Autor: Nelson

  • LOBOS E OVELHAS

    A imprudência ou ingenuidade de quem, em seu apostolado, põe em perigo sua própria alma ou a tranqüilidade do aprisco, não pode ser chamada de zelo. Dr. Plinio rebate algumas teses em vigor  nos anos 40, que confundiam o carinho do Bom Pastor com a temeridade mais peculiar das… virgens loucas!

     

    Em anteriores ocasiões acentuamos os graves inconvenientes a que muitos católicos expõem a Igreja, cancelando inteiramente de seus processos de ação quaisquer manifestações de energia.

    Resumindo em duas palavras a doutrina que sustentamos, lembraremos apenas a nossos leitores que o Evangelho contém, a respeito de apostolado, duas parábolas de máxima importância, nenhuma das quais deve ser esquecida em benefício da outra.

    É injustificável abrir o redil ao lobo mascarado de ovelha

    Nosso Senhor fala em ovelhas perdidas e em lobos com pele de ovelha. Quem visse nas ovelhas desgarradas do redil apenas lobos vorazes disfarçados com a pele de suas vítimas não poderia,  evidentemente, ser o bom pastor que vai ao longe, enfrentando perigos e desprezando fadigas, salvar a ovelha perdida. Que dizer, entretanto, do católico que, até o contrário, vencendo obstáculos sem conta, desce ao fundo do abismo, com perigo para si mesmo, e ali recolhe carinhosamente um lobo astuto, afagando-lhe com meiguice a fingida pele de carneiro; que abrisse triunfante com sua “conquista” as portas do redil, soltasse ali o fruto de seu caridoso apostolado, e, depois de um prolongado e terno olhar para o gáudio com que a nova “ovelhinha” se encontrava em  “confraternização” com as demais, fosse dormir sobre os louros de tão brilhante feito?

    É evidente que qualquer católico leigo que queira proceder com prudência deve preferir, a introduzir um lobo no aprisco do Bom Pastor, correr o risco de deixar de fora alguma ovelha inocente. O  conselho parece cruel? E, porventura, não será ainda mais cruel expor a risco grave e real todo o aprisco?

    Costuma-se repetir com muita razão que há mais alegria no Céu por um pecador que se converte do que por cem justos que perseveram. Mas esta afirmação do Evangelho não pode deixar de ser  considerada em conjunto com as tremendas ameaças com que Nosso Senhor fulmina  aqueles que, de qualquer maneira, concorrem para a perdição das almas que já se encontravam no caminho da virtude. Ao indivíduo que por imperícia, consciente ou inconscientemente culposa, abrisse o redil ao lobo mascarado de ovelha, se aplicaria com toda a propriedade a expressão de Nosso  Senhor : “Melhor seria para ele que lhe atassem uma pedra de mó no pescoço e o atirassem ao fundo do mar”.

    E não lhe valeria como escusa o ter agido por excesso de zelo no temor de sacrificar uma ovelha possivelmente inocente. No Céu há realmente mais alegria por um pecador que faz penitência do  que por noventa e nove justos que perseveram. Mas, por isto mesmo, precisamente porque passar do pecado ao estado de graça é a maior das venturas, decair deste estado para o de pecado é desventura não menor. Logo, não se poderia pretender que a conversão de uma alma recompense a Nosso Senhor os riscos que com isso se faça correr a outra alma.

    Pensar de modo diverso seria blasfemar contra Deus, atribuindo-Lhe maldade por dois títulos:

    a) supondo que a Providência não dispusesse outros meios para a salvação da ovelha inocente sacrificada pela razoável prudência do pastor avisado;

    b) imaginando que Deus dispõe das almas como o jogador de roleta usa de suas moedas, e de bom grado se expõe ao risco de perder uma delas a fim de ganhar, se bem sucedido, duas, dez ou cem. Preconizar tais aventuras apostólicas é entrar em conflito com a economia da Providência. E ninguém ignora o que acontece a quem zomba da Providência de Deus.

