Autor: Nelson

  • Nossa Senhora da Soledade

    O que é a soledade de Nossa Senhora? É o período da vida de Maria Santíssima que vai desde o “Consummatum est” até o instante em que Ela tomou conhecimento da Ressurreição. Ali esteve Ela inteiramente só!

    Peçam a Nossa Senhora da Soledade que os faça compreender a sublimidade e a elevação de espírito da soledade d’Ela e tomar a resolução de aceitarem a soledade sem amargura, sem rancor, sem pena de si mesmos, com naturalidade, como um herói aceita a luta e a morte.

    Não sejam desses isolados amargos, ácidos, orgulhosos, que se julgam os incompreendidos do gênero humano. Não! Sejam naturais, bons, alegres.

    É esse o holocausto, o sacrifício que temos de fazer. Alguém dirá: “Eu não tenho coragem”. Meu filho, se você não tem, diga assim: “Por enquanto não tenho coragem”. E reze para tê-la.

    Todas as portas se abrem para quem rezar! Peça, portanto, a Nossa Senhora da Soledade para lhe dar a coragem de suportar o isolamento.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 5/2/1989)

  • Divina fecundidade

    Quando, através de seu humilde “fiat”, a Virgem Santíssima consentiu na Encarnação do Verbo, a Ela foi comunicada a fecundidade do Padre Eterno. Quer isto dizer que a capacidade concedida a Maria de gerar o Filho divino é quase uma participação no próprio poder criador de Deus. Ora, tornar-se digna de privilégio tão augusto supõe uma riqueza de vida espiritual inimaginável, uma elevação de virtudes e uma intimidade de alma com Deus que excede à nossa limitada inteligência. Na medida em que uma simples criatura podia receber aquela fecundidade, Nossa Senhora a recebeu, plenamente.

    Compreende-se, pois, como na ordem da criação nada haja, nem de longe, comparável a Maria, Mãe de Jesus.

  • O gládio que transpassou o Coração da Santíssima Virgem

    Durante trinta e três anos, Nossa Senhora, em meio a alegrias inenarráveis, previu a Paixão e Morte de seu Divino Filho. E junto à Cruz, enquanto tantos homens  desertaram, Ela estava de pé. Nunca  ninguém sofreu tanto, com força e sobranceria, quanto a Mãe de Deus. Unindo-Se às intenções da Trindade Santíssima, Ela queria o esmagamento do demônio e da Revolução por todo o sempre.

    Na apresentação do Menino Jesus no Templo, em profeta Simeão que a respeito do Divino Infante fez esta esplêndida profecia: “Agora, Senhor, podeis deixar vosso servo  partir em paz, segundo vossa palavra, porque meus olhos viram a salvação que preparastes ante a face de todos os povos, luz para iluminar as nações e glória de Israel, vosso  povo” (Lc 2, 29-32).

    Destinados à maior glória, percorrendo os mais extremos sofrimentos

    Nossa Senhora, à vista dessa profecia, ficou ainda mais inteirada de toda a glória do Menino Divino que carregava nos braços. Depois de abençoar o Menino e sua Mãe, disse Simeão: “Este Menino está posto para ruína e a ressurreição de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição” (Lc 2, 34).

    Assim, depois de um futuro esplêndido, o venerável ancião predizia uma vida e uma luta tremenda para aquele Menino e prenunciava para Maria Santíssima um sacrifício:  “Uma espada transpassará tua alma” (Lc 2, 35). Quer dizer, Ela terá um dos sofrimentos mais atrozes que uma pessoa pode suportar. E ele anuncia isso com trinta e três    anos de antecedência.

    Temos aqui dois fatos a considerar, muito elucidativos para a mentalidade do homem moderno: em primeiro lugar, uma vez que Deus decretara que esse Menino fosse o Rei vitorioso de que falava a profecia de Simeão, como explicar que, lógica e sabiamente, houvesse de querer, ao mesmo tempo, que Ele passasse por todas essas lutas, as quais importassem num determinado momento em revés? Porque não se podia compreender de outro modo essa espada de dor que atravessaria o Coração de Nossa Senhora.

    Não seria natural, arquitetônico, de acordo com a ordem estabelecida pela sabedoria divina, que, uma vez sendo da vontade de Deus que o Menino Jesus fosse o Rei de todos os povos, em todos os tempos, que nada viesse atrapalhar essa carreira gloriosa? Que esta se fizesse de trabalhos bonitos, sapientes, triunfais, de lutas vencidas facilmente com um golpe “mágico” que faria tudo retroceder diante de Jesus, e assim Ele chegasse à sua glória?

    Por que o mistério desse momento terrível, em relação ao qual estava anunciado que um gládio atravessaria o Coração de Nossa Senhora? Como se pode compreender que  Deus permita, no meio dessa trajetória, um sofrimento tão grande e uma aparente derrota? Isso não é uma coisa estranha?

    A mentalidade “happy end” nos impede de compreender o modo pelo qual as obras de Deus se realizam

    O estado de espírito do homem  moderno correspondente a isso reflete-se, com frequência, no modo pelo qual somos levados a considerar os reveses de nossa vida espiritual e de nosso apostolado. Muitas  vezes percebo em algumas pessoas dificuldades para explicarem a si mesmas a razão pela qual, embora estejam andando bem espiritualmente, podem ser tentadas.

    A ideia é esta: se Nossa Senhora, se Deus querem que me santifique, por que, então, devo ser tentado? Por que até permitem que eu peque e Lhes desagrade? Isso não é uma contradição? Se o fim é um, não é normal que tudo caminhe direitinho e coerentemente para ele? Como explicar a ocorrência de coisas que parecem contrariar esse fim?

    Vê-se nessas interrogações o reflexo daquela mentalidade “happy end” do cinema norte-americano. As coisas têm que correr certinhas; quando não correm, são atrapalhações  que podem ser até grossas, mas já se sabe que terminará tudo direitinho, porque o homem é chamado para ser feliz nesta Terra, entender tudo quanto se passa com ele e  triunfar.

    E quando as coisas não acontecem assim, ele tem a sensação de que a vida humana não está em ordem. Tal como os heróis de um romance de filme, que sofrem durante o  enredo, mas o expectador já sabe – e tem a sensação de que os atores também – que tudo vai terminar à beira de um lago, olhando-se amorosamente, navegando num  barquinho, os passarinhos cantando, a fita acabando, e o burguês que a assistiu voltando prosaicamente para casa, satisfeito.

