Autor: Nelson

  • São José, Protetor da Santa Igreja

    Modelo de todas as grandes virtudes, São José foi o homem escolhido por Deus para estar à altura d’Aqueles com quem deveria conviver: Nosso Senhor Jesus Cristo e Maria  Santíssima. Apesar dessa insigne missão, pouco se sabe sobre ele, mas a Igreja, dotada de sabedoria, proclama-o seu Protetor e Patriarca.

    Na festa de São José há varias invocações que nós poderíamos considerar. Creio que dessas invocações, depois das que dizem diretamente respeito a Nosso Senhor Jesus Cristo, nenhuma é mais bonita do que a de Protetor da Santa Igreja Católica.

    Da estirpe real de Davi

    Os dados biográficos de São José são muito escassos. Sabemos que ele era da estirpe real de David, era virgem, foi casado com Nossa Senhora. Sabemos que eles mantiveram   virgindade depois do casamento e que ele teve o famoso caso da perplexidade.

    Sabemos também que ele esteve presente no Santo Natal e uma das glórias dele é de, em todos os presépios, até o fim do mundo, naturalmente figurar como um dos personagens essenciais. Sabe-se que ele levou o Menino Jesus e Nossa Senhora até o Egito e de lá voltou, depois há um silêncio sobre ele.

    Se tomarmos em consideração quem foi São José, compreende-se que deve ter sido um dos maiores Santos, e que até não faltam razões para se considerá-lo como o maior Santo de todos os tempos. Há razões para supor que o maior Santo tenha sido São João Batista ou, talvez, São João Evangelista. Em todo caso, há razões muito grandes e muito boas para supor que tenha sido ele, e podemos imaginar que a respeito de um tão grande Santo os dados biográficos os mais emocionantes, empolgantes e edificantes  não poderiam faltar. Ora, vemos que em lugar  de falar a respeito destes dados, e de nos dizer algo a respeito das maravilhas deste Santo, que ocupa um papel tão proeminente na piedade católica, pelo contrário, a Sagrada Escritura nos diz pouco, e muito pouco, e a Tradição também. Como se explica isso?

    A primeira observação que cumpre fazer é que também a respeito de Nossa Senhora, figura não infinitamente, mas insondavelmente superior a São José, também a respeito d’Ela as Sagradas Escrituras dizem muito pouco, talvez até menos que a respeito de São José. Entretanto, sabemos que Nossa Senhora é a obra-prima da Criação e que  depois da humanidade Santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo, ligada à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, por união hipostática e, portanto, já superior a qualquer  cogitação que o espírito humano possa fazer, depois d’Ele não há criatura, e nunca houve ou haverá, que possa sustentar uma pálida comparação com Nosso Senhor.

    Ora, a respeito de Nossa Senhora, por que a Sagrada Escritura diz tão pouco? E por que a respeito destas duas grandes figuras há tal silêncio das Escrituras?

    Pálida ideia da  realidade

    Tenho a impressão que, além das razões indicadas habitualmente, como, por exemplo, a humildade de Nossa Senhora e de São José, que quiseram ficar apagados em louvor  a Nosso Senhor Jesus Cristo e em reparação a todas as provas de orgulho que os homens deveriam dar até o fim do mundo; além dessa razão, que é muito boa, há outra  muito formativa e feita para que compreendamos a índole, o espírito da Igreja Católica: por maiores que sejam as maravilhas  que Nossa Senhora e São José tenham    praticado em vida, aquilo que nós sabemos deles, pelo simples fato de uma ter sido a Mãe do Criador e o outro ter sido o Pai legal de Nosso Senhor Jesus Cristo e Esposo de   Nossa Senhora, isto só nos leva a deduzi-los tão grandes, que nenhum fato concreto praticado na vida daria uma ideia suficiente daquilo que eles foram, porque estão acima  de qualquer ato praticado.

    Tomemos dois fatos notáveis: a perplexidade de São José, a confiança que conservou durante esse momento. A delicadeza com que resolveu o caso, a prova em que a  Providência o colocou, no momento em que ele estava chamado a receber a honra excelsa de ser o Pai legal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Tomem, na vida de Nossa Senhora,  por exemplo, um fato eminente: as bodas em Caná, na qual Ela obteve, pelas orações d’Ela, a antecipação das manifestações da vida pública de Nosso Senhor e fez   com que Ele praticasse um milagre notável como a transmutação da água em vinho, um milagre direto e imediato, para uma família que se sentia provada naquele momento.

    Nossa Senhora praticou ali uma grande ação, mas por maior que seja essa ação, não nos dá uma ideia suficiente de Nossa Senhora. O que nós sabemos d’Ela, sabendo que  Ela é Mãe de Deus, é tão mais do que isso! Assim também São José: algumas coisas dele que nós sabemos, por mais eminentes que sejam, não chegam à altura de quem Ele é.

    Como terá sido o homem que Deus destinou a ser o Pai legal de Nosso Senhor? Porque São José, como Esposo de Maria Virgem, tinha um verdadeiro direito sobre o fruto das entranhas d’Ela, embora não fosse o pai do Menino Jesus. Então, como deve ter sido esse varão, como  Deus deve ter adornado essa alma, como deve ter constituído esse corpo, como deve ter enchido de graça essa pessoa, para que ela estivesse à altura desse papel?

    Ora, se Deus tanto respeitou e venerou Nossa Senhora, quanto não terá venerado ao escolher um esposo adequado a Ela? Porque Ele deve ter feito desse casal o casal  perfeito, no qual o esposo fosse o mais proporcionado possível à esposa.

    O que deve ter um homem para estar na proporção de ser Esposo de Nossa Senhora? É uma coisa verdadeiramente insondável. E qualquer coisa que ele tenha dito, feito, não nos dá ideia de quem ele foi, como nos dá essa simples afirmação: Pai do Menino Jesus e Esposo de Nossa Senhora!

    Ora, ser o Pai do Filho de Deus é a mais alta honra a que um homem possa chegar, depois da honra de ser a Mãe do Filho de Deus, que é, evidentemente, uma honra maior. Quer dizer, ele não só foi nobre porque se casou com Nossa Senhora, mas porque Nosso Senhor o investiu na mais alta função de governo que possa haver na Terra abaixo de Nossa Senhora.

    O exercer uma alta função de governo, de acordo com os conceitos da sociedade tradicional daquele tempo, nobilitava, conferia nobreza. Ora, ser o Pai do Menino Jesus, governar o Menino Jesus e Nossa Senhora é mais do que governar todos os reis e impérios do mundo. Ora, isso não lhe veio só do casamento.

    Deus o escolheu para isso. Compreendemos então a nobreza excelsa que lhe vinha disso.

    Quer dizer, fica acima de todo elogio e de todo feito. Aqui é que entra a coisa bonita: vemos que a Providência quis constituir, a respeito de Nossa Senhora e São José, os  fundamentos de culto com base num raciocínio teológico, porque é o raciocínio teológico que nos pinta o perfil moral destas pessoas excelsas.

    Protetor da Igreja

    Imaginem, agora, o que é ser o Santo Padroeiro da Igreja Católica. Protetor de algo é de algum modo um símbolo daquilo que ele protege. Para conceberem isso precisam imaginar da seguinte maneira: considerem, por exemplo, alguém que é guarda de uma rainha. Essa pessoa, de algum modo, toma em si algo da realeza, e escolhem-se para  ser os guardas da rainha os indivíduos mais capazes, os que tiveram maior coragem, os que nas guerras provaram maior dedicação à coroa.

