Autor: Nelson

  • Meditação sobre o Natal – II

    Quais seriam nossas emoções se, logo após o nascimento de Jesus, entrássemos na gruta de Belém e contemplássemos a majestade, a acessibilidade e a misericórdia do Menino-Deus, bem como o ambiente que O cercava? Eis o tema do segundo estilo de meditação explanado por Dr. Plinio.

    Passarei a fazer uma meditação inteiramente diversa da anterior(1) para, depois, efetuarmos a comparação.

    Suponhamos que cada um de nós tivesse a alegria de entrar na gruta de Belém e ver Nossa Senhora com São José, o Menino Jesus, os pastores, o boi e o asno. E visse também os Reis Magos — entre os quais o Rei negro Baltazar — vindos do Oriente, se aproximando com suas caravanas, seus cortejos, a estrela; adoram o Menino-Deus e Lhe oferecem ouro, incenso e mirra.

    Como imaginariam a cena? Sob que aspecto ela lhes causaria mais alegria na alma e por onde se sentiriam mais próximos do Divino Infante?

    N’Ele, poderíamos considerar, entre muitos outros pontos, a infinita grandeza, a infinita acessibilidade, e também o infinito amor.

    Infinita grandeza do Menino Jesus

    Quanto a sua infinita grandeza, podemos imaginar uma gruta enorme, alta, quase como uma catedral, que não tivesse evidentemente uma arquitetura definida, mas suas pedras nos fizessem pressentir vagamente as ogivas de uma catedral da futura Idade Média. O berço do Menino Jesus estaria colocado bem no ponto majestoso da encruzilhada das várias naves laterais, naturais, e uma luz celeste toda de ouro pairaria sobre Ele naquele momento.

    O Divino Infante, embora deitado em seu presepe e sendo uma criança, é o Rei de toda majestade e toda glória, o Criador do Céu e da Terra, Deus encarnado e feito Homem, tendo desde o primeiro instante de seu ser — portando já no ventre de Nossa Senhora —, mais grandeza, mais manifestação de força e de poder do que todos os homens que houve na Terra, incomparavelmente mais inteligente do que São Tomás de Aquino, mais poderoso do que Carlos Magno, Napoleão, Alexandre; Ele sabia todas as coisas extraordinariamente mais do que qualquer cientista moderno, e na fisionomia sempre variável do Menino Jesus, de vez em quando esta majestade feita de sabedoria, de santidade, de ciência, de poder, haveria de aparecer.

    Então, imaginem que encontrassem isso misteriosamente expresso na fisionomia deste Menino. Que Ele, às vezes, se movesse e no seu movimento se percebesse um rei; abrisse os olhos e o fulgor de seu olhar tivesse uma profundidade tal que se sentisse n’Ele um grande sábio; haveria uma atmosfera circundando-O e que nimbasse de virtude todos aqueles que d’Ele se acercassem; algo puríssimo, de tal maneira que as pessoas não poderiam aproximar-se dali sem antes pedir perdão por seus pecados, mas ao mesmo tempo atraídas e incentivadas a se corrigirem de suas faltas, pela santidade que emanava daquele local.

    Majestade de Nossa Senhora

    E aos pés d’Ele Nossa Senhora, Ela também como uma verdadeira Rainha — a Virgem Santíssima era e é Rainha —, com uma dignidade e imponência, que não precisava de roupas nobres nem de tecidos de grande qualidade para se fazer valer.

    Todos sabem que Santa Teresinha do Menino Jesus era tão imponente que seu pai a chamava “minha pequena rainha”. O jardineiro do Carmelo, no processo de canonização, contou uma vez que viu uma freira, que estava de costas, fazer tal coisa e era Santa Teresinha. Então o advogado do diabo perguntou: “Mas como o senhor sabia que esta freira, estando ela de costas, era Santa Teresinha?” A resposta foi: “Pela majestade da santa, porque ninguém possuía a majestade que ela teve”.

    Podemos imaginar Nossa Senhora majestosíssima, transcendente, puríssima, rezando para o Menino Jesus, os Anjos invisivelmente cantando, em volta, canções de glorificação, e toda a atmosfera saturada de valores tais que se diria haver, naquela pobreza e miséria, um ambiente de corte.

    E nós nos aproximando do presépio, sentindo a grandeza do Menino Deus e, como contrarrevolucionários que somos, amando n’Ele tudo quanto é nobre, belo, santo, intransigente e combativo; adorando aquele Menino que, ao mesmo tempo, atrai junto a Si todas as formas de grandeza que dimanam, são reflexos e uma participação na santidade d’Ele, e rechaça para longe de Si o pecado, o erro, a desordem, o caos, a Revolução, que nem sequer ousa levantar os olhos para aquela cena magnífica em que a ordem, a hierarquia, a pompa e o esplendor dominam completamente.

    Acessibilidade do Divino Infante

    Consideremos agora outro aspecto: o Menino Jesus imensamente acessível.

    Suponhamos que esse Rei tão cheio de majestade, em certo momento abrisse os olhos para nós e notássemos — mas cada um deve imaginar-se visto por Ele — que o olhar puríssimo, inteligentíssimo, lucidíssimo do Divino Infante penetra em nossos olhos profundamente, vê o mais fundo de nossos defeitos bem como o melhor de nossas qualidades; e naquele momento toca a nossa alma, como tocou, trinta e três anos depois, a São Pedro, e nos dá uma tristeza profunda de nossos pecados.

    Conta o Evangelho que o olhar de Nosso Senhor para São Pedro foi tal que este se retirou e chorou amargamente. Então, imaginemos o olhar d’Ele nos dando o horror de nossos defeitos e nos mostrando seu amor às nossas qualidades. E também o seu amor à nossa condição de criatura feita por Ele; apesar de nossos defeitos, fomos criados por Ele e destinados a um grau de santidade e perfeição, que o Menino Jesus conhece e ama enquanto podendo existir em nós.

    De maneira que, embora pecadores, quando menos esperássemos, por um rogo amável de Nossa Senhora, Ele sorrisse para nós e, apesar de toda a sua majestade, sentíssemos as distâncias desaparecerem, o perdão que invade a nossa alma, e algo nos atraísse de tal forma que caminhássemos para junto do Menino-Deus, e Ele afetuosamente nos abraçasse e pronunciasse o nosso nome: “Fulano, Eu te quis e te quero tanto, desejo para ti tantas coisas, perdoo-te tanto, não pense mais nos teus pecados, daqui por diante pensa apenas em servir-Me. E em todas as ocasiões de tua vida, quando tiveres alguma dúvida, lembra-te dessa condescendência, dessa amabilidade, desse beneplácito e recorre a Mim por meio de minha Mãe, e Eu te atenderei, serei o teu amparo, a tua força que há de levar-te ao Céu para ali reinares ao meu lado por toda a eternidade”.

    Sua compaixão sem limites

    Imaginemos a misericórdia do Menino Jesus, olhando não só para o que há de bom e mau em nós, mas também para nossa tristeza, para a condição miserável de todo homem na Terra, para o sofrimento que cada um de nós traz em si, para o sofrimento passado e o sofrimento futuro que Ele conhece. Contemplando inclusive o risco que nossa alma corre de ir para o Inferno, para os tormentos eternos; todo homem, enquanto vive nesta terra, está exposto a ir para o Inferno. E o Divino Infante olhando para o Purgatório e os tormentos que ali nos aguardam, se não formos inteiramente fiéis. Então é um olhar de compaixão, de pena, de uma participação profunda na nossa dor; e um desejo de removê-la em toda medida que for possível, de nos dar forças para suportá-la na medida em que a dor for necessária para nos santificarmos.

    Então, notarmos n’Ele aquilo que consola tanto o homem, e que Jesus não teve quando chegou sua hora de sofrer. Qualquer pessoa, no momento da dor — está na natureza humana e é reto —, se consola em ter alguém que sinta pena dela, pois a compaixão divide o sofrimento. O homem é feito de tal maneira que, quando ele está alegre e comunica a sua alegria, esta se duplica, quando está triste e comunica a sua tristeza, esta se divide. Assim também, e a “fortiori”, passa-se conosco em relação ao Menino Jesus.

    Então, em todos os sofrimentos de nossa vida, quando a taça para beber for muito amarga, repetiríamos por meio de Maria Santíssima a oração de Nosso Senhor: “Meu Pai, se for possível afaste-se de Mim este cálice, mas faça-se a vossa vontade e não a minha”(2). Quer dizer, pediríamos, em todos os momentos, que a dor passasse, mas se fosse a vontade d’Ele a dor viesse sobre nós. Assim, durante nossos sofrimentos, teríamos compaixão d’Ele, como se nos dissesse: “Meu filho, Eu sofro contigo. Vamos padecer juntos porque sofri por ti, e há de chegar o momento em que tu participarás eternamente da minha alegria”. E o olhar compassível de Jesus não nos abandonará um momento em nossa existência.