    Essa mentalidade “happy end” intoxica nosso espírito e não podemos compreender o modo pelo qual as obras de Deus se realizam. Uma vez posto o pecado, com a queda dos  anjos, e posteriormente a do homem, a vida humana tem um caráter não só de prova, mas de expiação e de luta.

    Aceitar o sofrimento não choramingando, mas como o  soldado que vai para a luta

    A Providência Divina age de acordo com sua sabedoria, permitindo para os bons os reveses, as doenças, as tentações, a luta contra o adversário, e exigindo deles a aceitação  de que essas coisas lhes podem vir em ocasiões onde isso lhes pareça incompreensível, pois o normal nessa vida é sofrer e que muitas coisas, de fato, não deem bom resultado, ou tenham consequências diferentes do que se quereria. Desse resultado errado Deus tira, para sua glória, algo de melhor e mais brilhante do que o sucesso por  nós imaginado.

    As provações e os sofrimentos inesperados não só constituem algo pelo qual o homem decaído deve passar, mas podem corresponder também a uma punição pelos pecados cometidos, ou esconderem uma prova de amor querida por Deus de sua criatura; uma prova de confiança cega, de desprendimento e de abnegação que a criatura deve dar e  que constitui um elemento altamente pedagógico para ela, porque a criatura só vale na medida em que realmente aceita esses sofrimentos com espírito sobrenatural, não  choramingando, mas como o soldado que vai para a luta.

    Compreende-se, então, o mistério que há no seguinte fato: segundo a mentalidade moderna, não seria o caso de avisar Nossa Senhora, trinta e três anos antes, que Ela iria  sofrer essa dor. Mas fazer o contrário: ir tapeando ou ficar quieto. Mesmo na hora de Nosso Senhor ser morto, enfim, de Maria Santíssima tomar conhecimento da Paixão,  adiar, contar-Lhe aos poucos para Ela não se assustar muito. Afinal, quando não houvesse mais remédio, Ela saberia, e ainda assim haveria os calmantes.

    A ação da Providência não é essa. Com trinta e três anos de antecedência, Ela avisa Nossa Senhora. Exatamente porque a previsão dessa dor já é uma tremenda dor. Maria  Santíssima carregou a previsão desse sofrimento durante todo esse tempo e o viu chegando de longe. Com isso, sua alma imaculada, criada sem pecado original, foi-se  aperfeiçoando e santificando na longa previsão e aceitação da dor que deveria vir.

    Trinta e três anos de Horto das Oliveiras

    Compreende-se que até para a alma imaculada da Santíssima Virgem a previsão forte, corajosa, razoável – eu diria, mesmo varonil – da dor vindoura era um elemento para uma crescente união com Deus, a qual Ela já possuía num grau insondável desde o primeiro instante de seu ser. Entretanto, essa profecia de Simeão foi intencionada para que Ela carregasse essa dor durante trinta e três anos, na compreensão desse fato de que o homem nasceu para sofrer, é normal que sofra, que é preciso aceitar a dor por  inteiro antes dela vir, e, quando chegar, que ela nos encontre calmos, fiéis, sobranceiros e heroicos, porque assim se deve ser diante do sofrimento.

    Então, encontramos essa analogia entre a vida de Nosso Senhor e a de sua Mãe Santíssima: a vida de Nossa Senhora foi trinta e três anos de Horto das Oliveiras, ao longo  dos quais Ela previu a Paixão e a Cruz no meio de alegrias inenarráveis.

    Ela foi vendo seu Divino Filho crescer, preparar- Se para a vida pública – durante a qual esse gládio de dor A esperava –, sair de casa, ouvindo falar dos rumores criados em  torno d’Ele e do ódio que subia e O rodeava de todos os lados. Era o mal que haveria de armar contra seu Filho o golpe mais atroz possível. E Ela que O adorava como seu  Deus e seu Filho, sentindo o pecado horrível que estava sendo preparado, considerava de frente os tormentos que deveriam vir.

    O resultado foi a hora magnífica de sua fidelidade: enquanto tantos homens desertaram, Nossa Senhora se encontrava de pé junto à Cruz. Não era de duvidar que estivesse, pois estava confirmada em graça; mas Ela ali se encontrava como fruto dessa longa preparação. Quer dizer, não desmaiada, nem desfalecendo, nem alquebrada pelos  acontecimentos. A iconografia católica apresenta, em todos os séculos, Maria Santíssima muito firme, de nenhum modo desorientada, sem domínio de  Si, ou desejando  fugir. Essas são paixões vis que não caberiam em sua alma,  às quais se contrapunham, na ordem teórica, virtudes mais excelsas que Ela tinha elevado ao mais alto  dos  supremos graus. Nunca ninguém  sofreu tanto, com tanto domínio dos acontecimentos, compreendendo tanto a lógica do que se passava, com tanta força e sobranceria, com  anto ódio ao mal, quanto Nossa Senhora.

    Para esmagar o demônio, Nossa Senhora desejou os mais atrozes sofrimentos

    Ela sabia que todo o mal no mundo seria esmagado no momento em que o seu Divino Filho expirasse. Durante todo o tempo, a Santíssima Virgem esteve na seguinte  disposição: “Adoro meu Filho, mas se for preciso sacrificá-Lo para esmagar o demônio, derrotar o poder das trevas, concordo que meu próprio Filho morra. Eu O entrego,  por assim dizer, O imolo. Esse gládio Eu mesma enfio em meu próprio Coração. Mas é preciso que o demônio seja esmagado. É necessário  que o mal – que hoje chamamos   Revolução – seja estraçalhado por todo o sempre. Uno-me às intenções santíssimas do Pai, do Filho e do Espírito Santo e faço esse sacrifício horroroso.

    Mas isso que está acontecendo no alto da Cruz Eu quero, e não deixo de querer um instante, com toda a intensidade de meu ser”.

    Se isto não é espírito de combate,  disposição para arrasar o adversário, então não sei mais o que significam essas palavras.

    Trinta e três anos de preparação! O que tem isso de comum com a vida de Nosso Senhor? Para não falar de preparação remota, no Horto das Oliveiras Nosso Senhor quis  meditar e prever tudo o que Lhe aconteceria. Então, Ele começou a sentir horror e pavor do que viria, e fez aquela oração: “Meu Pai, se for possível, afaste-se de Mim esse cálice” (Mt 26, 39). Quer dizer, se não for condição para o gênero humano ser redimido, enfim, se dentro de vossos desígnios for possível derrotar o demônio sem isso.

