Autor: Nelson

  • Homens-símbolo

    Atendendo ao pedido de jovens discípulos, Dr. Plinio aprofunda a teoria dos arquétipos1, dando alguns exemplos históricos.

     

    Naturalmente, a profissão, a situação, onde a arquetipia aparece mais claramente é a de chefe de Estado.

    Garcia Moreno, arquétipo do Equador

    Por exemplo, o Presidente da República do Equador, Garcia Moreno, é o arquétipo do equatoriano com origem espanhola relativamente próxima, talvez com alguma mistura; ou seja, do hispano do Norte da América do Sul, diferente nesse ponto dos hispano-americanos do Centro e do Sul.

    Ele o é pelo físico e muito mais pela alma. Quer dizer, Garcia Moreno tem uma profundidade de espírito, uma firmeza e uma lógica de pensamento, um domínio sobre si mesmo e uma permanente mobilização de todo o seu ser para cumprir um dever muito árduo, qualidades essas que brilham nele, envergando o uniforme de Chefe de Estado, com o qual se fez fotografar ou pintar mais de uma vez.

    É o arquétipo do povo sul-americano de origem hispânica, eventualmente com alguma miscigenação indígena; tinha potencialmente as qualidades do seu povo. Portanto, muita propensão para a Fé católica, apostólica e romana, grande afinidade com a Igreja; uma elevação de alma para as coisas sobrenaturais, sem dúvida dada pela graça, mas que encontra um ponto de inserção na natureza.

    Garcia Moreno possuía tudo isso de modo esplêndido, mas com alguma coisa que é o contrário dos povos com miscigenação indígena.

    A miscigenação pode favorecer determinados defeitos

    É próprio de pessoas que levam consigo essa miscigenação uma tendência para o sonho de olhos abertos, o sentimentalismo, a moleza e a inconstância.

    Mas é característico do católico, quando ele nasce com esses defeitos, virá-los pelo avesso e ser salientíssimo nas virtudes opostas. E para mim, a maior pulcritude da alma de Garcia Moreno é essa. Foi morto por causa disso. É um arquétipo que virou ao avesso os defeitos do povo dele. Foi um homem admirável!

    Não há um grande povo que não tenha os seus defeitos nativos virados pelo avesso. Do contrário, eles dominam. Nossos defeitos nativos ou são levados na chibata o tempo inteiro, ou eles nos põem sob a chibata.

    Para mim, Garcia Moreno foi quem melhor realizou o desígnio divino a respeito do povo equatoriano.

    Luís XIV, rei de um povo querido por Deus

    O continente mais rico em arquetipias é o europeu. Em geral, quando um povo teve um grande rei, este foi arquétipo de seu povo.

    O que caracteriza preliminarmente todo grande rei é ser o homem no qual, por excelência, seu povo se sente refletido. Sua simples presença faz com que a nação veja a concretização de seus próprios ideais de perfeição, e queira realizá-los, reconhecendo nele o modelo de si mesma. Esse é o arquétipo.

    Por exemplo, Luís XIV é o arquétipo do francês no que este tem de mais ilustre, mais magnífico, mais estupendo.

    Quando Santa Margarida Maria recebeu do Redentor o encargo de levar uma mensagem a Luís XIV para estimular a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, o Divino Mestre pronunciou estas palavras iniciais: “Diga ao meu amigo, o Rei de França, tais e tais coisas.” E os intérpretes se empenham em querer entender, nesse caso, qual o sentido dos termos “meu amigo”.

    Na realidade, ele era seu amigo porque a França era a nação querida, e Luís XIV o arquétipo desse país. Enquanto tal, Deus o amava com aquela predileção gratuita e insondável com que Ele queria a nação primogênita da Cristandade.

    Tomemos outros dois monarcas pouco posteriores a Luís XIV e que foram grandes reis, a seu modo: Maria Teresa, a Imperatriz da Áustria, e Frederico II, o Rei da Prússia.

    Maria Teresa: a imperatriz que simbolizava o conjunto dos reinos por ela governados

    Maria Teresa foi o padrão da imperatriz, que simbolizava inteiramente o conjunto de reinos governados por ela. No seguinte sentido: os Estados chamados da Casa d’Áustria — Áustria, Hungria, Checoslováquia e outros — formavam uma soma de Estados com um rei comum, chamado antigamente de Arquiduque da Áustria. Os Arquiduques da Áustria foram um denominador comum de todos esses povos e os arquetipizaram tão magnificamente que, quando o Tratado de Versailles, em 1918 — no fim da I Guerra Mundial — desmembrou essa monarquia, foi preciso que as nações participantes — portanto, supostamente, libertadas do jugo da Áustria — assumissem a obrigação de não eleger um imperador ou rei.

    Maria Teresa representava — além da graça feminina — o que havia de charmant, de encantador no espírito austríaco, bem como as virtudes militares da raça alemã, valores esses harmonicamente aliados. E arrebatou os povos, como mostra um fato conhecido da vida dela.

    Frederico II, Rei da Prússia, atacou o império austro-húngaro e Maria Teresa, não tendo meios para defendê-lo, sofreu derrotas. Frederico II mandou propor-lhe uma paz vergonhosa, e ela respondeu: “Enquanto eu tiver para governar a última aldeia do Tirol ou da Caríntia, ali estarei resistindo ao Rei da Prússia. Diga-lhe que não me rendo, e vou impor a paz.”

    Havia o perigo de a Hungria separar-se do império.  Maria Teresa mandou convocar o parlamento dessa nação, onde ela fez um discurso sobre as circunstâncias então existentes. Quando terminou, todos os representantes da nobreza desembainharam suas espadas e clamaram: “Morreremos pelo nosso Rei, Maria Teresa!”. Ela arquetipizou nesse episódio o tradicional heroísmo magiar.

    Eleição de Maria Teresa

    Vago o trono do Sacro Império Alemão — que era eletivo —, deveria ser eleito o sucessor. Durante séculos, era automático que o trono imperial fosse deferido a um Habsburg, ao Chefe da Casa d’Áustria.

    Não tendo possibilidade de ser eleita imperatriz, Maria Teresa casou-se com um príncipe da Casa de Lorena, que ela fez eleger imperador. Assim, tornou-se imperatriz por estar casada com esse príncipe. E o título de imperador foi depois transmitido a todos os descendentes dela. Vemos, assim, como Maria Teresa possuía tacto, finura e delicadeza.

    O patrimônio teresiano

    E também jeito. Tinha olho prático de boa dona de casa.

    Maria Teresa combinou com seu marido o seguinte: “Devemos prolongar a existência de nossa Casa o quanto possível. E para isso precisamos aproveitar a atual situação a fim de tomar todos os bens que já possuímos, reorganizar tudo, fazê-los produzirem para adquirirmos novos bens, de maneira que quando percamos os nossos tronos, ainda sejamos príncipes riquíssimos. Meu esposo, deixa-me a política e faça as finanças.”