    Se é uma honra ser guarda da rainha, se é uma honra ser guarda do Papa, a ponto de ele ter uma guarda nobre especialmente constituída de fidalgos romanos para  guardarem a pessoa dele, então, que honra é ser guarda da Santa Igreja Católica! O Anjo da Guarda da Igreja Católica por certo é o maior Anjo que existe no Céu. Porque das  criaturas de Deus nenhuma tem a dignidade da Igreja. Exceção de Nossa Senhora, que é a Rainha da Igreja, ninguém pode se comparar à Igreja Católica. Nem qualquer Anjo, ou todos os Santos considerados cada um separadamente, têm a dignidade da Igreja Católica, porque ela envolve todos os Santos e ela é a fonte da santidade desses Santos, portanto, um Santo nunca pode ter a dignidade igual a da Igreja.

    São José, pelo contrário, tem que ser alguém de tão alto, de tão excelso, que ele, por assim dizer, tem que ser o reflexo da Igreja que ele guarda para estar proporcionado a ela. E nós podemos então considerar que o  “thau” de São José, enquanto co-idêntico com o espírito da Igreja Católica, enquanto sendo exemplar prototípico e magnífico da  mentalidade, das doutrinas, do espírito da Igreja Católica, é um “thau” que só se pode medir por esse outro critério do “thau” dele, que é o fato de ser Esposo de Nossa Senhora e Pai adotivo do Menino Jesus e, portanto, estar proporcionado a Eles.

    Alma excelsa

    Se nós quisermos ter uma ideia da alma de São José, do espírito dele, acho que não encontraremos, eu ao menos não encontrei na minha vida inteira, uma  pintura ou uma escultura que representasse a ele adequadamente. Por exemplo, aqui no nosso oratório, tão a propósito colocado junto ao estandarte, os senhores têm uma  imagem muito boa de São José, que quando foi comprada foi até catalogada.

    Como escultura é muito boa, mas não dá, a meu ver, aquilo que é a alma de São José. Seria preciso imaginar tudo quanto pensamos da Igreja Católica: toda a dignidade, toda a afabilidade, toda a sabedoria, toda a imensidade da Igreja, tudo quanto se pudesse dizer da Igreja Católica e imaginar isto realizado num homem, e então nós teríamos a  fisionomia moral de São José.

    E então eu quisera ver quem seria o artista capaz de compor a face de São José.

    Devemos imaginar pelo menos o perfil moral desse Santo, a castidade de São José, a pureza ilibadíssima dele, e nós devemos nos aproximar dele com respeito, com  veneração e pedir que nos conceda aquilo que nós tanto desejamos receber. Cada um se pergunte a si próprio, num exame de consciência de um minuto, qual é a graça que  quer pedir a São José por ocasião da festa de hoje.

    Graças a implorar

    A primeira das graças a pedir seria a da devoção a Nossa Senhora. Outra é a de refletir tão bem o espírito da Igreja Católica quanto esteja nos desígnios da Providência ao nos ter criado e nos ter conferido o Santo Batismo. Outra graça que poderíamos pedir é a de sermos filhos da Igreja Católica, tendo inteiramente o espírito do Grupo, que é o espírito da Igreja enquanto vivendo numa unidade viva da Igreja onde esse espírito se refrata de um modo particular. Nós podemos pedir a pureza, a despretensão, pedir  tudo, podemos escolher cada uma dessas coisas.

    Podemos pedir todas essas coisas no seu conjunto. Às vezes é bom pedirmos uma coisa só – a graça nos leva a pedir uma coisa só –, às vezes é bom pedirmos tudo, porque há  momentos em que a graça nos leva a sermos audaciosos e a pedir muita coisa ao mesmo tempo.

    Então hoje, na festa de São José, conforme o movimento da graça interior em cada um de nós, devemos pedir alguma coisa a ele. E se não soubermos bem o que pedir, dizer a São José: “Meu bom São José, vede que eu sou meio palerma, dai-me Vós aquilo que eu preciso, uma vez que sequer sei o que me convém!”

    Eu acredito que do mais alto dos Céus ele sorri e dará com bondade alguma graça muito bem escolhida.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 19/3/1969, 19/3/1970 e 19/3/1976)

  • Não durmamos enquanto se renova a Paixão!

    Em suas invectivas ao povo israelita, os profetas do Antigo Testamento eram instrumentos da misericórdia de Deus: seu objetivo era chamar o povo à conversão. De igual forma procederam os Papas ao longo dos séculos. Já as admoestações de Dr. Plinio tinham amiúde por objetivo despertar os católicos para suas obrigações, como se pode ver neste artigo.

     

    Há dois funestíssimos erros, que não raramente lavram entre os católicos brasileiros e que, com extraordinária oportunidade, devem ser desmascarados na Semana Santa.  Como freqüentemente ocorre, esses erros não provêm propriamente de premissas falsas, mas de premissas incompletas. É uma visão parcial e estreita das coisas, que os  provoca. E só uma meditação acurada, feita à luz de considerações naturais ou de argumentos inspirados em motivos sobrenaturais, pode pôr à luz o mau germe que neles se  culta.

    Ineficiência da Igreja diante da crise? O primeiro desses erros consiste em acoimar de ineficiente a ação da Igreja, para a solução da crise contemporânea. […] E [dizem] que, portanto, é preciso apelar para uma outra organização, que, ela sim, salvará a civilização católica.

    Argumentemos. E argumentemos só com a infalível autoridade dos Pontífices. Porque se para algum católico um argumento inspirado nas palavras dos Papas não for suficientemente convincente, é melhor que esse católico estude bem o seu Catecismo, antes de tentar “salvar a civilização”.

    Diz o Santo Padre Leão XIII, e, depois dele, todos os Pontífices o têm repetido, […] que essa crise moral gerou crises econômicas, sociais ou políticas. E só quando ela for    resolvida, serão resolvidos os problemas relacionados com as finanças, a organização política e a vida social dos povos contemporâneos.

    Por outro lado, a solução desse problema moral só pode estar na ação da Igreja, porque só o Catolicismo, armado de seus recursos sobrenaturais e naturais, tem o dom maravilhoso de produzir nas almas os frutos de virtude indispensáveis para que floresça a civilização católica. O que acabamos de dizer é diretamente extraído das Encíclicas. Basta abri-las, para encontrar o que afirmamos.

    Como conseqüência, de duas uma: ou os Papas estão errados, ou devemos reconhecer que só o Catolicismo salvará o mundo da crise em que está mergulhado. Portanto, é  inútil discutir se, no país A ou no país B, os católicos agiram ou não agiram bem. […]

    Se é verdade que só a Igreja pode remediar os males contemporâneos, é só nas fileiras da Igreja que devemos procurar lutar pela eliminação desses males. Pouco nos importa que outros não cumpram o seu dever. Cumpramos o nosso. E, depois de termos feito todo o possível — a palavra “todo” significa tudo, mas absolutamente tudo, e  não apenas “um pouco” ou “muito” — resignemo-nos diante da avalanche que vem. Porque, ainda que pereçam o Brasil e o mundo inteiro, ainda que a própria Igreja seja devastada pelos lobos da heresia, ela é imortal. Nadará sobre as águas revoltas do dilúvio. E é de dentro de seu seio sagrado que sairão depois da tempestade, como Noé da  Arca, os homens que hão de fundar a civilização de amanhã.