    Porém, faça-se a vossa vontade e não a minha. Eu aceito e quero todo esse sofrimento para chegar a esse resultado. Ordem mental, lógica, calma e ante a dor, e o amor ao  sofrimento que se deve ter.

    Gládio representando a dor e a luta

    Muitas vezes, em nossa vida, há aspectos triunfais, no meio de toda a guerra em que nos movemos. Mas precisamos nos compenetrar bem de que o  normal, na luta tremenda que  estamos tendo, é virem vários momentos nos quais um gládio de dor transpasse a alma de cada um de nós. Por vezes  pareceremos derrotados, desorientados, abandonados pela Providência, como diz o Salmo que Nosso Senhor recitou no alto da Cruz: “Deus meu, Deus meu, por que Me abandonaste?” (Mt 27, 46).

    Devemos nos colocar diante desta perspectiva: essas são as coisas que podem acontecer, nossa luta não será sempre uma parada de vitórias. Não seríamos dignos de Nosso Senhor Jesus Cristo, nem de sua Mãe Santíssima, se isso fosse assim. É mister termos diante dos olhos sempre a ideia de que um gládio de dor nos atravessará em determinado momento.

    Devemos pedir a Nossa Senhora que nos alcance a graça – que, sob determinado ponto de vista, não temo chamar de suprema – de desejarmos, amarmos e, desde logo,  prepararmos nossa vida para essa hora.

    Porque assim como a hora do gládio, junto com a da Encarnação, foi a grande hora da vida da Santíssima Virgem, a hora da fidelidade, assim também podemos dizer não ter  sido a grande hora de nossa vida somente a vocação, mas vai ser a hora da perseverança, que corresponderá à hora do gládio.

    Tivéssemos nós um gládio que, com maior furor guerreiro e de um modo mais terrível, representasse ao mesmo tempo a dor que deve transpassar nossas almas e a luta  contra nossos adversários, e eu o poria como símbolo em nossa capela, porque, mais do que uma resignação, uma sadia e equilibrada apetência desse gládio deve nos caracterizar.

    Conta-se que Nosso Senhor, quando recebeu a Cruz, antes de colocá-la nas costas chorou de emoção, abraçou-a e a beijou com muito carinho, porque desde sempre a  desejara. Oxalá, na hora de nosso gládio, possamos também chorar varonilmente de emoção, osculá-lo com muito carinho e dizer que desde sempre o desejávamos. É o  pedido do amor a esse gládio que devemos apresentar a Nossa Senhora das Dores.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 9/4/1965)

  • São Casimiro e a supremacia do exemplo

    Mais do que agir e realizar grandes feitos, a excelência espiritual consiste em ser e em difundir no universo da Igreja o aroma da perfeição: eis o valioso ensinamento que nos transmite Dr. Plinio, ao comentar alguns traços da vida de São Casimiro, príncipe da Polônia.

     

    No dia 4 de março a Igreja celebra a festa de São Casimiro, da estirpe real polonesa e patrono desta nação. Sua breve existência foi profundamente marcada pela intensa piedade que o caracterizava, conforme lemos no Pe. Rohrbacher:

    Espírito continuamente unido a Deus

    São Casimiro, príncipe da Polônia, foi o terceiro dos treze filhos de Casimiro III com Isabel da Áustria, filha do Imperador Alberto II. Veio ao mundo em 5 de outubro de 1458 e demonstrou, desde a infância, muita inclinação para a virtude.

    Teve por preceptor João Dlugosz, denominado Longino, cônego de Cracóvia e historiador da Polônia, homem que aliava rara piedade a grande extensão de conhecimentos. Casimiro e os outros príncipes, seus irmãos, lhe eram tão ternamente afeiçoados que não podiam tolerar que os separassem dele um momento. Mas, nosso Santo foi aquele que mais aproveitou as lições de tão hábil mestre.

    Viram-no, na flor da idade, entregar-se com ardor aos exercícios de piedade e às práticas da mortificação. Trazia um cilício sob as vestes, que eram sempre muito simples. Diversas vezes deitava-se no chão duro e passava boa parte da noite a orar e meditar. A Paixão de Jesus Cristo era o assunto mais costumeiro de suas meditações. Saía com freqüência à noite para ir rezar à porta das igrejas, onde esperava se abrissem para assistir às matinas.

    Espírito e coração continuamente unidos a Deus, a paz interior de sua alma se manifestava a toda a gente pela serenidade da face. Cheio de respeito por tudo o que concernia ao culto divino, as menores cerimônias eclesiásticas lhe tocavam a piedade. Tinha particular devoção a Jesus padecente pelos homens, e jamais pensava no mistério da Redenção sem desfazer-se em lágrimas e sentir-se abrasado de amor.

    Quanto ao santo sacrifício da Missa, a ele assistia com tanto fervor e recolhimento que parecia maravilhado em êxtase. Para marcar a confiança que possuía na proteção da Santíssima Virgem, compôs em honra d’Ela o hino que traz seu nome, e do qual desejou que uma cópia fosse depositada em seu túmulo, quando morresse. (Esse cântico iniciava-se com as palavras “Omni die, dic Mariae, mea laudis anima”.)

    Amava tão ternamente os pobres que lhes sentia de certo modo as misérias. Não contente de lhes distribuir os bens, empregava ainda, para aliviá-los, tudo o que tinha de crédito junto a seu pai e a seu irmão Vlasdilau, Rei da Boêmia.

    Consumando a obra da santificação

    Os húngaros, insatisfeitos com Matias, seu monarca, quiseram elevar nosso Santo ao trono, em 1471. Enviaram para esse fim uma deputação ao Rei da Polônia, seu pai. O jovem Casimiro, que não completara ainda 13 anos, desejaria bem recusar a coroa que lhe ofereceram.

    Mas, para agradar ao pai, partiu à testa de um exército, a fim de sustentar o direito de sua eleição. Tendo chegado às fronteiras da Hungria, soube que Matias acabava de reunir dezesseis mil homens para ir à frente dos poloneses e que tornara a conquistar o coração dos súditos. Soube também que o Papa Sisto IV se declarara pelo rei destronado e enviara uma embaixada a seu pai, para fazê-lo abandonar a empresa.