    Em 1918, foi proclamada a república na Áustria, por imposição dos Aliados. Os Habsburg perderam o trono, mas tinham um negócio chamado Patrimônio Teresiano, que era enorme, a fim de manter o conjunto da dinastia.

    Analisando seu todo, constatamos que era uma mulher fantástica: ela representava o gênio austríaco no total.

    Frederico II

    Frederico II e os Hohenzollern em geral — a cuja família ele pertencia — representavam o gênio prussiano no seguinte sentido: antes de tudo a guerra, o exército, o combate, o entusiasmo pela força. Secundariamente a música, os belos castelos — de uma beleza, que os franceses, um pouco suspeitamente, argúem de excesso de severidade. A garra militar, a águia prussiana, tomando conta de tudo. Em certo momento quase conquistou a Europa.

    Sem dúvida, Frederico II representava arquetipicamente o povo prussiano.

    Assim, poderíamos indicar outros exemplos.

    Dom Pedro II, arquétipo do Brasil

    No Brasil, na época de Dom Pedro II, indiscutivelmente a organização da família ainda era muito viva, pujante, a qual convém com o feitio afetivo do brasileiro.

    O velho Pedro II, de cabelo e barba brancos, jeito respeitável, venerável, mas bondoso, foi durante décadas o vovô do Brasil. E o Brasil sentiu delícias em ser neto de Dom Pedro II. O modo pelo qual ele governava e dirigia a política brasileira era inteligente e cheio de jeitinhos. O povo brasileiro gosta do jeitinho; a força imposta “à la” Frederico II o brasileiro aprecia muito menos. Querer impor a força pela força pode azedar a situação muito desagradavelmente, ou até fatalmente.

    A Constituição brasileira, liberal, reduzia muito os poderes do Imperador. Mas ele era um político muito esperto e sagaz. E servia-se do prestígio de ser Imperador para negociar por fora o curso da política, de tal maneira que o político número um do Brasil era Dom Pedro II. E ele ia acomodando as coisas de tal modo que o governo dele foi um reino de paz. Terminaram as revoltas que havia, o Brasil teve uma grande prosperidade e foi naquele tempo uma das maiores nações americanas — naturalmente os Estados Unidos estavam muito acima, do ponto de vista do progresso econômico. A esquadra mercante brasileira, para poder exportar inúmeras coisas produzidas por um país enorme, era a segunda do mundo.

    Mas os políticos liberais reclamavam contra Dom Pedro II, o qual redarguia: “Eu exerço inteiramente os poderes constitucionais, não saio da Constituição uma linha.”

    Eles diziam: “É verdade, mas Vossa Majestade tem um poder pessoal extraconstitucional, que vale mais do que seu poder constitucional. E não pode exercer os dois poderes juntos.”

    E o Imperador replicava: “Onde está isso na Constituição? Nada me impede de ter influência política. Se um político brasileiro me pede um conselho, eu cumpro minha obrigação atendendo-o. Se o conselho influencia, é porque foi eficaz! O que vocês têm contra isso?”

    Os liberais vociferavam muito contra seu poder pessoal, porque não podiam nada contra a força moral do Imperador.

    Dom Pedro II conduziu a situação quase até o fim de sua vida. E foi destronado por uma série de circunstâncias. Mas ele representou arquetipicamente o brasileiro; quanto a isso não há dúvida nenhuma.

    Quando o povo é grande, pode ser arquetipizado. Quando é um magma de gente, não há quem arquetipize aquela massa; ele, por assim dizer, clama pelo seu arquétipo.  v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência  de 17/2/1989)

    Revista Dr Plinio 155 (Fevereiro de 2011)

     

    1) No contexto da presente conferência, Dr. Plinio aplica este termo a pessoas que exprimem em grau eminente as características de um povo, constituindo um paradigma.

     

  • Como nasceu e cresceu meu amor ao Papado

    Eram famosas aquelas “palavrinhas”, no vasto círculo de amigos de Dr. Plinio. Assim eram chamadas as conversas curtas e informais com pequenos grupos de jovens, cujo principal interesse era  ouvir a narração de episódios da vida desse varão. Constituíam excelentes ocasiões para Dr. Plinio cultivar nas almas de seus ouvintes a boa doutrina. Sendo um de seus temas favoritos o amor ao Papado, certa ocasião ele contou o que segue.

     

    O ambiente em que fui educado era o de uma família tradicional nos primórdios do século XX, muito antigo portanto, no qual ocorriam grandes discussões entre duas espécies de pessoas: de um lado, os católicos convictos; de outro, alguns que se diziam ateus. Eram controvérsias calorosas, verdadeiras batalhas intelectuais, embora se mantivesse sempre um fundo de cordialidade. Quer dizer, sem desaforos nem desrespeitos. Uma vez terminado o entrechoque, voltava-se à boa paz. Mas eram batalhas!

    Uma consideração de menino: o Papa, supremo e sacrossanto

    Cresci, portanto, num meio em que esses problemas de fé, Igreja e correlatos faziam parte de minha formação espiritual, despertando em mim um interesse pela Religião Católica e uma adesão a ela sempre maiores.

    O vínculo que se criou com o catolicismo estreitava-se ainda mais quando, nessas discussões, sobressaía a figura maravilhosa da máxima autoridade na Igreja, o Papa. Ele, o Vigário de Cristo, supremo, sacrossanto, que manda em todos e indica a hora certa do pensamento humano no relógio infalível de sua mente, que não pode errar, porque Deus o ampara contra o erro. Eu achava essa posição o supra-sumo do magnífico e do bem-ordenado.

    Quando fiquei um pouco mais velho, a essa simpatia se juntou uma adesão mais racional, consciente e profunda que a do menino. Compreendi o quanto estou sujeito a erros, de modo que, sozinho, não posso encontrar o caminho certo. Ora, eu queria encontrar esse caminho verdadeiro, desejava acertar meu passo, custasse o que custasse.

    Como me haver nessa situação? Ou haveria um guia infalível, apoiado por Deus, para me conduzir; ou, se não existisse esse guia infalível, todos os homens seríamos cegos guiando outros cegos. Esse guia infalível é o Papa. Era preciso, portanto, alimentar uma confiança inteira nele, ou cair na completa descrença e no achincalhe de tudo, como infelizmente acontece com muitas pessoas pelo mundo, vivendo ao léu, cegos em campo raso, sem saberem para onde vão, o que querem e o que pensam. Andam como tontos.