    Duas lições, para duas mentalidades erradas

    Mas é aí que não querem chegar certos católicos. Como os [apóstolos antes de Pentecostes], eles só compreendem Cristo sobre um trono de glória. Eles só Lhe são fiéis nos  dias parecidos com o Domingo de Ramos, quando a multidão O aclama e cobre o seu caminho com suas vestes. Porque, para eles, Cristo deve ser um Rei terreno. Deve dominar o mundo constantemente. E se, por algum tempo, a impiedade dos homens O reduzirem de Rei a Crucificado,  de Soberano a Vítima, não mais querem saber d’Ele. […]

    No entanto, Cristo quis passar por todos os opróbrios,todos os vexames, todas as humilhações, mostrando que  a História da Igreja também teria seus Calvários, suas  humilhações, suas derrotas. E que muito mais meritória  era e é a fidelidade no Gólgota do que no Tabor.

    Foi para ensinar a gente assim que Nosso Senhor se submeteu a todas as humilhações, no Calvário. Entretanto, foi para ensinar gente diferente que Ele quis a glória do Domingo de Ramos.

    Há gente de uma mentalidade detestável, que acha absolutamente natural que Cristo sofra, que a Igreja seja vexada, humilhada, perseguida. Gente comodista, “cujus Deus venter est” — “que têm por Deus o seu próprio ventre”, e que pensa que, como a Igreja deve imitar a Cristo, é natural que todos os [seus inimigos] se atirem contra ela e a  façam sofrer. É a Paixão de Cristo que se repete, dizem eles. E enquanto essa Paixão se repete, eles levam sua vida farta e cômoda, nas orgias, nas imundícies, na exacerbação  e todos os sentidos e na prática de todos os pecados.

    Para gente como esta é que foi feito o látego com que foram expulsos os vendilhões do Templo.

    Devemos estar sempre com a Igreja

    Não é verdade que devamos cruzar os braços ante as investidas dos inimigos da Igreja. Não é verdade que devamos dormir enquanto se renova a Paixão. O próprio Cristo  recomendou que seus Apóstolos orassem e vigiassem. E se devemos aceitar os sofrimentos da Igreja com a resignação com que Nossa Senhora aceitou os padecimentos de  seu Filho, não é menos exato que será um motivo de [reprovação] para nós, se nos portarmos ante as dores do Salvador com a sonolência, a indiferença e a covardia de  discípulos infiéis.

    A verdade é esta: devemos estar sempre com a Igreja, “porque só ela tem palavras de vida eterna”. Se ela é atacada, lutemos por ela. Mas lutemos como mártires, até a efusão  e nosso sangue, até o emprego de nosso último recurso de energia e de inteligência. Se, apesar disto tudo, ela continuar a ser oprimida, soframos com ela, como São  João Evangelista aos pés da Cruz. E estejamos certos de que, neste mundo ou no outro, Jesus misericordioso não nos negará o esplêndido prêmio de assistirmos à sua glória  divina e suprema.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Excertos do “Legionário”, nº 236, de 21/3/1937.Título e subtítulos nossos.)

  • Não durmamos enquanto se renova a Paixão!

    Em suas invectivas ao povo israelita, os profetas do Antigo Testamento eram instrumentos da misericórdia de Deus: seu objetivo era chamar o povo à conversão. De igual forma procederam os Papas ao longo dos séculos. Já as admoestações de Dr. Plinio tinham amiúde por objetivo despertar os católicos para suas obrigações, como se pode ver neste artigo.

     

    Há dois funestíssimos erros, que não raramente lavram entre os católicos brasileiros e que, com extraordinária oportunidade, devem ser desmascarados na Semana Santa.  Como freqüentemente ocorre, esses erros não provêm propriamente de premissas falsas, mas de premissas incompletas. É uma visão parcial e estreita das coisas, que os  provoca. E só uma meditação acurada, feita à luz de considerações naturais ou de argumentos inspirados em motivos sobrenaturais, pode pôr à luz o mau germe que neles se  culta.

    Ineficiência da Igreja diante da crise? O primeiro desses erros consiste em acoimar de ineficiente a ação da Igreja, para a solução da crise contemporânea. […] E [dizem] que, portanto, é preciso apelar para uma outra organização, que, ela sim, salvará a civilização católica.

    Argumentemos. E argumentemos só com a infalível autoridade dos Pontífices. Porque se para algum católico um argumento inspirado nas palavras dos Papas não for suficientemente convincente, é melhor que esse católico estude bem o seu Catecismo, antes de tentar “salvar a civilização”.

    Diz o Santo Padre Leão XIII, e, depois dele, todos os Pontífices o têm repetido, […] que essa crise moral gerou crises econômicas, sociais ou políticas. E só quando ela for    resolvida, serão resolvidos os problemas relacionados com as finanças, a organização política e a vida social dos povos contemporâneos.

    Por outro lado, a solução desse problema moral só pode estar na ação da Igreja, porque só o Catolicismo, armado de seus recursos sobrenaturais e naturais, tem o dom maravilhoso de produzir nas almas os frutos de virtude indispensáveis para que floresça a civilização católica. O que acabamos de dizer é diretamente extraído das Encíclicas. Basta abri-las, para encontrar o que afirmamos.

    Como conseqüência, de duas uma: ou os Papas estão errados, ou devemos reconhecer que só o Catolicismo salvará o mundo da crise em que está mergulhado. Portanto, é  inútil discutir se, no país A ou no país B, os católicos agiram ou não agiram bem. […]

    Se é verdade que só a Igreja pode remediar os males contemporâneos, é só nas fileiras da Igreja que devemos procurar lutar pela eliminação desses males. Pouco nos importa que outros não cumpram o seu dever. Cumpramos o nosso. E, depois de termos feito todo o possível — a palavra “todo” significa tudo, mas absolutamente tudo, e  não apenas “um pouco” ou “muito” — resignemo-nos diante da avalanche que vem. Porque, ainda que pereçam o Brasil e o mundo inteiro, ainda que a própria Igreja seja devastada pelos lobos da heresia, ela é imortal. Nadará sobre as águas revoltas do dilúvio. E é de dentro de seu seio sagrado que sairão depois da tempestade, como Noé da  Arca, os homens que hão de fundar a civilização de amanhã.

    Duas lições, para duas mentalidades erradas

    Mas é aí que não querem chegar certos católicos. Como os [apóstolos antes de Pentecostes], eles só compreendem Cristo sobre um trono de glória. Eles só Lhe são fiéis nos  dias parecidos com o Domingo de Ramos, quando a multidão O aclama e cobre o seu caminho com suas vestes. Porque, para eles, Cristo deve ser um Rei terreno. Deve dominar o mundo constantemente. E se, por algum tempo, a impiedade dos homens O reduzirem de Rei a Crucificado,  de Soberano a Vítima, não mais querem saber d’Ele. […]

    No entanto, Cristo quis passar por todos os opróbrios,todos os vexames, todas as humilhações, mostrando que  a História da Igreja também teria seus Calvários, suas  humilhações, suas derrotas. E que muito mais meritória  era e é a fidelidade no Gólgota do que no Tabor.

    Foi para ensinar a gente assim que Nosso Senhor se submeteu a todas as humilhações, no Calvário. Entretanto, foi para ensinar gente diferente que Ele quis a glória do Domingo de Ramos.

    Há gente de uma mentalidade detestável, que acha absolutamente natural que Cristo sofra, que a Igreja seja vexada, humilhada, perseguida. Gente comodista, “cujus Deus venter est” — “que têm por Deus o seu próprio ventre”, e que pensa que, como a Igreja deve imitar a Cristo, é natural que todos os [seus inimigos] se atirem contra ela e a  façam sofrer. É a Paixão de Cristo que se repete, dizem eles. E enquanto essa Paixão se repete, eles levam sua vida farta e cômoda, nas orgias, nas imundícies, na exacerbação  e todos os sentidos e na prática de todos os pecados.

