Autor: Nelson

  • Com este sinal, vencerás!

    No ano de 312, a batalha da Ponte Mílvia marcava a ruína de um mundo e o surgimento de outro. Após três séculos de perseguições, a mensagem do Evangelho derrotava o paganismo.

     

    Durante centenas de anos a religião católica tentou espraiar-se por todo o mundo romano. E por isso foi perseguida, arrastada perante os tribunais, condenada injustamente, e sofreu toda ordem  de calúnias. Mas, impavidamente, os católicos se negaram a professar outra religião que não a católica e afirmaram ser falsa a religião dos deuses pagãos, e infames os ídolos que o mundo antigo  adorava. Proclamaram a existência de um só Deus e de Jesus Cristo Nosso Senhor, filho de Deus, Homem-Deus, Redentor do gênero humano, nascido de Maria.

    Perseguição, refúgio nas catacumbas

    Em várias ocasiões, parecia que o Cristianismo ia sucumbir e desaparecer no esmagamento geral em que o paganismo o procurava sufocar. Nesta luta grandiosa, a seqüência de acontecimentos se  dava de um modo que nós poderíamos esquematizar mais ou menos da seguinte maneira:

    Ia um apóstolo a uma cidade qualquer, e ali pregava o Evangelho. Alguns se convertiam, começava a vida da religião católica naquele local. No início, sem muitos entraves. Mas não tardava a arrebentar a perseguição. E os católicos, que até então se reuniam em casas particulares, eram obrigados a  passar para esconderijos, a descer para as catacumbas. E a estabelecer o culto católico nas entranhas da terra, no meio dos maus odores e das feiuras daquelas profundidades cavadas para os  cadáveres, para aquilo que é feito para ficar escondido e não para aparecer.

    Em pouco tempo, os pagãos ficavam com a ideia de que o culto católico havia desaparecido e dormiam sossegados. E também os católicos durante algum tempo dormiam sossegados, porque se  julgavam ignorados.

    Mas não tardava muito a chegar uma denúncia aos governantes do lugar, informando que os cristãos se reuniam em tal casa e depois desciam a um subterrâneo, ou se escondiam numa gruta, ou  se adentravam no matagal, praticando ali o seu culto. E recomeçava a perseguição.

    Depois de cada esmagamento, pujante renascimento

    O Catolicismo, então corria novamente para os esconderijos e se habituava a morar ali dentro. Recomeçava a viver nas trevas e nos maus odores,  é verdade, mas sentindo o bom odor de Nosso  Senhor Jesus Cristo e recebendo graças magníficas nos subterrâneos, ou nas grutas, ou nos outros lugares onde se refugiava. Começava ali novamente a crescer. Mas apenas ele crescia um pouco  mais, vinha outro golpe brutal que, por assim dizer, o esmagava.

    Os cristãos não se dispersavam, mas se escondiam em outros lugares. A perseguição se acentuava, chegava às vezes ao inimaginável da crueldade e da brutalidade, com a interferência pessoal do  imperador, que determinava os suplícios a que os cristãos deveriam ser submetidos para desanimarem e desistirem de pertencer à Igreja. Tinha-se a impressão de que a última hora havia chegado, que desta vez o pânico iria dominar completamente os que ainda conservavam a Fé e que a religião cristã acabaria.

    Neste vaivém, o que aparece à primeira vista é a seqüência de uma fundação, um surto e um esmagamento. Um aparente acabrunhamento, um aparente destroçamento. Mas, daí a pouco, esse  destroçamento dá origem a algo de novo; logo, porém, é novamente um esmagamento que vem.

    E isto vai de ponto em ponto, mas com uma circunstância que eu até agora não mencionei. É que, depois de cada esmagamento, aquilo que renasce é mais numeroso, mais amplo, mais cheio de fé,  mais brilhante. De maneira que, se é verdade que um esquema desses acontecimentos poderia ser: nascimento, esmagamento, novo nascimento, novo esmagamento — é preciso dizer que esse  esquema está mal formulado. Porque o verdadeiro esquema deve ser assim:  nascimento, esmagamento, multiplicação, esmagamento maior, multiplicação maior!

    Ao cabo de alguns séculos, um apologista cristão pôde escrever a um imperador uma carta mais ou menos nos seguintes termos: “Vós só estais no vosso trono porque nós queremos, porque vós  sois fraco apesar de serdes o imperador. E nós somos fortes apesar de sermos apenas uns pobres perseguidos. Olhai em torno de vós e entre os vossos próprios ministros encontrareis católicos, entre vossos generais encontrareis católicos, entre os que comandam as vossas naus encontrareis católicos, entre os que dirigem as vossas finanças, entre aqueles que brilham na vida cultural, na  vida social, na vida política do vosso Império.

    O que digo? Entre aqueles que fazem parte da vossa guarda pessoal e que são responsáveis pela vossa vida, que velam por vós enquanto vós dormis. Vós dormis e só não sois morto, porque são  católicos que vos guardam.” E ele poderia ter acrescentado: “Se durante a noite a consciência de vossos crimes vos acordar e vós olhardes para os homens que estão à vossa cabeceira, revestidos de couraça e de elmo para vos defender contra algum ataque, lembrai-vos: eles sabem que vós amanhã os jogareis aos tigres, os jogareis aos leões e aos leopardos; que vós os revestireis de matérias  combustíveis, os amarrareis em árvores e os incendiareis como se fossem tochas; eles, que sabem que amanhã serão vossas vítimas, hoje são vossos guardiães. Vós confiais neles, mas vós confiais,  na verdade, na vossa derrota. Porque vós, os pagãos, já sois os derrotados, falta apenas o fato histórico de um piparote para vós estardes no chão. E esse Cristo a quem quereis esmagar, que não  quereis conhecer, que caluniais, Ele já venceu sobre a face da Terra!”

    Uma visita às catacumbas de Roma

    Imaginem a situação dos católicos nos lugares onde eles se escondiam. Eu a senti, por assim dizer, palpitar na concha da minha mão estando nas catacumbas de Roma. A primeira vez que fui às  catacumbas, estava acompanhado de várias pessoas. Descemos, mas a certa altura eu tive de voltar, por causa de algo que costuma acontecer comigo: se vejo alguém ter falta de ar, imediatamente começo a sentir, também eu, falta de ar e sou obrigado a me distanciar.

    Naquela ocasião, os meus companheiros e eu descemos até o fundo da terra. Mas à medida que íamos avançando por aqueles corredores, eu ia imaginando a falta de ar que deveria haver lá nos tempos de perseguição, com aqueles lugares repletos de gente, confinada num espaço limitado, naqueles corredores sem fim. Pensando nessa falta de ar, não suportei e tive de, discretamente,  desligar- me dos meus companheiros e sair. Fora, havia um bonito jardim, sorridente,  agradável, com um banco de pedra iluminado pelo sol da primavera.

    Sentei-me e comecei a respirar livremente, pensando na diferença das situações. Naquele mesmo solo, nas noites do Império Romano, quanto passo fugidio de mártires do dia de amanhã, que  esgueiravam-se pelas trevas, passavam depressa e se enfurnavam dentro da terra, quando a noite estava mais escura e os guardas não podiam distinguir senão sombras muito confusas! Eram  escravos ou ex-escravos, homens pretos ou brancos, graduados ou não, mas todos marcados pelo signo do Batismo.

    Mas a História tinha mudado tanto que naquele mesmo lugar onde se situava a entrada de uma catacumba, havia no momento um jardim e nesse jardim estava sentado num banco aprazível um  homem que se beneficiava do fresco ar da primavera de Roma…

    Poltrões transformados pela graça em mártires

    Esse ambiente no qual eu me encontrava era o sinal de uma vitória enorme. A fé que realizava seus cultos sob a superfície da terra, dominava agora essa superfície. E na tranqüilidade da liberdade conquistada e possuída, um filho dessa fé católica respirava tranquilamente, à espera dos que estavam sob a terra.

    Que diferença dos tempos antigos! Que diferença de tanto suor, de tanto sangue, de tantas lágrimas, de tanto martírio!

    Pior do que tudo isto: de tantas apostasias de pessoas que chegavam na hora do sacrifício e não tinham coragem de manter a fé, renegavam-na e então eram libertadas. E à noite, corroídas de  vergonha e de remorso, sem ter coragem de chegar perto dos homens santos que no dia seguinte morreriam pela fé, essas pessoas os viam passar e diziam baixinho, nas sombras: “Tenha pena de mim! Eu me envergonho, eu peço perdão. Obtenha de mim que eu esteja ao seu lado na hora do holocausto amanhã”. E o passante dizia: “Sim, sim. Deus o ajude!”, e se afastava com rapidez.