    Três presépios representando cada um desses aspectos

    Então, ao fazermos essa meditação durante todo o tempo de Natal, ao longo das vicissitudes da existência quotidiana, devemos nos lembrar destes três pontos: a majestade infinita, a acessibilidade infinita, e a compaixão sem limites do Menino Jesus em relação a nós. E ter a recordação sensível, porque procuraríamos compor um pouco o quadro.

    Alguém me diria: “Mas Dr. Plinio, o presepe não poderia ter esses três aspectos ao mesmo tempo”. Não é verdade. Em Nosso Senhor todas as perfeições, todos os estados de alma perfeitos coexistiam na sua natureza humana em graus e modos diversos, conforme as circunstâncias da vida. Portanto, Ele era cheio de majestade, de acessibilidade e de compaixão para com os homens desde o momento em que entrou na Terra. E é natural que, apesar de ser Menino, conforme as almas que d’Ele se acercassem, ora uma qualidade, ora outra, aparecesse.

    Seria até muito bonito que numa igreja, em vez de um presépio, houvesse em três altares diferentes três presépios, em que as figuras e toda a ambientação representassem, em cada altar, um desses aspectos para facilitar às almas a meditação sobre esses pontos como, aliás, sobre outros que também se poderiam considerar.

    Como pintar o olhar do Menino-Deus?

    Aqui estaria um outro tipo de meditação sobre o Santo Natal. O primeiro é um estilo de meditação que chamaríamos mais teórico, mais doutrinário; o segundo seria uma recomposição mais sensível, tocando-nos mais de perto.

    Na segunda meditação, há lógica também, pois sem lógica não há meditação; mas a parte do embebimento da fantasia, da sensibilidade para preparar o jogo da lógica é muito grande. A primeira é muito mais seca. Aí está a diferença entre as duas escolas. A geração posterior à minha é muito apetente de embebimento e de preparação desta natureza, conforme a segunda meditação.

    Como eu gostaria de ter em nosso Movimento pintores ou desenhistas que soubessem, por exemplo, pintar três presépios de acordo com esta concepção, ostentando toda a grandeza, ou toda a acessibilidade, afabilidade, ou toda a compaixão de Nosso Senhor! Como seria bonito! Mas o difícil é que seria preciso saber pintar aquilo que é o centro do presépio: um Menino recém-nascido que, sem perder as características de menino, tivesse tudo isso e, sobretudo, um olhar onde essas perfeições se refletissem. Como pintar um olhar infantil capaz de dizer tudo isso? Antes de ser pintor, que psicólogo o artista precisa ser para imaginar este olhar! E, depois de imaginado, como pintar? Este seria o pintor que iniciaria nossa escola de pintura, porque tenho a impressão de que, no pintar expressões de olhar, nossa escola estaria largamente representada.

    ”Minha alma é eminentemente inaciana”

    Essa meditação sobre o Santo Natal conduz à seguinte convicção: convém fazer um estilo e outro, porque há diversas vias espirituais, e não devemos nos fixar só num estilo. Vale a pena alternarmos, meditando ora de um modo, ora de outro, para atender aos anseios de todas as almas.

    Se me perguntassem o que me impressiona mais, eu responderia que, embora tendo composto o segundo tipo, me impressiona mais o primeiro, talvez por ser mais próprio de minha geração ou do meu feitio de espírito. Aquilo que é inteiramente racional e que eu posso ver amarrado por um raciocínio inexorável, me enche e me basta. Compreendo que outros não sejam assim, a tal ponto que tomei o trabalho de compor, para uso de outros, uma meditação diferente, e dou o meu tempo por muito bem empregado.

    Nessa opinião transparece a seguinte posição: na Igreja há várias escolas espirituais, todas aprovadas por ela. Em geral, inauguradas e seguidas por santos, essas escolas são esplêndidas, e cada um deve seguir o que sua alma lhe pede. Minha alma é eminentemente inaciana e o sistema de Santo Inácio me encanta. O raciocínio simples, claro, límpido, que conclui e que arrasta, e a respeito do qual não há tergiversação nem sofisma, me deixa entusiasmado! Sejamos cada um como Deus o fez para a glória d’Ele.

    Que Nossa Senhora nos ajude para que possamos tirar proveito de qualquer dessas meditações, de maneira a compreendermos cada vez mais a Ela e ao Menino Jesus.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 29/12/1973)

    1) Revista “Dr. Plinio”, n. 189, p. 20-25.
    2) Cf. Mc 14, 36.

  • Majestade e sofrimento

    Com a alma pervadida de enlevo, veneração e ternura, Dr. Plinio imagina como seria o convívio diário na Sagrada Família, abordando desde os assuntos mais comezinhos até os mais sublimes. E compõe uma oração própria de uma pessoa que não foi maculada pela Revolução.

    Encontramos diversas estampas pitorescas, várias delas muito respeitáveis, decorosas, apropriadas e dignas, representando a santa casa onde residiu a Sagrada Família.

    Simplicidade sublime

    Em geral essas ilustrações se empenham em representar a casa de Nazaré com uma pureza diáfana, uma luz que não era apenas a de um dia lindamente luminoso, mas uma luminosidade persistentemente matinal, ao lado de uma grande simplicidade e uma limpeza absoluta.

    O que dizer da limpeza dessa casa?

    É difícil imaginar, porque talvez nem sequer os Anjos tinham o privilégio de limpá-la. Era Nossa Senhora, a Rainha dos Anjos, São José, o castíssimo esposo d’Ela, e às vezes, quando estavam cansados, o próprio Menino que, diante de todos os coros angélicos extasiados, limpava a casa para que seus pais descansassem.

    Num canto, um jarro simples do qual se levanta uma açucena, muito ereta, como a virgindade, como a pureza, perpendicular, da qual brota o cálice de uma flor maravilhosa; é a única coisa que fala de arte, de gosto; o resto é muito simples.

    Mas olhando para qualquer madeira tosca, para o ponto em que um pé de cadeira encosta no chão, o ponto em que uma prateleira suporta três ou quatro pequenos objetos indispensáveis para viver, fica-se extasiado, sem saber o que dizer diante dessas sublimes bagatelas, tão comuns na vida de qualquer um, mas que por estarem postas naquela luz tomam um caráter maravilhoso! 

    E para muito adequadamente realçar a humildade de personagens tão puros, apresentam dentro deste décor, a Sagrada Família: São José que, sentado, está torneando algum móvel; Nossa Senhora fazendo uma costurinha; o Menino em pé, tão pequeno ainda que se apoia, não na mesa, mas em uma cadeira vazia, sobre a qual brinca com dois ou três objetos, como se aquilo fosse uma mesa.

    Atentos aos gestos, à voz, ao olhar do Menino Jesus

    Um silêncio no qual ninguém diz nada, mas todos se entendem superlativamente. Ao mesmo tempo, juntando a vidinha de todos os dias de uma pobre família operária e o encanto de considerações metafísicas, sobrenaturais, de Nossa Senhora e de São José que viviam inundados pela presença do Menino, com tudo quanto essa presença significava e era.

    O Menino, nascido da Virgem-Mãe, da raça de Davi e, portanto, da mesma estirpe de São José — que possuía sobre Ele um autêntico direito de pai, por ser a criança o fruto das entranhas de sua esposa —, mas que era o Filho gerado pelo Espírito Santo no seio virginal de Maria.

    O que dizer disso? Não há palavras que bastem!

    A Santíssima Trindade, por assim dizer, “Se movia” ao menor movimento do Menino, brincando com algumas pedrinhas ou mexendo com uma coisa qualquer, enquanto sua infância ia se desenvolvendo segundo a ordenação posta por Deus na natureza humana, mesmo sendo esta tão elevada e tão distante do pecado original, como era a do Menino-Deus, Filho de Maria Virgem, concebida sem pecado original desde o primeiro instante de seu ser.

    Poderíamos, assim, imaginar as cenas mais comuns na vida de uma criança, como procurar algum objeto, hesitando sobre se estaria aqui ou lá, e não encontrando onde procurou, para depois buscar no lugar certo porque Nossa Senhora ou São José tinha mudado de lugar o objeto, ou o vento soprou e tocou para longe o paninho que Ele tinha separado…

    Que repercussão episódios tão simples teriam nas relações das três Pessoas da Santíssima Trindade?