    A linha reta para chegar ao Céu

    E daí compreendi que a peça-chave de toda a ordem humana e a linha reta para chegar ao Céu estava no Papado. Então, entusiasmo sem limites pelo Papado! E pelo dom que Deus deu aos homens, quando Nosso Senhor Jesus Cristo fundou a instituição pontifícia, no momento em que perguntou aos seus Apóstolos quem achavam ser Ele, Pedro respondeu: “Vós sois Cristo, o Filho de Deus vivo”. Ouvindo isso, Nosso Senhor teve as célebres e soleníssimas palavras: “Pedro, tu és pedra, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; e as portas do inferno — quer dizer, o poder de Satanás — não prevalecer ão contra ela”. Jamais a vencerão.

    Tudo isso eu achava, e acho, o supra-sumo da história dos homens e das almas. E quero, quando chegar o momento de minha morte, mais do que nunca em minha vida, estar persuadido dessa verdade.

    Um pouco mais velho ainda, compreendi outro importante princípio: se devemos reconhecer no Papa o poder que Nosso Senhor Jesus Cristo lhe outorgou, não devemos ver nele nem um poder maior nem, sobretudo, menor do que aquele dado por Jesus. Cumpre aceitarmos e venerarmos o Papado como Nosso Senhor o fez. Não podemos modelar um Papado segundo nossa cabeça, mas entender que a instituição fundada pelo Divino Salvador é excelente, porque Ele é infalível no sentido pleno da palavra. Homem-Deus, incapaz de errar, perfeito em tudo quanto fizesse. Estaremos seguros, apoiados na autoridade de Deus.

    De tudo isso, repito, me vem uma tão grande admiração pelo Papado, um tamanho entusiasmo, que eu quase diria uma adoração, se não refreasse a tempo a palavra em meus lábios.

    Exemplos da grandeza do papado

    É um amor sem limites, uma veneração por aquela grandeza pontifícia que eu próprio vi em alguns fatos históricos do passado. Por exemplo, no tempo de Pio XI o nazismo e o comunismo  estavam no auge de seu poder e ameaçavam, um ou outro, tomar conta da Europa. Como? Mediriam forças numa guerra, e aquele que saísse vitorioso dominava o continente europeu. Percebendo o perigo, Pio XI publicou duas encíclicas sucessivas: a primeira, condenando o comunismo, com uma energia única e extraordinária; no dia seguinte, outra encíclica condenando o nazismo.

    Enfrentou os dois poderes de peito aberto, reduzindo-os ao silêncio. Sem soldados, sem tropas, sem canhões, sem bombas de gás asfixiante, o Papa os combateu e emudeceu. Para mim, um gesto grandioso! Recordo-me de outro belo episódio em que reluziram a coragem e a sabedoria pontifícias. Desta feita, com o Papa Pio XII, que pronunciou um discurso no qual fez uma distinção famosa entre povo e massa. Tão luminosa, tão acertada, que pode ser considerada uma das coisas mais inteligentes que tenha produzido o pensamento humano.

    Um conselheiro do Papa, o Pe. Leiber (com quem mantive muito boas relações), contou-me que, após a publicação desse discurso, Pio XII recebeu calorosas felicitações e agradecimentos do Presidente Roosevelt, dos Estados Unidos. Este desejava externar seu reconhecimento — note-se, um protestante — por aquelas palavras que lhe serviriam para orientar o próprio governo norte-americano!

    Esta é a grandeza do Papado, diante da qual se vergam até as maiores potências da terra.

  • “Maior felicidade de minha vida”

    Eu tive a maior felicidade de minha vida em algo que me encheu de entusiasmo, desde pequeno: a Santa Igreja Católica Apostólica Romana!

    Mais do que qualquer pessoa, qualquer panorama ou qualquer flor, incomparavelmente mais do que qualquer delícia ou iguaria, ela me falava à alma!

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 12/5/1984).

  • BEATOS JACINTA E FRANCISCO, modelos de aceitação do sofrimento

    Vinte de fevereiro, dia da morte de Jacinta Marto, foi a data escolhida pelo Papa João Paulo II para que a Igreja celebrasse a festa da jovem pastora de Fátima e do seu irmão, Francisco, aos quais  Nossa Senhora apareceu em 1917. Ao recordar essa piedosíssima morte, Dr. Plinio teceu valiosos comentários sobre o papel do sofrimento na existência humana.

    Como se sabe, dos três videntes, dois morreram pouco depois das aparições, conforme a promessa da Santíssima Virgem: Francisco e Jacinta. Ambos deviam ir para o Céu. Antes disso, porém,  haveriam de cumprir nesta Terra duas missões diferentes. A de Jacinta era rezar e sofrer pela conversão dos pecadores, enquanto a de Francisco consistia numa reparação ante a tristeza de Nosso  Senhor e de Nossa Senhora pelos pecados do mundo, que tinham motivado a mensagem de Fátima.

    A importância do sofrimento humano nas grandes obras de Deus

    A missão de Jacinta nos revela a necessidade de vítimas expiatórias que contribuíssem com a sua dor e o sacrifício de sua vida — as duas crianças morreram em circunstâncias extraordinariamente difíceis e dolorosas — para que as palavras de Nossa Senhora encontrassem terreno fértil nos corações dos homens, dando todos os frutos por Ela desejados.

    Compreende-se, pois, como esse apostolado do sofrimento é verdadeiramente insubstituível, e como abre os caminhos para a Igreja. Todas as grandes obras de Deus, máxime as que tratam da  salvação das almas, em geral se fazem com a participação de outras almas que lutaram, sofreram e rezaram para que essas obras de fato se realizassem. Sempre é preciso a participação do sofrimento humano.

    Sem ele, nada de grande se faz.

    Certa vez, um talentoso pintor expôs um de seus quadros que retratava Nosso Senhor como Bom Pastor batendo à porta de uma choupana. A pintura, tocante e piedosa, atraía muitas atenções. Em  eterminado momento, um visitante julgou notar um defeito no quadro, e disse ao artista: “O senhor cometeu um erro de execução, pois a porta dessa cabana não tem fechadura”. Sorrindo, o  pintor lhe respondeu: “É verdade. Isto, porém, não foi um erro.

    Esta porta simboliza a porta do coração humano, onde Nosso Senhor vem bater. Ela não possui fechadura no lado de fora, mas somente no de dentro, para significar que há certos tipos de  abertura de alma onde ninguém consegue intervir: ou a alma toma a iniciativa de se abrir, ou permanecerá fechada”.

    Ora, o modo de se obter que as almas fechadas se abram é exatamente por meio da oração, dos sacrifícios e das dores que a Providência dispõe em nossas vidas. É por meio do carregar  amorosamente a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, compreendendo que assim se cumpre a superior vontade divina. Essas são as almas decisivas na História, e que levam a cabo as grandes obras
    de Deus.

    Claro está que não se trata de um sofrer meramente passivo, mas também de um sofrer ativo. O que significa muitas vezes tomar a iniciativa da luta, rompendo com aqueles que prejudicam nossa  alma.