    No dia seguinte, a graça lhes havia dado uma energia que dominava tanta fraqueza, uma força enormemente maior do que tanta poltronice. E assim, entre a coorte dos pobres miseráveis que iam  andando no meio das feras e sendo agarrados por elas de cá e de lá, via-se um homem que com coragem desafiava um leão. Era o poltrão da véspera. O raio da graça tinha pousado sobre ele. Na Igreja de Cristo havia mais um mártir; no Céu, mais um santo.

    Não estava longe o dia em que o paganismo cairia

    Bem, com tudo isto a Igreja foi se estendendo sobre toda a Terra. Era assim mostrada a vitória da Igreja , na sucessão dos pequenos triunfos e dos grandes esmagamentos, da enorme frutificação  conseqüente a esses esmagamentos e a enorme proliferação dos filhos da fé por todo o Império Romano.

    Os que tinham presenciado tudo isto e os que eram frutos deste processo, viam que não estava longe o dia em que o paganismo haveria de cair.

    Chegou um momento em que a própria futura  imperatriz, mãe de Constantino, o pretendente ao trono imperial, era católica, a modelar romana Helena. E este fato era do conhecimento de todos, porque a encontravam misturada no meio do  povinho humilde, de cabeça inclinada, na hora em que se oferecia o Santo Sacrifício. E pedindo, naturalmente, por si mesma e pelos dela, mas pedindo também — e com quanto empenho! — pelo filho, e pelo Império que esse filho teria nas mãos, tomando em consideração que um simples movimento de alma do filho podia fazer cessar a dominação pagã e fazer luzir aos olhos do mundo o Reino de Cristo.

    Rezava, rezava, rezava, sem articular conspirações terrenas, mas conspirando com o Céu, conspirando com Maria Santíssima, conspirando com Deus onipotente, que é não só misericordioso, mas  é a Misericórdia, para que esse momento chegasse.

    O triunfo final

    Chegou a confrontação entre os imperadores Constantino e Maxêncio (este último, feroz inimigo dos cristãos) perto da Ponte Mílvia, em Roma, pelo controle da parte ocidental do Império.  Constantino viu que ele estava em inferioridade de condições. Na véspera do confronto, lembrado das orações da mãe, se ajoelhou e rezou ao Deus de Helena. Apareceu no céu uma cruz radiante e  as letras gregas similares às letras X e P, que são as duas primeiras letras do nome de Cristo nessa língua, Christós. Em torno dessa cruz, as palavras “In hoc signo vinces” — “Com este sinal,  vencerás”.

    Na magnífica seqüência de aparentes becos sem saída que fora a vida da Igreja no Império Romano até então, havia por fim uma saída, prenunciava- se o triunfo final, abria-se a avenida da  História que se desenvolveria largamente por séculos inteiros.

    Era o momento em que, anunciando às tropas o seu propósito de converter-se, anunciando a sua fé em Cristo, mandando pôr nos lábaros romanos o sinal da vitória de Cristo, Constantino deu a  investida. “In hoc signo vinces!” As tropas de Maxêncio foram dispersadas. Constantino era pagão até então, mas atribuiu a vitória ao Deus cristão, a quem rezava sua mãe, Helena.

    E pouco depois, em 313, ele concedeu liberdade à Igreja Católica em toda a vastidão do Império. Tomou o palácio da sua esposa, Fausta, que tinha pertencido à nobre família dos Laterani, e o deu  de presente ao Papa.

    Esse edifício se tornou a Basílica de São João de Latrão, Catedral de Roma até hoje e, enquanto sede do Papa, Bispo de Roma, cabeça e mãe de todas as igrejas do mundo: “urbis et orbis ecclesiarum ater et caput”.

    Não muito longe dali — na Basílica de São Pedro, que Constantino mandara construir sobre o túmulo do Príncipe dos Apóstolos — Carlos Magno haveria de ser coroado imperador pelo Papa. À luz suave da noite de Natal do ano 800, nasceria o Sacro Império Romano Alemão, para bênção dos povos durante muitos séculos.

    Plinio Corrêa de Oliveira

    Revista Dr Plinio 62 (Maio de 2003)

  • Encantos da velha Alemanha

    Ao lado das superiores maravilhas que o espírito católico engendrou ao longo dos séculos, a par dos esplendores de monumentos, costumes e tradições que resistiram ao passar do tempo e ainda hoje se afirmam como obras-primas e requintes da realização humana, junto a tudo isso sempre me agradou considerar o reflexo do bom gosto cristão nos pequenos aspectos do ambiente europeu  em geral, e de modo particular na vida cotidiana do povo alemão.

    Refiro-me mais diretamente a essa Alemanha médio-burguesa cujos encantos me foi dado apreciar de perto, a Alemanha de minha inesquecível Fräulein Mathilde, governanta e educadora exímia, ela mesma uma pequena burguesa nascida em Regensburg, na pitoresca e poética Baviera.

    As descrições que ela nos fazia de sua terra natal, as histórias que nos contava de sua gente, com seu modo de ser, hábitos e tradições tão peculiares, despertaram minha atenção para o que havia  de bom, de belo e verdadeiro também nas menores  facetas de uma civilização católica.

    De dentro dos meus olhos brasileiros, fiz uma análise própria da Alemanha que, desde o meu tempo de menino até hoje, não foi desmentida, mas ampliada e completada — é natural — com  considerações mais amadurecidas.

    Assim, a meu ver, reveste-se de intensa beleza uma organização quase inocente da existência de todos os dias, que se pode comprovar até nos menores povoados alemães.

    A casa, embora de modestas proporções, tem suas janelas guarnecidas de cortinas presas dos dois lados, de pano barato e comum, mas de cores alegres; os vidros primorosamente limpos e, do  lado de fora, o célebre pote de gerânios sorridentes ao sol de verão que os ilumina. Se, pelo contrário, é inverno, a casinhola amanhece engrinaldada de neve ou adornada por certas figuras  geométricas, por flores petrificadas que os caprichos do gelo desenhou nas pontas de telhado, nas quinas de balaustradas, nas traves das cercas.

    As venezianas pintadas de verde e sempre bem conservadas, as portas com suas dobradiças e fechaduras que não rangem, funcionando de modo perfeito, suave, silencioso. Entra-se na pequena  sala de estar, primorosamente arranjada, decorada com móveis de maior ou menor distinção conforme o permitam as posses da família, porém oferecendo todo o conforto possível, além da  lareira, indispensável para o aconchego nos dias frios, com sua lenha disposta de modo ordenado e sua mesa enfeitada com “bibelots” e canecões de cerveja decorativos.

    A um canto, na sua gaiola de ferro ou de madeira, um passarinho alegra o ambiente com seus trinares. A sua “morada” é limpíssima, o seu alpiste de primeira qualidade, e quando chega a hora de ele dormir, de entrar na noite antes das pessoas, cobre-se-lhe a gaiola com um lindo pano, e o bichinho se aquieta e emudece, até a manhã seguinte.

    Noutro canto da sala, repousa um instrumento que o filho toca. Será um violino no qual o rapaz de vez em quando tange alguma melodia, acompanhado pela irmã que canta, sob o olhar  embevecido e derretido dos pais.

    E bem podemos imaginar certos laivos do convívio entre os dois esposos, quando o dono da casa chega de seu trabalho, e já encontra uns largos e deliciosos chinelos que a mulher dispôs para ele trocar, logo depois de se sentar na poltrona que é só dele… Enquanto sua consorte leva os sapatos para o quarto, ele se repimpa e espreguiça no seu assento, acende o cachimbo, solta umas boas  baforadas, pega o jornal e começa a ler. Dali a pouco a senhora está de volta, e os dois se põem a conversar. Ela durante o dia se preparou — porque é a terra das preparações, não há improvisações — para esse momento de prosa com o marido, procurou saber as novidades com as amigas, trocou idéias, etc., a fim de estar à altura da conversa dele. E o homem fica contente quando a mulher lhe diz algo ou exprime algum pensamento que não lhe tinha passado pela cabeça.

