Autor: Nelson

  • Inteira e filial confiança em Nossa Senhora

    Pedimos-vos, ó Mãe, que do alto do Céu desçam sobre nós, vossos filhos, as bênçãos maternais nascidas de vosso inesgotável afeto.

    Como os discípulos de Emaús rogaram ao Divino Redentor, nós Vos pedimos que essas bênçãos “permaneçam conosco”, “porque se faz noite” sobre o mundo.

    A cada instante, a cada angústia, a cada necessidade, ajudem-nos elas a manter a mais inteira e filial confiança em Vós.

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • Presença que emudecia os ídolos

    São Saturnino possuía uma ação de presença pela qual o simples fato de passar diante dos ídolos, através dos quais os demônios falavam, fazia com que os espíritos maus fugissem e os falsos deuses emudecessem. Porque em face do varão de Deus o demônio se acovarda e foge realmente, e os ídolos não falam mais. Peçamos a Nossa Senhora, por intermédio deste Santo, que nos consiga a abreviação destes dias terríveis nos quais vivemos, para que possamos ter a alegria de ver os demônios fugirem envergonhados diante dos olhos de Deus.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 28/11/1968)
    Revista Dr Plinio 260 (Novembro de 2019)

  • Simbolismo da Medalha Milagrosa

    Numa face da medalha, a Santíssima Virgem pousa os pés sobre o mundo e calca uma serpente, exprimindo assim a sua realeza, lembrada em Fátima e afirmada como uma vitória sobre a Revolução: “Por fim o meu Imaculado Coração triunfará”. A Revolução será derrotada, e na Contra-Revolução teremos a vitória do Coração Imaculado de Maria.

     

    Comemora-se a 27 de novembro a festa da Bem-aventurada Virgem Maria da Medalha Milagrosa, dia em que, no ano de 1830, Nossa Senhora apareceu a Santa Catarina Labouré, em Paris, e revelou-lhe o desenho da medalha milagrosa.

    Nossa Senhora calca aos pés o mundo e uma serpente

    Quando esta revelação foi divulgada, verificou-se que a Medalha Milagrosa era ocasião para um número enorme de graças de conversão, das mais extraordinárias. Com o que se patenteou ou se documentou mais uma vez que esta devoção era muito desejada por Maria Santíssima. Por causa disso, estabeleceu-se o excelente costume de colocar no ponto de entroncamento das contas do Rosário a Medalha Milagrosa; de fato seu culto é cercado de toda espécie de graças.

    Essa devoção preparou as almas muito poderosamente para a definição de um dos mais importantes dogmas de Nossa Senhora: a Imaculada Conceição. Vale a pena, portanto, fazermos uma análise da medalha e de tudo quanto ela simboliza para compreendermos o que a Providência Divina teve em vista quando favoreceu com tantas graças essa devoção que a própria Mãe de Deus revelou a Santa Catarina Labouré.

    Vemos numa face da medalha a Santíssima Virgem pousando os pés sobre o mundo, na afirmação de sua realeza sobre toda a Terra. É exatamente essa a doutrina da realeza de Nossa Senhora, lembrada em Fátima e afirmada como uma vitória sobre a Revolução: o comunismo espalhará os seus erros por toda parte, o Papa terá muito que sofrer, a Igreja será perseguida, “por fim o meu Imaculado Coração triunfará”. Quer dizer, a Revolução será derrotada, e na Contra-Revolução nós teremos, então, a vitória do Coração Imaculado de Maria.

    Nossa Senhora aparece calcando aos pés não só o mundo, mas também uma serpente, o que é inteiramente coerente com o resto, porque nesse mesmo lado da medalha está escrito: “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós!”

    É, portanto, a Imaculada Conceição, mas com um atributo que não se encontra nas imagens dessa invocação como tal: Nossa Senhora está com as mãos abertas em sinal de aquiescência, de atendimento, e delas partem fachos luminosos imensos. São as graças e os favores que por suas mãos – pela ação, por meio d’Ela – descem sobre o mundo.

    Visão grandiosa da vitória de Maria Santíssima

    Temos, assim, algo que faz pensar na verdade de Fé da mediação universal de Maria. As graças passam pelas mãos de Nossa Senhora –  elas são as distribuidoras dos dons divinos – e numa quantidade enorme se precipitam sobre a Terra.

    Segundo diversas revelações, a vitória sobre a Revolução dar-se-á no momento culminante dos castigos descritos de vários modos. Ana Catarina Emmerich, por exemplo, em uma de suas descrições narra a vitória de Nossa Senhora no Vaticano. Ela vê Maria Santíssima entrando na Praça de São Pedro – dado muito curioso, porque dá a ideia de que Ela não estava presente no Vaticano –, elevando-se até o alto da cúpula de onde Ela estende a sua ação sobre o mundo inteiro e o cobre com seu manto; e, então, a Revolução cessou.

    Nessa face da medalha temos, assim, uma série de conceitos que se conjugam para dar uma visão grandiosa da vitória de Maria no mundo. Essas graças descem para a conversão dos pecadores, dos hereges, mas também o castigo dos irredutíveis para a proteção daqueles que se mantiveram fiéis até o fim, e os auxílios para que se mantenham na fidelidade. Tudo isso sai das mãos de Nossa Senhora como de um manancial. Ela está afável, risonha, acolhedora para todos aqueles que, tendo em vista esse conjunto de fatos, de símbolos, de atributos, de noções, se dirijam confiantes a Ela, pedindo as graças de que precisam.

    O verso da medalha não é menos simbólico. Ele contém os elementos de várias devoções conjugados: as doze estrelas lembram aquelas com que a Santíssima Virgem é representada coroada no Apocalipse; no centro vemos o “M”, primeira letra do nome de Nossa Senhora, sobre o qual está uma cruz. Isso recorda muito tudo quanto ensina São Luís Grignion de Montfort, no “Tratado da verdadeira devoção” e na “Carta Circular aos amigos da Cruz”; e, por fim, abaixo do “M”, as duas grandes devoções que constituem, no fundo, uma só: ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria.

