Autor: Nelson

  • Nossa Senhora ama a oração insistente e confiante

    Oh, minha Senhora e minha Mãe, olhai misericordiosamente para a minha alma e dai-me o espírito de oração pelo qual eu recorra sempre a Vós com tanto maior empenho quanto mais me atenderdes, pois vossas dádivas nos incitam a pedir dons maiores.

    Mas Vos rogo ainda outra graça: é de que eu Vos peça com tanto maior persistência quanto mais demorardes em me atender. Dai-me a graça de ter presente que Vós amais a oração insistente e confiante, e que quanto mais tardais em conceder, maior será a graça que me preparais.

    Minha Mãe, está tardando para eu ser atendido, mas vosso Coração me amará tanto mais quanto maior for minha insistência. Atendei-me, pois.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Composta em 30/7/1971)

    Revista Dr Plinio 264 (Março de 2020)

  • Castidade comunicativa

    São Casimiro era tão casto, que comunicava aos outros o desejo de serem puros. É bonito este fato, porque muitas vezes encontramos pessoas puras, mas a quem a Providência não deu esse dom de tornar comunicativa sua pureza. Sabe-se que são puros, admira-se, presta-se homenagem, mas sua virtude não é comunicativa.

    Ora, uma das melhores formas de fazer apostolado é ter essa virtude comunicativa que passa de uma pessoa a outra como que por osmose. Às vezes isto acontece, e castidade comunicativa é um dom enormemente precioso para se fazer apostolado.

    Mas como Deus está irado com o mundo, dons como esse se tornam raríssimos. Por isso precisamos recorrer a um São Casimiro no século XV para compreender o que é a pureza convidativa e irradiante, a qual atrai as pessoas para a virtude que é o contrário da impureza, da voluptuosidade também conquistadora, a qual arrasta para o mal.

    A virtude arrastando para o bem é algo que pouco se vê em nossos dias e, no entanto, dá tanta glória a Nossa Senhora!

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 3/3/1967)

  • Com uma simples palavra, Nossa Senhora pode nos santificar

    Quem tenha algum desânimo, alguma tristeza ou alguma perplexidade na vida espiritual pode parafrasear o centurião que se dirigiu a Nosso Senhor, e pedir a Maria: “Senhora, eu não sou digno de ouvir a vossa voz, mas dizei uma só palavra e a minha alma será transmudada, de um momento para outro, se vós assim o quiserdes”.

    Nossa Senhora pode, de um momento para outro, nos santificar, dando-nos um grau eminente de virtude. Nós devemos pedir a Ela que sua voz se faça ouvir no íntimo de nossas almas e nos santifique, concedendo-nos uma virtude que, às vezes, anos de lutas e de trabalhos não nos proporcionaram, pois uma palavra de Nossa Senhora pode nos conceder isto.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 2/7/1970)

  • Com uma simples palavra, Nossa Senhora pode nos santificar

    Quem tenha algum desânimo, alguma tristeza ou alguma perplexidade na vida espiritual pode parafrasear o centurião que se dirigiu a Nosso Senhor, e pedir a Maria: “Senhora, eu não sou digno de ouvir a vossa voz, mas dizei uma só palavra e a minha alma será transmudada, de um momento para outro, se vós assim o quiserdes”.

    Nossa Senhora pode, de um momento para outro, nos santificar, dando-nos um grau eminente de virtude. Nós devemos pedir a Ela que sua voz se faça ouvir no íntimo de nossas almas e nos santifique, concedendo-nos uma virtude que, às vezes, anos de lutas e de trabalhos não nos proporcionaram, pois uma palavra de Nossa Senhora pode nos conceder isto.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 2/7/1970)

  • Impressoes sobre a Semana Santa

    Para Dr. Plinio, a principal época do ano era a Semana Santa. Não apenas pela recordação, em si, da tragédia do Homem-Deus, morto e sepultado, mas também pelo ambiente salutar e santificante que dela emanava.

    Na Sexta-feira Santa, a cerimônia que mais me tocava era esta: a cruz exposta numa espécie de mesa, com Nosso Senhor morto, e o povo fiel que passava para oscular-lhe os pés. Desfilavam aquelas pessoas às centenas. Nas catedrais, esse cortejo para a veneração da cruz era encabeçado pelo bispo, e foi durante uma dessas celebrações litúrgicas que contemplei, pela primeira vez, a simbólica beleza do báculo.