    A riqueza desse interior de vida familiar, perfumado pelos mil pequenos prazeres inocentes da existência terrena, parece-me formar uma atmosfera única de vidinha cintilante do pequeno burguês, que é uma maravilha da velha Alemanha. Foi ali, naquelas vizinhanças do tirol austríaco, que vicejou o “Stille Nacht, Heilige Nacht” (noite de paz, noite santa). É o Natal alemão que se  tornou o Natal do mundo!

    O Natal com presentes sobre a lareira, aos pés do “Tannenbaum” (pinheiro), junto a uma imagem de Nossa Senhora esculpida por um artesão da família, enfim, todas as canduras natalinas com que a piedade popular germânica enriqueceu o universo católico.

    Uma beleza, essa vidinha! À semelhança desse ambiente pequeno burguês, cada classe social na Alemanha tem o ar de si própria, como, por exemplo, a dos rudes fidalgos prussianos, os chamados  “junkers”.

    Homens que gostam de se encontrar ao redor de volumosas canecas de cerveja, diante de sanduíches de salsichas, camadas de manteiga fresca e outros ingredientes formando saborosos andares nos pratos, devorados por eles com a mesma determinação com que invadem e conquistam territórios! Claro, conversando com o interlocutor muito seriamente sobre política ou filosofia, ou,  melhor ainda, os dois cantando. É outro veio.

    Assim, desde o “Junker” ou desde o Kaiser (imperador) até o último pequeno funcionário público que tem seu lugar num alveolozinho com cortininha, tem-se um esplendoroso conjunto que é o  píncaro dessa Alemanha de tantas tradições e glórias católicas que eu, ainda menino, aprendi a admirar pelas descrições da minha Fräulein Mathilde.

    Plinio Corrêa de Oliveira

    Revista Dr Plinio 62 (Maio de 2003)

  • O amor materno da Auxiliadora dos cristãos

    Conhecendo-nos individualmente, e amando-nos como a filhos únicos, Nossa Senhora nos auxilia em todas as batalhas da vida.

    É verdade que Nossa Senhora é mãe de todos os homens; porém, Ela é, especialmente, mãe dos cristãos. Ela tem a missão, dada pela Providência, de auxiliar os cristãos.

    O educandário da vida

    Tal missão não deve ser vista como a de uma mãe junto a seu filho adulto. Por mais respeitável que seja a figura materna em todas as etapas da vida de um filho, há uma idade, entretanto, onde este carrega a responsabilidade de seu próprio destino, e mais protege a mãe do que é protegido por ela. Por isso, nossas relações com Nossa Senhora devem ser as de uma criança com sua mãe.

    Enquanto vive nesta Terra, o homem está num período de provas e de lutas, onde sua alma se desenvolve rumo à plena maturidade. Assim, vistos do Céu, somos semelhantes a crianças em formação.

    De fato, espiritualmente falando, nossa verdadeira idade adulta será atingida quando Deus nos chamar a Si; nessa ocasião, se tivermos sido fiéis à graça, alcançaremos a plenitude para a qual fomos criados. Dessa forma, do ponto de vista do Céu, a Terra é um educandário, e a maturidade é a morte. Nossa Senhora nos vê, portanto, como espíritos em formação.

    Considerando os desastres e as desordens do mundo de hoje, que impressão causamos num espírito bem aventurado, o qual vê a Deus face a face? Evidentemente, é tal o desatino, a precariedade, a incerteza e a debilidade do homem, que, observados do Céu, somos como crianças mal encaminhadas.

    Compreende-se, portanto, que Nossa Senhora tenha para conosco a missão de uma mãe para com um filho pequeno. Quer dizer, de dar uma assistência inteira, estar presente em todas as horas, proteger de todos os modos. Ela isso faz com cada homem, em todos os momentos da vida.

    Maria Santíssima tem, a todo instante, conhecimento simultâneo e perfeito de cada um de nós. Ela nos ama como jamais alguma mãe amou seu filho. Assim, podemos imaginar a solicitude de Nossa Senhora para com sua missão de acompanhar, rezar, obter graças e guiar a vida de cada pessoa, como se esta fosse a única a existir.

    O perfeitíssimo amor de Maria

    Este é um ponto a ser sublinhado. De acordo com uma visão completamente falsa, quando rezamos temos impressão de estarmos sob as vistas de Nossa Senhora em meio a uma multidão de homens na qual Ela mal discerne cada um. E, quando chega da nossa parte um brado muito angustiado, Ela presta um pouco mais de atenção, mas fora isso nos perdemos em meio ao tumulto da humanidade e dos séculos.

    Ora, ao rezar, deveríamos nos lembrar de que Ela nos vê, conhece e ama como se somente cada um de nós existisse.

    Caso nosso Anjo da Guarda nos aparecesse e dissesse: “Neste momento a Virgem Maria vai parar de atender as orações de todas as pessoas, para olhar só para você. E no universo inteiro se fará um silêncio; haverá apenas a sua súplica subindo ao Céu”. A pessoa ficaria comovida: “Como é possível isso? Que honra! Que maravilha!”

    Com efeito, isto se dá a todo momento. Quando alguém reza a Nossa Senhora, é como se somente ele o fizesse, e o universo inteiro tivesse parado para Maria prestar atenção apenas nele.

    Com sua perfeição insondável, a Santíssima Virgem quer bem a cada um individualmente, do jeito como ele é, com aquela espécie de desinteresse do verdadeiro amor materno, em que a mãe não quer o filho por causa de sua carreira, mas por ser seu filho.

    Uma reminiscência do amor materno

    Quando se fala em amor materno, é normal que cada um pense na própria mãe. Por isso, vêm-me à lembrança fatos ocorridos com Dona Lucília.

    Em 1950, candidatei-me a deputado federal pelo Estado do Paraná.

    Eu acabara de chegar da Europa e tinha apenas vinte dias para a campanha eleitoral. Não foi fácil passar de Paris para as estradas poeirentas que ligavam as várias cidades do Norte do Paraná! Meti-me por aquelas vias e enfrentei os solavancos e desconfortos de uma campanha eleitoral.

    Terminada a campanha, voltei para São Paulo e mamãe me acolheu com o afeto de sempre.

    Começaram, então, a divulgar os resultados da votação. Estes, apesar de serem brilhantes para tão pouco tempo de propaganda, não atingiam o total exigido para minha candidatura. Nem podia ser de outro modo, tratando-se de um candidato desconhecido na região.

    Quando chegou a notícia confirmando minha derrota, mamãe, com aquela serenidade, aquela calma, aquele timbre de voz ao mesmo tempo grave e doce que lhe era característico, disse-me:

    — Como eu fico alegre com sua derrota!

    Fiquei muito espantado e perguntei:

    — Mas meu bem, por que a senhora diz uma coisa dessas? A senhora não vê que, ficando deputado, eu poderia prestar serviços à Religião?

    Ela respondeu:

    — Meu filho, é verdade, e se Deus assim o quisesse, eu quereria também. Mas eu fico alegre por Ele não ter querido sua eleição, pois ao menos assim você não vai para o Rio e fica mais perto de mim.

    Eu disse a ela:

    — Mas a senhora não gostaria de ter um filho eleito deputado por segunda vez?

    Ela respondeu:

    — A vida, meu filho, abaixo do serviço de Deus, consiste em se querer bem, morar juntos e se olhar.

    A benquerença materna

    Antes de rezar, lembremo-nos disso: Nossa Senhora tem por cada um de nós, de modo inimaginável, toda a benquerença própria às mães. Assim, quando alguém se ajoelha diante de uma imagem d’Ela, deve ter a ideia de que, ainda que esteja em estado de pecado, esse ato de devoção é verdadeiramente grato a Maria.

    Desse modo teremos correspondido à solicitude de Deus, dando-nos Nossa Senhora como auxílio.  

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 25/5/1969)

  • Visitação de Nossa Senhora a Prima Isabel

    Episódio sumamente rico em importantes aplicações para nossa vida espiritual, a Visitação de Nossa Senhora nos mostra como Santa Isabel, prima da futura Mãe de Deus, teve um conhecimento imediato de que o Messias se achava ali presente, encarnado no seio puríssimo de Maria. Ela o soube, não só por uma inspiração da graça, mas também por uma espécie de sentimento, de percepção do divino, excelentes, que a fizeram discernir a presença de Jesus.

