Autor: Nelson

  • ORAÇÃO A NOSSO SENHOR AGONIZANTE NA CRUZ

    Era 10 de março 1988, quando Dr. Plinio, atendendo ao pedido de um jovem que terminara de fazer um  retiro, ditou esta esplêndida oração, plena de amor a Cristo padecente, humildade e filial confiança

    Ó Senhor Bom Jesus! Do alto da Cruz deitais sobre mim o vosso olhar de misericórdia, parecendo desejar que, de meu lado, também eu levante os meus para Vos considerar!

    Sim, para Vos considerar em vossa infinita perfeição, e no insondável abismo das dores que padeceis… por mim. Pois bem sei que todas essas dores, Senhor, Vós as sofreríeis só por mim ou por outro homem qualquer, se este fosse o único a depender de tais padecimentos para se salvar.

    Vós me convidais a Vos fitar, Senhor! Mas Vós mesmo sabeis que não ouso fazê-lo. Não ouso pôr no vosso divino olhar os meus olhos pecadores, pois me é patente que não sou senão um  vermezinho e miserável pecador, como disse vosso grande e glorioso servidor São Luís Maria Grignion de Montfort. Entretanto, sei também, Senhor, que num extremo de misericórdia destes-me por Mãe vossa própria Mãe.

    É ela a advogada que instituístes para pleitear minhas atenuantes ante o vosso tribunal, e para me obter a torrente de vossas misericórdias.

    Assim, rogo-Vos, Senhor, por Maria Santíssima, Medianeira de todas as graças, favorável acolhida para as súplicas que passo a Vos apresentar.

    Conheço, Senhor, quanto os horizontes de minha alma são de “teto baixo”. Isto é, quanto as cogitações para as quais me volto são meramente práticas, sumidas no concreto, de pouca elevação, todas restringidas ao âmbito natural e à vida terrena, cujos aspectos são precisamente os que mais me atraem. E procuro não olhar de frente o que existe de maravilhoso, de grandioso, de admirável, em suma, as criaturas terrenas que melhor refletem vossa supremacia e vossa glória.

    Imploro-Vos, ó Bom Jesus, que limpeis de minha alma este, como tantos outros defeitos meus, tão indignos da condição para a qual me chamastes, a rogos de vossa Santíssima Mãe; tão indignos da condição de quem deve viver afastado de todas as coisas terrenas, cogitando destas apenas na medida que estejam ordenadas ao Céu, a fim de preparar neste mundo as condições para que os homens melhor se salvem e Vos deem a maior glória — “nunc et semper et per omnia sæcula sæculorum”. Fazei-me amar, reta e santamente, tudo quanto é grande, maravilhoso, régio e elevado. Dai-me a graça de ser totalmente inapetente das ninharias que até agora me atraem e de ser totalmente apetente das grandezas que me deixam enfastiado. Pois o fastio dessas grandezas, Senhor, acaba redundando em fastio de Vós. Quem é frio e resistente aos apelos que fazeis ao amor dos homens, através do que é santo e maravilhoso na terra, o é também em relação à vossa obra-prima, que é a graça. E o é, outrossim, em relação a todos os infinitos horizontes da fé, que devemos contemplar.

    Não Vos peço apenas, Senhor, que esse defeito se atenue em mim, nem Vos suplico somente que dele me cureis. Imploro-Vos mais, muitíssimo mais: que eleveis minha alma ao amor de tudo quanto é grande na ordem sobrenatural e na ordem natural, e que eu a tudo ame com um amor que esteja no extremo oposto da indiferença que até agora me tem dominado.

    Pela linfa preciosa que correu de vosso lado, pela Igreja que saiu de vosso flanco, pelo sofrimento de vossa Mãe aos pés da Cruz, peço-Vos, Senhor: perdoai-me todas as minhas infidelidades e fazei de mim o contrário do que sou. Amém.

  • ORAÇÃO A NOSSO SENHOR AGONIZANTE NA CRUZ

    Era 10 de março 1988, quando Dr. Plinio, atendendo ao pedido de um jovem que terminara de fazer um  retiro, ditou esta esplêndida oração, plena de amor a Cristo padecente, humildade e filial confiança

    Ó Senhor Bom Jesus! Do alto da Cruz deitais sobre mim o vosso olhar de misericórdia, parecendo desejar que, de meu lado, também eu levante os meus para Vos considerar!

    Sim, para Vos considerar em vossa infinita perfeição, e no insondável abismo das dores que padeceis… por mim. Pois bem sei que todas essas dores, Senhor, Vós as sofreríeis só por mim ou por outro homem qualquer, se este fosse o único a depender de tais padecimentos para se salvar.

    Vós me convidais a Vos fitar, Senhor! Mas Vós mesmo sabeis que não ouso fazê-lo. Não ouso pôr no vosso divino olhar os meus olhos pecadores, pois me é patente que não sou senão um  vermezinho e miserável pecador, como disse vosso grande e glorioso servidor São Luís Maria Grignion de Montfort. Entretanto, sei também, Senhor, que num extremo de misericórdia destes-me por Mãe vossa própria Mãe.

    É ela a advogada que instituístes para pleitear minhas atenuantes ante o vosso tribunal, e para me obter a torrente de vossas misericórdias.

    Assim, rogo-Vos, Senhor, por Maria Santíssima, Medianeira de todas as graças, favorável acolhida para as súplicas que passo a Vos apresentar.

    Conheço, Senhor, quanto os horizontes de minha alma são de “teto baixo”. Isto é, quanto as cogitações para as quais me volto são meramente práticas, sumidas no concreto, de pouca elevação, todas restringidas ao âmbito natural e à vida terrena, cujos aspectos são precisamente os que mais me atraem. E procuro não olhar de frente o que existe de maravilhoso, de grandioso, de admirável, em suma, as criaturas terrenas que melhor refletem vossa supremacia e vossa glória.

