Autor: Nelson

  • Arquetipização, amor à cruz e seriedade

    Desde a primeira infância, Dr. Plinio possuía uma tendência à arquetipização, que era alimentada pela frequência à Igreja do Sagrado Coração de Jesus. O ambiente, as imagens, o órgão lhe causavam encanto, mas ele sentia a necessidade de que ali também houvesse uma fortificação; e percebia que dentro daquela harmonia e beleza estava encravada a cruz.

     

    Na Igreja do Coração de Jesus, em São Paulo, eu sentia como um estado de espírito que ficasse pairando pelo ar, uma mentalidade difusa que parecia dizer algo através de cada um dos elementos da decoração. O que havia de mais alto, mais eminente, mais preciso, se exprimia através da imagem do Sagrado Coração de Jesus, sugerindo o modo de Ele ser.

    Uma “bonbonnière” de Sèvres

    Tudo quanto via em mamãe era, para mim, um elemento integrante d’Ele. Primeiramente, percebi a Ele na Igreja do Coração de Jesus, da qual — por pasmoso que seja — o próprio Sagrado Coração de Jesus também é um elemento integrante.

    Toda a vida, desde bem pequeno, houve no meu espírito uma tendência para a arquetipização. Não no sentido de me iludir, achando algo arquetípico quando na realidade não é, mas pensando mais ou menos o seguinte: “Se isso fosse perfeito, como seria?” E julgando mais pelo que aquilo deveria ser, do que pelo que era. Eu não tinha maturidade para exprimir isto assim, mas é o que estava no meu espírito. Suponho que fosse uma graça.

    Dou um exemplo fora do ambiente da Igreja do Coração de Jesus.

    Se eu visse uma “bonbonnière”, o mais importante para mim não era fazer a crítica dela, mas saber como ela seria se o plano do indivíduo que a fez tivesse chegado ao auge. Em seguida “decretava” — por pobreza de expressão, por falta de clareza de espírito, por uma porção de coisas — ser aquele objeto “mais bonito”, porque morava ali um plano mais bonito do que em outro objeto.

    Lembro-me de que vovó tinha uma “bonbonnière” de Sèvres, daquele tempo em que se importavam as coisas da Europa às torrentes, a baixo preço. Não era um objeto pomposo, mas eu o achava lindo!

    Com a partilha dos bens, isto ficou para uma tia minha, e lamentei que a “bonbonnière” não tivesse ficado com mamãe. Uns 30, 40 anos depois, numa das idas à casa dessa minha tia, vi a “bonbonnière” ao alcance de minha mão; e, não sem susto da dona da casa, peguei-a e comecei manuseá-la. Fingi não perceber o susto de minha tia, que temia que o objeto caísse no chão. Eu tinha fama na família de ser “quebrador”. Não era uma fama injusta…

    Tive uma decepção ao analisá-la, e percebi que achava linda a “bonbonnière” que o artesão quisera fazer, não a que estava ali. Quando menino, não separava suficientemente a arquetipia da realidade, e julgava que a “bonbonnière’ linda estava de algum modo também presente ali.

    O que acabo de descrever é muito menos raro do que parece. O espírito humano é correntemente propenso a isto.

    As mitras ”preciosas” dos bispos

    Conto algo característico desse processo de arquetipização, por onde mostro como ele é legítimo.

    O velho carnaval paulista possuía aspectos dados ao suntuoso. Aquelas moças e mocinhas tinham fantasias de princesas do Oriente e roupas de “Ancien Régime”. Para imitar joias, compravam pedras falsas, as quais punham nos ornatos. E todo o mundo achava bonito, interessante, sabendo ser pedra falsa. Arquetipizavam aquilo que estavam vendo.

    O que faziam as moças e mocinhas, ninguém achava ridículo.

    Faziam-no também os bispos. Mitras que deveriam ser de tecidos riquíssimos — porque eram chamadas “mitra preciosa”, “mitra áurea”, como reminiscência dos tempos em que eram preciosas mesmo —, no meu tempo de jovem eram feitas com tecidos comprados na Rua Santa Ifigênia(1), nesses especialistas de objetos de alfaiataria religiosa.

    Mais de uma vez, terminada a cerimônia da Páscoa, vi um bispo chegar à porta da catedral, os sinos todos tocando, o portal fazendo moldura para ele; e reluzindo na mitra todas aquelas pedras falsas que poderiam ornar as fantasias de carnaval.

    Ninguém achava ridículo. Era uma legítima arquetipização. Quer dizer, é um processo legítimo, sem o qual a boa ordem do pensamento humano é quase incompreensível.

    Comigo, esse processo se dava desde que me lembro de mim, já na pré-idade de formação da razão, dos primeiros princípios.

    Bons arquétipos e realidade

    Também com relação ao mal. Alguém diria que nasci com uma vocação maniqueia furibunda, mas não é verdade. Era o “inimicitias ponam”(2), e outras categorias de espírito que ainda não conhecia, as quais estavam dentro disso. Reputo que eram graças.

    Por exemplo, já tive ocasião de falar do Herr Kinker, o dono de pensão medonho, que me pôs uma vez na chuva(3). Ele se me apresentava como uma personificação do mal alemão. Mas eu o via como ele não era, porém certamente de acordo com modelos alemães que o Herr Kinker procurou imitar. E vinha logo a ideia: “Está vendo?! Há uma porção de pessoas como o Herr Kinker. Existe no fundo, algo semelhante a ele, e isto eu detesto!”

    Isto se dava arqui-carregadamente na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, onde tudo era arquétipo e arquetipizado.

    Concebo que um artista faça uma crítica daquilo e encontre defeitos. Mas esta graça de arquetipização não gosta da análise científica e artística, porque nega a arquetipização e desvia a atenção dela.

    Devemos tomar cuidado com os bons arquétipos que formamos na alma, pois mesmo quando não correspondem à realidade, são mais profundos que a realidade vista.

    O timbre de voz de Nosso Senhor

    É importante notar ser esta atitude de alma uma explicação de minha pessoa aos olhos dos outros. Se quiserem entender muitas de minhas atitudes, vejam que estou agindo em função de um arquétipo.

    Mas este arquétipo não é como o do indivíduo que estudou na escola de Belas Artes e se põe a desenhar uma fachada excelente, porque conhece os princípios. Ou este arquétipo sai à maneira de um jorro, do fundo da alma, do senso do ser em contato com a realidade, ou não adianta nada. Essas regras são como as regras da lógica: não servem para pensar, mas para formular com clareza o pensamento. Pois, se não se descobriu a verdade antes de usar a regra da lógica, só com a regra não se vai descobrir.

    Na Igreja do Coração de Jesus havia algo arquetípico mais ou menos esparso pelo ar, do qual estou certo de que era uma graça. Quer dizer, admito que, a rogos de Nossa Senhora, Deus desejasse que eu fosse propenso a essa operação psicológica, mental, natural, e assim me concedesse graças nesse sentido, para eu conseguir realizar minha vocação.

    Por que tenho certeza de que havia na Igreja do Sagrado Coração de Jesus uma graça? Porque, sem saber que era uma graça, pensava mais ou menos o seguinte: “É curioso, mas parece que tudo nesta igreja fala à minha alma! E fala com o timbre de voz que teria Jesus se estivesse na Terra! Esse é o próprio timbre de voz d’Ele!”

    Não pensem que eu tinha uma visão, não se trata disso.

    Uma igreja bela, mas faltava-lhe algo de fortificação

    Graças a Nossa Senhora, também arquetipizava muito os Santos em função das imagens. De maneira que aquela coleção de imagens, ao longo das naves da Igreja do Coração de Jesus, era para mim imponentíssima, de Santos arquetipizados!

    Ouvindo o órgão de lá, parecia-me a voz de Deus. Sabia que não era, mas achava ser algo como a voz de Deus.

    No fundo da minha alma, isso me sensibilizava até onde era possível sensibilizar alguém. Depois de sentir profundamente aquilo, ficava querendo bem, e agradecendo. Porque percebia algo de muito bom que havia em mim potencialmente, que se movia agradecido e dizia: “Eu vos esperava, aqui estou!” Acho que era a graça do Batismo, a presença de Deus.

    Tenho a impressão de que com todas as crianças acontece o mesmo.