    Estávamos na Igreja de Santa Efigênia (pois a Catedral da Sé ainda se achava inacabada), quando o velho Arcebispo D. Duarte entrou para a cerimônia, revestido dos trajes próprios aos ritos da Paixão: batina amplíssima, de um roxo quase violeta, prolongando-se numa grande cauda, levada por um ou dois caudatários, em geral seminaristas. Ia sem mitra, com uma cobertura na cabeça lembrando em algo o barrete dos doges venezianos. Não sei a razão dessa peça no paramento episcopal, mas o adornava de modo muito adequado.

    Com todos os fiéis quietos, tendo já deixado um espaço aberto no corredor central para o prelado passar, este vinha caminhando sem sapatos, deixando ver as meias violáceas. Estava descalço em sinal de penitência, e ia como bispo diocesano, o primeiro, pedir perdão pelos seus próprios pecados e pelos do povo.

    Essa cena causava uma impressão de realidade — e o era — de que, diante do trono de Deus, naquela hora, comparecia com o bispo a diocese, e cada um dos que estávamos ali, na pessoa do Pastor,  pedia perdão por seus pecados, responsáveis pela morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. A liturgia começava a entoar um cântico que exprimia e corroborava esse sentimento, enquanto Dom Duarte, com ar grave e recolhido, em grande estilo se aproximava do Senhor morto para Lhe oscular os pés. Em seguida, saía pela sacristia, e tinha início a longa procissão de fiéis.

    Ao presenciar essa cena, eu me rejubilava: “Ah! Esta é a Igreja Católica!”

    A cidade se tornava austera e séria

    Outros lindos aspectos das celebrações da Paixão me encantavam igualmente. Por exemplo, a transladação do Santíssimo, que havia sido consagrado, para o chamado monumento ou sepulcro.

    Então, o celebrante — que podia ou não ser o próprio bispo — envolvia o cibório com uma capa da cor de luto e o conduzia ao seu destino, precedido pelos toques das matracas: “plec-plec, plec-plec, plec-plec, plec-plec”… Quer dizer, não havia mais música nem alegria. Era tudo tristeza e tudo pranto, por causa de nossos pecados, porque o Filho de Deus morrera. O cortejo se dirigia a um altar lateral, mais afastado, para que o maior espaço a ser percorrido pelo povo conferisse certa pompa e extensão à cerimônia.

    Descia-se uma urna, na qual depositavam o Santíssimo, trancavam-na à chave e esta era entregue ao pároco. Até o Sábado Santo não havia mais comunhão naquela igreja, porque o Senhor estava  morto. Era um luto pesado, uma tristeza profunda.

    O povo se dispersava silencioso e recolhido. Caminhavam todos para suas casas, naquela época antiga, ainda usando trajes escuros. Os homens se vestiam de preto, e as senhoras portavam sinais  de luto, faixas ou véus negros, etc. As próprias crianças se apresentavam com algo de preto. E assim, pelas ruas tranquilas da cidade, as pessoas voltavam para suas residências. Iam fazer a sua   refeição de jejum e abstinência, mantendo-se na piedosa e compungida quietude daquele dia de dores.

    A cidade tornava-se tão austera, tão séria, que se tinha quase a impressão de que, quando ela voltasse ao normal, já estaríamos vivendo no Reino de Maria. Ou seja, naquela época histórica  prevista por São Luís Grignion de Montfort e outros santos, durante a qual a Santíssima Virgem ser á a Rainha dos Corações e da sociedade.

    As alegrias da Ressurreição

    Terminada a Sexta-Feira Santa, os espíritos se voltavam para as esperanças e as alegrias da Páscoa.

    Certa vez, quis ver a cidade de São Paulo no seu conjunto — eu tinha uns 20 anos — festejando a Ressurreição. E a Igreja, naquele tempo, o fazia no Sábado de Aleluia, ao meio-dia. Acompanhado de um amigo, subi então até o último andar da torre do santuário Coração de Jesus, onde ficamos à espera do festivo momento.

    Quando chegou meio-dia em ponto, ouvimos o timbre do bonito carrilhão da igreja que começava a tocar.