    Por outro lado, São José e Maria Santíssima também cuidando dos afazeres domésticos, mas, tanto quanto possível, procurando não perder um gesto, um movimento, atentos à mínima emissão de voz d’Ele como a uma música inefável. O menor olhar d’Ele era um tesouro sem conta, o menor movimento tinha uma majestade e uma graça inexprimíveis! E eles sabiam que era o Homem-Deus que estava ali, hesitava, Se movia, falava… Podemos imaginar o enlevo sem fim que os inundava!

    Como seria o convívio diário na Sagrada Família?

    Deveria acontecer também que, pelas contingências da vida concreta, pela necessidade de prestar atenção nos afazeres, às vezes eles desviavam a atenção do Menino. De repente, tinham uma surpresa com alguma atitude e comentavam-na entre si, cochichando baixinho.

    Em outras ocasiões, um dos dois esposos tinha estado fora e, quando voltava, recebia encantado o “jornal falado”.

    Outras vezes era o próprio Menino Jesus que tinha saído para brincar com outra criança no jardim, enquanto São José e Nossa Senhora ficavam dentro de casa, confabulando: “O que estará fazendo Ele?”, sabendo não se tratar apenas da satisfação de um desejo infantil de ter um companheiro, mas considerando como tudo quanto Ele fazia tinha um significado muito profundo.

    Como seria o relacionamento entre os três, na casa de Nazaré? Teriam entre Si um contato, uma interlocução tal que a todo o momento fizessem referência à natureza divina de Jesus? E o Menino, à virgindade fecunda de sua Mãe e à virgindade milagrosa, florindo num casamento casto, de São José? Ou esses eram temas que eles sabiam, veneravam, mas sobre os quais falavam pouco, deixando-os implícitos e conversando sobre eles apenas nas grandes ocasiões, quando baixavam do Céu luzes extraordinárias e, contemplando o Menino, o santo casal tinha êxtases místicos?
    Com exceção desses momentos, talvez o resto do tempo transcorresse em uma vida comum, com os assuntos cotidianos:

    — José, meu esposo, fostes vós que abristes aquela porta? Quereis porventura sair levando um banco que acabastes de fazer, ou quereis ainda ficar aqui?

    — Senhora, eu ainda preciso ficar aqui, exceto se vossa vontade for outra…

    Algum tempo depois, diria São José:

    — Senhora, Vós vos distraístes — ele bem sabia que Ela tinha estado conversando com os Anjos! — e o almoço já vai longe no nosso pequeno fogareiro; vede um pouco como está… Enfim, poder-se-ia imaginar tudo.

    Refulgindo como no Tabor

    Eu seria propenso a achar que, na maravilha desse convívio interno, as coisas mais diferentes se davam simultaneamente. Entretanto, tudo se juntava em uma fórmula maravilhosa que não sabemos qual é, mas podemos intuir.

    Seria uma fórmula que comportaria momentos de uma seriedade extraordinária, de uma gravidade maravilhosa, em que a Santíssima Trindade se manifestasse ao santo casal? Ou que o Menino — que quando adulto reluziu no Tabor entre Moisés e Elias, de um modo tão esplendoroso — de repente aparecesse a eles com um brilho cada vez mais intenso, num momento inopinado em que Ele viesse pedir licença para brincar um pouco no jardim. E ambos passassem um tempo sem conseguirem responder ao Menino que, entretanto, esperava reluzente a resposta; e eles completamente transportados para outra esfera, pois estavam diante de Deus!

    Poderia ser que, depois de terem visto esse esplendor, não comentassem. E Maria dissesse a José:

    — Está ficando tarde, não é? Vou recolher a roupa que está lá fora.

    E ele diria:

    — Senhora, preciso acabar este objeto que me encomendaram para hoje à tarde.

    Enquanto Ela ia pegar a roupa e ele trabalhava no objeto, este tomava rapidamente a forma que ele queria. Nossa Senhora, entrava, via o objeto pronto e dizia:

    — Senhor, já está pronto o objeto? — suspeitando ter sido concluído pelos Anjos.

    E ele, discreto, responderia:

    — Senhora, às vezes as coisas correm depressa…

    Há um matiz nesse convívio da Sagrada Família que eu não vejo reproduzido na iconografia, e compreendo, porque não é fácil reproduzir. Isso tudo estava impregnado de uma respeitabilidade, de uma majestade, de uma seriedade augusta, de uma determinação forte, para dizer tudo em uma palavra só, de uma seriedade e de uma dor desconcertantes.

    Prefiguras da Agonia no Horto, do levar a Cruz ou da coroação como Rei

    Em certos momentos, o santo casal deveria ver que o Menino brincava e Lhes aparecia, de repente, chagado dos pés à cabeça, esmagado de dor, e brincando com dois pauzinhos que Ele carregava às costas. E era o precônio da Cruz.

    Eles ficavam com o coração partido, e viam o Menino andar de um lado para outro, determinadamente, fazendo um gesto ao Padre Eterno. E era um primeiro, um segundo, um quinto lance prefigurativos da Agonia no Horto. Que dor, que nobreza, que grandeza, que majestade!

    Outros dias Ele aparecia como Rei, em comparação com o qual os Césares não eram senão moleques.

    Poderíamos, assim, imaginar formas de venerabilidade as mais augustas.

    Acredito que os que quisessem habitar na dor seriam pouco numerosos. Mais raros ainda seriam os que não se cansassem da majestade.

    Escudo e espada para defender o Menino-Deus

    Contudo, quem, considerando a grandeza dessas cenas, não tivesse nenhuma nódoa de Revolução na alma, diante dessa majestade se ajoelharia e diria:

    “Ó Majestade divina, dentro desse mar imundo de vulgaridade que é hoje a Terra dominada pela Revolução, quanto Vos procurei sem saber que era a Vós que eu procurava! Quanto Vos desejei, quanto me comprouve em pegar os menores fiapos de majestade que encontrei pelo meu caminho e me deter diante deles conscientemente, pensando em Vós que eu não conhecia!

    “Mas afinal, ó Majestade, eu Vos encontro! Majestade, eu Vos compreendo! Vós tendes todo o império dos Anjos, sois tudo quanto há de grande!

    “Quando apareceis a mim, ó Majestade, penso no estrondo das cataratas mais caudalosas que, entretanto, são minúsculas torneiras abertas diante de Vós. O oceano parece um dedal de água em vossa presença, e todas as grandezas da Terra não são nada em comparação convosco.

    “Ó Majestade, quanto eu Vos procurei, ó pátria de minha alma! Afinal Vos encontro!

    “Quando eu fitava a Igreja e renovava enlevado o meu ato de Fé, não sabia que um dos nomes dela era “Majestade”. Agora compreendo. A Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, receptáculo da Majestade, vaso de honorificência!

    “Se eu visse Maria, que majestade! Se eu visse José, o modesto carpinteiro, que majestade! Se eu visse o Menino, minha alma procuraria rimas para celebrar-vos, ó Majestade!

    “Meus braços ansiariam por um escudo e por uma espada para Vos defender! Meu corpo inteiro se retesaria diante da possibilidade de Vos proclamar diante dos homens, ó Majestade!

    “E precisamente porque Vos compreendo, ó Majestade, compreendo também que na vossa imensidade cabem todas as outras coisas: não há amor paterno nem materno, nem carinho fraterno, nem amizade, nem socorro, nem proteção, nem nada do que o coração humano possa produzir de mais suave e de mais terno, que não more em Vós, ó Majestade! Vós sois todas as grandezas, todas as magnificências, até mesmo das coisas pequenas.

    “Vós sois o meu repouso quando estou cansado; a tranquilidade e a harmonia do meu sono; a alegria do meu despertar.”

    Morar no santuário da majestade

    Quem compreende que no santuário incomensurável da majestade há um altar, bem no centro, colocado para o sofrimento? Portanto, também para esta forma de dor de espírito, que é a ascese, por onde o homem abandona o que é frívolo, superficial, fútil, e se volta para o que é profundo, sério, para o esforço da mente na procura da verdade, para o esforço do corpo inteiro na procura do bem e do belo; holocausto mil vezes feito de todos os modos pela alma à procura da verdade, do bem, e da beleza.

    Sem essa dor, para nós, concebidos no pecado original, não teria sentido o santuário infinito da majestade. Essa é a verdade.

    Há a dor, há a cruz. A Cruz sacrossanta de Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Quem ama a dor? Quem ama a cruz? É tal a ligação entre a cruz e a majestade que, a partir de certo momento da História cristã, nenhuma coroa houve que não fosse encimada pela cruz. O píncaro da majestade, a cruz pequena sobre a coroa, como se a cruz estivesse numa altura tal que mesmo sobre a coroa ela fosse difícil de ver. Tal é a majestade da cruz!

