido profano, pode haver pessoas não santas que tratam os outros eximiamente.

    Isso ocorre quando há uma grande tradição de civilização católica, a qual não morre de um momento para outro. Embora a moralidade possa cair muito rapidamente, a tradição do trato ainda continua. Usando uma imagem de São Pio X, que ele aplicava a outra coisa, não podemos pôr rosas num jarro sem que este se impregne do perfume e continue perfumado, mesmo depois de serem retiradas as flores.

    Assim também, certo cavalheirismo e certa fidalguia de trato, no sentido mais profundo da palavra, podem subsistir como uma tradição católica num ambiente que é pouco católico, ou deixou de ser católico. Por exemplo, alguma coisa da nobreza de trato de certos lordes ainda é uma remota tradição da Inglaterra, proveniente do tempo em que era católica.

    Mas essas boas tradições vão morrendo. Um homem pode ser muito elegante no trato, em matéria de negócios comerciais, porém deselegante quanto ao modo de adquirir dinheiro, ou em assunto de adultério, ou qualquer outra matéria. Ele, por exemplo, julgará que é um defeito de trato ir à casa de um amigo e roubar uma colherinha, mas rouba a esposa do amigo.

    Quer dizer, são tradições que ficam meio hirtas e têm uma vida artificial. Aos poucos vão minguando e acabam desaparecendo.

    Tendo cessado o estado de graça, a finura do trato é como uma trepadeira da qual se corta a raiz. Durante algum tempo algumas flores, que tinham começado a desabrochar, se desabrocham inteiramente. Pode haver, portanto, uma ilusão de vida naquela trepadeira. Mas é uma pós-vida, porque ela morrerá mesmo. Onde foi tirado o verdadeiro amor a Deus, não pode haver autêntico amor aos homens. Não havendo amor a Deus nem amor aos homens, o trato, neste sentido elevado da palavra, evidentemente tem que desaparecer.

    Na natureza há símbolos magníficos dessas situações. Contaram-me que em certos cadáveres a barba ainda cresce um pouquinho. É um resto do desenvolvimento vital num corpo que está morto. Assim também pode haver aparente florescimento de maneiras numa civilização já sem vida. Sob certo ponto de vista, podemos dizer que o trato continuou esplêndido, cristão, aristocrático e acidental na Europa até há pouco. Mas era uma coisa defectiva, tendente a cair, o resto de algo magnífico que tinha existido.

    A perfeição no trato gera maneiras esplêndidas

    Qual a diferença entre trato e maneiras?

    As maneiras são fórmulas, gestos, atitudes, que têm muito de natural, mas também alguma coisa de arbitrário, convencional, pelas quais os povos chegam a exprimir, por um consentimento geral, os seus estados de espírito e o seu bom trato.

    Os povos podem ser muito virtuosos antes de terem maneiras perfeitas. Têm um trato muito elevado e maneiras apenas corretas, suficientes, às vezes até com um resto de barbárie, não com selvageria; mas algo de trivialidade, banalidade, falta de elegância, pode ser que exista.

    Um santo pode, portanto, ter menos boas maneiras do que uma pessoa não santa. As maneiras são elaboradas lentamente pelas civilizações; constituem o produto de toda uma sociedade. E existe sempre a seguinte relação: a perfeição no trato acaba gerando ao longo do tempo maneiras esplêndidas. Estas são uma espécie de fruto remoto do trato. E, portanto, um fruto um pouco mais remoto ainda, da virtude. E vivem necessariamente só da virtude. De maneira que se virtude não houvesse, as maneiras seriam também muitíssimo inferiores. E quando a virtude morre, o trato vai se deformando; as maneiras ainda continuam, porque é uma coisa externa, material, cujo desaparecimento choca mais.

    Na França, nas vésperas da Revolução, havia maneiras requintadíssimas, mas já indicando que iriam desaparecer.

