Autor: Nelson

  • Súmula contra os erros contemporâneos

    O apostolado verdadeiramente fecundo é aquele no qual a verdade não só é dita inteira, mas com ufania, bem argumentada e com uma audácia santa. Nada nos deve deter, precisamos seguir impávidos para a frente anunciando a verdade e o bem como eles são, segundo o exemplo de Santo Avito.

     

    Temos para considerar alguns traços da biografia de Santo Avito(1), Bispo de Vienne, na França, no tempo do Rei Clóvis.

    Direitos da Religião verdadeira contra as falsas religiões

    Vienne fazia parte do Reino da Borgonha, cujo rei era Gondebaud. Santo Avito, a quem Gondebaud dava provas de confiança, esforçava-se por conduzi-lo ao Cristianismo. Um dia, instou tão vivamente com ele, que o rei ariano, não mais resistindo à evidência da verdade lhe rogou o reconciliasse secretamente mediante a unção do santo crisma.

    Respondeu-lhe, todavia, Santo Avito: “Se verdadeiramente acreditais, por que temeis confessar a Jesus Cristo diante dos homens, como Ele nos ordenou? O temor de uma sedição dos vossos súditos vos detém, quando se trata de obedecer ao Criador de todas as coisas? Sois rei, e temeis os súditos? Não sabeis que mais cabe a eles seguir-vos, que vós conformar-vos à fraqueza deles? Vós sois o chefe do povo, e não o povo o vosso chefe. Quando partis para a guerra, sois o primeiro em marchar e os soldados vos seguem. Fazei a mesma coisa no caminho da verdade: mostrai-a aos súditos entrando nele primeiro, e não os seguindo nas estradas do erro”.

    A doutrina contida aqui é eminentemente anti-moderna, contrarrevolucionária. Mais propriamente há três doutrinas contidas nesse texto. A primeira diz respeito aos direitos da Religião verdadeira contra as falsas, e é a seguinte:

    Todos aqueles que têm meios de conhecer a Igreja Católica, vivem num ambiente onde a Igreja existe e se fala dela, recebem a graça suficiente para desejarem conhecê-la e, correspondendo a essa graça, conhecerem-na e amarem-na de fato, vindo assim a se converterem. De maneira que não tem desculpa a pessoa que, dentro de um tempo e com uma idade razoável, embora havendo nascido fora da Igreja Católica Apostólica Romana, não acabe percebendo ser ela verdadeira.

    Deus não recusa a ninguém a graça sobrenatural da Fé, e todas as pessoas precisam corresponder a esse dom. Naturalmente isso não se diz exatamente assim das pessoas que vivem em países onde nunca se ouviu falar da Igreja, ou se ouviu falar tão vagamente que não existe esse atrativo para conhecê-la mais de perto e, portanto, para amá-la e aderir a ela. Mas em países onde ela é bastante conhecida, todos recebem a graça necessária e suficiente para se tornar católicos. Assim, o herege que não se torna católico é culpado disso.

    Nem se poderia conceber de outra maneira porque, se Nosso Senhor Jesus Cristo disse aos seus Apóstolos: “Ide e ensinai a todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, acrescentando que quem crer será salvo e quem não crer será condenado (cf. Mt 28, 19; Mc 16, 16), nós não podemos imaginar que as pessoas não tenham graças para entrar na Igreja. Seria uma brincadeira ou uma contradição se Ele dissesse: “Aqui está a Igreja, todo mundo deve entrar nela, mas a graça indispensável para isso Eu não dou senão a alguns.” Mas a obra d’Ele, sendo sapientíssima e perfeitíssima, tem de atingir naturalmente a sua finalidade. E sendo essa finalidade que os homens entrem para a Igreja, lhes é dada a graça suficiente para isso; e quando a recusam, eles têm culpa.

    Na época da Civilização Cristã, as igrejas heréticas não podiam ter forma exterior de templos

    Mais culpa ainda tem o herege que foi católico e abandona a Igreja Católica, porque esse recebe com o Batismo a graça infusa da Fé e, por meio do pecado mortal mais grave que se possa cometer, que é o de apostasia, ele abandona a Santa Igreja.

    Portanto, dizer que um católico abandonou a Igreja sem culpa: “Coitado, ele não entendeu tal argumento, conversou com um pastor protestante que o convenceu, mas estava de boa-fé”; isso não vale. Todos têm graça suficiente para permanecer na Igreja Católica. E se uma pessoa sucumbe aos sofismas de um pastor protestante, de um agitador comunista ou de qualquer outro herege, há uma responsabilidade própria.

    Embora ninguém tenha o direito, propriamente dito, de fazer o mal e professar o erro, a Igreja sempre recomendou que não se obrigasse uma pessoa a mudar de religião, mesmo porque não adiantaria nada. Se digo a um herege: “Você crê ou morre”, para não morrer ele dirá que acredita, mas por dentro continua a não crer. Seria, portanto, uma estupidez. De maneira que a Igreja sempre recomendou que se tolerasse – mas tolerar é muito diferente de permitir – que os hereges praticassem o seu culto.

    Isso tem como consequência que, nos tempos da Civilização Cristã, as igrejas que não eram católicas não podiam ter forma exterior de templos. Ainda na época do Império no Brasil, igreja protestante ou qualquer outra tinha que funcionar numa casa comum. Esse é um princípio que nós vemos lembrado aqui.

    O Estado deve ser a força material a serviço da Igreja

    Outro princípio é o seguinte: o Governo existe não principalmente para o bem dos corpos, mas para ajudar a Igreja na salvação das almas. Por isso o Estado deve reprimir as heresias, os pecados, e ser a força material a serviço da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Logo, o papel normal dos reis é abraçar a verdadeira Fé e levar os povos a aceitá-la.

    O terceiro princípio é o contrário da soberania popular pleiteada por Rousseau(2), que exatamente inverte a ordem: é a doutrina da Revolução Francesa, por onde os que governam são dirigidos por aqueles que são governados. Um rei não é feito para fazer o que o povo quer, mas o povo deve ser governado pelo seu rei. O monarca é responsável pelo povo e prestará contas dele perante Deus.

    Ora, nessa biografia de Santo Avito notamos a afirmação destes três princípios. Ele estava em face de um rei herético, ariano. O santo prelado dirige-se, então, a ele e consegue convertê-lo. Mas o soberano, com medo de uma insurreição de seus súditos que eram arianos, pede que sua conversão seja secreta. Então Santo Avito lhe diz: “Eu não concordo com isso. Por que essa conversão precisa ser secreta? Ela deve ser pública e sua função é de, pelo seu exemplo e autoridade, exterminar o arianismo no seu reino, e não ficar quieto diante dele. Quem manda sois vós, o povo vos deve obedecer. Assim como na hora da guerra vós sois o primeiro a sair em combate contra os inimigos, assim também na hora da paz deveis dar o exemplo e os vossos súditos vos devem acompanhar”.

    Não é naturalmente que o rei deva obrigar pela força os outros a se converterem, mas ele deve dar o exemplo que os outros, pelo prestígio da majestade real, precisam seguir.

    Esses três princípios lembrados por Santo Avito constituem uma pequena súmula contra os erros contemporâneos, os quais afirmam que o Estado nada tem a ver com os cultos e nada deve fazer para levar os povos à prática da virtude.

    Constatamos, assim, o quanto as nossas posições ideológicas têm santas e augustas raízes no mais remoto passado da Igreja Católica, pois esse prelado tinha a autoridade de santo para fazer essas afirmações. Ele era um bispo, mas há mais do que isso: quando a Igreja o canonizou, apontou-o como exemplo para todos. Ao canonizar alguém, a primeira coisa que a Igreja diz é: “Ele praticou em grau heroico as virtudes teologais da Fé, Esperança e Caridade, e as cardeais da Justiça, Fortaleza, Temperança e Prudência. Com base no exame da vida e das obras dele, eu, Papa, afirmo que ele está no Céu. Tais milagres confirmam as conclusões desse inquérito.” Além disso, a Igreja declara que o Santo é o modelo dos fiéis. E a canonização equivale a dizer: “Imitai-o, inspirai-vos no exemplo dele, pensai e agi como ele!” Logo, inculcando que se deve lutar contra esses erros, seguimos augustos exemplos de inumeráveis Santos que agiram da mesma maneira.

    Devemos ser almas indomáveis, intrépidas, piedosas, sobrenaturais

    Poderia parecer que esses santos do Império Romano cristão e da Idade Média agiram assim porque todo o ambiente lhes era favorável. Entretanto, eles lutavam contra inimigos tremendos, ferocíssimos. O arianismo produziu na Europa devastações incontáveis.

    Eles venceram, quando tantas vezes os católicos não vencem, como sucede atualmente. Mas por quê? Porque os católicos de hoje são moles, contentam-se com as meias afirmações, com as meias verdades, gostam da confusão entre a verdade e o erro, entre o bem e o mal, e por isso não têm as bênçãos de Deus. O apostolado desses é tantas vezes estéril, embora disponham de meios de ação prodigiosos. Nós vamos ver quem os seguem… ninguém.

    Que rádio, que televisão tinha Santo Avito? De que imprensa ele dispunha? Nada; ele contava apenas com o púlpito e sua autoridade de bispo santo. Ele fazia seus sermões e esses tocavam o coração de um rei. Isso porque o apostolado fecundo é o apostolado franco em que a verdade não só é dita inteira, mas com ufania, bem argumentada e com uma audácia santa.

    Pode ser que às vezes aconteça o que ocorreu com São João Batista ou Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas eu pergunto: Então Nosso Senhor Jesus Cristo e São João Batista fracassaram? Ou, pelo contrário, o Divino Redentor, derramando seu Sangue, salvou a humanidade? O sangue de São João Batista não terá subido ao Céu como o de Abel, clamando vingança contra Herodes e Herodíades, e misericórdia para tantos homens que estavam esperando naquele tempo a luz da verdade?

    Por certo, nessa tática da energia encontramos reações tremendas. Às vezes acontece de morrermos. Mas se um católico julga que morrer na defesa da Fé é um desastre, então ele deveria recomeçar tudo, precisaria nascer de novo, pois o contrário é a verdade: o martírio, o sofrimento conduz à glória e à fecundidade do apostolado.

    De maneira que nada nos deve deter, precisamos seguir impávidos para a frente anunciando a verdade e o bem como eles são, segundo o exemplo de Santo Avito. Homens assim, um morria, dez venciam. Aquele que morria assistia à vitória desde o Céu. Foram bispos, papas, leigos desse modo que constituíram o fermento o qual deu origem à Idade Média.

    Quando vemos restos magníficos da Idade Média, catedrais imensas, castelos maravilhosos, vitrais, o canto gregoriano, quando pensamos na Cavalaria, nas Cruzadas, no feudalismo, em tantas recordações que a Idade Média deixou e que são uma luz no meio das trevas deste mundo, devemos nos lembrar de que há no alicerce de tudo isso quanta coragem, quanta ousadia, quanto senso de sacrifício, quanta confiança na graça como elemento decisivo de toda vitória e quanta segurança de que andando para a frente, com a graça de Deus, o homem é invencível. Isto fez germinar a Idade Média.

    Peçamos a intercessão de Santo Avito para que nos obtenha as graças a fim de sermos as almas indomáveis, intrépidas, piedosas, sobrenaturais das quais o Reino de Maria deve nascer.              v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 4/2/1966)

    Revista Dr Plinio 263 (Fevereiro de 2020)

     

    1) ROHRBACHER, René-François. Vida dos Santos. São Paulo: Editora das Américas, 1959. v. III, p.14.