    Notava, entretanto, uma característica do Coração de Jesus não presente naquela igreja, mas que deveria estar. Sentia-me ali como se estivesse dentro de uma linda capela medieval posta no meio do campo. Ora, na Idade Média não existiam capelas colocadas no meio do campo; precisavam ter em volta muralhas, caso contrário o inimigo as destruiria.

    Eu julgava, então, que a Igreja do Coração de Jesus deveria ser naturalmente fortificada. E aquela ausência de força, de “bellum”, da guerra, fazia-se sentir. Com isso, algo de minha alma não estava expresso, deixando-me a ideia de um complemento que faltava.

    Contudo, consolava-me a grade da Igreja do Coração de Jesus e aqueles dois corpos de edifício, que davam ideia de um mal a combater e uma estabilidade a afirmar contra a intempérie. Alguma coisinha falava vagamente de uma circunstância adversa a ser tomada em consideração.

    Gostava muito da figura do Padre Eterno, um belo mosaico existente em cima do tabernáculo, porque Ele era representado como um ancião batalhador e dominando.

    Dona Lucília entendia essa atmosfera, mas não explicitava

    Isso que eu sentia, algumas pessoas difusas pela igreja também sentiam mais ou menos. Não todas, mas uns dez por cento.

    Dentre os outros, muitos tinham restos de religiosidade conspurcados: utilitários, consuetudinários, feitos um pouco de moda e de outros elementos meramente terrenos. No meu tempo de menino, aquela era a igreja da moda de um bairro bom de São Paulo.

    Porém, se deixassem de haver ali dentro as almas que sentiam aquilo que eu estava notando — das quais o exemplo mais próximo, mais querido, mais eloquente era mamãe — os outros não voltariam mais. Era uma espécie de rede, por uma ação de “proche en proche”(4) e de presença, mais ou menos invisível.

    Parecia-me também que as pessoas que frequentavam a igreja, e sentiam o que eu discernia, gostavam dessa graça, mas nunca teriam coragem de comentar, pois todo mundo cairia na gargalhada e diria ser uma demência! Portanto, não se devia falar sobre isso. E quem sentia não comentava, mesmo entre os que igualmente percebiam os imponderáveis da Igreja do Coração de Jesus. Mentalmente, formulavam algo do que sentiam, mas não iam além disso.

    Acho que mamãe tinha ideia de que era uma graça, o que a levava a rezar muito lá. Todos esses matizes creio que ela os tinha, até riquíssimos, mas não sabia dizer. E nunca disse.

    As pessoas tocadas por essa graça, em certo momento, achavam-na monótona

    Eu percebia também essa própria graça atrair uma boa porcentagem desses que a sentiam. Contudo, se a graça se mantivesse e eles tivessem que ficar muito tempo em contato com ela, a maior parte achava monótono. Chegavam lá, deliciavam-se, se encantavam, mas depois sentiam tédio. E com um pouco mais, um pouco menos de tempo, sumiam.

    Eu ficava perplexo: “Como é esse negócio? Não posso compreender: gostam tanto e fogem? Não aguentam o que admiram?” E pensava: “Dá-se o mesmo com relação a mamãe. Fazem com ela a mesmíssima coisa!”

    Cheguei, então, à conclusão: “Algo disso há de transparecer em mim algum dia. Terei a vida que possuem essas coisas. Vou ser muito atraente para uma minoria, mas esta vai se cansar rapidamente de mim…”

    Tenho certeza de que, no fundo, o que aparece em mim é isso que hauri no Coração de Jesus, com esse complemento de fortificação muito acentuado. Eu não seria eu mesmo e não me definiria como devo, se não fosse isso. Qualquer reunião feita por mim tem, no fundo, isso. Naturalmente em grau muito menor do que na Igreja do Coração de Jesus.

    De um jeito ou de outro, todo o atrativo que eu possa apresentar para a companhia de outras pessoas, está marcado por isso. Portanto, sei que o itinerário forçoso é este: em certo momento cansa.

    Tenho certeza de que isso acontece com todas as pessoas que são conformes à graça, sobretudo no nosso século. Porque isso é a proa de navio contra todo o espírito moderno, é a própria definição do espírito anti-moderno.

    Os admiradores de Jesus se cansaram d’Ele…

    Há uma nota em tudo quanto eu disse, sem a qual isso seria enormemente incompleto.

    Na Igreja do Coração de Jesus, e em todas as imagens do Sagrado Coração de Jesus da boa escola, havia uma nota de tristeza. Porque dentro de toda essa harmonia, toda essa beleza, estava encravada a cruz.

    Nosso Senhor Se apresentava para nosso olhar como sendo o próprio Homem-Deus, com todos os títulos para ser amado. A isto Ele acrescentou milagres e doutrinas.  Quando se lê uma frase do Evangelho, às vezes se pergunta por que o mundo inteiro não para, e fica comentando aquele pensamento por toda a eternidade! Quer dizer, Ele fez o inimaginável! E vê-se ter despertado admiração. Entretanto, seus admiradores se cansaram d’Ele…

    Essa rejeição certamente causava uma dor profunda na humanidade santíssima d’Ele, precisamente por ser imerecida.

    Um espírito superficial diria a Nosso Senhor: “Não Vos importeis. Vós nadais dentro de vossa própria perfeição. Por que precisais desses ‘pés-rapados’ que procurais?”

    Seria um cálculo mal feito, evidentemente.

    Portanto, a vida de Nosso Senhor era tristíssima. E há no fundo do olhar e do Coração d’Ele uma tristeza habitualmente morando. É o por onde aparece o melhor d’Ele.

    Aceitar uma vida assim é aceitar de morar dentro de uma tristeza. Ao mesmo tempo nós sermos a casa da tristeza e a tristeza ser a casa de nossa alma; morarmos nós nela e ela em nós. E aceitar isso como “normal”, quer dizer, corriqueiro, inevitável, constante, até o fim.

    Devemos procurar eliminar a alegria diante da simples ideia de que depois tem o Céu. Porque isto é um modo “happy-end”(5) de tomar as coisas, que não está na via de Nosso Senhor.

    Realmente, depois há o Céu, mas existe a cruz que desfecha na morte, intermediária entre o homem nesta Terra e o Céu.

    Este amplexo com a tristeza confere renúncia, abnegação, bondade, perseverança, constância a todas as nossas disposições de alma.

    Não sei se torno claro quanto isso é essencial e como não seria cristão se não fosse assim.

    Disso, sobretudo, muitas pessoas têm horror. Percebem e fogem! Ficam horrorizados.

    A recusa da cruz traz o apagamento da luz

    A cruz é como a sabedoria: a sabedoria da cruz vai desde a manhã sentar-se à porta da casa de cada um, esperando como uma mendiga que lhe queira abrir. Ela faz isto com todas as pessoas, de todos os jeitos, de todos os modos, conservando a dignidade como — guardadas as proporções — em grau divino a conservou Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Portanto, não é uma baixeza indigna, mas uma atitude em outra clave. E isto não é aceito.

    O “flash”(6) faz uma operação curiosa: cobre isso de alegria, de maneira que inicialmente a pessoa não percebe a cruz. Em certo momento, suspeita estar ela aparecendo. E um dos pontos do entibiamento e do tédio sucede quando o indivíduo, confusamente, no meio do perfume das flores, começa a sentir o cheiro da cruz e a rejeita.

    Se fosse pelo menos a cruz dramática: a pessoa se deita e faz-se crucificar! Mas não. É a cruz de todos os dias, com sua banalidade, sua monotonia, sua luta contra tal tentação concreta, que a pessoa não quer aceitar, mas não quer vencer; tal xodó, tal birra, tal coisa que não quer perdoar, sobretudo.

    O indivíduo quer colocar no centro de sua vida uma fonte de alegria. Quando quer isso desista, porque fracassou!

    Quando a pessoa recusa a cruz, apaga-se a luz. Ela pode achar a Igreja do Sagrado Coração de Jesus a mais bonita possível, mas fica átona. A alegria desaparece, começa a julgar tudo tedioso. Continua a achar bonita a igreja, mas de um bonito tão apagado que as coisas mais admiráveis que lá existem não despertam comentário.

    A biografia de Huysmans(7) que li foi para mim uma revelação e uma delícia para a alma, porque, quando ele se converteu, passou a ver muitíssimas dessas coisas de novo.

    Quando vem a conversão, a pessoa começa a perceber que a Liturgia é linda e a re-perceber as belezas da Igreja. Enquanto mero artista, o Huysmans percebia, não tem dúvida; mas isto não tem vida.