    Significa arrostar a opinião dos outros, aceitando ser posto em situações difíceis e contrafeitas. Significa, enfim, todo o sofrimento da batalha mais intrépida, mais ousada e mais repleta de  determinação. Tudo isso é sofrer, e até sofrer por excelência. O contrário do mito do happy end Não nos esqueçamos, porém, de que, se todas as formas de sacrifícios são agradáveis a Nossa  Senhora, o que mais deseja Ela receber dos homens é virtude. Acima dos sofrimentos, Lhe compraz oferecermos a Ela a retidão e a pureza de nossa alma. Se quisermos de fato pesar nas deliberações da Providência, devemos apresentar a Ela almas contritas e humilhadas, almas que se tornem pequenas diante de Deus, renunciando a toda forma de orgulho, vanglória e vaidade, para se mostrarem diante d’Ele como realmente são. Reconhecendo a sua própria impotência, pelas vias naturais, para corrigir os seus defeitos; e, portanto, implorando o auxílio de Maria, para  que Ela por nós interceda e nos alcance a tão esperada conversão.

    E isto exatamente nos é dito pelo sacrifício de Jacinta. Devemos, portanto, pedir a ela que nos obtenha de Nossa Senhora esse senso de sofrimento, indispensável para que qualquer católico seja  verdadeiramente um fiel generoso e dedicado.

    Essa aceitação da cruz é contrária ao mito do homem moderno, que se reflete na mentalidade do happy end, segundo a qual tudo é alegria, tudo é luz, e o padecimento é uma espécie de bicho de  sete cabeças irrompendo estouvadamente na vida das pessoas.

    A verdade é outra: uma existência sem cruzes, pouco vale. São Luís Grignion de Montfort chega mesmo a afirmar que, vendo-se alguém poupado pelos sofrimentos, deve — após judiciosa  orientação de seu diretor espiritual — pedi-los a Deus, fazer romarias e rezar com empenho nessa intenção, pois sua salvação eterna pode estar correndo um risco não pequeno.

    Mais do que nunca, a necessidade de sacrifícios

    Análogas considerações poderiam ser feitas a propósito da missão de Francisco, isto é, a de reparar os Sacratíssimos Corações de Jesus e de Maria pelos pecados e ofensas contra Eles cometidos na  face da Terra.

    Ora, de 1917 até nossos dias, a maré montante dos pecados não fez senão crescer de modo incomensurável: pecados individuais, pecados públicos, pecados das nações, pecados das instituições,  etc. Tal constatação nos obriga a concluir que, se a ofensa cresceu, a reparação também se faz mais necessária e mais intensa no que ela tem de mais excelente, ou seja, alimentar em nossas almas a indignação pelos ultrajes que são feitos ao Coração Imaculado de Maria; acrisolar nosso desejo de sermos instrumentos de Nossa Senhora para a implantação de seu Reino sobre a Terra.

    Devemos pedir ao Francisco que nos obtenha esse espírito, esse ardoroso anelo de assim reparar o Coração Imaculado de Maria e, por meio d’Ele, o Coração Sagrado de Jesus.

    Plinio Corrêa de Oliveira

    Revista Dr Plinio 71 (Fevereiro de 2004)

  • A felicidade: fruto da inocência

    A procura da felicidade representa importante papel em todas as etapas da vida de uma pessoa, sobretudo na infância. Porém, onde de fato encontrá-la?
    Comentando como esse problema se punha em sua mais tenra idade, Dr. Plinio nos mostra que a alma inocente vê em tudo uma imagem de Deus, e, por isso, constantemente sente sua alma inundada da mais pura e verdadeira felicidade.

     

    A fim de desenvolver o tema que me foi proposto — onde encontrar a verdadeira felicidade? —, proponho rememorar meus tempos de juventude com a esperança de encontrar um denominador comum entre a concepção de felicidade dos jovens em 1984 e dos de 1924.

    Ao longo dos tempos, um mesmo equívoco…

    A respeito do conceito de felicidade, as pessoas ao longo dos anos têm concebido os mesmos equívocos com algumas poucas diferenças. Assim, parece-me que analisando como este problema se punha em minha juventude, poderei encontrar uma resposta útil também aos jovens que vieram meio século depois.

    Naquela época, ainda não se adotara a semana inglesa; então, no sábado à tarde, os colégios e comércios iam se fechando e a São Paulinho se preparava para gozar a felicidade.

    No que consistia a felicidade de um jovem comum, como era o meu caso, uma vez que ainda não tinha conhecido o movimento mariano, se bem que, por um auxílio especial de Nossa Senhora, tinha Fé e levava uma vida pura?

    As alegrias da vida sem pecado

    O que primeiro se me apresentava era gozar a vida sem pecar, porque, tendo Fé, eu sabia que não devia pecar. Ora, quanta coisa agradável pode-se fazer sem pecar! Por exemplo, quando eu chegava em casa, meu pai me chamava, abria a carteira e dizia: “Está aqui o seu dinheiro da semana!” Este, como é natural, era gasto todo no final de semana.

    A quantia que eu recebia de meu pai era suficiente para passar com largueza o final de semana. Além disso, como eu sempre estava junto de meus primos, cujas famílias eram mais abastadas do que a minha, eu participava de alguma forma do luxo deles.

    Assim, terminados os afazeres do sábado, nos telefonávamos e marcávamos um ponto de encontro. Começavam os passeios: confeitarias, cinemas, etc. Todos estes ambientes de nenhum modo tinham a torpeza que apresentam hoje.

    No domingo de manhã, eu ia à Missa às onze horas na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, depois da qual voltava para casa. Ao chegar, eu encontrava preparado um saboroso almoço, em geral um cuscuz delicioso acompanhado de cerveja.

    Agradáveis momentos na vida familiar

    À noite, eu ia jantar em casa de um tio, onde se reuniam quase trinta pessoas, todos os parentes jovens. Lá estava preparada uma mesa enorme, repleta de frios do melhor restaurante de São Paulo. Terminado o jantar, muitos se dispersavam e voltavam para suas casas, enquanto alguns, entre os quais eu e minha irmã, subíamos a um terraço muito agradável, de onde me lembro especialmente, ter contemplado belas noites enluaradas. Ali permanecíamos até mais de meia-noite, conversando sobre os mais diversos temas.

    Quando chegávamos em casa, após a prosa no terraço, minha mãe geralmente estava recostada em seu quarto, com o terço nas mãos. Eu me sentava junto à sua cama e começava outra conversa, também sobre todos os assuntos possíveis. Ali permanecia por volta de uma hora, depois eu ia para o meu quarto, onde ainda rezava um pouco e dormia contente, após aquele final de semana no qual eu tinha experimentado várias, intensas e, às vezes, contínuas sensações de bem-estar.

    Desta forma, tinham-se justapostas várias sensações muito agradáveis, às quais se somava uma intensa impressão de juventude trasbordante de saúde e que tem diante de si um futuro promissor.