    Essa percepção, esse sentimento, cada católico deveria ter — em grau proporcionado — para amar todas as coisas que sejam segundo Deus, e para rejeitar aquelas que Lhe são contrárias.

  • Visitação de Maria a Santa Isabel

    Uma inusitada e benéfica forma de se meditar o Mistério da Visitação seria, por exemplo, considerá-lo sob o prisma de duas perfeições que se harmonizavam na alma de Nossa Senhora: a sublimidade e o charme, tomados no mais alto grau em que possam existir numa mera criatura, abaixo do Homem-Deus.

    A nossa pobre imaginação quase se desnorteia, procurando conceber então os fulgores de charme e sublimidade que se desprenderam no momento do encontro de Maria com sua prima Isabel. Ambas compenetradas da grandiosidade daquela situação, pois,  muitíssimo mais do que unidas pelo parentesco, o estavam pela magnitude de suas vocações — uma trazia consigo o Salvador, a outra, o Precursor que Lhe prepararia as veredas de Israel…

  • O "Magnificat", cântico de jubilosa despretensão

    Após haver recebido a excelsa comunicação de apressou-se em partir ao encontro de Santa Isabel, nas montanhas da Judeia. Ao chegar, exaltada por sua prima e profundamente reconhecida pelo ápice de dons com que fora galardoada, Maria entoou seu imortal Magnificat.

    Deus, autor da grandeza de Nossa Senhora

    O pensamento fundamental desse cântico poderia ser assim expresso por Nossa Senhora: “Deus realizou em mim coisas extraordinárias, as quais são obra d’Ele e não minha. Não sou a autora de toda essa grandeza. Foi Ele que houve por bem depositá-la em mim, e Eu a aceitei em obediência aos seus superiores desígnios. Essa grandeza, portanto, enquanto habita em mim tornou-se minha, mas a causa dela vem de fora e do alto. Por mim mesma, não sou senão uma pequena criatura”.

    De fato, embora concebida sem pecado, e tendo correspondido à graça do modo mais perfeito possível, Nossa Senhora era uma mera criatura, e assim tais grandezas não podiam ter origem na natureza d’Ela. Provinham-Lhe de Deus Nosso Senhor. Este é o pensamento despretensioso e fundamental do Magnificat.

    Cabe aqui uma aplicação a nós, filhos e devotos de Maria, que tanto desejamos imitá-La. Se era essa a posição que a Imaculada tomava em face de suas excelências, a “fortiori” deve ser a nossa diante das graças que Deus nos concede, a nós que somos pecadores a dois títulos. Primeiro, porque concebidos no pecado original; segundo, porque agravamos essa condição com as faltas perpetradas em nossa vida, de sorte que, mesmo perseverando no estado de graça, trazemos conosco o fardo dos pecados que outrora cometemos.

    De outro lado, as honras que possam nos caber são incomparavelmente menores que as de Nossa Senhora. Desse modo, é preciso nos esforçarmos em adquirir o mais elevado grau de despretensão ao nosso alcance. Não incorramos no erro dos presunçosos, que julgam inerentes à sua própria natureza, e não a um dom ou misericórdia de Deus, todas as suas qualidades e aspectos bons.

    Pelo contrário, compenetremo-nos de que todo o bem existente em nós é dado e favorecido pela graça divina, embora conte com nossa voluntária aceitação e nosso empenho em desenvolvê-lo. São qualidades e talentos que não nasceram de nossa natureza decaída, mas foram nela depositados pela generosidade do Criador. Se formos despretensiosos, teremos consciência disso, não nos embevecendo com o que devemos a Deus.

    Esse é, precisamente, o ensinamento que nos deixou Nossa Senhora, quando elevou aos céus o seu Magnificat.

    Alegre e contínua retribuição a Deus

    Diz Ela: “A minha alma engrandece o Senhor”. Ou seja, canta, vê, admira, ama e proclama com amor a grandeza de Deus, Aquele que domina, Aquele que pode, Aquele que é tudo.

    “E o meu espírito exulta em Deus meu Salvador”. Então a alma d’Ela se transporta em santas alegrias,

    porque Deus “lançou os olhos sobre a baixeza de sua serva”, e por isso “de hoje em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada”.

    Nossa Senhora proclama a magnitude de Deus por ter deitado o olhar sobre Ela, por Lhe ter conferido uma tal excelência que todas as nações passariam a aclamá-La como bem-aventurada. E ao reconhecer que isto Lhe vem d’Ele, seu espírito atinge o ápice da alegria!

    Como não ver nessa atitude a perfeição da despretensão? Nada de falsa e dolorosa probidade: “Ó Senhor! como gostaria de dizer que tudo vem de mim, mas sou obrigada a declarar o contrário”, etc. Não! “Meu espírito exulta em proclamar que veio de Vós”.

    Ao mesmo tempo, porém, Ela afirma a glória que Deus Lhe outorgou: “Todas as gerações me chamarão bem aventurada”. A palavra bem-aventurada encerra um matiz que a faz designar uma pessoa não apenas nimbada de felicidade, mas também aquela que alcançou êxito em todas as suas realizações. Portanto, acertar na vida, ser bem aventurado, é tornar-se santo e servir a Deus.

    E Nossa Senhora continua a cantar: “Porque fez em mim grandes coisas Aquele que é poderoso, e cujo nome é santo”. O adjetivo poderoso tem aí todo o cabimento, pois Ela se reconhece objeto de maravilhas tais, que só um Ser onipotente as poderia operar. Ora, Maria se sabia não-onipotente. Logo, proclamava que apenas Deus podia ter feito n’Ela aquelas “grandes coisas”.

    É um modo indireto de dizer: “O que foi realizado comigo é tanto que eu, simples escrava, por mim mesma jamais o teria alcançado. O Todo-Poderoso, cujo nome é santo, fez essas maravilhas, essas excelências que só poderiam sair de suas divinas mãos”. Em última análise, trata se de uma contínua e alegre retribuição a Deus da grandeza d’Ela.

    Uma cordilheira de misericórdias

    “E cuja misericórdia se estende de geração em geração, sobre aqueles que O temem”.

    Nossa Senhora manifesta neste trecho a ideia de que a misericórdia da qual Ela foi objeto é o lance supremo de uma imensa série de misericórdias que, desde o início até o fim do mundo, alcança os que têm o temor de Deus. Pode-se dizer que este seria o Everest, o ponto muitíssimo mais alto da compaixão divina, acima de um universo de montículos, colinas, montes e montanhas de misericórdias que ao longo da história têm sido espargidas sobre os homens.

    É como se Maria Santíssima dissesse: “Essa misericórdia é ainda mais bela porque é o marco central de um incontável número de excelsas benevolências dispensadas por Ele, o Rei, o Deus, o Pai de todas as misericórdias”.

    A soberba é causa de decadência

    Continua a Santíssima Virgem: “Manifestou o poder de seu braço; transtornou aqueles que se orgulhavam nos pensamentos de seu coração”.

    Ou seja, ao passo que estende sua misericórdia aos que O temem, Nosso Senhor mostra o poder de seu braço confundindo os desígnios dos soberbos. Quem são estes? Os que se vangloriam e se exibem pretensiosos em relação a Deus, que não consideram a grandeza d’Ele, nem Lhe têm temor. E que, portanto, não O amam. Para estes não há misericórdia. Então Deus os humilha, os quebra, os dissipa, mostrando sua força.

    Essa atitude de Nosso Senhor com os que se afirmam independentes d’Ele é um belo convite para estabelecermos uma filosofia da história. Para isto, temos de observar não só os acontecimentos históricos, mas também os fatos de nossa vida cotidiana, e neles verificar a confirmação desta regra: os homens tementes a Deus, conscientes de que não valem nada, atribuindo seus predicados e aptidões à misericórdia divina, progridem na vida espiritual. Os que são voltados a adorar-se a si próprios, a considerar tudo quanto têm como vindo deles mesmos, estes são os soberbos que Deus dissipa, e declinam na prática da virtude.

    Quantas vezes não observamos, nessa ou naquela alma, um processo de decadência cuja causa é a pretensão? Em determinado momento, a pessoa começou a se embevecer consigo mesma: “Que maravilhosa, grande e estupenda criatura sou eu, considerada nos predicados morais de minha natureza!” É o primeiro passo de uma lamentável deterioração.

    Portanto, Nossa Senhora lança o princípio: os soberbos não vão para a frente, enquanto progridem os que temem a Deus. Donde tudo nos coloca em relação a Ele numa postura de inteira despretensão.