    Todas essas circunstâncias reunidas deram secreta alegria ao jovem príncipe. Pediu ao pai que voltasse sobre os próprios passos, o que só com muita dificuldade lhe foi concedido. Porém, para não aumentar o desgosto que o pai sentia por ter visto malograr seus desígnios, evitou a princípio aparecer na presença dele. Em lugar de ir direto a Cracóvia, retirou-se ao Castelo de Dobzski, situado a uma légua da cidade, e lá passou três meses na prática de austera penitência.

    Tendo reconhecido, em seguida, a injustiça da expedição que o tinham forçado a empreender contra o Rei da Hungria, recusou constantemente render-se a segundo convite que lhe fizeram os húngaros, e isso malgrado as solicitações e reiteradas ordens do pai.

    Casimiro empregou os doze últimos anos de vida em consumar a obra de sua santificação. Viveu na maior continência, apesar das razões prementes que se alegavam para levá-lo ao casamento. Morreu de tísica em Vilna, capital da Lituânia, em 4 de março de 1483, com a idade de vinte e quatro anos e cinco meses. Predissera a morte e para esta se preparou através de um redobramento de fervor e pela recepção dos sacramentos da Igreja.

    Operou-se grande número de milagres por sua intercessão, sendo canonizado pelo Papa Leão X em 1522. Cento e vinte anos após sua morte, encontraram-lhe o corpo incorrupto, assim como foram achados intactos os ricos tecidos com os quais o tinham envolvido, apesar da excessiva umidade do jazigo onde fora enterrado. Mandaram então construir magnífica capela de mármore para nela serem depositadas suas relíquias.

    São Casimiro é patrono da Polônia, e o propõem comumente aos jovens como perfeito modelo de pureza.

    Santidade é sobretudo o ser e o não agir

    A respeito de São Casimiro, convém notar de modo especial três traços.

    Há santos fundadores de povos, outros dão origem a ciclos de civilização, e por sua ação extraordinária eles movem a História.

    Existe também a categoria dos santos que se tornam exímios na prática de uma determinada virtude, da qual são modelos em toda a vida da Igreja. E para que a atenção dos fiéis não se desvie deste ponto central, esses heróis da Fé morrem relativamente jovens e a biografia deles permanece marcada por aquela virtude.

    São Luís Gonzaga, por exemplo, pouco realizou em sua breve existência. Morreu ainda adolescente, mas havia atingido um apogeu na prática da castidade. Se ele tivesse feito muitas obras, a tendência dos que o admirassem seria de se voltar para o que ele produziu e não para o que foi.

    Tais santos nos mostram, assim, que a excelência espiritual consiste sobretudo em ser, em manter uma ação de presença dentro da Igreja, difundir o aroma da perfeição, não só enquanto estão vivos, mas depois de mortos. E que os dias deles, tão precocemente imolados e em geral oferecidos em benefício da Igreja Católica, são elementos preciosíssimos para a salvação das almas.

    Elementos, portanto, valiosos na ordem do sacrificar-se e não no terreno do agir.

    A supremacia do exemplo, da imolação, da realização interior de uma obra própria que justifica inteiramente a existência, apesar de externamente não se ter feito nada, esse é o ensinamento que almas como São Casimiro, São Domingos Sávio, São Luís Gonzaga e tantos outros, nos trazem à mente. É um aspecto deste sol de santidade que é a Igreja Católica Apostólica Romana.

    Pompa e penitência

    Há ainda um traço interessante na vida de São Casimiro: trajava roupas régias, embora simples, enquanto portava o cilício sob elas. Vemos nisso o equilíbrio do verdadeiro santo. Ele deseja fazer penitência, mas sabe que sua condição lhe impõe o vestir-se com a pompa inerente à sua categoria. E como não é um igualitário, usa todo o necessário para a manutenção de seu estado, sem descuidar da penitência: coloca sobre si um instrumento de sacrifício, mas o leva às ocultas.

    Por fim, uma nota curiosa que pode ser especialmente útil para nós.

    São Casimiro teve dificuldades com seu pai, pois este desejava que ele conquistasse a Hungria, e não compreenderia a recusa do filho alegando um motivo — no juízo do monarca — frívola: o Papa dava razão ao outro e o príncipe seria, portanto, um usurpador.

    Dando provas de muito tato e sabedoria, o jovem santo evitou comparecer de imediato à presença do pai. Retirou-se para um castelo distante da corte, e ali permaneceu durante três meses, até que os ânimos serenassem. Só então retornou.

    Foi um santo apuro e depois um santo ardil, que deve servir de inspiração para todos nós.

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • São Casimiro e a supremacia do exemplo

    Mais do que agir e realizar grandes feitos, a excelência espiritual consiste em ser e em difundir no universo da Igreja o aroma da perfeição: eis o valioso ensinamento que nos transmite Dr. Plinio, ao comentar alguns traços da vida de São Casimiro, príncipe da Polônia.

     

    No dia 4 de março a Igreja celebra a festa de São Casimiro, da estirpe real polonesa e patrono desta nação. Sua breve existência foi profundamente marcada pela intensa piedade que o caracterizava, conforme lemos no Pe. Rohrbacher:

    Espírito continuamente unido a Deus

    São Casimiro, príncipe da Polônia, foi o terceiro dos treze filhos de Casimiro III com Isabel da Áustria, filha do Imperador Alberto II. Veio ao mundo em 5 de outubro de 1458 e demonstrou, desde a infância, muita inclinação para a virtude.

    Teve por preceptor João Dlugosz, denominado Longino, cônego de Cracóvia e historiador da Polônia, homem que aliava rara piedade a grande extensão de conhecimentos. Casimiro e os outros príncipes, seus irmãos, lhe eram tão ternamente afeiçoados que não podiam tolerar que os separassem dele um momento. Mas, nosso Santo foi aquele que mais aproveitou as lições de tão hábil mestre.

    Viram-no, na flor da idade, entregar-se com ardor aos exercícios de piedade e às práticas da mortificação. Trazia um cilício sob as vestes, que eram sempre muito simples. Diversas vezes deitava-se no chão duro e passava boa parte da noite a orar e meditar. A Paixão de Jesus Cristo era o assunto mais costumeiro de suas meditações. Saía com freqüência à noite para ir rezar à porta das igrejas, onde esperava se abrissem para assistir às matinas.