    Imploro-Vos, ó Bom Jesus, que limpeis de minha alma este, como tantos outros defeitos meus, tão indignos da condição para a qual me chamastes, a rogos de vossa Santíssima Mãe; tão indignos da condição de quem deve viver afastado de todas as coisas terrenas, cogitando destas apenas na medida que estejam ordenadas ao Céu, a fim de preparar neste mundo as condições para que os homens melhor se salvem e Vos deem a maior glória — “nunc et semper et per omnia sæcula sæculorum”. Fazei-me amar, reta e santamente, tudo quanto é grande, maravilhoso, régio e elevado. Dai-me a graça de ser totalmente inapetente das ninharias que até agora me atraem e de ser totalmente apetente das grandezas que me deixam enfastiado. Pois o fastio dessas grandezas, Senhor, acaba redundando em fastio de Vós. Quem é frio e resistente aos apelos que fazeis ao amor dos homens, através do que é santo e maravilhoso na terra, o é também em relação à vossa obra-prima, que é a graça. E o é, outrossim, em relação a todos os infinitos horizontes da fé, que devemos contemplar.

    Não Vos peço apenas, Senhor, que esse defeito se atenue em mim, nem Vos suplico somente que dele me cureis. Imploro-Vos mais, muitíssimo mais: que eleveis minha alma ao amor de tudo quanto é grande na ordem sobrenatural e na ordem natural, e que eu a tudo ame com um amor que esteja no extremo oposto da indiferença que até agora me tem dominado.

    Pela linfa preciosa que correu de vosso lado, pela Igreja que saiu de vosso flanco, pelo sofrimento de vossa Mãe aos pés da Cruz, peço-Vos, Senhor: perdoai-me todas as minhas infidelidades e fazei de mim o contrário do que sou. Amém.

  • Castelos de Espanha

    Fronte erguida, olhar distante, característico de quem está meditando em horizontes sublimes; a ressequida mão estendida de modo firme, própria do homem que, sem se abaixar nem se rebaixar, assim recorre à caridade alheia: “Se tiver o que me dar e quiser fazê-lo, dê-me por amor a Deus. Porque dEle eu sou filho e, portanto, mereço que me socorram com aquilo de que necessito. Quer me dar uma esmola, pelo amor de Deus?”

    Esse perfil do mendigo espanhol, superiormente retratado pelo escritor Antero de Figueiredo, revela muito bem a altivez e a dignidade com que a mendicância tinha lugar na terra do Cid   Campeador e de Santo Inácio de Loyola. É este o mesmo senso da grandeza e da respeitabilidade que permite aos mais subidos nobres espanhóis usarem um belíssimo título: Grande de Espanha.

    Quando se ouve semelhante denominação honorífica, tem-se quase a impressão de que seu portador é um ente fabuloso: Fulano de tal, Duque e Grande de Espanha!

    Uma alma verdadeiramente católica, que sabe admirar e amar as diferentes qualidades postas por Deus nos diversos povos do mundo, rejubila-se com esse senso da grandeza, tão distintivo dos nobres, dos guerreiros, dos santos e dos mendigos de Espanha.

    E dos seus castelos. Sim, essa ideia da própria magnificência se acha presente também nos castelos espanhóis, de tal maneira que, para se referir a alguém que estivesse arquitetando sonhos e inalcançáveis anelos, cunhou-se nos vários idiomas europeus a expressão: “construindo castelos em Espanha”. Quer dizer, edificações formidáveis, miríficas, inexistentes, mas das quais os castelos de Espanha se aproximam de algum modo, dando a ideia de um ambiente onde o tal sonhador quereria viver. Daí alguns imaginarem o castelo na Espanha mais ou menos como os antigos concebiam o Olimpo…

    Na verdade, sonhos postos à margem, certos álbuns de castelos da Espanha nos fazem conhecer variados  aspectos da grandeza dessa nação. As fortalezas neles retratadas são tão altivas, tão  altaneiras — e altanaria não quer dizer orgulho, e sim noção do próprio valor e dignidade — são tão corajosas, têm torres tão feitas para avistar ao longe o atacante mouro, que realmente encantam.

    É curioso notar que esse modo de ser tem igualmente seu reflexo na vida de família dos espanhóis. Ou seja, a par de um elevado grau de carinho cercando os membros de uma mesma casa, a autoridade paterna conserva algo da supremacia do antigo castelão e senhor feudal junto aos seus vassalos. O pai quer ser inteiramente respeitado, e o filho se compraz em devotar-lhe essa completa deferência. As fórmulas de afeto e de cortesia existem, porém sempre envoltas nesse panejamento de dignidade e de incontestável força paterna, em virtude do que o filho não se atreve a  discutir com o pai, e menos ainda a ridicularizá-lo com algum gracejo.

    É o hispânico senso da grandeza, que deste modo enobrece as relações domésticas.

    * * *

    Trata-se do mesmo senso que envolve de uma aura mítica as antigas fortalezas ibéricas. Ora é um castelo que se diria inexistente. De fato, ele está ali; mas, se fôssemos idealizar uma construção fabulosa, mirífica, imaginaríamos algo como ele. É um castelo cujos vários aspectos são realizações de sucessivos desejos de algo mais belo, mais grandioso, mais extraordinário. Insaciáveis aspirações que, por fim, se concretizam em admirável conjunto: um castelo de Espanha!

    Ora são panos de muralha erguidos num ambiente que a natureza lhes tornou particularmente adequado, sob um dossel de nuvens volumosas, inconstantes, e em meio a um cambiante jogo de luz que lhes confere uma aparência fugidia, deixando-lhes partes profundas meio escuras, e outras muito iluminadas.

    Por vezes resta apenas uma ruína. Mas, que força maravilhosa tem essa ruína! Em vez de incutir pena, ela sugere a ideia da grandeza que outrora possuiu. Ela faz reviver um esplendoroso passado, tão magnífico que se pode perguntar se essas pedras derruídas não nos levam a imaginar um passado mais bonito do que este foi na realidade.