    Para gente como esta é que foi feito o látego com que foram expulsos os vendilhões do Templo.

    Devemos estar sempre com a Igreja

    Não é verdade que devamos cruzar os braços ante as investidas dos inimigos da Igreja. Não é verdade que devamos dormir enquanto se renova a Paixão. O próprio Cristo  recomendou que seus Apóstolos orassem e vigiassem. E se devemos aceitar os sofrimentos da Igreja com a resignação com que Nossa Senhora aceitou os padecimentos de  seu Filho, não é menos exato que será um motivo de [reprovação] para nós, se nos portarmos ante as dores do Salvador com a sonolência, a indiferença e a covardia de  discípulos infiéis.

    A verdade é esta: devemos estar sempre com a Igreja, “porque só ela tem palavras de vida eterna”. Se ela é atacada, lutemos por ela. Mas lutemos como mártires, até a efusão  e nosso sangue, até o emprego de nosso último recurso de energia e de inteligência. Se, apesar disto tudo, ela continuar a ser oprimida, soframos com ela, como São  João Evangelista aos pés da Cruz. E estejamos certos de que, neste mundo ou no outro, Jesus misericordioso não nos negará o esplêndido prêmio de assistirmos à sua glória  divina e suprema.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Excertos do “Legionário”, nº 236, de 21/3/1937.Título e subtítulos nossos.)

  • Proporcionado à Mãe e ao Filho de Deus

    Maria Santíssima é a mais perfeita dentre as meras criaturas. Se tomarmos a soma das excelências de todos os Anjos e homens que já existiram, existem e existirão, não teríamos sequer pálida ideia da perfeição da Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Se Deus foi tão magnificente no predestinar e modelar a Mãe que daria ao mundo o Salvador, e em cumulá-La das mais preciosas graças, não seria menos pródigo no escolher o homem que deveria ser o esposo dessa Virgem e Mãe.

    Um varão tinha de ser considerado proporcionado, por seu amor a Deus, sua justiça, pureza, sabedoria e todas as demais qualidades, a tal Esposa e a tal Filho. Esse homem, escolhido para esposo de Nossa Senhora e pai jurídico do Filho de Deus, foi São José.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 18/3/1967)

  • Consorte da Sede da Sabedoria e pai do Leão de Judá

    Para se ter alguma noção do semblante de São José seria preciso deduzir, à maneira de suposição, o caráter de um homem que esteve à altura de ser o pai d’Aquele cuja Sagrada Face está estampada no Santo Sudário de Turim. Quer dizer, o homem que foi o educador, o guia, o protetor do Senhor daquele rosto impresso no Sudário; um homem da mesma linhagem, parente e esposo da Mãe d’Ele.

    Conceber algo menor do que isso é não ter ideia da extraordinária figura de São José, modelo de fisionomia sapiencial porque consorte da Sede da Sabedoria, do Espelho da Justiça, Maria Santíssima. Modelo de fortaleza, porque pai do Leão de Judá, Nosso Senhor Jesus Cristo.

    A este verdadeiro São José devemos elevar nossas preces, rogando-lhe interceda por nós junto à Virgem Santíssima e a seu Divino Filho, e nos alcance a graça de o imitarmos nas suas excelsas virtudes.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 18/3/1967)

    Revista Dr Plinio 252 (Março de 2019)

  • Encarnação do Verbo: o mistério da Contra-Revolução

    A Festa da Anunciação do Anjo a Nossa Senhora nos convida a admirar este sublime paradoxo: no momento em que a Virgem Santíssima afirmava ser a serva do Senhor, o próprio Deus quis fazer um supremo ato de servidão, de dependência e de escravidão em relação a Ela. Nisto encontramos a perfeição do espírito da Contra-Revolução.

     

    Em seu Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem(1), São Luís Grignion de Monfort tem o seguinte pensamento:

    Os verdadeiros devotos de Nossa Senhora terão uma devoção especial pelo mistério da Encarnação do Verbo, a 25 de março, que é o mistério adequado a esta devoção,…

    Quer dizer, da sagrada escravidão.

    …pois que esta devoção foi inspirada pelo Espírito Santo: primeiro, para honrar e imitar a dependência em que Deus Filho quis estar de Maria, para glória de Deus seu Pai e para nossa salvação; dependência que transparece particularmente neste mistério em que Jesus se torna cativo e escravo no seio de Maria Santíssima, aí dependendo dela em tudo; segundo, para agradecer a Deus as graças incomparáveis que concedeu a Maria, principalmente por tê-La escolhido para sua Mãe digníssima, escolha feita neste mistério. São estes os dois fins principais da escravidão a Jesus Cristo em Maria.

    Um grau de sujeição inimaginável

    O pensamento muito profundo é de que Nosso Senhor, vivendo em Maria durante o tempo da Encarnação, esteve em uma dependência incomparável d’Ela, pois sendo já inteiramente lúcido, ficou, entretanto, completamente dependente, como uma criança no seio materno depende de sua mãe.

    É o maior estado de submissão que se possa imaginar. Uma criança fora do ventre materno tem uma vida própria, liberdade de movimentos, enfim, todo um dinamismo próprio ajudado pela mãe. Mas não vive, propriamente, da vida da mãe. Pelo contrário, a criança que está no seio materno, vive da vida da mãe; em tudo é conduzida e, por assim dizer, circunscrita por ela.

    Como sujeição, é um estado bastante semelhante ao de escravidão, porque neste o escravo renuncia completamente à sua liberdade para ficar inteiramente circunscrito pela vontade de seu senhor. Sua vida, seus atos são para o serviço de seu senhor, seus pensamentos tendem a ele. Assim era Nosso Senhor em relação a Nossa Senhora.

    Aquele que, sendo infinito, criou o universo e a quem o Céu e a Terra não podem conter, foi contido pelas entranhas indizivelmente gloriosas da Santíssima Virgem e teve para com Ela um grau de sujeição inimaginável!

    Em resposta ao “Non serviam” de Lúcifer, o “Amém” do Filho de Deus

    Portanto, quem quiser ser verdadeiro escravo de Nossa Senhora deve venerar de modo muito especial essa miraculosa e insondável sujeição de Jesus a Maria, na qual o infinitamente maior deixou-Se dominar e conter pelo menor, na realização de um plano divino, cuja sabedoria excede a qualquer cogitação humana.

    Por outro lado, este é o mistério da Contra-Revolução, porque se a Revolução é um grande “Non serviam”(2), o mais alto grau de alienação – praticado pelo Filho de Deus em Maria Santíssima – é o mistério que mais esmaga a psicologia, a mentalidade e os falsos ideais da Revolução. Em lugar do “Non serviam” é o “Amém”. Lúcifer bradou: “Não servirei”; Nosso Senhor disse: “Assim seja” a tudo quanto Nossa Senhora quis.

    Exatamente isso dá uma constrição especial no homem de espírito revolucionário, diabólico. Não é apenas ver a Deus servido por sua criatura e, portanto, sendo observada aí uma espécie de ordem de mérito, mas é o próprio Criador querendo obedecer à sua criatura e esta mandando n’Ele. É levar a obediência a um grau que se não soubéssemos, pela Revelação, ter havido a Encarnação, nunca poderíamos imaginar que essa virtude chegaria a tal extremo.

    Se isso deu tanta glória a Deus, a ponto de naquilo que abusivamente poderíamos chamar a História d’Ele – porque Deus é infinito e não tem História – Ele quis que figurasse esse ato de obediência insondável, compreendemos também como a obediência praticada por nós dá glória a Nossa Senhora. Em contrapartida, como a revolta injuria a Maria Santíssima e seu Divino Filho.