    A corrupção do mundo moderno não se cura com simples sorrisos

    É curioso que, em uma época de cavilosas maquinações, em conseqüência das quais países inteiros têm desabado como que devorados pelo caruncho de conspirações a modo de quinta coluna; em uma época em que [os adversários da Igreja] tomam ares de sacristão para melhor iludir os fiéis; é precisamente nesta época que, em certos círculos católicos, ganha terreno um otimismo ingênuo e eufórico, para o qual toda a malícia do mundo contemporâneo, toda a corrupção, toda lascívia, todo desbragado egoísmo de nossa sociedade contemporânea, da qual Pio XI escreveu que está na iminência de se tornar pior do que era antes de Nosso Senhor; que tudo isso não passa de um equívoco. E de um equívoco tão tênue que, com uma meia dúzia de sorrisos este mundo será o melhor dos mundos.

    O paganismo antigo foi vencido pelas preces dos eremitas, pelo sangue dos mártires e pelos suores dos evangelizadores. Lendo-se, entretanto, certos tratados […], tem-se a impressão de que o mundo moderno pode ser regenerado com os simples sorrisos desses novos apóstolos, mais felizes do que Orfeu, pois que nem sequer precisam de flauta para amansar as feras.

    Perdoem-nos certos confrades no apostolado, disseminados um pouco por toda a parte neste imenso Brasil, e para os quais escrevemos este artigo, se nesta última comparação entrou alguma  ironia, aliás muito explicável na pena de quem está escrevendo depois de todo um dia de afanoso trabalho. Mas, causa-me horror verificar uma certa maré montante de ingenuidade que  diariamente produz as mais novas e variadas manifestações, e ganha dia a dia mais terreno.

    Lembrem-se estes amigos a quem tanto amo em Nosso Senhor, que o apóstolo leigo que não tiver desenvolvido todos os seus recursos a fim de precaver contra os lobos as ovelhas do Bom Pastor,  não poderá no leito de morte fazer a sublime oração de Nosso Senhor: “Meu Pai, dou-Vos graças porque, daqueles que me destes, a nenhum perdi”.

    Plinio Corrêa de Oliveira Extraído do “Legionário”, nº 473, de 5/10/1941. Subtítulos nossos.)

    Revista Dr Plinio 74 (Maio de 2004)

  • Características da Revolução

    Processo cinco vezes secular, a Revolução tem sua raiz nos problemas de alma mais profundos, de onde se estende para todos os aspectos da personalidade do homem contemporâneo e todas as suas atividades. E nesse pernicioso afã de desordem manifesta ela, como nos aponta Dr. Plinio, algumas características fundamentais.

     

    Quais os principais aspectos da Revolução?

    Designando a Revolução com o termo “crise”, Dr. Plinio afirma: “Por mais profundos que sejam os fatores de diversificação dessa crise nos vários países hodiernos, ela conserva, sempre, cinco caracteres capitais”: é universal, una, total, dominante e processiva (pp. 22 e ss.).

    Como um grande incêndio

    Por que a Revolução é universal?

    “Essa crise é universal. Não há hoje povo que não esteja atingido por ela, em grau maior ou menor” (p. 22).

    Em que sentido a Revolução é una?

    “Essa crise é una. Isto é, não se trata de um conjunto de crises que se desenvolvem paralela e autonomamente em cada país, ligadas entre si por algumas analogias mais ou menos relevantes.

    “Quando ocorre um incêndio numa floresta, não é possível considerar o fenômeno como se fosse mil incêndios autônomos e paralelos, de mil árvores vizinhas umas das outras. A unidade do fenômeno “combustão”, exercendo‑se sobre a unidade viva que é a floresta, e a circunstância de que a grande força de expansão das chamas resulta de um calor no qual se fundem e se multiplicam as incontáveis chamas das diversas árvores, tudo, enfim, contribui para que o incêndio da floresta seja um fato único, englobando numa realidade total os mil incêndios parciais, por mais diferente, aliás, que cada um destes seja em seus acidentes” (pp. 22-23).