    Entretanto, é o próprio das coisas que tiveram seus dias de grandeza: todo o seu passado permanece como uma espécie de imensa cauda que desce do Céu até elas. É a continuidade histórica, é o que foi e, uma vez extinto, deixou sua lendária memória no espírito humano: “Fui. Não sou mais. Contudo, se eu fui o que deveria ter sido, de algum modo para sempre o serei!”

    Quem, pois, não se toma de respeito diante dessas ruínas? Elas também foram, e continuam sendo, castelos de Espanha…

  • Castelos de Espanha

    Fronte erguida, olhar distante, característico de quem está meditando em horizontes sublimes; a ressequida mão estendida de modo firme, própria do homem que, sem se abaixar nem se rebaixar, assim recorre à caridade alheia: “Se tiver o que me dar e quiser fazê-lo, dê-me por amor a Deus. Porque dEle eu sou filho e, portanto, mereço que me socorram com aquilo de que necessito. Quer me dar uma esmola, pelo amor de Deus?”

    Esse perfil do mendigo espanhol, superiormente retratado pelo escritor Antero de Figueiredo, revela muito bem a altivez e a dignidade com que a mendicância tinha lugar na terra do Cid   Campeador e de Santo Inácio de Loyola. É este o mesmo senso da grandeza e da respeitabilidade que permite aos mais subidos nobres espanhóis usarem um belíssimo título: Grande de Espanha.

    Quando se ouve semelhante denominação honorífica, tem-se quase a impressão de que seu portador é um ente fabuloso: Fulano de tal, Duque e Grande de Espanha!

    Uma alma verdadeiramente católica, que sabe admirar e amar as diferentes qualidades postas por Deus nos diversos povos do mundo, rejubila-se com esse senso da grandeza, tão distintivo dos nobres, dos guerreiros, dos santos e dos mendigos de Espanha.

    E dos seus castelos. Sim, essa ideia da própria magnificência se acha presente também nos castelos espanhóis, de tal maneira que, para se referir a alguém que estivesse arquitetando sonhos e inalcançáveis anelos, cunhou-se nos vários idiomas europeus a expressão: “construindo castelos em Espanha”. Quer dizer, edificações formidáveis, miríficas, inexistentes, mas das quais os castelos de Espanha se aproximam de algum modo, dando a ideia de um ambiente onde o tal sonhador quereria viver. Daí alguns imaginarem o castelo na Espanha mais ou menos como os antigos concebiam o Olimpo…

    Na verdade, sonhos postos à margem, certos álbuns de castelos da Espanha nos fazem conhecer variados  aspectos da grandeza dessa nação. As fortalezas neles retratadas são tão altivas, tão  altaneiras — e altanaria não quer dizer orgulho, e sim noção do próprio valor e dignidade — são tão corajosas, têm torres tão feitas para avistar ao longe o atacante mouro, que realmente encantam.

    É curioso notar que esse modo de ser tem igualmente seu reflexo na vida de família dos espanhóis. Ou seja, a par de um elevado grau de carinho cercando os membros de uma mesma casa, a autoridade paterna conserva algo da supremacia do antigo castelão e senhor feudal junto aos seus vassalos. O pai quer ser inteiramente respeitado, e o filho se compraz em devotar-lhe essa completa deferência. As fórmulas de afeto e de cortesia existem, porém sempre envoltas nesse panejamento de dignidade e de incontestável força paterna, em virtude do que o filho não se atreve a  discutir com o pai, e menos ainda a ridicularizá-lo com algum gracejo.

    É o hispânico senso da grandeza, que deste modo enobrece as relações domésticas.

    * * *

    Trata-se do mesmo senso que envolve de uma aura mítica as antigas fortalezas ibéricas. Ora é um castelo que se diria inexistente. De fato, ele está ali; mas, se fôssemos idealizar uma construção fabulosa, mirífica, imaginaríamos algo como ele. É um castelo cujos vários aspectos são realizações de sucessivos desejos de algo mais belo, mais grandioso, mais extraordinário. Insaciáveis aspirações que, por fim, se concretizam em admirável conjunto: um castelo de Espanha!

    Ora são panos de muralha erguidos num ambiente que a natureza lhes tornou particularmente adequado, sob um dossel de nuvens volumosas, inconstantes, e em meio a um cambiante jogo de luz que lhes confere uma aparência fugidia, deixando-lhes partes profundas meio escuras, e outras muito iluminadas.

    Por vezes resta apenas uma ruína. Mas, que força maravilhosa tem essa ruína! Em vez de incutir pena, ela sugere a ideia da grandeza que outrora possuiu. Ela faz reviver um esplendoroso passado, tão magnífico que se pode perguntar se essas pedras derruídas não nos levam a imaginar um passado mais bonito do que este foi na realidade.

    Entretanto, é o próprio das coisas que tiveram seus dias de grandeza: todo o seu passado permanece como uma espécie de imensa cauda que desce do Céu até elas. É a continuidade histórica, é o que foi e, uma vez extinto, deixou sua lendária memória no espírito humano: “Fui. Não sou mais. Contudo, se eu fui o que deveria ter sido, de algum modo para sempre o serei!”

    Quem, pois, não se toma de respeito diante dessas ruínas? Elas também foram, e continuam sendo, castelos de Espanha…

  • Flor dos vales

    Em sua infinita benevolência, Deus adornou certos vales com uma doçura especial, cuja amenidade e poesia contrastam com a majestade e o agreste das montanhas que os circundam.

    Neles, a prodigalidade divina dispôs que as flores se apresentassem com rara e envolvente beleza, superando em formosura as que nascem noutras paragens.

    É com inteira propriedade, portanto, que a Igreja canta os excelsos predicados de Maria Santíssima, louvando-a como a “Flor dos vales”: quer dizer, o requinte daquilo que há de mais delicado, mais terno, mais esplêndido; o ápice que concentra em si toda a beleza da Criação.