    Espírito e coração continuamente unidos a Deus, a paz interior de sua alma se manifestava a toda a gente pela serenidade da face. Cheio de respeito por tudo o que concernia ao culto divino, as menores cerimônias eclesiásticas lhe tocavam a piedade. Tinha particular devoção a Jesus padecente pelos homens, e jamais pensava no mistério da Redenção sem desfazer-se em lágrimas e sentir-se abrasado de amor.

    Quanto ao santo sacrifício da Missa, a ele assistia com tanto fervor e recolhimento que parecia maravilhado em êxtase. Para marcar a confiança que possuía na proteção da Santíssima Virgem, compôs em honra d’Ela o hino que traz seu nome, e do qual desejou que uma cópia fosse depositada em seu túmulo, quando morresse. (Esse cântico iniciava-se com as palavras “Omni die, dic Mariae, mea laudis anima”.)

    Amava tão ternamente os pobres que lhes sentia de certo modo as misérias. Não contente de lhes distribuir os bens, empregava ainda, para aliviá-los, tudo o que tinha de crédito junto a seu pai e a seu irmão Vlasdilau, Rei da Boêmia.

    Consumando a obra da santificação

    Os húngaros, insatisfeitos com Matias, seu monarca, quiseram elevar nosso Santo ao trono, em 1471. Enviaram para esse fim uma deputação ao Rei da Polônia, seu pai. O jovem Casimiro, que não completara ainda 13 anos, desejaria bem recusar a coroa que lhe ofereceram.

    Mas, para agradar ao pai, partiu à testa de um exército, a fim de sustentar o direito de sua eleição. Tendo chegado às fronteiras da Hungria, soube que Matias acabava de reunir dezesseis mil homens para ir à frente dos poloneses e que tornara a conquistar o coração dos súditos. Soube também que o Papa Sisto IV se declarara pelo rei destronado e enviara uma embaixada a seu pai, para fazê-lo abandonar a empresa.

    Todas essas circunstâncias reunidas deram secreta alegria ao jovem príncipe. Pediu ao pai que voltasse sobre os próprios passos, o que só com muita dificuldade lhe foi concedido. Porém, para não aumentar o desgosto que o pai sentia por ter visto malograr seus desígnios, evitou a princípio aparecer na presença dele. Em lugar de ir direto a Cracóvia, retirou-se ao Castelo de Dobzski, situado a uma légua da cidade, e lá passou três meses na prática de austera penitência.

    Tendo reconhecido, em seguida, a injustiça da expedição que o tinham forçado a empreender contra o Rei da Hungria, recusou constantemente render-se a segundo convite que lhe fizeram os húngaros, e isso malgrado as solicitações e reiteradas ordens do pai.

    Casimiro empregou os doze últimos anos de vida em consumar a obra de sua santificação. Viveu na maior continência, apesar das razões prementes que se alegavam para levá-lo ao casamento. Morreu de tísica em Vilna, capital da Lituânia, em 4 de março de 1483, com a idade de vinte e quatro anos e cinco meses. Predissera a morte e para esta se preparou através de um redobramento de fervor e pela recepção dos sacramentos da Igreja.

    Operou-se grande número de milagres por sua intercessão, sendo canonizado pelo Papa Leão X em 1522. Cento e vinte anos após sua morte, encontraram-lhe o corpo incorrupto, assim como foram achados intactos os ricos tecidos com os quais o tinham envolvido, apesar da excessiva umidade do jazigo onde fora enterrado. Mandaram então construir magnífica capela de mármore para nela serem depositadas suas relíquias.

    São Casimiro é patrono da Polônia, e o propõem comumente aos jovens como perfeito modelo de pureza.

    Santidade é sobretudo o ser e o não agir

    A respeito de São Casimiro, convém notar de modo especial três traços.

    Há santos fundadores de povos, outros dão origem a ciclos de civilização, e por sua ação extraordinária eles movem a História.

    Existe também a categoria dos santos que se tornam exímios na prática de uma determinada virtude, da qual são modelos em toda a vida da Igreja. E para que a atenção dos fiéis não se desvie deste ponto central, esses heróis da Fé morrem relativamente jovens e a biografia deles permanece marcada por aquela virtude.

    São Luís Gonzaga, por exemplo, pouco realizou em sua breve existência. Morreu ainda adolescente, mas havia atingido um apogeu na prática da castidade. Se ele tivesse feito muitas obras, a tendência dos que o admirassem seria de se voltar para o que ele produziu e não para o que foi.

    Tais santos nos mostram, assim, que a excelência espiritual consiste sobretudo em ser, em manter uma ação de presença dentro da Igreja, difundir o aroma da perfeição, não só enquanto estão vivos, mas depois de mortos. E que os dias deles, tão precocemente imolados e em geral oferecidos em benefício da Igreja Católica, são elementos preciosíssimos para a salvação das almas.

    Elementos, portanto, valiosos na ordem do sacrificar-se e não no terreno do agir.

    A supremacia do exemplo, da imolação, da realização interior de uma obra própria que justifica inteiramente a existência, apesar de externamente não se ter feito nada, esse é o ensinamento que almas como São Casimiro, São Domingos Sávio, São Luís Gonzaga e tantos outros, nos trazem à mente. É um aspecto deste sol de santidade que é a Igreja Católica Apostólica Romana.

    Pompa e penitência

    Há ainda um traço interessante na vida de São Casimiro: trajava roupas régias, embora simples, enquanto portava o cilício sob elas. Vemos nisso o equilíbrio do verdadeiro santo. Ele deseja fazer penitência, mas sabe que sua condição lhe impõe o vestir-se com a pompa inerente à sua categoria. E como não é um igualitário, usa todo o necessário para a manutenção de seu estado, sem descuidar da penitência: coloca sobre si um instrumento de sacrifício, mas o leva às ocultas.

    Por fim, uma nota curiosa que pode ser especialmente útil para nós.

    São Casimiro teve dificuldades com seu pai, pois este desejava que ele conquistasse a Hungria, e não compreenderia a recusa do filho alegando um motivo — no juízo do monarca — frívola: o Papa dava razão ao outro e o príncipe seria, portanto, um usurpador.

    Dando provas de muito tato e sabedoria, o jovem santo evitou comparecer de imediato à presença do pai. Retirou-se para um castelo distante da corte, e ali permaneceu durante três meses, até que os ânimos serenassem. Só então retornou.

    Foi um santo apuro e depois um santo ardil, que deve servir de inspiração para todos nós.