    O triunfo dos humildes

    “Depôs do trono os poderosos, e exaltou os humildes.”

    Temos aqui uma seqüência do pensamento anterior. O poderoso é o que atribui a si todo o poder, que precede a Deus e não O teme, julgando-se capaz de tudo fazer sem Ele. Esse é deposto de seu trono, ou seja, daquilo do que  se ensoberbece. O humilde, pelo contrário, é glorificado e favorecido por Nosso Senhor, obtém resultados nas suas ações, na sua vida interior, no seu apostolado, etc.

    Completando essa linha de pensamento, Maria acrescenta: “Cumulou de bens os famintos, e despediu os ricos com as mãos vazias”.

    Os famintos são os necessitados, os que se abaixam diante de Deus e Lhe suplicam auxílio. Estes são atendidos, e saem repletos de bens. Os ricos são os orgulhosos, aqueles que se aproximam de Nosso Senhor dizendo não precisarem de nada. Então são mandados embora sem receberem qualquer benefício.

    Cumpre-se a promessa do Messias

    Em seguida, a Santíssima Virgem faz uma referência à exaltação do Povo Eleito, por nele ter se verificado a Encarnação do Verbo. Diz Ela: “Tomou cuidado de Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia; conforme tinha dito a nossos pais, a Abraão, e à sua posteridade para sempre”.

    Com efeito, Deus havia misericordiosamente prometido que o Messias, seu Filho unigênito, se encarnaria e nasceria do povo de Israel. Ele se lembrou de sua promessa, gerando Jesus Cristo nas entranhas puríssimas de Maria.

    A Igreja, muito belamente, completa esse hino maravilhoso com o “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo; assim como era no princípio, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém”.

    Esta seria uma interpretação do Magnificat como o cântico da despretensão jubilosa de Nossa Senhora.

    “Minha alma engrandece a Igreja Católica!”

    Para concluir, cabe ainda um último desdobramento dessas considerações.

    Como eu gostaria de, com toda  a alma, poder cantar o Magnificat em relação à Igreja Católica! Como é verdadeiro dizer: “Magnificat anima mea Ecclesiam, et exultavit spiritus meus, in matre salutari mea” – A minha alma engrandece a Igreja Católica e o meu espírito exulta na Igreja minha mãe!

    E assim por diante, que lindíssima paráfrase do Magnificat poderíamos fazer contemplando a Igreja, que é a Arca da Aliança, a imagem visível de Deus e de Nossa Senhora na terra.

    Sirvam, pois, estas palavras de incentivo para que reportemos todos os nossos dons, nossas virtudes e predicados a Deus em Jesus, a Jesus em Maria, e a Maria na Santa Igreja Católica Apostólica Romana, da qual nos vem tudo o que temos de bom. Dessa maneira, o enlevo, o encanto, o entusiasmo, a fidelidade, a dedicação de nossa vida, nossa alma e nosso sangue sejam inteiramente oferecidos para o serviço e glorificação da Esposa Mística de Cristo.

  • O cavalo de Tróia e a vigilância

    Desconfiar, saber ser vigilante contra os aparentes “agrados” da Revolução, e manter o espírito livre de preguiça a fim de não abandonar a luta pela Igreja, é um dos deveres do católico militante face à corrente daqueles para os quais “tudo sempre dá certo”. Precioso ensinamento que Dr. Plinio nos oferece nestes comentários.

     

    A situação do mundo contemporâneo, não só em sua globalidade mas também em cada nação, grupo social e indivíduo, poderia ser comparada com Troia nas vésperas da sua queda, quando o cavalo seria introduzido na cidade e produziria a sua ruína.

    Dentro de cada uma dessas entidades — humanidade, nação, grupos sociais, indivíduos — há um cavalo de Troia. Ou seja, um inimigo foi infiltrado em nossas almas ou no grupo a que pertencemos, enquanto dormíamos, como aquele gigantesco embuste de madeira foi colocado na cidade adormecida.

    A Revolução, cavalo de Troia moderno

    Que vem a ser este novo cavalo de Troia?

    Como se sabe, a antiga Troia era uma estratégica localidade, situada no noroeste da atual Turquia, próxima ao Mar Egeu. Mais de mil anos antes de Cristo, fazia ela parte de um conjunto de importantes centros urbanos, pela cultura, civilização, riqueza comercial, etc.

    Entretanto, apesar do seu progresso cheio de promessas de bem-estar, um cavalo de madeira foi nela introduzido para sua destruição, pois era o próprio adversário, ardilosamente escondido, que penetrava nas suas muralhas.

    Assim também em cada um de nós penetrou um cavalo de Troia. Ou seja, o mundo contemporâneo está em possante progresso material, mas traz em seu bojo a negação de muitos princípios ligados ao que é bom, verdadeiro e belo, que conferem sentido à vida.  É a Revolução.

    No que diz respeito ao episódio de Troia, seus habitantes tomaram uma atitude má, não querendo esforçar-se em fazer este pequeno raciocínio: “Esse imenso cavalo que nos foi dado de presente pelos gregos deve conter alguma coisa para nossa desgraça. Devemos desconfiar dele, simplesmente porque nos foi oferecido por nossos adversários mortais, que cercam há tanto tempo nossas muralhas, têm provocado a morte de nossos melhores heróis, e visivelmente tentam incendiar nossa cidade, espreitando para isso a ocasião propícia.

    “Nossos inimigos nos brindam com uma obra escultural gigantesca (e, provavelmente, devido à arte dos gregos, era um bonito cavalo), que até possui rodas debaixo das patas… Claro, eles desejam que o levemos para dentro de Troia, a fim de destruí-la.”

    A atitude que os troianos não tomaram

    Um troiano que tivesse o espírito atilado, sobretudo desconfiaria das rodas.  Pois estas obviamente significavam: “por favor, levem o cavalo para dentro da cidade, porque sua missão não se realiza fora das muralhas, mas em seu interior!” E ele pensaria: “Os gregos só se deram o trabalho de construir esse enorme cavalo na esperança de que o levemos para dentro de Troia. Portanto, se há uma coisa que não podemos fazer, é isso. No bojo desse cavalo não terá soldados escondidos? Se não, por que o adversário no-lo teria oferecido?”

    Naquele tempo ainda não havia pólvora, porém não faltavam outros artefatos nocivos que poderiam acabar com a cidade.  Se era presente dos gregos, deveria ser prejudicial aos troianos. Se estes, abrindo o cavalo, nada encontrassem, ou se a monumental escultura fosse maciça, era o caso de pedirem a paz. Pois uma vez que os gregos estavam concedendo-lhes tal presente, a inimizade entre os dois povos havia cessado. Então mais valeria a pena acabar a guerra.

    Mas, ai! do miserável troiano que pensasse em paz quando as circunstâncias estavam impondo luta! Esse seria considerado um traidor da pátria.

    Não me recordo, da leitura que fiz da história da guerra de Troia, se Homero se refere ao estado de espírito de seus habitantes. Porém, é plausível que tenha havido em Troia duas correntes de opinião: uma a favor do cavalo, e outra, contrária. A primeira era dos otimistas, desejosos de ver tudo pelo lado bom, mais simples e cômodo.  Estes deviam achar que os gregos estavam inclinados a se entregar aos troianos, ou ao menos a propor o fim do conflito, dando início às negociações por meio de um presente.

    — Não, cuidado! — diziam os da outra corrente.

    — Desconfiar do quê, depois deste presente? — objetavam os otimistas.

    — É presente de grego! “Timeo danaos et dona ferentes”: tenho medo dos gregos até quando trazem presentes — respondiam os segundos.

    E entretanto, teria sido tão simples resolver o caso: bastava encostarem o ouvido junto ao bojo do cavalo para saber se havia barulho no interior dele, algum sussurro ou som de respiração, etc. Os gregos estavam há horas naquela prisão tremenda, à espera do momento em que pudessem abrir algum alçapão, pular para fora e atacar a cidade. Alguma manifestação de cansaço, qualquer mínimo ruído de corpos se acomodando no amontoado de homens seria percebido por uma escuta atenta.