  • São Cirilo e São Metódio

    A vocação dos irmãos Cirilo e Metódio estava intimamente ligada à evangelização e conversão do povo eslavo. Para isso dedicaram inteiramente suas vidas, obtendo assim a glória dos altares.

    A respeito de São Cirilo e São Metódio, tenho em mãos o seguinte trecho extraído do “Ano litúrgico”, de Dom Gueranger(1):

    Cirilo e Metódio eram filhos de um alto funcionário de Tessalônica.

    Metódio obteve o governo de uma colônia eslava, na Macedônia.

    Cirilo, depois de ter estudado e ensinado, recebeu as ordens, e se fez monge na Bitínia; posteriormente foi encarregado da missão junto aos cazares, que eram os bárbaros da Rússia meridional, e nessa região ele deveria exercer com seu irmão uma missão político religiosa, em 862.

    Tendo o Príncipe da Morávia pedido a Bizâncio missionários que falassem a língua do país, Fócio lhe enviou, em 863, os dois irmãos. Eles compuseram um alfabeto novo, chamado ciríaco — que ainda se usa entre os russos —, e ensinaram os morávios a escrever. Depois traduziram a Bíblia e a Liturgia para o eslavônio, que era a forma de língua eslava falada por aqueles povos, e organizaram numerosas cristandades na Boêmia e na Hungria.

    Em 869, chegaram eles a Roma, onde Adriano II os tratou com honra, permitiu que celebrassem a Missa em eslavônio e ordenou-os Bispos. Mas Cirilo morreu logo depois, com a idade de 42 anos. Metódio voltou à Morávia e foi nomeado Arcebispo de Cirinium, na Sérvia, onde ele encontrou uma situação muito perturbada, contrária a ele. Seus inimigos mandaram encarcerá-lo, e o Papa interveio várias vezes em seu favor, tendo São Metódio finalmente triunfado sobre seus adversários. Morreu em 877, com pesar de todos. Seus magníficos funerais foram celebrados em grego, latim e eslavônio. Pio IX autorizou, em 1863, o culto aos Santos Cirilo e Metódio.

    Ponto de partida para verdadeiros baluartes católicos

    Nessa síntese biográfica, há várias notas muito curiosas. Em primeiro lugar, São Cirilo e São Metódio, como irmãos, fizeram uma obra da Providência que glorifica a instituição familiar. Deus não realiza isto habitualmente, mas, às vezes, escolhe dois irmãos, ou toda uma família, para fazer determinada obra pia. Esses dois foram enviados para uma obra extraordinária: a conversão dos povos de língua eslava, dos Bálcãs, que haveriam de irradiar a Fé, preparando a futura conversão da Rússia.

    Por isso a Divina Providência escolheu dois irmãos de certa categoria; um deles foi governador de Província e o outro se tornou monge.

    Outra nota curiosa é a seguinte: quem mandou estes dois irmãos fazerem esta evangelização tão extraordinária foi Fócio, precisamente um dos responsáveis pelo Cisma do Oriente; antes de cair em heresia, ele ainda deu esse impulso. O apostolado deles haveria de ser, nos Bálcãs, o ponto de partida de verdadeiros baluartes católicos no Oriente.

    Se até hoje há católicos nos Bálcãs, isso se deve exatamente a este “erro” estratégico de Fócio.

    Dando expressão escrita à mentalidade de um povo

    É interessante acompanharmos o papel desses Santos fundadores de povos, que é uma coisa tão extraordinária. Deus envia homens de sua destra para fazerem obras que constituem um povo. Ou seja, tomam pessoas que são como uma nebulosa, alguma coisa completamente anorgânica, sem vida própria, e as transformam num povo com todos os seus elementos.

    Vejamos o que eles fizeram para que nascesse o povo. Primeiro ensinaram os morávios a escrever, compondo para eles um alfabeto novo, chamado ciríaco. Quer dizer, o povo era tão analfabeto que nem tinha formas de caracteres próprios para exprimir a língua que falava. Os dois Santos inventaram os caracteres adequados, e o dialeto se radicou de tal maneira que até o tempo em que foi escrita a ficha lida há pouco era usado na Rússia. Portanto, durante aproximadamente mil anos, mais ou menos, o ciríaco esteve em vigor.

    Eles deram a expressão escrita do pensamento de um povo. A nota de fundador vai mais longe: São Cirilo e São Metódio traduziram a Bíblia e a Liturgia para o eslavônio; foi uma grandíssima obra literária, que fez com que aquela língua de um povo tão hostil adquirisse toda a dignidade de um idioma.

    Fundadores da Liturgia eslava

    Além disso, eles organizaram numerosas cristandades na Boêmia e na Hungria, ou seja, núcleos de povos vivendo como cristãos, que depois haveriam de se irradiar e cristianizar aquelas regiões. Ora, quando se trata de povos semibárbaros, cristianizar equivale a civilizar. Eles estavam dando os fundamentos da civilização — e, já de uma vez, uma civilização cristã — a povos que não ficavam apenas nos Bálcãs, mas entravam pela Europa Central, a Hungria. Vemos, portanto, a graça triunfante da Fé.

    Depois eles se dirigiram a Roma para apresentar a sua inteira submissão a Adriano II, o que, naquele tempo de luta entre o Oriente e o Ocidente, era muito significativo. Foram os fundadores da Liturgia eslava, porque obtiveram do Papa a licença para rezar a Missa em eslavônio.

    São Cirilo morreu em 869; São Metódio voltou ao Oriente, foi nomeado Arcebispo — é a Hierarquia eclesiástica que começava a nascer — e tornou-se objeto de uma oposição violenta. Vemos isso na vida de quase todos os fundadores: fundam a obra, têm triunfos e de repente estala uma tremenda revolta contra eles. A obra muitas vezes cai, outras vezes não, como sucedeu a São Metódio: ele venceu e morreu cercado de honra.