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • Vigilância e oração

    “Tomai o elmo da salvação e a  espada do espírito, que é a palavra de Deus; orando continuamente em espírito com toda a sorte de orações e súplicas, e vigiando nisto mesmo com toda a perseverança”, recomenda-nos com inflamada solicitude o Apóstolo São Paulo. Baseado em tal ensinamento, Dr. Plinio nos alenta a enfrentarmos com determinação as provações interiores e exteriores que encontramos em nossa busca da santidade.

     

    Enganam-se os que pensam que o Novo Testamento abriu para nós a era de uma vida espiritual sem lutas. Pelo contrário, São Paulo põe diante de nossos olhos a perspectiva de uma luta incessante do homem contra suas inclinações inferiores, luta esta tão dolorosa que o Apóstolo chega a compará-la ao pior dos martírios, isto é, à Crucifixão:

    Digo-vos pois: Andai segundo o Espírito e não satisfareis os desejos da carne. Porque a carne tem desejos contrários ao espírito, e o espírito, desejos contrários à carne; porque estas coisas são contrárias entre si, para que não façais tudo aquilo que quereis.

    Se vós, porém, sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da lei. Ora, as obras da carne são manifestas, são a fornicação, a impureza, a desonestidade, a luxúria, a idolatria, os malefícios, as inimizades, as contendas, as rivalidades, as iras, as rixas, as discórdias, as seitas, as invejas, os homicídios, a embriaguez, as glutonerias, e outras coisas semelhantes, sobre as quais vos previno, como já vos disse, que os que fazem tais coisas não possuirão o reino de Deus.

    Ao contrário, o fruto do Espírito é a caridade, o gozo, a paz, a paciência, a benignidade, a bondade, a longanimidade, a mansidão, a fidelidade, a modéstia, a continência, a castidade. Contra estas coisas não há lei. E os que são de Cristo crucificaram a sua própria carne com os vícios e concupiscências. Se vivemos pelo Espírito, conduzamo-nos também pelo Espírito (Gal 5, 16-25).

    Velar pelo frágil edifício da santificação

    E com quanto cuidado deve o cristão velar pelo edifício sempre frágil de sua santificação, posto à prova por toda a sorte de provações interiores e exteriores!

    Leiamos este texto: Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a superioridade da virtude seja de Deus e não de nós.

    Em tudo sofremos tribulação, mas não somos oprimidos; somos cercados de dificuldades, mas não desesperamos; somos perseguidos, mas não desamparados; somos abatidos, mas não perecemos; trazendo sempre em nosso corpo a mortificação de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste nos nossos corpos.

    Porque nós que vivemos somos continuamente entregues à morte por amor de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal. A morte, pois, opera em nós, e a vida em vós (2 Cor 4, 7-12). Este último versículo quer dizer que São Paulo morria a si mesmo para dar a vida espiritual aos outros.

    A virtude, de que se fala acima, é a virtude da pregação, isto é, a virtude do apostolado.

    Sem a luta interior não se chega à glória do Céu

    É orgulho ou ingenuidade imaginar que não encontramos terríveis relutâncias interiores: Efetivamente, nós sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido ao pecado. Porque não entendo o que faço; não faço o bem que quero, mas o mal que aborreço, esse é que faço (Rom 7, 14-15).

    Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita o bem. Porque o querer está ao meu alcance; mas não acho o meio de o fazer perfeitamente. Porque eu não faço o bem que quero, mas o mal que não quero (Ibid 18-19).

    Eu encontro, pois, esta lei em mim: quando quero fazer o bem, o mal está junto de mim; porque me deleito na lei de Deus, segundo o homem interior; mas vejo nos meus membros outra lei que se opõe à lei do meu espírito, e que me faz escravo da lei do pecado, que está nos meus membros. Infeliz de mim. Quem me livrará deste corpo de morte? (Rom 7, 21-24).

    É dura esta luta, mas sem ela não se chega a glória: Se (somos) filhos, também (somos) herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo; mas isto se sofremos com ele, para ser com ele glorificados (Rom. 8, 17).

    Só as obras de apostolado, sem a mortificação, não bastam para este fim: Quanto a mim, corro, não como à ventura; combato, não como quem açoita o ar; mas castigo o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que não suceda que, tendo pregado aos outros, eu mesmo venha a ser réprobo (1 Cor 9, 26-27).

    Vigiar e orar continuamente

    Seja, pois, de vigilância nossa vida interior: Aquele pois que crê estar de pé, veja, não caia” (1 Cor 10, 12).

    A conclusão, portanto, não pode deixar de ser esta: Irmãos, fortalecei-vos no Senhor e no poder da sua virtude. Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio. Porque nós não temos que lutar (somente) contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos malignos (espalhados) pelos ares. Portanto, tomai a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau, e ficar de pé depois de ter vencido tudo.

    Estai, pois, firmes, tendo cingido os vossos rins com a verdade, e vestido a couraça da justiça, e tendo os pés calçados para ir anunciar o Evangelho de paz; sobretudo tomai o escudo da fé com que possais apagar todos os dardos inflamados do maligno; tomai o elmo da salvação e a espada do espírito, que é a palavra de Deus; orando continuamente em espírito com toda a sorte de orações e súplicas, e vigiando nisto mesmo com toda a perseverança, rogando por todos os santos e por mim, para que me seja dado abrir a minha boca e pregar com liberdade o mistério do Evangelho, do qual eu, mesmo com as algemas, sou embaixador, e para que eu fale corajosamente dele como devo (Efes 6, 10-20).

    Plinio Corrêa de Oliveira (Transcrito de “Em defesa da Ação Católica”, Editora Ave Maria, São Paulo, 1943, 5ª parte)

  • A CENA DO HORTO SE REPETE…

    Sempre causou profunda impressão em Dr. Plinio o paralelo entre o odioso tratamento recebido por nosso Redentor, durante a Paixão, e as ofensas e ingratidões de que é alvo a Igreja Católica.  Reproduzimos aqui algumas reflexões a esse respeito, escritas em 1947.

     

    A verdadeira piedade deve impregnar toda a alma humana, e, portanto, também deve despertar e estimular a emoção. Mas a piedade não é só emoção, e nem mesmo é principalmente emoção. A  piedade brota da inteligência, seriamente formada por um estudo catequético cuidadoso, por um conhecimento exato de nossa Fé, e, portanto, das verdades que devem reger nossa vida interior. A  piedade reside ainda na vontade.