    Vemos, assim, até que ponto a Revolução é odiosa a Deus, e isso nos leva a compreender melhor o Inferno, com seus tormentos eternos, o desespero completo, o esmagamento perpétuo do demônio, à vista do fato de que ele atentou contra este princípio: ele deveria obedecer e não quis.

    Certos teólogos dizem que a revolta de Lúcifer deu-se porque lhe foi mostrado o plano da Encarnação e dada a ordem de adorar o Verbo de Deus Encarnado. E por ser um anjo de tão alta categoria, ele não quis e revoltou-se.

    Esta hipótese, que me parece totalmente provável, adquire uma clareza ainda maior se pensarmos no demônio considerando Nosso Senhor Jesus Cristo contido no claustro sacratíssimo de Nossa Senhora e obedecendo a Ela. Ver essa obediência do Verbo Encarnado a uma criatura infinitamente menor do que Deus – por mais excelsa que seja –, e a inferioridade d’Ele em relação a essa criatura, isso deve ter levado ao paroxismo a indignação de Lúcifer.

    A festa da Contra-Revolução

    Nós podemos dizer, portanto, que o dia 25 de março é a festa da Encarnação do Verbo, da escravidão a Nossa Senhora, da Contra-Revolução. É a festa na qual se celebra o espírito de obediência, o amor à hierarquia, à ordem, à dependência, a tudo quanto a Revolução odeia.

    É mais do que concebível que nos preparemos para essa festa por meio de orações especiais para pedir a Nossa Senhora que esse espírito representado pela Encarnação atinja em nós a plenitude desejada por Deus quando nos criou.

    De outro lado, vemos também o espírito mais do que humilde e contrarrevolucionário de Maria Santíssima em face deste mistério. Quando Ela soube que o Verbo Se encarnaria n’Ela, sua reação não foi de Se vangloriar, mas de pronunciar esta frase humílima: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Como se dissesse: “Se Deus quer de mim essa coisa inexplicável, isto é, que eu mande n’Ele, até isso Ele pode exigir de mim. Portanto, se Deus pede o meu consentimento a essa situação inimaginável, por obediência a Ele, n’Ele mandarei! Mas é Ele o Senhor, e a sua vontade, em todas as coisas, eu farei.”

    Como ganha um realce especial, à luz disso, a atitude de Nossa Senhora na Anunciação, dizendo-Se escrava de Deus no momento em que Ele queria fazer um ato supremo de servidão, de dependência, de escravidão em relação a Ela! Encontramos nisto a perfeição do espírito da Contra-Revolução.               v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 16/3/1971)

    Revista Dr Plinio 252 (Março de 2019)

     

    1) Cap. VIII, art. 1, §4, n. 243.

    2) Do latim: “Não servirei.”

  • “Sim!” – e o Verbo se fez carne…

    Em Maria e por Maria é que o Filho de Deus se fez homem para nossa salvação; desceu ao seu seio virginal, qual novo Adão no paraíso terrestre, para aí ter suas complacências; Deus feito homem, encontrou sua liberdade em se ver aprisionado no claustro da Virgem Mãe — afirma o grande São Luís Grignion de Montfort, estabelecendo os princípios de sua luminosa doutrina sobre escravidão de amor a Nossa Senhora.

    De toda a alma aderiu Dr. Plinio a essa devoção mariana proposta pelo Santo, tornando-se um amoroso servo de Maria Santíssima. Seguia, assim, o divino exemplo de Jesus, Quem primeiro se submeteu inteiramente a Ela, durante os nove meses que passou no imaculado claustro materno.

    Por ser o marco inicial dessa admirável dependência, a festa da Anunciação era particularmente cara a Dr. Plinio, sugerindo-lhe tocantes reflexões as quais ele se comprazia em comunicar a seus discípulos. Ouçamo-lo:

    “Encarnando-se no seio de Maria, no momento da Anunciação, Jesus se deu a Ela com um tal amanhecer de alma, com um espírito tão repleto de louçania, que não se tem palavras para descrever a felicidade que nesse dia inundou a pessoa de Nossa Senhora! A geração da humanidade santíssima do Filho de Deus houve de ter sido a maravilha das gerações!

    “Conforme ensina São Luís Grignion, Jesus, considerado o novo Adão, veio ao mundo para reparar o pecado cometido pelo primeiro homem. Ora, assim como este, enquanto permaneceu inocente, viveu em meio aos esplendores do Éden terrestre, também Nosso Senhor teve seu Paraíso — incomparavelmente melhor e mais precioso do que aquele — no ventre virginal de sua Mãe. Durante nove meses, esteve Ele encerrado como num tabernáculo perfeitíssimo, onde encontrava alegrias, belezas e delícias que excedem a qualquer concepção de nosso pobre intelecto. Além disso, numa inefável união de espíritos, o Filho ia revelando à Mãe, a respeito de si próprio, todas as magnificências que fossem cabíveis a uma criatura entender.

    “Nesse indizível convívio, Jesus elevava a alma de Maria a um maravilhoso grau de formosura, tornando-a mais bela e luminosa do que todo o resto do universo. Insondável intercâmbio de afetos, carinhos e atos de amor que teve início no instante do ‘fiat’ bendito.

    “No dia da Anunciação, com o ‘Sim!’ pronunciado pela Virgem de Nazaré, o Verbo se fez carne e habitou entre nós.

    “No dia da Anunciação, a Palavra de Deus raiou para o mundo, aureolada de promessas superlativas, de certeza das esperanças finalmente atendidas: nada menos que o resgate do gênero humano.”

  • Um seminário do Céu

    Dr. Plinio amava de tal modo a Europa que, se para lá viajasse de navio, teria vontade de oscular o solo do cais do primeiro porto europeu onde a embarcação ancorasse,  porque é a única parte do mundo onde o Sangue de Cristo e as lágrimas de Maria geraram uma civilização católica.

    Ao tratar a respeito das belezas da Europa, é preciso evitar dar a ideia de ser um lugar como o Brasil, mas onde há castelos e palácios como Chenonceau, Versailles, ou alguns  existentes ao longo do Reno.

    Pelo menos na Europa de antes da Segunda Guerra Mundial, essas belezas existiam enquanto sendo o ponto alto de toda uma vida comum em que, em ponto menor e de maneiras diferentes, havia também belezas mais singelas.

    Um castelo elevado, nobre, digno

    De maneira que não eram como aquelas montanhas no caminho de Teresópolis que, geograficamente falando, são únicas, saem diretamente do chão. A Europa constituía, por assim dizer, uma “cordilheira” altíssima na qual, para haver os “picos” de que falamos, deviam existir muitas outras elevações na vida cotidiana, mais ou menos naquela  altura, formando, portanto, todo um ambiente, um estilo e um teor de vida de um continente. Por exemplo, assim como há Chenonceau, existem centenas de castelos em  graus menores muito bonitos, casas antigas senhoriais, residências populares e aldeias que, enquanto tais, são superiores à cidadezinha brasileira, como Chenonceau é  superior à mais bonita casa que haja no Brasil. Esse traço é importantíssimo, e sem ele a Europa verdadeiramente não se compreende.

    Então, chegando à casa de um pequeno burguês de Munique que tem pãezinhos de leite, encontrar-se-ão taças para beber cerveja, facas com cabo de chifre de veado, e uma  porção de outros objetos outrora acessíveis a todo o mundo, mas que para os padrões atuais são superiores ao nível comum das pessoas.