    O trato decorre, então, necessária e imediatamente das virtudes. As maneiras provêm necessariamente das virtudes porque decorrem do trato, mas não imediatamente quanto às maneiras requintadas, esplêndidas, que são fruto de uma civilização.

    É claro que uma pessoa sem virtude pode ter bom trato em alguns pontos, e a “fortiori”(1) boas maneiras. Porém, com o tempo isso desaparecerá.

    Como são as maneiras de uma civilização sem Deus?

    Para terminar, eu gostaria de dizer apenas o seguinte. O histórico das civilizações, se fosse bem feito, mostraria que as maneiras perfeitas só existiram como fruto da civilização católica; mas não antes. Havia povos cujas aristocracias, sob alguns aspectos, tinham maneiras excelentes e de certa forma até insuperáveis. O povo chinês, por exemplo, e mesmo romanos, gregos etc., debaixo de alguns pontos de vista tinham um direito bom, uma arte, uma cultura, uma literatura boas. Mas nunca com a elevação que as coisas atingiram com a civilização católica.

    Fala-se de civilização clássica, romana. Vejamos, porém, como era um banquete em Roma. Os convivas, deitados naqueles triclínios, comiam e bebiam desbragadamente, de um modo indecente, com uma glutonice sem igual, e se embriagavam de tal modo que eram levados para fora da sala. Quando alguém se sentia — a expressão é muito prosaica, mas afinal temos que empregá-la — cheio demais, levantava-se e ia para as salas contíguas, onde havia escravos com a habilidade de provocar, por meio de penas de aves, cócegas no palato; ele, então, restituía tudo o que havia comido e bebido. Depois vinha outro escravo trazendo vasilhas com água; a pessoa lavava as mãos e, se quisesse, secava-as nos cabelos do próprio escravo, que serviam de toalha. O escravo ficava, portanto, todo emporcalhado.

    Imaginemos a cena nos seus pormenores. O glutão ou a glutona de bocarra aberta e o escravo fazendo cócegas na garganta: surge a ânsia e, afinal, a explosão gástrica. A pessoa anda de um lado para outro, cambaleia, para com disparos de coração etc. Por fim, equilibra-se o monturo, oscila mais um pouco e volta para comer. E tudo recomeça.

    Isto é o horror em matéria de maneiras. Eu poderia citar cem outras coisas em cem espécies de civilizações.

    Hoje em dia, quando uma pessoa recebe outra em sua casa, a fórmula polida, o dito elegante, interessante, a atitude rasgada e gentil são substituídos por uma acolhida parda; há uma frieza recíproca, indicando a completa decadência em matéria de trato. Isso tudo é efeito de um desbotamento de alma, o qual tem uma raiz moral; e esta última possui uma causa religiosa.

    Em suma, o trato e as maneiras “pocas”(2) são consequências da tibieza.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 18/12/1965)

     

    1)   Com maior razão.

    2)  Dr. Plinio assim denominava as pessoas ou as coisas inexpressivas, medíocres.

  • São Francisco de Borja – flexibilidade para adaptar-se a todas as almas

    Vendo no caixão o cadáver da Primeira Dama da Cristandade, a qual possuía imensa majestade, Francisco recebeu insigne graça: abandonou todas as suas glórias terrenas para se tornar um jesuíta.

    A respeito de São Francisco de Borja – Presbí­tero, Duque de Gândia e Geral da Companhia de Jesus, no século XVI -, há uma ficha biográfica que assim resume a sua vida:

    Piedoso e fiel cumpridor dos seus deveres

    No dia 30 de setembro de 1572, São Francisco de Borja, terceiro Geral da Companhia de Jesus, entregava sua alma a Deus com a serenidade confiante do homem que sempre cumpriu seu dever. Esse dever tinha sido muito variado na sua existência movimentada. Filho de João de Borja e Joana de Aragão, neta de Fernando, o Católico, ele foi numa primeira fase um elegante e hábil cavalheiro, confidente do Imperador Carlos V, que o nomeou Vice Rei da Catalunha. Depois ele se tornou jesuíta, Vigário Geral da Companhia para a Espanha. Posteriormente foi sucessor de Santo Inácio e, enfim, legado da Santa Sé. São Francisco de Borja esteve sempre atento em pertencer ao Rei do Céu e de militar sob seu estandarte, de preferência a se comprometer com os poderes da Terra.