    Quem amará esses pensamentos? Quem se habituará a conviver com eles? Quem quererá morar no santuário da majestade, ajoelhado aos pés da cruz?

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 20/11/1982)

  • A Sagrada Família

    Imaginando aspectos da Santa Casa de Nazaré, Dr. Plinio comenta as sublimes realidades do dia-a-dia da Sagrada Família, bem como o enlevo e a admiração do Santo Casal por seu Filho-Deus.

    É comum encontrar estampas com pitorescas representações da casa onde viveu a Sagrada Família. Muitas são respeitáveis e bastante apropriadas. Em geral, combinam uma pureza diáfana com uma luz que não era apenas a de um dia belamente luminoso — luz persistentemente matinal de um horário que já não é matinal. Em síntese, apresentam uma simplicidade absoluta junto a uma limpeza absoluta.

    Isto é o que nos apresentam tais figuras, mas fica-se sem saber o que dizer a respeito do que acontecia na Casa de Nazaré. Imaginemos, então.

    Imaginando aspectos da casa e do dia-a-dia

    O que comentar, por exemplo, da limpeza desta casa?

    Era Maria Santíssima que, diante dos coros angélicos extasiados, fazia a limpeza da Santa Casa. Às vezes era São José, seu castíssimo esposo, quem a fazia. Noutra ocasião, quando estavam cansados, era o Menino quem limpava a casa para que os pais a encontrassem em bom estado… É difícil crer, mas nem sequer os Anjos tinham o privilégio de limpá-la.

    Num canto da casa, há um simples jarro, do qual se levanta uma açucena, reta como a virgindade. É a única coisa que fala de arte; o resto é tão simples…

    Entretanto, olhando para qualquer madeira tosca, para o pé de uma cadeira, por exemplo, ou para uma prateleira que suporta três ou quatro pequenos objetos indispensáveis para viver, fica-se extasiado! Não se sabe o que dizer diante dessas “sublimes bagatelas”, tão comuns na vida de qualquer um, mas, que por estarem postas naquela casa, assumem um caráter todo especial.

    Sublimes realidades

    Imaginemos São José sentado, torneando alguma coisa, enquanto Nossa Senhora faz alguma costurinha, e o Menino que, tão pequeno ainda, brinca com duas ou três pedrinhas, em pé, apoiado numa cadeira vazia.

    Não há palavras que bastem para nos explicar o que, na realidade, está se passando: este Menino — verdadeiro menino, nascido da linhagem de David — foi gerado pelo Espírito Santo nas entranhas de Nossa Senhora, a flor do gênero humano!

    Enquanto o Menino Jesus brinca com suas pedrinhas, e n’Ele a natureza humana se desenvolve segundo a ordenação posta por Deus, que repercussão estará havendo nas relações das Três Pessoas da Santíssima Trindade? Entretanto, tudo tão simples, tão elementar.

    Enlevo e admiração pelo Filho-Deus

    Pode-se imaginar o enlevo sem fim que o casal tinha por cada olhar ou movimento do Menino. Enquanto trabalhavam em alguma coisinha, Maria e José ficavam atentos ao mínimo gesto de Jesus e procuravam não perder sequer uma emissão de voz d’Ele.

    Quem não ficaria atento? Afinal, eles sabiam que era o Homem-Deus que estava assim Se movendo.

    Isto representava para eles um tesouro sem conta.

    O dia-a-dia da Sagrada Família

    Como seria o relacionamento no seio da Sagrada Família?

    Conversariam sobre a virgindade fecunda de Nossa Senhora? Teriam uma interlocução por onde, constantemente, faziam referência à natureza divina? Ou somente falavam sobre estes assuntos nas grandes ocasiões, quando, por exemplo, baixavam do Céu luzes extraordinárias, ou quando contemplando o Menino tinham êxtases místicos?

    Eu sou propenso a acreditar que, na maravilha desse convívio interno, as situações mais diferentes se sucediam simultaneamente, e isto constituía uma forma de convivência celeste.

    A vida comum de uma pobre família operária, e o encanto das considerações metafísicas e sobrenaturais de Nossa Senhora e de São José, que viviam inundados pela presença do Menino, uniam-se no dia-a-dia da Casa de Nazaré.

    Numa ocasião comum, Nossa Senhora perguntaria:

    — José, meu esposo, fostes vós que abristes aquela porta? Ireis porventura sair, levando o banco que acabastes de fazer?
    — Senhora, responderia São José, preciso ainda ficar aqui por algum tempo, exceto se vossa vontade for outra.

    Acrescentaria ele:

    — Senhora, Vós Vos distraístes — ele bem sabia que Maria tinha estado conversando com os Anjos — e o almoço vai longe em nosso pequeno fogareiro; vede um pouco… Quem sabe ao certo como se davam estas coisas? Pode-se imaginar tudo.

    Previsão do sofrimento e da glória

    Noutra ocasião, o Menino — que quando adulto, no Tabor, reluziria entre Moisés e Elias de um modo tão esplendoroso —, no momento inopinado em que vinha pedir licença aos pais para brincar um pouco no jardim, apareceria diante deles com um brilho deslumbrante. Eles passavam alguns instantes sem poder responder ao Menino — o qual esperava reluzente a resposta —, completamente transportados para outra esfera: estavam diante de Deus.

    Em certos momentos, Eles viam que o Menino Lhes aparecia brincando com dois pauzinhos que Ele carregava às costas: era o precônio da cruz.

    Ficavam, então, com o coração partido, olhando o Menino Jesus andar determinadamente de um lado para outro na casa, fazendo um gesto ao Padre Eterno. Era um ato figurativo da Agonia no Horto.

    Tudo estava impregnado por uma respeitabilidade, uma majestade, de uma seriedade augusta, de uma determinação forte, para dizer tudo em uma só palavra, de uma seriedade e de uma dor desconcertantes!

    Que dor, que nobreza, que grandeza, que majestade!

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 20/11/82)

  • Vagalhões da vida

    Quando uma alma tem a sensação de ser amada por Deus, os piores vagalhões da vida não atingem o seu tabernáculo interior. Em meio às maiores angústias e agonias, ela permanece calma e reconfortada, convicta de que não a abandona a benevolência divina.

    Essa segurança é parecida com a do rochedo batido pelo mar. Em vagas sucessivas e furiosas, as ondas se arrebentam de encontro a ele. O rochedo não se move. E quando o mar se retira, ele está ali, intacto, sabendo que foi inútil o furor de todos os vagalhões.

  • O olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo

    Se numa noite sem luar contemplarmos com espírito de Fé o céu estrelado, ele produzirá grande efeito sobre nós. E nos fará lembrar algo infinitamente superior: o olhar do Redentor, no qual há galáxias de santidade, de virtudes que pousam sobre nós como uma abóbada protetora.

    Quando a pessoa se porta ordenadamente face à ordem do universo, pelo fato de seu próprio senso do ser procurar o maravilhoso nas coisas que constituem o universo que ela procura conhecer, tende ela a ver muito mais os aspectos espirituais do que os materiais nas criaturas que a circundam.

    O sentido da vida terrena

    Então, no exemplo tantas vezes utilizado da criança que busca o maravilhoso na teteia dourada, vermelha, azul, verde, etc., à medida que a criança vai se desenvolvendo, se ela tem, por exemplo, uma boa mãe, quando esta lhe oferece sorrindo a teteia, em certo momento, ela percebe estar querendo mais bem à mãe do que à teteia. Porque tomando contato, ao mesmo tempo, com dois seres excelentes — um relacionado mais diretamente ao corpo, como a teteia; outro dizendo respeito à alma, que é o carinho da mãe —, por aspirar ao mais maravilhoso, a criança deseja o carinho da mãe.

    Ai da mãe que não tem com a criança esse carinho, e que não a ajude a sobrepor esse valor moral ao material! Porque essa é a missão de uma mãe, e ela tem obrigação de cumpri-la.

    Mas ai também dos familiares que não criam em torno de seus pequenos um ambiente robusto, suculento e benfazejo de manifestação de qualidades do espírito, no qual a criança vá entendendo desde logo que esse convívio de alma é o fundamental da ordem do universo!

    Este é um ponto muito importante, porque as criaturas de uma ordem mais elevada têm uma função normativa e orientadora em relação a todas as inferiores. E os espíritos são o que há de mais alto no universo. Conhecendo-os e estando voltados para eles, conhecemos melhor o que está abaixo.

    Então, ser sensível às almas e querer encontrar para si uma ambientação, na qual o nosso senso do ser, do maravilhoso, nosso senso católico se sintam como o navio que atracou no cais e ali está na serenidade, longe das tormentas, este é o sentido da vida terrena.