    Os convites da graça, as recusas e a seriedade diante da vida

    Suponho que a graça produza esse processo no espírito de todos, mas a maioria vai, desde logo “apostatando” e tendo, já no começo, um tal desamor, que não conservaram nem remorsos, nem recordação. De onde uma obliteração profunda, dentro da qual algo ficou. A “cathédrale engloutie”(8) é isto. Algo ainda fala à alma, mas as pessoas vivem de soterrar essa graça.

    Ao longo da vida, todos os dias, as pessoas recebem vários convites nesse sentido, mas já vão correndo ao primeiro bueiro, para ver onde podem jogar fora o convite. Esta é a realidade.

    Mas Nossa Senhora é tão boa que um pavio sempre fica, e essa luz pode reacender.

    Isto é propriamente o Reino de Deus e sua justiça que devemos procurar. Os Apóstolos o que quiseram foi isto. Isto borbulha no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, sobretudo na “Oração Abrasada”, que é um “geyser” disto! Quando se ouve falar de Carlos Magno, das Cruzadas, isto borbulha!

    Ficaram, assim, umas fontes no deserto lançando água para uns homens que, de longe, ainda olham para elas e dizem: “Como são bonitas… Agora me deixe comer tâmaras…” Voltam as costas para a fontes e começam a comer tâmaras.

    Ou, o que é pior: “Deixe-me afundar no pecado!” Porque quem recusa esta graça perde as condições para conservar uma castidade perfeita.

    Estas considerações produzem certa melancolia, mas que não vão sem alguma alegria.

    Tudo isso junto, como se chama? Seriedade.

    Encerramos uma conversa séria. Como é melhor ser sério do que torcer!

    Meus caros, que Nossa Senhora os ajude!

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 5/10/1985)

    Revista Dr Plinio 208 (Julho de 2015)

     

    1) Localizada na região central da cidade de São Paulo.

    2) Do latim: porei inimizades (Gn 3, 15).

    3) Ver Revista Dr. Plinio n. 9, p. 4-5.

    4) Do francês: de próximo em próximo, gradativamente.

    5) Do inglês: final feliz. Alusão à mentalidade difundida pelos filmes de Hollywood.

    6) Graça atual de caráter místico que confere um particular discernimento do sobrenatural. Ver Revista Dr. Plinio n. 55, p. 16-20.

    7) Joris-Karl Huysmans, escritor e crítico de arte francês
    (* 1848 – † 1907).

    8) Do francês: catedral submersa. Referência a uma lenda bretã segundo a qual os sinos de uma catedral submersa no mar faziam ouvir seu bimbalhar, em certas ocasiões, trazendo à tona a memória do magnífico templo e da belíssima cidade onde ele fora erigido.

  • Práticas da perfeição cristã

    Dando continuidade aos seus comentários à “Carta Circular aos Amigos da Cruz”, de São Luís Grignion de Montfort, Dr. Plinio salienta a necessidade de nos compenetrarmos de que nascemos, antes de tudo, para cumprir a missão e o plano de Deus a nosso respeito. E tal desempenho envolve o sofrimento que devemos abraçar, “sem fugas, sem fraudes, sem contrabandos”.

     

    Na segunda parte de seu opúsculo destinado aos Amigos da Cruz, São Luís Grignion de Montfort estabelece o programa de santidade que o próprio Divino Mestre nos deixou. Escreve ele:

    Toda a perfeição cristã, com efeito, consiste:

    1º) Em querer tornar‑se santo: “Se alguém quiser vir após Mim”.

    2º) Em abnegar-se: “renuncie a si mesmo”;

    3º) Em sofrer: “carregue sua cruz”;

    4º) Em agir: “siga‑me” (Mt 16, 24; Lc 9, 23).

    Portanto, ao interpretar a admirável frase de Nosso Senhor no Evangelho, São Luís demonstra como ela encerra um desejo de santidade, uma renúncia, um padecimento e uma ação. São os elementos fundamentais da conquista da perfeição cristã. A seguir, o autor comentará cada um desses componentes.

    Muito poucos querem abraçar a cruz de Cristo

    “Se alguém quiser vir comigo” — “Alguém” e não “alguns”, para marcar o pequeno número dos eleitos que querem se identificar com Jesus crucificado, carregando sua cruz. É tão pequeno esse número, tão pequeno, que se o soubéssemos, ficaríamos pasmados de dor.

    É tão pequeno, que há apenas um em cada dez mil, como foi revelado a vários santos — entre outros a São Simão Estilita, segundo narra o Santo abade Nilo, bem como Santo Efrém, São Basílio e alguns outros. É tão pequeno, que se Deus quisesse reuni‑los, gritar‑lhes‑ia, como o fez outrora pela boca de um profeta: reuni‑vos um a um, um desta província, outro desse reino (Is 27, 12).

    Cumpre notar que São Luís Grignion não se refere apenas ao seu tempo, mas considera todas as épocas, em todos os lugares: assim mesmo, o número de pessoas que verdadeiramente querem tomar a cruz de Nosso Senhor e segui-Lo, é pasmosamente pequeno.

    Sem o auxílio da graça não se aceita uma vida de renúncias

    São Luís prossegue:

    “Se alguém quiser” — se alguém tiver vontade autêntica, firme e determinada, não pela natureza, pelo costume, pelo amor próprio, pelo interesse ou respeito humano, mas por uma graça toda vitoriosa do Espírito Santo, que não se dá a todos. O conhecimento do mistério da cruz, na prática, só é dado a poucas pessoas. Para um homem subir ao Calvário e aí se deixar pregar na cruz, com Jesus, em sua própria pátria, é preciso que seja um corajoso, um herói, um determinado, um homem formado em Deus, que despreze o mundo e o inferno, seu corpo e sua vontade própria; disposto a deixar tudo, a tudo empreender e a tudo sofrer por Jesus Cristo.

    Sabei, queridos Amigos da Cruz, que aqueles dentre vós que não têm essa determinação, andam com um pé só, voam com uma asa só e não são dignos de estar no meio de vós, porque não são dignos de serem chamados Amigos da Cruz, à qual devemos amar com Jesus Cristo, “corde magno et animo volenti”. Basta uma meia vontade nesse caso, para corromper todo o rebanho como uma ovelha negra. Se em vosso aprisco já existe uma delas, vinda pela porta má do mundo, em nome de Jesus Cristo crucificado expulsai‑a como a um lobo que se esgueirou entre os cordeiros.

    Esse pensamento de São Luís Grignion é muito importante, porque nos revela a necessidade de uma graça especial para determinar os homens a seguirem a cruz de Nosso Senhor.

    Quer dizer, se alguém julga que somente fatores humanos são capazes de levar uma pessoa a aceitar uma verdadeira vida de sacrifícios, esse se acha completamente enganado. E igualmente errado estará quem pense que a tal nos inclinará o costume, a natureza ou o “ânimo dedicado”. Não existe ânimo dedicado nessa matéria. Há homens que, às vezes, demonstram certa facilidade para algumas formas menos penosas de dedicação. Mas entregar-se até o sangue nas grandes dificuldades, não se consegue sem o auxílio da graça.

    Sabemos, pela experiência pessoal de cada um, como é dura a batalha pela perseverança na virtude: luta e entrega individuais, em que a tradição e o ambiente doméstico podem ajudar um tanto, mas não são fatores determinantes para nos levar à pratica da virtude. É preciso a força da vontade secundada pelo socorro divino.

    A graça “toda vitoriosa” do Espírito Santo

    Curioso notar como São Luís Grignion se refere também ao interesse e ao respeito humano — tomado aqui no sentido de honras e regalias que se prometem a alguém — como ineficazes para convencer o homem a tomar a Cruz. Ou seja, nenhuma razão natural, nenhum valor terreno e mundano é capaz de determinar uma pessoa a cumprir estavelmente os Mandamentos de Deus. Só mesmo com o amparo do Céu, como o próprio autor insistirá na frase seguinte:

    Mas por uma graça toda vitoriosa do Espírito Santo que não se dá a todos.

    Agrada-me salientar essa bela expressão de São Luís: “graça toda vitoriosa”.

    Com efeito, há certas graças que o Espírito Santo concede aos homens, em geral graças de conversão, que trazem consigo a vitória na vida espiritual. Graças tão ricas, tão eficazes, alcançadas por meio de Maria Santíssima, que nos fazem sentir um desejo quase irresistível de progredir na virtude e de abraçar as vias da santidade de modo mais resoluto.