    Um pouco pelo que me diziam, mas sobretudo pelo que eu analisava, percebia estar na mente da maior parte das pessoas com as quais eu tinha contato a seguinte ideia a meu respeito: “Você tem tudo para ser feliz! Talvez pudesse ter mais, caso conseguisse obter mais dinheiro, bem-estar e luxo. Se você morasse em Paris ou em Viena, certamente você seria mais feliz. Mas, o que você tem é suficiente para encher uma pessoa de alegria. São poucos os jovens em São Paulo que gozam de uma felicidade como a sua!”

    Para ser franco, devo dizer que eu me empanturrava dessa felicidade, e quanto mais sensações gostosas tivesse, para mim melhor. Mas, às vezes algo cortava e interrompia por instantes tais impressões. Nessas ocasiões eu me punha o problema: Será que isso é de fato a felicidade?

    Dificuldades da vida e felicidade

    Era, sobretudo, nos dias de semana — os quais apresentavam fastios de toda ordem em contraste com o bem-estar do fim de semana — que me vinha esta questão. Começava com a educação que eu recebia em casa, a qual supunha a toda hora pequenas advertências do seguinte gênero: “Não se entra na sala assim; não se põe o guardanapo deste modo; não se mexe com a cadeira desse jeito; dê risada mais moderada; gargalhadas imoderadas não são de gente educada…” Bastava relaxar um pouco para vir o aviso: “Se você relaxar, vai ser evitado pelas pessoas educadas, e muitos vão afastar-se de você.”

    Eu então pensava: “Mas, eu gosto de dar gargalhada…” No entanto, percebia que eu não podia fazer aquelas coisas e precisava dominar-me.

    Então, eu me perguntava: “Mas, se o fato de dominar-se é desagradável, será que ele não é contrário à felicidade?”

    Lembrava-me que algumas vezes, estando numa festa, eu tinha vontade de não ser amável com ninguém, mas a educação indicava que eu fosse agradável a todo mundo. Aquilo exigia que em certas ocasiões eu passasse um tempo enorme conversando com a pessoa mais enfadonha que se encontrava na festa, até o momento em que alguém, desavisado, entrasse na conversa e me desse a ocasião de com um sorriso muito amável poder me retirar…

    A educação era um dos problemas que pareciam opor-se à felicidade, mas havia muitos outros…

    Ser ilustre ou ser feliz?

    Por exemplo, à vista de homens maduros eu percebia que todos, à medida que ficavam mais velhos, deveriam ir graduando-se e subindo de condição, de maneira a, em dado momento, ter ascendido a uma condição ilustre em relação ao que fora seu ponto de partida.

    Notava também que quem não subisse essa escalada estava fadado a ser objeto do desprezo — ainda que de modo velado e amável — dos outros. Esperava-se, portanto, que também eu galgasse essa escadaria, de maneira a ser notavelmente ilustre.

    Eu pensava: “É verdade, viver sem realizar nada não é felicidade. Pois, também um porco no chiqueiro vive desta forma, apenas se alimentando e engordando para ser morto e servir de alimento a outros. Ele não faz nada, e por isso não têm uma história. Ademais, sinto impulsos que me levam a fazer algo; e compreendo que se eu não fizer nada não terei felicidade. Mas como isso é duro! Para ser algo na vida é preciso estudar, saber coordenar as ideias, aprender um vasto vocabulário e exprimir-se com perfeição e clareza, de modo a tornar-se agradável. Como aprender tudo isso? É preciso apertar a cabeça e fazer esforço duro!”

    Isso era penoso para mim, pois eu possuía uma enorme tendência à preguiça e deliciava-me em não fazer nada. Para mim, isso era um dos elementos constitutivos da felicidade.

    Mas, logo percebi que o fruto do far niente1 era dos mais amargos. Ou eu gozava as delícias de não fazer nada ou as de ter feito algo na vida. Qual delas escolher?

    Descortinava-se, então, diante de mim, uma vida inteira de esforço para chegar ao pináculo. Na insegurança e na incerteza de não ter êxito como várias pessoas que conheci, as quais terminaram infelizes, eu pensava: “Assim eu não posso ser. Mas para isso eu devo levar uma vida duríssima.” E então, me perguntava: “Felicidade, onde estás?”

    As amarguras da vida e a felicidade

    Por outro lado, eu nasci naturalmente muito afetivo, gostando das pessoas e querendo que elas gostem de mim. Mas logo percebi que isto era uma ilusão.

    Lembro-me de haver em meu tempo uma brincadeira que consistia em entrar em um automovelzinho todo ladeado de borracha, o qual devia ser conduzido de modo a ir batendo uns nos outros. Eu pensava: “A vida é como este carrinho, mas sem as borrachas! Nela se recebe pancada de todos os lados; a lei que a rege parece ser como a lei da selva, a lei das feras.” Mais uma vez a indagação: Felicidade, onde estás?

    Uma de minhas preocupações mais sérias vinha ao ver certos homens ateus, os quais eu conhecia em grande número. Diante deles me perguntava: “Será que eu também vou perder a Fé?” A isto eu preferia morrer!

    Estes eram os problemas que mais pesavam ao jovem que queria ter uma vida feliz naqueles idos anos de 1924.

    A felicidade está no porvir?

    Eu apenas entrava para a vida, tinha 16 anos, e o número de meus problemas deixava-me pasmo. Percebia que os demais jovens do meu tempo não falavam sobre seus próprios problemas, pois ficava feio. Pelo contrário, cada um devia fingir ser perfeitamente feliz, o que me parece ser do mesmo modo até hoje.

    Mas, com todos estes problemas eu olhava para o futuro no qual parecia ver uma ponta de felicidade. Imaginava que ficando velho teria uma vida sossegada, pois não sentiria mais essa pressão das pessoas que me circundavam. Poderia, então, me dedicar a leituras, teria dinheiro necessário para viver bem, faria algumas viagens. Encontraria, enfim, o porto para o qual eu rumava.

    Não suspeitava que na idade onde eu esperava encontrar sossego e despreocupação, teria de estar em meio às mais duras lutas e dificuldades.

    No entanto, apesar de estar à espera de uma felicidade futura, eu guardava a recordação de já ter sido muito feliz. E nisso está o cerne da questão.

    Ai que saudades da aurora de minha vida…

    Perguntava-me então: Quando é que eu realmente fui feliz? Lembrava-me que em minha primeira infância, antes de entrar no Colégio São Luís, até os dez anos de idade, mais ou menos, eu tinha sido enormemente feliz. Que felicidades inundavam minha alma naquele tempo e que indizível alegria eu sentia dentro de mim! Perguntava-me se só eu sentia aquilo. E na leitura de certas obras literárias, às vezes de autores brasileiros, mas quase sempre de franceses, eu encontrava referências a esta felicidade da infância. Um deles, Casimiro de Abreu, dizia: “Ai que saudades da aurora de minha vida, de minha infância querida, que os tempos não trazem mais!”