    Depois da crise, restam vestígios de Cristandade

    Explique a unicidade da Revolução que atingiu a Cristandade.

    “A Cristandade ocidental constituiu um só todo, que transcendia os vários países cristãos, sem os absorver. Nessa unidade viva se operou uma crise que acabou por atingi‑la toda inteira, pelo calor somado e, mais do que isto, fundido, das sempre mais numerosas crises locais que há séculos se vêm interpenetrando e entreajudando ininterruptamente. Em conseqüência, a Cristandade, enquanto família de Estados oficialmente católicos, de há muito cessou de existir. Dela restam como vestígios os povos ocidentais e cristãos. E todos se encontram presentemente em agonia sob a ação deste mesmo mal” (p. 23).

    Rainha à qual obedecem as forças do caos

    Por que a Revolução é total?

    “Considerada em um dado país, essa crise se desenvolve numa zona de problemas tão profunda, que ela se prolonga ou se desdobra, pela própria ordem das coisas, em todas as potências da alma, em todos os campos da cultura, em todos os domínios, enfim, da ação do homem” (p. 24).

    Face aos acontecimentos caóticos atuais, como explicar que a Revolução seja dominante?

    “Encarados superficialmente, os acontecimentos dos nossos dias parecem um emaranhado caótico e inextricável, e de fato o são de muitos pontos de vista.

    “Entretanto, podem‑se discernir resultantes, profundamente coerentes e vigorosas, da conjunção de tantas forças desvairadas, desde que estas sejam consideradas do ângulo da grande crise de que tratamos.

    “Com efeito, ao impulso dessas forças em delírio, as nações ocidentais vão sendo gradualmente impelidas para um estado de coisas que se vai delineando igual em todas elas, e diametralmente oposto à civilização cristã.

    “De onde se vê que essa crise é como uma rainha a que todas as forças do caos servem como instrumentos eficientes e dóceis” (p. 24)(1). v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira

    Revista Dr Plinio 110 (Maio de 2007)

     

    1 ) Editora Retornarei, São Paulo, 2002, 5ª edição em português.

  • Renunciar-se a si próprio para seguir o Redentor

    Após um retiro espiritual, o objetivo de alcançar a santidade, sob o impulso da graça de Deus, implica em que as verdades tão corajosamente meditadas e as resoluções tão generosamente tomadas sejam levadas até o fim, consoante os ditames propostos pelos Exercícios de Santo Inácio de Loyola. Com esse ensinamento, Dr. Plinio conclui sua conferência no marco das celebrações do IV Centenário da Companhia de Jesus.

     

    As verdades claras e simples, afirmadas nos Exercícios Espirituais nem por isso deixam de ser profundas e fundamentais. Constituem elas os grandes princípios que devem dirigir toda a conduta do cristão. Por isto, é incontável o número de conseqüências que nelas pode encontrar o retirante.

    Questões terríveis e luminosas que elevam a alma

    Daí um longo trabalho — fecundo somente se for pessoal — que o retirante deve levar a cabo: a fixação das linhas ideais de toda a existência cristãmente vivida. Qual a conduta que deve ter em sua vida familiar, social, profissional, política, o homem persuadido de que foi criado para a glória de Deus? Quais os deveres que essa grande verdade, ao mesmo tempo tão terrível e tão suave, lhe impõe para com a Igreja, as almas, a civilização cristã? Que perderá ele ao transgredir estes deveres, ou ao lhes dar um desempenho superficial e fraudulento? Que lucrará com sua prática honesta e integral? Qual a razão que precisa movê-lo a cumprir estas obrigações por puro amor de Deus, abstração feita até mesmo das punições ou das recompensas eternas?