    Certo, mesmo sob o influxo dessa graça poderemos conhecer eclipses, enfrentaremos toda espécie de ventanias, de tropeços, mas, afinal, aquela luz divina nunca se apagará inteiramente no nosso horizonte. E acabaremos por segui-la e por atingir nosso bom porto, conduzidos pela misericórdia de Nossa Senhora.

    Prudência sobrenatural

    Continua o santo autor:

    Basta uma meia vontade nesse caso, para corromper todo o rebanho como uma ovelha negra. Se em vosso aprisco já existe uma delas, vinda pela porta má do mundo, em nome de Jesus Cristo crucificado expulsai‑a como a um lobo que se esgueirou entre os cordeiros.

    É interessante analisarmos a razão pela qual São Luís Grignion se refere à “má ovelha”. A meu ver, uma razão de prudência sobrenatural, que se explica nesses termos: quando um grupo forma um todo homogêneo, a presença nesse conjunto de um elemento heterogêneo pode maculá-lo por inteiro.

    Imaginemos, por exemplo, um lindo tecido sobre o qual cai uma gota de tinta. Diríamos: “o pano está manchado”. E estranharíamos se outro objetasse: “Não, desculpe-me, mas apenas um centímetro quadrado desse tecido está sujo; o resto está limpo”. Ora, um centímetro quadrado de mancha num tecido branco, implica em que todo ele está manchado. Se se deseja a alvura inteira do pano, é preciso remover a mancha.

    Se aceitarmos a cruz, cumpriremos nossa missão

    “Se alguém quiser vir comigo”, que tanto me humilhei e aniquilei, que me tornei mais semelhante a um verme, que a um homem;  comigo, que só vim ao mundo para abraçar a cruz, para colocá‑la no centro de meu coração, para amá‑la desde a minha juventude; para suspirar por ela durante a minha vida; para carregá‑la com alegria, preferindo‑a a todas as alegrias do céu e da terra, e que, enfim, só me contentei quando morri em seu divino abraço.

    Eis um dos sublimes pensamentos de São Luís Grignion de Montfort, pois se refere à posição do homem perante a missão que ele recebeu de Deus; missão que sempre traz uma cruz, à qual deseja carregar. Aqui está, expressa em termos magníficos, a vocação do verdadeiro Amigo da Cruz.

    Trata-se, portanto, de termos a compenetração de que viemos ao mundo, não para nos divertir nem para satisfazer caprichos. Viemos, antes de tudo, para cumprir nossa missão, o plano de Deus a respeito de cada um. E o desempenho dessa missão envolve o sofrimento que devemos abraçar, agarrarmo-nos a ele, sem fugas, sem fraudes, sem contrabandos, mas tomá-lo por inteiro. Claro está, suplicando a Nossa Senhora que nos alcance de Deus as forças necessárias para beber o cálice das dores como Ela e seu Divino Filho o fizeram na Paixão, sem deixar escapar uma gota sequer. Seja o que for, por mais duro, mais difícil, mais enigmático e incompreensível aos nossos olhos, aceitarmos.

    E não é apenas aceitar a cruz, mas nos adiantarmos e a agarrarmos, nos prendermos a ela, com todo o amor e toda a força de nossa alma. Amo minha missão e o sofrimento sacrossanto que ela traz consigo. O resto me importa menos ou não me importa nada. Quero a cada uma dessas gotas de sacrifício, com integridade de coração, sem me esquivar de nenhuma. Devo preferi-las “a todas as alegrias do céu e da terra”, e “amá-las desde a minha juventude”.

    Outra expressão de extrema beleza. Na verdade, muitos podem dizer que desde a juventude, desde os albores da infância, sentiram o sopro da graça que lhes convidava para sua vocação. E se corresponderem, no momento de deixarem este mundo, poderão olhar para trás e dizer a Deus:

    “Senhor meu Pai,  ao menos, de um modo ou doutro, amei a vocação que me destes desde o começo de minha vida. E esta não foi outra coisa senão procurar o cumprimento da missão que me confiastes. Agora morro nas vossas mãos e nas de Maria Santíssima; aquilo que me mandastes fazer, eu fiz. Dai‑me, pois, Senhor, o prêmio da vossa glória.”

    É a missão realizada. Mas, missão aceita é, antes de tudo, a cruz aceita. Abraçada a cruz, está cumprida a missão. E é a graça de tomarmos a cruz que devemos pedir a Deus, de toda a alma e com toda a confiança, por meio de Nossa Senhora.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 22/7/1967)

     

  • Lágrimas, milagroso aviso

    A “Folha de S. Paulo” de 21 de julho p.p. publicou recentemente uma fotografia procedente de Nova Orleans, na qual se via uma imagem de Nossa Senhora de Fátima a verter lágrimas. O documento despertou vivo interesse no público paulista. Penso, pois, que algumas informações sobre este assunto satisfarão os justos anelos de muitos leitores.

    Não conheço melhor fonte sobre a matéria do que um artigo intitulado, muito americanamente, “As lágrimas da imagem molharam meu dedo”. Seu autor é o Pe. Elmo Romagosa. Publicou seu trabalho o “Clarion Herald” de 20 de julho p.p., semanário de Nova Orleans, e distribuído em onze paróquias do Estado de Louisiana.

    Os antecedentes do fato são universalmente conhecidos. No ano de 1917, Lúcia, Jacinta e Francisco tiveram várias visões de Nossa Senhora em Fátima. A autenticidade dessas visões foi confirmada por vários prodígios no sol, atestados por toda uma multidão reunida enquanto a Virgem se manifestava às três crianças.

    Em termos genéricos, Nossa Senhora incumbiu os pequenos pastores de comunicar ao mundo que estava profundamente desgostosa com a impiedade e a corrupção dos homens. Se estes não se emendassem, viria um terrível castigo, que faria desaparecer várias nações. A Rússia difundiria seus erros por toda parte. O Santo Padre teria muito que sofrer.

    O castigo só seria obviado se os homens se convertessem, se fossem consagrados a Rússia e o mundo ao Imaculado Coração de Maria e se fizesse a comunhão reparadora do primeiro sábado de cada mês.

    *    *    *

    Isto posto, a pergunta que naturalmente salta ao espírito é se os pedidos foram atendidos.

    Pio XII fez em 1942, uma consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria. A irmã Lúcia asseverou que ao ato faltaram algumas das características indicadas por Nossa Senhora. Não pretendo analisar aqui o complexo assunto. Registro apenas, de passagem, que é discutível se o primeiro pedido de Nossa Senhora foi atendido ou não.

    Quanto ao segundo pedido, isto é, a conversão da humanidade, é tão óbvio que não foi atendido, que me dispenso de entrar em pormenores.

    Como Nossa Senhora estabeleceu o atendimento de seus pedidos, como condição para que fossem desviados os flagelos apocalípticos por Ela previstos, está na lógica das coisas que baixe sobre a humanidade a cólera vingativa e purificadora de Deus, antes de vir a nós a conversão dos homens e a instauração do Reino de Maria.

    *    *    *

    Das três crianças de Fátima, a única sobrevivente é Lúcia, hoje religiosa carmelita em Coimbra. Sob a direção imediata desta última, um artista esculpiu duas imagens, que correspondem o quanto possível aos traços fisionômicos com que a Santíssima Virgem apareceu em Fátima. Ambas essas imagens, chamadas “peregrinas”, têm percorrido o mundo, conduzidas por sacerdotes e leigos. Uma delas foi levada recentemente a Nova Orleans. E ali verteu lágrimas.

    O Pe. Romagosa, autor da crônica a que me referi, tinha ouvido falar dessas lacrimações pelo Pe. Joseph Breault, M. A. P., ao qual está confiada a condução da imagem. Entretanto, sentia ele funda relutância em admitir o milagre. Por isto, pediu ao outro sacerdote que o avisasse assim que o fenômeno começasse a se produzir.

    O Pe. Breault, notando alguma umidade nos olhos da Virgem peregrina no dia 17 de julho, telefonou ao Pe. Romagosa, o qual acorreu junto à imagem às 21h30, trazendo fotógrafos e jornalistas. De fato, notaram todos alguma umidade nos olhos da imagem, que foi logo fotografada. O Pe. Romagosa passou então o dedo pela superfície úmida, e recolheu assim uma gota de líquido, que também foi fotografada. Segundo o Pe. Breault, esta era a 13a. lacrimação a que ele assistia.