    “Emitte Spiritum tuum”…

    Para a glória de sua Igreja, ao longo da História, Nosso Senhor suscitou Santos que agiram nos campos mais variados. Porém, depois que a Revolução começou a triunfar, houve uma retração das bênçãos de Deus, e a civilização católica não prosperou. Toda a ordem temporal ficou afetada por uma espécie de raquitismo religioso; foi um castigo decorrente da Revolução.

    Isso continuará até que a Revolução produza os seus últimos e amargos frutos, e a Humanidade tenha comido as bolotas dos porcos. A Providência então restaurará a Humanidade.

    Nesta ocasião aparecerão os Santos fundadores que vão fundar o Reino de Maria. E na aurora desse Reino convém lembrar-nos de São Cirilo e São Metódio. Pode nos parecer muito difícil organizar o Reino de Maria; não pensemos nisso, mas procuremos compreender esse ensinamento.

    Os varões da destra de Deus podem fazer tudo. São Cirilo e São Metódio não eram sociólogos, economistas, nem psicólogos, porém eram incomparavelmente mais do que isto: Santos da destra de Deus. Eles surgiram e tudo nasceu. Lembremo-nos, então, daquela oração feita ao Divino Espírito Santo “Emitte Spiritum tuum et creabuntur, et renovabis faciem terrae — Enviai o vosso Espírito e renovareis a face da Terra”. Poderíamos dizer: “Enviai o vosso Espírito, presente nos homens de vossa destra, e todas as coisas serão novamente criadas e se renovará a face da Terra”. É isto que devemos pedir.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 7/7/1965)

    1) Cfr. http://www.abbaye-saint-benoit.ch/gueranger/anneliturgique/pentecote/pentecote03/040.htm

  • Heroísmo, graça e beleza

    Ergue-se sozinha, desafiando a vastidão das águas que se abrem à sua frente. Dir-se-ia antes um palácio em forma de torre, espaçoso, amplo, imponente, com seus diversos andares encimados pelo caminho de ronda, ao longo do qual os vigias atentos são capazes de perlustrar todo o horizonte.

    Cercada de pátios, patamares e guaritas, fruto de uma concepção corajosa, misto de guerreiro e sagrado, a Torre de Belém é, a meu ver, um dos mais belos monumentos da Cristandade.

    Quando a vi pela primeira vez, desde logo tornou-se dos meus maiores encantos. Era a forma de grandeza e de pulcritude que eu desejava conhecer, sem a poder imaginar. Contemplando-a com meus próprios olhos, veio-me ao espírito este pensamento: “Já a pressentia, mas não conseguia colocá-la em palavras; tudo em mim se inclinava para ela, para o desejo que algo assim existisse. Eis a torre que eu tanto esperava!”

    Senti, por assim dizer, uma vivíssima consonância que nos unia. Pareceu-me magnífica como dignidade, calma, distinção, majestade. Como vigor, força e, ao mesmo tempo, suavidade e delicadeza, presente naquelas sacadas de onde o rei e a corte assistiam a partida dos valorosos navegantes. Pude imaginar os adeuses de parte a parte, os lenços que se agitavam para marcar a separação e todas as outras manifestações de carinho e amizade para com os que se ausentavam. Tudo isso me veio de imediato à imaginação, porque havia essa consonância da Torre comigo.

    Lembrar-me dela é para mim uma fonte de alegria: “Lá está a Torre, e sempre poderei revê-la!”

    Extraordinária definição de ousadia, altiva, séria, resolvida a enfrentar os mares, ela nos convida a superiores cogitações. Sua atmosfera é incompatível com a superficialidade, a intriga e as mesquinharias da baixeza humana. Dela emanam aromas espirituais e sobrenaturais, o maravilhoso perfume da graça divina, posto que edificada por almas movidas de espírito católico, cuja inspiração artística sublimou-se por uma espécie de carisma e dom celestial para atingir aquele esplendor de realização.

    Obra do passado, ela nos fala de futuro. Suas pedras de alvura reluzente nos transporta para o mundo dos contos de fábula.

    É o próprio símbolo do heroísmo, da graça e da beleza.

    Tenho para mim que certos lugares e monumentos que não possuem um significado diretamente religioso, mas constituem uma expressão cultural definida muito católica, devem ser admirados por amor à Igreja. A Torre de Belém é um deles.

    Eu lhe devoto tanto apreço porque amo a Esposa Mística de Cristo. E quando a elogio, faço-o com uma emoção religiosa: porque a graça me toca a alma ao vê-la, e ao perceber nos seus encantos os reflexos dos sentimentos cristãos que levaram os navegadores, os missionários e os conquistadores lusitanos a empreenderem uma epopeia que traçou indelével sulco nas águas da História.

  • Maria Santíssima nos ama porque somos seus filhos

    A correspondência às graças recebidas de Nossa Senhora é um elemento a mais para Ela nos amar. Mas isso não significa que, se não correspondermos, Ela não nos ame. Mesmo quando não correspondemos, Maria Santíssima nos ama com uma ternura que temos dificuldade em imaginar.

    A maior prova de que o amor materno não depende da reciprocidade é o amor de uma mãe por sua criancinha que ainda não fala. Qual é a correspondência que aquele bebê está dando? Nenhuma. Entretanto, basta alguém mexer nele para que a mãe logo se mova a defendê-lo, porque ela quer aquela criança de um amor natural gratuito.

    A Santíssima Virgem é nossa Mãe com mais realidade do que nossas mães terrenas, por melhores que sejam ou tenham sido. Assim, ainda que não mereçamos o seu amor, Ela nos ama porque somos seus filhos.