    2) Jean-Jacques Rousseau (*1712 – †1778). Filósofo, teórico político e escritor suíço. Considerado um dos principais filósofos do iluminismo, cujas obras impulsionaram a Revolução.

  • A seriedade em luta contra o relativismo

    Relembrando o momento trágico de seu acidente automobilístico, no qual viu-se entre a vida e a morte, Dr. Plinio tece profundas considerações sobre a seriedade da vida e o mal do relativismo. Que sinistra a vida de um homem que se entrega para um ideal e o serve com mediocridade!

     

    Ao receber um pedido filial para tratar a respeito do período que se seguiu ao desastre(1) e da operação a que fui submetido no dia 6 de fevereiro de 1975, eu não poderia me recusar a atendê-lo. Entretanto, não saberia o que dizer, porque todo esse período se passou dentro de uma semiconsciência. Lembro-me confusamente de que eu emergia, de vez em quando, da subconsciência para a consciência. Assim, percebia por momentos gotas claras e grandes da realidade, mas fugidias, que rolavam pelo abismo das circunstâncias pós-operatórias.

    A morte é a mais augusta tabeliã que há sobre a Terra

    Nessas condições, eu não tinha ideia do que de fato estava se passando comigo. Mas, entre outras coisas, digamos que tenha ali expiado as minhas faltas. Se expiei as faltas daqueles que seriam meus discípulos, como o dou por bem empregado!

    Em meio àquilo tudo eu não me dava conta de que uma coisa estava fazendo: tanto nos momentos de inconsciência, quanto nos de consciência, eu estava ajudando a fortificar na posição contrarrevolucionária os dois enormes olhos escuros e sevilhanos que me acompanhavam a todo o momento(2).

    Porque eu vejo pelas repercussões posteriores que ele, com piedade filial, prestou atenção em tudo, analisou e tirou conclusões de tudo. Nossa Senhora foi servida em que ele ficasse edificado com o que viu. Até que ponto essa edificação poderia ter concorrido para depois ele ter realizado o que fez? Em medida talvez não pequena. E se assim foi, fica inteiramente de pé que nesse momento eu estava sofrendo e ajudando a ele para trazer tantos e tantos outros.

    Há certas coisas de que eu tenho certeza que só se ensinam ou se sancionam pelo exemplo no momento em que a morte está próxima. É a mais augusta tabeliã que há sobre a Terra. O que se passa em presença dela raramente é a fraude, porque ela avança e desmascara tudo! É o juízo que está atrás dela; ela não faz senão servir de arauto ao juízo. E ao ouvir os passos do grande Juiz que vem, é preciso ser quase satânico para não ter medo e não pedir perdão!

    Tenho assistido a muitos enterros em minha vida. Como é natural, está na ordem das coisas, um bom número deles de pessoas perfeitamente insignificantes. O primeiro homem que eu vi morrer em minha vida era um coitado. Lembro-me de tê-lo visto esticado num jardim, com os braços para trás, lívido, com os olhos vidrados. Podia ser a imagem, a personificação do homem insignificante. Mas ao olhá-lo às voltas com a morte, a tragédia da vida humana aparecia e a grandeza da morte também; e por detrás disso, a grandeza d’Aquele a quem a morte prenuncia.

    Naquele momento pude compreender a forma de grandeza de que aquele pobre coitado era capaz, embora não a tivesse realizado. Veio-me, então, uma reflexão que nunca mais abandonei em minha vida: Se esse coitado é capaz de tanta grandeza, todo homem é grande, desde que seja fiel!

    A verdade é que na presença da morte as coisas tomam essas dimensões.

    Se houvesse em minha alma alguma superficialidade…

    Se ver a morte por detrás de mim pode vos ter ajudado, como dou por bem empregado, como isso me contenta, como fico alegre! Como considerar o que naquele momento se me apresentou? Imaginem que eu tivesse uma certa superficialidade de alma e nessa hora ela aparecesse. Que efeito isso causaria?

    O desastre ocorreu em 1975, quando eu tinha sessenta e seis anos. Com essa idade já foi para trás uma vida. Todos conhecem bem o meu passado. Posso dizer que aos olhos dos homens – não ouso dizer aos olhos de Deus – é um passado solidamente estruturado, coerente, lógico, limpo, rumando contínua e abnegadamente para um mesmo fim.

    Senti um frêmito quando, em mocinho, li numa das conferências da “Université des Annales” que Bayard, o cavaleiro do tempo de Francisco I e de Carlos V, era chamado “le chevalier sans peur et sans reproche”(3). Volto a dizer: eu não ousaria afirmar isto de mim aos olhos de Nossa Senhora, mas aos olhos dos homens, sim. Os nossos adversários não têm coragem de negá-lo! A respeito do meu passado, os lábios deles que só destilam a calúnia ficam em silêncio. Porque se me inculpassem, eu lhes perguntaria: “Quando me viram ter “peur” e quando me puderam fazer um “reproche”? Apontem!” E por saberem que esta seria a resposta, ficam quietos.

    Na realidade, se houvesse em minha alma alguma superficialidade, apesar da continuidade dessa obra, ela apareceria aos olhos do filho, do amigo, do discípulo. E se aparecesse, poderia causar uma insegurança – não creio que fosse a dúvida – quiçá um empenho menor, em algo o impulso diminuiria. E decrescendo na alma dele, diminuiria em todos aqueles que deveriam estar sob sua orientação. O menor impulso equivaleria a um minguamento quantitativo e qualitativo, o que por sua vez significaria um minguamento de minha obra aos olhos de Deus, dos Anjos e dos homens, uma risota da Revolução e um vexame a mais a pesar nas costas cansadas da Contra-Revolução.

    Eu me levantaria do desastre com a impressão de ter cumprido o meu dever, e ele sairia edificado, porque não tomaria consciência do que faltou e do que deixei entrever. Mas na hora do julgamento – e é por isso que falo da justiça de Deus e da grandeza da morte – eu seria interrogado:

    — Presta as tuas contas!

    Eu olharia para Nossa Senhora e A veria gélida. Só não me desintegraria porque o poder de Deus não me daria meios para isso. Se Nossa Senhora está fria comigo, acabou.

    — Por exemplo, em tal hospital… – continuaria o Divino Juiz.

    — Senhor, eu estava inconsciente!

    — Agora Eu vou te explicar. Em tal ocasião Eu te dei tal graça, depois tal outra, porque te queria de tal maneira. Queria que fosses isto. Tu respondeste e passaste por essa ocasião de modo insuficiente. Não manifestaste a tua alma como ela deveria estar. Não tinhas culpa naquela hora, tinhas culpa na causalidade. O efeito era tua culpa porque a causa era tua culpa. Estava em ti aquela graça mal correspondida. Agora presta contas! Aconteceu isto e aquilo, deixou de acontecer isto e aquilo. A culpa é tua. Em última análise, teu espírito deveria ter sido mais absoluto, mais categórico, ter sabido chegar com mais ímpeto às últimas consequências e vê-las mais claramente. Ficaste a oitenta, a noventa por cento do caminho, a cem não chegaste, e era nos cem que Eu te esperava. Terás a minha misericórdia, mas experimentarás antes o meu desagrado.

    O que teria faltado? Superficialidade foi a causa. O espírito não foi a fundo, não aderiu, não se persuadiu como devia porque não prestou atenção e não se enlevou como devia.

    Até que ponto devemos lutar contra o relativismo?

    Deus continuaria:

    — Houve um momento primeiro em que o “lumen rationis”(4) acendeu em teu espírito tal conclusão que o discernimento interno dado por Mim te fez ver. Aquilo tu deverias ter amado. Porém, por causa de tal bagatela, de tal egoísmo, de tal outra tolice fizeste exatamente o contrário. Resultado: todo o ritmo ficou prejudicado. Dei-te depois outras graças, tu as recusaste de tal maneira. Aqui está a tua história. Olha para os teus passos; pode ser que ao longo do caminho até tenham saído estrelas, mas uma sombra também se projetou. Eu estou aqui para te pedir contas dessa sombra.

    Por que digo isto com esta ênfase? Pela saturação de ver, desde nem sei quando, espíritos superficiais pensarem que cumprindo o dever mais ou menos, às pressas, sem aprofundamento, sem adesão inteira da alma, por trivialidade, cumprem-no completamente, e julgam bastar a ação externa para que a obra esteja inteiramente boa. Pensam eles: “Se não fiz externamente tais atos, se não consenti internamente em tais coisas, estou perfeito.” Para manter o estado de graça, eu creio bem que sim. Mas basta manter o estado de graça quando se é chamado para uma vocação como a nossa? Até que ponto está firme no estado de graça uma alma que acha bastar-lhe estar em estado de graça? Eis a pergunta. Até que ponto devemos lutar contra essa fraude a nós mesmos, que é o relativismo?

    O que é o relativismo propriamente?

    Quando as graças do Batismo vão se tornando a nós conscientes e vamos vendo no ímpeto de nosso senso do ser, vamos imaginando desde logo as coisas com toda a perfeição possível – intuitivamente, mas tão verazmente – e nossa alma voa para aquilo; nós vemos coisas magníficas e nossa alma tende para o magnífico, para o grande, com todas as forças. Isso nos dá uma certeza e um contato com algo de paradisíaco, maravilhoso, verdadeiramente arrebatador.

    Isto está provado não apenas pela voz dos católicos, mas até dos ímpios. Poucos homens experimentaram triunfos maiores do que Napoleão. Para não falar de outra coisa, a coroação dele, quando trouxe um Papa acorrentado de Roma a Paris para coroá-lo na presença de toda a Cristandade, naquela Catedral de Notre-Dame para cuja magnificência a humanidade sacudida pela Revolução Francesa começava de novo a abrir os olhos, na presença de representantes de reis da Europa inteira, de todas as sumidades que a França tinha naquele tempo. Pois bem, ele se fez coroar naquela ocasião. Que gáudio para aquele homem vaidoso, orgulhoso e vitorioso! Perguntaram uma vez para ele: “Qual foi o dia mais alegre de tua vida?” Pensavam que ele falasse do dia de Austerlitz, ou de Marengo, ou da coroação dele. Sua resposta, sem nenhuma dúvida, foi: “O dia da minha Primeira Comunhão”.

    O que esse homem teve no dia de sua Primeira Comunhão que deixou de lado tudo o que veio depois? Tudo aquilo que para obter ele remexeu céus e terras não era comparável à alegria que tivera por ocasião da Primeira Comunhão. Como se explica isso?

    Cada um de nós pode dar esse depoimento. Se não foi matematicamente no dia da Primeira Comunhão, houve, entretanto, momentos de uma alegria, de um enlevo, de um estado de alma que não se pode repetir. Na infância, quantas vezes isso se dá!

    Uma velha harmonia enriquecida com tonalidades marciais

    Para dar outro exemplo, aqui no Brasil, o nosso Casimiro de Abreu escreveu: “Oh, que saudades eu tenho da aurora de minha vida, da minha infância querida…” Era a inocência que ele tinha perdido e que cantava gemendo. Ele fugiu de dentro dela, saltou para as coisas do mundo, onde o ambiente brasileiro o glorificou, é bem verdade. Mas o que ele vendeu por isto! Que coisa horrorosa!

    Nós, mais ou menos, desviamos os olhos desse senso do ser que nos apresenta as verdades primevas, e com elas algo que seria como que a matriz de todas as verdades iluminadas pela Fé. Muitos de nós chegamos a pecar, às vezes até reiterada e gravemente.

    Entretanto, em certo momento, tivemos a impressão de que todas as alegrias da “Primeira Comunhão” se renovaram para nós, ainda mais intensas, com mais definição, com tonalidades mais ricas, porque eram elas mesmas, analisadas com as maturidades adquiridas ao longo do tempo, mas, sobretudo, porque vinham com graças muito insignes.