    As 6:15h da manhã seguinte, o Pe. Breault telefonou novamente ao Pe. Romagosa informando-o de que desde as 4 horas da manhã a imagem chorava. O Pe. Romagosa chegou pouco depois ao local, onde, diz ele, “vi uma abundância de líquido nos olhos da imagem, e uma gota grande de líquido na ponta do nariz da mesma”. Foi essa gota, tão graciosamente pendente, que a fotografia divulgada pelos jornais mostrou a nosso público.

    O Pe. Romagosa acrescenta que vira “um movimento do líquido enquanto surgia lentamente da pálpebra inferior”.

    Mas ele queria eliminar dúvidas. Notara que a imagem tinha uma coroa fixada na cabeça por uma haste metálica. Ocorreu-lhe uma pergunta:

    Não haveria sido introduzida, no orifício em que penetrava a haste, certa porção de líquido que depois escorrera até os olhos?

    Cessado o pranto, o Pe. Romagosa retirou a coroa da cabeça da imagem: a haste metálica estava inteiramente seca. Introduziu ele, então, no orifício respectivo, um arame revestido de papel especial, que absorveria forçosamente todo líquido que ali estivesse. Mas o papel saiu absolutamente seco.

    Ainda não satisfeito com tal experiência, introduziu no orifício certa quantidade de líquido. Sem embargo, os olhos se conservaram absolutamente secos. O Pe. Romagosa voltou então a imagem para o solo: todo o líquido colocado no orifício escorreu normalmente. Estava cabalmente provado que do orifício da cabeça  –  único existente na imagem – nenhuma filtração de líquido para os olhos, seria possível.

    O Pe. Romagosa ajoelhou-se. Enfim ele acreditara.

    *    *    *

    O misterioso pranto nos mostra a Virgem de Fátima a chorar sobre o mundo contemporâneo, como outrora Nosso Senhor chorou sobre Jerusalém. Lágrimas de afeto terníssimo, lágrimas de dor profunda, na previsão do castigo que virá.

    Virá para os homens do século XX, se não renunciarem à impiedade e à corrupção. Se não lutarem especialmente contra a autodemolição da Igreja, a maldita fumaça de Satanás, que no dizer do próprio Paulo VI, penetrou no recinto sagrado.

    Ainda é tempo, pois, de sustar o castigo, leitor, leitora!

    *    *    *

    Mas, dirá alguém, esta não é uma meditação própria para um ameno domingo. – Não é preferível – pergunto – ler hoje este artigo sobre a suave manifestação da profética melancolia de nossa Mãe, a suportar os dias de amargura trágica que, a não nos emendarmos, terão que vir?

    Se vierem, tenho por lógico que haverá neles, pelo menos, uma misericórdia especial para os que, em sua vida pessoal, tenham tomado a sério o milagroso aviso de Maria.

    É para que minhas leitoras, meus leitores, se beneficiem dessa misericórdia, que lhes ofereço o presente artigo…

    Plinio Corrêa de Oliveira, (Folha de São Paulo, 6/8/72)

  • Nossa Senhora de Fátima, o extremo sacrossanto

    Virgem Mãe, Senhora de Fátima, que anunciastes ao mundo tão extremas aflições e tão excelsas alegrias, revelando os terríveis castigos e os grandes triunfos pelos quais passará a Cristandade!

    A  Vós, que denunciastes com tanta clareza os extremos de abominação moral a que chegamos e, ao mesmo tempo, fizestes ver a plenitude de vossa insondável santidade, eu Vos suplico: mudai o meu espírito!

    Não permitais que eu continue sendo uma dessas incontáveis pessoas de horizontes curtos e de interesses circunscritos à pequena esfera de sua própria individualidade. Fazei, pelo contrário, que pela despretensão e abnegação eu seja uma alma aberta e ardente, capaz de medir em toda a sua extensão os extremos que em Fátima se divisam e de tomar uma posição intransigente e completa a favor do extremo sacrossanto que sois Vós, oh! minha Mãe: extremo de amor de Deus, de pureza, de humildade, de despretensão, de inquebrantável combatividade!

    Fazei com que eu, assim, seja um contrarrevolucionário modelar, um perfeito apóstolo dos últimos tempos.

    Amém.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Oração composta em 8/5/1971)

  • Padroeira do Brasil

    Pode-se dizer que o Brasil é um feudo de Nossa Senhora enquanto concebida sem pecado original, ou seja, da Imaculada Conceição.

    O fato dessa imagem ter sido encontrada no Rio Paraíba, no século XVIII, é de grande significado para o Brasil. Naquela época, embora francamente admitido pela maioria dos católicos, o dogma da Imaculada Conceição ainda não estava definido. E fazer uma profissão de Fé nesse augusto privilégio de Nossa Senhora constituía um distintivo de requintada ortodoxia.

    Ora, exatamente a partir do aparecimento dessa imagem, mais de um século antes da definição dogmática, foi o Brasil colocado sobre o patrocínio da Imaculada Conceição. Isto indica um chamado especial da Mãe de Deus para nossa Pátria, e é motivo de imenso júbilo para todos os brasileiros devotos da Santíssima Virgem.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 12/10/1970 )

  • Oração: Nossa Senhora Aparecida, glória, alegria e honra do nosso povo

    Ó Maria, abençoai-nos, cumulai-nos de graças e, mais do que todas, concedei-nos a graça das graças: Ó Mãe, uni intimamente a Vós este vosso Brasil!

    Tornai sempre mais maternal o patrocínio tão generoso que nos outorgastes. Tornai sempre mais largo e misericordioso o perdão que sempre nos concedestes.

    Aumentai vossa largueza no que diz respeito aos bens da terra, mas, sobretudo, elevai nossas almas no desejo dos bens do Céu.

    Fazei-nos sempre mais fortes na luta por Cristo-Rei, Filho vosso e Senhor nosso. De sorte que, dispostos sempre a abandonar tudo para Lhe sermos fiéis, em nós se cumpra a promessa divina do cêntuplo nesta Terra e da bem-aventurança eterna.

    Ó Senhora Aparecida, Rainha do Brasil, com que palavras de louvor e de afeto Vos saudar no fecho desta prece? Onde encontrá-las senão nos próprios Livros Sagrados, já que sois superiora a qualquer louvor humano? De Vós exclamava, profeticamente, o povo eleito palavras que amorosamente aqui repetimos: “Tu gloria Ierusalem, tu lætitia Israel, tu honorificentia populi nostri” (Jt 15, 10).

    Sois Vós a glória, a alegria, a honra deste povo que Vos ama!

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído do Jornal “Última Hora” de 12/10/1983)

  • Com Nossa Senhora não se brinca

    Há certos temas que nos são tão familiares e caros ao coração que se tornaram objeto de inúmeros comentários de nossa parte. Porém, não poderíamos deixar passar o dia 13 de outubro sem determos um instante nossa atenção no assunto Fátima. Desta vez não vou comentar tanto a Mensagem quanto a atitude do mundo perante ela.

    A Santíssima Virgem documenta a autenticidade de seu anúncio de dois modos. Em primeiro lugar, Ela a confia a pastorezinhos incapazes de compreender seu significado, limitando-se a repetir o que ouviram. Por vezes, discursos longos e complexos que eles transmitiam sem se contradizerem, mesmo submetidos a inquéritos policiais brutais.

    De outro lado, Nossa Senhora produziu milagres que provavam à multidão ali reunida, e mesmo a gente de muito longe, que algo de sobrenatural se passara, como, por exemplo, a famosa “dança” do Sol. Tudo atestado por pessoas que moravam muito distante de Fátima.

    Entretanto, chama a atenção no modo de o mundo receber a Mensagem de Fátima, não só a incredulidade de muitos à vista de episódios tão impressionantes, mas o fato de não se encontrar quem fizesse o seguinte comentário: tomada a Mensagem em si mesma, apenas pelo seu conteúdo, abstração feita de todos os prodígios que a cercaram, já havia todas as razões para admitir sua veracidade.

    Quem conhecesse um pouco de Moral não podia duvidar que o mundo estava imerso num processo de pecados gravíssimos, cujo dinamismo permitia antever aonde levariam a humanidade.