    Portanto, o fato de não correspondermos à graça não quer dizer que Nossa Senhora não esteja transbordando do desejo de nos dar favores e benefícios de toda ordem. E porque Ela transborda desse desejo devemos rezar a Ela com confiança.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 27/11/1989)
    Revista Dr Plinio 263 (Fevereiro de 2020)

  • “Unum” de Veneza e do mar

    Entre os belíssimos monumentos de Veneza, cidade cuja conjunção com o mar atrai turistas do mundo inteiro, destaca-se a Catedral de São Marcos, poema construído em torno da Santa Missa, onde a Pala d’Oro, com sua feeria de esmaltes e cores, concorre não apenas para a cultura artística, mas principalmente para a formação religiosa do povo de Deus, o que faz dessa obra de arte um verdadeiro tesouro.

     

    Estando em Veneza, em minha última viagem à Europa(1), tive a oportunidade de transpor de lancha um braço de mar, saindo de Veneza em direção a duas ilhas que ficam em frente: São Jorge e Giudecca.

    Conclave que elegeu Pio VII

    À medida que nos distanciamos de Veneza, vamos tendo uma mudança de panorama que mereceria ser comentada, e que é a seguinte: quando a lancha está a uma distância ainda pequena da cidade, não se goza tanto da proximidade do mar porque a atenção fica inteiramente absorvida pelos monumentos. Ademais, o ser humano não consegue fixar bem a atenção na conjunção monumento-mar, porque o mar é muito largo, o monumento muito bonito, e ora um ora outro biparte a atenção do homem.

    Com a distância, pelo contrário, vai-se formando um “unum” de Veneza e do mar, pelo qual, num primeiro momento, trata-se de considerar como a cidade é bonita vista a partir do mar. Bem mais longe, a cidade vai ficando ao fundo do panorama e o mar atrai mais a atenção. Por fim, Veneza torna-se apenas uma moldura distante para o mar, cuja beleza é ressaltada ao ser emoldurado por ela.

    A Ilha de São Jorge é toda tomada pela basílica e o mosteiro do mesmo nome. É, portanto, uma ilha-mosteiro. Em fins do século XVIII, quando o Papado parecia destroçado, o Papa Pio VI, muito doente, foi arrastado à força pelos revolucionários franceses e levado prisioneiro para a França.

    Ao chegar à cidade de Valence, o povo queria vê-lo, aglutinado do lado de fora da casa onde o Pontífice estava. Ele se arrastou até o terraço para evitar uma agressão do povo e apresentou-se dizendo “Ecce homo – Eis o homem”, que foram as palavras com as quais Pôncio Pilatos apresentou ao populacho revoltado Nosso Senhor flagelado, coroado de espinhos, com o manto da ignomínia e a cana de bobo na mão. Pio VI, para significar como estava reduzido a quase nada, disse de si mesmo que estava como Nosso Senhor. É uma coisa que um Vigário de Cristo pode dizer, quando se encontra nessa situação tristíssima.

    Quando ele morreu, muitos tiveram a loucura de pensar que não haveria mais papas e a Igreja Católica iria sumindo aos poucos. O Imperador da Áustria era senhor de Veneza naquele tempo e resolveu realizar um conclave para os cardeais elegerem um novo pontífice. O soberano proporcionou todas as condições para que o conclave se realizasse nessa ilha, e ali foi eleito Pio VII como papa.

    A partir da Ilha de São Jorge, a distância de Veneza se faz sentir menos do que da Ilha Giudecca. Portanto, não é ainda verdade dizer que a cidade serve de mera moldura ao mar. Pelo contrário, Veneza e o mar se completam, um embeleza o outro.

    Para melhor avaliar a beleza desse panorama, imaginem que uma empresa colossal resolvesse propor ao Governo italiano, por razões de transporte, desviar esse braço de mar, e construísse em cima disso uma avenida de asfalto. Podemos imaginar a feiura que isso teria? Por outro lado, se estourasse uma guerra que destruísse Veneza, por causa desse mar valeria a pena ir ali? Entretanto, a conjunção Veneza-mar atrai turistas do mundo inteiro.

    Triunfo da Cruz sobre o crescente do Islã

    Temos uma vista da Praça de São Marcos que pode ser melhor admirada em horas em que está menos tomada por turistas. Notem a enorme diferença de estilos existente entre o campanário e a basílica. Contudo, vejam que variedade agradável isso ocasiona. É uma verdadeira beleza! Como o jeito, à maneira de bengala, dessa torre dura, forte e alta contrasta com o rendilhado gracioso, amável, da basílica! Cada coisa realça a beleza da outra e forma um conjunto lindíssimo.

    A “Torre do Relógio” é um dos monumentos mais famosos de Veneza. Ele se compõe de um corpo central onde se encontra o relógio que dá o nome ao edifício, e dois andares laterais bonitos, mas muito mais discretos, deixando todo o realce ao prédio principal, servindo-lhe de moldura, pois ainda que não houvesse essas edificações em volta, essa parte já constituiria uma torre.

    O relógio é muito bonito. O quadrante é de um azul bem escuro com desenhos em dourado e os números estão inscritos em círculos de pedra. Em cada ângulo encontra-se uma pequena circunferência vazada.

    A torre é fundamentalmente uma homenagem a Nossa Senhora. Na parte mais visível dela está a Santíssima Virgem com o Menino Jesus. Por ocasião do Natal, entram em cena os Reis Magos precedidos por um Anjo – movidos por um sistema mecânico –, e passam diante da Virgem-Mãe com seu Divino Filho para reverenciá-Los.

    Na construção da torre, Veneza não se esqueceu de si própria e colocou num lugar menos central, mas bastante evidente, o emblema da cidade: um leão alado, símbolo do Evangelista São Marcos, sob cujo patrocínio está a Sereníssima República.

    Esse é um prédio destinado à vida civil comum, não se trata de uma igreja. Entretanto, vejam como é impregnado profundamente de Religião, de maneira a encontrarmos em quase todos os motivos decorativos uma alusão religiosa. Até mesmo em cima, os mouros que estão batendo no sino. Veneza possuía escravos mouros aprisionados durante as guerras, as quais, em geral, eram por motivo religioso. Os venezianos eram católicos e os mouros maometanos. Os escravos deviam servir os seus senhores; então estão representados ali os escravos mouros batendo o sino. Ou seja, é o triunfo da Cruz sobre o crescente do Islã.