    Questões terríveis e luminosas, as quais, se de um lado mostram ao homem, por vezes, uma longa jornada a vencer nos caminhos ásperos da santificação, de outro lhe franqueiam o acesso a píncaros dourados pelo sol, radiantes de glória e de grandeza, certamente muito diversos dos vales lamacentos ou das grotas sombrias em que se arrasta habitualmente a fragilidade humana.

    Diz Santo Agostinho que “Deus não deixa a fragilidade sem remédio, nem a culpa sem punição”. Esta frase admirável encontra nos Exercícios de Santo Inácio sua plena demonstração.

    “Deus que nos criou sem nós, não nos salvará sem nós”

    Fala-se muito, em nossos dias, da debilidade humana e, certamente, o aspecto das ruínas generalizadas que nos circundam sugere, a todo o passo, a lembrança de nossas misérias. Mas os espíritos vãos que a toda hora se comprazem em lembrar nossa fragilidade, não têm em vista que “Deus não a deixa sem remédio”. Portanto, se somos fracos, temos culpa por nossa fraqueza. Se o homem é fraco, a graça é forte. Sem Jesus Cristo, ele “nada pode fazer”. Porém, fortalecido pelo Senhor, “tudo pode n’Aquele que o conforta”.

    Assim, por mais duros que sejam os deveres — discernidos por nosso olhar quando iluminado pelos clarões por vezes implacáveis, que se desprendem dos Exercícios de Santo Inácio — não há em nossa fraqueza qualquer desculpa que legitime nossos recuos, nossa covardia e nossos indefinidos estacionamentos nos abismos do pecado, ou nos charcos da mediocridade. Conhecendo toda a necessidade do socorro divino, Santo Inácio aconselha reiteradamente a prece, no período dos Exercícios Espirituais. Mas, a oração não basta. Como diz Santo Agostinho, “Deus que nos criou sem nós, não nos salvará sem nós”.

    Santo Inácio pede, quer, exige uma cooperação fiel de todas as potências de nossa alma para a obra da salvação e santificação. De nada valerão seus Exercícios aos retirantes dispostos a ver apenas as verdades cômodas. De valor igualmente nulo serão para aqueles que, tendo atingido o ideal de uma vida cristã comum, ou uma existência inteiramente santificada pela prática da perfeição, não se entregarem resolutamente à segunda tarefa, consistente no confronto implacável da vida que levam, das resoluções que haviam formado, dos projetos que vinham nutrindo, com a linha de conduta que acabamos de traçar.

    O motivo de tanto ódio aos exercícios espirituais

    Sem qualquer receio de erro, pode-se afirmar que nesta dolorosa operação se acha o motivo profundo de tantas animadversões que os Exercícios de Santo Inácio têm suscitado. Com efeito, a alma pecadora que não quer regenerar-se odeia estes processos de cura espiritual; e à alma tíbia, não desejando subir mais alto nas vias da santificação, repugna este método que põe a nu, de modo tão inclemente e vigoroso, os remorsos que se extinguiam discretamente, sob as cinzas de uma longa vida de piedade toda feita do cumprimento de deveres sem importância, de minúsculos progressos sem significação real.

    Almas fracas, almas míopes, que não cumprem os pequenos deveres nem realizam os diminutos progressos como meio para chegar aos grandes, mas como uma evasão dissimulada, um álibi inútil, procurando enganar sua consciência e o próprio Deus. Certamente, pelo despeito causados por estas verdades aos que as rejeitam, explica-se em última análise o ódio militante que se ergue não raras vezes contra os Exercícios de Santo Inácio. Mas este ódio é o que (…) a Igreja sem cessar despertará entre os filhos da serpente, irredutivelmente adversários dos filhos da Virgem.

    Cumpre estabelecer resoluções

    Terminada a tarefa do exame de consciência, ainda há outra. É a formação das resoluções. Não basta que a vontade conceba propósitos genéricos e imprecisos, ou engendre apenas veleidades ineficazes. Santo Inácio quer propósitos firmes e fecundos, que recaem sobre objetos determinados e precisos, e, com esta salutar recomendação, mais uma vez tolhe ele os subterfúgios conscientes ou inconscientes dos retirantes pusilânimes. É preciso chegar até o fim, traduzir em atos as verdades tão corajosamente meditadas, as resoluções tão generosamente tomadas. Mas os atos só nascerão das resoluções firmes e precisas, nítidas e práticas, cujo cumprimento só se realiza com todas as previdências concretas e particularíssimas, que cada situação especial exigir.