    O ambiente da Igreja do Sagrado Coração de Jesus

    A alma encontra este sentido superior da existência quando é tocada pela graça a propósito de Nosso Senhor Jesus Cristo, de Nossa Senhora e de toda a ordem celeste propriamente dita. Quer dizer, ela “vê” espíritos — sobretudo um valor de alma —, almas de uma categoria, de uma beleza, de uma maravilha tais que ela fica compreendendo ser este o verdadeiro ponto em torno do qual tudo gravita, longe ou fora do qual tudo gira errado, e que a vida está em compreender e desejar isto, ou seja, mais especificamente, o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria.

    As descrições que tenho feito do Sagrado Coração de Jesus, como deve ser visto, amado, dão inteira e linearmente isto. Ele é divinamente superior a qualquer consideração, por um lado. Por outro lado, na sua superioridade, Ele habita em nós mais do que nós mesmos. Ao mesmo tempo em que está no alto de um Céu inatingível por nós, Ele habita no fundo de cada um de nós e tem a possibilidade de tomar contato conosco, fazendo estremecerem cordas de nossas almas que não sabíamos existirem. Assim é Ele!

    Para minha sensibilidade — não digo nem um pouco que seja uma coisa obrigatória —, o ambiente da Igreja do Sagrado Coração de Jesus traz isso. Existem na Europa milhares de igrejas de um valor artístico incomparavelmente maior do que o dela, mas há uma coisa qualquer nessa igreja por onde, estando lá, tenho a impressão de que os seus divinos olhos estão pousando sobre mim naquele momento, e me delicio em sentir-me visto e envolvido pela serenidade afetiva, doce e cheia de sabedoria de Nosso Senhor, mas ao mesmo tempo pelo império d’Ele, segundo o qual Jesus aceita quem for assim e rejeita quem não o for. E o pior que pode haver é ser rejeitado por Ele.

    Mais alvos do que a neve

    Tudo isso junto, formando um panorama que paira por cima. A sensação de grandeza que se tem, às vezes, quando se olha para o céu muito estrelado não é nada em comparação com essa impressão dos olhos de Nosso Senhor Jesus Cristo — que eu imagino castanhos quase claros — pousando sobre nós, olhando-nos a fundo, e nos fazendo entrar nessas imensidades de serenidade, de força e de tudo o mais que há n’Ele, e que são verdadeiramente incomparáveis!

    Para quem não tenha haurido isso tão fundamente na alma que, a bem dizer, quase nem precise ir à Igreja do Coração de Jesus, aconselho irem, e procurarem rezar ali, impregnar-se daquilo, porque há qualquer coisa ali que não é propriamente o olhar de Nosso Senhor para São Pedro, mas é um olhar d’Ele. Nessa igreja, todos os mistérios da devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria vêm à tona.

    Por exemplo, quanto nós gostaríamos de nos ver fisicamente olhados por Ele! Tenho a impressão de que “asperges me hyssopo et mundabor, lavabis me et super nivem dealbabor”(1); o olhar de Nosso Senhor lavar-me-ia completamente, e eu ficaria mais alvo do que a neve!

    Ali, diante do olhar d’Ele, eu diria: “Anima Christi, sanctifica me!” Eu estaria tendo o que desejo, o ideal de minha vida! Aquele olhar meio interrogativo, ligeiramente reprobatório, enormemente amoroso, envolvente e, para dizer mais, encomiástico, no seguinte sentido: não há barreiras, venha; elogio é isto!

    E tocando, não o grosso bordão dos sinos de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas o sino leve e alegre de Nossa Senhora, a alegria do perdão. Ela põe junto dessa seriedade infinita de Nosso Senhor Jesus Cristo uma nota qualquer de louçania que fala em perdão, em esperança, em alegria, que a completa admiravelmente. Tudo isso está e tem fundamento n’Ele, mas Nosso Senhor é grande demais para, num olhar só, podermos abarcá-Lo. Então, olha-se para Maria Santíssima, e Ela diz: “Meu filho!” Porque ao cabo de algum tempo aquela imensidade nos faz sentir tão pequenos, tão pequenos, tão pequenos, “petit vermisseau et misérable pécheur”(2), que se tem vontade de dizer: “Senhor, não me esmagues de tanto me amar!” Mas entra Ela e dá um repouso, uma distensão, está feito tudo na perfeição.

    Portanto, não é que exista n’Ela e não n’Ele; mas é alguma coisa que existe n’Ele e, através d’Ela, se explicita melhor.

    Conhecimento por conaturalidade

    Esses estados de alma constituem o afeto que devemos procurar na vida. Não tendo esse afeto, não adianta nada, porque nenhuma forma de afeto é autêntica sem isso.

    Por exemplo, se alguém me informar: “Fulano de tal quer muito bem a você porque foi educado com você desde pequeno…”, diz-me pouco, porque se nossas almas são diferentes nesse ponto, o que fazer?

    Entretanto, alguém que eu tenha conhecido, procedente de Chandernagor, em quem, olhando, percebo esse estado de alma no fundo, minha vontade é de abraçá-lo e dizer:
    “Meu irmão ou — conforme a idade — meu filho, há quanto tempo nos esperávamos! Há quanto tempo nos pressentíamos!”

    Eu falava há pouco do céu estrelado. Ele produz efeito muito grande, não tem dúvida. Mas se eu, ao contemplar esse céu estrelado, lembrar-me do olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo pousando sobre mim, é algo infinitamente superior ao céu estrelado, mas que tem certa analogia, cujo analogado primário é o Céu, a partir do qual, na imensidade de suas virtudes e qualidades, Ele olha para mim. Há n’Ele galáxias de santidade, de virtudes que pousam sobre minha cabeça como uma abóbada protetora!

    A partir daí vem o desejo da boa amizade segundo Deus, amar o próximo como a si mesmo por amor de Deus, podendo dar origem a um relacionamento humano que, com tal plenitude, creio eu, talvez não tenha sido tão frequente na própria Idade Média.

    Suponho que se a Idade Média tivesse continuado, o Sagrado Coração de Jesus teria revelado essa devoção de qualquer forma. A grande maravilha d’Ele foi perdoar as rupturas da Idade Média e, apesar disso, chamar para essa devoção.

    Infelizmente, essa devoção, de modo geral, foi muito rejeitada ou aceita de uma maneira sentimental, completamente errada.

    Quando me refiro à sensibilidade em relação ao ambiente da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, às graças, etc., entendo a sensibilidade reta, pela qual o homem tem um conhecimento por conaturalidade.

    Em geral, quando se fala de conhecimento, tem-se em vista somente o racional — tão nobre, elevado, digno —, entretanto, julgo necessário frisar o conhecimento adquirido pela sensibilidade para entender que nesse conjunto — razão e sensibilidade — encontra-se a cognição completa. O querer bem é, portanto, ver e entender outrem assim, por conaturalidade.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 6/2/1986)

    1) Do latim: Asperge-me com o hissopo e serei purificado, lava-me e ficarei mais alvo do que a neve.
    2) Do francês: vermezinho e miserável pecador.

  • “Filho, eis aí tua Mãe”

    Repousais, Senhor, em vosso mísero e augustíssimo presépio, sob os olhos da Virgem, vossa Mãe, que vertem sobre Vós os tesouros inauferíveis de seu respeito e de seu carinho.

    Jamais uma criatura adorou com tão profunda e respeitosa humildade o seu Deus. Nunca um coração materno amou mais ternamente seu filho. Reciprocamente, jamais Deus amou tanto uma mera criatura. E nunca filho amou tão plena, inteira e super abundantemente sua mãe.

    Toda a realidade desse sublime diálogo de almas pode conter-se nestas palavras que indicam aqui todo um oceano de felicidade, e que em ocasião bem diversa haveríeis de dizer um dia do alto da Cruz: “Mãe, eis aí o teu filho. Filho, eis aí tua Mãe (cf. Jo 19, 26-27). E, considerando a perfeição deste recíproco amor, entre Vós e vossa Mãe, sentimos o cântico angélico que se levanta das  profundezas de toda alma cristã: “Glória a Deus no mais alto dos Céus, e paz na Terra aos homens por Ele amados”. (Lc 2, 14).

    (Extraído de “Catolicismo”, dezembro de 1963)

    Coordenação do Blog João Sérgio Guimarães

  • Mãe do Redentor

    Tendo a Virgem Maria dado sua carne e sangue para formar a humanidade santíssima do Filho de Deus, que n’Ela estava pronto para nascer, a união entre ambos atingiu um ápice insondável na noite de Natal, e Ela estava preparada para ser, em todos os sentidos da palavra, a Mãe do Redentor.

