Autor: Nelson

  • O mistério da vida… – II

    Na sequência de sua exposição sobre o mistério que a vida representa, Dr. Plinio demonstra como ela se torna mais rica à medida que se individualiza. Porém, é quando a contemplamos no homem que ela atinge seu auge. Dotado de razão, o homem conhece, pensa, ordena, quer, ou não quer, sendo assim capaz de conhecer o que nunca verá nesta vida: a alma humana.

     

    Subamos agora para outro patamar — há ainda outros dois a transpor —, que é o reino animal, no qual há algumas características que merecem a nossa atenção.

    Superioridade do reino animal em relação ao vegetal

    O animal, dotado de sensibilidade, deixa-se atrair pelas coisas que lhe são favoráveis e foge das que lhe são contrárias; ele tem mobilidade.

    Nisso, ele tem uma possibilidade de ser. No sentir, que é uma forma de conhecer, possui outra possibilidade de ser. No mover-se essa possibilidade de ser se completa. Um animal capaz de sentir, mas incapaz de mover-se seria um ente mal construído, uma monstruosidade. Porque, sentindo, ele quer fugir ou avançar. Se não pudesse mover-se, do que lhe adiantaria a sensibilidade?

    Por outro lado, imaginemos um animal que fosse capaz de mover-se, mas não tivesse sensibilidade. Ele giraria a esmo e seria um pobre miserável. Quer dizer, há no animal um grau de vida superior àquele existente na planta.

    E com seu grau de vida, dir-se-ia que o vegetal já é tão “feliz”. Às vezes, olhamos para certas árvores e notamos que elas ficam balouçando devido à brisa; temos a impressão de que estão brincando, matando o tempo.

    Ou então alguns raios de sol incidem sobre uma planta, sobretudo quando não é meio-dia — não é o sol que queima, mas tonifica —, parecendo-nos que ela adquire uma plenitude. E, depois de certas chuvas, temos a impressão de que a natureza respira.

    O animal faz muito mais do que isto: ele tem notícia. Para evitar confusão com o espírito humano, São Tomás prefere não dizer “conhece”, mas “tem notícia”. A expressão é admiravelmente precisa.

    Se avançar alguma coisa rumo a um animal, ele tem notícia e se move. Mais ainda, é capaz de intimidar, por exemplo, rugindo; de deslumbrar, cantando; de atrair. Ele tem mil meios de ação sobre aquilo que não é ele, mas proveniente de seu movimento, de um princípio de vida, que pode, domina, combate mais e tem mais relação com o exterior.

    A combatividade refletida no leão

    A pedra é puramente passiva, não combate. Da pedra lançada por David contra Golias, não posso dizer: “Ó pedra guerreira!” Guerreiro foi David. Aquilo foi um pedaço de matéria que feriu a fronte de Golias e o jogou no chão.

    De um vegetal, de algum modo pode-se afirmar que ele é batalhador. Certas plantas resistem aos ventos, com ar de superioridade, de indiferença. Os cedros do Líbano, que duram séculos, em montanhas onde neva, atravessam invernos e verões, indiferentes a tudo e vencem. Eles realizam como que um combate.

    Mas o combate da planta não é praticamente nada, em comparação com o combate do leão. O leão dirige, avança, conquista, protege a leoa e os leõezinhos, mas não vai à cata de nada. A leoa é que procura comida e leva para ele.

    Quando aparece o combate, a horda leonina vai para trás e ele toma a dianteira.

    Vemos assim que, dentro da ordem leonina, há uma diferença não mais de grau de vida, mas de estilo de vitalidade. Poder-se-ia dizer algo de parecido com relação às plantas, entretanto é muito mais evidente e fácil de exemplificar nos animais. Uma é a vitalidade, quer dizer, o estado e o tipo de vida, do animal jovem, depois na idade madura e por fim quando velho.

    Certos animais, ao sentirem que o seu ciclo terminou, se retiram ao isolamento e se deixam morrer. A bobina foi desfiada inteira e não há outra coisa para fazer; deitam-se e morrem. Existe a diferença de tipo de vitalidade entre o macho e a fêmea. Esta é feita para as tarefas menores e delicadas; aquele para os trabalhos pesados.

    O leão é majestoso e deixa insinuado ser mais nobre combater do que qualquer outra coisa. É o rei e governa, assegurando a tranquilidade e a sobrevivência para todos. Ele é servido. São coisas que apontam para a ordenação do pensamento, para uma sistematização rica em conceitos.

    A vida é mais rica na medida em que se individualiza

    Comparando uma pedra com outra pedra, uma grama com outra grama e um leão com outro leão, notaremos que cada um é mais ele mesmo em relação ao outro, em escala ascendente.

    Se dermos forte pancada num cristal, ele se decompõe num mundo de cristaizinhos. No que cada um destes é diferente do outro? Há certa alteridade, mas que alteridade pequena!

    Com as gramas, ocorre algo diferente. Cada uma tem sua dose de vida — se assim se pudesse dizer —, sua possibilidade de duração, de resistência, de crescimento, que não é a da grama vizinha, cujas raízes muitas vezes se interpenetram. Ela é mais ela mesma em relação à outra; está mais separada.

    O animal é ainda mais outro em relação ao outro. Entre um leão e outro, ou entre um leão e uma abelha, ou um colibri, que diferenças fenomenais! Há espaços interestelares entre um ser e outro, de tal maneira esse ser é grande. A vida, portanto, é mais rica na medida em que ela individualiza, vai dando ao ser uma capacidade de conhecer, de agir; ela diferencia um ser do outro, torna um ser mais ele mesmo em relação ao outro. Isso é uma grandeza porque o define mais, traça mais os limites e com isso torna um ser mais esplêndido.

    Grandeza incalculável da natureza humana

    Passamos agora para um grau mais alto de vida, o que está em nós e enche este auditório.

    Temos a glória de sermos homens, criados por Deus com a mesma natureza humana de Nossa Senhora e  de Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Isso, de uma grandeza incalculável, é para nós um título de nobreza muito maior do que pertencer a qualquer família imperial ou real. Somos irmãos, na carne puríssima da Virgem Maria, de Nosso Senhor Jesus Cristo. A carne de Cristo é a carne de Maria; não entrou outro fator para a geração da carne de Cristo senão a carne de Maria e o Divino Espírito Santo. A Santíssima Virgem foi concebida sem pecado original, mas é descendente de Adão e Eva. Somos descendentes de Adão e Eva. Isto para nós é uma glória enorme.

    Almas “asfálticas”: um produto das grandes cidades modernas

    Se todo mundo que habita as grandes cidades modernas tivesse a noção do que é a dignidade de ser homem, essas cidades seriam menos animalescas e mais dignas do que são. O que mais arrasa na cidade moderna não é o trânsito, o movimento, a poluição, mas as almas “asfálticas”: cada alma se sente tão pouco outra, diferente, e tão pouco digna quanto um milímetro de asfalto em relação a outro milímetro de asfalto. Tenho a impressão de que elas estão contidas numa mesma massa homogênea, sem esplendor nem beleza e nem vida. Entretanto, foram criadas para serem diferentíssimas e se amarem na sua diferença; e fazer dessa diferença uma ordem, uma harmonia e uma alegria. E o mundo moderno as vai degradando, tornando-as cada vez mais animalescas e parecidas. O pior odor das cidades modernas, a meu ver, é exatamente esse odor animalesco que se exala do homem, quando ele não é tão alma quanto pode e deve ser. Isso para mim é o que a cidade moderna tem de mais repugnante, e mais me desagrada.

    O que somos nós? Somos antes de tudo minerais, vegetais e animais. Quer dizer, as três naturezas coincidem em nós; somos uma síntese. Mas por cima disso e dentro disso, não como um fator extrínseco, mas como elemento mais nobre e mais interno, temos uma alma espiritual, a qual nos dá uma possibilidade de fazer uma coisa que o animal não possui: nós pensamos.

    O animal tem notícia; nós somos capazes de analisar, classificar e definir o que conhecemos. Temos capacidade de conceber em abstrato e, portanto, também de imaginar coisas que não são.

    Tudo isso nos dá um poder e uma grandeza em face das coisas, que eu os comparo da seguinte maneira.

    Muitas pessoas conduzem suas vidas como animais

    Imaginemos uma cadeira, na qual é criado o mais fino, sedoso e bonito dos gatos angorás. O gato conhece a cadeira porque sobre ela há uma almofada, e toda noite ele dá um pulo e dorme na almofada.

    De tal maneira a conhece que, se na hora de ele dormir não houver a cadeira, mas só a almofada, é possível que ele se ponha a miar. É a estranheza que ele manifesta porque a cadeira costumeira não está naquele local. Mas o gato angorá nem sabe o que é uma cadeira. Ele não sabe nada, tem apenas hábitos.

    E para termos uma ideia, aliás, imperfeita, do que é um bicho, imaginemos um homem anestesiado, numa sala de operação. Ele tem os movimentos reflexos de uma pessoa que sente, mas não tem conhecimento de nada. Cessado o efeito da anestesia, ele sabe o que lhe aconteceu por causa da dor atual. Se a dor desaparecesse durante a operação, estando anestesiado, ele nem suspeitaria que tivesse dor. Poderíamos comparar um animal a um homem anestesiado no primeiro instante de seu ser e cuja anestesia durasse até ele morrer.

    Há muita gente que faz da vida animal o fim desta existência. Querem a vida do anestesiado e não compreendem a vida do “lumen” da razão.

    Diferenciar e conceber em tese os objetos: obra-prima da inteligência humana

    O homem conhece a cadeira. Se um homem, estando em pé, vê um outro sentado numa cadeira, ele já sente o repouso que o outro ali experimenta. Depois ele conhece uma série de outras cadeiras e, sem trabalho nenhum, mas por um seletivo interno soberbo que faz dele um filósofo, efetua várias diferenças: cadeira com tripé, com quatro pés, de braços, com ou sem espaldar.

    Posteriormente ele elabora a obra-prima de tudo isso: cadeira em tese. E a define: móvel destinado a acolher o homem sentado. Está assim concebida uma ideia que vale para todas as cadeiras possíveis e imagináveis. Para ser cadeira, tem que servir para o homem sentar, do contrário não é cadeira. E a inteligência do homem voa até lá.

    Alguém poderia dizer: “Muita gente não sabe definir assim.” É verdade, mas todo homem sabe o que é uma cadeira. De maneira tal que, se lhe apresentarmos um banco e afirmarmos: “Senta nessa cadeira”, ele dirá: “Não, eu vou sentar-me nesse banco.” As pessoas não conseguem definir porque não têm instrução, não possuem o instrumento verbal, mas elas sabem o que é. Elas diferenciam. Quer dizer, elas conhecem e, portanto, fazem a obra-prima. As mais dotadas, mais inteligentes, imaginam os grandes móveis em que o homem pode estar sentado: um trono, uma cátedra ou um faldistório episcopal.

    As pessoas podem imaginar miríades de assentos diferentes, conforme as utilidades e as situações daquele que está sentado. Por exemplo, banquinho dos réus: frustro, pequeno, balouçante, incerto, que serve para o réu tremer em cima.

    A cátedra do juiz é uma poltrona alta, repousada, segura, dignificante, onde ele dispõe segundo a lei do destino do réu que está diante dele. Como o seu trabalho é nobre e sobre o juiz não pesa nenhuma suspeição, ele é cercado de uma atmosfera de honra; por isso sua cadeira é esculpida, sólida, grande. E na hora em que o empregado fizer a limpeza, ele vai espanar com mais cuidado a cátedra do juiz. E, se houver tempo, limpará também o banquinho dos réus.

    Helen Keller, tendo apenas o sentido do tato, chegou a fazer conferências públicas

    São operações do espírito humano. Conhecemos as coisas através dos sentidos, e nada há em nossa inteligência que não tenha passado pelos sentidos. Um homem que não tivesse nenhum dos sentidos seria incapaz de conhecer qualquer coisa.