    Ordenar a sensibilidade para alcançar a perfeição

    Mas… e a sensibilidade? Quantas vezes geme um pobre coração humano ao passar por esta via de angústia que conduz à santidade! Quanta renúncia dolorosa! Quanta ruptura trágica! Quanto heroísmo incrivelmente pesado é por vezes necessário para o prosseguimento nas vias luminosas, mas ásperas, da santificação! Santo Inácio não seria o grande Doutor da vida espiritual que foi, se não se preocupasse com a sensibilidade. Erram, e de modo frisante, os que supõem que a ascética inaciana implica na extinção da sensibilidade humana. Em quantos trechos de seus Exercícios, exige Santo Inácio de Loyola que se faça o que ele chama a “composição de lugar”? E o que é essa prática senão um meio de que ele se serve para impressionar a sensibilidade, facilitando-lhe assim a obediência ao império da razão e da vontade? Não recomenda Santo Inácio que meditemos apenas sobre as grandes verdades, mas recomponhamos os quadros das cenas; quer que vejamos, ouçamos, sintamos pela imaginação tudo quanto ele nos manda meditar. E, assim, tende ele a substituir na imaginação e na sensibilidade as impressões que arrastam para o pecado, por aquelas que levam ao Céu.

    Se se pensa, pois, que a sensibilidade ocupa na ascética inaciana um lugar de ré condenada ao patíbulo, erra-se. Mas é certo — e nisto está uma das mais salientes características da espiritualidade de Santo Inácio — que, talvez melhor do que ninguém, ele põe claramente o homem diante do dever de reprimir sem piedade, de abater sem falsa misericórdia, de abafar sem vacilações nem recuos, os movimentos desordenados, os caprichos infundados, as petulâncias criminosas ou os sentimentalismos mórbidos que o pecado original deixou em nossa sensibilidade. Disse Nosso Senhor que o homem deve renunciar-se a si próprio para segui-Lo. Sem esta renúncia, não há santificação possível. E a escola que pretendesse articular uma escada que chegasse ao Céu sem essa renúncia teria, na realidade, aberto mais um abismo para atirar as almas ao inferno.

    “Ponde Jesus no vosso caminho de espinhos”

    Falei-vos, meus senhores, com aquela franqueza que caracteriza os próprios Exercícios Espirituais. Deverei dizer-vos que, assim procedendo, tive a antecipada certeza de que não obteria aplausos unânimes, nem simpatias gerais, senão deste nobre auditório, ao menos daqueles a quem chegar depois de impressa, esta singela palestra. Muitos são em nossa época os que se revoltam contra o dever, porque se insurgiram temerariamente contra toda a lei e todo o freio. Como agradar-lhes, fazendo a descrição de um método espiritual que é o mais eficaz para reintegrar o homem na prática dos mandamentos e no cumprimento dos deveres? Não menos numerosos são os amigos das meias verdades, das “verdades” adocicadas, simpáticas, polidas, incapazes de inquietar a quem quer que seja, e aptas a proporcionar a um auditório alguns minutos de delicado prazer intelectual.

    Suponho que não poucos defensores da verdade estremecem quando a vêem, inteiriça e sem véus, erguer-se aos olhos do mundo. Entretanto, não consistem em dissimulações ou recuos os métodos da Igreja. Quem segue a Jesus Cristo não deve temer as perseguições que vierem ao seu encalço. Almas retas, almas nobres, almas sedentas de verdade e de bem, é a vós que me dirijo. Vossa vida será, talvez, repleta de fardos e dores, e tereis possivelmente receio de acrescentar a tantos fardos mais um, a tantas dores mais uma.