    Portanto, teologicamente falando, bastaria raciocinar um pouco para se ter a certeza de que, a não haver uma grande conversão, viria um castigo.

    Assim, com um pouco de conhecimento da Teologia da História, ver-se-ia tratar-se de uma mensagem condizente com o que um homem de Fé, analista dos acontecimentos da época, dotado de alguma profundidade, deveria pensar.

    Ora, as crianças transmitiram, assim, uma comunicação sábia e verdadeira em si mesma, de uma sabedoria e uma riqueza de conteúdo que excedia a capacidade delas. Logo, a mensagem é intrinsecamente verdadeira.

    Em última análise, alguém que observasse o mundo daquele tempo à luz da Revolução e da Contra-Revolução distinguiria na Mensagem três aspectos: uma descrição teológica dos pecados daquele tempo, o anúncio de um castigo e a indicação dos meios de escapar deste, isto é, a penitência e a consagração ao Imaculado Coração de Maria.

    A Porta da misericórdia é precisamente Nossa Senhora, chamada a Porta do Céu. Quer dizer, é ultra teológico que Ela tenha dito: “Cessem de pecar e recorram a Mim que obtenho a eliminação do castigo”. Nada mais razoável.

    Contudo, a humanidade recebeu a Mensagem de Fátima com orgulho, quando ela exigia um ato de humildade, ou seja, que os homens reconhecessem: “Nós pecamos, andamos mal”. Exigia a emenda, o abandono da impiedade e da imoralidade na qual iam caindo. Por isso houve uma rejeição global em relação a essa Mensagem. Os resultados, vemos por toda parte.

    Façamos um exame de consciência. Temos os olhos suficientemente abertos para a Mensagem de Fátima? Compreendamos que com Nossa Senhora não se brinca, e peçamos a Ela que tenha pena de nós(*).

    Plinio Corrêa de Oliveira

    * Excertos da conferência de 13/10/1970.

     

  • Nossa Senhora Aparecida e Imaculada Conceição

    A luta que, durante séculos, houve entre os que se opunham tenazmente à Imaculada Conceição e os que a defendiam, exprime de certa forma o combate entre revolucionários e contra-revolucionários. O Brasil, tendo como Padroeira a Imaculada Conceição Aparecida, tem uma vocação contrarrevolucionária. E chegará o dia bendito em que ele será uma grande nação escrava de sua Rainha e Senhora.

     

    A devoção a Nossa Senhora Aparecida, de fato, refere–se a uma imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição que recebeu o título de “Aparecida” porque apareceu no Rio Paraíba, e foi recolhida por pescadores em dois lances de rede diferentes: primeiro veio o corpo da imagem de barro e depois a cabeça.

    Disputas internas na Igreja a propósito da Imaculada Conceição

    Então, o título de Nossa Senhora Aparecida é uma espécie de segunda invocação ou de segundo título que se insere, à maneira de um ramo, no tronco principal que é Maria Santíssima enquanto concebida sem pecado original, quer dizer, a Imaculada Conceição.

    O fato de essa imagem ter aparecido no século XVIII, quando o Brasil ainda era colônia, tem um significado muito grande para nós. Durante muito tempo, desde primórdios da Igreja até o pontificado de Pio IX, foi discutido entre os teólogos se se poderia afirmar como dogma de Fé que Nossa Senhora tinha sido concebida sem pecado original.

    Muitos teólogos sustentavam deduzir-se isto das Sagradas Escrituras e, sobretudo, da Tradição da Igreja. Entretanto, havia teólogos que achavam o contrário, que Nossa Senhora não era isenta do pecado original.

    Na Igreja os espíritos mais “mariais”, mais tocados pela devoção a Nossa Senhora, sempre sustentaram que Ela não tinha sido concebida no pecado original. No curso dos séculos foi se consolidando a corrente a favor da Imaculada Conceição, sendo este tema objeto de muitas disputas internas na Igreja, a tal ponto que, 150 ou 200 anos antes de Pio IX e da definição do dogma, a questão já estava tão esclarecida que todo mundo com bom espírito defendia a Imaculada Conceição de Maria.

    Assim, tinham se diferenciado completamente dois filões dentro da Igreja; e ser favorável à Imaculada Conceição era um sinal, um distintivo de espírito contrarrevolucionário daquele tempo. E o Brasil foi colo-cado sob o patrocínio desta devoção, então contrarrevolucionária, exatamente a partir daquela época.

    Isto indica uma vocação contra-revolucionária do Brasil, que não podemos deixar de notar com reconhecimento a propósito desta festa.

    São Frei Galvão foi escravo de Nossa Senhora

    Por outro lado, uma coisa curiosa que eu soube recentemente é a seguinte: também no Brasil a escravidão a Nossa Senhora, ensinada por São Luís Maria Grignion de Montfort, entrou aqui muito mais cedo do que se supunha.

    Quando eu era pequeno nunca ou-vira falar da escravidão a Nossa Senhora, e só tive notícia desta escravidão quando comprei o “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, em francês; e depois conheci algumas pessoas que falavam da escravidão a Nossa Senhora porque tinham lido o “Tratado”, também em francês. Fiquei, assim, com uma impressão vaga, difusa de que no Brasil não houvera escravos de Maria Santíssima antes da penetração do livro de São Luís Grignion de Montfort neste País.

    Outro dia, lendo a biografia de Frei Galvão — aliás, vida muito bonita e cheia de pormenores interessantes —, franciscano morto em odor de santidade, fundador do Convento da Luz, onde foi sepultado, encontrei a fotocópia de um ato pelo qual ele se constituía escravo de Nossa Senhora, e há trechos inteiros tirados do “Tratado da Verdadeira Devoção”.

    Vê-se que ele adaptou um tanto a consagração de São Luís Grignion, mas no essencial é inteiramente aquilo. É uma consagração muito longa, talvez mais extensa que a de São Luís Maria Grignion de Montfort, e que enche, na caligrafia muito miúda dele, creio que os dois lados de uma folha de papel amarelada, que está exposta, aliás, no atual Museu de Arte Sacra, contíguo ao Convento da Luz.

    Tive a alegria de saber que Nossa Senhora já teve escravos muito anteriormente a nós, e que este País, onde a propensão sobrenatural para a devoção a Maria Santíssima é uma das bênçãos existentes, talvez tenha tido, desde o início, escravos de Nossa Senhora vivendo aqui e preparando o dia em que o Brasil inteiro seria uma grande nação escrava de sua Rainha e Senhora.

    Estas considerações feitas de passagem a respeito da festa de Nossa Senhora da Conceição Aparecida nos levam, entretanto, a aprofundar um pouco mais os comentários sobre dogma da Imaculada Conceição.

    Efeitos do pecado original

    Há quem confunda a Imaculada Conceição com outro predicado nobilíssimo de Nossa Senhora, mas que é distinto daquele: a virgindade de Maria Santíssima antes, durante e depois do parto, que é dogma de Fé.

    A Imaculada Conceição tem o seguinte sentido: havendo Adão e Eva pecado, e sendo eles, na presença de Deus, os pais do gênero humano, contendo, portanto, todo o gênero humano em si como, por exemplo, a semente contém a árvore, aconteceu que aquele pecado recaiu sobre toda a humanidade.

    É mais ou menos o que acontece quando o pai ou a mãe contraem uma doença muito ruim — eles podem não ter culpa disso, mas o filho acaba nascendo com esta doença. Assim, nós nascemos com o peca-do original.

    Os efeitos do pecado original no homem são tremendos. Todo o prosaísmo que existe na natureza humana, tudo aquilo que no homem causa repugnância, asco, por exemplo, é efeito do pecado original. Nós não sabemos como funcionava o organismo antes do pecado original, mas é positivo que nada do que se dava no organismo humano antes era nojento como as coisas depois desse pecado.

    Os Santos acentuam muitas vezes a miséria da condição do homem depois do pecado, como tendo um corpo que de si, continuamente, produz imundícies. Isto é bem verdade, e é uma das notas mais humilhantes da condição humana. Tudo quanto sai do homem é desagradável, nós reputamos sujeira, desde o pranto até o suor, etc., porque vem carregado do prosaísmo deste corpo que tem a nódoa do pecado original.

    O homem se tornou sujeito à dor, à doença, à morte depois do pecado original. E sujeito ao erro; o homem não errava antes do pecado original, não havia nele esta oposição entre a sensibilidade, de um lado, e a inteligência e a vontade, do outro.