    Helen Keller, se não me engano, nasceu apenas com o sentido do tato(1). E alguém, com muito cuidado, conseguiu através do sentido do tato manter comunicação com ela. Por exemplo — estou fazendo suposições —, traziam comida e a instrutora dava três pancadas. E sempre que recebia três pancadas, ela sabia que vinha uma refeição. Assim, com outros sinais táteis, e com uma paciência enorme, a professora conseguiu dar a Helen Keller toda uma linguagem, uma descrição do Universo, apenas através do sentido do tato.

    Ela trabalhou tanto com isto que aprendeu a falar. Sem ouvir a própria voz, e tomando contato com o mundo somente pelo tato, fez conferências públicas.

    Esteve em São Paulo e pronunciou uma conferência no Teatro Municipal. Um conhecido meu assistiu a essa conferência, e contou-me ter ficado muito impressionado ao ver aquela mulher falando ao público, apenas sentindo o chão sob seus pés; em torno dela o vazio.

    Mas estava construída em sua mente a ideia do que é um teatro, e ela fez o histórico de como, passo a passo, foi sentindo o mundo exterior e, em face deste, o mundo interior.

    Contava ela como nasceu, por exemplo, o primeiro afeto no espírito dela. Quando percebeu que um mesmo agente a atendia em várias coisas que precisava, ela, de repente, o quis bem e sentiu em si uma disposição que não conhecia, na noite de seu próprio isolamento. Realmente é uma coisa trágica!

    Assim ela fazia a construção do mundo e acordava a sua própria alma com as sensações do corpo. Através das descrições táteis, ela ia apreendendo os nomes das coisas e, pelo que se passava nela, também conhecendo a si própria. É uma verdadeira obra-prima da inteligência humana construir uma figura do mundo apenas através das sensações táteis.

    No exemplo de Helen Keller, notamos especialmente: a inteligência dela, que chegou a conhecer o Universo; e a inteligência de quem soube, por meio de diversos métodos, fazer com que ela adquirisse tais conhecimentos. Essas duas inteligências fizeram esta obra-prima de se comunicarem.

    Vemos assim a grandeza do espírito humano. E compreendemos esse elemento imaterial que está no homem, o qual conhece, pensa, ordena, quer, ou não quer; e, através do que ele vê nos outros, é capaz de conhecer o que nunca verá nesta vida: as almas dos outros. E não só as almas dos que existem, mas as dos que existiram e deixaram sua figura nesta Terra. Isso dá ao homem uma possibilidade, que nenhum outro ser animal tem, de deduzir a existência de Deus.

    Pela mera razão, chegamos à conclusão de que Deus existe

    Sem revelação, mas pela pura razão, o homem chega à conclusão de que Deus existe. Todas as coisas que existem não têm força para se terem causado a si mesmas; porque aquilo que se causou a si próprio, existia antes de se causar. Se eu afirmar “eu me causei”, estou dizendo que eu existia antes de me causar. E se eu existia antes de me causar, há alguma outra causa que me causou. Então, terei que chegar a uma causa primeira.

    Todas as coisas são imóveis por natureza. A prova é que este meu corpo, quando dele se retirar a vida, ficará imóvel. Logo, há um fator que o movimenta, o qual não é idêntico a ele, mas pode entrar e sair dele. Ele, de si, não é móvel. O que é esse fator? Quem o fez e deu a esse fator a capacidade de mover? Motor imóvel, Deus por todos os séculos.

    A criação da ordem. Quando eu vejo um animal fazer, por instinto, algumas coisas ordenadas, fico abismado; são coisas sapientíssimas produzidas por um bicho perfeitamente ignorante. Um canário tem noções de harmonia que muitas pessoas não possuem. Quem não percebe que há um músico atrás desse instrumento, um artista atrás dessa obra de arte? É uma coisa evidente. E daí para frente.

    Através de raciocínios, o homem conclui e faz a construção da ideia de Deus. Quer dizer, nós, em relação a Deus, somos como que espécies de Helen Keller: pegamos sintomas. E perceberemos quão pequenos são esses quando virmos a Deus face a face. Fomos criados e nossas almas pedem ver a Deus diretamente, e não apenas através de sintomas. No Céu, vamos olhar para a nossa vida de agora, e nos sentiremos como uma Helen Keller que tivesse escapado da sua enfermidade e voado.

    A vida sobrenatural

    Trataremos agora da vida sobrenatural. Parece uma coisa inacreditável, mas, além de o Verbo ter-Se encarnado, e Nosso Senhor, na sua natureza humana, ter sofrido tudo quanto sofreu por amor a nós, Deus criou a graça, quer dizer, um dom pelo qual de algum modo participamos da natureza d’Ele.

    Quando nascemos não temos essa participação na vida divina; mas, ao sermos batizados, algo da vida divina se infunde em nós, elevando-nos acima de nossa condição de homens, tornando-nos capazes de fazer coisas que, sem a graça, não poderíamos realizar.

    Imaginemos que numa planta fosse enxertado algo da natureza divina. E que, devido a essa misteriosa participação, ela se tornasse capaz de entender e de querer alguma coisa. Se Helen Keller estremeceu tanto de alegria, a planta ainda mais, porque não tem nem sequer o tato. Suponhamos que com esse vegetal se passasse algo de parecido com o que sucedeu a Helen Keller: por alguns sinais, ela entendesse e percebesse que há uma outra ordem de existir. Que júbilo ela teria!

     Ora, isto nos é dado pelo Batismo, pela munificência e magnificência de Deus. Por esse sacramento nos é concedida uma coisa extraordinária, da qual as pessoas não se dão conta: crer naquilo que o Criador revelou.

    O homem mais inteligente não pode crer sem a graça. Se dermos a uma pessoa inteligentíssima um catecismo e uma apologética, que prove a veracidade da Religião Católica, ela entenderá tudo e dirá: “Realmente ficou provado que esta religião é a verdadeira, mas falta-me algo, eu não creio.”

    Por sua natureza, sem a graça, o homem não é capaz de crer na palavra da Revelação ou fazer qualquer ato de amor a Deus com base na Revelação, ou até mesmo pronunciar com piedade o nome de Jesus ou de Maria.

    Às vezes encontramos pessoas as quais romperam de tal maneira com a graça que, quando dizem Jesus ou Maria, temos a impressão de que elas possuem uma natureza de metal, pronunciando tais palavras sem nenhum amor, nenhuma dedicação.

    Certos indivíduos utilizam palavras, tais como: “Em Mateus tanto, está que Jesus disse…” Pelo timbre de voz, percebe-se que eles não têm Fé. Qualquer um de nós, rezando a Ave-Maria, diz: “…bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”. Que diferença!

    Devemos amar a Deus, enquanto Criador do Universo hierárquico

    A vida sobrenatural é um outro grau de vida que se adquire com o Batismo e só se perde com o pecado mortal. A Igreja define a Fé da seguinte maneira: a fé uma virtude sobrenatural pela qual cremos — com o auxílio da graça — no que por Ele foi revelado, pela autoridade do próprio Deus que revela, o qual não pode enganar-se nem ser enganado; já é um começo da visão beatífica. Sem me dar conta, há em mim uma como que semente da visão beatífica pelo fato de eu crer. De maneira que quando faço um ato de Fé, realizo algo que é parecido com o Céu. Compreendemos então a beleza magnífica do Credo.

    Vimos os vários degraus da vida. Quanta hierarquia! E que hierarquia sábia, a qual devemos amar!

    Segundo esse mundo liberal que nos cerca, todo indivíduo colocado numa posição de hierarquia menor do que o outro é por isso um infeliz. Essa é a lógica de Satanás! Para Satanás, um Anjo menor é infeliz em relação a um Anjo maior; todos os Anjos são infelizes em relação a Nossa Senhora, que é a Rainha deles. O homem é um infeliz em relação a um Anjo, o animal em relação ao homem, o vegetal em relação ao animal, o mineral em relação ao vegetal.

    É o contrário. Deus fez magnificamente tudo isto. Ele colocou no ápice um varão: Nosso Senhor Jesus Cristo, o Varão por excelência. E, imediata, porém infinitamente abaixo de Nosso Senhor Jesus Cristo, uma dama, a Rainha do Céu e da Terra. E a nós, Deus não deu uma natureza de ápice, mas a natureza dos que estão no ápice.

    Assim compreendemos o que é a nossa vida, e como devemos saber empregá-la, amando, antes de tudo, todas as hierarquias e a obra de sabedoria de Deus, enquanto criando o Universo hierárquico.  v

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 2/2/1980)

    Revista Dr Plinio 158 (Maio de 2011)

     

    1) Helen Keller, nascida em 27 de junho de 1880, em Tuscumbia, Alabama, perdeu subitamente a visão e a audição devido a uma doença diagnosticada como febre cerebral, ou escarlatina.

     

  • A Contra-Revolução tendencial

    “Revolução e Contra-Revolução” foi um dos temas centrais das explicitações de Dr. Plinio ao longo de sua vida.
    Por isso, entre suas conferências encontram-se, com frequência, aprofundamentos à sua obra-mestra. Com o presente artigo, damos início a uma série destas explicitações.

     

    Quando se analisa os mil artifícios empregados pela Revolução no campo das tendências para penetrar na mente do homem — de certo modo sem que este o perceba —, tem-se a impressão de que ela é quase irresistível.

    As pessoas que conhecem esses métodos têm tantos modos de agir e de influenciar, que quase não se compreende como um povo entregue às cogitações quotidianas, às preocupações comuns, pode se dar conta de que está sendo objeto de um tratamento revolucionário.

    Até uma combinação de cores pode ser de acordo com a Revolução

    Suponhamos uma dona de casa que deseja adquirir uma sacola onde possa colocar os objetos comprados por ela numa feira.

    Ela compra a cesta mais resistente e durável, que lhe parece mais fácil de carregar, mas quase não presta atenção porque aquele objeto não tem uma intenção ornamental especial. Porém, não se dá conta de que a combinação das cores daquela cesta é revolucionária e que ela, portanto, indo e voltando para o mercado ou para a feira, está levando e trazendo Revolução.

    Mais ainda, se ela, em sua casa, pendura aquela sacola num lugar qualquer da copa ou da cozinha, aquela combinação de cores pode estar influenciando tendencialmente, de um modo revolucionário, toda a sua família.

    Que defesa pode ter uma pobre dona de casa contra uma coisa dessas?

    Tem-se a impressão de que a Revolução tendencial não pode ser evitada pelo homem; é uma arma irresistível. E se tem a ilusão de que o mesmo acontece com a Contra-Revolução tendencial. Quer dizer, se uma pessoa normalmente leva uma cesta com bonita combinação de cores, e depois a prende numa parede de sua casa, está fazendo Contra-Revolução.

    Não é simplesmente uma cesta, mas são mil coisas: o cabo da escova de dente, a forma do sapato, tudo está fazendo Revolução a toda hora e, de vez em quando, Contra-Revolução. Quem pode resistir a isso?

    Mentalidades revolucionárias e contra-revolucionárias

    Então, devemos analisar como deve ser o homem para não se tornar um joguete da Revolução e nem sequer da Contra-Revolução. Ele fica um verdadeiro contra-revolucionário pela Fé, pelo exercício de suas faculdades intelectivas e de sua vontade. O resto ajuda, condiciona, tem sua importância, mas não pode ser decisivo. Como a matéria é muito complexa, muitas vezes não se fala desse ponto fundamental, que não podemos perder de vista.

    O autêntico contra-revolucionário, quando percebe que uma coisa é revolucionária, a recusa; quando nota que algo é contra-revolucionário, aceita-o.

    Ele vê, julga, quer ou não quer.  Aqui está a parte nobre da operação da alma humana. Para isso, como deve ser a sua mentalidade?

    Depois da impressão, é necessária a reflexão

    Dou-lhes um exemplo tirado de uma leitura que fiz.

    Caiu-me nas mãos uma frase lindíssima de Santo Agostinho, extraída do livro “A divindade da Igreja Católica”, de Monsenhor Miguel Martins(1).

    Eis a frase de Santo Agostinho:

    “Deus é infinitamente poderoso, mas não nos pode dar mais; é infinitamente sábio, mas não sabe nos dar mais; é infinitamente rico, mas nada mais tem para nos dar; porque na sagrada comunhão Ele se tem dado todo a nós.”