    De fato, lembrando-me das intensas alegrias que eu tinha naquele tempo, comecei a filosofar sobre elas e analisar quanto eram superiores às que tenho hoje.

    Recordo-me de ter lido um dito de Napoleão que, apesar de minhas restrições em relação ao autor, encheu-me de admiração. Certa vez perguntaram-lhe: “Qual foi o dia mais feliz de sua vida?” Pensava que ele responderia ter sido o dia de sua coroação. Pois, qual não teria sido sua satisfação ao ficar imperador?

    Porém, para minha surpresa, Napoleão respondeu: “Foi o dia da minha Primeira Comunhão.” Logo que ouvi isto me veio à lembrança o dia da minha Primeira Comunhão, bem como outros inúmeros fatos de minha infância, os quais me encheram de saudades e fizeram-me pensar o seguinte: “Será que vale a pena todo este esforço para ser algo na vida, uma vez que quanto mais nela se avança, mais se tem impressão de estar deixando para trás aquilo que se busca? Não haverá algo de errado neste caminho?”

    Inigualáveis alegrias da infância

    Em meu tempo de infância, a vida se dividia em duas partes: os dias excepcionais e os dias comuns.

    Os dias excepcionais eram geralmente os de festa. Neles eu sentia certas alegrias que provinham mais do interior de minha alma do que da própria festa.

    Lembro-me, por exemplo, de um parque que havia na Avenida Francisco Matarazzo, chamado Parque Antárctica, o qual era aberto ao público e muito bem organizado, com um jardim plantado à la alemão e, portanto, muito bonito e agradável, apesar do que, poucos o frequentavam.

    No dia de Páscoa, meus primos e eu íamos para lá, dirigidos por Mamãe, a qual era assistida por duas ou três Fräuleins. Sendo o parque enorme e possuindo vastos canteiros verdes, lá se podia correr à vontade, desfrutando do ar puro, da beleza e do perfume das flores. Ali permanecíamos brincando durante muitas horas.

    Dentre outras coisas, lembro-me de que tirávamos de uma bonita caixa, um jogo chamado croquet o qual consistia em alguns paus muito bem pintados que eram fincados no chão de modo a formar um arco dentro do qual se devia fazer passar as bolas. Entre os que jogavam pior estava eu, talvez porque, como todo brasileiro, eu não levava o jogo muito a sério e não fazia questão de ganhar a partida, mas sim de gozar daquela alegria.

    Terminados os jogos, chegava a hora dos ovos de Páscoa. Enquanto nós estávamos brincando, Mamãe com as Fräuleins tinham escondido os ovos pelo parque. Ao terminar, chamavam as crianças para começarem a procurar. Cada criança poderia ficar com os ovos que encontrasse. E como também para isso eu não tinha muita agilidade, Mamãe acompanhava-me com o olhar, e quando percebia que eu ia me aproximando dela um tanto desolado por estar com fome e não ter encontrado nenhum ovo, ela então sorrindo dizia: “Filhão, vá por ali que você vai encontrar uma coisa muito boa.”

    Naquilo tudo eu sentia uma alegria muito superior à da comida, pois ela provinha de algo que estava no fundo de minha alma, o qual me enchia de satisfação.

    Terminado o passeio, voltávamos para casa na hora da sesta, o que — ao contrário de todas as outras crianças — eu achava uma delícia. Eu ia contente para a minha cama macia, num quarto muito agradável, o qual já estava em certa penumbra, pois as venezianas eram fechadas, enquanto as janelas permaneciam abertas, deixando entrar um delicioso ar puro. Com a pouca luminosidade que havia no ambiente, eu permanecia prestando atenção no papel de parede de meu quarto, o qual era de origem francesa e tinha figuras de medalhões, pendentes de fitas azuis; eu os analisava enquanto ouvia os ruídos da cidade até adormecer tranquilo.

    Só não era feliz a hora de levantar-me para estudar… Porém, ainda assim, este esforço era largamente compensado por todo o resto. No que consistia, então, essa felicidade?

    À procura de um sentido para a vida

    Quando essas perguntas começaram a surgir em meu espírito, compreendi que se eu encontrasse no fundo de minha alma a resposta para elas, teria com isso encontrado aquilo que deveria dar sentido a toda minha vida.

    Levei anos refletindo sobre isso sem conseguir decifrar inteiramente a questão. Cheguei a pôr-me o problema de que aquilo não passava de mera imaginação. No entanto, lembrava-me que ao lado de toda aquela felicidade, havia algo superior, proveniente da sensação de ter a consciência tranquila.

    Recordo-me, por exemplo, que quando eu fazia bem meus estudos, a Fräulein, geralmente, dava-me algo que eu gostava de comer. E quando eu cumpria meu dever em algo mais relevante, era a própria Dona Lucilia que me agradava de forma especial. Assim, a ideia de mérito e de prêmio para a consciência justa, ou seja, para aqueles que são bons, levavam ao auge a sensação que eu tinha de felicidade. Parecia-me com isso ter encontrado o ponto pelo qual até mesmo o cumprimento do dever tornava-se atraentíssimo. Tratava-se da feliz sensação de ter cumprido o dever.

    A constante alegria da alma inocente

    Dessa forma, minha ideia a respeito da felicidade de infância foi se acrisolando, até chegar à compreensão de que ela era fruto da inocência. Ou seja, daquele estado de alma próprio aos que não tiveram a desgraça de ofender a Deus.  

    Lembro-me das borboletas azuis e verdes que me deixavam encantadíssimo, e me levavam a tentar apanhá-las, pois a inocência me fazia ver nelas um brilho, um fulgor e uma beleza que me deleitavam de forma inexplicável, o que no fundo provinha do fato de ver refletido nelas algo de Deus. Aquilo me fazia sentir um antegozo da alegria celeste, fruto da eterna contemplação da face de Deus.

    E não só em uma borboleta ou alguma outra coisa, mais em tudo a alma inocente vê uma imagem de Deus, por isso sente constantemente sua alma inundada da mais pura e verdadeira felicidade.

    Minha maior alegria

    Entretanto, eu tive a maior felicidade de minha vida em algo que me encheu de entusiasmo, desde pequeno: a Santa Igreja Católica Apostólica Romana! Mais do que qualquer panorama ou qualquer flor, incomparavelmente mais do que qualquer delícia ou iguaria, ela me falava à alma.

    Isso me dava a convicção de que por mais que fosse preciso sofrer, lutar, enfrentar dificuldades para levar uma vida digna, na Igreja eu encontraria toda a alegria que nesta vida se pode ter.  v

     

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 12/5/1984)

    Revista Dr Plinio 155 (Fevereiro de 2011)

     

     

     

    1) “Il dolce far niente”. Expressão italiana que significa “A doçura de não fazer nada”.