    Portanto, tempo houve em que todo o teor da vida era diferente, e a Europa é um continente onde muito disto resta ainda e foi possível ao homem realizar na Terra, não  propriamente um mundo de gostosuras, mas de maravilhas, de coisas arquitetônicas sapienciais capazes de nos falar do Céu e que, por ricochete, também eram agradáveis.

    Muitas vezes, comentam-se belezas da Europa, como o castelo de Chenonceau, dizendo: “Olhe que gostoso estar aqui!”

    Ora, esse aspecto agradável não é um critério profundo. É preciso afirmar o seguinte: “Olhe como é elevado nobre, digno, e como isso engrandece o homem. Não parece até um mundo irreal?!” Esse mundo “irreal” é a imagem do Céu.

    Desejo de realizar a maravilha na Terra Deve-se acentuar que esses são valores religiosos, por causa do aspecto simbólico que tais coisas têm. O Paraíso celeste, considerado na sua realidade material, é um lugar onde Deus fez coisas magníficas para o homem viver imerso num mundo da matéria que lhe fala de Deus, enquanto sua alma goza da  visão beatífica. Tão necessário é ao homem alimentar o seu espírito com Deus, não só na consideração das coisas diretas da Religião, mas a propósito do mundo temporal e  do mundo da matéria, que até no Céu isso vai ser assim.

    Precisamos compreender, portanto, que houve uma virtude, levada pelo europeu medieval a um grau inimaginável, que foi exatamente o desejo de realizar a maravilha na  Terra.

    Aliás, aqueles monumentos gregos tinham isto de interessante: exprimiam o desejo de fazer um Olimpo na Terra. As construções dos gregos são mais feitas para serem habitadas por semideuses do que por homens. Havia  uma certa ideia de fazer um mundo de maravilha. De sorte que a Europa é uma espécie de mito realizado, e que a  Religião Católica elevou a um seminário do Céu.

    A maior maravilha da Europa, por onde propriamente era maravilhosa, não consistia tanto no fruto produzido e deixado por ela, mas no espírito europeu, o contato com as  almas sedentas de maravilhoso, nas quais se sentia muito mais isso do que naquilo por elas realizado, porque o efeito é sempre menor do que a causa. Os homens e a  sociedade que elaboraram essas maravilhas tinham-nas em quantidade enormemente maior do que as coisas por eles deixadas.

    Belezas como fator de santidade

    Por exemplo, a corte de Luís XIV era muito mais fina do que Versailles. São Luís IX era enormemente mais a Sainte-Chapelle do que ela própria. Como também São  Francisco de Assis, incomparavelmente mais que o Eremo delle Carceri, pois o efeito nunca manifesta tudo quanto está dentro da causa. Nessa causa, o efeito existia de um  modo inebriante.

    Então, ao considerar a Europa, trata-se de imaginar as virtudes, as qualidades de alma, o ambiente moral outrora ali existentes.

    Os historiadores, em geral, ressaltam os defeitos e omitem tudo quanto tornava possível a realização, por exemplo, Versailles e tantas outras belezas, que duraram séculos e  ainda se encontram nos dias de hoje. Ora, é claro que havia uma estrutura moral, virtudes, capacidades sem as quais aquilo não seria possível.

    Não se concebe, por exemplo, um nababo que atualmente construa um palácio como o grande Trianon de Luís XIV. Embora custasse incomparavelmente mais barato do que  m arranha-céu moderno, não se construiria, porque havia qualidades de alma que no homem contemporâneo já não existem.

    Devemos, pois, procurar conhecer essa alma e considerar tais belezas como fator de santidade, como atmosfera orientada ao Reino de Maria, e imergir no lado religioso da  questão, porque esse é o aspecto mais profundo.

    Portanto, ver como do Sangue infinitamente precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo, das lágrimas de Nossa Senhora se gerou, pela correspondência à graça, um mundo inteiro apetente disso.

    Teríamos vontade de, chegando à Europa sacrossanta que criou essas maravilhas, beijar o solo do cais do primeiro porto europeu onde nosso navio parasse, porque é a única  parte do mundo onde o Sangue de Cristo e as lágrimas de Maria geraram uma civilização.

    Sem dúvida, o Escorial é muito bonito. Mas que encanto pensar em Felipe II lendo, em um dos salões daquele palácio, uma carta de Santa Teresa! E desfazendo, por exemplo, as manobras de um núncio gordalhão, bonachão, renascentista e contrário à reforma do Carmelo.

    Aqui está o cerne, porque Filipe II era mais Escorial do que todo o Escorial. E Santa Teresa ainda mais, pois ela era o “Escorial” do Céu, enquanto Filipe II era o da Terra olhando para o Céu. Assim nós temos a visualização completa e mais profunda, pois toca no religioso, no sacral, reconhecendo e afirmando que nada é válido, nada é autêntico se não brotar de uma verdadeira visão da Religião Católica, que os santos tiveram nos seus conventos, nas suas Ordens religiosas, enfim, nas instituições da Santa  Igreja Católica.

    É preciso aprender a amar o Paraíso celeste nesta Terra

    Nessa perspectiva, compreendemos que Versailles, por exemplo – nos seus bons aspectos, pois ali nem tudo era bom… –, estava presente na alma de São Luís IX, de São Vicente de Paula, que viveu no tempo de Luís XIII, dos santos que existiram na época de Luís XIV. Porque, em seus aspectos virtuosos, Versailles nasceu da Igreja – receptáculo e fonte de todas as virtudes – e, enquanto tal, tinha de estar contido no espírito, na mentalidade e no modo de ser das instituições e dos homens sagrados, que incutiram naquela gente o espírito católico.

    Essa junção entre a Europa e a Religião Católica me fala à alma até o fundo e é indispensável para compreender a História da Igreja. Desse modo, temos uma visão católica da Europa e uma perspectiva da Igreja meditada em função da obra realizada por ela, o que proporciona um alargamento da própria visão da Esposa de Cristo.

    O erro dos que não aceitam essa visão é querer para esta Terra uma espécie de “visão beatífica”, a qual é o contato com a Igreja sem essa espécie de “paraíso celeste”, a Civilização Cristã. É fundamentalmente errado conceber uma religião desligada dessa modelação celeste da Terra, quando no próprio Céu vamos ter um quadro  material    que sustenta a natureza humana, por causa da psicologia e da estrutura do homem.

    Alguém poderia me objetar: “Mas o puramente celeste não é mais alto do que o terreno?”

    Eu respondo: é evidente que é. Basta falar em celeste para o terrestre ficar como que pulverizado, não precisa dizer mais nada. “Então por que o senhor se inebria com essa junção?”

    Porque é por meio dela que eu tenho a inteira perspectiva do celeste, que é o inebriante; aí está a questão. Mesmo no Céu, sem a junção entre os dados do Paraíso celeste e a  visão beatífica, não teríamos tudo quanto nossa natureza pede para contemplar a perfeição de Deus. Em última análise, o Paraíso celeste é necessário, e é preciso aprender a  amá-lo na Terra.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência provavelmente de 1969)

  • “O rei e o menino”: a beleza da vocação

    Como já vimos de outras vezes, Dr. Plinio servia-se amiúde de metáforas para explicar a seus jovens ouvintes as realidades profundas da vida do católico, à luz das verdades da Fé. Através da parábola narrada a seguir, faz-nos ele compreender a importância de um dos momentos mais decisivos na existência do homem sobre a Terra: aquele em que recebe o chamado de Deus, a vocação. Acompanhemos a linguagem clara e simples de Dr. Plinio descortinando o fascinante tema da voz divina a ressoar nas almas, convidando-as a seguir um caminho sublime e, não raro, semeado de provações…

     

    Imaginemos um monarca que passeia de automóvel pela capital de seu reino. Viúvo, cujo filho único e herdeiro morreu ainda criança, o resto de sua família se extinguiu sem descendência e, portanto, não há quem dê continuidade à dinastia. Entretanto, por uma dessas coincidências existentes na natureza, reside na mesma cidade um menino que, embora de traços fisionômicos semelhantes aos do falecido príncipe, não tem com a casa real nenhum parentesco.