    Há nesse texto aquele voo de Santo Agostinho, que é só dele. Tem-se a impressão de que é uma ave levantando voo e indo direto para alturas inexcogitáveis!

    Mas é um voo do espírito, em comparação do qual o do avião não é nada.

    A ideia dele é a seguinte:

    Deus, infinitamente poderoso, pode nos dar algo mais do que a Sagrada Eucaristia? É Jesus Cristo realmente presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade! Dando-Se a Si próprio, não tem mais o que dar.

    Então, quando, pela graça obtida através de Nossa Senhora, formos comungar, devemos tomar em consideração a beleza desse pensamento: vamos receber um dom tal que o próprio Deus não poderia dar outro melhor.

    Ele é infinitamente sábio, mas não sabe nos dar mais!

    Imaginemos a sabedoria de Deus criando o Céu e a Terra e todos os outros seres. Pois bem, Ele não sabe dar mais do que a Eucaristia!

    É infinitamente rico, mas não tem nada mais valioso para nos dar, porque na Sagrada Comunhão Ele se tem dado todo a nós!

    Tudo isso causa uma primeira impressão que vem acompanhada de uma graça.

    Mas é bom que se faça depois uma reflexão. O que está sendo dito é um pensamento profundamente sério, o qual deve ser guardado na alma.

    Esta operação que se faz a respeito desse pensamento — não é indispensável fazer isso com cada pensamento que se tem — é perfeita, quando a pessoa se impressiona, se convence e ama tanto aquilo que ouviu ou leu, que nunca mais deixa de ter isso em conta quando vai comungar. Sua memória conserva aquilo para a vida inteira.

    Quando me leram essa frase pela primeira vez, tive alegria. Agora, ao relembrá-la diante dos que estão neste auditório, minha alegria se renovou, ao ver a primeira alegria dos presentes diante desse pensamento. E foi uma alegria intensa, altissonante, que levanta voo!

    Choque das mentalidades

    Hoje é sexta-feira e muitas pessoas estão se preparando para toda espécie de diversões, enquanto que nesse auditório muitos jovens bradam de alegria, portanto de felicidade de alma, porque ouvem um pensamento desse gênero.

    Imaginemos um indivíduo que pretenda ir amanhã cedo para Guarujá e colocou sobre seu automóvel uma lancha, com comida e outras coisas para o passeio.   O carro já está voltado para a rua, a fim de apressar a saída. 

    Digamos que ele passe nesse momento aqui em frente e, ouvindo as exclamações, pergunte a alguém:

    — Por que razão esta alegria?

    E esse alguém lê para ele o texto de Santo Agostinho.

    O indivíduo pensa: “Como eles se entusiasmam com esse pensamento que eu não estou entendendo bem? Tenho aqui essa lancha e vou amanhã para Guarujá, isso que é uma coisa gostosa. Eles vão ter um dia de oração, de trabalho, de reunião… Coitados! E essa reunião que estão tendo agora irá até a uma hora da manhã!”

    Esse homem poderia dizer: “Ou estou completamente errado ou errados estão eles, porque não me alegro com isso. Noto que eles passam diante da minha lancha e nem param para olhar! Nem sabem qual é sua marca, que está escrita do lado de fora numa plaquinha! Eles saem conversando entre si a respeito de coisas de Religião, de Sociologia, de História.

    “Alguns estão falando de Maria Antonieta. Penso que é uma moça que eles conhecem, mas não! Trata-se daquela rainha da França, que teve a cabeça cortada pelos revolucionários! Realmente não entendo.”

    Julgo que com esse exemplo torno claro o contraste e o choque de mentalidades.

    O feitio do homem se molda conforme sua meta

    Esse homem tem a alma voltada para uma determinada meta e nós, pelo favor e pelas preces de Nossa Senhora, estamos orientados para outra meta. E conforme a meta se forma o feitio da pessoa. Em função disso — talvez meus ouvintes tenham pensado que eu perdi o rumo, e não esteja mais tratando da Revolução e da Contra-Revolução — vem a questão da resistência do homem à ação tendencial revolucionária ou contra-revolucionária.

    Há dois tipos de homem. Um deles é este sobre o qual falei — tipo que já era corrente nos longínquos tempos da minha infância.  O modo de viver os fins de semana mudou muito, mas a mentalidade era a mesma.

    Naquela época, o fim de semana era só o domingo. A vida em São Paulo era muito menos tensa, não sendo preciso descansar sábado e domingo. O cansaço acumulado durante a semana era muito menor.

    A Sãopaulinho de outrora era ao mesmo tempo muito mais aristocrática e sossegada do que esta São Paulo industrial que vemos febricitar e transudar poluição em todos os lugares.

    Já na Sãopaulinho a meta normal do homem era o prazer

    Já naquele tempo, a meta normal do homem era o prazer. Ele seria inteiramente feliz se tivesse prazeres contínuos e na proporção de seus desejos.

    Há pessoas que gostam de grandes prazeres. Outras, de mentalidades ora mais apoucadas, ora mais finas, se contentam com prazerezinhos e apreciam sorver a vida com colherinhas de chá e não com enormes goles. Há, portanto, diferentes modos de viver em busca do prazer.

    Tinham muito pálida e remotamente a ideia de que o domingo é o dia do Senhor. Iam à Missa porque é uma exigência de Deus, e não havia como evitar. A mentalidade era essa.

    Trabalhavam nos dias de semana para ter os recursos a fim de gozar a vida no domingo. Mais ainda, procuravam levar durante a própria semana a vida mais gostosa possível.

    O que era a vida gostosa?

    Antes de tudo consistia em não ter preocupações nem aborrecimentos.

    Em segundo lugar, fazer o que quer: ir a Guarujá, à fazenda, ao Rio de Janeiro, ficar dormindo até meio-dia, levantar-se às cinco horas da manhã para escalar o Jaraguá(2), etc.  Em suma, fazer o que é gostoso é a lei.

    E as coisas gostosas eram aquelas que direta e imediatamente dão gosto ao corpo. Para os espíritos um pouco mais elevados — não numerosos — o gosto do corpo se conjugava com certo prazer da alma. Então, alguns gostavam de música — mas que músicas! —, outros, de uma exposição artística, porque dão certo prazer de alma através dos sentidos. Quem se metia nessa vida, cujo diapasão é o gostoso, evidentemente não tinha alma para apreciar pensamentos elevados, como esse de Santo Agostinho; era cego, surdo e mudo para coisas dessa natureza.

    Os temas das conversas indicavam o feitio de espírito

    No meu tempo de moço — hoje não deve ser muito diferente, mas talvez muito pior — certos tipos de conversa indicavam superlativamente este feitio de espírito. Por exemplo, contar de modo exagerado e com fanfarronada as coisas que fez no domingo anterior: tomou uma lancha e quase houve um acidente, mas o indivíduo conseguiu evitá-lo de tal maneira; foi um herói. E narra o caso até o último pormenor, ou seja, até a última mentira que ele encontrou para chamar a atenção.

    Enquanto isso, um outro pensava: “Deixa este acabar de falar, para eu contar meu grande feito”. E se não tinha nada para jactanciar-se, ficava com vontade de mudar de assunto.

    Outro tema muito querido era as viagens de automóvel — as estradas de rodagem naquele tempo eram relativamente novas. As surpresas que houve em certo lugar; o freio que quase falhou; o indivíduo teve que ir a pé para comprar uma peça, mas foi muito feliz porque no caminho encontrou um conhecido que o levou de automóvel e o trouxe, e ainda lhe agradeceu, porque lhe disse que conversava muito bem. O que equivale a dizer: “Vocês não sabem apreciar a minha conversa, mas sou um colosso; saibam me apreciar melhor”.

    De vez em quando, conversas a respeito de negócios ou política.

    Voo da alma às coisas elevadas

    Em consequência, essas almas não tinham nenhuma capacidade de entender e amar os pensamentos elevados.

    Uma pessoa, ouvindo a leitura desse texto de Santo Agostinho, se entusiasma quando está voltada para outra ordem de valores. Ela compreende que as coisas materiais podem ser aprazíveis e devem, em certas circunstâncias, ornar ou tornar deleitável a vida do homem. Mas o principal não é o corpo; há uma forma de deleite, uma beleza, uma santidade, uma verdade nas coisas, que, quando a alma percebe, ela se rejubila, sobretudo quando são bem expressas. A alma, então, voa em direção a coisas mais elevadas.

    Para se ter ideia completa do que é um deleite desses, deve-se ler, nas “Confissões” de Santo Agostinho, a conversa dele com Santa Mônica, no porto de Óstia. Sua mãe havia rezado por ele durante muitos anos e, afinal, Santo Agostinho se convertera. Ia para Cartago, cidade então florescente do Norte da África, e estavam no porto de Óstia. Enquanto esperavam o navio, conversavam sobre o Céu junto à janela de uma hospedaria — colóquio de um santo com uma santa — e tiveram uma espécie de êxtase. Santo Agostinho conta essa conversa de um modo incomparável.

    Santa Mônica disse-lhe:

    — Meu filho, já obtive a tua conversão para que sigas no caminho da Fé. Teu pai morreu, e eu não tenho mais deveres nesta Terra; desejo apenas o Céu.

    Vê-se que, apesar de querer muito bem a Santa Mônica, ele não fez insistência para ela continuar na Terra. Santo Agostinho poderia dizer-lhe: “Mamãe, não pense nisso, a senhora ainda está moça e tem muita saúde…” Ou então: “Ser-me-ia muito duro resignar-me a viver sem a senhora; procure ficar na Terra.”

    Mas não o fez porque entendera haver chegado o momento dela, e que as coisas devem se realizar nas horas de Deus e não dos homens.  Daí a poucos dias, ela adoeceu e morreu, tendo sido sepultada na própria cidade de Óstia.

    Ele conta tudo isso de modo muito bonito e percebe-se o equilíbrio da alma católica. Narra seu próprio pranto e que levou seu corpo ao cemitério. E voltou tão triste que, para se consolar, tomou um banho! E com uma bondade de um coração episcopal, escreve ele: “Aconselho a todos que tiverem uma provação muito grande, que tomem um banho, porque ajuda a suportá-la”.

    Não é, portanto, uma alma estranha às realidades da Terra, que desdenha ou ignora qualquer forma de apoio ou de conforto para o irmão corpo. Mas depois voa muito acima disso. v

     

    Continua no próximo número…

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência  de 9/11/1984)

    Revista Dr Plinio 146 (Maio de 2010)

     

    1) São Paulo: Editora da Escola Profissional Liceu Coração de Jesus, 1917.

    2) Jaraguá: pico situado nas cercanias de São Paulo.

  • Fátima

    Maio de 1944. A Segunda Guerra mundial convulsionava largas regiões do globo. Havia pouco, Dr. Plinio tomara conhecimento da mensagem de Nossa Senhora em Fátima, vendo logo, na correspondência da humanidade a ela, o único meio de interromper a decadência da civilização. O jovem líder católico utilizou, então, as páginas do “Legionário” para analisar pela primeira vez os acontecimentos da Cova da Iria. Pôs empenho em destacar a integridade moral de Lúcia e dos Bem-aventurados Jacinta e Francisco, como ponderável argumento em prol da autenticidade das aparições.

    Há pouco menos de 30 anos, a primeira conflagração mundial caminhava para seu declínio. Contido o ímpeto inicial da invasão teutônica, os franceses se dispunham a reconquistar o território perdido. Para os políticos de alto bordo e os observadores militares, já não era duvidoso o êxito final da luta. Toda a estratégia alemã se baseara na esperança do triunfo da “blitzkrieg” (guerra relâmpago). A primeira cartada se jogaria com imensas possibilidades de êxito. Mas era a única. Os alemães a tinham perdido. O resto, para os aliados, era apenas questão de tempo. Os financistas, os sociólogos, os politiqueiros, já começavam seu burburinho de antecâmaras e bastidores, para saber como o mundo se reorganizaria no após-guerra. E isto enquanto nos campos de batalha a luta ainda ia acesa, e os canhões germânicos troavam não muito longe de Paris.