    Aparece-nos de repente e nem percebemos. Antes, porém, passamos por um processo: começamos a nos desagradar de tudo quanto o mundo oferece. O fútil, o vazio, o sórdido de tudo começa a nos saltar aos olhos. Observamos em torno de nós os amigos que parecem alegres e julgávamos que eram felizes, e damo-nos conta de que a alegria deles é nada. Eles riem, saltam, brincam, gastam, fazem-se bajular, mas não estão felizes, não há paz neles. E concluímos que isso tudo está errado e precisa ser mudado. Mais ou menos quando a alma chega a este ponto, toca no fundo do horizonte dela uma velha harmonia enriquecida com tonalidades marciais: “Como se explica que eu tenha me deixado levar por isso? Se este mundo pagão deve vir abaixo, qual é o mundo que eu quero?”

    Então, uma luz brilha aos nossos olhos e nos atrai. É a vocação, e com ela tudo renasce. Às vezes com embates duros. Que belas batalhas as da emenda da vida! Como elas são diferentes daquela escorregadela horrível por onde uma alma cai na impureza! Batalhas acirradas, difíceis, mas, afinal de contas, as graças vêm e a alma recupera a virtude. São novos horizontes, a pessoa se põe a combater e pensa: “Agora compreendo! Os que se entregam ao mundo pensam que a felicidade consiste em não ter desventuras nem lutas. Tontos! Nesta vida sempre as teremos. Mas há um recanto da alma onde paira uma felicidade, uma convicção, uma segurança, uma certeza, uma saúde que vale muito mais do que a saúde do corpo, do que o dinheiro e tudo mais. Esta eu tenho, e vou para a frente!”

    Composição típica de um medíocre

    Contudo, se no primeiro momento o homem não se enlevou como devia, mas conservou um pouco de concessão ao estado de espírito que ele tinha abandonado, aquilo vai minando-o lentamente. Em pouco tempo ele inventa uma composição: “Em linhas gerais eu cumpro meu dever, mas em tais pontos vou fazer mais ou menos. Minha consciência não fica chocada, não rompo com esse arcabouço sagrado onde me sinto realizando a vontade de Deus, mas não renuncio a umas “vontadinhas” que não extirpei e às quais estou apegado. Faço uma composição”.

    Eu tenho vontade de dizer: “É verdade. Um copo d’água com três gotas de veneno, essa é a tua composição. Medíocre! Se eu fosse comparar a tua alma a um copo que só tem veneno, mentiria. Mas mentiria ainda mais se dissesse que sua água é cristalina. Entretanto, são só três gotas que tu consentiste que se pingassem ali dentro. Ainda que fosse uma gota, aquilo já não é mais a água que imaginas. Medíocre, o veneno está em ti.”

    Se há venenos que fulminam, existem outros que matam aos poucos. Por exemplo, se alguém nos servisse, todos os dias, água um pouco envenenada não nos mataria imediatamente, mas vergaria a nossa saúde. Depois viria a morte. Assim também na nossa alma, as águas da mediocridade vão nos envenenando, intoxicando aos poucos.

    Há pessoas que perderam a memória de tudo quanto a verdadeira saúde de alma lhes dava e se julgam saudáveis, até o momento em que o Médico Divino apareça e faça seu diagnóstico…

    Fomos suscitados contra o relativismo

    Isto posto, volto à pergunta: o que é o relativismo? É a atitude de alma por onde diante daquilo de belo, bom e verdadeiro que nos falou pela Fé, pela razão, pelos sentidos da alma e, às vezes, até pelos sentidos físicos, e que pedia de nós um brado de adesão, de devotamento e dedicação, nós nos movemos um pouco, dizendo: “Talvez, é possível. Daqui a pouco eu vou. No momento, quero saber sobre esse automóvel, como deu trombada no outro, ou tal coisinha como aconteceu; desejo uma bagatela, porque quero permanecer no mundo das bagatelas, reservando para elas pelo menos uma parte de minha alma”.

    Esse é um pacto ilusório, uma esperança de que a graça presente em nós consinta em ficar íntegra quando deixamos entrar na alma o demônio. Seria mais ou menos como imaginar que uma casa onde more uma mãe de família pudesse ser habitada, ao mesmo tempo, por uma prostituta que ali exerce seu ofício. Alguém diria: “Bem, elas estão em quartos diferentes. No total, a mãe de família não nota.” Não é possível. Onde está uma, a outra só fica em estado ultrajado e diminuído. Diante do relativismo, a graça só fica em estado coarctado e humilhado.

    Nossa Senhora deu-me a graça de odiar o relativismo com toda a minha alma. Porque no pecado declarado perdem-se os ruins, no relativismo se perdem os bons. Sempre me pareceu tremendamente triste, sinistro que um homem desse a sua vida para um ideal e o servisse mediocremente. E depois tivesse um resultado pífio. Então ele viveu para o pífio? Isso é viver ou é agonizar a vida inteira, sem glória e na lama?

    Se há uma coisa que nossa vocação não permite é o relativismo. Assim como a Companhia de Jesus foi constituída contra o Protestantismo, os franciscanos contra o espírito de corrupção do uso das riquezas terrenas, os dominicanos contra as heresias, e daí por diante, assim fomos suscitados contra o relativismo. Logo, habitar uma gota de relativismo em nossas almas não é um erro, é uma aberração!

    Essa seriedade que chega às últimas consequências é nossa vocação. Nossa força de impacto está no grau em que tenhamos deixado longe de nós o relativismo. Concessão ao relativismo dá em tibieza, apostolado estéril.

    O que diríamos de um jesuíta semiprotestante? Ou de um franciscano que guarde moedas ocultas debaixo de seu burel? Ou de um dominicano meio cátaro? É um absurdo! Pois bem, uma concessão ao relativismo que habite em nossa alma é pior do que isso.

    Necessidade de ter a consciência em estado de exame

    Sugiro fazer um exame de consciência centrado no ponto do relativismo: “Sou inteiramente sério para esperar que aquilo que eu faça seja totalmente coroado do êxito esperado?” Que êxito é esse? Se sou sério, não é um êxito de imediato, mas profético, cheio de vaivéns, de problemas, em face dos quais tudo sai errado, exigindo que eu confie na Providência, reze, peça o auxílio de Nossa Senhora e, afinal de contas, mais cedo ou mais tarde – por vezes muito tarde… – acaba-se conseguindo. Então a coisa vai bem. Mas é preciso fazer um exame de consciência sério, do contrário não vai.

    Aliás, mais do que isso é preciso ter uma seriedade viva, de maneira que qualquer coisa que destoe desse estado de espírito a seriedade nota. É uma consciência em estado de exame, não é só um exame de consciência. Eis o que nós devemos desejar.

    Talvez um ou outro pensará: “Onde encontrarei a energia, o espírito de sacrifício para ser assim? Eu não consigo”.

    A este eu teria vontade de dizer: “Meu filho, eu passei por isso. Saia como creio que saí, rezando ‘Salve, Regina, Mater misericordiæ, vita dulcedo et spes nostra, salve!’” Onde eu percebo que sou tão inconsistente que não dou um passo, devo olhar amorosamente para Nossa Senhora e pedir: “Minha Mãe, vede onde me deixei cair. Mas sinto o convite para me integrar nesse voo que passa diante de meus olhos. E se é verdade que não quero, ao menos, por vossa intercessão, é verdade que eu quereria.”

    Lembro-me de ter rezado assim e até ter dito: “Minha Mãe, eu quereria querer. Nem tenho coragem de Vos pedir que eu queira mesmo. Mas atendei a esse meu anseio de que eu quereria querer. Fazei-me querer e depois ser: ‘Salve, Regina, Mater misericordiæ’…”

    Truculência e confiança na misericórdia

    Quantos de nós, embora tendo às vezes a alma pugnaz, decidida, combativa, possuímos algum recanto que a preguiça nos retém no chão! Para sanar esse lado de alma que é ruim, diga um “Memorare”: “…gemendo sob o peso de meus pecados, me prostro aos vossos pés…” Portanto, o pecador, gemendo sob o peso da sua própria preguiça, pode ajoelhar-se diante de Nossa Senhora e dizer: “Minha Mãe, eu não conseguirei nada enquanto não me ajudardes. Ajudai-me!”

    O demônio gostaria de sugerir este pensamento: “Se Dr. Plinio conhecesse meu estado de alma, ele me excluiria com horror. Portanto, não posso dizer isso a ele. De outro lado, não posso me corrigir porque sou mole mesmo…” Então, vergonha, má consciência, tapeação.

    Nada disso! Quantas vezes, ao ver alguém nessas condições, eu gostaria de dizer o contrário: “Meu filho, ânimo! Nossa Senhora é Mãe de misericórdia, Ela tem pena dos pecadores. Peça mais, porque está dito no Evangelho: para quem bater, abrir-se-á”. Logo, a quem pedir dar-se-á. Isso que diz respeito, na aplicação mais direta, às graças materiais, Nosso Senhor afirmou, sobretudo, para os dons espirituais, para situações, por exemplo, como esta.

    Assim, esta reunião que passeou pelos píncaros da truculência, termina num ato de confiança na misericórdia.

    Alguém dirá: as duas coisas não são contraditórias? Eu afirmo que não. Uma prepara a outra. Porque só pede mesmo misericórdia quem está convencido de que é devedor. Quem não reconhece o próprio estado não pede misericórdia. Procura tapear.

    São duas posturas diferentes: uma é a do devedor que tem uma escrituração limpa, sabe quanto deve, procura o credor e diz: “Tenha pena de mim, não tenho dinheiro para lhe pagar. Não achincalhe o meu nome e não confisque meus bens. Vou trabalhar e pretendo pagá-lo no momento oportuno. Agora, lembre-se de que hoje o necessitado sou eu, amanhã poderá ser o senhor. E o senhor quererá que tenham consigo uma misericórdia que o senhor terá se tiver comigo. Faz favor”. Outra situação é a do tapeador que falsifica contas, nega que está devendo, pede testemunhas, etc. Esse é um ladrão.

    A qual dos dois o credor tem mais vontade de perdoar: ao ladrão ou ao devedor probo? Evidentemente ao segundo. Assim é Nossa Senhora conosco. Ela tem mais facilidade em obter para nós o perdão quando nossa alma está limpa.

    — Mas, Dr. Plinio – objetará alguém –, além de ser mole, minha alma não é limpa.

    — Meu filho, comece por pedir a Nossa Senhora a limpeza de alma, por onde você tenha ideia clara de seus pecados. Qualquer ponto é bom para começar desde que na outra ponta do caminho esteja Nossa Senhora.

    Estas são reflexões feitas à margem da minha operação. Apresento-as com o desejo de que façam bem às suas almas. v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 6/2/1982)

     

    1) Em 3 de fevereiro de 1975, Dr. Plinio sofreu grave acidente de automóvel, que o obrigou a usar muletas e depois cadeira de rodas até o fim de sua vida.

    2) Dr. Plinio se refere a seu secretário pessoal e fiel discípulo, João Scognamiglio Clá Dias, hoje Monsenhor.

    3) Do francês: o cavaleiro sem medo e sem reproche.

    4) Do latim: luz da razão.

  • A vitória da confiança – II

    Durante o cerco de Jasna Gora Frei Kordecki mostrou ser um homem de espírito sobrenatural, que sabe ver nos acontecimentos o momento da espera e do ataque, combatendo não só o adversário fora dos muros, mas os “quinta-coluna” dentro do mosteiro. Em todas as suas ações revelou esplendidamente o espírito militar. O verdadeiro sacerdote, na força do termo, deve ser assim. Para sermos clericais como devemos, é preciso recorrer a esses grandes exemplos do passado.