    Uma vez descoberto o ardil, era preciso traçar um rápido plano de contra-ataque. Por exemplo, constituírem três círculos concêntricos em torno do cavalo. O primeiro, formado pelos vigias e alguns poucos troianos com tochas acesas; o segundo, por várias fogueiras, e o terceiro, composto de guerreiros com lanças e espadas. Em dado momento, ateariam fogo na mole de madeira e seria a debandada dos gregos. Os que escapassem ao primeiro círculo, cairiam nas chamas do segundo ou, finalmente, nas espadas e lanças do terceiro. Assim, tudo estaria disposto para a derrota do inimigo e a vitória dos troianos.

    A história se repete

    Contudo, o partido do otimismo prevaleceu.  O cavalo foi conduzido para dentro da cidade, propiciando o incêndio de Troia. Enéas, príncipe e genro de Príamo, rei de Troia, consegue fugir, carregando aos ombros seu velho pai, juntamente com outros habitantes da cidade que lograram escapar, provavelmente os do partido dos desconfiados. Tomaram barcos ancorados no Mar Egeu e partiram, dando início a uma nova epopeia chamada Eneida. Estes são os vigilantes, que entram a tempo na luta e, quando derrotados, sabem ser os primeiros na fuga, tendo já seus planos elaborados e traçados os caminhos que devem seguir. Conhecem a arte da retirada, e são heroicos nesta como na de avançar.  Este é o verdadeiro homem.

    Voltando ao nosso paralelo, face ao mundo atual os homens se dividem igualmente em duas correntes. Uma, a dos defensores da opinião de que tudo, no fundo, dá certo, as coisas se compensam, se compõem, se ajeitam, sem a necessidade de fazer esforço nem correr riscos. Essas são as grandes preocupações, as idéias fixas daqueles que, se estivessem em Troia, seriam a favor do cavalo.

    Os que tomariam o partido contrário, os desconfiados, considerando o desabamento do mundo de hoje, diante de tudo quanto tem laivos de Revolução, sabem suspeitar e ser vigilantes, compreendendo que dentro daquilo, na aparência bonito, há um veneno, do mesmo modo como no bojo do cavalo de Troia — realmente belo — escondia-se o inimigo, na espreita do momento azado para atear fogo na cidade.

    Assim devemos ser nós, imbuídos da noção de que em todas as coisas revolucionárias há fatores nocivos os quais se desencadearão contra nós. Portanto, cumpre vivermos na desconfiança, na vigilância, a fim de não sermos surpreendidos por esses adversários de nossa alma.

    A necessidade de exercitar o espírito pela ascese

    Para um homem robusto, uma das atitudes agradáveis a seu corpo é o exercício físico, que o leva a se esforçar e a sentir circular nos músculos, nas suas artérias, uma potência nova, uma capacidade de ir para frente. Ele respira fundo, fita ao longe, deita involuntariamente um olhar de desafio para todas as coisas.

    De maneira análoga, o homem ascético, de espírito de sacrifício, tem alegria em exercitar a força moral que ele recebeu de Deus, aplicando-a na luta contra seus defeitos, contra os inimigos internos e externos da sua santificação. Donde o gosto de se entregar às lides apostólicas, à prática da virtude, como verdadeiro combatente de Nosso Senhor Jesus Cristo, disposto a dar a própria vida pela causa d’Ele.

    Para o homem assim, uma só coisa não lhe é motivo de alegria: a vida mole, displicente, dorminhoca, sem utilidade, sentado numa cadeira, deixando o tempo passar. Isto é o contrário da existência do verdadeiro católico.

    Ora, infelizmente, o que se observa com não pouca freqüência em muitos filhos da Igreja é esse vício do homem ocidental contemporâneo, pelo qual tem cometido, face à Revolução, todos os equívocos possíveis.

    Poder-se-ia fazer um catálogo de todos os erros passíveis de ocorrer desde a decadência da Idade Média até hoje, e veríamos que aconteceram.  Por quê?  Por indolência, é certo. Mas os homens se deixaram levar pelos indolentes porque estes recomendaram a atitude fácil, mole, sem esforço nem previsão, entregando-se vergonhosamente ao sono diante dos riscos do amanhã. Essa atitude psicológica de entreguismo é comum se apresentar em nosso caminho.

    De fato, até mesmo entre aqueles que procuram ser bons católicos encontramos esse estado de espírito. Embora nos empenhemos em ser o contrário disso, não é o bastante para nos consolar, pois quem, sob alguns aspectos, é um zeloso filho da Santa Igreja, mas sob outros é um relaxado que abandona a luta por Deus diante de qualquer ilusão, neste não se pode confiar. Merece nossa confiança aquele que nunca se entrega, não desanima, não tem preguiça, nem se lamenta face às dificuldades e provações, e sim exclama: “Oh! beleza! Lutarei e vencerei, ou sofrerei, em qualquer dos casos terei servido a Deus como Ele quis!”

    Vencer o instinto de sociabilidade decaído

    Qual o atrativo da vida contemporânea que nos faz tomar essa atitude de moleza?

    O principal deles está ligado a uma deformação do instinto de sociabilidade. Os homens tendem a viver em sociedade, são gregários, e isso os leva a ter existências parecidas, pois se fossem diferentes e se entrechocassem, a civilização seria impossível.

    Então eles têm a inclinação de imitar uns aos outros, e de todos serem segundo o mesmo modelo. Entretanto, quando este último é revolucionário, não devemos segui-lo. Do contrário, haveria a mencionada distorção do instinto de sociabilidade. E é preciso vencer esta má disposição, no que ela tem de mais profundo, para podermos dizer ao homem sem fé nem ideal: “Sou católico militante, e quando ouço alguém declarar que estou errado, encontro nisso uma razão ainda maior para me convencer de que sigo a verdade. Sigo em frente! E você, homem da moleza, é o paradigma dos que não se deve imitar. Se alguém quiser andar sempre bem, olhe para você e faça o contrário. Assim, alcançará a vitória.”

    É o que podemos e devemos saber dizer aos moles.

    Ora, é desagradável agir dessa forma, porque os entreguistas procurarão nos caluniar, causando discussão.  E esta incomoda, causa cansaço e amolação, exige de nós esforço para encontrarmos as palavras certas com que respondermos e refutarmos as difamações, etc. Por essa razão, muitos preferem se eximir do confronto, e repetem o chavão: “ceder para não perder”, sabendo embora que acabarão derrotados. Estes estão acometidos de uma espécie de morfeia, uma lepra moral muito pior do que aquela que apodrece o corpo.

    Portanto, se desejamos de fato crescer na vida espiritual e nos aperfeiçoar na condição de autênticos católicos, filhos e servos da Santíssima Virgem, compreendamos a necessidade de sermos sempre vigilantes, zelosos, dispostos a nos esforçar contra nossas preguiças, molezas e imprevidências, bem como no fazer face às más sugestões que de todos os lados nos tentam para o desvio no caminho da santidade.

    Compreendamos, outrossim, que sem essa disposição de ascese e de luta por Deus, nossa existência neste mundo não tem razão de ser.

    Plinio Corrêa de Oliveira

    Revista Dr Plinio 86 (Maio de 2005)

  • Inocência paradisíaca

    Continuando a descrição de como a alma de um menino reto se abre para a realidade à sua volta, conhecendo-a com o senso do ser pelo qual ama o belo e rejeita o feio, Dr Plinio concebe esse processo numa criança ideal: Abel, se tivesse nascido sem pecado original, no Paraíso terrestre.

     

    Na anterior exposição sobre o tema, ficamos de considerar o exemplo de Abel, imaginando-o inocente no Paraíso, como teria sido sem o pecado de Adão.

    Refiro-me de modo intencional a Abel, e não a Adão, porque este foi criado já adulto. Tendo Nosso Senhor Jesus Cristo morrido aos 33 anos, costuma-se dizer que essa é a idade perfeita do homem, e com ela Deus criou Adão. Portanto, um adulto na sua plenitude, que foi tomando conhecimento das coisas durante a vida.

    Mas, Abel passou pela infância. Como teria sido esse período na existência de um homem sem pecado original? Como as coisas iriam se apresentando para ele?

    O conhecimento na alma inocente

    É preciso notar que, após a queda de nossos primeiros pais, a infância é um misto de inocência e imbecilidade, acompanhadas pela fraqueza da mente e do corpo. Essa imaturidade vem do pecado original. Sem este, a criança passaria a pensar desde o início sem as debilidades que trouxe o pecado, dotada de notável discernimento e profundidade de espírito, embora sem a experiência de um homem adulto.