    Devemos querer seriamente o bem que conhecemos. Não nos basta, por exemplo, saber que Deus é perfeito. Precisamos amar a perfeição de Deus, e, portanto, devemos desejar para nós algo dessa perfeição: é o anseio para a santidade. “Desejar” não significa apenas sentir veleidades vagas e estéreis. Só queremos seriamente algo, quando estamos dispostos a todos os sacrifícios para conseguir  o que queremos. Assim, só queremos seriamente nossa santificação e o amor de Deus, quando estamos dispostos a todos os sacrifícios para alcançar esta meta suprema. Sem esta disposição, todo  o “querer” não é senão ilusão e mentira.

    Podemos ter a maior ternura na contemplação das verdades e mistérios da Religião: se daí não tirarmos resoluções sérias, eficazes, de nada valerá nossa piedade. É o que se deve dizer  especialmente nos dias da Paixão de Nosso Senhor. Não nos adianta apenas o acompanhar com ternura os vários episódios da Paixão: isto seria excelente, não porém suficiente. Devemos dar a  Nosso Senhor, nestes dias, provas sinceras de nossa devoção e amor.

    Estas provas, nós as damos pelo propósito de emendar nossa vida, e de lutar com todas as forças pela Santa Igreja Católica. A  Igreja é o Corpo Místico de Cristo. Quando Nosso Senhor interpelou São Paulo, no caminho da Damasco, perguntou-lhe: “Saulo, Saulo, por que me persegues? ” Saulo perseguia a Igreja. Nosso  Senhor lhe dizia que era a Ele mesmo que Saulo perseguia. Se perseguir a Igreja é perseguir a Jesus Cristo, e se hoje também a Igreja é perseguida, hoje Cristo é perseguido.

    A Paixão de Cristo se repete de algum modo também em nossos dias. Como se persegue a Igreja? Atentando contra os seus  direitos ou trabalhando para dela afastar as almas. Todo ato pelo qual  se afasta da Igreja uma alma, é um ato de perseguição a Cristo. Toda alma é, na Igreja, um membro vivo. Arrancar uma alma à Igreja é arrancar um membro ao Corpo Místico de Cristo. Arrancar  uma alma à Igreja é  fazer a Nosso Senhor, em certo sentido, o mesmo que a nós nos fariam se nos arrancassem a menina dos olhos.

    Se queremos, pois, condoer-nos com a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, meditemos sobre o que Ele sofreu nas mãos de seus algozes, mas não nos esqueçamos de tudo quanto ainda hoje se faz  ara ferir o Divino Coração. E isto tanto mais quanto Nosso Senhor, durante sua Paixão, previu tudo quanto se passaria depois. Previu, pois, todos os pecados de todos os tempos, e também os  pecados de nossos dias. Ele previu os nossos pecados, e por eles sofreu antecipadamente. Estivemos presentes no Horto como algozes, e como algozes seguimos passo a passo a Paixão até o alto do Gólgota.

    Arrependamo-nos, pois, e choremos. A Igreja, sofredora, perseguida, vilipendiada, aí está a nossos olhos indiferentes ou cruéis. Ela está diante de nós como Cristo diante de Verônica. Condoamo-nos com os padecimentos  dela. Com nosso carinho, consolemos a Santa Igreja de tudo quanto ela sofre. Podemos estar certos de que, com isto, estaremos dando ao próprio Cristo uma consolação  idêntica à que Lhe deu Verônica.

    Indiferença para com Deus

    Comecemos pela Fé. Certas verdades referentes a Deus e a nosso destino eterno, podemos conhecê-las pela simples razão. Outras, conhecemo-las porque Deus no-las ensinou. Em sua infinita  bondade, Deus se revelou aos homens no Antigo e Novo Testamento, ensinando-nos não apenas o que nossa razão não poderia desvendar, mas ainda muitas verdades que poderíamos conhecer  racionalmente, mas que por culpa própria a humanidade já não conhecia de fato.

    A virtude pela qual cremos na Revelação é a Fé. Ninguém pode praticar um ato de Fé, sem o auxílio sobrenatural da graça de Deus. Essa graça, Deus a dá a todas as criaturas e, em abundância  torrencial, aos membros da Igreja Católica. Essa graça é a condição da salvação deles. Ninguém chegará à eterna bem-aventurança, se rejeitar a Fé. Pela Fé, o Espírito Santo habita em nossos corações. Rejeitar a Fé é rejeitar o Espírito Santo, é expulsar de sua alma a Jesus Cristo.

    Vejamos, agora, em torno de nós, quantos católicos rejeitam a Fé. Foram batizados, mas no curso do tempo perderam a Fé. Perderam-na por culpa própria, porque ninguém perde a Fé sem culpa,  e culpa mortal. Ei-los que, indiferentes ou hostis, pensam, sentem e vivem como pagãos.

    São nossos parentes, nossos próximos, quiçá nossos amigos! Sua desgraça é imensa. Indelével, está neles o sinal do Batismo. Estão marcados para o Céu, e caminham para o inferno. Em sua alma  redimida, a aspersão do Sangue de Cristo está marcada. Ninguém a apagará. É de certo modo o próprio Sangue de Cristo que eles profanam quando nesta alma resgatada acolhem princípios,  máximas, normas contrárias à doutrina da Igreja. O católico apóstata tem qualquer coisa de análogo ao sacerdote apóstata.

    Arrasta consigo os restos de sua grandeza, profana-os, degrada-os e se degrada com eles. Mas não os perde. E nós? Importamo-nos com isto? Sofremos com isto? Rezamos para que estas almas se  convertam? Fazemos penitências? Fazemos apostolado? Onde nosso conselho? Onde nossa argumentação? Onde nossa caridade? Onde nossa altiva e enérgica defesa das verdades que eles negam  ou injuriam? O Sagrado Coração sangra com isto. Sangra pela apostasia deles, e por nossa indiferença. Indiferença duplamente censurável, porque é indiferença para com nosso próximo e  sobretudo indiferença para com Deus.

    Coincidência ou conspiração? Quantas almas, no mundo inteiro, vão perdendo a Fé? Pensemos no incalculável número de jornais ímpios, rádio-emissões ímpias, de que diariamente se enche o  orbe. Pensemos nos inúmeros obreiros de Satanás que, nas cátedras, no recesso da família, nos lugares de reunião ou diversão, propagam idéias ímpias. De todo este esforço, quem há de admitir que nada resulte? Os efeitos de tudo isto estão diante de nós. Diariamente, as instituições, os costumes, a arte se vão descristianizando, indício insofismável de que o próprio mundo se vai perdendo para Deus.