     

    Até esse momento, tinham se dado atritos pequenos entre os sitiantes protestantes e os católicos de Jasna Gora, uns tiroteios de cá e de lá.

    Enfurecidos, os protestantes concentraram um ataque contínuo de três dias contra Jasna Gora, lançando granadas e projéteis incendiários, procurando incendiar as instalações do mosteiro e do santuário. À noite, ocupavam-se em abrir trincheiras em direção aos muros.

    O católico verdadeiramente piedoso é um guerreiro de primeira classe

    Trata-se, agora, de um ataque maciço, completo, que não poupou sequer o mosteiro e a própria igreja. Travar-se-á, então, uma batalha em regra, durante a qual poderemos ver como se manifesta esplendidamente o espírito militar desse grande frade, Frei Kordecki, e o que é a combatividade segundo a boa tradição católica.

    Em dado momento, em meio ao fragor do bombardeiro, ouve-se um piedoso hino sacral procedente do alto da torre do santuário, comunicando novo ânimo aos seus defensores. Desde então, tornou-se costume ouvir todos os dias, em meio à luta, os hinos que emanavam da torre sólida e majestosa. Os suecos, com isso, tanto mais se enfureciam, pois entendiam como uma manifestação de desprezo por eles.

    O cântico de hinos indica, naturalmente, alegria, festa, despreocupação, ou então, luta. Ali, não. Eram hinos religiosos, enquanto os protestantes estavam se lançando ao combate. O que não fica claro nesta narração é se esses hinos eram entoados por monges do mosteiro ou por Anjos. Porque, como veremos mais adiante, aparecerá de modo resplandecente o caráter milagroso da defesa. Entretanto, podemos imaginar o efeito bonito produzido pelos canhões troando, o barulho da batalha enquanto do alto da torre majestosa evolam hinos. É uma coisa realmente bonita!

    Equipes de prevenção foram distribuídas nas bases dos telhados a fim de dar combate às bombas incendiárias lançadas pelo inimigo. Algumas destas rebatiam nos telhados e caíam para fora dos muros. Uma bomba lançada contra a capela onde se encontra o milagroso quadro de Nossa Senhora de Czestochowa, como se fosse tocada por uma força invisível, voltou-se contra o campo inimigo, espalhando um terrível fogo pelos ares.

    Isso é bonito também: o teto da capela repele aquela bomba sacrílega, como uma raquete rebate uma bola. Então, aquela bomba vai cair no campo do adversário.

    O senhor Piotr Czarniecki, Castelão de Kiev, um dos cinco nobres que participavam da defesa de Jasna Gora, distinguido em guerras anteriores, decidiu dar um golpe de audácia nos suecos. Saindo à noite com um destacamento de soldados, conseguiu colocar-se na retaguarda do acampamento dos inimigos, sem que esses o notassem, e fez um belo trabalho: matou o comandante da artilharia, vários oficiais e muitos soldados e, tendo capturado dois canhões, voltou para o interior dos muros.

    Chamo a atenção para o lado combativo do espírito católico. É um autêntico católico que luta como um grande batalhador. Isso tudo para espadanar com aquela noção do católico mole e imbecil apresentada pela “heresia branca”(1). Pode-se e deve-se ser muito religioso, e quando se é verdadeiramente muito piedoso, se é um guerreiro de primeira classe. Esta é a tese sobre a qual jamais será suficiente insistir.

    Aproveitando a confusão e o pânico que se estabeleceram entre os suecos, e tendo muitos deles saído a campo aberto, os canhões de Jasna Gora completaram o golpe de Czarniecki, eliminando outros sitiantes. Czarniecki perdeu apenas um de seus homens na expedição.

    A vida religiosa bem levada prepara o herói

    Miller, convencendo-se de que não lhe seria fácil tomar a fortaleza, enviou mensagem a Wittenberg, comandante dos exércitos suecos em Cracóvia, pedindo que lhe enviasse canhões de potência suficiente para romper as muralhas, e lhe reforçasse o número de infantes.

    É o fracasso, portanto, do General Miller. Ele, com suas tropas iniciais, ameaçou e não conseguiu nada, teve que pedir reforços. Jasna Gora, que não tinha quem a defendesse, estava ganhando a batalha.

    Paralelamente, um nobre polonês, respeitável pela idade e pela linhagem, à primeira vista insuspeito, é enviado à fortaleza para tentar persuadir seus defensores a se renderem. Veio propor a capitulação, pois lhe parecia uma pretensão desmedida querer opor-se um mosteiro ao poderio sueco, quando o país inteiro se havia dobrado. Em seguida, dá um conselho de “amigo”:

    “A continuação da resistência só poderá suscitar a violência da vingança. É melhor entrar em acordo com o inimigo enquanto o mosteiro está inteiro. Procedam como os outros, se tendes amor a vosso bem. Aliás, a arma de uma Ordem Religiosa é se abster de questões temporais. O que tendes de comum com as turbulências da guerra, vós, cujas regras chamam à solidão e ao silêncio? Ponderai bem para que as armas que empunhastes em vez de rosários, não vos tragam a perdição.”

    Aqui é muito interessante o lado doutrinário. Pode-se imaginar esse homem, que é um “quinta-coluna”, um nobre venerável, talvez com barbas brancas, maneiras distintas, uma voz pausada, dizendo: “Tomai cuidado! É por amizade para convosco que eu sugiro…” Mas, no fundo, ele dá a seguinte doutrina: a solidão do padre é feita para não combater, só para rezar. O padre que combate está fora de sua posição.

    Ora, essa é exatamente a doutrina “heresia branca”. A Doutrina Católica verdadeira ensina o contrário: a solidão e o silêncio preparam o herói e, se assim não fosse, não adiantava guardar nem solidão, nem silêncio. O Rosário é uma devoção esplêndida! Mas se serviu para formar um imbecil incapaz de combater quando deve, ele foi mal rezado.

    A vida religiosa bem levada prepara um ânimo forte e combativo. O isolamento, o recolhimento, a clausura, ao invés de atrofiarem o indivíduo, o desenvolvem. Essa é, aliás, a antiga tese da Igreja Católica que, sendo Santa, nunca manteria uma instituição que atrofiasse seus membros. Porque atrofiar, evidentemente, é o contrário de santificar. Não se pode imaginar uma santificação que atrofie o caráter.

    A atitude enérgica, intransigente, sempre alcança a vitória

    O Padre Kordecki tinha estabelecido um armistício, com que ele esperava ganhar tempo, de maneira que as tropas eventuais de algum nobre inconformado com a situação da Polônia, de algum aliado, pudessem libertar o mosteiro.

    Enquanto isso se passava, respeitava-se um armistício. Mas os suecos começaram a tomar posições mais e mais próximas das muralhas, diante do que os sitiados rompem o cessar fogo, impondo sérias baixas ao inimigo.

    É bonito isso porque eles eram os mais fracos, poderiam contemporizar. Não. Os suecos aproveitam-se do armistício para aproximar os canhões das muralhas, tornando o pequeno alcance dos canhões daquele tempo mais eficaz. Frei Kordecki desencadeia a guerra. Solicitado a ceder, ele irrompe as hostilidades.

    O General Miller volta a enviar novo mensageiro, exigindo a rendição de Jasna Gora. Frei Kordecki responde que, preliminarmente, exigia o respeito à palavra dada, pois que garantia poderia ter de que os suecos cumpririam os acordos feitos, se mantinham como reféns os dois delegados enviados pelo mosteiro? Iludido pela esperança de tomar Jasna Gora por vias pacíficas, Miller finalmente manda libertar os reféns.

    Vejam como a atitude enérgica, intransigente sempre alcança a vitória. É questão de ser intransigente até a fim.

    Nos dias que se seguiram, o general enviou insistentemente delegados à fortaleza sitiada, tentando convencer os seus defensores a abrirem os portões a uma guarnição sueca e discutirem os termos do acordo.

    Notem a velhacaria: primeiro entra a guarnição, depois vão discutir o acordo… Como se pode propor isso a alguém? Mas o Télémaque, de Fénelon(2), e Luís XVI aceitariam.

    Mas para desespero dos hereges, o padre Prior, para ter a garantia de que os acordos seriam respeitados, exige agora que os mesmos sejam discutidos diretamente com Carlos Gustavo, o qual se encontrava muito distante de Jasna Gora.

    O Prior, Frei Kordecki, era inteligente, capaz, soube fazer a coisa.

    Entrementes, um nobre polonês se aproxima dos muros e se dirige aos nobres fiéis: “Para nós, traidores, também é muito cara a salvação da Pátria; a nós igualmente interessa, como a outros nobres, a preservação de sua integridade. Quando esta se encontra cada vez mais ameaçada de ruína, é preciso que nos dediquemos a ela com sinceridade. Por isso decidimos prudentemente auxiliá-la, passando para o partido de sua majestade, o rei sueco, senhor e defensor benigníssimo. Cessem, pois, as resistências!”

    Novamente uma atitude própria à “quinta-coluna”: “Nós, para defender o país, resolvemos passar para o inimigo. Vamos agora fazer a paz.” Ora, eles estão traindo e isso é defesa?!

    As boas e as más notícias

    O próprio Wittenberg, comandante das tropas em Cracóvia, envia uma carta aos sitiados indicando todos os benefícios que adviriam aos monges se entrassem em acordo com o General Miller, e ameaçando-os com represálias cruéis se continuassem a resistência.

    Enraivecidos pela intransigência dos sitiados, os suecos, perdendo já a esperança de qualquer acordo, lançam pesados ataques contra Jasna Gora, mas os canhões de defesa não lhes permitem aproximar-se de suas muralhas.

    Houve, portanto, uma defesa vitoriosa. Não podendo chegar perto, ou seja, o ataque era pouco eficaz. Praticamente era Frei Kordecki que tinha vencido mais uma vez.

    A 7 de dezembro, véspera da festa da Imaculada Conceição, um nobre polonês, Piotr Sladowski, detido pelos suecos quando voltava à sua aldeia procedente da Prússia, foi enviado à fortaleza com a incumbência de pressionar os monges a capitularem. Mas, pelo contrário, ele os animou a não se entregarem, dizendo que os exércitos invasores começam a sofrer suas primeiras derrotas, e que as contínuas violências dos hereges – saques nas propriedades da nobreza, assassinato dos sacerdotes, profanação dos templos – estavam despertando grande reação no país. Todas essas violências sucediam, acrescentou, por permissão de Deus e para castigo daqueles que faltam com a fidelidade a João Casimiro.

    Aparece, portanto, uma nobre figura de nobre, um guerreiro, um batalhador, que é dos poucos que dão ao Padre Kordecki o apoio moral de incitá-lo à resistência. É de grande valor para quem está lutando receber da parte de alguém o aviso: “Você faz bem, continue a lutar!” Tal benefício esse homem fez e nós devemos esperar que, por causa disso, a alma dele já esteja no Céu.

    No dia seguinte, festa de Nossa Senhora, um dos aldeões de Czestochowa, disfarçado de soldado sueco, conseguiu chegar até os muros e comunicou aos seus defensores que os sitiantes estão por receber de Cracóvia seis canhões pesados para demolir as muralhas, mais duzentos infantes de reforço. Por outro lado, numerosas tropas tártaras estão acorrendo a se unir a João Casimiro. É atirada uma carta assinada por Frei Antônio Paszkovski, prior do convento paulino de Cracóvia, o qual descreve as atrocidades cometidas pelos hereges e recomenda aos defensores de Jasna Gora não se deixarem iludir pelas palavras gentis do inimigo, pois não há entre os suecos nenhuma fé, nenhuma religião; nada, divino ou humano, é para eles inviolável. Não costumam cumprir nenhum acordo puramente político.