    Coisa infinitamente mais maravilhosa se deu com Nosso Senhor Jesus Cristo, na sua natureza humana. E, dizem os teólogos, algo análogo aconteceu com São João Batista, a partir do momento em que — durante sua gestação, mas com sua razão constituída, no claustro materno de Santa Isabel — ouviu a voz de Nosso Senhora e estremeceu de alegria.  Nesse instante, viu-se limpo da culpa original, e conheceu algo de extraordinário na Santíssima Virgem.

    Portanto, se não houvesse pecado original, a criança teria um conhecimento maduro, embora incipiente, das coisas. Ao tomar contato com estas, verificar-se-ia nela algo de primaveril, não apenas candidamente limpo, mas com o encanto daquela primeira hora que vai desabrochando e contém todo o futuro. Mais ou menos como a aurora que encerra em si a beleza do dia. É muito bonito vê-la condensada no raio inicial de luz cortando as nuvens, com uma beleza especial que nem ao meio-dia o sol apresentará. O primeiro ósculo do astro-rei na Terra tem uma pulcritude própria.

    Os homens nascidos no Paraíso terrestre, sem pecado original, seriam mortais por natureza, porém, por um dom especial de Deus, não morreriam.

    Quer dizer, a riqueza da vida no primeiro instante iria se ampliando até atingir a apoteose. E, sob certo aspecto, nada seria mais belo quanto o momento primaveril, inicial, em que um homem nascesse e tivesse a vida diante de si, semelhante a uma cascata na qual a água escachoa com abundância e plenitude formidáveis. Assim seria a criança, com o caráter e os encantos de um principiante já maduro de espírito.

    Para formarmos uma ideia dessa condição, imaginemos Nosso Senhor menino ensinando no Templo. Cândido e admirável como uma criança que tinha à sua frente todo o futuro, mas, de outro lado, maduro a ponto de deixar estarrecidos os doutores da Lei. Nosso Senhor, Homem-Deus, nascido da Virgem que tinha sido concebida sem pecado original, quanto Ele era incompatível com qualquer forma de pecado! Guardadas todas as proporções, assim também seria a criança sem pecado original.

    Abel passeando pelo Paraíso

    Temos na alma um mecanismo de raciocínios, vontade, sensibilidade, instintos, que trabalha continuamente e nos faz conhecer as coisas exteriores, e depois confrontá-las conosco.  E para que essa operação seja mais perfeita, realizamos uma análise e um estudo intelectivo de cada uma, de maneira a conhecermos a coisa melhor e também a nós mesmos. Assim, sabemos o que nos convém.

    Uma criança sem pecado original — o nosso hipotético Abel perfeito —, em seu primeiro passeio pelo Paraíso, ao ver as plantas, por exemplo, teria a noção da natureza e das propriedades de cada uma, como também de sua própria realidade física, de suas apetências, conveniências e seu feitio de alma.  E escolheria as frutas adequadas para sua primeira refeição.

    Suponhamos uma árvore em estado de frutificação permanente, da qual o homem pudesse facilmente colher frutas ao alcance de sua mão, ou porque tinha tal império sobre a natureza que, por um ato de vontade, poderia obrigar a planta a se dobrar, e do alto descer um galho, reverente, apresentando-lhe uma penca delas à sua escolha. Isso sucedia, aliás, com o primeiro homem,  em virtude de seu domínio sobre as demais criaturas.  Quando passeava pelo Paraíso, todas as coisas se voltavam para ele, a fim de servi-lo, em atitude de corte, como se fosse um rei. E à medida que as observava, em sua alma despertavam-se reações semelhantes às da criança com a bola: é, não é; quero, não quero, mas sem a falta de critério do menino que, por exemplo, deseja comer uma bola de vidro.

    Voltemos a Abel. Ele ia conhecendo as coisas lentamente, com exatidão, escolhendo o que lhe convinha; almejando tanto quanto razoável, não se empanturrando com elas nem as esbanjando.  Em determinado momento, quando se alimentava de algo, com a naturalidade de quem toma um copo de água, diria: “Agora basta, estou satisfeito”.

    Começaria a conhecer também os panoramas paradisíacos, que se lhes apresentavam ordenados. O Paraíso era uma caixa de surpresas, não porém um labirinto. Podia-se saber o que se encontraria, caminhando nesta ou naquela direção. E, de quando em vez, Deus dispunha uma surpresa maravilhosa lá e acolá. E Abel passearia em busca de paisagens que lhe agradassem, onde, por exemplo, os pássaros gorjeassem de acordo com aqueles cenários, compondo um “son et lumière”(1) especial; as sombras fizessem lindos jogos com a luz, e houvesse musgos magníficos ou pedras suntuosas para Abel sentar-se, a fim de observar melhor e pensar de modo mais profundo, sem sentir fadiga, pois ele não conhecia cansaço físico nem mental.

    A glória eterna, sem passar pela morte

    Ademais, seu seletivo 2 funcionaria continuamente, quer ele percebesse ou não. Ao observar duas coisas, pensaria: “Desta gosto mais, e daquela, menos. Como Deus é grandioso!  A segunda convém a meu irmão, e a primeira para mim.  Como o Criador é esplêndido em tudo que faz!  Meu Senhor, obrigado pelo que destes a meu irmão, e por aquilo que me ofertastes. Como sois maravilhosos e bom!”

    Abel usaria do que lhe era oferecido, deleitar-se-ia e iria se completando, tornando-se cada vez mais ele mesmo.  Sobretudo, compreenderia que, pelo funcionamento desse seletivo, quando alcançasse a plenitude de si próprio, teria a magna recompensa: a apoteose, o céu se abriria, os Anjos desceriam para levá-lo, sem passar pela morte, para a glória eterna.

    Essa seria a perspectiva da vida de um homem sem pecado original.

    Riquezas do seletivo no inocente

    Tendo em vista esses pressupostos, podemos estudar melhor o que se passa nesse misterioso seletivo de uma criança nascida no Paraíso, sem a mácula original: como ele opera, se desenvolve e se enriquece.

    Tudo o que existia no Éden era cognoscível pelo homem, sendo cada coisa imagem, semelhança ou vestígio de Deus. E o Paraíso, no seu conjunto, espelhava o Criador de maneira mais perfeita do que cada criatura em particular. Assim, à medida que a pessoa — Abel, por exemplo — fosse conhecendo as coisas, perceberia a excelência e compreenderia melhor a natureza peculiar de cada uma delas, e como se imbricavam entre si.

    Logo depois das sensações concretas, surgiram em seu espírito as idéias abstratas. Imaginemos que ele encontrasse junto a um magnífico lago, uma árvore estupenda a qual, em todos os milímetros de sua superfície, estivesse florescendo e se projetasse sobre a água de um modo maravilhoso. Planta, do seu gênero, sem igual no Paraíso. Sua primeira impressão, puramente sensível, assim se exprimiria: “Que maravilha!”

    Em seguida, começaria uma reflexão: “Como é bom para essa árvore dar tantas flores! Que excelente qualidade ela possui!”. E numa terceira etapa, ele se perguntaria: “Como conceituar esse predicado da árvore, pelo qual dá tantas flores?”

    Não tendo nenhuma limitação mental, ele comporia imediatamente a palavra perfeita, cunhada como uma moeda: fecundidade.  Esta árvore é fecunda em flor. Então compreenderia melhor o que é flor, sua grande utilidade para encantar a alma e, por isso, superior sob certo aspecto à fruta.  A árvore tem fecundidade, e a flor, beleza.

    Voltando-se para outro lado, vê uma flor que é única, brotada na ponta de uma pequena planta, e em torno dela não se acha nenhuma igual.  É maravilhosa!  Ele cogita: “Curioso! Há pouco me agradou a fecundidade.  Dir-se-ia que estou agora apreciando a infecundidade? Não pode ser. Ah! Esta última flor tem outro predicado: raridade!”

    Logo após o conhecimento concreto, viria o conceito abstrato e a palavra: “Ah, é rara. Tudo que é raro é precioso. As coisas fecundas, de si produzem muitos efeitos. Mas há outra forma de fecundidade, como a dessa plantinha da qual nasceu uma flor que equivale a todas daquela outra árvore. Isso se chama categoria, classe!”