    Não haverá em tudo isto uma grande conjuração? Tantos esforços, harmônicos entre si, uniformes em seus mé- todos, em seus objetivos, em seu desenvolvimento, serão mera obra de  coincidências? Onde e quando, intuitos desarticulados produziram articuladamente a mais formidável ofensiva ideológica que a história conhece, a mais completa, a mais ordenada, a mais  extensa, a mais engenhosa, a mais uniforme em sua essência, em seus fins, em seu evoluir?

    Não pensamos nisto. Nem percebemos isto. Dormimos na modorra de nossa vida de todos os dias. Por que não somos mais vigilantes? A Igreja sofre todos os tormentos, mas está só. Longe, bem  longe dela, cochilamos. É a cena do Horto que se repete. (…) Incontável falange de almas tíbias E entre nós? Esta Fé que tantos combatem, perseguem, atraiçoam, graças a Deus nós a possuímos. Que uso fazemos dela? Amamo-la? Compreendemos que nossa maior ventura na vida consiste em sermos membros da Santa Igreja, que nossa maior glória é o título de cristão? Em caso  afirmativo — e quão raros são os que poderiam em sã consciência responder afirmativamente — estamos dispostos a todos os sacrifícios para conservar a Fé?

    Não digamos num assomo de romantismo, que sim. Sejamos positivos. Vejamos friamente os fatos. Não está junto de nós o algoz que nos vai colocar na alternativa da cruz ou da apostasia. Mas  todos os dias, a conservação da Fé exige de nós sacrifícios. Fazemo-los? Será bem exato que, para conservar a Fé, evitamos tudo que a pode pôr em risco? Evitamos as leituras que a podem  ofender? Evitamos as companhias nas quais ela está exposta a risco? Procuramos os ambientes nos quais a Fé floresce e cria raízes? Ou, em troca de prazeres mundanos e passageiros, vivemos em  ambientes em que a Fé se estiola e ameaça cair  em ruínas?

    Todo homem, pelo próprio fato do instinto de sociabilidade, tende a aceitar as opiniões dos outros. Em geral, hoje em dia, as opiniões dominantes são anticristãs. Pensa- se contrariamente à Igreja em matéria de filosofia, de sociologia, de história, de ciências positivas, de arte, de tudo enfim. Os nossos amigos, seguem a corrente. Temos nós a coragem de divergir? Resguardamos nosso  espírito de qualquer infiltração de idéias erradas? Pensamos com a Igreja em tudo e por tudo? Ou contentamo-nos negligentemente em ir vivendo, aceitando tudo quanto o espírito do século nos inculca, e simplesmente porque ele no-lo inculca?

    É possível que não tenhamos enxotado Nosso Senhor de nossa alma. Mas como tratamos este Divino Hóspede? É Ele o objeto de todas as atenções, o centro de nossa vida intelectual, moral e  afetiva? É Ele o Rei? Ou, simplesmente, há para Ele um pequeno espaço onde se O tolera, como hóspede secundário, desinteressante, algum tanto importuno? Quando o Divino Mestre gemeu,  chorou, suou sangue durante a Paixão, não O atormentavam apenas as dores físicas, nem sequer os sofrimentos ocasionados pelo ódio dos que no momento O perseguiam. Atormentava-O ainda tudo quanto contra Ele e a Igreja faríamos nos séculos vindouros. Ele chorou pelo ódio de todos os maus, de todos os Arios, Nestórios, Luteros mas chorou também porque via diante de si o cortejo interminável das almas tíbias, das almas indiferentes que, sem O perseguir, não O amavam como deviam.

    É a falange incontável dos que passaram a vida sem ódio e sem amor, os quais, segundo Dante, ficavam de fora do inferno porque nem no inferno havia para eles lugar adequado. Estamos nós  neste cortejo? Eis a grande pergunta a que, com a graça de Deus, devemos dar resposta nos dias de recolhimento, de piedade e de expiação em que vamos entrar agora.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Transcrito do Legionário, nº 764, de 30/3/1947. Título e subtítulos nossos.)

  • Semana Santa

    Sob o peso da Cruz, o Divino Redentor suportava o fardo das nossas fraquezas, padecendo por nós todas as suas dores. Que esta verdade incite a profunda gratidão de nossa alma e nos seja motivo de ilimitada confiança. Pois quem se viu resgatado por preço tão imenso, embora pouco mereça, deve esperar que esse Sangue preciosíssimo se derrame sobre ele para regenerá-lo e salvá-lo, despertando em seu coração o movimento que o reconduza ao caminho da virtude e o leve, finalmente, ao Céu.

  • Semana Santa

    Sob o peso da Cruz, o Divino Redentor suportava o fardo das nossas fraquezas, padecendo por nós todas as suas dores. Que esta verdade incite a profunda gratidão de nossa alma e nos seja motivo de ilimitada confiança. Pois quem se viu resgatado por preço tão imenso, embora pouco mereça, deve esperar que esse Sangue preciosíssimo se derrame sobre ele para regenerá-lo e salvá-lo, despertando em seu coração o movimento que o reconduza ao caminho da virtude e o leve, finalmente, ao Céu.

  • Cântico da fidelidade

    Segundo as revelações de Sóror Maria de Ágreda, na noite do sábado da Paixão, Nossa Senhora “fazia heroicos atos de Fé, esperança, amor, veneração e culto à divindade e humanidade de seu Filho e Deus verdadeiro; com genuflexões e prostrações O adorava, e com admiráveis cânticos O bendizia”.

    Um quadro extraordinário se nos apresenta à imaginação: Maria Santíssima, sozinha no silêncio daquela noite trágica, talvez no próprio recinto onde se realizou a Última Ceia, interrompendo suas preces para cantar as suas reparações ao Criador.

    Ela que entoara o “Magnificat” num momento de gáudio indizível, agora compensava, pelo seu cântico de fidelidade, todas as injúrias e ofensas sofridas por Jesus.

    Cena em extremo tocante, contemplada apenas pelos Anjos: na noite da desolação, o canto da alma mais virtuosa em toda a Terra elevando-se até o Céu…

    Plinio Corrêa de Oliveira