    Pouco antes, um tártaro, ao qual fora permitido adentrar os muros, após contemplar o santuário, surpreendeu os monges com palavras de encorajamento, incitando-os a não permitirem que os “porcos e perjuros”, dizia o tártaro, ocupassem o lugar consagrado à Virgem Puríssima. Com todos esses fatos, anota o Padre Kordecki, seus camaradas recobraram a confiança e o ânimo, embora soubessem que Miller receberia em breve seis canhões pesados para fustigar as muralhas.

    Esse episódio nos faz ver que a luta estava aumentando de intensidade e caminhava para se tornar trágica. De um lado, o Rei de Polônia, João Casimiro, estava fora, mas recebeu um grande auxílio dos tártaros, que são guerreiros violentos, ferozes. A ferocidade de um guerreiro tinha muita importância numa época na qual as armas de fogo não eram determinantes na batalha, em que havia sempre o risco dos adversários entrarem e exterminarem uma população. À vista disso, a vinda dos tártaros representava um reforço importante.

    De outro lado, as tropas suecas estavam recebendo canhões de grande potência e isso criava de um e outro lado da fortaleza pressões enormes. Ela podia receber bons auxílios, mas também ser dizimada de um momento para outro. Esse conjunto de circunstâncias punha à prova psicológica os defensores do mosteiro, porque embora seja verdade que as boas notícias, de si, animam principalmente os fracos que ficam logo autoconfiantes, corajosos, cheios de iniciativas, isso dura pouco pois nesta Terra o que há de mais incerto e raro são as boas notícias. Ora, quando chegam as más notícias, os fracos não aguentam.

    É mais fácil manter a fidelidade de um fraco na constância das más notícias do que na alternação de notícias boas e más. Isso porque, ao receber novidades alvissareiras, uma pessoa fraca, de pouca combatividade, se distende, pois é otimista. De repente chega uma nova hecatombe e o fraco precisa retomar a posição desagradável da qual se julgava livre. Então é muito mais difícil para ele voltar à situação anterior, porque durante algum tempo ele se habituou à distensão.

    Vemos os sitiados colocados nessa situação: ora uma notícia boa, ora uma ruim. Chega a má notícia, já estou vendo um fraco qualquer emburrado, que pensa: “Esse Frei Kordecki está me levando aonde não devia. É um louco, não tem bom senso!” Vem depois uma boa notícia: “Que herói é esse Frei Kordecki!” Não é à toa que estou dizendo isso. Poderão vir dias em que tenhamos de sofrer essas compressões e descompressões, e devemos nos habituar a sermos fortes.

    Sob um bombardeio, é feita uma procissão em honra do Santíssimo Sacramento

    Os católicos presenciam clara intervenção da Providência no meio dessas aflições. Enquanto transcorriam as cerimônias da Imaculada Conceição, um soldado sueco que voltava da aldeia de Redzin, onde blasfemara contra a honra de Nossa Senhora, tombou atingido por uma bala procedente de Jasna Gora, e que não era a ele dirigida, mas que rebateu na neve e o atingiu. Frei Kordecki registrou o fato, comentando: “Recebeu o justo castigo das mãos de Deus, como indigno de olhar o Sol aquele que insultou o brilho e a glória sempiterna da Santíssima Mãe”.

    Esse é um comentário de um homem de espírito sobrenatural.

    No sábado, os hereges recomeçaram a fustigar o mosteiro, e no domingo o bombardeio ganha tal fúria que parecia que o próprio inferno vomitava contra o sagrado ícone. Os monges, entretanto, realizaram nessa manhã, como de costume, uma cerimônia em honra do Santíssimo Sacramento.

    É uma verdadeira beleza! Um bombardeio tremendo. Enquanto os soldados lutavam os monges realizavam, como de costume, a cerimônia em honra do Santíssimo Sacramento, impávidos.

    Após a Santa Missa, o Santíssimo Sacramento foi levado em procissão ao longo das muralhas. Os projéteis passavam rente às cabeças dos defensores, mas só ao término da cerimônia estes responderam ao fogo inimigo.

    É outra atitude de uma grandeza extraordinária, que só se justifica por um movimento interior da graça. Enquanto o Santíssimo passava pelas fortificações, os suecos atiravam mais do que nunca, mas os católicos não reagiram. Quando o Santíssimo Sacramento acabou de passar, eles recomeçaram a lutar; estavam adorando a Santíssima Eucaristia sem se importar com a fuzilaria.

    Nesse dia, trezentos e trinta projéteis caíram sobre a fortaleza e três dos seus soldados entregaram a alma a Deus.

    É bem pouco para essa quantidade de projéteis.

    Cerca do meio-dia, o inimigo cessou o fogo e enviou uma mensagem perguntando se os monges haviam se persuadido a aceitar a proteção do rei sueco. Mas o Prior não tinha pressa. Disse-lhes que enviaria a resposta no dia seguinte. Imediatamente os suecos recomeçam o cerrado bombardeio. No dia seguinte repete-se a cena, e os monges tornam a responder: “Em questões tão importantes é preciso uma longa ponderação…”

    Era bem feito, porque eles estavam esperando com certeza os tártaros chegarem.

    Nessa época o inverno tornava-se mais intenso, o que levou os soldados suecos a acenderem fogueiras à noite para se protegerem do frio. Entretanto, revelavam assim suas posições, sendo alvejados pelos defensores de Jasna Gora. Convenceram-se logo de que entre o frio e a morte, era melhor escolher o frio.

    Notem como os católicos souberam aproveitar bem a ocasião.

    Já então os sitiados preparavam-se para o assalto que o inimigo lançaria, cedo ou tarde contra os muros. Prepararam as maças cravadas de pregos para repelir os que atingissem as muralhas, as varas de ferro, as vigas, as pedras.

    Portanto, eles estavam pressentindo que o supremo ataque viria.

    Uma névoa mandada pelo demônio

    Quando os suecos se lançaram para o primeiro assalto foram repelidos com facilidade, pois a neve denunciava seus movimentos e os tornava alvo visível para os sitiados.

    Nos dias seguintes, uma densa neblina envolveu o Monte Claro, possibilitando aos suecos aproximarem suas grandes máquinas de assalto sem serem percebidos.

    Em vista disso, o Prior determinou a um dos religiosos que clamasse pelo auxílio dos poderes de Deus contra os feitiços do inimigo, limpasse com exorcismos o ar escurecido e benzesse as armas dos defensores. Isso resultou tão eficiente que, neutralizando os esforços dos feiticeiros, afastaram-se do ar as trevas e os tiros novamente se tornaram certeiros, fazendo tombar o inimigo, apesar de protegido pelo auxílio abjeto do demônio.

    Considerem com que espírito sobrenatural Frei Kordecki lutava. Ele suspeitou que aquela névoa tinha sido mandada pelo demônio. Então, usou a “operação antinévoa”. É uma bonita cena: um nevoeiro denso, no qual não se vê quase nada, o Prior que dá suas ordens e o padre vai exorcizando os ares para expulsar os demônios, e benzendo as armas dos guerreiros para que os tiros fossem certeiros e as espadas entrassem a fundo no corpo dos adversários, apesar de qualquer ação do demônio. Pouco depois a névoa se dissipa, os feiticeiros protestantes ficam desapontados e a operação frustrada, porque todo o ataque estava planejado com base em máquinas de guerra que os sitiantes iam aproximando da muralha, protegidos pela névoa. Desfeita a neblina, o contra-ataque era triunfal.

    A um general de exército contemporâneo não ocorreria esta ideia: “Esta névoa veio do demônio.” Provavelmente um técnico em matéria de meteorologia diria a ele que a neblina se devia à umidade saída do rio tal. Pode ser, mas talvez os demônios dos ares agravem ou até produzam esse fenômeno. Então, esse frei, com discernimento dos espíritos, percebendo a ação diabólica, dissipou o fenômeno meteorológico preternatural, e com isso alcançou uma vitória.

    Eu gostaria de ser pintor para pintar uma cena assim: as muralhas na bruma, alguns guerreiros com armaduras meio resplandecendo à luz de umas tochas, o frade benzendo e exorcizando, e os demônios fugindo de todos os lados. Deve ser uma coisa magnífica pintar um quadro desses!

    Enquanto os hereges continuavam fustigando Jasna Gora, dois nobres poloneses ali refugiados, temendo que a fortaleza fosse tomada, tencionaram abandoná-la levando duas pessoas: um deles, a esposa, e o filhinho, o outro. Tinham até obtido permissão de Miller para atravessar a linha de fogo, mas Frei Kordecki impediu-os terminantemente de cumprir o intento, a fim de que esse fato não refletisse mal na moral de seus comandados.

    Sem dúvida, esse fato está muito resumido aqui. Para esses nobres terem essa promessa do comandante protestante era preciso que tivesse havido tratativas de lado a lado. Portanto, havia uma verdadeira “quinta-coluna” dentro do mosteiro tratando com os protestantes. Nessa situação qualquer um seria levado a dizer: “Quer sair, mande embora, para não atrapalhar aqui dentro.” Entretanto, Frei Kordecki é irredutível, por onde se vê a fibra desse religioso: “Não pode sair, porque se começam a sair fugitivos, abate-se a fibra de nossa gente. Ficam aqui dentro presos. Entraram, agora aguentem a batalha até o fim.”

    Por atitudes assim entendemos o que é um verdadeiro padre, na força do termo. Isso deve nos levar a ter admiração pelo clero, compreendendo bem como o clero atual se distancia disso. Mas para sermos clericais como devemos, é preciso recorrer a esses grandes exemplos do passado.

    Mas esse acontecimento, somado à insistência dos ataques inimigos e à morte de um jovem defensor, não tardou em influenciar o espírito de alguns monges. Estes, em contínuo temor, começaram a incitar à rendição, argumentando que se a Providência, em cujas mãos está o poder de colocar os tronos em mãos alheias, entregou a coroa polonesa aos suecos, não cabia a eles, monges, oporem-se à vontade de Deus, mas aceitá-la; tanto mais que o inimigo lhes assegurava a defesa da fé e a liberdade de culto.

    Esses monges afirmavam o seguinte: “Deus permitiu que o rei saísse, porque se Ele quisesse o rei de volta, era só repô-lo. Por que vamos lutar pelo rei se Deus não quer que ele ocupe o trono?” É bem exatamente o que os judeus diziam a Nosso Senhor quando Ele estava pregado na Cruz: “Se és Deus, salva-te a Ti próprio e desce da Cruz!” Ora, Deus não intervém assim nos acontecimentos humanos. Ele dá aos homens os meios de agir e os ajuda. Mas quer a sua colaboração.

    Quando tais insinuações se tornaram mais frequentes nas reuniões da congregação, o Prior chamou-os à ordem, de um modo fraternal, mas não sem energia. Bradou ele: “Que fé é a nossa, que reconhecimento a um Deus tão generoso para conosco que um tão pequeno dano nas comodidades terrenas consegue desviar-nos da guarda e proteção dos cofres dos tesouros celestes do Rei Eterno? Consideremos que de longe é mais prudente defendermos a integridade da casa de Deus, a santa fé e, ao mesmo tempo, nossas próprias liberdades, do que perdermos tudo, e além disso irmos para o exílio e para a escravidão eterna.”