    Um maravilhoso descortino do universo

    Assim se poderia imaginar um passeio pelo Paraíso, e as idéias surgindo e se desprendendo umas das outras como se fossem páginas um pouco coladas de um livro que se abre e elas se desvendam. E, naturalmente, viria ao espírito de Abel outra ideia: “Não se pode ser mais fecundo do que aquela árvore, e ter mais categoria do que essa flor? Qual é o “summum” da fecundidade: florescer ou criar?

    “Criador… Quem, do nada, fez tudo isso? O que é criar? Como é Aquele em quem todas essas coisas potencialmente estavam e que, de repente, lhes deu vida? Como Ele é único, e n’Ele se fundem todas as qualidades! Deus!”

    Percebe-se, então, como o universo vai se abrindo de modo maravilhoso, conduzindo-nos até o Onipotente Senhor da Criação.

    A esse propósito, lembro-me de um brinquedo japonês que havia no meu tempo de criança, tão pobre em comparação com essa faustosíssima figuração que estamos imaginando… Punha-se um pouco de água num prato de sopa, por exemplo, e nele se jogava uns papeluchos, espécie de confetes. Estes se umedeciam e começavam a se abrir, formando florzinhas diferentes. As crianças gostavam de ver como as bolinhas bonitinhas se abriam em flores, e depois o prato ficava repleto delas.

    Assim se sentiria alguém inocente que fosse vendo o universo se desdobrar, abrindo-se como essas florzinhas, preparando seu espírito para Deus. v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira
    Revista Dr Plinio 85 (Maio de 2005)

     

    1 ) Espetáculo de som e luz.

    2 ) Como vimos em anterior artigo, “seletivo” é uma palavra cunhada por Dr. Plinio para indicar o senso pelo qual o homem seleciona as coisas que conhece, aceitando umas e rejeitando outras.

  • Espírito Santo, alma da Igreja

    “Convém a vós que Eu vá; porque se Eu não for, o Consolador não virá a vós, mas se Eu for, enviá-lo-ei” (Jo 16, 7) — prometeu Jesus a seus discípulos, na véspera de sua Paixão e Morte. Essas divinas palavras se cumpririam cinqüenta dias depois da gloriosa Ressurreição do Salvador, durante as festividades de Pentecostes. No Antigo Testamento, essa comemoração judaica recordava a entrega das tábuas da Lei a Moisés, no Monte Sinai. Na era cristã, a Igreja lembra nessa data a descida do Espírito Santo sobre Nossa Senhora e os Apóstolos, reunidos no Cenáculo.

    Ao comentar os ricos aspectos dessa festa católica — celebrada este ano no dia 30 de maio —, Dr. Plinio costumava salientar a união perseverante dos discípulos em torno da Santíssima Virgem, como sendo razão preponderante para que sobre eles viessem os dons do Espírito Paráclito e os frutos extraordinários daí decorrentes: “Em Pentecostes se verifica, por assim dizer, a constituição definitiva da Igreja. Antes desse acontecimento, os Apóstolos eram incapazes de conhecer e compreender de maneira cabal a grandiosa obra que lhes foi confiada. Essa incapacidade se dissipou com a vinda do Espírito Santo, passando a Igreja a viver neles de outro modo.

    Poder-se-ia pensar que, antes de Pentecostes, a Igreja era como um boneco de barro, que recebeu então o sopro de vida, como o primeiro homem no Gênesis. Tudo se transformou, tudo começou a existir e a pegar fogo no mundo, e a contagiá-lo, até o apogeu dos dias de hoje em que o Evangelho é pregado a todos os povos. Quer dizer, no pior    momento da Paixão e Morte do Mestre, eles, porque se congregaram junto de Nossa Senhora, receberam toda espécie de graças, culminando na maravilha do dia de Pentecostes.”

    Ainda sobre esse fundamental papel do Espírito Santo como vivificador da Esposa Mística de Cristo, deixou-nos Dr. Plinio estas outras belas e tocantes palavras: Ao ver as coisas da Igreja, sentia eu uma impressão curiosa. Mais do que uma instituição, Ela me parecia uma alma imensa que se expressa através de mil aspectos, que possui movimentos, grandezas, santidades e perfeições, como se fosse uma só grande alma que se exprimiu através de todas os templos católicos do mundo, todas as liturgias, todas as imagens, todos os sons de órgão e de todos os dobrares de sinos.

    Essa “alma” chorou com os Réquiens , se alegrou com os bimbalhares da Páscoa e das noites de Natal; ela chora e se alegra comigo. Pensava eu: “Como eu gosto dessa ‘alma’! Tenho a impressão de que minha própria alma é uma pequena ressonância dela. Trata-se de algo no qual minha alma vive inteira, como dentro de um templo material. Tudo de que eu gosto é como ela é, e ela é como tudo de que eu gosto. À maneira de alma, isto é o ideal de minha vida, para isto quero viver, assim eu quero ser. Eu me sinto com relação a essa alma um pouco como um sol se espelhando numa gota de água. Eu sou a gota de água, essa ‘alma’ é o sol”.

    Depois vim a saber que “aquilo” que eu percebera era o Espírito Santo, a alma da Igreja. É Ele quem atua na minha própria alma, templo d’Ele em razão do batismo, para se tornar receptiva à influência da Igreja.

    Assim, o Espírito Santo é um cantor magnífico, que me concede o senso artístico necessário para apreciar o seu canto. E quando eu O louvo ou admiro suas obras, O louvo ou admiro pela luz que Ele mesmo fez incidir em mim…”

  • Festa de Pentecostes

    A Festa de Pentecostes, celebrada neste ano no dia 20 de maio, recorda-nos o magno episódio da Igreja nascente, quando, reunidos os Apóstolos e a Santíssima Virgem no Cenáculo, de repente veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo, que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo (At 2, 2-4).

    A importância dessa Festa, própria aos nossos pedidos de renovação espiritual e santidade, imbuídos de inteira confiança na infinita misericórdia do Paráclito, era assim comentada por Dr. Plinio: “Depois de sua dolorosa Paixão e Morte, Nosso Senhor ressuscitou e subiu aos Céus. Embora os Apóstolos tenham acompanhado de perto esses acontecimentos, sua fidelidade ainda precária não significava uma regeneração. Houve, da parte deles, atos de Fé bem expressos, reconhecendo e dando testemunho da ressurreição de Jesus, mas não se tem a impressão de que tenham mudado substancialmente.

    “Após a Ascensão, eles se reúnem com Nossa Senhora no Cenáculo e passam os dias em oração. Em determinado momento, desce sobre eles o Espírito Santo, em forma de línguas de fogo, e dá-se então a mudança completa: os discípulos se transformam em luzeiros de ouro. Cada um deles, por assim dizer dotado de nova alma, feita de fervor, de vontade de realização, de sacrifício e de carismas extraordinários, converte-se em coluna viva da Igreja de Deus. No passo seguinte, eles se disseminam pela Terra e levam, às mais diversas regiões do mundo, a glória e o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

    “Para nós, o que quer isto dizer?

    “Significa que devemos sempre contar com graças muito especiais do Espírito Santo, sobretudo quando estivermos entravados, estagnados e descontentes na vida espiritual. Peçamos a Ele, a rogos de Nossa Senhora, constantemente, que desça sobre nós com uma abundância de dons, de maneira tal que nos transforme por completo.

    “Dessa necessidade vem a linda prece a Ele dirigida: ‘Emitte Spiritum tuum, et creabuntur, et renovabis faciem terrae — Mandai, ó Senhor, vosso Espírito, e todas as coisas serão criadas, e renovareis a face da Terra’.

    “Ou seja, antes de tudo, a face dessa nossa “terra” interior, da nossa própria alma, pode ser renovada de um instante para outro, por uma graça do Espírito Santo. Igualmente por uma particular intervenção d’Ele, há de ser regenerada a face do mundo, através do apostolado de autênticos católicos, inspirados pela Sabedoria divina, cheios de força e valor para enfrentar os inimigos da fé, assim como para atrair e fazer o bem a todos que devam pertencer à Santa Igreja.

    “Compreende-se que tais graças nos sejam concedidas com maior abundância por ocasião da Festa de Pentecostes e que, portanto, importa-nos rogá-las e esperar que as recebamos nessa data. Sem nos esquecermos de fazê-lo por intermédio de Nossa Senhora, Esposa do Divino Espírito Santo e medianeira onipotente junto a Ele. Que o Espírito Paráclito desça e paire sobre nós, cumulando-nos dos dons celestiais que tanto desejamos. Amém.”

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 2/6/1965)