    Graças concedidas para a luta contra a Revolução

    São graças concedidas nos tempos modernos para a luta contra a Revolução: o dogma da Imaculada Conceição, que deveria ser definido algumas dezenas de anos depois da aparição da Medalha Milagrosa; as devoções ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria, nascidas das revelações de Paray-le-Monial e dadas para evitar a Revolução na França; a obra de São Luís Maria Grignion de Montfort, também suscitada para impedir aquela Revolução.

    De maneira que esses símbolos todos se conjugam como uma espécie de compêndio dos temas ou dos pontos mais sensíveis para a piedade católica, que lembram mais aos católicos o objeto natural de suas inclinações, de sua confiança.

    Temos aí a razão pela qual essa medalha foi objeto de tantas graças. Lembrem-se que ela não foi composta por ninguém. Toda a sua constituição, todos os elementos que nela se encontram foram indicados por Nossa Senhora a Santa Catarina Labouré. De maneira tal que isso tem um sentido muito profundo, é uma espécie de sumário das devoções que nós mais devemos considerar. Por essa razão precisamos amar muito essa medalha, vendo nela como que um programa para nós; e usá-la, tê-la sempre conosco.

    Outra devoção esplêndida que os católicos sempre tiveram, desde a Idade Média para cá, foi o Rosário. Colocar essa medalha no Rosário é uma ideia felicíssima, muito harmoniosa, lógica, razoável, e constitui um todo de objeto de piedade que nos deve falar muito à alma e despertar a nossa devoção.

    Escudo contra todas as tentações do demônio

    Vamos pedir a Nossa Senhora o favor de, pelas graças da Medalha Milagrosa, apressar o dia de sua vitória. E também de nos ajudar a sermos fiéis durante todas as tormentas que se aproximam. Porque devemos nos lembrar bem disto: a perseverança é uma graça inestimável. Do que adianta uma pessoa ter Fé, virtudes, se depois vai cair no pecado? Essa perseverança não é fruto de nossas qualidades pessoais, mas da graça que se trata de pedir humildemente, de implorar com insistência, e à qual é necessário corresponder. Portanto, precisamos pedir as graças que nos assegurem a perseverança.

    Há, hoje em dia, tantas almas tentadas levadas pelo o demônio para os rumos mais execráveis! Talvez nem todo mundo tenha a ideia de qual é a ação, a força do demônio na época em que nós estamos. Um Santo, cujo nome não me lembro, afirmou serem tão numerosos os demônios que pairam pelos ares para a perdição das almas que, se pudessem ser vistos, obscureceriam até o Sol, pois formariam uma espécie de capa em torno da Terra.

    Esses são os demônios, os quais, segundo Ana Catarina Emmerich, atuam sobre as almas não diretamente para levá-las ao pecado, mas para criar um clima que torna depois a tentação dos outros demônios quase irresistível, avassaladora. Se o mal em nossos dias tem tanta possibilidade de progressão é porque ele encontra em toda parte o clima psicológico preparado.

    A meu ver, muitas vezes por dia o demônio tenta as pessoas. Nem sempre serão tentações sensíveis, é evidente. Mas é uma ação quase imperceptível. Há também demônios que fazem assaltos violentos; estes, porém, não são os mais perigosos.

    Então nós devemos compreender que essa medalha, com todos os seus símbolos e recomendada por Nossa Senhora, é um dos penhores da aliança d’Ela conosco. É um dos meios, uma espécie de escudo que Ela nos dá para a luta contra todas as tentações do demônio.

    A invocação de Nossa Senhora das Graças ou da Medalha Milagrosa, por tudo quanto ela contém e, sobretudo, pela Imaculada Conceição que está esmagando a cabeça do demônio, é particularmente eficiente nessa luta contra o poder das trevas, que tanto e tanto nós devemos conduzir nos dias de hoje.

    Eis uma razão a mais para nos aferrarmos a esses símbolos, a essa medalha, ao escapulário do Carmo, ao Rosário. Devemos ter sempre conosco esses objetos de piedade, como meio de luta contra o demônio. Essa é uma consideração que me parece particularmente importante nos dias em que vivemos.   v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 27/11/1964)
    Revista Dr Plinio 260 (Novembro de 2019)

  • Sacrário de Nosso Senhor

    Nossa Senhora é o sacrário onde está Nosso Senhor Jesus Cristo e o santuário de dentro do qual todas as graças se difundem para o gênero humano. Devemos rezar a Jesus enquanto vivendo em Maria porque Ele quer ser invocado dentro do seu templo, que é a Santíssima Virgem. Peçamos que Ele viva em nós como vive n’Ela.

    Jesus Cristo viver em nós significa termos o espírito da santidade d’Ele, que é o espírito da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Portanto, o espírito contrarrevolucionário, expressão mais característica do espírito da Santa Igreja. Eis o que devemos pedir a Jesus, por meio de Nossa Senhora, enquanto vivendo n’Ela.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 23/5/1966)
    Revista Dr Plinio 260 (Novembro de 2019)

  • O pontificado aliado à santidade

    São Leão Magno foi um dos maiores papas que a História registra. Lutou em seu pontificado contra numerosas heresias que então agitavam a Igreja.

    Com a autoridade de Papa aliada à qualidade de Santo, cuja santidade foi confirmada por um dos maiores milagres da História da Igreja – a vitória sobre Átila e suas tropas que pretendiam invadir Roma –, fez sermões advertindo o povo contra os hereges, exortando-o a denunciá-los aos sacerdotes e vigários, para sofrerem as penas canônicas e, eventualmente, também as temporais.

    Portanto, ele praticou uma virtude que hoje seria muito pouco apreciada, por ser oposta ao ecumenismo mal compreendido. O que diria São Leão Magno diante das heresias soltas em nossos dias?