    Francisco nasceu no dia 28 de outubro de 1510. Sua infância e sua juventude passaram-se numa piedade e numa inocência que foram uma lição para seus pais e seus amigos, mas o exemplo foi maior ainda pela vida cristã e austeridade que ele soube ter na corte do Imperador Carlos V, e depois como Vice Rei da Catalunha.
    Em termos lhanos e diretos, e mais ao nosso gosto, isso tudo quer dizer que ele foi uma criança exemplar, mas que, quando se tornou moço e depois homem maduro e ocupou altos cargos públicos, a sua piedade ainda chamava mais a atenção.

    A graça da visão da morte

    A morte da Imperatriz e depois a de sua própria esposa lhe mostraram o vazio de todas as coisas da Terra. Ele resolveu, então, abandonar o mundo e entrar na Companhia de Jesus em 1551, ano em que foi ordenado padre.

    Esse é um dos episódios célebres da vida de São Francisco de Borja. Ele era cortesão e muito próximo a Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano Alemão e Rei de Espanha. Temos várias vezes tratado de Carlos V, por causa do grande papel que ele ocupa na História do Ocidente. Ele era tão poderoso que o Sol jamais se deitava em seu império. As suas terras iam desde os confins da Rússia até a América do Sul e parte do México até Oceano Pacífico. Era, portanto, um Império imenso que compreendia não só a Espanha e suas possessões na América, mas também possessões que a Coroa da Espanha tinha na Itália, as quais eram de uma grande importância no mundo. O Sul da Itália pertencia a Carlos V; por outro lado, na Lombardia, que tem como capital, Milão, Carlos V também tinha domínios.

    São Francisco de Borja, sendo íntimo do Imperador, tinha conhecido muito bem a Imperatriz — que possuía imensa majestade e era a primeira dama da Cristandade no seu tempo — e teve ocasião de ver o corpo dela estendido no caixão. Ao contemplá-la assim aniquilada pela morte, ele recebeu uma graça.

    O próprio de certas graças é de darem uma vida extraordinária às verdades que, para nós, são correntes, comuns, sabemos até o que querem dizer, mas impressionam pouco o nosso espírito. Assim é a graça da visão da morte. Uma pessoa pode passar uma noite inteira numa capela, velando um cadáver, sem que isso lhe toque muito especialmente; mas, de repente, por uma graça de Deus, tudo quanto a aniquilação da morte significa vêm ao espírito dela e lhe fala na alma com uma força particular, especialmente a sabedoria. E foi o que se deu com São Francisco de Borja. Ao ver a Imperatriz morta, ele percebeu bem o vácuo de certas grandezas, porque elas passam: a grandeza da Imperatriz, a grandeza do Império, a grandeza dele, que não era senão um adorno do Império; ele, então, se colocou diante da ideia de renunciar a todas as suas grandezas e de se tornar jesuíta.

    Nomeado como diretor da Companhia de Jesus na Espanha

    Para que compreendamos bem, é preciso notar que, além de ser ViceRei da Catalunha, o título de Duque de Gândia lhe dava poder sobre uma certa parte do território espanhol; uma jurisdição feudal, à maneira de um pequeno reino, a qual nem dependia do Imperador, pois ele a possuía por direito próprio. Tudo isso ele abandonou para entrar na Companhia de Jesus, que era naquele tempo uma Ordem religiosa nova, que não tinha nem um pouco a força, a tradição, a base que as outras grandes Ordens possuíam, ou aquela pobreza ilustre da Ordem de São Francisco. Quer dizer, de fato ele entrava para uma obra nova, o que, debaixo de certo ponto de vista, lhe poderia ser uma aventura. Ali ele foi encerrar-se até o fim de seus dias para procurar os bens do Céu, muito certo da vacuidade das coisas da Terra.