     

  • Intercessores para obter o Reino de Maria em nós

    Devemos considerar o valor simbólico da obra de Nossa Senhora que transformou suavemente essas crianças pelo simples fato de lhes aparecer reiteradas vezes em Fátima. As três mudaram extraordinariamente em consequência das revelações. Com uma delas, inclusive, a Santíssima Virgem disse estar aborrecida. Era Francisco, que não A viu por causa disso. Portanto, ele pode ser considerado um convertido.

    Temos aqui algo de parecido com o Segredo de Maria, ou seja, uma dessas ações profundas da graça na alma, que se desenvolvem sem a pessoa dar-se conta. Ela cresce em amor de Deus, em vontade de se dedicar, em oposição ao pecado, mas tudo isso se dá maravilhosamente dentro da alma.

    Se a obra de Nossa Senhora em Fátima foi assim, especialmente com essas duas crianças chamadas para o Céu, Jacinta e Francisco, podemos nos perguntar se isso não tem um valor simbólico e se não indica qual será a ação d’Ela sobre toda a humanidade, quando Ela cumprir as promessas que fez na Cova da Iria.

    Seria, portanto, um começo do Reino de Maria, enquanto sendo o triunfo do Imaculado Coração sobre duas almas pregoeiras da grande revelação de Nossa Senhora, e que, por seus sacrifícios e preces na Terra e por suas orações no Céu, ajudaram e ainda ajudam enormemente as almas a aceitarem a mensagem de Fátima.

    Assim sendo, Francisco e Jacinta são os intercessores naturais para se pedir e se obter de Maria Santíssima que comece o seu Reino em nós, desde logo, por essa transformação misteriosa que é o Segredo de Maria.

    Peçamos que eles velem especialmente sobre aqueles que têm a missão de pregar e viver a mensagem de Fátima.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 13/10/1971)

    Revista Dr Plinio 251 (Fevereiro de 2019)

  • Apostolado e sacrifício, ações inseparáveis

    Por que razão Nossa Senhora quis a morte precoce de Jacinta e Francisco, videntes de  Fátima?

    Em geral, quando se trata da salvação dos homens, é necessário haver vítimas que se associem à intervenção de Deus com o sacrifício de suas vidas.

    Isto é especialmente frisante no que diz respeito às aparições de Fátima: trata-se de uma intervenção direta da Santíssima Virgem — atestada por milagres estupendos como, por exemplo, a rotação do Sol — com a transmissão de uma das mais importantes mensagens de Nossa Senhora aos homens ao longo de toda a História.

    Pois bem, nesta ocasião Maria Santíssima quis a imolação de duas almas, as quais se ofereceram na intenção do pleno cumprimento dos planos da Providência.

    Este oferecimento nos atesta como o sofrimento é insubstituível e como ele abre, verdadeiramente, os caminhos para a Igreja.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 19/2/1965)

  • O Pintor do Sobrenatural

    Ao longo de sua História, a Igreja tem engendrado inúmeros talentos artísticos, com estilos e realizações tão diversos quanto belos e enriquecedores para a piedade cristã. Nessa constelação de talentos, porém, uma estrela sobressai pelo seu brilho mais intenso e atraente: o bem-aventurado Fra Angélico, com toda a justiça considerado o pintor católico por excelência.

    Segundo se conta, Nossa Senhora lhe aparecia no momento de retratá-La, donde o caráter celeste das pinturas nas quais Ela está presente. São  obras de um frescor sacral incomparável; nelas os personagens de certo modo transcendem as fraquezas da nossa natureza decaída e — não por  defeito do artista, mas pela elevação  de seu estro — se nos afiguram quase sem a marca do pecado original.

    Rei da arte pictórica, ele é também o mestre do feérico, conferindo esplendor inexcedível aos mínimos detalhes de seus quadros, a ponto de nos deixar desnorteados de encanto e admiração. De acordo com os estudiosos de seus métodos, ele mesmo fabricava suas magníficas tintas, muitas vezes triturando pedras semi-preciosas, cujo pó, misturado a outros elementos, forneciam-lhe as melhores cores de sua extraordinária palheta. Se ele sabia utilizar, assim, uma safira, um topázio dourado ou um rubi, com efeitos tão prodigiosos, que matizes não seria capaz de criar se pudesse fazê-lo com matérias-primas do Paraíso?!

    E como seria no Paraíso um quadro de Fra Angélico? É algo de simplesmente inimaginável. Embora já vivesse na Renascença, pelo seu espírito foi um artista caracteristicamente medieval. Seus afrescos e retábulos são um reflexo fiel das almas que fizeram da Idade Média a época áurea da Cristandade. Retratam homens para os quais esta vida terrena é antecâmara da celestial. Ele  reproduz em suas pinturas pessoas imbuídas de uma luz, claridade e leveza inexistentes no cotidiano real, expressão de uma ordem superior e transcendente.

    Numa palavra, o sobrenatural está representado em todas as suas obras. Inspirado sem dúvida pela graça divina, ele logrou pintar seus santos, “Madonnas” e Cristos irradiantes de um certo brilho que parece desprender-se da própria carnatura dos personagens. Essa luminosidade está presente, de modo muito particular, nas virgens perpetuadas em maravilhosas composições por seu magistral pincel.

    A virtude da pureza, quando bem guardada, proporciona as condições excelentes para o triunfo do espírito sobre a matéria. A castidade perfeita nimba quem a pratica de uma glória especial: a da criatura humana vitoriosa em seu elemento mais nobre, prevalecendo sobre o menos nobre.

    Na pessoa pura se estabelece uma ordem pela qual as apetências desregradas da carne estão dominadas; ela é toda espírito, toda alma, toda transparente de luz.

    Assim Fra Angélico pinta suas virgens reluzentes, como dotadas de um fulgor vindo de dentro para fora e que ilumina todo o seu ser. Porque o espírito é claro, enquanto a matéria é opaca. A intenção do artista é exatamente representar essa irradiação do espírito. É o pintor das virgens.

    E dos anjos. Os célebres anjos de Fra Angélico têm uma expressão tão límpida, tão honesta, que estão prontos para qualquer espécie de vassalagem. Tão fortes e conscientes de si, que estão  prontos para toda espécie de suserania. Tão pacíficos, que são anjos da paz. Tão guerreiros, que são anjos do combate contra o mal. Todos os contrastes extremos e harmônicos se encontram neles, numa síntese magnífica, fruto de uma forma de temperança extraordinária e perfeita.

    Tomem-se, por exemplo, os anjos representados com instrumentos musicais. Todos refletem um movimento de alma para o alto, pronta a voar. Como anjos, não sujeitos à ação da gravidade, enlevados, fazendo ecoar suas melodias e anunciando a quem os contempla uma mensagem simples, clara, singela, cujo significado entretanto vai muito além da sensação deliciosa passada pelo quadro. No fundo, remetem nossos pensamentos para Deus. Diante da trombeta de um deles, vem-nos a pergunta subconsciente: “Que música será esta?”, e nossa atenção se volta para o alto, para o olhar divino fitado pelo anjo, para o qual a sua música parece se dirigir.