    Esse burburinho tinha real importância. Tinha, mesmo, muito mais importância do que o troar dos canhões. Nos campos de batalha, se liquidava uma guerra já decidida “in radice”. Nos gabinetes, não se liquidava uma guerra, mas se elaborava uma nova era. O futuro já não estava na retranca das metralhadoras, mas nos “pourparlers”(negociações) dos bacharéis e dos técnicos.

    Grande Jato da história contemporânea

    Quando começavam a delinear-se apenas, timidamente, as primeiras linhas desse mundo novo, verificou-se um dos fatos mais consideráveis da história contemporânea. Em nosso mundo são muitos os céticos que não acreditam nesse fato. Os que não são céticos são tímidos, e não ousam proclamar os fatos em que acreditam. Uns por falta de Fé, outros por falta de coragem, não ousam incorporar à história contemporânea esse acontecimento. Mas, os mais graves motivos sobre que a inteligência humana pode basear-se aí estão patentes, a atestar que Nossa Senhora baixou dos céus à terra, e que manifestou a três pequenos pastores de um recanto ignorado e perdido do pequeno Portugal, as condições verdadeiras, os fundamentos indispensáveis para a reorganização do mundo. Ouvida essa mensagem, a humanidade encontraria verdadeiramente a paz. Negada, ignorada essa mensagem, a paz seria falsa e o mundo emergirá em nova guerra. A guerra veio. A guerra aí está. Cogita-se agora, como há 30 anos atrás, de reorganizar novamente o mundo. Nenhum momento é mais oportuno do que este, para recordar a aparição de Nossa Senhora em Fátima. E isto tanto mais quanto, há precisamente três dias, a Igreja celebrou a festa litúrgica de Nossa Senhora de Fátima.

    Analisemos primeiramente o fato.

    Lúcia, Francisco e Jacinta eram três pastores como os há tantos em Portugal. Educados em zona inteiramente isolada dos miasmas contemporâneos, conservam intacta a flor de sua inocência batismal, e, à falta de cartilhas e de grupos escolares, desenvolviam sua personalidade, sua formação, sua virtude, em contato com as belezas do campo, com os encantos da arte e da música popular de sua terra, com a suave austeridade dos ensinamentos cristãos recebidos dos lábios de suas mães, ou do singelo e piedoso magistério do Pároco da aldeia. Neles, como em todos os filhos da Igreja, era generoso o ânimo com que lhe correspondiam. Não passavam porém de três excelentes crianças, que cumpriam seus deveres, rezavam com uma piedade sincera à qual não era alheia por vezes certa preguiça, e passavam seus dias guardando conscienciosamente os rebanhos paternos.

    Foi num dia destes, igual a todos os outros, que se manifestou para eles a primeira aparição, à qual depois muitas outras se seguiram. Eram crianças tão extremamente simples e ignorantes, que seriam incapazes de forjar qualquer quimera que por fim os sugestionasse. Quando vieram as primeiras aparições, nem sabiam com Quem tratavam. Descrevendo maravilhados a Pessoa que lhes aparecera, retratavam por suas palavras uma figura de uma elegância, uma majestade, uma nobreza que sua imaginação de pequenos pastores nunca teria podido forjar gratuitamente.

    Autenticidade dos três mensageiros

    Imediatamente se abateu sobre eles uma verdadeira perseguição. Estiveram na cadeia, foram ameaçados de morte, e até conduzidos ao lugar de seu suposto suplício; portaram-se com a dignidade dos mártires do Coliseu. Depois, foram objeto dos agrados indiscretos e frenéticos da multidão. Conservaram-se, no meio deste triunfo, sóbrios, simples, desinteressados como um Cincinato(1). Interrogados muitas vezes em separado, com mil artifícios destinados a induzi-los ao exagero, ou à diminuição da verdade, sempre souberam conservá-la íntegra.

    Dois deles morreram ainda na infância, Jacinta e Francisco. Jacinta profetizou sua morte, quando nada faria suspeitar um fim tão prematuro. E ao morrer como dissera, fê-lo afirmando a verdade das revelações. Francisco também testemunhou  a  verdade   do que vira, até morrer. Lúcia não morreu, mas tomou o hábito religioso. Pertence hoje à Congregação das beneméritas Irmãs Doroteias [transferiu-se depois para o Carmelo], e com sua responsabilidade de Esposa de Jesus Cristo confirma plenamente na idade adulta as afirmações que fizera em sua juventude. Ela estaria em pecado mortal, se não desmentisse as visões, no caso de as ter falseado de parceria com seus pequenos primos. Ela recebe, entretanto, continuamente o Santo Sacramento com a tranqüilidade dos justos. Essas são as testemunhas. O selo do martírio, o prestígio da inocência, a dignidade do hábito religioso, lhes asseguram a veracidade.

    Realmente, quando, diante de uma multidão calculada em milhares de pessoas, os pequenos pastores sustentavam que estavam vendo Nossa Senhora, não mentiam. Tudo em sua vida no-lo atesta. Até sua ignorância serve de credencial a esses pequenos arautos. Crianças que ao tempo das aparições nem sabiam quem é o Papa, não poderiam inventar o que disseram, como um analfabeto não inventa uma teoria de trigonometria, ignorando até as quatro operações da aritmética.

    Majestade e beleza da Senhora

    Examinados os mensageiros, analisemos a Senhora que lhes deu a mensagem. Faça-se um teste: tomem-se várias crianças em separado, e mande-se-lhes que fantasiem a título de composição literária uma aparição de Nossa Senhora, descrevendo seu semblante, seu traje, suas expressões fisionômicas, seus gestos, anotando-lhe as palavras, o que sairia de tudo isto? Quanta coisa infantil, quanta concepção grotesca, quanto pormenor francamente ridículo!

    O nível de instrução das crianças de Fátima era incomparavelmente inferior ao de uma criança de cidade. Não conheciam teatros nem cinemas, não tinham visto livros com figuras representando rainhas, senhoras de corte dos tempos antigos, etc. Não tinham, pois, outra ideia de beleza, elegância e distinção, que não a que filtrava até elas em que luscofusco! através dos tipos femininos que viam em redor de si na aldeia. Não possuíam a menor noção da beleza própria aos vários coloridos e a suas respectivas combinações. Tudo isto não obstante, a Senhora que lhes aparece, eles a descrevem com pormenores suficientes para se ver que era uma figura de sublime beleza, trajada com uma rara majestade e simplicidade. Senhora, aliás, tão diferente de tudo quanto eles conheciam em matéria de imagens, que não suspeitariam que fosse Nossa Senhora, e nem sequer uma Santa. Foi só quando a Senhora se declarou, que souberam com Quem tratavam.

    Essa Senhora lhes disse coisas muito elevadas. Falou-lhes da guerra, falou-lhes do Papa (que Jacinta, a menor, não sabia que existisse), falou-lhes da pureza dos costumes e do respeito aos domingos, falou-lhes de política e de sociologia. E essas crianças repetem a mensagem com uma fidelidade extraordinária!

    Realmente, como diz a Escritura, Deus tira para si, “da boca das crianças, um louvor perfeito”.

    Mensagem absolutamente ortodoxa

    É o momento de considerarmos a mensagem. Antes de tudo, notemos que ela é absolutamente ortodoxa. Não é fácil inventar uma mensagem ortodoxa. Muito figurão “católico” que serve para discursos de inauguração, de luto, etc., etc., etc., toma um cuidado tremendo para não preparar um discurso que cheire a heresia… e solta duas ou três heresias em seu discurso. Ora, todas, absolutamente todas as palavras da Senhora aos pequenos Pastores são de uma ortodoxia absoluta. Tratando temas complexíssimos, Ela nem uma só vez erra em doutrina. Positivamente, isto não poderia ser invenção de pequenos pastores.

    Mas há mais. A mensagem da Senhora, que sobreveio precisamente no momento crucial em que se preparava o após-guerra, desprezando as manifestações aparatosas de falso patriotismo e de cientificismo dos “técnicos”, colocou com grande simplicidade todas as coisas em seus termos únicos e fundamentais. A guerra fora um castigo do mundo, por sua impiedade, pela impureza de seus costumes, por seu hábito de transgredir os domingos e dias santos. Isto resolvido, todos os assuntos se resolveriam por si. Isto não resolvido, todas as soluções nada resolveriam… E se o mundo não ouvisse a voz da Senhora, se ele não respeitasse esses princípios, nova conflagração viria, precedida de fenômeno celeste extraordinário. E essa conflagração seria muito mais terrível que a primeira.

    Desprezo, mais pecados e novo castigo

    Reuniram-se os técnicos …. “et convenerunt in unum adversus Dominum” (e decidiram por unanimidade contra o Senhor). Construíram uma paz sem Cristo, uma paz contra Cristo. O mundo se afundou ainda mais no pecado, a despeito da mensagem de Nossa Senhora. Em Fátima, os milagres se multiplicavam, às dezenas, às centenas, aos milhares. Ali estavam eles, acessíveis a todos, podendo ser examinados por todos os médicos de qualquer raça ou religião. As conversões já não tinham número. E, tudo isto não obstante, ninguém dava ouvidos a Fátima. Uns duvidavam sem quererem estudar. Outros negavam sem examinar. Outros criam mas não tinham coragem de o dizer. A voz da Senhora não se ouviu. Passaram-se mais de vinte anos. Um belo dia, sinais estranhos se viram no céu… Era uma aurora boreal, noticiada por todas as agências telegráficas da terra. Do fundo de seu convento, Lúcia escreveu a seu Bispo: era o sinal, e dentro em breve a guerra viria. A guerra veio dentro em breve. Ela está aí, e hoje se cuida novamente de “reorganizar o mundo”, aos últimos clarões desta luta potencialmente já vencida.

    Não endureçamos nossos corações…

    “Si vocem ejus hodie audieritis, nolite obdurare corda vestra – se hoje ouvirdes sua voz, não endureçais vossos corações”, diz a Escritura. Inscrevendo a festa de Nossa Senhora de Fátima no rol das celebrações litúrgicas, a Santa Igreja proclama a perenidade da mensagem de Nossa Senhora dada ao mundo através dos pequenos pastores. No dia de sua festa, mais uma vez a voz de Fátima chegou a nós: não endureçamos nossos corações, porque só assim teremos achado o caminho da paz verdadeira.

     

    (Transcrito do “Legionário”, nº 614, 14/5/1944. Subtítulos nossos.)

    1) Romano célebre pela simplicidade e austeridade de seus costumes.

  • Oração: Nossa Senhora de Fátima, o extremo sacrossanto

    O Virgem Mãe, Senhora de Fátima, que anunciastes ao mundo tão extremas aflições e tão excelsas alegrias, revelando os terríveis castigos e os grandes triunfos pelos quais passará a Cristandade! A Vós, que denunciastes com tanta clareza os extremos de abominação moral a que chegamos e, ao mesmo tempo, fizestes ver a plenitude de vossa insondável santidade, eu Vos suplico: mudai o meu espírito!

    Não permitais que eu continue sendo uma dessas incontáveis pessoas de horizontes curtos e de interesses circunscritos à pequena esfera de sua própria individualidade. Fazei, pelo contrário, que pela despretensão e abnegação eu seja uma alma aberta e ardente, capaz de medir em toda a sua extensão os extremos que em Fátima se divisam e de tomar uma posição intransigente e completa a favor do extremo sacrossanto que sois Vós, oh! minha Mãe: extremo de amor de Deus, de pureza, de humildade, de despretensão, de inquebrantável combatividade!

    Fazei com que eu, assim, seja um contrarrevolucionário modelar, um perfeito apóstolo dos últimos tempos. Amém.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Oração composta em 8/5/1971)

  • Não endureçamos nossos corações

    “Hodie si vocem eius audieritis, nolite obdurare corda vestra — se hoje ouvirdes sua voz, não endureçais vossos corações” (Sl 94, 7-8), diz a Escritura. Inscrevendo a festa de Nossa Senhora de Fátima no rol das celebrações litúrgicas, a Santa Igreja proclama a perenidade da mensagem de Nossa Senhora dada ao mundo através dos pequenos pastores. No dia de sua festa, mais uma vez a voz de Fátima chegou a nós: não endureçamos nossos corações, porque só assim teremos achado o caminho da paz verdadeira.

    (Transcrito do “Legionário”, nº 614, de 14/5/44)

  • O Deus das vinganças está se aproximando e vai vencer

    Não podemos considerar que os castigos preditos por Nossa Senhora em Fátima estão por se realizar, pois já começaram a acontecer. O que está ocorrendo com a Igreja é, segundo toda a evidência, um castigo.

    A Igreja é o centro do gênero humano, a entidade que a Santíssima Virgem mais ama na Terra. Se o castigo começou na parte mais nobre, que é a Igreja, não tem todas as razões para temer esse castigo a parte inferior, a sociedade civil, se esta persevera no mal?

     

    Devemos fazer um comentário a respeito de Nossa Senhora de Fátima, tema tantas vezes tratado entre nós e que, entretanto, precisa ser comemorado sempre com uma especial solenidade.

    De 1917 para cá, o mundo piorou espetacularmente

    Dos múltiplos aspectos que o acontecimento de Fátima desperta, creio haver um que vem mais a propósito assinalar no presente comentário. Antes de tudo, devemos considerar nesse acontecimento – o qual está revestido de um caráter profético –, como traço saliente no meio de todos os aspectos, o fato de Nossa Senhora ter prometido ao mundo misericórdia se houvesse emenda de vida e fosse feita a consagração pedida por Ela; e, ao mesmo tempo, ameaçando com castigos caso o mundo não se emendasse e não se realizasse essa consagração. Esse esquema, que é a essência das revelações de Fátima, é também a substância de várias profecias do Antigo Testamento.

    Em relação ao povo judeu e seus inimigos, vários profetas se levantaram tendo exatamente a mesma linguagem e apresentando esta mesma alternativa: bênção e louvores caso se emendassem, castigo se não se convertessem.

    Já a ameaça é um ato de misericórdia, porque Nossa Senhora adverte por bondade, para não castigar, como uma mãe que, não querendo punir o filho, diz: “Não faça tal coisa, porque se fizer, eu serei obrigada a castigar”. Como quem afirma: “Ameaço não porque eu esteja com vontade de punir, mas porque sua situação é tal que, a perseverar nela, apesar de minha misericórdia, serei obrigada a castigar”.

    Várias profecias são assim, e Nossa Senhora fez tipicamente em Fátima uma profecia, segundo esse esquema.

    Passaram-se, de 1917 para cá, cinquenta e dois anos. Ao longo desse tempo, tudo quanto afligia Nossa Senhora em Fátima, e do que Ela se queixou no procedimento do mundo contemporâneo, não só não melhorou, mas piorou espetacularmente.

    O castigo já começou com o que está ocorrendo com a Igreja…

    Quando temos em vista que nos encontramos, portanto, na pista do castigo, não podemos deixar de entender que essa fabulosa crise que se desenrola na Igreja está na linha desse castigo. Porque, quando consideramos uma entidade como a Igreja, que está sendo castigada – pois o que está ocorrendo com a Igreja é, segundo toda a evidência, um castigo –, e vemos que a Santíssima Virgem prometeu uma punição ao mundo, do qual essa entidade é o eixo, entendemos que, atingindo o eixo, a punição atinge toda a circunferência e, portanto, essa crise que lavra dentro da Igreja está compreendida, implícita ou explicitamente, nos castigos profetizados em Fátima.

    Agora, poderíamos nos perguntar se esta situação dentro da Igreja não foi realmente prenunciada em Fátima . Se Nossa Senhora tivesse prenunciado em Fátima o castigo da Igreja, é certo que isso teria sido mantido secreto. Ora, há um segredo que ainda está sendo mantido, o que leva a crer ser esse um dos elementos do segredo. A Santíssima Virgem deve ter dito coisas muito duras a respeito do futuro da Igreja e do clero. E porque não se deu importância a isso, naturalmente aconteceu o que Ela prometeu.

    …e virá também a punição do mundo

    Então, em vista disso, não podemos considerar que os castigos preditos por Nossa Senhora em Fátima estão por se realizar, mas nós devemos julgar que já começaram a acontecer. Quer dizer, é um sistema de castigos, um processo punitivo que já se desencadeou . E tendo se desencadeado, é muito mais provável admitir que ele chegue até o fim do que pare.

    A Igreja é o centro do gênero humano, uma sociedade espiritual, o que há de mais elevado entre os homens; e toda a História gira em torno dela. A Igreja é o que Nossa Senhora mais ama na Terra. A salubridade da Igreja é a condição para a salubridade de todas as coisas morais e espirituais nesta Terra.

    Destaco estes dois traços: o que a Santíssima Virgem mais ama na Terra é a Igreja, primeiro traço. Segundo: a salubridade da Igreja é condição para a salubridade de todas as coisas da Terra. Ora, se considero o primeiro traço, vejo que Nossa Senhora castigou aquilo que Ela mais ama. Será que Ela poupará todo o resto, que também não está se emendando? Se o castigo começou na parte mais nobre e que menos deveria recear, que é a Igreja, não tem todas as razões para temer esse castigo a parte mais vil, se esta persevera no mal?

    Então, o castigo da Igreja nos faz ver que seria muito de espantar se não viesse a punição para o mundo.

    O segundo aspecto da questão é a salubridade da Igreja, como condição da sanidade de tudo. Ora, a Igreja está insalubre como nunca na História. É possível que o mundo não seja contaminado com essa insalubridade?

    Portanto, precisamos ver já em curso todos os castigos profetizados por Nossa Senhora. Isso deve nos levar a preparar as nossas almas para crer na mensagem de Fátima.

    Processo punitivo que está chegando ao seu paroxismo

    Eu repito esquematicamente o raciocínio.

    Primeiro ponto: a mensagem de Fátima é uma profecia. Não é uma profecia oficial, como foi a dos profetas do Antigo Testamento, do Apocalipse, mas é uma profecia autêntica com todas as características de uma profecia: a denúncia de um estado altamente censurável, um convite amoroso a abandonar esse estado, uma ameaça e, mais do que isso, a previsão de um castigo caso esse estado de coisas não seja abandonado.

    Segundo ponto: essa profecia, no que ela tem de público, não fala de um castigo à Igreja, ou pelo menos não trata de um modo frisante, saliente, de um castigo à Igreja, mas sim de um castigo para o gênero humano. Fala a certa altura que o Papa vai ter muito de sofrer, porém não diz diretamente que os sofrimentos do Papa são por causa dos pecados da Igreja.

    Mas a profecia tem um aspecto secreto, um segredo. Ora, nós vemos que a Igreja foi e está sendo duramente castigada. Nossa Senhora não terá falado desse castigo da Igreja? Naturalmente sim. Pois quem fala de castigo para o mundo, é normal que fale do pior desse castigo que é o castigo para a Igreja. Logo é sumamente provável, tudo leva a crer que o castigo da Igreja seja um dos elementos da profecia de Fátima.

    Se isto é verdade, a profecia de Fátima não está para se cumprir, mas já começou a se realizar. Sendo assim, devemos nos perguntar se há razões para esperar que esse processo punitivo se detenha.

    Então, a resposta é: se esse processo está chegando, quase se diria, a seu termo, ao seu paroxismo em relação à parte mais amada e mais nobre, por que não chegará também ao seu paroxismo em relação à parte menos nobre e menos amada, que é a sociedade civil? Enormemente amada, mas menos do que a Igreja. Tanto mais que a sociedade civil não se emendou. Ela persevera no pecado.

    Depois, quando a Igreja está insalubre, o mundo se torna insalubre. E esta insalubridade do orbe chegou a tal ponto que tem de trazer uma convulsão suprema para o mundo. Portanto, nós devemos dizer que começou já na Igreja e, por causa disso, estão postas as causas por onde é inevitável que atinja a sociedade civil. Então, não é só dizer que o castigo já começou, mas começou na sua raiz. E quem golpeia a raiz, golpeia a árvore toda. É assim que nós devemos ver a profecia de Fátima.

    Alegria porque afinal de contas o Reino de Maria vai chegar

    Alguém poderá dizer: “Dr . Plinio, o que eu não compreendo é o seguinte. Dia de Nossa Senhora de Fátima é dia de nossa Mãe, dia da ternura, do afeto. Ao invés de tratar da ternura e do afeto d’Ela, o senhor nos mostra Nossa Senhora numa análise seca da profecia d’Ela, para tirar algo que nos atormenta, que nos estremece. É esta a festa de uma mãe?”

    Eu afirmo o seguinte: qual é o modo de festejar um profeta a não ser por um ato de fé na sua profecia? Foi por amor que a Santíssima Virgem revelou tudo isso. Ela nos dá a possibilidade de admirar os altos desígnios de Deus, de contemplá-Lo enquanto Regedor de toda a História, como Autor de todos os movimentos que se fazem na História, inclusive enquanto Ele permite o mal, para daí tirar para Si sua maior glória. Há, portanto, mil razões que não cabem numa conferência, para nos enlevarmos com isso e adorarmos a Deus.

    Mas, uma vez que Nossa Senhora falou, não há melhor ato de reconhecimento às palavras amorosas d’Ela do que procurarmos entender essas palavras e tomá-las a sério. E por isso uma comemoração séria do dia de Fátima é uma análise séria da profecia.

    Oxalá, a Santíssima Virgem, na alma de cada um de nós, dê as graças por onde isso frutifique naquela espécie de alegria, de entusiasmo, de desprendimento que a certeza da realização da profecia dá. Porque há uma graça própria a essa realização por onde ela não atormenta, não apavora, nem sequer é recebida com uma fria indiferença, mas enche de alegria. É uma forma de zelo pela Lei e pela glória de Deus, por onde se tem um alívio de ver que, afinal de contas, o Deus das vinganças está se aproximando e vai vencer, e que o Reino de Maria vai chegar. É a única forma de alegria que enche a alma do contrarrevolucionário que abnegou completamente a si mesmo. É essa alegria que eu desejo a todos nesta data. Vamos rezar a ladainha do Imaculado Coração de Maria, uma vez que Nossa Senhora, numa de suas aparições, manifestou-Se com o Coração à mostra, circundado de espinhos.

     

    (Extraído de conferência de 13/5/1969)

  • Um palácio digno e nobre

    Alma voltada para as coisas mais elevadas, Dr. Plinio procurava sempre o maravilhoso. No Palácio dos Campos Elíseos ele via o maravilhoso na mediania, no equilíbrio e na harmonia. Mas discernia o que existe de revolucionário nesse edifício: uma solicitação para o gozo da vida, fator de amolecimento das almas.

     

    Farei alguns comentários sobre o Palácio dos Campos Elíseos(1). Obedecendo ao princípio de pôr em realce também o óbvio, eu queria mostrar o seguinte: nele há um maravilhoso, o qual é feito — e aqui está o segredo do Palácio — de elementos que de si não conduzem ao maravilhoso. É a harmonia desses elementos que dá o maravilhoso.

    Cada mansarda é uma obra-prima

    Todos naturalmente notam que o Palácio é muito simétrico: ele tem um corpo central com duas galerias, uma inferior e outra superior. Na galeria de baixo, os arcos são um pouquinho mais largos — e também mais ornados — do que os da galeria de cima. Na galeria de baixo há uma espécie de moldura em torno de cada arco, tendo bem no centro um elemento decorativo que não existe em cima.

    Em baixo, entre os arcos, existem medalhões de faiança, que em cima são substituídos por outras aplicações de cimento ou qualquer coisa assim, mas muito mais modestos.

    Um espírito banal diria que o Palácio ficaria muito mais bonito se ele fosse tão belo em cima quanto em baixo. Mas perderia completamente. O segredo está exatamente num certo equilíbrio, por onde a parte de baixo parece suportar comodamente a parte de cima que já se perde um pouco no irreal; ela é mais imprecisa, menos nítida do que a parte de baixo. Essa ideia é acentuada ainda mais pelas três mansardas que são, cada uma, uma verdadeira obra-prima. Essas mansardas, por assim dizer, repetem de um modo já meio irreal a galeria.

    Edifício sólido, mas tendente para o alto

    De um lado e de outro há dois corpos de edifício que se projetam ligeiramente para a frente, mas o mesmo princípio está adotado aqui, quer dizer, a projeção é muito maior em baixo do que em cima. Na parte superior, o destaque é muito pequeno; em baixo, é bastante acentuado. De maneira que para compreendermos toda a harmonia existente aqui, deveríamos imaginar como seria o Palácio sem essas caixas embaixo. Ele não ficaria completamente lambido?

    Vejam como tudo é bem estudado, e aqui se desmente a regra, pois as janelas de cima são mais ornadas do que as de baixo.

    Então, alguém poderia me perguntar: “Por que essas janelas não pesam?” Porque elas têm essa caixa na frente, que aguenta o peso do ornato maior. Imaginem que essas janelas de cima não fossem mais ornadas, porém iguais às outras; o Palácio não perderia muito?

    Então, essa discreta harmonia do Palácio é feita em mil equilíbrios.

    Considerem as mansardas. Cada um desses corpos tem apenas uma mansarda. Comparem com as outras; é a mansarda do centro ampliada, mas uma ampliação esplendidamente harmônica com o tamanho do terraço e da parte situada embaixo.

    Todas elas — para dar a ideia de que se perdem no ar — têm três bolinhas em três suportes em cima, que é o voo que o edifício toma, de maneira que temos a impressão de um edifício sólido, assentado na terra, mas tendente para o alto.

    Não tem nada de angélico como um prédio gótico, mas como o homem é um misto de alma e corpo, há muita alma nesse corpo. Não é pura alma como no castelo de Saumur, por exemplo, mas tem muita alma dentro desse corpo, donde agora se explica o que para mim é o encanto do Palácio: ele não é grande nem pequeno; é médio. Ele não é riquíssimo, não é pobre; é digno. Ele não é faustoso nem esplendoroso; é nobre.

    Equilíbrio e harmonia

    Quer dizer, é um Palácio que nos dá tudo quanto pode haver de maravilhoso na mediania, no equilíbrio e na harmonia, e representa, nesse sentido, um valor absoluto. Poder-se-ia dizer que é um exemplo de Harmonia com “H” maiúsculo, porque tudo quanto é sensacional foi eliminado do Palácio. Mas ele, de si, é sensacional. Quando o olhamos, pelo menos a mim, ele se afigura sensacional.

    Esta sensação, creio que a luz dourada, se estivesse bem focalizada, realçaria enormemente. Ele toma um ar de harmonia de sonho, de conto de fadas nessa visão, e é um dos aspectos do Palácio de que eu gosto muito.

    Vou fazer uma comparação prosaica: já imaginaram o Palácio sem aquele portal do lado direito de quem olha? Pareceria uma cara sem a orelha direita, porque do lado esquerdo há outro portal. E ficaria uma coisa que terminaria bruscamente.

    Vejam como aquela “orelha” está bem posta: o tamanho, a largura, mas não visa fazer sensação. Uma pessoa de espírito dito moderno faria uma super entrada com um lustre pendurado. Ele não teria percebido nada, porque é esta leveza discreta — de mãe de família adornada com gala, e não como mulher leviana — que constitui o charme do Palácio. Eu acho que o Palácio é maravilhoso pelo charme.

    Uma coisa bonita é o abaulado do terraço.

    O modo de se perceber a razão de ser de uma coisa é imaginar que ela não estivesse ali. Então, imaginem o teto chato clássico; ele não tiraria algo do Palácio?

    Olhem os medalhões e as cerâmicas: que azul bonito! E ouro sobre azul é a combinação francesa…  São muito bonitos e têm categoria.

    Vida de seriedade, de pensamento e de ação

    Esse Palácio é feito para se levar uma vida de seriedade, de pensamento e de ação. Se morar aí um indivíduo que não for um homem de ação, ele apodrece dentro do Palácio. Tem que ter responsabilidade: é um Palácio para um governo. Responsabilidades gravíssimas, conselhos de Estado apertadíssimos, profundos pensamentos, planos políticos.

     Aqui se faria uma preparação para uma guerra justa, longe da rua e do barulho, uma coisa magnífica: “Ataco assim ou não? Onde é a moleira do adversário? Qual o modo e a hora de dar o golpe?”

    É preciso entender o que é a doutrina de governo, que entra dentro disso. Governo não é principalmente viajar, nem tomar contato com muita gente, mas estar informado, coordenar dados e chamar pessoas.

    Imaginem, numa manhã, um homem muito reflexivo neste Palácio, em seu escritório dando para as árvores, janelas abertas, tudo tranquilo, e ele está fazendo os seus planos.  Planejar é o auge. Aí dá para rezar, fazer meditação, etc.; uma verdadeira maravilha.

    Podemos medir em que atoleiro nós estamos, porque isso no Reino de Maria não poderia existir. Nesse Palácio há Revolução. Estou apontando os lados positivos, mas isso é cheio de lados negativos. Entre outros, uma solicitação contínua do gozo da vida que amolece, e que nós não devemos tolerar.

    Tenho medo desse estilo, porque o convite para o gozo da vida existe, embora precisemos saber ver o que ele tem de bonito.

    Notem como há uma proporção entre um arco e o conjunto da fachada. Depois, entre a altura do arco, e o que resta da altura do edifício. E a porta de dentro, e até de uma portinha; porque essa portinha é indispensável. Se fosse tudo pedra, ficava pesadão.

    Esse embasamento tem exatamente a altura necessária para se perceber que ele existe e para acentuar a ideia de que o Palácio flutua.

    Esse Palácio, apesar de muito sério, é muito leve. Ninguém poderá dizer: “esse pastelão”. Gosto muito desse Palácio.

    Esses prédios antigos têm lugares que nos convidam a estar olhando e pensando fixamente, sem sair. Naquela balaustradazinha, por exemplo, poderíamos ficar olhando o jardim maior e, por uma boa meia hora, estar pensando em tudo e em nada, e quando sairmos, muitas ideias estarão mais maduras. É desse modo que se matura. Assim como existe adega para guardar e decantar vinho, isso é para guardar e decantar gente. É “adega” de gente. v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 12/5/1974)

     

    1) Situado na Av. Rio Branco, bairro Campos Elíseos, em São Paulo. Foi sede do Governo de 1915 a 1965.

     

  • Brasil: país de grande futuro…

    Meditativo desde a mais tenra infância, Dr. Plinio teve ocasião de analisar o interior do Brasil durante uma viagem. A partir de então, concebeu para seu país um futuro de heroísmo e de glória.

     

    Na vida de uma criança há um determinado momento em que ela começa a conhecer melhor os seus próximos e a analisar como é o pai, como é a mãe, como são os irmãos, os tios, o avô, a avó, como são os primos…

    Estabelecem-se então, forçosamente, as afinidades e definem-se as heterogeneidades. Ela vai modelando um conceito e formando uma ideia da família em que nasceu e, também, de quem é ela mesma.

    Essa criança passa a olhar-se no espelho, sem vaidade, e pensa: “Que fisionomia eu tenho? Que efeito causo nos outros e em mim mesmo? Como é o meu nariz? Como é a minha boca? E os meus olhos?” É mais ou menos como uma pessoa que vai dar início a um jogo e alguém lhe ensina quais são as cartas do seu baralho, para saber jogar…

    Quando recebe um elogio, a criança presta atenção e reflete: “Então, sou capaz de tal coisa.” Ou, pelo contrário, ouve às vezes a deploração do pai ou da mãe:

    — Coitadinho, para tal coisa ele não tem jeito.

    E, assim, o menino vai fazendo o balanço da vida… Lembro-me de ter feito isso na minha infância.

    Observando o país de origem

    Depois, em certa ocasião, comecei a analisar também o meu próprio país, pensando: “Brasil… Dizem que é colossal. Aqui está o mapa!”

    Nunca fui afeito a memorizar informações sobre quilômetros quadrados, mas, observando os espaços coloridos do resto da América do Sul, eu me dizia: “O Brasil tem um tamanhão mesmo!” Olhava um pouco o mapa da Europa e concluía: “Como a França, tão gloriosa, é pequena! Como a Itália, a Espanha, a Alemanha, a Áustria e a Inglaterra são pequenas em comparação com o nosso Brasil! Nosso querido Portugal, do qual descendemos: que mãe pequena para um ‘filhão’ enorme!”

    O “miolo” do Brasil

    Em certa ocasião, estando no litoral, de costas para o mar, eu olhava e pensava: “Aí está o Brasil… Que “Brasilão” grande! E pensar que isto se espicha até o Pará e, depois, até o Rio Grande do Sul… Que coisa extraordinária! Mas… isto é como um pão, do qual estou vendo apenas a casca, aqui na praia. Existe também o miolo do pão…”

    Um dia, conheci o “miolo” do Brasil.

    Eu era menino, tinha aproximadamente nove anos, quando fui com meus pais e minha irmã a uma estação termal que começava a se tornar conhecida no Brasil, e de cujas águas esperava-se muito benefício para o estado de saúde de minha mãe: Araxá, em Minas Gerais.

    E fui, então, vendo o Brasil por dentro, entrando no “miolo do pão” até chegar ao coração de Minas Gerais. Eu ia tomando contato com os panoramas e conhecendo um pouco o interior do Brasil.

    A certa altura da percurso, o automóvel em que viajávamos chegou diante de um rio muito vasto(1). Do outro lado havia umas montanhas, e continuava o Brasil. Mas eu percebi por algo imponderável que do outro lado tinha algo diferente.

    Então perguntei:

    — O que é que tem do lado de lá?

    Disseram-me:

    — Do lado de lá é Minas Gerais!

    — Mas, então São Paulo acaba aqui?

    — Sim, acaba aqui e ali começa o Estado de Minas Gerais.

    — Mas é tudo Brasil?

    — Tudo Brasil!

    Um grande livro em branco

    O panorama mineiro, feito de altas montanhas, de planícies muito grandes, me impressionava.

    Ao longo da estrada, viam-se na planície alguns montículos. Perguntei, então, a algum dos mais velhos que viajavam comigo:

    — Que montanhazinhas são essas?

    Ele respondeu-me com naturalidade extrema:

    — Ah! São cupinzeiros.

    — Mas, como?! Estão cheias de insetos?

    — Sim. Eles se reproduzem debaixo do chão e fazem galerias, às vezes até de um quilômetro, e isso causa certa pobreza no solo.

    Aqueles montículos pareciam-me tumores que a terra não deveria produzir! Eu pensei: “É preciso raspar esses cupinzeiros. Como seria nobre e bonito apresentar uma terra restituída à sua fertilidade, porque o homem penetrou nas entranhas do solo e acabou com esses inimigos ridículos e pequenos, que são os cupins. As nações civilizadas, cujas fotografias são usadas como bonitas estampas nos livros de leitura para os meninos, não têm essas bolotas feias!”

    De repente, vi passar umas aves grandes, semelhantes a cegonhas, mas feias, cor de chumbo, com pernas enormes, bico curto, que saíam correndo pela planície — planície sáfara, sem vegetação bonita.

    Perguntei, então:

    — O que é aquilo lá?

    — São seriemas.

    Eu pensei: “Por que essas aves são tão feias? Por que na Europa eu nunca vi essas feridas no chão que são os cupinzeiros? Qual é o papel de tudo isso num panorama? Isto é cenário para quê? Que gênero de fatos deve se passar aqui? Não há algo de futuro do Brasil no cenário que Deus pôs aqui?”

    Em certo momento, avistei duas ou três seriemas e, por entre as pernas delas, vi uma parte das montanhas e um trecho da paisagem. Percebi a beleza que havia em tudo aquilo, e concluí: “Agora entendo para o que servem as seriemas: elas vão correndo por essas vastidões e me ajudam a compreender como é enorme o Brasil. As distâncias não são nada para elas, que correm com uma celeridade de deixar-me pasmo. Entretanto, elas estão apenas no começo de uma corrida pelo Brasil.”

    Aquela imensidão me dava também uma ideia de bênção. De toda aquela natureza se desprendia uma certa atmosfera de possibilidades enormes de amar a Deus e de possibilidades de pecado pavorosas! Parecia-me sentir no ar uma promessa, se o Brasil procedesse bem, e uma ameaça medonha se, pelo contrário, agisse mal.

    E, apesar da censura severíssima ao ambiente, foi-se formando no meu espírito, desde aquele tempo, a ideia de que o Brasil era como um grande livro em branco, onde os homens deveriam escrever uma história de heroísmo e de glória, numa atmosfera de serenidade e doçura, que um dia embelezaria as seriemas e acabaria com os cupins. Era a ideia de um grande futuro…

    Era assim que o Brasil ia nascendo para o meu panorama.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 27/4/1985)

    Revista Dr Plinio 158 (Maio de 2011)

     

    1) Rio Grande.

     

  • No passado perene, o futuro…

    Tomando parte na Liga Hanseática, a cidade de Bremen exerceu um importante papel histórico. Porém, foi a beleza de sua arquitetura que a fez atravessar os séculos.

     

    No decorrer de tantos séculos de História, a cultura europeia revelou que possuía de forma incomum o gosto pelo maravilhoso, no sentido mais profundo do termo: almejava ela, coisas de grande valor e categoria, capazes de produzir no espírito humano uma sensação de enlevo e entusiasmo tão intensa que pareciam transcender a capacidade humana de maravilhamento. E que, ademais, por sua nobreza e distinção, preparavam, em última análise, os espíritos para que tivessem apetência das coisas divinas.

    Esse anseio pelo belo era, portanto, um instrumento natural, utilizado para dirigir e dispôr as almas a fim de receberem o auxílio sobrenatural da graça de Deus, o qual reservara grandes dons para a vida futura, àqueles que Lhe foram fiéis na presente.

    Não obstante, é possível verificar entre os povos outra atitude de alma diversa desta, na qual o maravilhoso não ocupa praticamente lugar algum. Tal como alguém que, vivendo diante de magníficos panoramas marítimos, edificasse sua casa de costas para o mar, não apreciando tão evocativo ambiente.

    Como corretivo para tal defeito, nada há melhor do que exercitar a apetência pelo sublime. Ele pode ser facilmente encontrado nas construções, nos templos e até mesmo nas praças…

    Um exemplo característico é a cidade de Bremen, Alemanha: uma gloriosa cidade medieval, à espera de quem vá contemplá-la.

    Importante papel histórico

    Bremen tomara parte na Liga Hanseática(1), que era constituída principalmente por Hamburg, Lü-beck e Dantzig. Tais cidades adotaram uma forma de governo pela qual a população elegia os representantes para constituírem a câmara municipal. Porém, na realidade, o governo acabava por tocar a uma aristocracia constituída por famílias que se dedicavam ao comercio e à indústria.

    Tal era a pujança da famosa Liga Hanseática, que esta chegou a possuir marinha própria, auxiliando até mesmo aos imperadores do Sacro Império Romano Alemão, e sendo durante certo tempo uma das maiores potências da Europa.

    Dentre as capitais desta Liga estava Bremen. Como essas cidades eram governadas pelas prefeituras, estas se tornavam os símbolos de autonomia da cidade, sendo ornamentadas com dignidade e beleza. Por esta razão, tanto na Alemanha como também nos Países Baixos, lugares em que o municipalismo muito se desenvolvera, encontram-se paços municipais que parecem ser verdadeiros palácios régios.

    Irregular simetria?

    Nesta pitoresca cidade há uma sede municipal chamada “Rathaus”, ou Casa do Conselho. Esta se encontra numa praça que tem ao fundo a Catedral da cidade. A Catedral forma um conjunto com o prédio e com as dependências e os edifícios análogos que se escoram graciosamente em suas paredes.

    De forma irregular, que convém, entretanto, à simetria com a disposição dos edifícios, a praça, provavelmente mais recente, foi idealizada de modo judicioso e muito adequado, com um toque de leveza, devido ao mosaico de pedras que encontra-se no centro.

    Caso fosse possível fazer em alguma parte desta praça uma fonte de água elegante, leve e bonita, até mesmo com as técnicas modernas de iluminação com coloridos diversos — como no Bois de Boulogne, em que há no fundo das fontes, luzes de magníficas cores, causando a impressão de pedras preciosas líquidas; são topázios, ametistas, rubis que estão continuamente elevando-se e caindo —, acrescentar-se-ia um toque ainda mais belo ao ambiente.

    Colocada em lugar um tanto assimétrico, está uma torre antiga, condizente com os demais monumentos, que era provavelmente uma fonte. O urbanismo moderno infelizmente não utiliza fontes de água, o que poderia atenuar, em parte, a irremediável feiura das metrópoles modernas. Todo o ambiente é antigo e medieval, ou ao menos traz as reminiscências desta época, o que se faz notar pelas figuras que adornam os edifícios, a Catedral e até mesmo as ruas.

    Um convite a elevar-se ou… a flutuar

    Em certos períodos da História, o telhado foi muito utilizado pela arquitetura europeia como elemento de decoração. Como na Catedral de Santo Estevão em Viena, e em outros prédios, utilizavam-se diversas cores de ardósia formando belos desenhos. O cobre era também empregado na decoração dos telhados, pois com o passar do tempo ele azinhavra, adquirindo um lindo tom verde-esmeralda, assemelhando-se a uma grande pedra preciosa. O tipo perfeito de telhado não deve pesar, e por outro lado dar a ideia de algo que eleva e convida para subir. Tanto a cor quanto a forma pontiaguda comunicam ao edifício alegria e leveza, pois há um contínuo convite para elevar-se.

    Como se tratava de edifícios públicos, havia reuniões e concentrações populares nas quais era preciso que o povo pudesse reunir-se no edifício, abrigado da chuva. Por essa razão a parte térrea dos prédios é composta de uma série de ogivas que dão para uma galeria aberta, onde as pessoas podiam inclusive passear.

    A totalidade das construções dessa praça causa uma impressão encantadora de leveza, pelas formas pontiagudas e esguias que quase não tocam no solo, com um aspecto de conto de fadas. Para essa leveza concorre também a diferença de cores: verde-esmeralda, vermelho claro entremeado com o bege que se prolonga pelas pedras. Um jogo de cores tão delicado, tão leve, que se tem a impressão de que, colocados sobre uma jangada, esses edifícios passariam para as ondas a flutuar e não iriam para o fundo — aliás, seriam lindíssimos palácios flutuantes. O imponderável que deflui do prédio é de uma grande nave flutuando nesse mar de pedra que é a praça. Este é o Paço Municipal de Bremen.

    Enquanto esse prédio sorri, a Catedral, pelo contrário, transmite uma atmosfera de majestade e de força. Aspecto majestoso, forte e sério que relembra uma das facetas da Santa Igreja, que é sua divina severidade. Quando bem construída, toda igreja espelha um aspecto da Religião Católica.

    O efeito produzido pelas lindas e imensas torres da Catedral é como alguém que afirmasse: “Isso mesmo! Não só afirmo e finco o pé no chão, mas levanto a cabeça, e com toda a altura de minha estatura te olho, ó transeunte, para te dizer que a Igreja nunca muda, que a Igreja não passa, que Ela é eterna, e que tu tens que olhar com respeito para a severidade dos princípios que Ela emite.”

    O tempo passou inclemente, mas as pedras aguentaram altaneiras os percalços e as intempéries, produzindo a impressão de consistência pelo embate de mil tempestades pelas quais tiveram de passar, o que lhes dá um aspecto de seriedade e de sabedoria. Isso produz um choque ou uma discrepância harmônica com o restante dos edifícios que compõem a praça. É o maravilhoso da severidade, do combativo, do altaneiro, ao lado do maravilhoso, do delicado, do gracioso, do harmonioso, do flutuante. São duas formas diversas do maravilhoso que, juntas, constituem pelo seu próprio contraste uma só única e harmoniosa maravilha. Essa é uma das mil maravilhas da maravilhosa Europa antiga…

    A alma medieval era profundamente embebida pelo sobrenatural, ao ponto de realizar, mesmo sem a intenção expressa, maravilhas como esta. Era uma sabedoria esparsa por toda a Idade Média, e um patrimônio comum da Cristandade, que levava as pessoas a agirem bem e fazerem as coisas retamente, muitas vezes até sem saber bem o porquê; era o dom de sabedoria entranhado nas almas. Nesse estado de alma, era-lhes possível encontrar todos os tesouros da sabedoria. Pois os sentimentos mais profundos do homem apresentam-se muitas vezes da seguinte forma: para uma mãe que sabe tratar de seus filhos, não é necessário estudar Pedagogia para ser uma excelente mãe. Do fundo de seu amor materno, instintivamente, ela retira os recursos para ser uma boa mãe. É melhor do que se ela tivesse estudado.

    A arte perfeita na era da perfeição!

    As técnicas atuais descreveriam esse edifício de modo inteiramente oposto ao que foi aqui realizado. Entretanto, a técnica pura não move e, pelo contrário, tende a matar o espírito. Talvez dissessem: “Rathaus” da cidade de Bremen, século tal; material empregado: pedras especiais que se encontram em tal montanha, de onde lhe vem, por uma reação química, a consistência e a durabilidade de seu vermelho. Foram trabalhadas em estilo românico e renascentista, sob as ordens de tal mestre no século tal. Existem arcadas que medem tanto por tanto. Neste edifício passaram-se os seguintes fatos históricos: foi aí proclamada a famosa insurreição de Bremen contra seu governador; também aí soou pela primeira vez o alarme pela penetração das tropas napoleônicas em Bremen, em tal ocasião; duramente bombardeada durante a Primeira Guerra Mundial, serviu de Quartel-General aos aliados.

    A explicação apresentada desta forma causa-nos a sensação da descrição de um cadáver reduzido ao esqueleto, onde não restou nada mais que a ossatura. Um jovem que fosse a um museu e lá ouvisse uma explicação como esta, dificilmente sairia entretido.

    De outra forma, quando são realçados os aspectos sublimes e elevados desse ambiente, dos costumes aí vividos e da civilização que edificou este local, tudo parece tomar novo vigor, produzindo a sensação de perenidade. Pois se é verdade que Deus existe, não seria possível que uma coisa como esta estivesse definitivamente morta. Ele não pode permitir que algo assim desapareça, e que nunca mais algo de análogo venha a brilhar como um valor que oriente os homens. Se isso acontecesse, certamente o mundo acabaria, porque a glória de Deus não poderia permitir que haja novos séculos e novas civilizações construídas sobre o conspurcado.

    A certeza de que virá algo imensamente superior e mais belo do que foi realizado no passado, enche-nos a alma, robustecendo nossa esperança na vinda de uma era onde Nossa Senhora reinará plenamente: o Reino de Maria. E nisso consiste a perspectiva última do maravilhoso: ver no passado o perene; no perene, o futuro.

    Compete, portanto, aos filhos da luz, explicitar tudo aquilo que o medieval possuía implicitamente, pois esse é o requinte da perfeição. Explicitar para viver, mas também para dar maior coesão e consistência ao Reino de Maria, criando uma escola de pensamento que comunique uma intenção consciente e harmônica, porém não-racionalista, vinda do sentimento em sua boa espontaneidade, para a elaboração de um estilo artístico inédito.

    Será a arte medieval? Será outro estilo de arte? Os românicos não podiam imaginar o gótico, e inesperadamente o gótico apareceu. Não se pode saber, mas não sendo o gótico, será algo mais gótico do que o próprio gótico. Pois o caminho foi encontrado, e desse caminho não se sairá mais. v

     

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 14/8/1967)
    Revista Dr Plinio 146 (Maio de 2010)

     

    1) Aliança de cidades mercantis que manteve o poder de comércio sobre quase todo o Norte da Europa e o Mar Báltico.

     

  • Escravidão de amor, desponsório místico e troca de vontades

    Cada pessoa deve procurar levar uma vida de tal modo unida a Nosso Senhor que seus pensamentos, olhares e gestos, por mínimos que sejam, se conformem à mentalidade do Redentor.