    Em outras palavras, não adianta defender bens perecíveis, fazendo correr risco os bens eternos.             v

    (Continua no próximo número)

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 3 e 14/7/1972, 4/8/1972)

    Revista Dr Plinio 263 (Fevereiro de 2020)

     

    1) Expressão metafórica criada por Dr. Plinio para designar a mentalidade sentimental que se manifesta na piedade, na cultura, na arte, etc. As pessoas por ela afetadas se tornam moles, medíocres, pouco propensas à fortaleza, assim como a tudo que signifique esplendor.

    2) Les aventures de Télémaque – As aventuras de Telêmaco. Obra de autoria do escritor francês François Fénelon (*1651 – †1715), Arcebispo de Cambrai, na qual propugna uma educação desprovida da virtude da fortaleza. Esse livro foi utilizado na formação de diversos príncipes da França, causando-lhes graves deformações na mentalidade.

  • Manteve-se sempre no caminho da virtude – Beato Sebastião de Aparício

    Beato Sebastião de Aparício teve uma vida singular. Depois de uma existência muito simples e pobre, de um camponês arraigado na tradição de sua terra, embarcou para o México, naquele tempo lugar de aventura e riqueza, e ali se enriqueceu como agricultor. Depois se dedicou ao comércio, onde alcançou também um êxito extraordinário. Casou-se por duas vezes, tendo ficado viúvo, e em ambos os casamentos guardou a castidade perfeita com o consentimento da esposa.

    Aos setenta anos ingressou como irmão leigo na Ordem dos franciscanos, onde permaneceu por vinte e oito anos. O antigo agricultor, comerciante, homem de aventuras e esposo passou a ser um capuchinho de barba branca tranquilo, gentil, ressumando vida espiritual, morrendo numa espécie de apoteose.

    Em meio a esses zigue-zagues, sua alma manteve-se continuamente no caminho da virtude. É uma conjunção de vidas dentro das quais ele toma toda a personalidade de cada papel e, no fim, sublima-se no papel dos papéis: um simples irmão leigo franciscano, perfumando o convento, o México e, de algum modo, toda a América, com a beleza de sua vida.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 24/2/1966)
    Revista Dr Plinio 263 (Fevereiro de 2020)

  • Oração a Nossa Senhora da Saúde

    Ó Maria Santíssima, minha Senhora e minha Mãe, suplico-Vos que atenteis para as dificuldades psicológicas e nervosas que tanto me atormentam, com reflexos danosos para minha santificação e também para minha saúde.

    Bem sei derivarem elas, em parte, de fatores psicofísicos nativos, pelos quais não tenho culpa. Mas sei também que a minha insuficiente correspondência à vossa graça contribui para que a ação desses fatores se tenha desenvolvido, em certa medida, em mim.

    Não ignoro que a ação do demônio se junta a tudo isso para agravar-me a situação. Mas fincai em minha alma a convicção de que, sendo Mãe de incomparável bondade, não só dos enfermos e dos aflitos como ainda dos culpados, essas mesmas culpas não só não desviam de mim vossa misericórdia, mas a atrai com soberana e benfazeja grandeza a pousar sobre mim e me resolver os penosos problemas.

    Assim, é gemendo sob o peso de meus pecados que me prostro a vossos pés e faço de minhas próprias faltas um argumento para implorar em meu favor vossa inexcedível bondade.
    Tende pena de mim, ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria, e dizei uma só palavra, que minha alma e meu corpo serão curados.

    Amém.

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • Prece preparatória para a Comunhão

    Minha Mãe e Senhora do Santíssimo  Sacramento, Vós sois a síntese perfeita de todas as pessoas boas em todos os tempos. No meio de vossas excelsitudes há em Vós um filão que é a suprema  perfeição de mim mesmo. Adorai a Nosso Senhor por mim e comigo. Sede Vós o meu “autofalante” celeste e falai a Ele.

    Vinde minha Mãe e cobri minhas manchas, porque na presença d’Ele sou indigno e carregado de defeitos. Vinde resolver essa minha dificuldade. Obtende que Nosso Senhor Jesus Cristo não entre em análise comigo, e vá me perdoando antes mesmo de entrar em mim.

    Vinde com vosso sorriso, vossa voz e vossas palavras atraentíssimas a vosso Divino Filho.

    Amém.

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • Santa Joana de Valois

    Santa Joana de Valois foi desprezada por todo mundo, até pelo pai e, por fim, repudiada pelo marido. Mas ela conduziu a vida com dignidade e serenidade. Fundou uma Ordem Religiosa e  governou muito bem o feudo adquirido depois de sua separação conjugal. Após sua morte, recebeu a honra dos altares.

    Apesar de tudo quanto pudessem dizer dela, só uma coisa importava: ela era católica, e isso bastava. Para sua segurança, seu cartão de visita estava pronto: católica apostólica romana.

    É um título lindíssimo! Essa ufania de ser católico é a raiz daquilo que Camões chamava “os cristãos atrevimentos”. Quando temos essa ufania é que nos atrevemos a nos lançar. Não porque sejamos mais na ordem humana dos valores; talvez até sejamos menos do que alguns.

    Mas isso não importa. O que tem importância é o fato de sermos católicos, termos recebido o sinal do Batismo na fronte, sermos filhos da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 15/6/1967)

  • Santa Catarina de Ricci – O heroísmo do estado religioso

    O heroísmo de um santo é muito maior do que o de um grande herói num campo de batalha. O religioso que passa a vida inteira num convento, cumprindo a Regra na perfeição, pratica um verdadeiro heroísmo, pelo qual devemos ser transidos de admiração.

    Santa Catarina de Ricci, virgem, foi uma religiosa dominicana do século XVI. Acompanhemos sua ficha biográfica:

    Membro de uma família do patriciado de Florença

    Nascida em 23 de abril de 1522, Santa Catarina de Ricci pertencia a uma família do patriciado florentino. Aos 13 anos ingressou no convento fundado por Damas de Caridade, da Ordem Terceira de São Domingos.

    Durante os primeiros anos de sua vida conventual padeceu muitos dissabores. Seu misticismo foi mal interpretado; julgavam-na louca e pouco faltou para que a expulsassem do convento. Entretanto, sua sobre-humana paciência durante duas graves enfermidades abriu os olhos de suas companheiras.

    Muito jovem ainda, tornou-se mestra de noviças e aos 25 anos de idade foi nomeada priora, cargo que conservou quase continuamente até a sua morte, em fevereiro de 1590.

    Em fevereiro de 1542, passou a experimentar misticamente a Agonia e Paixão de Nosso Senhor. A partir do meio-dia de sexta-feira, até às quatro da tarde do dia seguinte, nela se manifestavam os estigmas produzidos pela flagelação, pela coroação de espinhos e pela Cruz.

    Muitos céticos e indiferentes, pecadores e incrédulos, convertiam-se ao vê-la. Porém, a santa fugia do tumulto causado pelas pessoas que acorriam para contemplá-la.

    Quando Santa Catarina de Ricci entregou sua alma a Deus, um coro angélico foi ouvido por todos os presentes. E Santa Madalena de Pazzi, arrebatada em êxtase, viu-a subir aos Céus no meio de um grupo de espíritos celestiais.

    A santidade consiste na prática de todas as virtudes em grau heroico

    No início da ficha fala-se das virtudes da santa: dissabores padecidos, paciência nas enfermidades, etc. Depois, vem a parte referente às visões e revelações que ela teve. Tenho a impressão de que, enquanto o trecho relativo às visões e às revelações pode interessar, a primeira parte para algumas pessoas talvez seja um pouco enigmática.

    Santa Catarina de Ricci foi, de fato, uma religiosa privilegiada por fenômenos místicos. Embora tais fenômenos sejam, muitas vezes, uma manifestação da santidade de quem os recebe, eles não constituem o cerne da santidade.

    Tanto isso é assim que existem muitos santos que não tiveram visões nem revelações, não operaram milagres em vida, e cuja santidade se verifica apenas pela conformidade heroica de seu procedimento com os preceitos e conselhos dados por Nosso Senhor Jesus Cristo.

    O que é então a santidade? Não é apenas a posse habitual de todas as virtudes, mas é a prática dessas virtudes em grau heroico. Quer dizer, é o exercício dos hábitos bons de maneira a levá-los até o heroísmo. É um modo insigne de possuir a virtude.

    Tenho impressão de que as pessoas não chegam a formar uma ideia devida dos sacrifícios que o estado religioso exige, e da sublimidade deste estado, mesmo quando ele é praticado apenas entre as quatro paredes de um convento, em ações comuns e não extraordinárias da vida. Ou seja, mesmo vivendo uma vida comum num convento, uma alma pode praticar virtudes heroicas.

    Nada é mais difícil para o homem do que vencer-se a si mesmo

    As virtudes consistem em hábitos retos da alma, que se externam através de ações praticadas continuamente, e com integridade.

    Por exemplo, uma religiosa que tenha o hábito da obediência, da pobreza, da castidade. Ela tem interiormente, como raiz, a disposição habitual de espírito de ser casta, pobre, desapegada dos bens da Terra e obediente, de não fazer a sua própria vontade, mas a de seus superiores.

    Como ela tem habitualmente essa disposição de espírito, e é isto que se chama virtude, suas ações externas também são habitualmente assim.

    Portanto, ela será habitual e invariavelmente casta, obediente e pobre, sem nenhuma exceção na sua conduta.

    Sustento que este heroísmo é mais autêntico do que o de muitas pessoas consideradas heroicas; é o mesmo senso do sacrifício, do dever, da imolação própria, de que um grande herói pode dar provas num campo de batalha. Não há coisa mais difícil para o homem do que vencer-se a si mesmo, subjugar as suas más inclinações.

    O mundo contemporâneo aclama como heróis indivíduos que se metem numa nave espacial e vão para a Lua. Há um certo heroísmo na ação deles, porque arriscam a vida. Então, é indiscutível que eles se portam heroicamente em uma determinada circunstância.

    Mas afirmo que o fato de praticar não apenas uma virtude, somente um ato heroico, mas dominar-se a tal ponto de não cair em pecado, para ser fiel à virtude e nela crescer, estar disposto a fazer, a qualquer hora, um ato de heroísmo, é incomparavelmente mais duro do que ir para a Lua. E tenho a impressão de que há muita gente que, para se ver livre de algum vício, aceitaria de ir à Lua, mas não consentiria em praticar os atos difíceis, interiores, necessários para se vencer.

    O combate à preguiça e a prática da pureza

    Por exemplo, um dos vícios mais difíceis de vencer é a preguiça, nas suas várias formas. A preguiça de concentrar a atenção, de trabalhar ininterruptamente, tomando, é claro, o repouso que o bom senso recomenda. A preguiça de começar um serviço, na medida do possível, do razoável, pelo mais difícil, deixando o mais fácil para depois. A preguiça de ser combativo, de ser amável, de ser duro com as pessoas a quem se quer bem, quando a fidelidade à virtude exige isso. A preguiça de se vencer quando a virtude nos exige que sejamos humildes, flexíveis, dóceis. Tudo isto é uma espécie de polvo, que faz da preguiça um vício que deita tentáculos em toda a nossa vida espiritual. É terrivelmente difícil combater a preguiça. E encontrar uma pessoa que não cede à preguiça em nada, que não só faz tudo quanto deve, mas o realiza com a perfeição devida e de bom grado, com alegria por estar fazendo o que deve, e que ainda está disposta a aceitar mais trabalho caso o dever o imponha, isto é extremamente raro; trata-se de um indivíduo que venceu heroicamente a própria preguiça.