    São assim os anjos, são assim os santos e as virgens de Fra Angélico: neles se nota sempre algo de diáfano, representação do sobrenatural, como acima dizíamos. Mas, insistimos, esse diáfano não transpareceria do mesmo modo se os personagens representados não fossem muito temperantes, possuidores de um senso das harmonias prévio a tudo. A virgem é meiga e delicada, mas traz  consigo uma roda de martírio, símbolo de sua fortaleza heroica. O santo é plácido e feliz, mas está aos pés do Crucificado, meditando na crudelíssima Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. O anjo está fazendo algo de grandioso, mas mantém-se sereno e inteiramente entregue à proclamação dele.

    Ora, só alguém com igual temperança, com o mesmo senso das harmonias, dos imponderáveis e do sobrenatural poderia retratar seres assim. Daí podermos vislumbrar como era a maravilhosa alma de Fra Angélico.

  • Catedra de São Pedro – Rocha inabalável

    A festa da Cátedra de São Pedro celebra o Papa como mestre infalível, e o Papado como a rocha inabalável do alto da qual o Soberano Pontífice se dirige ao mundo inteiro, revestido da infalibilidade que Deus lhe outorgou.

    Uma bela forma de nos unirmos a essa importante celebração seria oscularmos em espírito os pés da imagem de São Pedro que se encontra no Vaticano, nos quais a delicadeza do beijo alquebrou a força do bronze.

    E assim, em espírito, oscular o Papado, esse princípio de sabedoria ou de infalibilidade da autoridade que governa a Igreja Católica.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 22/2/1964)

  • Reflexo do senhorio divino

    Recolhido nas grandiosas e abençoadas solidões de Subiaco, São Bento idealizou a Civilização Cristã que, pouco depois, começaria a ser edificada em solo europeu.

    Para o santo Patriarca, era preciso que houvesse uma vida religiosa no ápice de toda a existência humana, seguida pela vida temporal dos homens que se entregam às meras atividades terrenas.

    Porém, era igualmente necessário, por vontade de Deus, que esses homens tivessem um alto pensamento, uma alta mentalidade e elevados anseios, a fim de engendrarem uma sociedade temporal toda marcada por aquela sociedade espiritual.

    Uma bela manifestação deste ideal encontra-se na praça e no Palácio Público de Siena, na Itália. Ali se notam esplendores que nasceram com São Bento e com a obra beneditina no retiro de Subiaco. Sobretudo em determinados momentos em que a praça se acha praticamente vazia, tem-se a impressão de que toda a história do lugar conseguiu fugir do século atual e voltar, reconfortada, para as centúrias em que não tinha em torno de si a não ser suas próprias maravilhas e homens cheios de fé.

    Num cenário bastante bonito, o palácio se ergue como um rei, dominador, pronto para governar as outras casas. Dir-se-ia que, através de seu relógio, ele possui um olhar com o qual supervisiona os acontecimentos ao seu redor. É um olhar ordenador, de quem conhece a situação própria de cada coisa se o bem que há no fato de elas estarem em seus respectivos lugares, cobrando-lhes, pelo mesmo olhar, a permanência delas nas suas posições.

    Este o palácio, esplêndido e digno, amplo, confortável, severo e forte, que não depende a não ser de si para dirigir, e que exerce esta função tão parecida com a de Deus: governar os homens. O poder que se aloja ali, embora temporal, é exercido em nome de Deus, e representa eminentemente o domínio divino sobre a humanidade.

    É um poder que não se exprime com a leveza e o esplendor das coisas sobrenaturais, como por exemplo, numa linda catedral gótica, as ogivas elegantes e os vitrais paradisíacos.

    Não, a natureza é mais pesada que a graça. Ela nasce do chão, santa e legitimamente, mas é do solo que ela vem. A graça desce do Céu. Elas se encontram e se osculam: a natureza, serva, beija os pés da graça, a senhora.

    Contudo, os dirigentes e os súditos do tempo em que o Palácio Público de Siena foi construído, estavam profundamente compenetrados da ideia de que, quem governa, mesmo na ordem temporal, o faz por desígnio de Deus. E que, para corresponder de modo perfeito a essa disposição divina, o governante deve, não raras vezes, demonstrar a sua força persuasiva natural, equivalente ao dom de mover as almas que tem a graça. Daí, um ligeiro ar de fortificação, uma certa aparência de quartel no Palácio Público, em cujos porões poderiam caber alguns cárceres, os quais, entretanto, não comprometem o conjunto de majestade desse edifício. Pormenor curioso, os dois torreões levantados nos ângulos do corpo central parecem braços e mãos erguidos ao Céu, pedindo a ajuda de Deus para o exercício de mando das coisas temporais…

    Assim, por trás da magnífica temporalidade desse palácio, brilha a missão de velar sobre a Igreja para protegê-la, para favorecer a expansão dos missionários por toda a terra, para facilitar aos sacerdotes católicos a livre pregação da palavra de Deus.

    O Estado tem, portanto, essa missão muito mais elevada que a de governar os homens: a de favorecer a Igreja. Este lado altíssimo do poder estatal é muito bem representado pela torre do palácio.

    Esta se alça nos ares, sobe e sobe, como quem diz: “Vós, olhando para o lado terreno das coisas tendes toda a minha figura temporal. Vede como ela é bela! Mas vós não vistes nada. Vós não conheceis minha missão divina. Olhai!”

    O interior do Palácio acompanha sua grandeza e esplendor externos. Salas cobertas de pinturas de extremo valor. Em Subiaco abriam-se as vastidões que têm como cúpula o próprio céu, e que alimentaram as reflexões de São Bento. Nesse palácio há tetos e arcos que convidam ao recolhimento do espaço pequeno, onde o homem pode também meditar nas coisas de Deus.

    E então somos levados a imaginar um governante dessa Siena medieval, passeando pelas salas, terraços e torres do seu palácio. Um espírito ponderado e pensativo, cuidando da magnitude de seu poder temporal, das grandes responsabilidades e dos grandes serviços que pode prestar à salvação das almas, para o bem dos homens e, sobretudo, para o da Igreja.

    Enquanto toda a cidade dorme, e apenas se ouve, de tempos em tempos, um tilintar dos relógios e um eco dos sinos a indicarem as horas que correm, ele está lá em cima, sozinho, rezando e pensando, pensando e rezando, como São Bento em Subiaco meditava…

    São homens assim que sofrem e se tornam solitários nas grutas de Deus e são construções e monumentos como o Palácio de Siena que se transformam em instrumentos da graça, para conduzir as almas ao Paraíso Celestial.