    Que alma Nossa Senhora precisava ter para ser a Mãe santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo! Sua alma chegou à perfeição para o papel de Mãe de Deus no momento em que, na noite de Natal, num êxtase enorme, Ela foi elevada a uma intimidade superlativa com a Santíssima Trindade e deu à luz, virginalmente, o Verbo Encarnado.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 23/12/1968)

  • Santos Inocentes

    A Santa Igreja comemora, hoje, o martírio dos Santos Inocentes.

    No segundo capítulo do Evangelho de São Mateus encontramos a narração das circunstâncias da fuga da Sagrada Família Fuga para o Egito. Foi um êxodo por causa da perseguição ordenada por Herodes, o Grande, que tinha como objetivo matar o Menino Jesus.

    Transcrevemos um pensamento de Dr. Plinio a este respeito:

    Santo Estêvão quis ser mártir e foi. São João quis ser mártir e não foi. Os bem-aventurados Inocentes — as crianças mortas por Herodes, em sua tentativa de, junto com elas, matar também o Messias que há poucos dias nascera — não quiseram ser mártires e foram. Porque elas não tinham vontade e entendimento, mas foram mártires sem querer.

    A respeito, D. Guéranger escreve o seguinte:

    “Mas quem duvidará da coroa obtida por estas crianças? Perguntareis: onde estão os méritos para esta coroa? A bondade de Cristo seria vencida pela crueldade de Herodes? Este rei ímpio pode mandar matar crianças inocentes, e Cristo não poderia coroar aqueles que morreram por sua causa?”

    Assim sendo, temos uma legião de inocentes que estão no Céu e que rezam continuamente por nós. Compreendemos melhor de que maneira o mundo realiza o plano salvador de Deus. Quando se pensa profundamente no enorme número de crianças que morreram batizadas — sem culpa nenhuma, que vão, portanto, diretamente para o Céu —, compreende-se que são também santos inocentes.

    Se tivéssemos um santo canonizado em nossas famílias, nós seríamos muito devotos dele. Ora, certamente, na família de todos existem como que santos canonizados. Isto porque nas famílias de todos, ou de quase todos — se não entre os irmãos, pelo menos entre primos ou parentes mais afastados —, existem crianças que morreram batizadas. Logo, estão no Céu, onde elas têm toda a lucidez de uma alma que está convivendo com Deus face-a-face. Podemos então rezar, recomendando-nos às orações delas, que são padroeiras naturais da família.

    (Plinio Corrêa de Oliveira – extrato da conferência de 28/12/1965)

     

  • A eternidade numa mudança de ano…

    Ao transpor os portais de um novo ano, sente-se, como que, o roçar da eternidade. De fato, é mais um período de nossas vidas que fica para trás, a respeito do qual devemos fazer um exame de consciência, pedindo a Nossa Senhora que cubra com seu manto o que nele não foi belo.

    Esta é a última reunião de sábado à noite de 1988, pois no próximo sábado teremos o Santo Natal. Os portais de um ano, trezentos e sessenta e cinco dias, se escoam e os portais de outro ano se abrem. O passado se encerra e fica um ano para trás; o futuro se abre e temos um ano pela frente.

    A eternidade é bela, mas só podemos calcular sua pulcritude por meio de algumas comparações. Fomos criados dentro do tempo e, por causa disso, só compreendemos as coisas em função do tempo.

    Fomos criados na matéria, temos um corpo material. Vivemos dentro deste globo. Como nós, que estamos imersos no tempo, podemos calcular o esplendor da eternidade? Os homens não se sentem tão atraídos pelo Céu quanto deveriam, porque têm dificuldade em imaginar como será a eternidade.

    Sentir o roçar da eternidade

    Se dissermos para uma pessoa: “Você vai para a eternidade, deixará as aflições do tempo e gozará as glórias da eternidade” — há o Purgatório; quem sabe o que lá sucederá, e por quanto tempo? —, ela poderá se perguntar: “Mas como é essa eternidade? Fica tudo parado? O que lá acontece?”

    Para se ter ideia do que é a eternidade e da sua beleza, deve-se considerar o seguinte: o tempo vale muito menos do que a eternidade, porque aquele é próprio para nós mortais e a eternidade é própria para os imortais, que nunca perecerão. Então, basta estarmos ligados à morte para entendermos que o tempo seja muito menos belo do que a eternidade. Porque a morte, a qual não deixa de ter sua beleza, é muito menos bela do que a vida. Então, para compreendermos a eternidade, temos que entender a beleza do tempo.

    Esta mudança de ano, na qual estamos, é uma dessas situações em que se sente o roçar da eternidade, pois um ano de nossas vidas se encerra.

    Se um homem, por exemplo, que viveu muito tempo numa cidade, muda-se para uma localidade noutro extremo do país, adota outra profissão, tem outras relações, ele passa para um mundo diferente; uma etapa de sua existência se encerra e outra se abre. Para esse homem isto tem muita significação, porque tudo o que se passou fica como um bloco na vida dele, o qual, no interior de sua alma, só ele mesmo conhece. Os fatos externos de sua existência os outros poderão conhecer. Se for um personagem célebre, os historiadores escreverão sobre o que ele disse ou fez, o que fizeram contra e a favor dele. Quem poderá escrever o que se passou em sua mente? Ora, a essência da vida de um homem é o que se passa em sua alma, a qual é fechada para todo mundo. E ninguém conhece essas coisas, a não ser Deus e aqueles a quem Ele resolver revelar.

    No dia do Juízo Final tudo será revelado de forma estupenda

    Isto será revelado aos olhos de todos os homens, no dia do Juízo Final, quando tudo o que se passou em nós de interno e externo, referente à nossa santificação, aos nossos pecados, Deus vai revelar e julgar. Todos os homens que houve, há e haverá até o fim do mundo, salvos ou precitos, assistirão a isso. Uns já garantiram o Céu e terão ressuscitado pouco antes de o Filho de Deus vir para julgar os vivos e os mortos. Outros foram condenados ao Inferno. O Purgatório estará vazio, porque todos que nele estiverem irão para o Céu e não para o Inferno. Os que já estão no Inferno ressuscitaram num corpo que vai aumentar o tormento deles. E não só a História dos homens, mas das nações, das civilizações, das culturas, das instituições, tudo vai ser revelado de forma estupenda.

    E o Juízo não será demorado, como se poderia pensar, porque para as pessoas que estão nesse estado o tempo não conta. Podemos ter ideia do que será sua rapidez pelo seguinte: há vários depoimentos de pessoas que passaram por risco de morte e contam que, em determinado momento, toda a sua vida lhes passou diante do espírito. Ora, se toda a existência se mostra em minutos, compreendemos como as coisas podem ser comprimidas sem tirar nada. Nesse lance estupendo, sem sentirmos cansaço — nem sei se se pode falar de tempo, nesse momento em que todos estão entrando para a eternidade —, veremos tudo e cada um será mandado para o seu lugar, para onde a justiça divina o encaminhou.

    Nas épocas e nas situações em que vemos o tempo passar, percebemos também a beleza do tempo. Quer dizer, quando uma coisa existe, está funcionando, nota-se sua beleza ou feiura. E quando, por exemplo, uma instituição deixa de funcionar e cai no passado, a partir deste ela é vista numa perspectiva especial, e podem-se notar belezas e aspectos que quando ela estava viva não se percebiam.

    Uma almofadazinha para prender alfinetes

    Estou me lembrando de um caso que minha mãe me contou uns vinte anos antes de morrer. Ela já estava idosa, e, certa vez, foi sozinha visitar uma amiga que se tinha mudado havia pouco para perto de sua casa. A amiga, que a recebeu muito bem, tinha móveis bastante bons e na sala de visita de sua residência havia uma vitrine com objetos curiosos, antigos. Ela disse a minha mãe:
    — Lucilia, você quer ver uns objetos interessantes que eu tenho na vitrine?

    Minha mãe olhou os objetos, achou tudo muito interessante. Havia grande liberdade entre ambas e mamãe perguntou-lhe:
    — Tudo que está na sua vitrine é tão fino, tão bonito, mas eu não compreendo por que você guarda entre esses objetos uma almofadazinha. No fim do Império e no começo da República, as senhoras, além de outros trabalhos domésticos, costuravam e usavam uma almofadazinha para prender alfinetes.

    A amiga respondeu:
    — Isso é uma verdadeira raridade histórica, e eu vou lhe contar.

    Então, ela narrou o seguinte fato:

    Um passado que aparece com toda a sua beleza

    Essa senhora era muito monarquista e tinha uma amiga que era esposa de Campos Sales, ex-presidente da República do Brasil, a qual lhe contou que, devido à proclamação da República, a família do Imperador foi exilada, tendo levado consigo os objetos que puderam, mas deixando muita coisa no palácio imperial. Logo depois, algumas senhoras tiveram curiosidade em visitar tal palácio, que estava sendo dirigido por autoridades da República. Obtiveram licença facilmente, porque eram casadas com líderes republicanos que exerciam o poder.

    O palácio estava fechado, silencioso, ainda ornado com flores já murchas. Ninguém tinha lá entrado, ninguém havia movido nada. Sobre uma mesa, um chapéu atirado por alguém que entrara no palácio pouco antes da proclamação da República e ali o deixara… Era um sinal de coisa ainda viva.

    Elas foram olhando tudo aquilo, e a esposa de Campos Sales, bem como as outras que lá estavam, começaram a ter uma espécie de sentimento de tristeza, que provocava um aperto na garganta. E, quando chegaram ao quarto de dormir da Imperatriz, viram objetos de uma mãe de família que não pudera mexer em nada, por ter saído correndo. Foi uma tristeza tão pungente que não conversavam mais entre elas; apenas olhavam…

    Esta senhora viu aquele passado num todo, cujas portas eram fechadas pelo presente. Tudo aquilo estava afundado no passado, deixou de ser, como que empurrado para o não ser. Ela observou tudo o que se perdia, se desfazia. E, considerando o desastre daquela família, mandada embora depois de governar durante tanto tempo o Brasil, ficou com tanta tristeza e pena que quis guardar uma recordação daquilo.

    Mas todos os objetos eram de valor, e ela não poderia levar nenhum deles. Como havia sido encontrado aquele travesseirinho que a Imperatriz usava, e era uma coisa sem nenhum valor monetário, a esposa de Campos Sales jeitosamente o apanhou e o levou para sua casa, para nunca mais se esquecer da Imperatriz.

    O curioso foi que essa senhora continuou republicana, porém via agora o Império perdido nas brumas e na grandeza de todo um passado que formava um bloco, saído de dentro das escórias do presente e aparecia com toda a sua beleza. Assim, o passado surgia iluminado por uma luz nova e, por causa disso, ela tomava aquele objetozinho e o levava como uma espécie de relíquia. Quando estava para morrer, ela chamou essa amiga monarquista, contou-lhe o fato e disse-lhe:

    — Vou dar-lhe este objeto de presente, porque das minhas amigas você é a única capaz de compreender o que isto significa. Guarde consigo, porque é uma grande recordação. Pelo eco, vejo que todos os que se encontram neste auditório entendem perfeitamente o que isto quer dizer.

    No Museu Histórico do Rio de Janeiro eu vi um quadro que simbolizava bem isso.

    O baile da Ilha Fiscal

    Alguns dias antes da proclamação da República no Brasil, uma esquadra de guerra chilena, que estava fazendo um percurso mundial, ancorou no Rio de Janeiro, e a Marinha brasileira lhe ofereceu um baile. Estava sendo inaugurado nessa ocasião, numa ilha junto à cidade do Rio, chamada Ilha Fiscal, um prediozinho neogótico, e nesse local o baile seria realizado.

    Mas para se chegar até lá era preciso tomar um barco. O Imperador, já velho, foi de barco até a ilha, e no momento de passar para a terra firme, devido à flutuação do mar, perdeu um pouco o equilíbrio e quase caiu. Seguraram-no, e ele então disse:

    — A Monarquia escorrega, mas não cai.

    Falou como gracejo, e entrou para o baile. Durante este, começaram a chegar denúncias de que estava sendo tramada uma rebelião republicana. Contaram-me — não li isso em nenhum livro — que o comandante da esquadra chilena mandou oferecer suas forças ao Imperador a fim de mantê-lo no trono; se este quisesse, a esquadra bombardearia o Rio de Janeiro. Mas o Imperador declarou que não queria que a capital dele fosse bombardeada por estrangeiros, para ele permanecer no trono. E foi proclamada a República.

    O quadro existente no Museu Histórico do Rio de Janeiro, de um bom pintor nacional — se não me engano, Benedito Calixto —, apresenta o baile da Ilha Fiscal, com o prédio reluzente, cheio de pessoas. No céu, um duplo movimento. Numas nuvens brancas vem, representando a República que entra, uma mulher com uma túnica, barrete vermelho na cabeça, acompanhada de umas figuras mitológicas. De outro lado – é para isso que eu queria chamar a atenção dos presentes – o céu se abre e, se não me equivoco, anjos vão levando a coroa, o cetro e outras insígnias: é a Monarquia que se vai embora… Então, a República baixa para a terra, e a Monarquia é um passado que se encerra como um bloco e vai sendo conduzido para o céu. Quer dizer, o passado aparece embelezado, visto no seu conjunto como uma coisa digna de penetrar na eternidade.

    É bonito o movimento pelo qual uma coisa se encerra, forma um bloco e sobe para o julgamento de Deus. Também é bonito o movimento de algo novo que entra e inicia na História outra caminhada. Como se deve saborear a vida, o tempo, conhecendo nas etapas da vida de cada um aquilo que acabou, subiu para um julgamento, e o que vai começar! Fazer uma ideia de conjunto desse tempo que foi e deitar um olhar para o tempo que vem.

    Então, se é bonito o tempo, como será bonita a eternidade!

    O rochedo que divide as águas

    Fecha-se um ano para a nossa vida. Todo ano é uma etapa. Pergunta-se: que ideia de conjunto fazer dessa etapa?

    As reuniões de sábado à noite constituem uma parte dentro dessa etapa; com exceção do período em que eu estive na Europa, tive a alegria de encontrá-los aqui todos os sábados. Farei uma reflexão rápida a respeito disso.

    Todos nós tivemos luta. E a luta foi a nossa grande característica. Por quê?

    Imaginemos um rochedo num curso de água; ele recebe a investida contínua das águas e permanece de pé. O que foi esse ano para o rochedo? Foi luta! O curso das águas sempre lhe foi contrário, mas o rochedo continuamente as dividiu e meteu em reboliço a camada de água que passava perto dele. Assustou os peixes que passavam; algum peixe esmagou-se contra a mole insensível e fria dele, e foi depois seguindo morto, água abaixo.

    O que se passa na massa líquida de um rio ninguém sabe. Mas uma coisa é certa: a água que bateu no rochedo não fica como era antes.

    A existência do rochedo foi luta. Assim fomos nós, graças a Deus, em 1988. E foram, portanto, os que estão neste auditório, que formam comigo um só todo; foram na jovem e na juveníssima idade de alguns dos presentes.

    Ter-se-ia a ilusão: “Não! Na juventude só há saúde e não há luta!”

    Abrir o caminho nas águas revoltas da Revolução

    Que bobagem! Já fui jovem e cheguei a ter lutas tão árduas, que eu tinha inveja dos velhos. Eu pensava: “Estou vendo diante de mim um velho que não faz nada, oscilando na sua cadeira de balanço. Como eu daria de presente a minha juventude para acabar com a minha luta, poder refestelar-me e balançar! Mas abrir o meu caminho nas águas revoltas da Revolução que vêm em sentido oposto; deitar o meu peso num ponto, ficar nele, criar condições para que outros se agarrem a mim e não se deixem levar pelas águas, que luta, que batalha!”

    Porque todo homem tem, entre outros, um instinto chamado de sociabilidade, que nos leva a querer conviver com os outros. Deus disse no Paraíso Terrestre que não era bom para o homem que este ficasse só; por isso Ele criou Eva. Devido ao instinto de sociabilidade, o homem tem necessidade de estar com outros. E quanto mais amplo o convívio, maior o bem-estar, a satisfação que tem o homem.

    Esse convívio, para corresponder ao instinto de sociabilidade, não se satisfaz só porque é um convívio, mas porque nele se encontra uma harmonia de alma. Se há desarmonia, antes só que mal-acompanhado — diz um provérbio.

    Suponhamos que um homem esteja navegando sozinho num barco e pense várias vezes: “Como seria bom que eu tivesse um companheiro.” Aproxima-se outro barco e lhe dizem:
    — Você quer ter um companheiro muito cacete que só diz bobagens ou blasfêmias?

    — Não! Fico sozinho! Por mais terrível que seja a solidão, antes só que mal- acompanhado.

    Para quem tem a Fé católica, apostólica, romana, como nós temos, a vida é uma solidão em todos os ambientes em que encontramos a heterogeneidade, o desacordo, a incompreensão, a fricção, às vezes descortesias, esquivamentos e até agressões, não físicas, mas pelo menos agressões morais. E para a pessoa suportar isto, a vida é terrível.