    O encontro com outro possível herdeiro

    Quando o carro do soberano se detém num cruzamento, os olhos dele recaem sobre aquele menino a atravessar a rua, e o rei, impressionado pela semelhança com o ex-herdeiro, manda chamá-lo. O garoto, ao mesmo tempo surpreso e maravilhado, aproxima-se timidamente e pergunta:

    — Majestade: em que posso servi-lo?

    — Sente-se ao meu lado, quero conversar com você.

    O trânsito engarrafado não permite que o automóvel se desloque. O rei indaga do menino sobre seus estudos, sua família, trabalhos. Durante esse tempo, o menino não pensa em si, mas apenas no soberano. Este não observa o movimento das ruas e presta atenção somente no menino. Percebe que ele inspira boas esperanças e poderia ser adotado como seu filho.

    Despedindo-se do jovem, o monarca lhe diz:

    — Esteja às tantas horas no meu palácio com seus pais. Desejo conversar com os três.

    O menino é adotado pelo rei

    No momento aprazado, os três comparecem. São pessoas modestas, maravilhadas diante dos esplendores da residência palacial, entre as quais transitam com encanto e receio. Pisam sobre um tapete persa, e o marido diz à mulher:

    — Que tapete magnífico! Parece até com o da casa do subprefeito de nosso distrito, que pertenceu ao xá da Pérsia e foi comprado num antiquário…

    Após vários deslumbramentos, chegam à presença do rei. Este os recebe com extrema bondade, põem-se a conversar, e à certa altura o soberano diz:

    — Desejo que este menino seja meu herdeiro. Se consentirem, eu o adotarei como filho e o educarei para as funções régias. Quando eu morrer, será o novo monarca, e vocês terão a honra que jamais imaginaram: tornar-se-ão pais do rei.

    O casal possuía uma prole numerosa, e já não sabiam o que fazer com tanta criança dentro de casa. Estupefatos com a proposta do rei, pensam:

    “Teremos um filho tão bem instalado! Que alto negócio! Depois, receberemos torrentes de dinheiro para educar de modo conveniente os outros e assim todos farão carreira promissora. Além disso, ganharemos um prestígio sem nome no bairro onde moramos. Ao chegarmos em casa e nos perguntarem pelo menino, poderemos responder:

    “— Está no Palácio real. Ele agora é filho do rei.

    “— Como?! Filho do rei?!

    “E contaremos toda a história. Que ótimo negócio!”

    Contentíssimos, aceitam a proposta do soberano e se retiram.

    Sinceridade e gratidão submetidas à prova

    Sobrevém a noite e o rei ordena aos seus mordomos:

    — Levem o menino para o quarto de dormir de meu falecido filho. Está tudo preparado, vistam-no com aquelas roupas, ofereçam-lhe os alimentos que desejar, sirvam-no como o faziam ao príncipe. Quero que ele seja beneficiado com toda a largueza da munificência real.

    O menino vai sendo educado, torna-se moço e convive de modo perfeito com o rei. Tudo corre com normalidade, porém no espírito do monarca nasce uma interrogação: “Esse menino me quererá verdadeiramente bem? Ser-me-á agradecido pelo que recebe de mim? Tornar-se-á digno de um dia dirigir meu reino? Ou é um ingrato que me agrada por interesse momentâneo, e, no fundo, não me tem sincera amizade? Para conhecer as respostas a essas indagações, vou submetê-lo a uma dura prova, pois se não o fizer, minha generosidade pode significar grande estultice. Mas, se corresponder às esperanças nele depositadas, dar-lhe-ei coisas ainda melhores e mais abundantes”.

    O rei chama o jovem e lhe diz:

    — Nossa situação parece maravilhosa. Você tem a certeza de herdar um trono. Portanto, posição magnífica o aguarda. Porém, precisa se preparar, pois a vida é feita de surpresas, e a História apresenta vários exemplos de reis que foram inesperadamente depostos do poder. Eis aqui um livro sobre monarcas destronados. Estude-o para conhecer o papel da traição na queda dos reis e aprender como a condição de soberano, embora firme na aparência, é de fato instável e mutável. Após esse estudo, você será examinado. Veja a vida em cor séria e compreenda o esforço necessário para se manter como rei. Se for mole, o monarca perde o trono e o poder.

    Exerço a realeza há muitos anos. O povo me obedece, é verdade, mas que vigilância preciso ter! As coisas não são fáceis. Se o encargo de rei lhe parecer por demais árduo, dar-lhe-ei dinheiro para você seguir a profissão de seu pai, montar uma lavanderia maior e prosseguir na existência tranquila de um qualquer. Porém, não será rei, nem desfrutará das honras e glórias da condição régia. Você se enfurnará no anonimato. O anônimo: que homem feliz! A quem ninguém ama nem odeia. Possui dinheiro para subsistir e leva uma vida sossegada.

    Você já pensou nas vantagens do anonimato? Passeie um pouco pelas ruas, observe os moços de sua idade, felizes nos seus automóveis, levando a existência agradável e sem incômodos dos homens abastados e desconhecidos.

    Você, não! É um príncipe, e deve proceder como tal, em quaisquer circunstâncias. Os olhos de todos estão voltados para sua pessoa. Ainda ontem o criticavam pelo simples fato de brincar com os dedos enquanto conversava. Não é atitude permitida ao herdeiro do trono. Já pensou na vida dura que terá?

    Meça o peso do fardo que cairá em suas costas. Receberá honras e riquezas, mas utilizá-las com desapego é como carregar um rochedo pela vida inteira. É o meu caso.

    O menino pensa um pouco e responde:

    — Obrigado! Vou ler o livro…

    A resposta errada

    Terminado o prazo estipulado para o estudo, o rei manda chamar o menino e lhe pergunta:

    — Leu a obra?

    — Sim, li.

    — E a que conclusão chegou?

    — Não pensei que exercer a realeza fosse tão difícil, pois conhecia apenas uma faceta dela. Porém, acredito que, sendo tantas as vantagens, vale a pena carregar o fardo. No total, prefiro herdar o trono. Desejo ser rei!

    O monarca diz:

    — Não é a resposta correta que esperava de você. Dou-lhe mais um prazo para pensar. Se, por fim, responder como deve, merece reinar. Do contrário, perderá seus direitos, porque ficaria demonstrado a nulidade de tudo que fiz por você.

    Tendo acabado de declarar sua intenção de ser rei, o jovem vê seus planos caírem subitamente por terra. Como poderia encontrar a resposta adequada, sozinho, pois que lhe estava vedado consultar qualquer pessoa?

    — Nesse período — dissera-lhe o rei — você estará proibido de conversar com quem quer que seja, assim como de se ausentar do palácio. Descubra a resposta correta. Quero ver que espécie de sentimento você guarda no fundo da alma.

    A resposta perfeita

    Estaria o monarca agindo bem, ao tratar o jovem dessa forma?

    Sim, seria o normal. Ponha-se cada um na posição do rapaz. O que responderia ao rei?