    A pureza é uma virtude ao mesmo tempo tão fácil e tão difícil. Se a pessoa não concede coisa alguma à impureza, é fácil manter a pureza. Quem não tem uma concessão de um mau olhar, um mau pensamento, uma inclinação romântica, quem não cede em nada nestes pontos tem normalmente facilidades de manter a pureza. Mas quem faz pequenas concessões fica tão atraído para fazer concessões um pouco maiores, e depois concessões máximas, que a pureza se torna muito difícil de ser mantida. Entretanto, permanecer no estado de pureza é tão difícil, que é um verdadeiro heroísmo manter a contínua perseverança na castidade. Parece um paradoxo, mas é assim mesmo. É uma coisa fácil para se ter, mas ao mesmo tempo extraordinariamente difícil de se conservar.

    A obediência na vida religiosa

    A obediência. Algumas pessoas talvez não tenham realizado o que é a vida difícil de um religioso ou de uma religiosa no seu convento; o que significa, para um adulto, desde manhã até à noite, não fazer o que quer, mas o que lhe mandam.

    A Superiora chama:
    — Irmã tal, agora é o momento da senhora regar o jardim.

    Ela olha para fora, choveu, não precisa regar o jardim. Mas é necessário obedecer. Ela vai, pega o regador e rega o jardim.

    E, no caso de um convento masculino, o Superior diz:
    — Irmão tal, o senhor limpou mal tal coisa. Vá lá e limpe de novo.
    — Mas Padre Superior, quereria indicar onde é que eu limpei mal, para limpar de novo?
    — Vamos juntos que eu lhe mostro. Olha aqui o assoalho, como está sujo! Limpe melhor!

    O religioso olha para o assoalho e vê que está limpo… Isso quebra o orgulho.

    O grande Dom Vital, Bispo de Olinda, foi noviço num convento de capuchinhos, na França. O Superior dele mandava-o limpar algumas dessas traves que ficam nas paredes para sustentar o telhado. O Superior dizia para ele:
    — Mas Frei Vital, o senhor não viu essa penca de aranhas que está pendurada aí? O senhor não tirou?

    Ele olhava, não tinha aranha alguma, mas respondia:
    — Ah! pois não, Padre Superior. Primeiro peço o seu perdão.

    Ajoelhava, osculava o chão.
    — Está bem, agora suba e vá limpar.

    O Superior não podia perdoar, porque não tinha o que perdoar — não iria fazer uma pantomima —, mas deixava-o beijar o chão.

    Frei Vital subia, limpava o que já estava limpo, e voltava.

    Evidentemente, isso não é agradável. E não é apenas um dia, nem dois, nem cinco. São dez dias, dez anos, é toda uma vida! Já imaginaram o que é uma existência inteira tocada assim? O que é mais fácil: batalhas, tiros, soa a corneta, o sujeito sai, recebe um tiro, morre; ou passar uma vida inteira num convento?

    Visões, revelações e santidade

    Compreendemos, então, o que pode caber de verdadeiro e autêntico heroísmo numa vida religiosa. E temos elementos para apreciar esse tipo de vida religiosa, que não se assinala por nenhuma ação externa mais notável, mas é a prática contínua dos conselhos do Evangelho, a renúncia contínua à própria vontade, ao patrimônio próprio, etc. Isto é um verdadeiro heroísmo em relação ao qual devemos ser transidos de admiração.

    E daí vem um convite para vermos com mais admiração, mais entusiasmo o estado religioso, compreendermos esse estado no que ele tem de esplêndido.

    Quer dizer, devemos entender que uma santa pode não fazer nada de extraordinário na sua vida, a não ser cumprir completamente a Regra, porque se cumpriu perfeitamente a Regra, ela se santifica. E um santo também.

    Então, nós temos três conceitos: virtude, virtude heroica, visões e revelações. Virtude corrente, que é acessível a todos os católicos, virtude heroica, para a qual Deus chama todas as almas, mas para praticá-la precisam de graças especiais, porque sem graças especiais ninguém é herói. E depois, nós temos as visões e as revelações, que são uma coisa distinta.

    Bento XV, se não me engano, foi um Papa que dizia: “Dai-me um religioso que tenha cumprido perfeitamente a Regra em vida, e eu vos direi que ele foi santo”. É só cumprir a Regra.

    Catarina de Ricci foi uma santa dominicana que teve visões, revelações, êxtases, mas não foi santa por isto. Ela teve isto porque foi santa. As causas das visões é a santidade, e não o contrário. E ainda que ela não tivesse tido essas visões, mereceria toda a nossa admiração, pela virtude heroica de que deu prova.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 13/7/1971)

  • Santo Isidoro de Pelusio – Modos de tratar os pecadores

    Aos pecadores que se arrependem de suas faltas devemos tratar com doçura. Mas aos que não sentem pesar de suas culpas e são petulantes, é preciso mostrar toda firmeza para quebrar seu orgulho.

     

    Vamos tratar de Santo Isidoro de Pelúsio, grande lutador contra as heresias, que viveu no século V.

    Vingar a injúria feita a Deus

    Um sofista, Asclépio, em uma de suas cartas a Santo Isidoro, recomendava-lhe que moderasse sua linguagem. Então respondeu o Santo:

    Não creias que mudarei de tom e que me tornarei um fraco bajulador. Ao contrário, ou cessas de me dar tais conselhos ou eu te expulsarei do número de meus amigos.

    Que admirável! Isto é o cumprimento do preceito de Nosso Senhor, constante do Evangelho: “Seja vossa linguagem sim, sim, não, não!” (Mt 5, 37). Esse Asclépio recomendou a Santo Isidoro que atacasse menos fortemente os arianos e obteve essa resposta. Ou seja, se quiser me dar um conselho idiota que importa uma traição à causa católica, eu o corto do número dos meus amigos.

    Trecho de uma carta de Santo Isidoro ao Bispo de Teón:

    Somos igualmente culpados. Tanto quando vingamos nossas injúrias como também quando não sentimos as que são feitas a Deus. Tratando-se de nós, usemos de toda a indulgência quando nos ofenderem. Entretanto se foi Deus ultrajado, não devemos suportar.

    Ele diz que há duas formas de culpa, em matéria de injúrias: uma quando nos injuriam pessoalmente e nós nos vingamos; não devemos nos vingar das injúrias que nos fazem. Outra forma de culpa é quando não vingamos as injúrias feitas a Deus. A essas injúrias nós devemos vingar; é uma obrigação. Essas são palavras de um Santo canonizado pela Igreja para servir de modelo para nós.

    É preciso tremer de indignação quando se vê Deus injuriado.

    Tremer quer dizer estremecer de indignação.

    Vede, entretanto, como somos fracos. Somos sensíveis a ponto de não querer perdoar nossos inimigos, e só temos doçura com aqueles que se elevam contra Deus.

    Moisés não agia assim, embora fosse o mais suave dos homens. Ele não deixou de se encolerizar contra os israelitas quando fizeram o bezerro de ouro, e sua cólera nessa ocasião foi bem mais santa do que toda a doçura que acaso houvesse mostrado. Elias levantou-se contra os idólatras. João Batista contra Herodes. São Paulo contra Elimas. Isto sempre para vingar a injúria feita a Deus. Quanto a eles, esqueciam-se sem dificuldade das injúrias que lhes eram dirigidas.

    É verdade que Deus é poderoso bastante para Se fazer justiça, mas Ele quer que as pessoas de bem detestem o pecado e o façam detestar. E é nesta conduta de zelo que os Santos faziam consistir a virtude e a verdadeira Filosofia.

    Um pequeno exame de consciência

    O que Santo Isidoro acaba de dizer, em duas palavras, é o seguinte: era bom que as pessoas a quem ele se dirigia vissem como eram fracas. Diz ele:

    Vede, entretanto, como somos fracos.

    Esse é o modo antigo de dizer “como vocês são fracos”. É muito desagradável chegar num auditório e declarar: “Vocês são fracos, vocês têm tais defeitos”. Então, é uma maneira educada de dizer “nós somos fracos”. É claro que o Santo não era fraco, mas o modelo de fortaleza.  Entretanto, por bondade se colocava no meio dos outros.

    Lembro-me de um Santo que pregava para leprosos e, quando falava com eles, dizia “Nós leprosos…”, porque fica muito desagradável afirmar “vocês leprosos”. Dá a impressão que empurra de lado…

    Então Santo Isidoro dizia “somos”. Mas não devemos supor que um Santo pudesse ter essa fraqueza; é impossível, a Igreja não o teria canonizado. Vou pôr na linguagem que exprima o fundo das coisas: “Vede como sois fracos, vós sois sensíveis a ponto de não querer perdoar vossos inimigos.” Quer dizer, “Quando vos fazem uma ofensa pessoal, ficais muito sentidos, e não conseguis perdoar. Entretanto, contra aqueles que ofendem a Deus, vós apenas tendes doçura”.

    É o caso de fazermos aqui um pequeno exame de consciência.

    Nos quatro ou cinco últimos dias, é impossível que alguém não nos tenha feito uma ofensa, por pequena que seja, um atrito qualquer. Nós vimos pecados contra Deus de toda ordem, basta sair à rua. O que mexeu mais com os nossos nervos: o pecado contra Deus ou a desatenção feita a nós? Esse é um bom exame de consciência.

    Nesses últimos dias, não teremos ficado exacerbados com alguma desatenção que nos foi feita? É bem provável…  Ficamos igualmente exacerbados diante de algum pecado que presenciamos? Quem sabe se nós merecemos as palavras de Santo Isidoro de Pelúsio? É bem possível! Eu volto a dizer: é uma boa ocasião para um exame de consciência.

    Não se ganha todo mundo com métodos iguais

    Depois ele dá exemplos de Santos que não eram assim, mas violentos no castigar as ofensas feitas a Deus, e sabiam perdoar as injúrias cometidas contra eles, como por exemplo, Moisés que, sendo o mais suave dos homens, entretanto encolerizou-se com os israelitas quando fizeram o bezerro de ouro. Elias levantou-se contra os idólatras e pediu fogo do céu, que os exterminou. São João Batista indignou-se com Herodes. São Paulo com Elimas.

    Por quê? Porque esses eram pecadores, idólatras, homens de vida impura. Deus se indignou contra eles, e também os profetas se indignaram. Quanto às ofensas feitas a esses Santos pessoalmente, eles se esqueciam sem dificuldade.

    Em outra ocasião, Santo Isidoro de Pelúsio afirmou que com as pessoas de bem é preciso mostrar-se suave, paciente, humilde, mas com os arrogantes e orgulhosos deve-se saber usar um tom firme.

    Quer dizer, com as pessoas que veem com tristeza o mal que fizeram, podemos ser bons. Quando o indivíduo vem se jactando do mal que fez, é preciso pular em cima dele.

    Continua o Santo:

    Aqueles olham a doçura como uma virtude; eis por que devemos usá-la para consolá-los.

    Quer dizer, os que se arrependem de seus pecados são pessoas inclinadas à doçura. Os que não se arrependem são petulantes e só entendem a força. É preciso mostrar-lhes toda a firmeza para quebrar seu orgulho.

    Com essa conduta sábia e prudente sustentamos uns e humilhamos outros. Não se ganha todo o mundo com métodos iguais.

    É uma esplêndida consideração. Ao pecador arrependido trata-se de um jeito; ao não arrependido, de outro.    v

     

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 7/10/1968)

  • Corpo Místico de Cristo e comunhão dos santos

    A História é profundamente marcada por dois acontecimentos supremos: o pecado original e a Redenção. Esta última abriu para os homens um tesouro de graças cujo aproveitamento influencia o desenrolar dos acontecimentos na Terra. Eis a matéria desenvolvida por Dr. Plinio, continuando seus comentários à Carta Apostólica “Annum Ingressi”, de Leão XIII.