    Depois do silêncio sacral e sepulcral da Semana Santa, ecoavam os repiques dos sinos. E como não havia quase arranha-céus naquela época, o som se propagava, trazendo aos nossos ouvidos os tangeres dos sinos das mais variadas igrejas, a diferentes distâncias, bimbalhando festivamente junto com o sino fortíssimo do Coração de Jesus. Era um júbilo, um triunfo pascal com grandeza bíblica.

    Logo a alegria da Páscoa começava a se espalhar sobre a cidade. Soltavam-se rojões, e a molecada ia pelas ruas levando o judas para ser enforcado em árvores, em postes, espancado até cair e, finalmente, queimado.

    Já nas casas de família, as mães acendiam velas bentas diante das imagens de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, para celebrá-los, e reuniam as crianças para rezar.

    Enfim, tinha-se a impressão de que até a natureza se rejubilava quando, ao meio-dia do Sábado Santo, soavam os sinos da Ressurreição. O Apóstolo diz esta palavra, que tudo resume: “Absorta est mors in victoria”. A morte foi tragada pela vitória!

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • As Catedrais: Símbolos do Paraíso

    As Catedrais podem ser analisadas sob diversos pontos de vista. Comentando o excerto de uma obra do historiador Marcel Aubert, Dr. Plinio aponta o prisma mais elevado pelo qual elas podem ser consideradas.

    Gostaria de comentar uma breve ficha tirada de Marcel Aubert(1), a qual trata a respeito das catedrais como sendo um símbolo do Paraíso.

    Para bem iniciar esta explanação, antes de tudo, é preciso não considerar as catedrais apenas como um recinto fechado, onde se pode, ao abrigo das intempéries, prestar culto a Deus. Além desta finalidade material, a qual é evidentemente indispensável, as catedrais devem ser consideradas acima de tudo como um símbolo e, portanto, uma imagem e antegozo do Paraíso. Eu as considero verdadeiras obras-primas de simbolismo, nas quais tudo tem uma reversibilidade.

    Jerusalém: prefigura da Igreja

    Assim diz o autor: A catedral é figura da Cidade de Deus, da Jerusalém celeste, imagem do Paraíso(2).

    Um dos aspectos do significado simbólico das catedrais examinado pelo autor está contido no fato de estas serem a casa de Deus, à semelhança do Paraíso Celeste, no qual Deus aguarda os homens, enquanto os que lá já estão O contemplam.

    O que devemos compreender por Jerusalém? Jerusalém é a cidade santa do Antigo Testamento, uma representação material do que viria a ser no futuro a Igreja Católica, Apostólica e Romana, o Reino de Deus na Terra.

    O povo eleito do Antigo Testamento era uma prefigura dos católicos batizados. Sendo Jerusalém a capital do povo eleito no Antigo Testamento, ela prefigurava, portanto, a Igreja Católica. Portanto, à Igreja Católica cabe o título de Jerusalém terrestre. Se bem que tal título possa ser aplicado a toda ordem civil quando conforme aos ensinamentos divinos.

    Por conseguinte, a denominação “Jerusalém celeste” é aplicada à cidade de Deus, que é o Paraíso.

    Simbologia do edifício sagrado

    Continua a ficha:
    As paredes laterais são imagens do Antigo e do Novo Testamento.

    Os pilares e as colunas são os profetas e os apóstolos que sustentam a abóbada, a qual, por sua vez, representa Cristo, a sua chave.

    Quão poucos são os que, ao entrar numa igreja, têm presente a ideia de que suas paredes laterais representam o Antigo e o Novo Testamento!

    Como seria bom se ao avistar uma igreja as pessoas considerassem esta magnífica realidade de que em suas paredes estão representados o Antigo e o Novo Testamento, bem como em suas colunas os Profetas e os Apóstolos, sobre as quais se apoia a abóbada, imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, a chave da Igreja.

    O esplendor dos pórticos

    As janelas translúcidas que nos separam da tempestade e derramam sobre nós a claridade, são os doutores da Igreja.

    O portal é a entrada do Paraíso, embelezada pelas imagens em pedra, pelos baixos-relevos pintados e dourados e pelos suntuosos batentes de bronze.