    Peçamos a ele que reacenda na Igreja esse espírito de discernimento, de intransigência e de luta, que seria suficiente para evitar ao mundo os terríveis castigos pelos quais inevitavelmente vai passar, se não se converter. Que ao raiar a aurora do Reino de Maria esse espírito esteja imensamente aceso e dure até o fim dos tempos.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 10/4/1967)

    Revista Dr Plinio 248 (Novembro de 2018)

  • São Leão IX: ascendendo

    Comentando uma biografia do Papa São Leão IX, Dr. Plinio analisa o importante papel da graça e da virtude, bem como os benfazejos perfumes da santidade.

    Tendo-me sido fornecida uma sintética, porém atraente, biografia de São Leão IX(1), pediram-me para que tecesse a respeito dela alguns comentários, o que farei de bom grado.

    Aliança entre a grandeza terrena e o serviço de Deus

    São Leão IX nasceu no ano de 1002, nos confins de Alsácia. Seu pai era Conde de Ingersheim e primo-irmão do Imperador Conrado, o Sálico. Sua mãe lhe deu o nome de Bruno. Ao atingir a idade de 5 anos, foi confiado, por seus pais, à educação de Bertoldo, o venerável Bispo de Toul, o qual dirigia então uma escola no próprio palácio episcopal.

    Como vemos por esses dados, São Leão viveu em plena Idade Média. Neste trecho já se encontra uma nota interessante e peculiarmente medieval, ou seja, o fato de haver uma escola dirigida pelo bispo e que funcionava no próprio palácio episcopal.

    No colégio, Bruno foi confiado particularmente a um primo seu, chamado Aderico, filho do Príncipe de Luxemburgo; os dois se tomaram de uma íntima amizade. Seu primo foi-lhe modelo de todas as virtudes e serviu extraordinariamente para sua formação.

    Havia na Idade Média, pessoas pertencentes à mais alta categoria social e que se destacavam, sobretudo, por sua extraordinária virtude. Formava-se assim uma aliança entre a grandeza terrena e o serviço de Deus.

    A Igreja Católica como centro de tudo

    Tendo recebido do Bispo de Toul as sagradas ordens, foi nomeado clérigo da Capela do palácio do Imperador Conrado, o Sálico.

    Todos os Imperadores tinham sua própria capela, na qual um conjunto de capelães mantinha o culto. O fato de ser clérigo na capela imperial era, portanto, uma situação de alta confiança, pois conferia a oportunidade de estar em contato direto com o Imperador.

    Por outro lado, é digno de nota o fato de o Imperador ter sua capela própria, donde decorre que o elemento central de sua vida de corte era a recitação do Ofício Divino, a Santa Missa e outras práticas de culto católicas.

    Esse piedoso costume, por sua vez, provinha da convicção profunda e verdadeira que estava radicada na sociedade daquele tempo: a Igreja Católica deve estar no centro de todas as coisas. E, portanto, na Corte imperial o elemento central devia ser a capela, onde estava presente o Santíssimo Sacramento, ou seja, Nosso Senhor Jesus Cristo, o Rei dos Reis. Também ali devia estar a imagem de Nossa Senhora Rainha e Mãe. Como isso é diferente dos costumes laicos e divorciados da verdadeira posição católica!

    A virtude outrora era um título de ascensão

    Bruno foi imediatamente bem visto pelo Imperador, que impressionado com suas virtudes passou a tratá-lo de “meu sobrinho”.

    Ser tratado de primo e sobrinho do Rei era considerado pelas cortes daquele tempo uma honra extraordinária. Ele realmente era parente do Imperador, mas não em grau tão próximo; era filho de primos e não de irmãos do Imperador, portanto não era de fato seu sobrinho. Mas, o Imperador o tratava como sobrinho, elevando-o assim à categoria de Príncipe da Casa Imperial. A principal razão dessa honraria era a alta consideração do Imperador pelas virtudes de Bruno.

    Como na Idade Média a maior parte das pessoas procurava a todo custo manter a posse do estado de graça, criava-se um ambiente onde a virtude era bem vista, e constituía um título de ascensão e não um título de perseguição como cada vez mais vem se tornando nos dias atuais.

    Algum tempo depois, no ano de 1026, o Imperador recebeu a visita de clérigos da Diocese de Toul, que lhe anunciavam a morte do Bispo e o desejo de toda a população que Bruno fosse designado para a diocese vaga. Conrado acedeu, apesar de Bruno não ter ainda a idade canônica.

    Aqui vemos um costume medieval que como outros é preciso ser bem entendido. É preciso levar em conta que a nomeação de um Bispo sempre foi privilégio papal. Porém, para isso o Papa pode receber indicações, as quais ele é livre de aceitar ou recusar. Ora, na Idade Média mantinha-se o costume proveniente dos primeiros tempos da Cristandade, pelo qual o povo da diocese podia aclamar ou propor um nome, mas cabia ao Papa ratificar ou não a proposta.

    Com a implantação do Sacro Império, os Imperadores também tomaram o hábito de propor candidatos ao episcopado. Então se formava uma corrente de mediações, onde o povo propunha ao Imperador um nome e este, por sua vez, estando de acordo, propunha ao Papa. Mas, a palavra final sempre cabia ao Sumo Pontífice.

    Apesar da pouca idade, Bruno imediatamente se destacou entre os Bispos da região por sua capacidade e pela virtude com que dirigia a diocese.

    Note-se, portanto, a rapidez dessa ascensão, a qual se deve, acima de tudo, às suas notáveis virtudes.

    Quem se humilhar será exaltado!

    Durante 22 anos Bruno governou pacificamente e com brilho a Diocese de Toul. Com a morte do Papa Dâmaso II no ano de 1048, os romanos mandaram uma deputação ao Imperador Henrique III para pedir-lhe que designasse um novo Papa. O Imperador Henrique III reuniu, para esse efeito, uma Dieta em Worms, da qual participavam todos os Bispos do Império. Logo, todas as vozes designaram Bruno, Bispo de Toul, como futuro Papa. Tendo sido consultado, Bruno, por humildade, de nenhum modo queria aceitar o cargo; pediu então que lhe dessem alguns dias para refletir.
    Pediu tempo para refletir, mas de fato, o que ele queria era escapar do encargo de ser Papa.