    Cavalos que parecem conversar

    Os famosos cavalos de Veneza, na realidade, pertenciam ao Império Bizantino, tendo sido trazidos de Constantinopla como presa de guerra. São considerados como verdadeira maravilha no gênero, porque representam com uma vitalidade e naturalidade assombrosas quatro cavalos que vão numa marcha um pouco viva, mas não em disparada. É muito interessante o inter-relacionamento entre eles. Cavalo não conversa; contudo, estes estão como que conversando. Notem o movimento de cabeça do primeiro para o segundo e do terceiro para o quarto. Percebe-se isso nos animais, às vezes: estão como que convivendo, quase como se conversassem. Considerem a discrição do movimento das patas, em nada forçado. É a marcha comum de cavalos numa rua, mas animais de categoria.

    Napoleão, que era um grande ladrão, levou-os para Paris. Quando ele caiu, o rei legítimo da França, irmão de Luís XVI, Luís XVIII, restituiu a Veneza esses cavalos roubados. O rei legítimo não queria ser dono ilegítimo de um tesouro desses. Então foram reinstalados.

    Mais recentemente descobriu-se que o ar do mar e outras circunstâncias estavam deteriorando os cavalos. Para evitar isso, que seria uma perda irreparável, foram feitas cópias exatíssimas, as quais ficam expostas às intempéries, enquanto as originais permanecem num lugar onde estejam a salvo dos fatores de deterioração.

    Um poema construído em torno da Santa Missa

    No interior da Basílica de São Marcos nota-se uma série de arcos que culminam num último, fechado numa espécie de semicírculo todo cravejado de mosaicos preciosos. O corpo da igreja é formado de tal maneira que possui arcos até o fim. Nos lados, os arcos se interrompem em certo momento para recomeçarem depois, deixando um espaço vazio.

    A catedral é construída em forma de cruz. O Corpo sagrado de Nosso Senhor estaria ao longo da nave central, e nas laterais os braços, cujo principal, para onde se inclinou a cabeça sagrada do Redentor na hora da morte, fica à direita do altar. Então a ideia da Cruz, do sacrifício, da morte e, portanto, da Redenção infinitamente preciosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, e de que a Missa renova de modo incruento o Santo Sacrifício do Calvário, fica simbolizada muito adequadamente por essa disposição.

    No primeiro plano vemos uma cruz disposta de maneira a ser observada por quem entra e por quem está nas naves laterais. Portanto, em qualquer lado que se esteja vê-se o símbolo de nossa Redenção, indicando o significado central da catedral, que é de ser o lugar onde se celebra a Missa, ato supremo da piedade católica. Assim, essa basílica é todo um poema construído em torno da Santa Missa.

    Para além dessa espécie de vedação com colunatas, feita de pedras lindíssimas, que separa o altar-mor do corpo da catedral, vemos à direita e à esquerda os púlpitos de onde os sacerdotes e diáconos leem as Sagradas Escrituras e cantam o Ofício sagrado.

    O solo em Veneza é de tal maneira úmido que apresenta resistências desiguais aos pesos que carrega. Então, há partes do chão que são um pouco mais afundadas, outras mais salientes, e é necessária certa atenção para não se perder o equilíbrio e cair de repente. Mas esse piso é feito de tal maneira que em nenhum lugar esse movimento de terreno prejudicou os mosaicos. Estão todos perfeitos.

    Pala d’Oro

    No alto desta espécie de divisão estão as imagens de Nossa Senhora, São João Batista e dos doze Apóstolos, reunidos em torno da Cruz. Notem a beleza dessa divisão e como ela marca bem a diferença entre o sacerdote e os fiéis. O sacerdote é o ministro de Deus, escolhido por Ele para representar os fiéis diante d’Ele. É ele quem tem o poder de celebrar a Missa, e por suas palavras se opera a transubstanciação. Nós, os fiéis, não temos esse poder. Porém, essa separação tão categórica é toda feita com amor, e por causa disso vemos como a Igreja enfeita e orna essa divisão e acentua nela a hierarquia estabelecida por Nosso Senhor Jesus Cristo.

    O retábulo do altar-mor é a famosa Pala d’Oro. Examinando esses esmaltes, vemos como cada um é uma verdadeira maravilha. Mas diz o Gênesis que Deus, tendo concluído a obra da Criação, no sétimo dia repousou e, contemplando o que tinha feito, viu que o conjunto era muito bom. É bem verdade, o conjunto das coisas excelentes tem mais beleza do que a mera soma das excelências que o constituem, individualmente consideradas. É uma regra de harmonia.

    No centro, vemos um esmalte representando Jesus Cristo rodeado dos quatro Evangelistas. Em cima, à esquerda, São Marcos; à direita, São João. Embaixo, à esquerda, São Mateus; à direita, São Lucas.

    Nessa obra de arte encontramos, numa feeria de esmaltes e cores, um grande número de cenas, pessoas, fisionomias. E no primeiro golpe de olhar consideramos uma beleza feita da mistura indefinida e multiplicada das cores, formas e figuras, muito deleitável à vista, mas também muito conveniente à piedade, porque os olhos ficam atraídos a se deterem sobre temas santíssimos, cristianíssimos; o que concorre, em primeiríssimo lugar, para a formação religiosa e, em segundo, para a cultura artística do povo de Deus. Tudo isso faz da Pala d’Oro um verdadeiro tesouro.    v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 7/12/1988)
    Revista Dr Plinio 263 (Fevereiro de 2020)

     

    1) Nessa viagem, Dr. Plinio esteve em Veneza de 30 de setembro a 5 outubro de 1988.

     

  • Vale de lágrimas no meio de montanhas cujos picos tocam no Paraíso – II

    Viver para um ideal é o melhor remédio contra os problemas da vida espiritual ou os desequilíbrios nervosos. Entretanto, isso só é possível se este ideal está constantemente voltado ao amor à transesfera, que é o início, a orla do amor de Deus.