    Houve uma alma contemplativa, provada por mil sofrimentos, que se viu em sonhos percorrendo um caminho cheio de cardos, no qual seus pés se laceravam cruelmente. Apareceu, entretanto, o Salvador, e começou a seguir o mesmo trajeto. E por toda a parte onde seus divinos pés pousavam, ficava uma marca impressa no solo. A alma contemplativa fez sobre estas sacratíssimas pegadas seu caminho, e conseguiu andar com desenvoltura e sem dores, pela estrada onde há pouco conseguia apenas arrastar-se.

    Ponde Jesus no vosso caminho de espinhos, segui suas pegadas e vereis como se mitigarão os sofrimentos que não conseguistes suportar, ou suportareis as dores que não for possível mitigar.  v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído dos Anais do IV Centenário da Companhia de Jesus, Ministério da Educação e Saúde, Serviço de Documentação, 1946, pp. 369-382.)

     

     

     

  • Como um relógio…

    A conversão dos povos ocidentais não foi um fenômeno de superfície. O germe da vida sobrenatural penetrou no próprio âmago de sua alma, e foi paulatinamente configurando à semelhança de Nosso Senhor Jesus Cristo o espírito outrora rude, lascivo e supersticioso das tribos bárbaras. A sociedade sobrenatural — a Igreja — estendeu assim sobre toda a Europa sua contextura hierárquica, e desde as brumas da Escócia até as encostas do Vesúvio foram florindo as dioceses, os mosteiros, as igrejas, catedrais, conventuais ou paroquiais, e, em torno delas, os rebanhos de Cristo.

    Esta florescência religiosa projetou‑se sobre a sociedade civil: organizada com fundamento na Lei de Deus, ordenou‑se segundo a vontade de Deus, e segundo a ordem natural por Deus estabelecida quando criou o universo, o mundo e o homem. Formou‑se assim uma sociedade temporal estabelecida sob o signo de Cristo, segundo a lei de Cristo e conforme a ordem e a natureza própria de cada coisa criada por Deus.

    Tudo isto está longe de ser uma vã fraseologia. Exemplifiquemos com um relógio. O relojoeiro tem em vista fazer um instrumento para a marcação do tempo. Para isto, estabelece um plano em que se conjugam várias peças, trabalhando cada qual segundo seu feitio e natureza própria, para o fim visado pelo relojoeiro. Ora, a família é o instrumento humano [com o qual] Deus deseja a perpetuação da espécie. No caso do relógio, cada peça realiza o seu trabalho, atuando segundo a natureza e feitio com que a quis o relojoeiro. Se ela trabalhar segundo essa natureza e feitio terá feito tudo quanto dela desejava seu autor, e tudo quanto era necessário de sua parte para o bom funcionamento do relógio. Assim também na sociedade doméstica: se cada membro agir retamente segundo sua situação e seu papel, terá feito tudo quanto era necessário para que a família funcione bem. E se todos os membros agirem com igual retidão, a vida doméstica terá chegado à sua perfeição própria: precisamente como o relógio atinge sua própria perfeição pelo perfeito funcionamento de cada uma de suas peças.

    Ora, o mesmo que se diz do relógio ou da família pode dizer‑se da sociedade civil. A sua grandeza própria, enquanto sociedade civil, resultará de que cada um dos elementos que a compõem, isto é, família, classe, associação, pessoa, atue retamente segundo seu feitio e natureza próprios. E é este, e só este, o modo por que a sociedade civil chegará à sua grandeza.  v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Cf. Legionário, n. 666, de 13/5/1945)

    Revista Dr Plinio 110 (Maio de 2007)

  • O vigor da vida espiritual

    Transcrevemos em seguida a parte final do memorando redigido por Dr. Plinio, em 1940, a pedido de um sacerdote vinculado à Ação Católica, para mostrar a necessidade de se utilizarem as práticas consagradas pela ascese cristã.