    Ele ali foi ordenado sacerdote, e Santo Inácio de Loiola, percebendo suas virtudes, deu-lhe a direção da Companhia de Jesus na Espanha. É preciso compreender também o que significa isso, da parte de Santo Inácio.

    A Espanha, como vimos, era naquele tempo uma potência imensa. Dentro dos Estados de Carlos V, a Espanha e a Áustria eram os dois países mais importantes, mas para a Religião a Espanha tinha mais importância do que a Áustria. Porque, embora a Áustria fosse muito católica, a Espanha era a nação mais católica da Terra. E era da Espanha que sopravam os ventos da Contra-Reforma, da luta contra o protestantismo, de maneira que agir na Espanha significava atiçar as melhores brasas contra a heresia, movimentar as melhores forças da Igreja contra a Reforma, contra o Humanismo, contra a Renascença. Compreendemos sem esforço a importância que tinha o cargo de chefe dos jesuítas na Espanha. Quer dizer, chefe da Ordem religiosa suscitada especialmente por Nossa Senhora para lutar contra o protestantismo, no país escolhido para combater essa heresia. Ou seja, foi-lhe dada a alavanca fundamental dessa luta.

    Sorrir com quem ri, chorar com quem chora

    Em 1566 foi eleito Geral da Companhia de Jesus, sendo o segundo a ocupar este cargo, após Santo Inácio de Loiola. Ele aumentou muito o número de missionários da Companhia de Jesus, enviando-os à Polônia, ao México, ao Peru e à Índia. Suas ocupações numerosas não o impediam de consagrar longas horas à oração. Sua caridade o adaptava a todas as almas. Sua humildade fazia com que ele procurasse os ofícios mais insignificantes e recusasse as honras que lhe quisessem prestar.

    Essas palavras são bonitas, mas parecem uns enfeites aos quais se está habituado. Elas comportam, entretanto, uma especificação.

    Em primeiro lugar, ele foi Geral da Companhia de Jesus. Tal foi o poder dessa Ordem no passado, que o Geral dos jesuítas era chamado de “O Papa negro”.

    Não sei se os presentes neste auditório se dão bem conta do que significa se adaptar a todos.

    No tempo em que eu era moço, havia uma cançãozinha que se cantava nas igrejas com muita compostura, quando acabavam os ofícios litúrgicos e o povo ia saindo: “Saudemos a Jesus, saudemos a Maria, a Fé se reanima, nobilita e dá energia”. E a horas tantas, os fiéis cantavam o seguinte a Nossa Senhora: “Vem sorrir com quem ri, chorar com quem chora; sê amparo e sê força, sê guia e sê luz”. Isso sempre me impressionou muito em Nossa Senhora: sorrir com quem ri e chorar com quem chora. Maria Santíssima se afaz a todos estados de espírito do homem: Ela é a quietude dos que descansam, a exaltação dos que lutam, o sorriso dos que estão distendidos, Ela chora com os que choram, e assim por diante.

    Há uma qualidade excelente da alma, por onde um santo pode adquirir esta flexibilidade em que ele sabe, com cada um, estar no estado de alma daquele. Mas que elasticidade provavelmente isso significa, que força de adaptação isso deve custar! Porque ninguém quer estar no estado de espírito do outro. Cada pessoa quer estar no estado de espírito próprio e deseja que o outro se adapte a ela. O indivíduo entra alegre numa sala e quer que todo mundo faça cara alegre. Razão? Ele está alegre! E quando está triste, ele tem raiva dos outros que estão alegres. É ou não é verdade que esse indivíduo se julga o centro do mundo? Compreendemos, assim, toda a destreza que está representada nessa virtude de saber afazer-se à alma dos outros.