    A resposta perfeita seria a seguinte:

    — Meu senhor e meu pai. Não me importa saber o que acho agradável e sim como vos poderei retribuir por tudo o que fizestes por mim. Se vos ampararei na vossa velhice; se, quando assumir o trono, terei bastante amor à altivez, à glória, à elevação dos princípios, à civilização cristã, a Nosso Senhor Jesus Cristo e à Santíssima Virgem, de maneira que eu faça do meu “métier” de rei um serviço de Deus. Houve tantos santos entre vossos antepassados! A capela do palácio é consagrada a São Luís IX. Nesta sala tendes uma imagem de Santo Henrique, imperador do Sacro Império e também vosso ascendente. Tudo isto ameaça se extinguir em vós porque vosso único filho faleceu. Cabe a mim a glória de dar continuidade a essa linhagem e não permitir que o fio se interrompa.

    Meu pai e meu senhor: não me interessa saber se levarei uma vida gostosa e sim se estarei à altura dessa missão. Ensinai-me a ser cada vez mais piedoso, mais dedicado a vós, que sois a mão de Deus para mim. Quero a felicidade, mas sobretudo para o momento em que eu expirar e, comparecendo diante do Altíssimo, puder exclamar: “Senhor, vós me destes o ser e um pai adotivo me outorgou a realeza a qual aceitei para vossa glória. Dediquei-me totalmente a ele, pois assim o fiz por Vós, Criador de todas as coisas. Não temo encontrá-lo na vossa corte celestial, aonde ele me precedeu, porque sei que, pousando sobre mim seu olhar amoroso, dirá: ‘Meu filho, agora mais filho meu do que nunca, senta-te à minha direita! Vamos contemplar juntos a Deus, o Senhor dos senhores, o Rei dos reis, que domina todos aqueles que exercem domínio’”.

    E o jovem, correspondendo às expectativas do monarca, deveria acrescentar:

    — Posso sofrer muito, ser mal compreendido, perseguido, destronado. Posso, pelo contrário, ser glorificado, aclamado, tornar-me célebre. Pouco importa! O caminho que devo trilhar é o do dever, da gratidão a vós e do serviço de Deus.

    Após dar essa resposta, o moço se retira da sala e o rei diz a si mesmo: “Minha dinastia renasceu!”

    Segunda provação: a indiferença real

    Prosseguindo em nossa metáfora, imaginemos que em determinado momento o rei decide sujeitar este filho a outra prova. Passa a fingir que já não lhe demonstra a mesma amizade, não o compreende bem. Olha-o com indiferença, até com certa distância. Concede-lhe audiências curtas, presta-lhe pouca atenção, evita-o em favor de outras coisas menos importantes. Chega a ponto de conversar com terceiros, na presença dele, sobre reis viúvos e sem filhos que casaram novamente, tiveram prole e asseguram sua descendência. “Quem sabe eu sigo o exemplo deles, contraio outras núpcias e tenho um herdeiro do meu próprio sangue?”

    O menino adotado sente-se rejeitado, mas pensa:

    — Recebi tanto dele! Ainda que me tire tudo, eu o servirei a vida inteira!

    E ele passaria por essa segunda prova, ainda mais cruel que a anterior.

    Terceira e última provação

    Contudo, o soberano precisava de uma derradeira demonstração de fidelidade da parte do menino. Certa madrugada, manda acordá-lo e trazê-lo à sua presença:

    — Preciso incumbi-lo de uma missão perigosa e confidencial. Em país distante há um preso que espera essa mensagem minha. Você terá de viajar para lá, dizer que é meu filho, deixar-se prender e, conduzido ao mesmo cárcere, transmitir o meu recado à pessoa em questão.

    O jovem, embora surpreso, não hesita em responder:

    — Meu senhor e meu pai. Se me permitirdes de vos tratar ainda dessa maneira, minha vida é vossa!

    O rei então acrescenta:

    — Não sei quanto tempo o manterão encarcerado. Pode levar anos. Se, estando lá, ouvir dizer que me casei e tive um filho, reze por mim e por este, pois será o sucessor do trono.

    O rapaz diz:

    — Meu senhor e pai, farei isso com todo o empenho. A que horas devo partir, com quem devo falar? Dai-me vossas ordens.

    Responde-lhe o rei:

    — Você tem uma hora e meia para estar pronto e sair. Já tratei muito com você e o conheço bem. Diga-me rapidamente até logo e vá embora!

    O rapaz se inclina e se retira.

    Na hora exata, ele se apresenta disfarçado diante dos guardas do palácio, pois, conforme as instruções do soberano, ninguém deveria saber de sua partida. Mas, para a surpresa do jovem, os sentinelas o impedem de sair, dizendo-lhe: “O rei ordena que volte para seu quarto!”

    Ele retorna e o monarca o acolhe com transbordamentos de agrado.

    Estava assegurada a sucessão do trono nesse reino mítico e maravilhoso…

    Analogias com a vocação

    Essa metáfora se aplica à história de cada um de nós que recebeu o chamado para seguir as vias de uma determinada vocação. Por exemplo, à do nosso movimento. Não nos convidou a ele um simples rei, mas alguém com brilho insondavelmente maior: Maria Santíssima, Rainha do Céu e da Terra. De modo semelhante ao do rei imaginado, por vontade divina Ela nos escolheu para servi-La de maneira muito especial.

    Qual era a vida de cada um de meus ouvintes antes de pertencer à nossa família de almas?

     Fomos chamados em circunstâncias as mais diversas. Se procedemos de um ambiente que preparou nossa vocação, quanta graça a Providência nos concedeu nesse sentido, dispondo que tudo favorecesse a aceitarmos esse convite. Se, pelo contrário, viemos de um meio adverso, quanta misericórdia do Criador, ao olhar para o lugar em que crescemos e dizer: “Aqui escolherei um filho, um príncipe!”

    A graça passou a latejar em nós

    Sem sabermos, iniciaram-se movimentos no interior de nossas almas. Um senso moral mais vivo nos fez estranhar os procedimentos pouco recomendáveis que presenciamos neste ou naquele ambiente, e passamos a desejar as atitudes virtuosas contrárias ao que nos aborrecia. A graça latejava em nossos corações, dizendo-nos: “Que coisa péssima! E que linda, tal outra! Como são belos tais monumentos da Cristandade, tal música, tal época do passado! Como seria bom se o que há de errado no mundo moderno se consertasse!”

    Começou a surgir em nossa alma a oposição ao mal.

    Assim, cada um de nós foi chamado. Em diferentes cidades, Estados, condições de vida e, às vezes, até no fundo de uma queda moral. Caiu… e em determinado momento teve horror de si mesmo. Era Deus falando no interior da sua alma, chamado-o para amá-Lo. 

     

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Continua em próximo número.)

    Revista Dr Plinio 96 (Março de 2006)

     

  • Oração para a Semana Santa

    Jesus é depositado no sepulcro. Na aparência, é o fim, tudo está acabado… Na realidade, em breve tudo começará a renascer.

    Junto a Vós, ó Refúgio dos Pecadores, os Apóstolos começam a chorar seus pecados. Logo virão a Ressurreição, a Ascensão e Pentecostes!

    Quanto mais vitorioso parece o demônio, mais próxima está a vossa vitória.

    Nestes dias em que, pelo atrativo de uma liberdade mal compreendida, está-se chegando a um assombroso desregramento dos costumes, ao caos na cultura e à anarquia nos países, dai-me, ó Mãe, uma fé firme nas promessas que fizestes em Fátima, uma esperança abrasada de que elas não tardam em se cumprir, uma certeza da derrota da Revolução e da instauração de vosso Reino. Amém.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira