Autor: Nelson

  • Vinde, consolador das almas desoladas!

    Tocado de modo especial pela prece de Santo Agostinho ao Espírito Santo, Dr. Plinio no-la comenta, aproveitando a oportunidade para nos incutir uma fervorosa e humilde confiança no auxílio do Divino Esposo de Maria — tanto mais humilde e fervorosa, quanto mais sentirmos o peso de nossas debilidades e carências.

     

    No ensejo da Festa de Pentecostes, creio que seria oportuno considerarmos algumas das belas invocações que Santo Agostinho dirige ao Divino Espírito Santo, na oração por ele composta [em destaque na página 21].

    Amparo e remédio em nossas aflições

    Vinde, vinde doce consolador das almas desoladas, refúgio no perigo e protetor na aflição desamparada.

    Nesse pensamento do santo se nota a ideia de uma doçura forte ou de uma força doce. Com efeito, é próprio ao sabor das coisas celestes nos fazer sentir a bondade e a suavidade de Deus, ao mesmo tempo que nos comunicam uma grande firmeza espiritual.

    Por exemplo, quando somos tocados por uma graça especial que nos comunica algo da doçura do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria, nos tornamos mais resistentes às tentações, mais fortes no perigo, mais perseverantes na Fé.  Quer dizer, trata-se de uma doçura que comunica força.

    Doce consolador das almas desoladas, diz Santo Agostinho. A desolação é uma espécie de auge de tristeza. Quando, na linguagem comum, alguém se mostra desolado, significa que experimenta um grande pesar, e nele não há quase senão tristeza. Para momentos de desolação, é o Espírito Santo que nos consola, ou seja, nos recobre de força para enfrentarmos a dificuldade.

    Por outro lado, é nosso refúgio nos perigos.  Quais perigos?  Não são, primordialmente, os que afetam o corpo, mas a alma. Nossa salvação depara, a todo momento, com circunstâncias adversas que a comprometem. Nessas horas de incerteza, nosso refúgio e protetor é o Espírito Santo, com suas graças e sua ação nas profundidades de nossa alma.

    Essa verdade nos deve incutir extrema confiança no Céu e, particularmente, na intercessão de Nossa Senhora. Quantas vezes, ao considerarmos nossos problemas e defeitos, nos pomos desanimados e hesitamos no caminho da salvação! Pois bem, cumpre termos então em vista que o Espírito Santo é o Esposo da Virgem Santíssima, e não recusa coisa alguma a Ela. Portanto, nossas preces, feitas por meio da Esposa Imaculada, serão sempre ouvidas pelo Esposo Divino. Tenhamos ânimo e coragem, pois em todas as nossas necessidades, encontraremos remédio no Espírito Santo.

    Além disso, Ele é também o que nos protege em nossas desventuras, em nossos desamparos semeados de aflição. Quantas situações de vida espiritual não existem assim?  Rezamos, imploramos, e quando menos imaginamos, qualquer coisa nos toca a alma e nos sentimos aliviados. É a ação do Espírito Santo no fundo de nossos corações, ordenando-os e os tranquilizando.

    Purificador das nossas misérias

    Vinde, Vós que lavais as almas de suas sordices e que curais suas chagas.

    Assim se exprimindo, Santo Agostinho quis assinalar como o Espírito Santo é, por excelência, quem lava as almas de suas misérias e as cura de suas chagas.

    Mais uma vez aparece a ideia de um alento cumulado de doçura. Compreende-se: não raro, as pessoas consideram o interior de suas almas e as percebem tomadas de tantas chagas purulentas, de tantas sordices, que tendem ao desânimo. Como não desanimar? Não sentem forças para vencer a si mesmas!

    Ora, esse é o momento de intervir a graça do Espírito Santo. Ele nos traz aquela força do Céu, com imensa suavidade, como uma luz dulcíssima, que penetra no âmago da nossa alma e a cura, a rejuvenesce. Tenhamos a certeza desse auxílio, e sentiremos outro ímpeto, outra coragem para subir, para continuar em frente no caminho da virtude.

    Doutor das almas humildes

    Vinde, doutor dos humildes e vencedor dos orgulhosos.

    Outra bela invocação: Doutor dos humildes. O Mestre que esclarece e ensina às almas humildes, antes de tudo em face d’Ele. Ou seja, aquelas que reconhecem as próprias limitações e sabem que somente o Divino Espírito Santo possui a solução para todos os nossos problemas.

    Aquelas que compreendem a necessidade da oração perseverante, a importância de pedir, implorar, e de fazê-lo com humildade. Eu, Plinio, sozinho, nada resolvo, porque não sou capaz de solucionar todas as dificuldades. Mas, se eu rezar ao Espírito Santo, por meio de Nossa Senhora, Ela, que é Mãe de Misericórdia, pedirá por mim e me alcançará as graças de que preciso. Esse é o caminho fácil, seguro e rápido para ser atendido. Essa verdade deve me manter alegre e de pé no meio das aflições pelas quais  todo homem passa nesse vale de lágrimas.

    Somos órfãos na peregrinação por este mundo

    Vinde, pai dos órfãos, esperança dos pobres, tesouro dos que estão na indigência.

    Essa invocação também nos leva a considerar o ponto que Santo Agostinho teve em vista ao compor a prece: a santificação daquele que a reza. Então, implora ao Pai dos órfãos.

    De fato, quanto órfão há em matéria de vida espiritual! Se pensarmos, por exemplo, em todos aqueles que, num bendito dia, encontraram a vocação de servir a Igreja em nosso movimento, podemos dizer: “Se não fosse o fato de terem sido tocados pela graça e seguido o chamado de Deus, o que seria deles? A quantos riscos de se extraviar nos caminhos desse mundo estariam expostos? Como haveriam de, no fundo, sentir‑se órfãos?”

    O pensamento é mais pungente: como o homem, ao longo da viagem nesta terra, é um órfão! Ainda que ele atinja os 80 ou 90 anos, é um órfão. Donde, essa bela invocação ao Divino Espírito Santo, como Pai daqueles que sentem a terrível orfandade dessa vida.

    Esperança dos pobres, tesouro dos que estão na indigência. Antes de tudo, os pobres de espírito, que não têm nada a esperar e que, internamente, sentem sua própria carência, sem título nem méritos que os autorizem a pedir alguma coisa. Vivem somente da misericórdia. Desses é o Divino Espírito Santo o Pai de bondade e acessibilidade infinitas. É o seu tesouro inesgotável: peçamos, com confiança e humildade, e Ele, a rogos de Maria, nos ouvirá.

    Estrela dos navegantes, porto seguro dos náufragos

    Vinde, estrela dos navegantes, porto seguro dos náufragos.

    Santo Agostinho expressa aqui dois conceitos que se relacionam. Primeiro, refere-se ao Espírito Santo como a estrela dos navegantes. O que lembra a invocação a Nossa Senhora como Estrela do Mar, o norte dos que navegam pelas águas turbulentas desta vida. Ora, pergunta-se: convém aplicar a Nossa Senhora o que Santo Agostinho afirma do Espírito Santo?

    Sim, pois o que se diz do Esposo, se diz ao mesmo tempo da Esposa. Maria é a estrela dos navegantes por ser a Consorte mística daquele que é, por excelência, o astro de luz divina que nos guia pelo mar da existência terrena, com seus riscos, problemas, aflições.

    Em segundo lugar, Santo Agostinho se refere aos náufragos. Quer dizer, o navio se estraçalha, o passageiro se agarra a um destroço e vai por onde as águas tocam. De repente, as correntes marítimas o levam para junto de um porto. Este porto é o Divino Espírito Santo.

    Quer dizer, os vagalhões das tentações e das paixões impelem a alma do homem de um lado para outro. Ele se vê entregue às apetências mais desregradas, aos assomos de orgulho mais tumultuados, aos desregramentos sem remédio. Para ele, não há mais porto. Não? Engano. Sempre haverá, graças à intercessão misericordiosa da Santíssima Virgem junto a seu Divino Esposo. São Eles o porto seguro dos que naufragaram.  Rezem. Entrem nesse porto, e tudo se resolverá.

    Salve, ó Deus, o que vai morrer te saúda!

    Vinde, força dos vivos e salvação dos moribundos.

    Outro belo jogo de conceitos: força dos vivos e salvação dos que morrem. Para o vivo, a existência terrena é uma luta na qual ele necessita de forças sempre renovadas.  Mas, ao morrer, precisa de uma graça especial, própria àquele supremo momento, a graça da boa morte. E essa salvação do moribundo está ao alcance de todo aquele que a implora ao Espírito Santo.

    Essa circunstância lembra a pungente cerimônia que, na Roma antiga, desenrolava-se nas arenas onde se davam os jogos de gladiadores. Estes entravam em ordem, cada qual com suas armas de combate, paravam diante da tribuna do Imperador e bradavam, em latim: “Ave Caesar, morituri te salutant — “Ave, ó César, os que vão morrer te saúdam!”

    Pungente! O César — o mais das vezes um soldado tosco e cheio de vícios, acomodado na segurança da tribuna imperial — vê se aproximarem dele, em passo de marcha, jovens robustos, munidos de espadas, tridentes, redes e lanças, para começar o combate, e que lutarão apenas para diverti-lo. Situação triste na vida, mas infelizmente assim se apresentava: aqueles eram os “morituri”.

    Ora, numa comparação não desprovida de beleza, todo homem, na iminência da sua morte, pode dizer, não a um César impudico, mas a um Deus infinitamente perfeito:  “Ave, ó Deus, o que vai morrer te saúda!”  É a derradeira saudação antes da morte. Pois bem, para que essa saudação seja ouvida como um pedido de clemência e salvação, façamo-la ao Divino Espírito Santo, sempre a rogos de Maria, sem a qual nada alcançamos.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 20/5/1990)

     

  • Não perdi nenhum!

    As considerações a respeito da solenidade de Pentecostes, por vezes se ignora um aspecto essencial, tão bem salientado por São Luís Grignion de Montfort no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem: “Quanto mais, em uma alma, Ele [o Espírito Santo] encontra Maria, sua querida e inseparável Esposa, mais operante e poderoso Se torna para produzir Jesus Cristo nessa alma, e essa alma em Jesus Cristo” (n. 20). Somente dessa maneira se tornará efetiva a renovação da face da Terra.

     Renovação que deve ser iniciada na alma de cada fiel, de maneira a ele se tornar uma tocha ardente de amor a Deus para atear em toda parte o fogo do Espírito Santo. Sem essa iniciativa misericordiosa da graça, com a vinda do Paráclito sobre as almas, pouco poderemos esperar do insuficiente esforço humano. “Em Pentecostes — comenta Dr. Plinio — os Apóstolos estavam reunidos em torno de Nossa Senhora, e eles rezavam. Se não fosse eles rezarem, podiam fazer a ascese que quisessem, não chegariam ao ponto onde chegaram num minuto, quando, atendendo aos rogos de sua Mãe, Nosso Senhor cumpriu a promessa enviando o Espírito Santo. Num minuto eles se transformaram”.(1)

    É, pois, a difusão da verdadeira devoção a Nossa Senhora condição indispensável para o novo Pentecostes desejado pelas almas santas e requerido pela glória divina. É Maria que “produziu, com o Espírito Santo, a maior maravilha que existiu e existirá — um Deus-homem; e Ela produzirá, por conseguinte, as coisas mais admiráveis que hão de existir nos últimos tempos. A formação e educação dos grandes santos, que aparecerão no fim do mundo, Lhe está reservada” (n. 35), afirma São Luís Grignion.

    Em consequência, tomando as palavras do santo mariano, podemos afirmar que a grande questão de nossos dias, na perspectiva sobrenatural, não é outra senão saber: “Quando chegará o dia em que as almas respirarão Maria, como o corpo respira o ar? Então, coisas maravilhosas acontecerão neste mundo, onde o Espírito Santo, encontrando sua querida Esposa como que reproduzida nas almas, a elas descerá abundantemente, enchendo-as de seus dons, particularmente do dom de sabedoria, a fim de operar maravilhas de graça” (n. 217).

    Veremos, então, a transformação de povos inteiros por meio do que São Luís Grignion denomina o Segredo de Maria. Será, comenta Dr. Plinio, “uma operação da graça tal que se diria que a alma, objeto dessa operação, não tem mais livre-arbítrio, embora isto seja o auge do livre-arbítrio. Eu já vi almas passarem de repente por transformações tais, que me pareciam estar privadas do livre-arbítrio, de tal maneira elas mudavam e floresciam […]. Esse dia, creio eu, virá afetuosamente, amorosamente, pacientemente, de maneira que Nossa Senhora olhará para todo o rebanho d’Ela e dirá: ‘Eu Vos dou graças, meu Deus, porque de todos os que Vós me destes, Eu não perdi nenhum.’ Ela nos acompanhou pelos extravios, pelas infidelidades, pelas prostrações, pelas conspurcações, pelos olvidos, pelas ingratidões, por toda a poeira e lama do caminho. Mas a todo o mundo e a cada um, em determinado momento, Ela terá dito a palavra que os salvou”.(2)

     

    1) Conferência de 1/9/1973.

    2) Conferência de 26/4/1974.

  • Pentecostes

    “Emitte Spiritum tuum et creabuntur, et renovabis faciem terrae! — Senhor, mandai o vosso Espírito e todas as coisas serão criadas, todas as coisas reviverão, e a face da terra será mudada.”

    Onde o Divino Espírito Santo se faz presente, Ele vence, assim como venceu no dia de Pentecostes, depois de descer sobre os doze Apóstolos reunidos no Cenáculo. Transformados, estes passam a pregar aos habitantes de Jerusalém. As conversões se tornam torrenciais. O inesperado se realiza. Homens de todas as partes do mundo se deixam tocar e mudam completamente, como outros tantos pregoeiros da grande nova: “Um Deus nasceu, um Deus se encarnou numa Virgem; morreu por nós e nos resgatou. As portas da salvação se abriram para nós!”

    Tinha início a aurora da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, nimbada de glória a partir de Pentecostes.

  • Auxiliadora na defesa da Fé

    A invocação de Nossa Senhora Auxiliadora lembra-nos, antes de tudo, a sua ação em defesa da Fé Católica.

     

    A invocação de Nossa Senhora Auxiliadora dos Cristãos foi introduzida na Ladainha Lauretana por São Pio V, em comemoração à vitória alcançada contra os turcos, em Lepanto. A festa foi instituída por Pio VII em ação de graças por sua volta a Roma depois de ter sido preso por Napoleão.

    Auxiliadora sobretudo na dilatação da Fé

    Sobre a devoção a Nossa Senhora Auxiliadora, temos aqui uma ficha tirada da “Vida e Obra de D. Bosco”(1).

    Os companheiros de D. Bosco notaram que desde o ano de 1860, ele começou a chamar e invocar a Santíssima Virgem com o título de Maria Auxiliadora, “Maria Auxilium Christianorum”. Ele era devotíssimo — e o foi sempre — da Imaculada Conceição. Todas as suas grandes obras começaram num dia 8 de dezembro. Agora, unia sempre os dois títulos dizendo: Maria Imaculada Auxiliadora. Era que em novos sonhos a Virgem lhe havia ordenado que este devia ser o distintivo da congregação.

    Num dia de dezembro de 1862, diante de um grupo de meninos que jogava disse:

    — Vede aquele lado do pátio? Ali vamos construir uma igreja magnífica à Mãe de Deus. Como devemos chamá-la? Chamá-la-emos Maria Auxiliadora. Até agora temos celebrado com solenidade e pompa a festa da Imaculada Conceição, e continuaremos a fazer o mesmo. Mas, além disso, a mesma Virgem Santíssima quer que a honremos com o título e a invocação de Auxiliadora. Os tempos que correm são tão tristes e temos verdadeira necessidade de que a Santíssima Virgem nos ajude a conservar e defender a fé cristã como em Lepanto, como em Viena, como em Savona e Roma. Ela o quer e aqui virão multidões imensas implorar o auxílio onipotente da Virgem Santíssima.

    Alguém objetou:

    — Mas isto custará muito dinheiro.

    Respondeu D. Bosco:

    — A Virgem é quem paga. Ela quer sua igreja, e é natural que pense em pagar seus gastos. Mas para isto temos que merecer.

    Nossa Senhora, enquanto auxiliadora, gloria-Se de dar aos cristãos toda espécie de auxílio, tanto nas necessidades espirituais quanto nas materiais, desde que esteja de acordo com a vontade de Deus e seja em benefício de nossa alma. A questão é pedir. Quando se pede com afinco se obtém. E se não obtemos aquilo que pedimos, obtemos qualquer outra coisa muito melhor.

    Entretanto, vemos que D. Bosco entendia Nossa Senhora como Auxílio dos Cristãos principalmente para a defesa da Fé e para a luta em prol da Causa Católica. Ele fala dessa necessidade lembrando Lepanto, o grande cerco de Viena contra os turcos, Savona e as complicações de Pio VII com Napoleão.

    Devemos, então, invocar Nossa Senhora Auxiliadora e pedir sua intercessão muito frequentemente em nosso apostolado, nas situações difíceis, que vão andando de um modo lento, casos complicados de alma, etc.

    Ela é Auxiliadora dos cristãos na dilatação da Fé, na luta pela Fé. E as coisas difíceis que empreendemos pela Fé devemos pedir a Nossa Senhora que nos ajude a levar a cabo

    Auxílio nas grandes e pequenas coisas

    1. Chautard(2) condena o erro das pessoas que pensam: “Deixe que Deus me ajude nas circunstâncias excepcionais, que nas situações comuns eu me arranjo sem Ele”. Isso é errado; devemos contar com o auxílio de Deus e de Maria Santíssima em todas as circunstâncias, inclusive nas muito pequenas. Naturalmente, esta necessidade cresce nas situações importantes e nas mais improváveis.

    Há uma invocação a Santa Rita de Cássia, que eu gosto muito: “Santa Rita dos impossíveis”. Outra forma de nos referirmos a Nossa Senhora Auxiliadora seria “Nossa Senhora dos Impossíveis”, que obtém aquilo que humanamente falando é impossível, sem saída. Isso Ela obtém, sobretudo, em ordem à vitória da Igreja e à salvação das almas.

    Certas revelações particulares nos falam dos últimos tempos e nos apresentam Nossa Senhora como auxiliadora. Haverá um determinado momento em que certo pugilo católico estará completamente perdido. E então um chefe invocará São Miguel Arcanjo que, por ordem de Nossa Senhora, virá auxiliar os católicos, ganhará a batalha, cairá o poderio do demônio e nascerá o Reino de Maria.

    Devemos ter isto em mente: é a Santíssima Virgem quem auxilia, intervém. A todo momento devemos pedir a Ela esse auxílio. Recomendo esta intenção para ser muito ardentemente visada no dia da Festa de Nossa Senhora Auxiliadora.

    Oração a Nossa Senhora Auxiliadora

    Vamos agora ler uma oração composta por São João Bosco a Nossa Senhora Auxiliadora:

    “Ó Maria, Virgem poderosa, Vós, grande e ilustre defensora da Igreja; Vós, auxílio maravilhoso dos cristãos; Vós, terrível como um exército em ordem de batalha; Vós, que destruístes as heresias em todo o mundo, nas nossas angústias, nas nossas lutas, nas nossas aflições, defendei-nos do inimigo e na hora da morte acolhei nossa alma no Paraíso. Amém.”

    É uma linda oração que mostra como o pensamento dele estava nessa ideia de que Nossa Senhora é a auxiliadora da Igreja. 

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 24/5/1967)

     

     

    1) Não dispomos dos dados bibliográficos da referida obra.

    2) Dom Jean-Baptiste Chautard (*1858 – †1935), monge trapista e Abade do Mosteiro de Sept-Fons.

  • Confiança cheia de vigor e afeto

    Devemos ter uma firme e terna confiança em Nossa Senhora. Ou seja, uma confiança cheia de vigor; mas cheia de afeto, de quem sabe quanto Ela nos ama a cada um.

    Quando se quer muito bem a alguém, não se duvida de que esse alguém deseje nos favorecer em toda a medida de sua recíproca benquerença. Precisamos nutrir tal sentimento em relação à Santíssima Virgem, pois Ela tem para conosco um insondável e maternal afeto. E sua ternura sem limites deve ser a própria fonte da firmeza de nossa confiança n’Ela.

    Uma confiança que nada pode abalar. Confiança nas dificuldades da vida espiritual, de que as muralhas ruirão, os caminhos se endireitarão, o inverossímil se realizará e de que, por misericórdia d’Ela, cada um de nós alcançará a santidade que Deus nos reserva nos seus eternos desígnios.

  • Estrela do Mar e Porto de Bonança

    Estrela do mar reluz com a bela e caridosa missão de orientar os navegantes que, em meio às vagas incertas e furiosas, correm o risco de se extraviar. Assim é Nossa Senhora que, na noite desta vida, brilha constantemente fixa e luminosa, indicando-nos o caminho do Céu.

    Ela é, também, o nosso porto seguro. Quantas vezes nos debatemos em meio às ondas das provações inerentes à vida espiritual, ou decorrentes da fidelidade à Igreja! Ora é a prática da virtude, que parece não progredir; ora são as inevitáveis vicissitudes de nossa existência terrena, sempre nos pedindo cuidados, e muitas vezes nos trazendo dissabores. É, então, como se navegássemos num mar sem ponto de referência, esforçando-nos por atingir o fim de nossa trajetória.

    Para tais ocasiões, a solução é o recurso à Santíssima Virgem, rogando-Lhe:

    “Vós sois o Auxílio dos cristãos, o Refúgio dos pecadores. Está na vossa grandeza, ó minha Mãe, considerar meus defeitos, minhas necessidades, meus sofrimentos, e serdes para mim como um porto, abrigando-me neste mar alto e turbulento. A medida de vossa grandeza é também a de vossa misericórdia.

    Tende pena de mim e acolhei-me!”

  • AUXILIADORA DOS CRISTÃOS

    Em 24 de maio, a Igreja comemora a festa de Maria Auxiliadora dos Cristãos. Esta invocação da Santíssima Virgem foi especialmente cara a Dr. Plinio, desde sua infância. A jaculatória “Auxilium Christianorum, ora pro nobis” (Auxílio dos Cristãos, rogai por nós) brotava freqüentemente de seus lábios. Testemunho eloquente disto são os comentários transcritos abaixo, feitos em resposta à pergunta de um jovem ouvinte.

     

    Nossa Senhora Auxiliadora dos Cristãos! Por que o título de Auxiliadora? Nossa Senhora tem  como maior glória o ser auxiliadora? Para Ela não é glória maior ser Mãe de Deus? É claro!

    Para Ela não é gloria maior ser co-Redentora do gênero humano? É claro! Para Ela não é glória maior ter sido concebida sem pecado original? É claro!

    Por que, então, Nossa Senhora Auxiliadora? Por que tanta insistência em torno desta  invocação: Nossa Senhora Auxiliadora?

    Compreende-se, pois Ela, Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo e nossa Mãe, está  permanentemente disposta a nos ajudar em tudo aquilo que nós precisamos. São Luís Maria   Grignion de Montfort tem uma expressão que parece exagerada, mas que está absolutamente dentro da verdade: se houvesse no mundo uma só mãe reunindo em seu coração todas as  formas e graus de ternura que todas as mães do mundo teriam por um filho único, e essa mãe tivesse um só filho para amar, ela o amaria menos do que Nossa Senhora ama a todos e cada um dos homens.

    De maneira que Ela de tal modo é Mãe de cada um de nós e nos quer tanto a cada um de nós  — por desvalido que seja, por desencaminhado que seja, por espiritualmente trôpego que seja — que quando qualquer homem se volta para Ela, o primeiro movimento d’Ela é um  movimento de amor e de auxílio. Porque Nossa  Senhora nos acompanha antes mesmo de nos voltarmos para Ela. Ela vê nossas necessidades e é por sua intercessão que nós temos a graça de nos voltarmos para Ela. Deus nos dá a graça de nos voltarmos para Ela, nós nos voltamos e a primeira pergunta d’Ela é: “Meu filho, o que queres?”

    Mas nós temos dificuldade em ter isto sempre em vista. Por quê? Porque nós não vemos, e, na  nossa miséria, muitas vezes somos daqueles que não creem porque não vêem. Nós esquecemos. Não duvidamos, mas esquecemos, nos sentimos tão deslocados que dizemos: “Mas será mesmo? Depois, aconteceu-me isto, aconteceu-me aquilo, aconteceu-me aquilo outro, eu pedi a Ela e não fui atendido: por que vou crer que agora serei socorrido? Mãe de Misericórdia… para mim, às vezes sim, mas às vezes não… Nesta próxima provação, por que confiar que serei socorrido, ó Mãe de Misericórdia?!”

    É nessas horas, mais do que nunca, que devemos dizer: “Auxilium Christianorum, ora pro  nobis!” Nas horas em que nós não compreendemos, não temos noção do que vai acontecer, nós devemos repetir com insistência: “Auxilium Christianorum! Auxilium Christianorum! Auxilium Christianorum!”

    Porque para todo caso há uma saída. Nós às vezes não vemos a saída que Nossa Senhora dará  ao caso, mas Ela já está dando uma saída monumental.

    A esse título, portanto, muito especial, nós devemos repetir sempre: “Auxilium Christianorum!” Nossa insuficiência proclama a vitória d’Ela, canta a glória d’Ela. Por isso, esta prece deve estar nos nossos lábios em todos os momentos: “Auxilium Christianorum, ora pro nobis! Auxilium Christianorum, ora pro nobis!”

    Meus caros, rezemos, portanto, “Auxilium Christianorum! Auxilum Christianorum! Auxilium  Christianorum!” em todas as circunstâncias de nossa vida, e nossa vida acabará tal que, na hora de morrer, quando nós estivermos no último alento e ainda dissermos “Auxilium Christianorum”, daí a pouco o Céu se abrirá para nós.

  • A expansiva piedade de São Crispim de Viterbo

    Hino de exaltação à virtude da humildade, a vida deste santo italiano constitui uma iluminura na qual se retrata a inocência medieval aliada à santidade franciscana. Comentários de Dr.Plinio.

     

    Alguns episódios da vida de São Crispim de Viterbo [ver quadro anexo], irmão leigo capuchinho, despertam nossa admiração pela extrema piedade que neles se revela.

    Fez da cozinha conventual um lugar de devoção mariana

    Nascido em 1668, foi consagrado desde a idade de 5 anos a Nossa Senhora, por quem teve especial devoção durante toda a sua existência. Tendo ingressado na Ordem dos capuchinhos, quis ficar entre os irmãos leigos, tomando como modelo São Félix de Cantalício.

    No mosteiro, trabalhava nos jardins, fazia compras, cuidava dos doentes, passando as noites em oração e nas práticas de penitência. Ao ser encarregado da cozinha, nesta erigiu um altar à Santíssima Virgem. Aí era visitado por grandes senhores, cardeais e pelo próprio Papa Clemente XI que, certa vez, ali foi venerar a imagem da Mãe de Deus.

    Chamo a atenção para a piedade contagiosa de um autêntico irmão leigo capuchinho. Era tão comunicativa que os grandes da época, tanto os da Igreja quanto os da sociedade temporal, dirigiam-se a esse altar erguido na cozinha do mosteiro, atraídos que eram pela devoção do santo.

    Nossa Senhora concedeu-lhe o dom dos milagres. Certa vez, tendo curado uma pessoa chegada ao Sumo Pontífice, o médico afirmou: “Vossos remédios têm mais virtude que os nossos”. E o santo respondeu: “Senhor, sois um médico sábio e a cidade de Roma vos reconhece como tal. Mas, a Santíssima Virgem é muito mais sábia do que vós todos, médicos do mundo!”

    O bom odor de Jesus Cristo, em Orvieto

    Como irmão encarregado da despensa do convento, logo tornou-se estimado na cidade de Orvieto. O governador conversava com ele, e o Cardeal-Bispo da sua diocese detinha a carruagem em que ia para se entreter com o pobre frade na rua.

    Imagine-se tais cenas encantadoras! Orvieto, já então cidade de certa importância na Itália, com sua linda catedral gótica, cuja fachada reluz ornada de lindos mosaicos coloridos. Fim de tarde, os trabalhos de todas as corporações encerrados, o movimento da cidade vai diminuindo, os sinos começam a tilintar, convidando os fiéis para a bênção do Santíssimo Sacramento ou para as Vésperas. Envolto numa penumbra azulada, ergue-se o palácio do Governo. Ali, também desobrigado de seus afazeres diários, o governador descansa e se entretém, sem empáfia, sem petulância, mas com naturalidade, com o humilde frade capuchinho. Embevecido, o magistrado dá graças a Deus por receber a visita do santo religioso.

    Percebe-se, nesse contato, a beleza da lei dos contrários harmônicos; regozija-nos ver um grande personagem enlevado na conversa com um pequeno, embora, do ponto de vista sobrenatural, este último seria talvez maior que aquele.

    O frade sai do palácio e segue seu caminho pelas ­ruas tortuosas da cidade. De repente, um ruído de ferros e de ferraduras, e uma carruagem se detém ao lado dele. A carruagem do Cardeal. Distinguindo-a, o frade mantém os olhos baixos, em atitude de respeito e reverência. Porém, o Príncipe da Igreja abre a porta do carro e diz:

    — Entre, Frei Crispim, vamos conversar um pouco…

    — Oh! Eminência!

    — Que notícias o senhor me conta?

    O frade narra-lhe alguns fatos da vida do convento, ou então, com toda a naturalidade, comenta:

    — Tive uma visão assim…

    O Cardeal é todo ouvidos, imerso em admiração.

    Creio não ser difícil compreender como nos aproveita à alma recompormos cenas como essas, pois constituem o sabor de um passado no qual, segundo expressão de São Paulo, sentia-se o “bom odor de Nosso Senhor Jesus Cristo” (2Cor 2, 15), tão diferente dos cheiros perniciosos que vão se espraiando no mundo hodierno.

    Na hora da morte, não quis “atrapalhar” a festa de seu padroeiro

    O resultado dessa expansiva piedade foi que os habitantes de Orvieto não o deixavam ir-se embora. Nas vezes em que o transferiram de convento, o povo negou-se a dar esmolas para os religiosos. Quer dizer, era preciso fazer voltar Frei Crispim, senão os frades passariam fome…

    Durante anos seguidos foi insultado por uma religiosa à porta da qual vinha bater. Dela, dizia sempre o santo: “Deus seja louvado, pois há em Orvieto uma pessoa que me conhece e me trata como mereço!”

    Não vem a ser uma atitude “heresia branca”(1), mas um genuíno fioretti(2). Pois o justo cai sete vezes (Pr 24, 16) e, portanto, não se deve considerar isento de ouvir  rabugices e desaforos.

    Frei Crispim ficou gravemente enfermo poucos dias antes da festa de São Félix de Cantalício, seu padroeiro. Como os frades lhe dissessem que logo compareceria diante de Deus, respondeu-lhes que isso só ocorreria após a comemoração de São Félix, pois sua morte atrapalharia a festa do santo.

    Outro fioretti!

    O santo irmão leigo capuchinho faleceu em Roma, em maio de 1750.

    Contrastes que formam a beleza da Civilização Cristã

    Sem dúvida, uma existência admirável, que nos proporciona não apenas um motivo de enlevo, um exemplo a ser imitado, mas também um ensinamento que merece ser ressaltado.

    Com efeito, no ambiente em que ele viveu, houve toda uma floração de irmãos leigos capuchinhos, talvez não tão eminentes na virtude, mas todos daquela escola que engendrou São Félix de Cantalício e o nosso próprio santo, constituindo uma nota de exaltação da humildade.

    Dir-se-ia que esses religiosos eram ecos da paz, da serenidade de alma, da bondade características da cristandade medieval, dessa Idade Média entretanto tão gloriosa pela sua pompa e por suas batalhas. E é justamente nesse encontro harmônico de contrastes que reside a quintessência da beleza. Se quisermos compreender o esplendor da Idade Média combativa, consideremos a serenidade de um São Crispim de Viterbo ou de um São Félix de Cantalício. Se desejarmos entender a bondade desses dois santos, contemplemos a pugnacidade peculiar àquela época histórica.

    Desse conjunto de contrastes harmônicos depreende-se a grandiosa beleza da Civilização Cristã.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 22/5/1967)

     

    1 ) Expressão empregada por Dr. Plinio para designar a mentalidade sentimental e adocicada que se manifesta na piedade, na cultura, na arte, etc.

    2 ) “Florzinhas”, em português. Significam pequenos propósitos a praticar, ou a descrição de algum fato edificante da vida de alguém. Célebres são os fioretti de São Francisco de Assis. Vale notar que em italiano o singular é fioretto. Dr. Plinio, porém, costumava usar o plural, atendo-se ao título da mencionada coletânea franciscana.

  • Nossa Senhora Auxiliadora

    Nossa Senhora é a Auxiliadora por excelência. É quem acode a todos, de todos os modos, em todas as circunstâncias e em todos os lugares. Para agir com tal largueza, só Alguém de uma riqueza fabulosa, e de uma bondade ainda mais extraordinária que essa riqueza, jamais se cansando de ajudar e de perdoar.

    E o perdão é um dos seus dons imensamente preciosos, de tal modo que, depois de haver perdoado  muito, Ela ainda tem um sorriso de piedade para quem A ofendeu, quando este A invoca e suplica misericórdia.

    Mais. Ela vem em auxilio da alma que não pede, da alma que não vê, da alma que não quer, e a socorre, a bem dizer, pelas costas, alcançando-lhe uma graça que a faz se sentir tocada de amor, de reverência, de gratidão, de força para  rogar novos auxílios. Sua maternal solicitude é uma espécie de roldana que leva até o Céu…

  • São Beda – Venerabilidade e espírito católico

    A Santa Igreja comunica uma nota de venerabilidade a tudo. O contrário disso é a influência exercida pela “heresia branca” e pela superficialidade otimista de nossos dias.

     

    Segundo a ficha que tenho em mãos, São Beda, o Venerável1, foi um dos sábios mais ilustres do seu tempo. Tal era a sua santidade que, por não poderem chamá-lo de Santo ainda em vida, deram-lhe o título de Venerável, que não perdeu depois da morte.

    Título atribuído às pessoas cujo processo de canonização está em curso

    Seria interessante fazermos um comentário não tanto considerando o Santo, mas o seu título. Ele era reputado como um dos homens de maior instrução e tão virtuoso que, não ousando os seus contemporâneos chamá-lo de Santo – porque ninguém pode receber este título antes de ser canonizado pela Igreja –, chamavam-no de Venerável. Porque Venerável é o título atribuído pela Igreja às pessoas cujo processo de canonização está em curso.

    A aplicação desse título tem variado ao longo dos séculos, de acordo com os lugares e a disposição do Direito Canônico. Até algum tempo atrás, se chamava Venerável aquele cuja causa de canonização tinha sido introduzida, mas que ainda não havia sido beatificado. A beatificação se dava quando a Igreja, depois de examinar a vida e as obras de uma pessoa, concluía que ela havia praticado em grau heroico as virtudes teologais e cardeais. Deveria ser ratificada por um milagre e dava a certeza de que a pessoa estava no Céu. E importava a autorização para um culto local, ou no lugar onde a pessoa tinha vivido; “local” no sentido de circunscrito às capelas ou oratórios de uma Ordem Religiosa a que ela havia pertencido.

    Depois, com a canonização que dependia apenas de novos milagres, a pessoa era elevada à honra dos altares, apontada como exemplo e posta como objeto de culto pela Igreja universal. O Venerável era, portanto, aquilo que hoje se chama o Servo de Deus, havendo todas as razões para supor que ele vai ser canonizado, uma vez que o seu processo foi introduzido. Mas, de fato, o número de processos de canonização que encalham em curso é muito grande.

    Venerável era, portanto, uma pessoa digna de veneração, da qual se presumia a santidade. E eu queria me ater a esse título de Venerável para considerar um aspecto da Moral católica, o qual está muito pouco em foco hoje em dia, e que os costumes do mundo atual tornam especialmente ignorado e malvisto.

    Perfil moral de uma pessoa venerável

    O que é propriamente uma pessoa venerável? Diz-se que alguém é venerável, por exemplo, quando atingiu uma idade provecta e tem a seriedade e a dignidade desta idade. Assim, um homem de oitenta anos que cumpriu sempre os seus deveres, teve uma prole numerosa, praticou alguma ação insigne pela Igreja ou pelo Estado; aquela longa continuidade na prática de uma virtude, embora não seja uma virtude extraordinária, incute respeito. Então, se diz que essa pessoa é venerável, nós a veneramos.