     

    Pedem-me para comentar a frase de São Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20). Embora nunca tenha lido comentários de exegetas sobre isso, vou dar a impressão que me causa este texto tão conhecido.

    Cada um deve atingir um tipo de santidade para imitar perfeitamente Nosso Senhor

    Nosso Senhor Jesus Cristo tem a respeito de cada um de nós um desígnio enormemente abrangente. Um modo superficial de considerar o texto de São Paulo seria afirmar que “não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” significa realizar os desígnios de Nosso Senhor a meu respeito e, portanto, devo abandonar meu próprio egoísmo e fazer a vontade d’Ele. Nisto está a vida d’Ele em mim.

    Tudo isso é correto, mas é uma concepção muito limitada a respeito dessa vida d’Ele em cada um de nós. A meu ver, chega-se ao fundo do assunto considerando o seguinte:

    O desígnio de Nosso Senhor para cada homem não é apenas que um, por exemplo, seja religioso; outro chegue a uma alta posição num governo e faça um decreto estabelecendo a união entre a Igreja e o Estado, em termos muito convenientes para a Igreja; e que outro funde uma escola, uma Universidade Católica… Sem dúvida, isso tudo faz parte dos desígnios da Providência, mas nunca, absolutamente nunca, os desígnios divinos sobre um homem se cifram exclusivamente naquilo que se poderia chamar a obra da vida dele.

    Deus tem o desígnio de que sejamos inteiramente configurados em nossa alma, de maneira a realizar um tipo de santidade, pela qual, sendo cada qual o que é, imite a Ele perfeitamente, dentro desta via que procede das peculiaridades de cada um. E seja, por assim dizer, uma reedição d’Ele. É isso que Ele quer.

    A personalidade de Deus é imensamente rica. E todos os homens que Ele criou, desde Adão até os últimos que vão existir, constituem uma série dentro da qual cada um deve imitar a personalidade d’Ele num ponto, como se Ele não tivesse sido senão aquilo. Assim todos os homens repetem de algum modo, num grau maior ou menor, Nosso Senhor Jesus Cristo, à maneira de uma coleção. De maneira que, visto o conjunto, dê uma superimagem de Nosso Senhor que apresente no Céu uma noção global d’Ele. De modo que Ele, olhando a humanidade toda glorificada no Céu, Se veja representado. E nessa representação encontre sua glória.

    Esse é um pensamento que tem seu fundamento no fato de Deus ter feito a Criação ao longo de seis dias, e no sétimo descansou. E ao contemplar os seres criados, viu que cada coisa era boa, mas o conjunto era melhor (cf. Gn 1, 31).

    O modo de fazer todas as coisas envolve uma perfeição espiritual

    Assim também a Nosso Senhor Jesus Cristo, enquanto Homem-Deus, vai ser dada essa glória de que todos os homens no Céu, no seu conjunto, representarão a Ele, como a Criação representa a Deus. Cada bem-aventurado no Céu O representa bem, mas o conjunto representa melhor, e proporciona uma noção global d’Ele que nenhum homem deu; exceção feita da Santíssima Virgem. Porém Ela também faz parte do conjunto que representa a Ele, embora seja a parte mais esplêndida, mais gloriosa — de longe! — entre as meras criaturas. A tal ponto que sem Nossa Senhora tudo isso não valeria nada; mas com Ela vale inimaginavelmente.

    Então, Ele quer que eu toque toda a minha vida — mas a minha vida abrange meus olhares, meus pensamentos, meus gestos, por mínimos que sejam, e que, no fundo, exprimem algo de minha mentalidade. Ele quer que seja como a mentalidade d’Ele, vista nesse ângulo minúsculo que se chama “a individualidade de Plinio Corrêa de Oliveira”. Mas isso é assim com todos aqueles que andam pela rua, inclusive os que estão se perdendo.

    Por exemplo, eu poderia agora querer um copo d’água. Do ponto de vista moral, é inteiramente indiferente que eu beba ou não a água. Mas se eu bebê-la agora de modo oportuno, temperante, agirei de acordo com Ele; se eu ingerir essa água de um modo inoportuno, intemperante, por uma razão sem fundamento, embora o beber água seja neutro, a ocasião escolhida por mim para ingeri-la envolve uma razão moral.

    O modo de fazer todas as coisas neutras envolve uma perfeição espiritual, com vistas a fazer a vontade d’Ele e ser a cópia d’Ele em tudo, mas aquela cópia que só eu serei, e mais ninguém. Se eu ratear, ninguém mais fará; e se fizer bem feito, estará bem feito por toda a eternidade.

    Isso envolve a nossa vida inteira, em dois sentidos: toma-nos por inteiro, de um lado; e, de outro lado, é por uma vida procedida d’Ele que somos capazes disso. Porque Ele vê que pela nossa mera natureza humana, em consequência do pecado original, somos incapazes de alcançar essa perfeição. Por esta razão recebemos d’Ele a vida da graça, dom criado por Ele, que é uma participação na sua vida divina. Recebemos essa participação e passamos a viver com uma categoria por onde participamos da vida do próprio Deus, o que nos torna capazes de realizar o plano d’Ele a nosso respeito.  

    Portanto, se eu considero minha vida assim e me entrego a isso, posso dizer que já não sou eu que vivo; nesse sentido de que não faço os meus planos, senão os planos de Deus.

    É Ele que vive, mas de um modo singular, porque não sou como uma marionete nas mãos de Deus. Eu entendo, quero e sinto por iniciativa minha, proveniente da graça d’Ele, como Ele queria que eu fizesse. Ou seja, é um penetrar fundo, como mais profundo não se pode penetrar.

    Belezas que dão realidades extraordinárias

    Assim, compreendemos também os segredos da misericórdia de Deus, porque entendemos bem o amor que Ele tem a cada um de nós, para chegarmos a tal ponto que estejamos unidos com Ele. Quer dizer, ao sermos criados Deus teve o plano de que tal perfeição d’Ele, que nunca ninguém teria conhecido — ao menos entre os homens e exceção feita, naturalmente, de Nossa Senhora —, brilhasse em nós; é como se Ele tirasse de dentro de Si mesmo um raio de luz e o desse para nós. E é um dos como que infinitos modos de ser d’Ele. Ou seja, fazendo-nos isso, não poderia deixar de nos amar infinitamente, porque Ele é infinito.

    O amor que o Criador tem a nós é um reflexo do amor que Ele tem a Si próprio. Compreende-se melhor também por que Nosso Senhor morreu por nós: para termos a graça e podermos realizar esse plano.

    Estou apenas coligando dados correntes da Doutrina Católica. Mas esses dados conduzem a um plano suntuoso, fabuloso! E de um gênero de união como não se pode imaginar que exista, nem d’Ele conosco, nem entre nós. Porque como duas quantidades ligadas a uma terceira estão ligadas entre si, vê-se como o nexo existente entre todos os filhos da luz é uma coisa seríssima, gravíssima, dulcíssima.

    Há uma realidade mais bonita ainda, que é a seguinte: De fato, nós constituímos assim um todo chamado Humanidade, que Deus honrou unindo a natureza humana hipostaticamente a Ele. Mas essa Humanidade é apenas uma unidade do universo, porque nós fazemos parte da Criação. E na Criação existem os Anjos; se bem que a união hipostática não se tenha dado neles, os Anjos por sua natureza são muito superiores a nós, são puros espíritos. E os Anjos deveriam realizar um universo assim também. Mas eles não realizaram porque muitos deles apostataram, e se tornaram demônios.

    Os planos se superpõem, de maneira que nessa sociedade dos homens, tomados os que se salvem e entrem para o Céu, eles preenchem o lugar dos anjos decaídos. E nós ao mesmo tempo formamos com os Anjos um todo à parte. É de uma grandeza desconcertante! E isso, mais o Céu empíreo, mais a Criação que vai continuar — Sol, Lua, tudo isso vai continuar — forma então o todo dos todos, no pináculo do qual está Nossa Senhora, que é mera criatura. E acima d’Ela, Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Compreende-se nesta perspectiva a Encarnação, o “Verbo Se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14); tudo isso forma, por sua vez, belezas que dão realidades extraordinárias, feitas para serem meditadas por cada um de nós.  

    Às vezes nos regalamos, por exemplo, com um dito espirituoso francês. Entretanto muito mais são de regalar as coisas que Deus diz e faz. No Céu nós vamos contemplar isso eternamente.

    E pensar que se põe em risco toda esta maravilha, por um mau olhar na rua… Cai-se morto na hora e vai-se para o Inferno. Quer dizer, o que nós nos expomos a perder, a qualquer momento, é uma coisa inimaginável! Somos uns doidos, uns cretinos, nem sei dizer o que somos, quando nos arriscamos a perder isso!

    Desponsório místico que se realiza na alma de cada um que se entrega a Nosso Senhor

    Há, entretanto, outra realidade a considerar que constitui um universo dentro desse universo.

    Está na intenção de Nosso Senhor que certas perfeições d’Ele sejam especialmente representadas por outras criaturas; e para que essas perfeições brilhem bem, Ele quer uma família de almas. Então, às vezes, é uma nação; outras vezes, uma área de civilização; às vezes uma Ordem religiosa. São famílias de almas chamadas a representar de algum modo uma determinada perfeição ou uma constelação de perfeições d’Ele.

    De todas essas representações, a família religiosa é a que tem mais riqueza de representação dos que as outras, porque a natureza do vínculo criado por ela é muito mais forte do que nas outras.

    Entre os indivíduos de uma mesma pátria, por exemplo, há aquela vinculação natural baseada em tradições e laços históricos. Nesse conjunto natural há também os elementos sobrenaturais, que levam a constituir-se uma grande nação católica a qual pode formar um corpo místico dentro do Corpo Místico.

    A doutrina do Corpo Místico chega a tal ponto que, por exemplo, eu vi certa vez uma referência antiga, da Idade Média, ao “corpo místico da Universidade de Paris”. A Universidade de Paris naquele tempo era uma espécie de crisol de ortodoxia muito especial, que a Santa Sé tomava muito em consideração.

    Assim também uma família religiosa constitui um “corpo místico”, no qual o Fundador deve representar de modo mais excelente as qualidades que o corpo todo tem que espelhar. Mas cada um dos membros daquela família, chamado a espelhar determinada perfeição de Nosso Senhor, reflete essa qualidade enquanto existente no Fundador, e é uma repetição do Fundador, como o conjunto dos fundadores é uma repetição de Nosso Senhor.

    Então, os vínculos de alma entre súdito e Fundador tomam toda a analogia com as relações existentes na sagrada escravidão a Maria, ensinada por São Luís Maria Grignion de Montfort.

    A meu ver, a escravidão de amor não é senão o desponsório espiritual visto em seus efeitos. Porque se Nosso Senhor Jesus Cristo é o Esposo e a Igreja a Esposa, isso significa que a alma fiel deve portar-se face a Ele com a receptividade, o amor, a docilidade da verdadeira Esposa em relação ao verdadeiro Esposo.

    Cada um de nós é um membro dessa Igreja. Portanto, esse desponsório místico se realiza na alma de cada um de nós.

    Então, se alguém resolve fazer-se escravo de Nosso Senhor para ser obediente a tudo quanto os representantes d’Ele nos mandam, isto se dá por causa de um desponsório místico havido anteriormente, e que nós queremos tornar mais efetivo, mais consistente, mais durável, exatamente por meio dessa submissão.

    Creio que a troca de vontades é a própria essência dos desponsórios. Feita a troca de vontades, está realizado o desponsório místico, o qual é um processo que se consuma no momento em que as vontades se uniram completamente. Assim, compreende-se que a escravidão de amor, o desponsório místico e a troca de vontades sejam aspectos de um mesmo processo unitivo; eles vão quase se revezando ou se sucedendo numa mesma realidade total.

    Mas o ponto de partida é o momento em que nos enlevamos por Nosso Senhor Jesus Cristo, por Nossa Senhora, pela Igreja, e nos maravilhamos de tal maneira que aceitamos que Ele nos governe como acabo de expor. É a realização da frase de São Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”. 

     

    Plinio Corrêa de Oliveira, (Extraído de conferência de 9/7/1988)