    As portas das catedrais são, portanto, uma imagem das portas do Céu. Elas são, geralmente, feitas de carvalho trabalhado, e ornadas de bronze lavrado a fim de que seu esplendor participe de alguma forma da beleza do Portal Celeste.

    As imagens dispostas em torno da porta da catedral devem constituir uma recordação de que um dia as portas do Paraíso se abrirão para nós, e assim vamos penetrar na glória de Deus, gozando da companhia dos bem-aventurados. Ao penetrarmos no pórtico da Jerusalém Celeste seremos recebidos pelo harmonioso canto dos Anjos à semelhança dos Doutores talhados em pedra que nos recebem no pórtico da Catedral.

    Luz que dá beleza a todas as coisas

    A casa de Deus deve ser iluminada pelos raios do sol resplandecente da caridade como o próprio Paraíso, porque Deus é a Luz e a luz dá beleza às coisas. Assim também se deve aumentar a iluminação interior da catedral, abrindo janelas tão grandes quanto possíveis, dos vértices das grandes arcadas às próprias abóbadas.

    Sendo Deus a Luz, convém à catedral ser iluminada, não pela claridade comum do dia, mas pela luz matizada que filtra pelos vitrais, os quais devem ser tão grandes quanto for possível. Por isso, consistiu o grande desafio da arquitetura gótica fazer com que as janelas fossem cada vez maiores, sem prejuízo à estabilidade do edifício. Daí chegou-se a realizar um edifício como a “Sainte Chapelle” de Paris, verdadeiro escrínio cujas paredes são todas de vitrais. O que nela há de pedra são algumas esguias colunas que sustentam o teto; quanto ao mais, é toda feita de luz. De tal modo que ao penetrar nela tem-se a impressão de estar numa caixa de cristal, na qual as cores e a luz brincam formando desenhos maravilhosos, fazendo lembrar a eterna luz do Paraíso.

    Penetrando na igreja com esperança das alegrias celestes

    Como eu gostaria que esta ficha fosse publicada, para aos poucos as pessoas adquirirem o hábito de se recordar destas maravilhas sempre que entrassem numa catedral.

    Ao penetrar no edifício sagrado deveríamos ter a seguinte convicção: “Agora transponho este pórtico; um dia penetrarei pelas portas do Céu, onde poderei ver os Profetas e os Doutores, tais como aqui os vejo representados nessas imagens de pedra. Lá serei inundado pela luz de Deus, assim como agora me banha esta luz que penetra por todos os lados deste templo santo”.

    O fato de entrar numa igreja deve aumentar em nós a alegria e a esperança do grande triunfo que teremos no Céu. Quanto mais nesta Terra nos sintamos opressos, perseguidos ou odiados, tanto mais devemos voltar nossos olhos ao Céu e ansiar por ele. Lá, todas as misérias deverão acabar, cedendo lugar à perfeita alegria. No Céu não apenas gozaremos de todas as alegrias possíveis, mas também teremos algo indispensável para a perfeita alegria: a noção de que ela nunca acabará.

    Se considerarmos uma pessoa no Céu, radiante de felicidade, à qual alguém prevenisse de que ela corre o risco de, passados alguns milhares de anos, perder tal felicidade, tendo de voltar à Terra, essa pessoa passaria estes milhares de anos com uma sombra de infelicidade, porque no Céu — tão mais deleitável do que a Terra —, a simples ideia de deixá-lo macularia a felicidade que nele se goza. Pois, quanto maior é o bem que se tem, tanto maior é o desejo de conservá-lo. Portanto, é elemento essencial à alegria celeste que ela seja eterna.

    Este gáudio eterno espera a todos quanto forem fiéis nesta vida. No Paraíso Celeste, ao lado dos bem-aventurados, estaremos imersos num mar de felicidade, constituído antes de tudo pela contemplação de Deus face a face.

    Esta é a esperança que devemos ter ao entrarmos no recinto sagrado de uma catedral.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 4/3/1974)

    1) Marcel Aubert (1884 – 1962), historiador francês. Entre suas principais obras destacam-se: La Cathédrale de Senlis e La Catedral de Notre-Dame de Paris.
    2) Não possuímos a citação exata da ficha usada por Dr. Plinio nessa ocasião.

  • Modalidades de sofrimento

    Os sofrimentos da alma, por serem os mais penosos, podem levar a pessoa a buscar refúgio na irrealidade que, ao invés de aliviar os padecimentos, agrava-os, tornando o ser humano escravo de suas próprias mentiras.

    A respeito do sofrimento da alma haveria ainda algo a acrescentar e que é o seguinte:
    Sendo esta Terra um vale de lágrimas, a vida humana passa-se de maneira a fazer o homem sofrer tanto do ponto de vista físico, material, como do espiritual, conforme as várias formas de sofrimento de que tratei.

    Dores causadas pela realidade e pela irrealidade

    Na existência do homem o jogo de seus anseios, a finalidade a que ele se propõe ou para a qual Deus o destina — na medida em que ele conhece, segue, deseja ou não essa finalidade — fazem com que, para todo ser humano, viver acabe sendo uma batalha terrível.

    Porque há uma irremediável desconexão entre o que ele quereria como satisfação, como prazeres de alma, inclusive legítimos — não estou me referindo apenas aos ilegítimos —, e aquilo que de fato a vida lhe dará. E ele tem que sorver o cálice duríssimo na vida que é o enigma de cada homem.

    Adivinhar isso em outro homem é extraordinariamente difícil. E, em geral, o homem carrega esse seu problema de tal maneira que os outros imaginam que ele tenha todos os problemas, menos aquele que realmente tem. Quer dizer, ele carrega isso no isolamento.

    Essa é propriamente uma dor de alma e não do corpo. A dor do corpo pode aumentar a da alma. É muito pior ter aborrecimento acrescido de uma dor ciática, do que ter só o aborrecimento. A dor ciática pode agravar muito. Mas, de fato, o aborrecimento é tanto mais, que a dor ciática não é nada em comparação com ele.

    Nessa dor de alma entram os sofrimentos que a vida impõe por causa da realidade, e depois as dores que vêm para o homem por motivo da irrealidade.

    Quando o homem não quer ir para onde Deus deseja, ele se põe a fazer imagens erradas das coisas e forma uma ideia irreal da vida. E ruma para uma meta que não é aquela para a qual ele deveria caminhar, e que não é realmente a dele. E se faz uma espécie de vida de mentira dentro dele e em torno dele, que o atormenta enormemente mais do que a realidade que ele seguiria, cheia de contradições, de absurdos, de fricções, etc. Mas, de outro lado, ele se convence cada vez mais de que ele não aguenta esta vida tão dura, a não ser carregando as mentiras. As mentiras que são uma causa potentíssima do sofrimento, ele julga que, se não as carregar, não suporta.

    Então, ao mesmo tempo ele aguenta a causa do sofrimento e esta lhe produz efeitos pelos quais ele se julga necessariamente preso à causa. Isso forma um círculo vicioso que leva o indivíduo não se sabe até onde.

    São Gregório VII: semelhante a um toureiro que investe contra o touro

    Uma figura histórica pela qual tenho um respeito enorme é São Gregório VII. O que mais gosto nele é ver como ele viveu dentro da verdade. Isso é também assim nos outros Santos, mas nele esta característica fica particularmente clara aos meus olhos.

    Se ele não visse inteiramente de frente a situação na qual se encontrava, poderia se tapear, levar uma vida mais ou menos cômoda como Papa, e até iludir-se, fazendo várias coisas boas. Mas ele não teria cumprido o seu dever.

    Empolga-me e acho uma maravilha vê-lo à maneira de um toureiro que entra diretamente na arena e faz aquele lance com a capa e a espada por cima do touro, como a dizer:

    “O caso que eu tenho é um só: com o Império(1). O próprio assunto dos sarracenos se resolverá se eu solucionar o caso do Império. Como seria agradável se eu pudesse combater os meus inimigos ostensivos. Tenho inimigos pendurados em mim e que são os meus filhos. E este meu filho a vários títulos primogênito, o Imperador do Sacro Império Romano-Alemão, está querendo me assassinar! Irei de encontro a ele e sustentarei a batalha. Verei o perigo inteiro como é, e lançarei a ele o contrário do que ele quer, de tal maneira que entre mim e ele não haverá paz possível.”

    Vê-se nele um homem que em nada procurou iludir-se, em nada buscou um caminho que não era o seu, mas que olhou de frente.

    Ele pediu auxílio para defender-se contra Henrique IV, e depois morreu exilado. Consta que, parafraseando o Salmo que diz: “Amas a justiça e odeias a iniquidade, por isso Deus te consagrou com o óleo da alegria”(2), São Gregório teria afirmado: “Amei a justiça e odiei a iniquidade, por isso morro no exílio!”

    É o princípio axiológico(3) quebrado. Mas é um homem que não teve falsas dores de espírito em nada. Viu a coisa de frente!

    Nosso Senhor Jesus Cristo fez exatamente isso: foi de encontro aos que O podiam matar e levar a obra d’Ele para a ruína. E Ele os enfrentou, ainda que desse embate saísse a solução anti-axiológica. Nisso estava a axiologia d’Ele.

    Exemplo perfeito de amizade: os sete santos fundadores dos Servitas

    Façamos agora a relação de tudo isso com almas muito especialmente chamadas. Ou essas almas avançam por cima de sua própria anti axiologia, e com coragem, ou não têm nada feito.

    Quer dizer, devem compreender que, em vários episódios de sua vocação, esta vai lhes parecer anti axiológica, e precisam, apesar disso, continuar a avançar de qualquer jeito, mesmo para o absurdo e para a catástrofe, colocando sua confiança em Deus.

    A alma que conserva qualquer nostalgia de tal alma irmã, no fundo espera de outra criatura o que ela só pode receber de Deus! Seja no terreno alma irmã homem-mulher, seja no terreno mais inocente, e por isso menos carregado de veneno, amigo a amigo. Não conseguirá! Ou Deus dá, ou não terá…

    Para mim, o exemplo perfeito de amizade, que estou me lembrando no momento, é São Filipe Benício, um dos sete santos fundadores da Ordem dos Servos de Maria. Todos eles foram enterrados juntos, e as suas cinzas se misturaram. É uma coisa extraordinária!

    As relações entre eles eram realmente admiráveis, mas não nesse sentido de uma alma que encontrou em outra o seu complemento. É algo diferente. É Deus que estava presente numa alma e vendo-Se também presente na outra, formou o amor que o Altíssimo tem a Ele mesmo. É outra coisa.

    Esperar encontrar noutra criatura uma espécie de paraíso de contemplação em que a alma tem esse deleite, é inútil. Ou acha ali dentro Deus, então está certo, ou se encontrar apenas outra alma, deparou-se com um blefe. Garrafa vazia… É preciso compreender bem isso.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 23/11/1983)

    1) Dr. Plinio se refere à contenda entre o Papa São Gregório VII e o Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Henrique IV. Esta luta, motivada pela questão sobre se as investiduras eclesiásticas poderiam ser conferidas pelo poder temporal, teve como alguns de seus pontos culminantes a excomunhão do Imperador, sua peregrinação ao castelo de Canossa para pedir perdão ao Papa e a posterior invasão de Roma, por Henrique IV, para tentar remover São Gregório VII e substituí-lo por um antipapa.
    2) Sl 45, 8.
    3) Termo derivado de “Axiologia”: ramo da Filosofia que estuda os “valores”, isto é, os motivos e as aspirações superiores e universais do homem, as condições e razões que dão rumo à sua existência, para os quais ele tende por insuprimível impulso da sua natureza.

  • Modalidades de sofrimento

    Os sofrimentos da alma, por serem os mais penosos, podem levar a pessoa a buscar refúgio na irrealidade que, ao invés de aliviar os padecimentos, agrava-os, tornando o ser humano escravo de suas próprias mentiras.

    A respeito do sofrimento da alma haveria ainda algo a acrescentar e que é o seguinte:
    Sendo esta Terra um vale de lágrimas, a vida humana passa-se de maneira a fazer o homem sofrer tanto do ponto de vista físico, material, como do espiritual, conforme as várias formas de sofrimento de que tratei.

    Dores causadas pela realidade e pela irrealidade

    Na existência do homem o jogo de seus anseios, a finalidade a que ele se propõe ou para a qual Deus o destina — na medida em que ele conhece, segue, deseja ou não essa finalidade — fazem com que, para todo ser humano, viver acabe sendo uma batalha terrível.

    Porque há uma irremediável desconexão entre o que ele quereria como satisfação, como prazeres de alma, inclusive legítimos — não estou me referindo apenas aos ilegítimos —, e aquilo que de fato a vida lhe dará. E ele tem que sorver o cálice duríssimo na vida que é o enigma de cada homem.

    Adivinhar isso em outro homem é extraordinariamente difícil. E, em geral, o homem carrega esse seu problema de tal maneira que os outros imaginam que ele tenha todos os problemas, menos aquele que realmente tem. Quer dizer, ele carrega isso no isolamento.

    Essa é propriamente uma dor de alma e não do corpo. A dor do corpo pode aumentar a da alma. É muito pior ter aborrecimento acrescido de uma dor ciática, do que ter só o aborrecimento. A dor ciática pode agravar muito. Mas, de fato, o aborrecimento é tanto mais, que a dor ciática não é nada em comparação com ele.

    Nessa dor de alma entram os sofrimentos que a vida impõe por causa da realidade, e depois as dores que vêm para o homem por motivo da irrealidade.

    Quando o homem não quer ir para onde Deus deseja, ele se põe a fazer imagens erradas das coisas e forma uma ideia irreal da vida. E ruma para uma meta que não é aquela para a qual ele deveria caminhar, e que não é realmente a dele. E se faz uma espécie de vida de mentira dentro dele e em torno dele, que o atormenta enormemente mais do que a realidade que ele seguiria, cheia de contradições, de absurdos, de fricções, etc. Mas, de outro lado, ele se convence cada vez mais de que ele não aguenta esta vida tão dura, a não ser carregando as mentiras. As mentiras que são uma causa potentíssima do sofrimento, ele julga que, se não as carregar, não suporta.

    Então, ao mesmo tempo ele aguenta a causa do sofrimento e esta lhe produz efeitos pelos quais ele se julga necessariamente preso à causa. Isso forma um círculo vicioso que leva o indivíduo não se sabe até onde.

    São Gregório VII: semelhante a um toureiro que investe contra o touro

    Uma figura histórica pela qual tenho um respeito enorme é São Gregório VII. O que mais gosto nele é ver como ele viveu dentro da verdade. Isso é também assim nos outros Santos, mas nele esta característica fica particularmente clara aos meus olhos.

    Se ele não visse inteiramente de frente a situação na qual se encontrava, poderia se tapear, levar uma vida mais ou menos cômoda como Papa, e até iludir-se, fazendo várias coisas boas. Mas ele não teria cumprido o seu dever.

    Empolga-me e acho uma maravilha vê-lo à maneira de um toureiro que entra diretamente na arena e faz aquele lance com a capa e a espada por cima do touro, como a dizer:

    “O caso que eu tenho é um só: com o Império(1). O próprio assunto dos sarracenos se resolverá se eu solucionar o caso do Império. Como seria agradável se eu pudesse combater os meus inimigos ostensivos. Tenho inimigos pendurados em mim e que são os meus filhos. E este meu filho a vários títulos primogênito, o Imperador do Sacro Império Romano-Alemão, está querendo me assassinar! Irei de encontro a ele e sustentarei a batalha. Verei o perigo inteiro como é, e lançarei a ele o contrário do que ele quer, de tal maneira que entre mim e ele não haverá paz possível.”

    Vê-se nele um homem que em nada procurou iludir-se, em nada buscou um caminho que não era o seu, mas que olhou de frente.

    Ele pediu auxílio para defender-se contra Henrique IV, e depois morreu exilado. Consta que, parafraseando o Salmo que diz: “Amas a justiça e odeias a iniquidade, por isso Deus te consagrou com o óleo da alegria”(2), São Gregório teria afirmado: “Amei a justiça e odiei a iniquidade, por isso morro no exílio!”

    É o princípio axiológico(3) quebrado. Mas é um homem que não teve falsas dores de espírito em nada. Viu a coisa de frente!

    Nosso Senhor Jesus Cristo fez exatamente isso: foi de encontro aos que O podiam matar e levar a obra d’Ele para a ruína. E Ele os enfrentou, ainda que desse embate saísse a solução anti-axiológica. Nisso estava a axiologia d’Ele.

    Exemplo perfeito de amizade: os sete santos fundadores dos Servitas

    Façamos agora a relação de tudo isso com almas muito especialmente chamadas. Ou essas almas avançam por cima de sua própria anti axiologia, e com coragem, ou não têm nada feito.

    Quer dizer, devem compreender que, em vários episódios de sua vocação, esta vai lhes parecer anti axiológica, e precisam, apesar disso, continuar a avançar de qualquer jeito, mesmo para o absurdo e para a catástrofe, colocando sua confiança em Deus.

    A alma que conserva qualquer nostalgia de tal alma irmã, no fundo espera de outra criatura o que ela só pode receber de Deus! Seja no terreno alma irmã homem-mulher, seja no terreno mais inocente, e por isso menos carregado de veneno, amigo a amigo. Não conseguirá! Ou Deus dá, ou não terá…

    Para mim, o exemplo perfeito de amizade, que estou me lembrando no momento, é São Filipe Benício, um dos sete santos fundadores da Ordem dos Servos de Maria. Todos eles foram enterrados juntos, e as suas cinzas se misturaram. É uma coisa extraordinária!

    As relações entre eles eram realmente admiráveis, mas não nesse sentido de uma alma que encontrou em outra o seu complemento. É algo diferente. É Deus que estava presente numa alma e vendo-Se também presente na outra, formou o amor que o Altíssimo tem a Ele mesmo. É outra coisa.

    Esperar encontrar noutra criatura uma espécie de paraíso de contemplação em que a alma tem esse deleite, é inútil. Ou acha ali dentro Deus, então está certo, ou se encontrar apenas outra alma, deparou-se com um blefe. Garrafa vazia… É preciso compreender bem isso.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 23/11/1983)

    1) Dr. Plinio se refere à contenda entre o Papa São Gregório VII e o Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Henrique IV. Esta luta, motivada pela questão sobre se as investiduras eclesiásticas poderiam ser conferidas pelo poder temporal, teve como alguns de seus pontos culminantes a excomunhão do Imperador, sua peregrinação ao castelo de Canossa para pedir perdão ao Papa e a posterior invasão de Roma, por Henrique IV, para tentar remover São Gregório VII e substituí-lo por um antipapa.
    2) Sl 45, 8.
    3) Termo derivado de “Axiologia”: ramo da Filosofia que estuda os “valores”, isto é, os motivos e as aspirações superiores e universais do homem, as condições e razões que dão rumo à sua existência, para os quais ele tende por insuprimível impulso da sua natureza.

  • Que mãe dá uma serpente ao filho que lhe pede pão?

    Nosso Senhor incitava seus discípulos à oração e à súplica, afirmando: “Qual é o pai a quem o filho pedindo um pão, dá-lhe uma pedra?”

    Não se poderia imaginar outra atitude do pai para o filho, senão conceder aquilo que lhe é solicitado. Entretanto, se um pai não nega uma súplica filial, muito menos a negará uma mãe. Qual é a mãe que diante do filho que lhe pede pão, dá-lhe uma serpente? Se uma mulher tomasse esta atitude, não seria digna de ser chamada mãe.

    Nossa mãe é Nossa Senhora! Ela é um oceano insondável de excelências morais e modelo de misericórdia inconcebíveis pela mente humana. Por isso deve-se ter a convicção de que se receberá o que se pediu, pois a seu Divino Filho Ela apresenta os pedidos que lhe são feitos. E pedindo, Ela obtêm!

  • Que mãe dá uma serpente ao filho que lhe pede pão?

    Nosso Senhor incitava seus discípulos à oração e à súplica, afirmando: “Qual é o pai a quem o filho pedindo um pão, dá-lhe uma pedra?”

    Não se poderia imaginar outra atitude do pai para o filho, senão conceder aquilo que lhe é solicitado. Entretanto, se um pai não nega uma súplica filial, muito menos a negará uma mãe. Qual é a mãe que diante do filho que lhe pede pão, dá-lhe uma serpente? Se uma mulher tomasse esta atitude, não seria digna de ser chamada mãe.

    Nossa mãe é Nossa Senhora! Ela é um oceano insondável de excelências morais e modelo de misericórdia inconcebíveis pela mente humana. Por isso deve-se ter a convicção de que se receberá o que se pediu, pois a seu Divino Filho Ela apresenta os pedidos que lhe são feitos. E pedindo, Ela obtêm!