     

    Certa ocasião caiu-me nas mãos uma fotografia minha tirada em menino. Eu estava no último período dessa fase, antes de encontrar a Revolução e ter que começar a pensar nela.

    Brisas e cores absolutas que não existem nesta Terra

    Entrei no Colégio São Luís pelos dez anos de idade, e aí começou outra fase. Fui tirar uma fotografia, porque naquele tempo, de quando em quando, as pessoas punham uma roupa melhor e se faziam fotografar, o que depois ficava no balaio das recordações da família. Balaios esses que a minha geração jogou todos no lixo. Em casa se conservou porque mamãe guardava.

    Nessa fotografia eu estava vestido não com traje de gala, mas com a roupa que um menino fino punha para ir passear, tomar um lanche numa confeitaria, umas coisas assim.

    Lembro-me perfeitamente do estado de espírito com que me encontrava naquela ocasião. Eu estava inundado de cogitações destas e fui para o fotógrafo, o qual me olhou e percebeu que eu permanecia inteiramente alheio a ele, à “Fräulein” e a tudo mais, e que não estava, portanto, com “cara fotográfica”. Então, ele me recomendou:

    — Tome uma atitude.

    Eu fiquei em pé e disse:

    — Estou aqui!

    — Não, não. Uma atitude viva!

    — Mas eu não sei tomar uma atitude viva.

    — Olhe, fique bem perto deste sofá, ponha seu pé aqui, sua mão no queixo…

    Eu executei o que ele quis, mas pensando em outras coisas. Ele me fotografou nessa situação.

    No que eu pensava? Era um meio-pensar e meio-sentir. Nessa minha idade, não podia ser uma especulação filosófica, abstrata, nem eu tinha talento para fazer isso. Era algo quase prosaico, mas assim: sempre gostei enormemente de toda espécie e grau de vento: brisa, ventinho, ventania, tufão… Lembro-me de que naquele dia soprava sobre mim uma brisa ligeiramente tendente para fresca, e eu estava vestindo uma roupa muito arejada. Sentia-me, assim, inundado pela brisa, leve, refrigerado, e a claridade do dia parecia ter uma reversibilidade com o frescor discreto da brisa. Parecia-me haver um nexo, mas não sabia qual, entre todos aqueles prazeres e um lado invisível onde havia brisas e cores absolutas, como esta Terra não tem.

    Naturalmente, nesta comparação entram as características minhas. Portanto, sendo eminentemente colorista, as cores, brisas e temperaturas falam-me muito.

    Então, por exemplo, um nácar, num dia como aquele, mais do que em outros, levava-me a ideia para um nácar perfeito, mas que me parecia ter um parentesco com uma porção de outras cores perfeitas simbolizadas pelas cores contingentes que eu via em torno de mim. Isso eu percebia vagamente, não tinha inteligência para formular, mas a minha sensibilidade era como se esse nácar perfeito fosse meio vivo, ou habitasse numa terra, fosse de uma zona onde as cores eram bem vivas. De fato, não era assim, mas uma sensação do absoluto e de Deus, e de que, com a ajuda de Nossa Senhora, eu chegaria até lá.

    Eu mantinha o olhar voltado para essa zona de modo permanente, mas com graus de intensidade muito desiguais. No dia dessa fotografia, não sei por que, era muito maior. Entretanto, quer nos dias maiores, quer nos menores, mais ou menos eu percebia o nexo disso com milhares de outras coisas que formavam uma transesfera(1).

    A parte mais rica, produtiva e fina da inteligência de um homem

    Parece-me que isso tem certa relação com o discernimento dos espíritos. Quando se tem isso muito fino, percebe-se melhor nos outros qual é o estado de alma. Sobretudo, a primeira nota que se toma a respeito de alguém, e que dá a clave em função da qual essa pessoa deve ser interpretada, é ver como ela está em relação a essas riquezas de alma. Sem isso as correlações não se fazem.

    A meu ver, essa é a parte mais rica, mais produtiva e fina da inteligência de um homem. Não é inteligência universitária. É um pensar, sentir, querer, onde a reversibilidade entre essas três potências da alma se nota melhor.

    O amor a essa transesfera é o início, a orla do amor de Deus. Para esse amor, o homem se volta por interesse ou desinteresse? Esta é uma pergunta fundamentalmente mal feita, porque aí o interesse e o desinteresse se fundem num píncaro mais alto. Aí está o verdadeiro amor de Deus. Exatamente, a dissociação entre interesse e desinteresse põe-se num nível menor. Se eu tiver que renunciar a um interesse para conservar isso, eu o farei. Mas nisso há uma coisa que supera o interesse e o desinteresse. É o movimento inteiro de minha alma; por todas as razões de meu desinteresse e de meu interesse eu pendo para lá.

    Não sei quantos problemas há na vida espiritual em que nós passamos dez, quinze, vinte anos remexendo inutilmente; e quanto mais remexe, mais desgasta o terreno e mais o cobre com a poeira das decepções, porque a solução não está ali, mas sim no que estou dizendo. Como também problemas de desequilíbrio nervoso. Então, toma um remédio para se equilibrar. Eu até sou favorável ao remédio quando o desequilíbrio chegou a tal ponto que não tem outro jeito. Mas esta é uma contemporização necessária, não a solução. A solução é isto de que estamos tratando. Seria até a nossa resposta à Psiquiatria contemporânea. O absoluto é melhor do que a Psiquiatria. Viver para um ideal resolve problemas de nervos.                v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 9/5/1984)

    Revista Dr Plinio 263 (Fevereiro de 2020)

     

    1) Termo criado por Dr. Plinio para significar que, acima das realidades visíveis, existem as invisíveis. As primeiras constituem a esfera, ou seja, o universo material; e as invisíveis, a transesfera.