    Tantas vezes desejamos algo que nossa inteligência mostra ser reprovável, e daí surge a necessidade de nossa vontade mover um combate para recusarmos à nossa sensibilidade aquilo que a inteligência indica que é ruim.

    Nada disto existia no homem antes do pecado original, e o ser humano era uma criatura absolutamente superior, de cuja perfeição não temos ideia.

    Se um homem concebido antes do pecado chorasse, o seu pranto seria perfumado e bonito e nunca uma das imundícies da Terra. Do seu corpo nada de sujo exalaria; enfim, todas as mil misérias que nos afligem o homem não teria antes do pecado original.

    Um problema psicológico

    Então, por detrás do pecado original e de Nossa Senhora, se punha o seguinte problema, que tem um valor não tanto teológico quanto psicológico: a Santíssima Virgem Maria como era? Por exemplo, Ela estava sujeita ao resfriado? Teria nossas mil mazelas físicas?

    Não havia dentistas naquele tempo. Mas nós poderíamos imaginar Nossa Senhora indo a um dentista, se os houvesse? Ou consultando um médico, porque tinha, por exemplo, um cálculo nos rins? Naquela época o médico era um pouco mais do que um curandeiro, mas já se julgava muito seguro de sua arte.

    Se nós imaginássemos a Virgem Maria assim, ou nossa ideia a respeito d’Ela diminuiria, ou a nossa rejeição em relação a essas misérias do homem decresceriam, e sentiríamos menos que elas são efeito do pecado.

    Não quero dizer que todo mundo que foi contra a Imaculada Conceição tinha este mau espírito, mas quem possuía mau espírito era pro-penso a ser contrário à Imaculada Conceição. Compreende-se aí o problema psicológico que se põe.

    Entende-se também que espécie de família de almas combateu tenazmente a Imaculada Conceição até o fim, e nota-se algo do sentido revolucionário e contrarrevolucionário desta luta.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • Nossa Senhora

    Eu venho tão do alto… E posso tudo. Em Mim reside o reflexo perfeito da bondade incriada e absoluta. Aquilo que Eu quero doar porque sou boa, aquilo que desejo conceder porque sou Mãe, aquilo que posso dar porque sou Rainha, isso, meu filho, Eu dou! Eu não te digo uma palavra, mas faço algo muito melhor que falar a teus ouvidos… Eu te comunico uma graça que murmura no  fundo de tua alma.

    Sentes essa paz que transborda de Meu coração, que te envolve, te penetra e te cumula? Essa paz que nenhuma alegria terrena pode trazer, e que te  faz sentir uma tranqüilidade interior, na qual ressoa minha voz, inaudível a teus sentidos: Tudo está resolvido! E aquilo que não estiver, resolver-se-á. Confia em Mim, Eu acertarei tudo.

    As aparências podem não ser essas. Mas… Aceita esse sorriso, percebe esse sussurro, contempla essa bondade… E não duvides jamais!

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • O ideal de Cavalaria, plenitude do espírito católico – I

    O principal elemento do ideal de Cavalaria é o alto sentido pelo qual o cavaleiro combate: a Santa Igreja Católica e a Civilização Cristã. Pelo senso católico o verdadeiro cavaleiro discerne a necessidade mais preeminente da Igreja e luta por ela. Um dos traços mais característicos do cavaleiro é o gosto pelo risco que o faz, por assim dizer, tocar em Deus.

     

    A palavra “Cavalaria” traz consigo uma série de ressonâncias heroicas e brilhantes. Ao falar sobre ela temos a impressão de ouvir o tropel de vários cavalos que seguem garbosamente rumo à aventura e ao adversário.

    Um homem que atingiu a sua plenitude

    Por cima do cavalo, naturalmente, o cavaleiro. Nós o imaginamos um homem que realiza o seguinte estado de espírito: atira-se sobre desconhecidos, em direção à luta e aos riscos. Está encantado com o que faz, embora possa lhe ocorrer as piores coisas: ser ferido, morto, ficar estropiado a vida inteira. Entretanto, vai alegre para essa aventura, porque deseja a vitória de um ideal e almeja ser cercado de uma grande glória. O cavaleiro nos parece, debaixo desse ponto de vista, o homem que atingiu a sua plenitude.

    Há uma forma de admiração pelo cavaleiro que não se tem por todas as outras plenitudes que o homem possa realizar. Por exemplo, a plenitude da sabedoria de quem alcança uma grande ciência, do senso diplomático, do tato político, do gosto artístico ou da oratória. Nenhuma dessas plenitudes parece ter importância quando as comparamos com a do cavaleiro que parte para a Cruzada tendo marcado o peito com uma cruz, a cabeça protegida pelo elmo de metal prateado e encimado por um penacho, portando o escudo e cingindo a espada, e sobre quem bate o Sol enquanto ele avança para a luta. Este parece realizar a plenitude humana de um modo insuperável!

    O ideal da Cavalaria: a Igreja Católica

    Poderíamos nos perguntar o que há de tão extraordinário no ideal de Cavalaria para entusiasmar tantos homens ao longo da História. Ainda hoje, quando se quer fazer o elogio de alguém, afirmar que é um homem completo, no sentido mais nobre da palavra, diz-se ser um perfeito cavaleiro. Ou seja, ele é ao mesmo tempo corajoso e cortês, condescendente, amável, cheio de bondade, mas valente, audacioso e seguro de si.

    Poder-se-ia dizer que a noção de Cavalaria está para nós como o penacho para o elmo de um cavaleiro. O elmo pode ser o mais bonito, mas sem o penacho flutuando ao vento ele não realiza toda a sua beleza. Assim, também, todos os nossos ideais podem ser comparados a um elmo. Entretanto, o penacho é o ideal do cavaleiro.

    O que é, precisamente, o ideal de Cavalaria? Seu principal elemento é o alto sentido pelo qual o cavaleiro combate. Ele é antes de tudo um católico apostólico romano, vive para a causa da Igreja e quer que ela vença.

    Porém, não se trata de um querer sob qualquer aspecto. Não é, por exemplo, como um missionário, um pregador, um indivíduo que se preocupe com a arte sacra. Todas essas coisas são excelentes para a causa da Igreja, mas o cavaleiro é aquele que considera a maior das necessidades dela no presente momento e a atende.

    Assim, no tempo das Cruzadas, vemos que a luta contra os maometanos constituía uma necessidade primordial. De que valeria ter universidades, construir catedrais, castelos, fazer uma civilização esplêndida, se os maometanos entrassem e derrubassem tudo? Não teria adiantado de nada. Ou seja, as lutas contra os mouros era um ponto de importância tal que todo o resto dependia disso. Se nessa luta os católicos vencessem, tudo poderia se esperar; se não vencessem, tudo se perdia.

    O cavaleiro é dotado de uma particular forma de senso católico que o leva a tratar da causa essencial, ir diretamente ao mais importante, ao mais exato e ali aplicar os seus recursos. É um homem que se dedica à salvação pública e ao que é supereminente dentro da causa católica.

    O gosto pelo risco e pelo sacrifício

    Outro elemento essencial dentro da Cavalaria é o gosto pelo risco. O cavaleiro luta por sua vida, mas não hesita em expô-la pela causa à qual serve. É o herói católico que vai de encontro à morte para defender a Igreja e a Civilização Cristã naquilo que ela mais precisa. Tem-se, assim, a ideia de Cavalaria inteiramente posta. Essa noção de gosto pelo risco, pelo sacrifício precisa ser especialmente acentuada, porque nela encontramos o traço mais característico do cavaleiro.

    De si, o homem tem pânico do risco. O instinto de conservação e o bom senso levam-no a poupar-se. Qualquer pessoa colocada diante de um perigo tem medo e razoavelmente procura fugir. Alguém com muito heroísmo pode até enfrentar o adversário ou o perigo com resignação. Por exemplo, durante uma epidemia de meningite, cuidar de pessoas que contraíram essa doença contagiosa é um ato de coragem, porque a moléstia pode matar quem está tratando dos outros. Apesar disso, a pessoa pode ir resignadamente tratar dos atingidos pela meningite.

    Um cavaleiro vai resignadamente para a guerra? Não. Mais do que uma resignação, ele tem euforia, alegria! Qual o fundo dessa euforia do cavaleiro com o risco? Como um perigo pode transformar-se numa alegria para um homem?

    No fim da vida, todo ser humano deve deixar esta Terra e ir para o Céu

    Todo homem sente em si a condição de criatura contingente e sabe que vai morrer. A morte é inerente à natureza humana, assim como respirar, comer, dormir. O homem precisa morrer, e nisto há um ditame da Sabedoria Divina. Por natureza, Adão e Eva eram mortais. Deus concedeu-lhes a graça da imortalidade por um dom gratuito. Quando, em punição pelo pecado, o Criador retirou deles esse dom, passaram a estar sujeitos à morte. O primeiro homem que morreu foi Abel, assassinado por Caim. Depois, os outros começaram a morrer por doenças, acidentes e por tudo quanto morrem os homens.

    Se Adão e Eva não tivessem pecado, como teria sido o fim da vida deles? Teria sido, ao pé da letra, uma apoteose, uma glorificação. Eles iriam subindo de virtude em virtude, e quando tivessem alcançado perfeição para a qual foram criados, Deus os chamaria a Si para o Céu, e eles se elevariam aos olhos de todos os descendentes numa festa paradisíaca extraordinária, e passariam do Paraíso terreno para o celeste.

    Podemos imaginar essa apoteose da seguinte maneira: Adão, por exemplo, com novecentos anos, tendo chegado ao ápice de sua virtude, iria se tornando cada vez mais luminoso, elevado, mais unido a Deus que, em determinado momento, o avisaria: “Tu, agora, vais deixar o mundo.” Adão convocaria todo o gênero humano em torno dele, centenas ou milhares de descendentes que povoariam o Paraíso. Então, do alto de uma montanha, começaria a subir lentamente. Os homens glorificando-o e ao mesmo tempo ouvindo cantos dos Anjos descendo para chamá-lo até Deus. Assim o primeiro homem subiria até o Céu. Seria uma verdadeira maravilha.

    Entretanto, mesmo sem morrer, Adão teria de deixar esta Terra e tudo quanto é dela, e ir para o Céu.

    Glória: o efeito que se volta para a própria causa

    Que princípio está por detrás disto? Como explica São Tomás de Aquino, o movimento perfeito é aquele cujo ponto terminal volta à própria causa. Assim, a criatura atinge sua perfeição quando, percorrendo todo o seu périplo, retorna à Causa que a produziu. Nesta volta do efeito à sua própria causa encontra-se a definição de glória.

    Por exemplo, uma bela escultura é a expressão do talento do escultor, e nisso há uma glória, porque aquela obra, a seu modo, louva quem a fez. Isso se dá com ainda mais propriedade nas criaturas racionais. Assim, também o homem criado por Deus deve voltar a Ele para glorificá-Lo.

    Por este princípio, se Deus não tivesse dado a imortalidade a Adão no Paraíso e, sem ter pecado, ele tivesse de morrer, ainda assim seria muito bonito. Debaixo de certo ponto de vista, talvez tivesse uma beleza maior, apesar do lado sinistro da morte. Seria a bela atitude do homem que, terminada sua trajetória na Terra, compreende que precisa passar por uma destruição, isto é, a separação entre alma e o corpo, e por esse meio dar glória a Deus. Ele imerge nessa destruição por um ato de adoração e diz: “Ó Deus, sois tão perfeito, tão celeste, numa palavra só, tão divino, que quero me unir a Vós, mesmo tendo de passar por esse vale profundo. Já que me criastes, mereceis a minha destruição. Eu a aceito em louvor a Vós, meu Criador! Sei que sobreviverei à minha própria destruição e ressuscitarei, e me unirei a Vós por toda a eternidade.”

    Há, portanto, uma espécie de gosto nessa destruição que é o voltar para nossa Causa e dar glória a Ela, compreendendo a sublimidade desse ato pelo qual o homem, por amor e para a glória de Deus, aceita ser destruído. E, no ato de destruição, ele é como que assumido, colhido e levado por Deus.

    Por pior e mais triste que seja, a morte do homem em estado de graça é uma coisa sublime. Podemos imaginar tudo: a saúde que vai se retirando, os sentidos desaparecem, os suores finais, a última agonia… Morreu, a alma é colhida por Deus e levada ao Céu. Há o fim espetacularmente belo, embora o meio para chegar a ele seja tremendo. Mas o homem que tem Fé conhece a beleza desse fim e imerge na morte com decisão.

    A morte é o mais belo lance da vida

    Eu conheço a morte de uma senhora que foi assim. Ela estava extremamente idosa, o estado de saúde dela por um fio, movimentos indecisos. Quando ela sentiu que a hora da morte se aproximava, fez o Nome do Padre com toda a decisão de uma pessoa sadia. Morreu, Deus colheu a sua alma.

    Aceitar essa separação, compreendendo que é uma sublimação e uma elevação para o Céu, há nisto um ato de adoração a Deus e de plenitude do homem que faz da morte o mais belo lance da vida. Então, mais belo do que viver é morrer. A morte é o ápice. É isto que está no alto da noção de Cavalaria.

    O cavaleiro que caminha a todo tropel rumo ao adversário para libertar o Santo Sepulcro sabe que pode ser morto, mas compreende que ele atinge a sua finalidade morrendo em holocausto a esse Deus que lhe deu a vida. Assim ele é colhido por Ele, entra na glória e se une a Deus por toda a eternidade.

    A beleza desse salto no escuro e no desconhecido para encontrar do outro lado a luz eterna, a lógica e a clareza de entendimento com que a pessoa se atira têm uma força que é a mais bela ação do homem na vida. Essa alegria do homem no morrer e, portanto, no risco é propriamente o que dá dignidade à Cavalaria.

    Um cruzado paraquedista que luta e se imola por Deus

    Quando o homem sabe que está correndo risco com esta finalidade, o perigo é como que raspar pela Divindade, sentir-se envolto já em Deus por todos os lados para eventualmente ser colhido por Ele de qualquer forma e a qualquer momento. Eis o modo pelo qual o homem se eleva acima de todo o contingente e transitório, e compreende que a única coisa válida é Deus e aquilo que é eterno. Esse estado de espírito é de uma altura, uma pureza, uma nobreza que não se compara com nada.

    Pode-se entender, por estas considerações, a beleza do que seria um paraquedista cruzado em nosso século. Abre-se a porta do avião, vinte homens pulam no vácuo. O paraquedista fica esperando o paraquedas abrir – há casos em que não abre –, e vai descendo para o abismo. Por baixo, veem-se os tiros de metralhadora e os jatos de luz para focalizá-lo e matá-lo. Ele está sobre um fio e a morte o cerca, assim como o vento, com aquele ar muito puro das alturas, o inunda por todos os lados. Nesse momento ele sente que está em contato com Deus, quase raspando n’Ele.

    A beleza fundamental disso está nessa espécie de “vizinhança” de Deus, que quase o colhe, e o paraquedista vai dizendo: “Sim, sim, sim!” Ele sabe que está realizando dois atos sublimes: lutando e imolando-se por Deus. Esse herói é uma vítima nas mãos do Criador. Do alto do Céu os Anjos acompanham os movimentos da luta e do corpo dele, vão sorrindo e cantando, dando glória a Deus pela decisão que esse valente tem de aceitar a morte. Se morrer, ele é levado para o alto; se não morrer, ele como que já transpôs os umbrais da vida e poderá dizer para os seus descendentes: “Meninos, eu já estive perto da morte!” Isso tem uma majestade! Equivale a dizer: “Eu estive perto de Deus!”

    De outro lado, há uma beleza especial nesse correr o risco: às vezes a pessoa pressente que Deus não quer que ela morra. Ela quereria, estaria disposta a ceder a sua vida, mas como não é a vontade divina, ela mesma sente aquela espécie de confiança de que, em meio a mil perigos, Deus vai protegê-la. Este misto de risco e proteção, este sentido de que a pessoa está nas mãos de Deus e de que Ele a ajuda é ainda uma forma de tocar no Criador.

    Tanto no perigo quanto na morte toca-se em Deus. Entretanto, no primeiro “raspamos”, como que tocamos com a mão n’Ele, sem entrar definitivamente em seu seio. Mas, de qualquer forma, para o verdadeiro católico o risco e a morte são meios de nossa alma se elevar esplendidamente a Deus. São estados de alma de grande união com Ele. Aí está exatamente a beleza do risco e da morte.      v

    (Continua no próximo número)

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 3/8/1974)
    Revista Dr Plinio 259 (Outubro de 2019)