    Viver isolado é grande sofrimento

    Lembro-me de que certa ocasião li o resumo de um romance, escrito por um francês que fazia previsão do fim da Igreja Católica. Então, descrevia o último católico da Terra. Era um homem que vivia num isolamento completo, porque ninguém o entendia, ninguém queria saber nada dele. Esse homem tinha os meios com que satisfazer materialmente as suas necessidades, vivia no meio dos outros, mas era um estranho para todo mundo. No momento em que exalou o último suspiro, morreu com ele o último membro da Igreja Católica.

    A hipótese é uma blasfêmia, porque Nosso Senhor prometeu que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Igreja. Mas, a história faz sentir bem o isolamento tremendo de um de nós, se vivesse sozinho, mantendo-se fiel.

    Imaginemos que um de nós receba a ordem de ir morar na Birmânia para lá fundar uma sede de nosso Movimento. Vai para aquele país e trabalha para a fundação, dizendo às pessoas que se trata de uma enorme organização também existente noutros lugares.

    De repente, ele recebe um telegrama afirmando que as sedes de nosso Movimento foram fechadas em todos os lugares do mundo. A pessoa não terá mais contato com ninguém de nossa Associação, mas apenas com birmaneses; não há dinheiro para voltar a seu país de origem. A Birmânia é pagã. Ele precisa morar sozinho e escolhe o único lugar onde se pode viver só: à beira-mar… Pelo menos, o mar conversa com ele.

    De noite, após o jantar, as ocupações do dia terminaram, ele vai para o terraço da casa, que fica perto das ondas, e ouve o som do mar. As ondas vão e voltam. Tudo sempre diferente, porém, no fundo, tudo sempre repetido. Olha para aquilo e pensa: “Esse murmúrio perpétuo das ondas é o murmúrio da minha solidão; estou isolado, que coisa terrível!”

    Os que estão neste auditório são salvos disso exatamente pelo nosso Movimento, porque ele constitui em torno de nós um ambiente onde encontramos concórdia, simpatia, consonância, a sociabilidade. Pondo o pé fora do portão desta sede, encontramos o contrário.

    Mas daqui de dentro sentimos a nossa solidão coletiva. Nosso Movimento é como a pedra colocada dentro do rio: as águas passam e a pedra fica; e vai marcando a história das águas do rio.

    O Sol sempre está iluminando alguma das sedes de nosso Movimento

    Apesar da hostilidade dos ambientes de fora, nós lutamos de tal maneira que trazemos gente de dentro da multidão para vir participar do nosso isolamento.

    E ingressam em nosso Movimento pessoas das mais diversas nações. A respeito de Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano Alemão e Rei da Espanha, foi dito: o Sol não se punha nos seus domínios. Ele era senhor de um império tão vasto que abrangia as nações de língua alemã, uma parte da Itália, Países Baixos, a Espanha, e depois todo o mundo ibero-americano. De maneira que quando numa parte do império dele o Sol estava se pondo, do outro lado do seu império o Sol começava a renascer.

    Assim, também, com nosso Movimento.

    Hoje há alguma coisa mudada na história do Sol: nunca deixa de iluminar uma sede nossa. Se se pudesse dizer, afirmar-se-ia que há algo novo na história do Céu: ele nunca mais deixará de contemplar — pelo menos enquanto nossa Associação existir — um filho dele que está lutando e rezando nesta Terra.

    E um pensamento que os aqui presentes poderiam cultivar na hora de dormir seria este: na outra parte da Terra há um membro de nosso Movimento que está acordando. Como seria bonito se, antes de conciliar o sono, rezassem a Nossa Senhora uma rápida jaculatória por esse irmão distante e, às vezes, desconhecido!

    A jaculatória poderia ser “Regina Apostolorum, ora pro nobis”. Somos apóstolos, vamos rezar por aquele que está acordando, para que seu despertar seja tonificante; por aquele que está dormindo, a fim de que seu sono seja bom; pelo que já está agindo, para que sua ação seja reta, trabalhando a fim de trazer gente para nosso Movimento.

    Pedir a Nossa Senhora, antes de tudo, a perseverança

    Durante este ano, os que estão aqui fizeram um esforço ativo e excelente de recrutamento, arrancaram muitos jovens ao mundo, introduzindo-os no jardim santo de nossa Associação. Mas o mundo continuou a bombardear esse jardim com suas seduções, atrações, mentiras, promessas. E não foram poucos os que passaram um tempo limitado nesse jardim, e depois saíram.

    Há este fato preponderante na história individual de cada um dos presentes e na história do querido conjunto dos enjolras(1) de nosso Movimento: atraíram muitos, vários saíram, mas os que ficaram permaneceram porque trabalharam na fixação deles.

    Mais ainda, os que estão aqui também foram bombardeados. Pela graça de Nossa Senhora, não saíram. Que coisa bonita! Os anos passam e estão no solo sagrado de nossa Associação.

    Na minha velha idade, o que peço a Nossa Senhora? Antes de tudo, perseverança, perseverança, perseverança! Tudo quanto fiz de bom e merece continuar, que continue e se desenvolva.

    Poder-se-ia fazer nessa ocasião uma prece muito bonita que está no “Te Deum”: “Dignare, Domine, die ­isto sine peccato nos custodire — Dignai-vos, Senhor, guardar-nos sem pecado neste dia”.

    Nós poderíamos dizer: “Dignare, Domina, anno ­isto sine peccato nos custodire”. Nossa Senhora, Nossa Mãe, levai-nos até a outra ponta do ano sem a menor poeira de um pecado.

    Exame de consciência compungido e alegre

    Neste ano que se encerra, que tentações cada um dos aqui presentes enfrentou? Que provações internas teve? Quantas vezes venceu essas provações internas, ou não as venceu? O que foi a vida interior de cada um? A resposta cada um saberá dar.

    Se Deus quiser, todos transporão este ano rezando, com as mãos postas. E o coração está posto tão alto quanto no ano passado? Ou menos alto? Não o sei… Cada um dos presentes o pode saber.

    Que bela pergunta ao encerrar o ano: “Meu Deus, como estou?” Devemos fazer um exame de consciência ao mesmo tempo compungido e festivo. Porque quando um homem faz um exame de saúde e vê que está são, ele se alegra. Mas quando percebe que está doente, fica apreensivo; porém, se ao mesmo tempo lhe informam: “Fulano, aqui nesta cidade há um médico que cura essa doença, porque tem um remédio ótimo”, ele se alegra. Não é a alegria da saúde, mas a alegria da saúde que ele vai recuperar. E se lhe dizem: “Não é o médico que vai curá-lo, mas a melhor das mães, com o melhor dos remédios, e com o sorriso d’Ela”, ele quase dirá: “Valeu a pena ter estado doente”. Essa mãe é Nossa Senhora.

    E se o balanço do ponto de vista interior não foi positivo para nós, tenhamos ânimo e ânimo redobrado, porque Maria Santíssima é Mãe de Misericórdia. Digamos a Nossa Senhora: “Minha Mãe, está passando o ano. Uma etapa se encerrou. Pousai vosso manto sobre aquilo que não é belo em minha alma. Olhai para o que é belo, olhai para o vosso Coração. E dai-me de vosso Coração novas belezas de alma para o ano que vem”. Assim, transporemos com ânimo este ano, e abriremos 1989 com a chave de ouro, chave com duas voltas, cujos nomes são: Confiança e Devoção a Maria. É o que de todo o coração lhes desejo.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 17/12/1988)
    Revista Dr Plinio 165 – Dezembro de 2011

    1) Palavra afetuosa utilizada por Dr. Plinio para designar seus jovens discípulos, surgidos aproximadamente a partir de 1970. Havia neles acentuado grau de debilidade, se comparados com aqueles que os antecederam, os da “geração nova” (cf. “Dr. Plinio” número 81, p. 17).

  • Nossa Senhora e o filho pródigo

    Conforme a parábola do filho pródigo, este fez um longo percurso durante o qual não consta que o pai tenha resolvido agir sobre ele. Mas quando o filho se aproximou, sua ação foi intensa: envolveu-o com seu afeto, mandou realizar uma festa tão grande que o filho fiel fez uma reclamação: “Como é isso?”

    Na realidade, o mesmo se dá com o pecador. Ele se afasta de Nossa Senhora, e habitualmente — há exceções — vai se distanciando cada vez mais. Maria Santíssima não age, mas fica esperando certo momento de sua crise, no qual ele de certo modo cai do cavalo, como São Paulo no caminho de Damasco. Antes disso há remotas preparações no interior da alma dele, que Nossa Senhora vai dispondo e que somente conheceremos no dia do Juízo. Em determinada hora, notamos que sua alma se torna sequiosa do maravilhoso, que traz consigo o desejo da admiração. E se aproxima um início de deslumbramento das coisas da nossa vocação.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 15/3/1989)