     

    Meditar é aplicar a intelinas, para sempre melhor conhecê-las. Aplicá-la, também, ao conhecimento quanto possível exato de nós mesmos, para verificar o grau de correspondência entre aquilo que há em nós e aquelas verdades eternas, e, por aí, deduzir os meios práticos para atingir essa correspondência. Para este último fim é necessária uma aplicação da vontade sobre todo o já meditado, para que se fortaleça no amor do bem e no ódio ao mal, e se proponha a aperfeiçoar-se.

    Há vários métodos de meditação, mas entre todos se salientam os que se contêm nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio. Aliás, o Santo Padre Pio XI recomendou expressamente estes Exercícios aos membros da Ação Católica na Encíclica já citada, nos seguintes termos: “Vivamente desejamos, Veneráveis Irmãos, que se formem pelos Exercícios Espirituais numerosas coortes da Ação Católica. Não achamos palavras para exprimir toda a alegria que sentimos vendo organizarem-se por toda a parte cursos de exercícios particularmente reservados às pacíficas fileiras dos valorosos soldados de Cristo, especialmente aos mais jovens, que numerosos acorrem para travar os santos combates do Senhor, e ali encontram não só a força para melhorar a própria vida, mas bem depressa sentem no coração a voz misteriosa que os chama para o apostolado em toda a sua magnifica significação”.

    Necessidade da leitura espiritual e modo de fazê-la

    Para bem meditar é quase sempre necessária a leitura espiritual, isto é, a leitura atenta e devota de algum livro de piedade, devidamente aprovado pela autoridade eclesiástica.

    A leitura espiritual recorda-nos nosso destino eterno em meio às atividades deste mundo, que nos distraem pela sua multiplicidade e urgência; desapega-nos a inteligência e a vontade das coisas terrenas e eleva-nos a sensibilidade, já mostrando-nos as misteriosas belezas da Fé, já movendo-nos pelos exemplos de santidade, ou ainda, dando-nos regras práticas de vida e de devoção. Desta forma, a leitura espiritual deposita em nós

    os gérmens da perfeição cristã, que hão de ser desenvolvidos e amadurecidos pela meditação, a qual encontra neles seus elementos vitais. Mais explicitamente, é a leitura espiritual que fornece a matéria de nossa meditação.

    Entretanto, para ser proveitosa, esta leitura deve ser periódica e freqüente, e cuidadosamente proporcionada aos interesses especiais de cada um, porque do contrário a sua influência fragmentária e esparsa facilmente seria delida pelos agentes mundanos, que atuam quase sem cessar.

    Obrigação de estudar a doutrina católica

    Para bem meditar é ainda necessário o conhecimento claro da doutrina da Igreja.

    Vimos que a meditação versa sobre as verdades eternas. Ora, estas verdades estão contidas na doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, sem a instrução religiosa que nos dê o seu conhecimento claro, não só se poderão perder os frutos da meditação e da leitura espiritual, como também poderá acontecer muito provavelmente que o espírito se ponha a divagar por caminhos escusos, que levam a ilusões perigosas e a erros funestos, com suas conseqüências imprevisíveis sobre a sensibilidade.

    Além disso, na doutrina da Igreja se contêm as verdades que são o objeto da Fé. Ora, desde que é a Fé o que caracteriza a nossa profissão de católicos, todos estamos obrigados a conhecer tais verdades em toda a medida de nossa condição e capacidade, pois que ninguém pode crer sem saber no que crê. E será suma ingratidão para com Deus, que nos revelou estas verdades para nossa salvação, não nos aplicarmos a conhecê-las quanto nos for possível.

    Este conhecimento deve ser haurido num catecismo mais ou menos desenvolvido segundo a inteligência e o estado de cada um, pois que o catecismo é a fonte autêntica.