    Santa Teresa, que recorreu aos seus conselhos, chamou-o de santo. Em 30 de setembro de 1572 ele morreu. Numerosos milagres assinalaram sua santidade. Clemente X o canonizou em 1671.

    Ele foi conselheiro de Santa Teresa de Jesus. Imaginemos uma sala de um convento e Santa Teresa conversando com São Francisco de Borja! Nós não seríamos dignos de olhar pelo buraco da fechadura… E Santa Teresa conheceu de perto as grandes virtudes dele, e reconhecia nele um verdadeiro santo.

    Vimos assim alguns traços da vida de São Francisco de Borja.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 10/10/1969)

     

     

  • A felicidade de fazer o bem

    Cortesia, polidez, gentileza, amizade… são conceitos muito afins com Dr. Plinio.

    Quando menino, eu possuía colegas com os quais, de vez em quando, estabelecia amizade. No primeiro período da amizade havia simpatia mútua, interesse, agrado. Mas, em determinado momento, parecia-me perceber o fundo da mentalidade de meu companheiro, e com isso sua companhia ficava sem graça, perdia a atração.

    Vinha-me, então, uma sensação frustrante: “À distância, as pessoas dão-nos uma boa impressão, mas quando as conhecemos de perto, percebemos algo que repele”.

    Isto, naturalmente, quando não dava em ruptura, gerava pelo menos um trato tenso.

    Qual seria, entretanto, o fundo deste desapontamento? O que faltaria para a continuidade dessa amizade? O próprio Dr. Plinio responde:

    Lendo fatos relativos ao “Ancien Régime”— onde a cortesia estava presente no trato, e correspondia a um hábito social —, eu percebia como as pessoas daqueles tempos viam-se numa perspectiva completamente diferente: elas possuíam alegria por causar alegria, satisfação por causar satisfação. O convívio era outro, a “douceur de vivre” estava implantada entre os homens…

    Esta ideia levou‑me à seguinte pergunta: No tempo pagão, isto era assim?

    A resposta era clara, bastava olhar para a História. Tomemos, por exemplo, um romano que manda chamar o escravo, e lhe diz: “Quero matar um inimigo, e para isso preciso testar este veneno. Você vai, então, tomá-lo para que eu possa ver se ele é forte o suficiente”. E o escravo morria em meio a contorções terríveis, diante de seu dono.

    Quer dizer, os pagãos importavam-se apenas com suas vantagens próprias; a felicidade dos outros não lhes interessava.

    Ora, em comparação com os antigos tempos, nas pessoas de minha geração, por mais que o trato não fosse igual ao dos romanos, a cortesia era meio cinematográfica. Pode‑se dizer que ela estava morrendo para dar lugar ao trato correto, mas que não possuía mais as doçuras de outrora.

    Eu pensava: “Se eu conhecesse alguém capaz daquela dedicação, daquela solidariedade, eu começaria a achar sua companhia interessante e teria alegria em me dedicar também a ele”.

    ***

    Quatro palavras explicam a história da doçura entre os homens: Nosso Senhor Jesus Cristo!

    Ele veio à Terra quando o mundo estava imerso na noite das mais densas trevas. Então a alegria de ser bom, de fazer o bem começou a fulgir entre os homens.

    “Pertransivit benefaciendo” — passou pela vida fazendo o bem. O tempo inteiro, desde o começo até o fim, Nosso Senhor fez o bem. E com o transbordamento, com a abundância que conhecemos: por mais que os discípulos tivessem dormido no Horto das Oliveiras, quando Ele foi preso deu ordem aos carrascos: “A estes, deixai‑os ir em paz”.

    Para termos a verdadeira alegria na alma, para termos a luz de Nosso Senhor Jesus Cristo diante dos olhos, saibamos nos sacrificar pelos outros sem esperar retribuição. Quando nos dermos conta, o aroma do convívio entre nós estará embalsamado, perfumado e agradável. É Cristo Nosso Senhor que estará presente.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira  (Extraído de conferência de 1/6/1985)