     

    Quando, do alto da cruz, Nosso Senhor Jesus Cristo proferiu o “consummatum est” (Jo 19,30) e entregou sua alma, foi resgatado o gênero humano. O homem, colocado pelo pecado na postura sem remédio de um devedor absolutamente insolvente, se reabilitou. Franqueado estava para ele o caminho da virtude, aberta a porta do Céu. Esse imenso triunfo foi uma vitória pessoal de Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Estava, pois, anulada a vitória obtida pelo demônio no Paraíso terrestre.

    Miríades de lutas individuais

    Restava a cada homem fazer uso da graça de Deus, trilhar o caminho franqueado, transpor os umbrais da porta aberta; uma série de lutas pessoais, pelas quais cada qual se salva a si mesmo.

    Na verdade, essas lutas se iniciaram antes de Cristo. Na previsão dos méritos do Redentor, a graça foi dispensada aos homens desde o primeiro momento depois da queda. Graça sempre suficiente, pouco abundante para os povos gentios, mais profusa para o povo eleito, que vivia à sombra da Sinagoga, prefigura da Igreja. Aqueles que venceram essa luta pessoal aguardaram no Limbo a salvação, entrando no Céu quando se efetuou a Redenção. Mas essa graça se tornou incomparavelmente mais torrencial, especialmente para os fiéis, depois da Redenção. As miríades de lutas individuais que tornam aproveitável para cada qual a vitória alcançada por Nosso Senhor Jesus Cristo, se efetuam com o recurso a três armas: a oração, pela qual o homem pede a graça de Deus; a resistência às tentações, pela qual corresponde à graça e cumpre a Lei; e a penitência, pela qual expia seus pecados.

    A Redenção, a graça e o Corpo Místico de Cristo

    Como Nosso Senhor Jesus Cristo, com os sofrimentos crudelíssimos e infinitamente meritórios de sua Paixão e morte, pagou pelos homens o preço do resgate, Deus abriu-lhes a porta do Céu, e franqueou-lhes os meios de lá chegar.

    A graça é, pois, um dom comprado à Justiça Divina por nosso Redentor. Em rigor, todos os méritos de Jesus Cristo só a Ele pertencem, pois são fruto das dores que sofreu. Contudo, numa efusão de sua misericórdia, quis Ele oferecer esse tesouro infinito por nós.

    Tornamo-nos, assim, coproprietários desse capital inestimável que são os méritos de Cristo.

    Formou-se, desse modo, uma sociedade, composta por Jesus Cristo e por todos os homens que Ele salvou. Sociedade mística, pois seu capital é sobrenatural, e sobrenatural é o plano em que ela vive e produz seus efeitos.

    Tal sociedade existe à maneira de um corpo, em que Jesus Cristo seria a cabeça. Com efeito, na medida em que cada membro da sociedade está unido a Jesus Cristo, d’Ele recebe a vida da graça, que é fruto de seus méritos. Se recusar a graça, rompe sua participação na sociedade e perde a vida sobrenatural.

    Numa bela metáfora, São Paulo chama essa sociedade Corpo, e a Jesus Cristo chama de cabeça desse corpo. A Igreja tornou corrente a expressão “Corpus Christi Mysticum”.

    Comunhão dos santos

    Se bem que os méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo sejam infinitos e, pois, suficientes para expiar inteiramente pelo gênero humano, quis Ele que uma parte do preço do resgate ficasse por pagar. E pagar pelos próprios homens.

    Em outros termos, estamos todos reunidos. Mas a maior parte das graças que recebemos está na proporção de nossos méritos. A méritos abundantes correspondem graças copiosas, a méritos menores, uma menor afluência.

    Note-se, entretanto, que esse princípio não tem uma aplicação meramente individual, de maneira a entender-se que a maior ou menor abundância de méritos de uma pessoa acarreta só para ela um acréscimo ou diminuição de graças.

    De um lado, porque a humanidade constitui um só todo aos olhos da Justiça Divina. De outro, porque nossos méritos não são senão a frutificação da graça em nós. Ora, a graça é, por sua vez, fruto dos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo que a todos pertencem. Por isso, todo mérito que adquirimos representa não só um enriquecimento para nós, mas para a Igreja inteira. A contrario sensu, toda graça que míngua ou se extingue num homem empobrece toda a Igreja.

    No fato de os méritos e deméritos de alguém projetarem efeitos sobre outros homens consiste o dogma da comunhão dos santos. O termo “santos” emprega-se aqui num sentido especial, referindo-se aos fiéis, e não aos santos canonizados.

    O tesouro da Igreja

    Os méritos infinitamente preciosos de Jesus Cristo, e nossos méritos, constituem pela comunhão dos santos o capital da sociedade sobrenatural que é o Corpo Místico. Esse capital é designado pelo nome de “tesouro da Igreja”.

    Acrescer esse capital por ações meritórias constitui um meio de acrescer a efusão da graça em todo o mundo

    — enriquecendo esse tesouro —, razão pela qual, na luta da Igreja contra seus adversários, é de primordial importância praticar de todos os modos tais ações.

    Cada vez que alguém resiste a uma tentação, toma uma resolução virtuosa, faz uma oração, pratica um ato de penitência ou uma obra de misericórdia espiritual ou temporal, acresce o tesouro da Igreja.

    Explicam-se por esta forma as Ordens contemplativas. Sem qualquer ação externa, elas vivem para acrescer com o contributo humano o tesouro da Igreja.

    Aspecto sobrenatural e aspecto jurídico da Igreja

    Posto isso, vemos que há na Igreja Católica, considerada enquanto sociedade de fiéis, dois aspectos indissociáveis. Um sobrenatural e invisível — a sociedade das almas na comunhão dos santos e no Corpo Místico. E outro visível e jurídico. Neste último, a Igreja é uma imensa monarquia com aspectos aristocráticos e democráticos.

    Enquanto governada em todo o universo pelo Pontífice Romano, que tem jurisdição direta e plena sobre todos os Bispos e sobre cada fiel, é uma monarquia. Enquanto desse governo participam os Bispos sob a autoridade do Sumo Pontífice, mas com jurisdição própria e não delegada por este, a Igreja é aristocrática.

    A situação da Diocese na Igreja Universal assemelha-se por muitos lados à do feudo na monarquia medieval. E as relações do Bispo com o Sumo Pontífice oferecem mais de um ponto de analogia com as que existiam entre o senhor feudal e seu suserano.

    O traço democrático existe na Igreja na escolha dos Pontífices, Bispos e Sacerdotes, que não obedece, como no Antigo Testamento, a restrições de caráter familiar. Entre os hebreus, determinou Deus que os sacerdotes só pertencessem à tribo de Levi. Contudo, na Igreja o sacerdócio em todos os graus, inclusive o Papado, pode ser exercido por plebeus.

    Reflexo na ação da Igreja

    Em ambos os aspectos, sobrenatural e jurídico, a Igreja pode ser vista como um organismo de luta.

    Por seus órgãos visíveis — o Romano Pontífice, seus Cardeais, as Congregações Romanas e outros órgãos que constituem a Santa Sé, os Patriarcas, Arquimandritas, Arcebispos, Bispos e Clero secular, Clero regular, religiosos não-sacerdotes e religiosas distribuídos em Ordens e Congregações, as Ordens Terceiras, as associações de fiéis — é ela um imenso organismo que luta proclamando a verdade, dirigindo as almas para

    a virtude e distribuindo os sacramentos.

    A força desses guerreiros, a eficácia de suas armas está toda na graça a qual, pela comunhão dos santos, se distribui por toda a terra.

    Acima dessa imensa sociedade, e assistindo com suas preces a nossa luta, estão a Igreja padecente, a Igreja gloriosa e toda a Corte celeste, tendo no ápice, junto ao trono de Deus, a Rainha do Céu e da Terra, Maria Santíssima que é o “General dos Exércitos de Deus” (São Luís Grignion de Montfort, “Tratado”, cap. 1, nº 28).

    Como já vimos antes, essa assistência celeste se realiza também com intervenções, visíveis ou não, nos acontecimentos da terra.

    Assim, a Cidade de Deus é e será até a consumação dos séculos “ut castrorum acies ordinata” — “como um exército em ordem de batalha”.

    Isto segundo uma visão estática. Pois, segundo uma visão dinâmica, a realidade se apresenta muito mais rica. Consideremo-la em um quadro histórico determinado: a grande crise religiosa triunfalmente superada pela Igreja no século XIII.

    Atuação de homens providenciais

    A sensualidade, sob todos os seus aspectos (depravação de costumes, gosto imoderado de prazeres), penetra a fundo na Cristandade e ameaça dominá-la. A Providência suscita, então, dois varões, São Francisco de Assis e São Domingos de Gusmão, e faz o Papa ver em sonho a Basílica de Latrão em risco de ruir, e sustentada pelos dois fundadores (a Basílica de São João de Latrão, e não a de São Pedro, é a catedral de Roma e do mundo, simbolizando a Igreja universal).

    Cada qual age num meio diferente para a regeneração da Cristandade.

    São Francisco ensina o desapego dos bens da terra; São Domingos combate as heresias. Em torno deles formam-se falanges de homens e mulheres, dispostos à imitar-lhes os exemplos e auxiliar-lhes os esforços. Surgem sucessivamente as Ordens primeiras, dos frades; as segundas, das freiras; e as terceiras, dos leigos. À voz dos fundadores e de outros apóstolos, as multidões se comovem, as heresias fenecem, o vício decai, a Fé e todas as virtudes voltam a seu primitivo esplendor.

    No plano natural, o movimento franciscano se nos apresenta com os seguintes elementos:

    1º) um homem de personalidade impressionante, que põe todos os seus recursos a serviço de um altíssimo ideal;

    2º) devoções e virtudes que ele prega, as quais, se não são novas, ao menos são por ele apresentadas sob nova luz: a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, a pobreza evangélica, etc., nascendo assim a espiritualidade franciscana;

    3º) auxiliares que ele forma e organiza solidamente nas três Ordens; 4º) ele se dirige ao povo, e o conquista.

    Com pequenas adaptações, o esquema é o mesmo no plano sobrenatural: é Deus que suscita seus homens de eleição, que convida por sua graça outros homens a lhes servir de discípulos, que lhes dá vocação para a vida religiosa, que atrai para eles as multidões, que toca a alma das multidões quando eles falam, que enfim lhes dá o êxito.

    Claro está que nada disto se realizou sem a cooperação do livre arbítrio de cada homem. Mas, enfim, os planos natural e sobrenatural se tocam e, mais do que isso, se interpenetram, do mesmo modo como a vida embebe todos os elementos materiais que formam uma planta.

    Em termos filosóficos, no reino vegetal só pode haver vida se houver planta (não há vida vegetal em abstrato); de outro lado, a planta só existe na ordem da vida (uma planta desenhada num papel, por exemplo, não é verdadeiramente planta).

    Assim também, na ordem sobrenatural a graça só eleva as criaturas que são puro espírito (anjos) ou dotadas de alma espiritual (homens); por sua vez, as criaturas só podem ser elevadas à vida sobrenatural pela graça.

    E assim fatos tão pequenos na aparência — frades que pregam, conventos que se fundam, povo que reza — são ricos em profundo significado, e sua fecundidade resulta de uma ação na qual estão empenhados os mais altos desígnios de Deus, os tesouros mais ricos de sua sabedoria e de sua bondade.

    Dessas ações tão modestas na aparência resultaram também os acontecimentos mais profundos da História da humanidade.

    Plinio Corrêa de Oliveira