    Terminado o prazo, apresentou-se diante de toda a Dieta de Worms reunida e disse que ele iria fazer uma confissão pública de todos os seus pecados, para fazer notar quanto ele era pecador e de nenhum modo digno do papado. Ajoelhou-se e fez sua confissão pública.

    A confissão constava de matérias tão leves, que o fato que ele considerava mais grave e pavoroso, mal dava matéria de um pecado venial. Tendo terminado, todos se levantaram e o aclamaram. Só um Bispo com tal limpeza de consciência poderia ser o Papa.

    Como última tentativa, ele levantou um sério problema: o Imperador não tinha direito de nomeá-lo Papa. O Papa só pode ser eleito pelo clero de Roma, na forma canônica, ouvindo, quando queira, o povo de Roma.

    Então ele iria a Roma a fim de lá consultar se o clero e o povo o queriam como Papa.

    Retirou-se e, tomando o traje de peregrino, saiu a pé de Worms em direção a Roma.

    Que extraordinária firmeza possuía esse homem, para tomar tal decisão, pois viajar a Roma supunha, entre outras dificuldades, a travessia dos Alpes, com suas neves eternas, montanhas escarpadíssimas e caminhos de cabras para transpor, pelo que essa viagem sempre foi considerada perigosa.

    Ele poderia ter ido andando até o mar Adriático e lá tomar um barco. Mas ele quis, como um penitente, ir a pé até Roma, onde esperava ser recebido como um mero peregrino. Ao chegar às cercanias de Roma, encontrou a população da cidade à sua espera.

    A cidade de Roma naquele tempo deveria somar entre duzentos a trezentos mil habitantes.

    Vestido como peregrino, com as vistas baixas e sem olhar nem dar atenção para ninguém, entrou em Roma, dirigindo-se diretamente ao túmulo de São Pedro para rezar.

    É possível a abundância do estado de graça numa época

    Este é realmente um homem reto, que faz as coisas como devem ser feitas.

    O povo de Roma, aclamando-o, quis naquele mesmo dia entronizá-lo. Mas ele disse que esperassem até o dia seguinte, para ainda poderem pensar. Mas, por fim, chegou o dia seguinte e o povo estava de tal maneira decidido de que ele deveria ser o Pontífice, que ele acabou por aceitar, sendo então entronizado na Sé Romana.

    Este apreço geral pela virtude daquele homem dá uma ideia do espírito que vigorava naquele tempo, e faz ver como é possível o estado de graça ser tão abundante em determinada época. Pois, sem ele, esses atos e gestos verdadeiramente extraordinários não se realizariam desta forma.

    Por inspiração divina, tomou o título de Leão, considerando que devia, à testa da Igreja, lutar como verdadeiro leão. De fato, não tardou em começar a luta contra os verdadeiros inimigos da Igreja.

    Um “Leão” em defesa da Igreja

    Quais eram os verdadeiros inimigos da Igreja?

    Naquele tempo, havia se difundido um abuso péssimo chamado simonia. Que consistia no seguinte: como a indicação dos cargos clericais era frequentemente feita pelo Imperador e pelo povo, acontecia que muitos homens vorazes, querendo ter cargos lucrativos, pagavam ao povo ou ao Imperador para serem indicados para o episcopado, ou então para que um parente ou alguém ligado a ele fosse nomeado Bispo, Abade e até mesmo Cardeal. Chegava-se até o absurdo de subornar os Cardeais e o povo de Roma, para elegerem determinado Papa, comprando assim até a Tiara romana.

    Esse processo de escolha não podia deixar de trazer os piores inconvenientes. Através dele, muitas vezes, eram os mais ordinários que assumiam cargos eclesiásticos, dentre os quais estavam pessoas de costumes inteiramente desregrados, que por um lado constituíam um escândalo geral na Cristandade, e por outro um perigoso amolecimento ante as investidas de pagãos. Estes vinham de todos os lados: os normandos vinham através do mar do Norte, penetravam pelo estreito de Gibraltar e atacavam o Sul da Itália; havia ainda restos de bárbaros que vinham dos países eslavos; e também os maometanos que atacavam por todas as partes.

    Neste momento em que a Cristandade precisava lutar especialmente para defender-se, ela se apresentava extraordinariamente debilitada, pela decadência espiritual causada pela simonia. Por isso, tendo assumido o papado, Leão IX começou a reunir diversos Sínodos e outros tipos de reuniões eclesiásticas, a fim de imediatamente punir e depor os Bispos que tinham tomado o cargo indignamente, nomeando bons para substituí-los. Isso causava, como é de se esperar, as mais acirradas indignações.

    Zelo na defesa dos súditos

    Ocupava-se ele com esse árduo trabalho, quando recebeu o aviso de que os normandos estavam por invadir a Apúlia, território do qual o Papa era Rei. Portanto, competia a ele defender seus súditos. Sem hesitação, foi a toda pressa à Alemanha a fim de pedir ao Imperador, seu parente, que mandasse um exército para defendê-lo.

    Tendo o Imperador prometido enviar-lhe auxílio, o Papa desceu até a famosa Abadia beneditina de Monte Cassino, uma das mais célebres do mundo, a qual não ficava a muita distância de Roma, e lá permaneceu à espera da chegada do exército imperial. De fato, algum tempo depois chega o exército, porém, para sua surpresa, este era constituído por apenas 500 lorenos. Isto porque o exército imperial, quando chegou próximo aos Alpes, desistiu de descer.

    A este punhado de combatentes tinham se incorporado pelo caminho alguns contingentes italianos, aos quais se somaram ainda alguns romanos, que eram senhores feudais da região. Assim constituiu-se o parco exército de resistência. Chegaram, por fim, os normandos, aos quais, apesar da desvantagem numérica, o exército do Papa ofereceu dura resistência que resultou numa tremenda carnificina.

    Contudo, os normandos acabaram por vencer a batalha e levaram cativo o Papa, ao qual, devido à dignidade e respeitabilidade de sua pessoa, dispensaram toda forma de honras e cuidados. Mas de todos os fatos da vida de Leão IX, nenhum me parece tão marcante da aprovação divina ao seu modo enérgico de agir, quanto às circunstâncias de sua morte.

    A doce mensageira da felicidade eterna

    A doença, doce mensageira da felicidade eterna…

    Como é linda esta expressão e contrária ao horror à doença que se tem em nossos dias. Claro que se deve combater a doença, mas com essa resignação deve-se aceitá-la.

    …a doença veio anunciar-lhe que sua hora tinha chegado. No dia 12 de fevereiro de 1054, ele celebrou por última vez o Santo Sacrifício da Missa onde dirigiu à multidão uma exortação comovedora.

    No dia seguinte, sabendo que sua hora estava próxima, ele quis ser transportado da cidade de Benevento para Roma. Foram os próprios normandos que reivindicaram a honra de levá-lo numa liteira.

    Que esplêndida glória ser carregado numa liteira pelo próprio “inimigo”!

    Desta forma o Papa voltou ao Palácio de Latrão no mês de abril de 1054, época na qual habitualmente ele reunia o Sínodo dos Bispos das províncias eclesiásticas circunvizinhas de Roma. Ele então as convocou para o dia 17 de abril. Reunidos os Bispos, ele lhes disse: “Eu me recomendo à vossa fraternidade porque o tempo de minha dissolução chegou”.

    Esta frase proferida pelo Papa é a reminiscência de uma citação de São Paulo, que manifestava o desejo de ser dissolvido, quer dizer, ter separada a alma do corpo, para subir a Jesus Cristo. “Na última noite, em visão, a glória da Pátria celeste me foi manifestada. Eu reconheci entre os grupos de mártires aqueles que morreram na Apúlia, para defesa da Igreja”.

    Aqueles valentes lorenos que morreram na Apúlia, em defesa da Igreja, os quais eram mártires, estavam à espera que Leão IX fosse juntar-se a eles no Céu.

    “Vem, nos disseram eles, e permanece entre nós, porque foi por teu intermédio que nós conseguimos as eternas felicidades. Mas uma voz, ao mesmo tempo, se fez ouvir, dizendo: ‘Não já, mas daqui a três dias somente.’”

    No dia seguinte, ele reuniu de novo os Bispos, e sendo posto numa liteira foi conduzido pelos seus fiéis normandos em procissão até à Basílica de São Pedro, onde ele desejava morrer.

    Hoje, carne e sangue; amanhã, poeira e cinza

    Que lindo cortejo deve ter sido aquele! O Papa carregado numa liteira, os Bispos a seu lado, certamente cantando e portando círios, seguidos por um tropel de normandos armados, todos caminhando rumo à Basílica de São Pedro. Creio que não houve desfile militar que tenha superado em beleza aquela cena.

    Prosternado diante da sepultura do Príncipe dos Apóstolos, Leão IX rezou pela Igreja e pela conversão dos pecadores. Assim que terminou, um delicioso aroma, superior ao perfume mais puro, se exalava da sepultura de São Pedro. Era o primeiro Papa manifestando seu agrado diante desse seu digno sucessor. Permaneceu então durante cerca de uma hora em silenciosa contemplação. Bispos, normandos e o povo em grande número estavam a sua volta.

    Em certo momento ele mandou trazer pão e vinho. Os abençoou, comeu três pedaços de pão, bebeu um pouco de vinho e distribuiu o resto entre os assistentes. Ninguém comeu. Todo mundo guardou como relíquia os pedaços de pão que ele distribuiu.

    Levantando-se então, dirigiu-se para o túmulo que ele mesmo tinha mandado preparar para si na Basílica. Lá, dirigindo-se aos Bispos, disse: “Vede, meus irmãos, como é miserável, frágil e efêmera a glória humana. Que esse exemplo jamais saia de vossa memória. Do nada eu fui um dia elevado ao que há de mais alto; e agora vou ser reduzido novamente a nada. Eu terei como moradia esse cárcere escuro e estreito. Hoje ainda convosco sou carne e sangue. Amanhã serei poeira e cinza”.

    Que linda pregação! Qual terá sido a reação dos Bispos e mesmo dos normandos que estavam ao seu redor, vendo aquela cena grandiosa de um homem anunciando sua morte?

    Adormeceu com uma calma indizível e acordou no Céu

    Todos os assistentes se puseram aos prantos… O Papa então os despediu dizendo: Venham amanhã assistir a meu último suspiro.

    São Leão retirou-se ao palácio próximo onde passou toda a noite em oração. Na manhã seguinte, sustentado por dois assistentes, voltou para a Basílica e veio prosternar-se diante do altar-mor. Estendeu-se sobre uma cama que tinham preparado junto ao altar, fez sinal com a mão para impor silêncio e dirigiu ao povo uma última exortação.

    Depois, chamou para junto de si os Bispos e fez a confissão de seus pecados. Mediante uma ordem dele, um deles celebrou a Missa e deu a ele a Comunhão. Depois de ter comungado, o Papa disse: “Fazei silêncio, porque parece que eu vou dormir”. Inclinando a cabeça, adormeceu, com uma calma indescritível, para acordar no Céu.

    Assim, diante do altar de São Pedro, no dia 19 de abril do ano da graça de 1054, faleceu o Santo Pontífice Leão IX.

    Entre aqueles que o assistiam na hora de sua morte estava Hildebrando, que era a uma vez seu inspirador e secretário, e mais tarde viria a ser seu sucessor com o nome de São Gregório VII. Imagine ter como secretário um santo, o qual, a meu ver, foi “o Papa”, não comparando a santidade, mas sim a missão, e o papel na História da Igreja.

    Que sublimidade, maravilha e grandeza devia ter aquela cena na qual um santo contempla outro expirar, onde São Gregório VII, ainda moço, permanece ao lado de São Leão IX, rezando até a hora em que a alma dele se desprende do corpo e sobe ao Céu!

    A contemplação de fatos como este, e o deliciar-se com o perfume das virtudes de um tal santo, constitui um descanso da vida de todos os dias. Assim sendo, resta-nos pedir a São Leão IX que, do alto do Céu, reze e interceda por nós.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 29/10/1974)

  • São Leão Magno

    Sabendo da presença de hereges em solo pontifício, São Leão Magno empreendeu amplos esforços para combatê-los. Instituiu um tribunal em Roma — presidindo pessoalmente a muitas sessões —, com a finalidade de julgar as doutrinas heréticas. Proferiu sermões advertindo o povo, exortou a todos que denunciassem os praticantes das heresias.

    Quando na Espanha rebentou a heresia priscilianista, São Leão prestou o devido apoio a São Turíbio, Bispo de Astorga, impulsionando os chefes de Estado a condenarem tal heresia, pois esta não era só a ruína da Igreja, mas também da ordem temporal.

    São Leão Magno procedeu não somente com a autoridade de um Papa, mas, sobretudo, com a autoridade de um santo.

    Os valores por ele defendidos de maneira heroica, foram confirmados por um impressionante prodígio: a grandiosa aparição de São Pedro nos céus, enfrentando Átila às portas de Roma. São Leão fazia assim retroceder o rei dos hunos. Um grande milagre da História da Igreja.

    Utilizando-se da infalibilidade, a Igreja declarou heroica a prática de todas as virtudes por São Leão Magno.

    Peçamos a ele que, quando raiar a aurora do Reino de Maria, as virtudes por ele praticadas.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira – Revista Dr Plinio 140 (Novembro de 2009)

  • Dedicação da Basílica de São João de Latrão

    “9 de novembro do ano de 324 foi o dia da dedicação da Basílica de Latrão. Em 315 o Imperador Constantino tinha ordenado a construção da Basílica.”

    Constantino foi o imperador que libertou a Igreja e A tirou das catacumbas. Então, coerentemente com o seu gesto, ele ordenou a construção da Basílica, local onde parece se erguia o palácio da sogra dele, da família dos Laterani. Eu não sei se isto é inteiramente indiscutível na historiografia de hoje, mas algum tempo atrás se admitia como sendo assim, e provavelmente é. Esse lugar ficou se chamando a Basílica de Latrão e o Papa Silvestre consagrou a Basílica ao Santíssimo Salvador, cuja imagem, mostrada então aos fiéis depois de séculos de perseguição, lhes pareceu uma aparição divina.

    Pode-se imaginar qual foi a emoção, qual foi a alegria dos católicos de Roma quando, depois de séculos de catacumbas, séculos de perseguição, vêem aparecer uma basílica grandiosa em Roma, afirmando o esplendor do culto católico pela primeira vez, na mais importante cidade do mundo. Os senhores podem imaginar a alegria deles quando viram, ao ar livre e à luz do dia, uma imagem grandiosa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Agora, os senhores imaginem em Roma, a própria imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo exposta aos olhos de todos e recebida por todos com veneração, e o culto pagão quebrado, proscrito e fora da lei.

    Continua a nota biográfica:

    “os Papas fizeram sua residência num palácio próximo da Basílica. Realmente, o palácio anexo a Latrão foi durante muito tempo residência dos Papas, que se tornou assim sua catedral e que por isso foi chamada Cabeça e Mãe de todas as igrejas, de Roma e do mundo. Dois incêndios que sobrevieram no século XIV, e o abandono em que ela foi deixada durante a presença dos Papas em Avignon – os peregrinos que iam a Roma encontravam o gado pastando dentro das igrejas, por causa da erva que crescia lá dentro. Galinhas, pombos, outros bichos, morando dentro de igrejas e ocupando, inclusive, os altares…”

    “sua construção quase inteira. A Basílica foi novamente consagrada, desta vez em honra de São João Batista e de São João Evangelista.”

    Então a Basílica do Santíssimo Salvador tem esses dois padroeiros secundários. Quem visita Roma nota uma diferença que chama atenção, entre a Basílica de Latrão e a Basílica do Vaticano. A Basílica de São Pedro é nova, é “chibante”, é gloriosa, é magnífica, parece construída ontem, tem todo o esplendor da Renascença.

    A Basílica de São João de Latrão é muitíssimo menos sensacional; é muito mais discreta, mas tem um tom de “grande dame”, tem uma nobreza, tem uma grandeza, tem uma paz, tem uma consciência de sua própria dignidade que a Basílica de São Pedro não tem.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira – extratos de conferência de 9-11-1965

  • Harmonioso cântico de matizes

    A Sainte Chapelle (Santa Capela), mandada construir pelo rei São Luís de França, é um desses tesouros da arte católica, inspirado por uma Fé tão rica e tão florescente, que sempre encontramos  algo de novo a se dizer e se comentar a respeito dela.

    Por exemplo, acerca de seus magníficos vitrais.  Quando os conheci, tive a impressão de estar ouvindo um fabuloso coro cantando, no qual cada vitral era uma voz, e que entoava uma melodia  entendida de maneira peculiar por mim, assim como era compreendido de modo diverso pelas diferentes almas que o “escutavam”. E como é o próprio da interlocução, deram-me oportunidade de  discernir, no meu interior, mil virtualidades, anseios, sedes que eu tinha e que só percebi no momento de “beber a água”, ou seja, “ao ouvir” aquele cântico feérico dos vitrais da Sainte Chapelle.

    Supérfluo dizer que me encantaram ao ponto do indizível. A partir desse momento, ao pé da letra, vários espaços de minha alma começaram a viver. Que lembranças guardo do que eles me diziam  com suas “vozes” que não emitiam sons, mas fabulosos coloridos? Eu não imaginava que daquelas cores — digamos, de um azul, de um vermelho, de um verde, etc. — fosse possível obter tantos matizes, finos, suaves, fazendo aparecer o que essas cores têm de mais delicado, sem se transformarem em cor-de-rosa, azul claro ou verde-água triviais que por aí existem.

    Por outro lado, desmentiam para mim uma ideia primitiva, segundo a qual essas cores muito delicadas só eram obteníveis com matérias-primas raras e com elas apenas se podiam pintar  superfícies pequenas, deteriorando-se logo. E que, portanto, havia um irremediável divórcio entre a grandeza e aquela forma de delicadeza matizada que estava lá.

    Ora, diante de mim reluziam vitrais enormes, apresentando matizes de extrema suavidade, sem serem homogêneos, com uma agradável variedade de tons dentro de cada painel. E então este  instantâneo da delicadeza fixada, tornada grandeza, e o débil que se apresenta rei, deu-me a impressão de uma vitória da alma justa, de uma vitória de tudo quanto é frágil, reto, inocente, sobre o  que é ruim, uma impressão de fato extraordinária, que produziu no meu espírito um “tressaillement” de contentamento.

    Agora, num misto de análise artística e psicológica, notei também que esses matizes que assim se ostentavam não venciam com a arrogância de um “boxeur” que derruba o adversário, põe o pé em cima dele e depois acena para a platéia.

    Nada disso. Essa delicadeza de matizes vencia com uma espécie de dignidade, com folga tal que ela não sentia sequer a necessidade de esmagar o adversário. Este não se encontrava estirado ao  solo: estava eliminado do panorama. Assim, criava-se a ideia de um mundo onde, desde o começo, só ele, vitral, existira. Algo parecido com aquela Sabedoria que, no princípio dos séculos,  brincava com todas as coisas…

    Percebi que na delicadeza de cores daqueles vitrais havia a candura e a como que inexperiência do virginal, aliada à estabilidade e à dignidade da experiência de uma matriarca no auge mais dourado de sua vida, na plena lucidez e no pleno conhecimento das realidades da nossa existência terrena.

    Ainda nessa linha de impressões, imaginando que cada vitral era como que alguém que tivesse a alma construída daquele jeito, imaginando que esses “alguéns” do mundo dos possíveis foram  sonhados pela Idade Média e tiveram começos de realização em milhares de almas, então eu pensava em São Luís, nos artistas dele que edificaram essa maravilha da arte católica, na multidão de súditos que amavam seu monarca santo e admiravam nele as suas semelhanças com o Rei dos Reis, Nosso Senhor Jesus Cristo. Eu pensava nisso e entendia ainda melhor o que foi a época áurea da Cristandade.

    Essa é a análise dos matizes. Agora, a impressão que tive do conjunto de todos os vitrais foi a de uma harmonia constituindo uma espécie de figura não-expressa, ideal, de um vitral arqui-delicado,  de um vitral perfeito contendo em si todas as cores arqui-suaves naquele estado que acabei de descrever. Trazendo consigo a noção de que essa delicadeza assim apresentada — longe de ser inimiga dos tons mais fortes, na linha dos estados de alma como na linha das cores e na dos sons — fazia pensar no desfile sem fim de todos os coloridos possíveis, mesmo os mais antitéticos, em todos os estados de espírito possíveis, mesmo os mais diversos, dentro daquela harmonia. E dessas impressões se desprende, afinal, uma ideia de perfeição enquanto perfeição, de harmonia enquanto  harmonia, de santidade enquanto santidade — portanto, de verdade enquanto verdade, e de beleza enquanto beleza — reluzindo neste píncaro da montanha da delicadeza, a partir do qual se percebe  toda a cordilheira dos sentimentos opostos e afins que constituem o espírito indizivelmente rico da Igreja Católica.

    Plinio Corrêa de Oliveira – Revista Dr Plinio 44 (Novembro de 2001)

  • São Martinho de Tours, incansável apóstolo e taumaturgo

    Nesse mês de novembro Dr. Plinio nos dá a conhecer alguns belos e tocantes aspectos da vida de São Martinho de Tours, um dos mais célebres heróis da Fé naqueles albores da Cristandade  medieval, venerado por suas grandes virtudes e denodado zelo pela salvação das almas.

    Para se compreender bem o elemento de unidade da vida de São Martinho de Tours — cuja festa é celebrada em 11 de novembro — devemos considerar o que temos dito a respeito dos santos suscitados  pela Providência para serem missionários, evangelizadores, reis, príncipes, e daqueles de cujo apostolado decorreu o nascimento de nações inteiras para a Cristandade.

    Factótuns de Deus

    Há santos chamados a passar sua existência nos primórdios da vida religiosa de um povo, e quando essa trajetória espiritual começa a se consolidar, surgem outros apóstolos com vocação definida para continuar o trabalho daqueles. Fundam ordens religiosas, universidades, são grandes pregadores que incentivam as almas, etc.

    Outros têm a curiosa tarefa de “fazer um pouco de tudo”. Sem pressa, sem dispersão, com perfeito domínio de si, enfronham-se em toda espécie de acontecimentos. Eles sustentam a boa causa em toda parte onde ela precise de um auxílio e nas mais diversas condições em que essa ajuda lhes é requerida. São, por assim dizer, os factótuns de Deus, aqueles que realizam tudo quanto desejam Nosso Senhor e sua Mãe Santíssima.

    Se analisarmos sob esse prisma a vida de São Martinho, a compreenderemos. Do contrário, ficaremos apenas com um conjunto de informações biográficas, sem maior sentido unitário.

    Exemplo de caridade cristã

    Vejamos então alguns dados sobre ele, apresentados por Dom Guéranger:
    Martinho nasceu na Panônia, Hungria, no ano 316. Portanto, viveu numa época remota e em terras que, naquele tempo, eram semibárbaras. Algo semelhante à selva Amazônica, senão pior. Engajado muito cedo nos exércitos romanos, ele se torna conhecido somente quando partilha seu manto com um pobre nas portas de Amiens.

    O império romano possuía alguns destacamentos militares em Amiens, situada na Gália, atual França. Devido a transferências internas, ele foi enviado da Panônia para aquela cidade gaulesa.

    Não se sabe ao certo quando São Martinho se converteu, mas em determinado momento tornou-se catecúmeno, isto é, preparou-se para receber o Batismo. Nessa ocasião deu-se o famoso episódio: estando ele montado a cavalo, num período muito frio, encontrou-se com um mendigo que vagava pelas portas de Amiens, desamparado e sem agasalho. Tocado pela miséria do próximo, com extrema bondade o Santo dividiu seu próprio manto em duas partes, entregando a metade ao indigente.

    Esse fato adquire maior significado na Europa, onde o inverno é bem mais rigoroso e agressivo ao corpo humano, do que em nossas regiões tropicais. Um brasileiro pode não ter manto, mas possui pulôveres. Quando esfria, ele permanece acalentado dentro de casa, ou, se precisar sair, usa uma condução qualquer que o permite manter-se protegido da baixa temperatura. O frio incomoda um pouco, e depois não se pensa mais nele.

    No continente europeu, porém, o inverno é bastante sério. Nessas condições, andar léguas a cavalo sem manto, ou com metade dele, redunda em grande sacrifício. Por isso, o gesto de São Martinho comoveu toda a Idade Média como sendo uma expressão própria da caridade cristã, oposta à dureza do paganismo romano.

    De maneira que esse episódio pode ser considerado o primeiro feito simbólico da vida dele, recordado na era medieval através de vitrais, medalhas, iluminuras, quadros, etc., enquanto crescia a devoção a São Martinho de Tours.

    Apostolado e milagres

    Uma vez batizado, deixa o exército e vai estudar com o grande doutor das Gálias, Hilário de Poitiers. O desejo de converter seus parentes, que eram pagãos, conduziu-o à Panônia.

    Percebe-se como a existência de São Martinho é fecunda, semeada de viagens, de encargos, de missões evangelizadoras, etc. Ele havia sido um legionário romano na sua Panônia natal, de onde passou para a Gália. Em determinado momento, converteu-se, abandonou as fileiras militares e foi — ele, um “botocudo” da Hungria — estudar teologia e filosofia com Santo Hilário de Poitiers.

    Em seguida o vemos retornar à Hungria, a fim de converter seus pais. Após esse tempo junto à família, regressou à Gália, onde fundou o mosteiro de Ligugé, o primeiro da França. Passou a levar uma vida contemplativa, praticando muitos milagres que o tornaram célebre, e logo afluíram discípulos a povoarem sua solidão. Assim, depois de ser um santo que procurou as pessoas, dirigiu-se a um exílio no qual foi procurado por elas…

    Bispo da diocese de Tours

    Continua a biografia:
    Por ocasião da morte de Santo Hilário, ele foge dos habitantes de Poitiers que queriam tê-lo como bispo. A população de Tours será mais hábil. Em 371, confiscam-no por uma espécie de armadilha e o convencem a se ordenar sacerdote para ser elevado ao episcopado.

    Esse esquivar-se das honras não é fenômeno muito comum em nossa época, como também não o é a corrida de povos atrás de um santo para que este se torne bispo.

    Ora, no século IV, período histórico chamado de decadência e miséria, os santos pululam e os homens se apressam ao encalço deles. Como isso é diferente do pseudo-progresso, do pseudo-esplendor da era contemporânea!

    São Martinho, então, deixa-se sagrar Bispo, mas sabe que a vocação contemplativa persiste nele. Fundou Marmoutier, um convento a três quilômetros de Tours, sua diocese. Essa casa religiosa floresceu, tornou-se seminário, centro de estudos e escola onde diversos futuros bispos se formaram. Trabalho assaz importante, pois de um bom seminário surgem bons sacerdotes e um bom episcopado.

    E de novo constatamos como a vida de São Martinho foi extremamente fértil e rica em realizações pe-la causa da Igreja.

    Operando milagres, o “selvagem” da Hungria, o ex-legionário romano, posto à frente da formação das almas, preparou uma geração de sacerdotes e de futuros sucessores dos Apóstolos.

    Até o fim, um grande batalhador

    Muitas vezes se dirigia à solidão de Marmoutier, onde era favorecido por visões de Nossa Senhora, mas também aguilhoado pelas perseguições do demônio. É a condição própria àqueles que se isolam: por um lado, visitados pelas consolações do Céu; por outro, importunados amiúde pelo inimigo de nossa salvação.

    Para Santo Inácio de Loyola, a melhor prova do êxito de um retiro espiritual é o fato de a alma ser objeto, ao mesmo tempo, de graças extraordinárias e de investidas do demônio.

    Assim sendo, compreende-se que, no seu isolamento, São Martinho estivesse sujeito a essas vicissitudes. De qualquer forma, ali se acrisolava no amor a Deus e ao próximo, traduzidos num incansável esforço de evangelização:

    Seu zelo pelos povos transborda os limites de sua diocese. Ele é visto nas dioceses vizinhas e até em Artois, na Picardia; em Trèves na Bélgica, e mesmo na Espanha. Por toda a parte sua palavra, sustentada por seus milagres e caridade, opera maravilhas.

    Sem abandonar suas prerrogativas episcopais, este homem se transforma num infatigável missionário, percorre as mais distantes regiões numa época em que tais deslocamentos não se faziam sem grandes incômodos, e realiza verdadeiras maravilhas com seus sermões e milagres.

    Esse amor de Deus o leva a Flandres em novembro de 397, para ali estabelecer uma concórdia entre os monges, problema sempre difícil. E foi ali que ele, ancião de mais de 80 anos, faleceu na paz do Senhor.

    Eis o fim sereno, em meio à luta, de um grande apóstolo e taumaturgo. Exemplo eloquente destes homens de Deus que cultivam e colhem os frutos das sementes que outros santos plantaram.

    Plinio Corrêa de Oliveira