    Podemos dizer que é venerável um homem que, por exemplo, se portou heroicamente durante uma guerra e foi ferido em combate. Um general que ganhou muitas batalhas é um homem venerável. Por quê? Porque, evidentemente, ele praticou atos extraordinários, incomuns, que merecem  respeito. Uma religiosa que durante muito tempo cuidou dos leprosos, com risco do próprio contágio, é venerável. Porque uma longa prática de uma abnegação num estado de vida sumamente respeitável, como é o  religioso, enfrentando o risco de contágio, que aumenta a abnegação de que a religiosa deu provas, tornam-na venerável. Então, de todas essas aplicações correntes da palavra “venerável”, que não são suas aplicações canônicas, nós traçamos o perfil moral de uma pessoa venerável.

    Venerável é uma pessoa que tem uma profundidade de espírito maior do que a comum, adquirida pelo estudo, pela experiência, pela meditação. Possui uma têmpera, uma força de vontade, uma constância incomum. Mesmo em circunstâncias adversas, com sacrifício de sua própria existência, sua saúde, de seu próprio conforto, de sua riqueza, ela traçou uma linha de conduta boa e a seguiu até o fim. Ela se faz notar por um modo de presença que incute o respeito. A pessoa venerável está presente, os outros amam de ver aquela respeitabilidade e a respeitam, têm uma tendência natural a se inclinar, a prestar reverência, a obsequiar; e fazem isso como quem pratica um ato de justiça devido.

    Como vemos, a ideia de venerabilidade tem na sua raiz o conceito de seriedade, e como corolário a ideia de força e de abnegação. Quem é sério, forte e abnegado, torna-se respeitável. Aqui está o conceito de venerabilidade.

    Seriedade, força, abnegação

    Há no centro de São Paulo uma imagem que dá uma ideia bonita de venerabilidade: a de São Bento localizada no pórtico do mosteiro beneditino. Tanto aquela imagem quanto a fachada devem ser consideradas no momento em que o sino grave do mosteiro anuncia seis horas da tarde, quando, sobre a zoeira idiota e superagitada da cidade, descem aqueles sons meditativos, compassados e nobres. Então, temos as torres imutáveis, perpétuas, de um granito em que nada toca, que resiste a todas as transformações da cidade e são sempre as mesmas; um sino vinculado a uma tradição que vem do fundo dos séculos, com timbre grave, solene; o pórtico bonito, nobre, que avança sobre a rua, e a torre em cujo ângulo figura um Anjo apoiado sobre um letreiro que diz: “Ora et labora”. É o símbolo da venerabilidade. “Reza e trabalha” é o lema da Ordem de São Bento: medita, considera, contempla e trabalha com as suas próprias mãos.

    Na frente, a figura de São Bento: um homem já sexagenário ou mais, com uma grande barba, um ar de pastor, com um cajado, olhando a cidade que passa. É o próprio exemplo da estabilidade, da seriedade, da profundidade de vistas, da alma patriarcal, do espírito varonil desses homens que não têm prole material, mas possuem prole espiritual infinda, e cuja figura se impõe à veneração de todos os séculos. Esta é a venerabilidade. Ela, como eu disse, tem como fundo a seriedade, como prolongamento a força e como ponto terminal a abnegação. Quem é sério, forte, abnegado, este é respeitável.

    Quando virmos alguma coisa que não é venerável, tenhamos certeza de que ali não está o sinal distintivo, o espírito próprio da Igreja Católica. Ela comunica uma nota de respeitabilidade e de venerabilidade a tudo. A Igreja não toca em nada sem enobrecer aquilo em que tocou, e não há verdadeira nobreza que não se distinga pela nota da venerabilidade.

    As nocivas influências da “heresia branca” e do otimismo

    A sacralidade é a mais alta expressão da venerabilidade. Isto vale para formar o nosso espírito contra duas espécies de influências que recebemos: primeiro, a “heresia branca”(2) expressa em certas imagens de Santos que olham com uma carinha sentimental e despreocupada. Não deveriam ser assim. As coisas santas precisam ser veneráveis, incutir respeito. É necessário defender Nosso Senhor Jesus Cristo, Nossa Senhora, a Santa Igreja Católica contra isto.

    Em segundo lugar, contra outra forma de influência que reputo também muito inconveniente e nociva: essa espécie de otimismo cândido e engraçado de nossos dias, que não é senão uma espécie de bobeira oficializada. Pessoas corroídas de preocupação, que trabalharam o dia inteiro como mouros, de olho afiado para pegar o que puderam, e que, entretanto, chegando a hora do jantar, à noite, estão todas com umas carinhas de anjinhos inocentes e idiotas, não Anjos verdadeiros, mas uma caricatura.

    É contra essas influências que destaco o título de São Beda, o Venerável. Como eu gostaria de o ter conhecido, como me atrai imaginar seu porte que é mais de um monumento do que de gente; quando um homem adquire tal ar, fica parecido com uma catedral! Então, vendo São Beda, o Venerável, ajoelhar-me diante dele, oscular seus pés e implorar que ele me obtivesse de Nossa Senhora algo dessa venerabilidade, sem a qual não se tem o espírito católico.            v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 27/5/1970)

    Revista Dr Plinio 254 (Maio de 2019)

     

    1) Presbítero e Doutor da Igreja. Passou toda a sua vida no mosteiro de Wearmouth, na Nortúmbria, Inglaterra. Dedicou-se com fervor a meditar e expor as Sagradas Escrituras (†735).

    2) Expressão metafórica criada por Dr. Plinio para designar a mentalidade sentimental que se manifesta na piedade, na cultura, na arte, etc. As pessoas por ela afetadas se tornam moles, medíocres, pouco propensas à fortaleza, assim como a tudo que signifique esplendor.