    Fazer em tudo a vontade de Deus

    O fruto próximo da vida espiritual, segundo vimos indicando, deve ser o firme propósito, isto é, o desejo cada vez mais vivo e ardente de servir a Deus e de desapegar-se inteiramente das coisas do mundo. Desejo vivo, porque se propõe empregar todos os meios conducentes a este fim e não desfalece ante as dificuldades e a vista

    da própria fraqueza, mas está cônscio de seu livre arbítrio, e confia humilde e ativamente na Providência. Ardente, porque se consome no zelo pela glória de Deus. O firme propósito não quer dizer a promessa de sempre, em tudo, e nas mínimas coisas realizar a vontade de Deus, porque tal promessa não se pode fazer sem uma vocação especial ou graça toda particular, e, assim mesmo, em relação a certos fatos determinados. Mas é a vontade intensa de que isso aconteça o mais breve e perfeitamente.

    Exame de consciência: a chave da vida espiritual

    Para evitarmos surpresas e auferirmos os resultados positivos da vida espiritual, e, por aí, adotarmos os métodos sempre mais adequados de procedermos para com nós mesmos, é necessário o exame de consciência pelo menos quotidiano.

    O exame consiste na inspeção cuidadosa de nossos pensamentos, palavras e obras, dentro de um período de tempo determinado, e na investigação dos motivos e circunstâncias desse nosso comportamento. No exame assim feito está a chave da vida espiritual, pois é pela apreciação concreta do que se passa em nós que se pode atingir a atividade superior e geral de ver, julgar e agir em si mesmo. Além disso, o exame de consciência ajuda-nos a desfazer falsas idéias sobre nós mesmos, leva-nos à humildade e excita-nos o arrependimento.

    Também é necessário o exame de consciência para a confissão. Neste particular todos devem ter o seu diretor espiritual, que é a cúpula de tudo quanto se tem dito em matéria de vida de piedade. De fato, praticamente de nada adiantariam todas as recomendações que se vêm fazendo sem a direção de um sacerdote que, por estar muito mais aparelhado pelos seus conhecimentos e graças especiais, sabe indicar os caminhos que seus penitentes poderão seguir com segurança. Se não fosse pela inexperiência dos que se iniciam nas vias da perfeição inexperiência que os fará certamente errar se não tiverem um guia -, bastaria considerar que a vida espiritual exige que cada um se julgue a si mesmo. Ora, ninguém pode ser juiz, não diremos imparcial, mas objetivo de si mesmo. É preciso, portanto, uma terceira pessoa de grande sabedoria e de virtude inconteste.

    Devoção à Santíssima Virgem e à Sagrada Eucaristia

    A vida espiritual exige a mortificação, isto é, a guarda cuidadosa dos sentidos, ou não será vida espiritual. A verdadeira mortificação não consiste apenas em nos privarmos dos prazeres

    ilícitos ou perigosos, mas também daqueles prazeres lícitos que, pelas circunstâncias de fato, variáveis no tempo e no espaço, têm uma certa conexão com a mundanidade. É necessário, ainda, a abstinência dos prazeres, também lícitos, que podem lisonjear as más disposições e tendências desregradas de cada um.

    Enfim, todas estas regras de vida espiritual devem encontrar seu complemento indispensável numa dupla devoção, sem a qual nenhum fruto se colheria: a devoção a Nossa Senhora e à Santíssima Eucaristia. Não basta uma só delas, mesmo porque não é possível separá-las, ou já não serão verdadeiras. A Santíssima Virgem é a Rainha da bem-aventurança e dos bem-aventurados, e a devoção a Ela é considerada sinal certo de predestinação. Só há um caminho para Deus, que é Nosso Senhor Jesus Cristo; mas só há um caminho para Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Nossa Senhora, a medianeira de todas as Graças.

    Onde está Maria, não há temer ilusões, extravios, erros, porque Ela é a inimiga, assim constituída por Deus, do demônio e de suas fraudes (Gen. 3, 15). A devoção a Maria é, ainda, uma conseqüência necessária do Corpo Místico. Pois, “se Jesus Cristo, o chefe dos homens, nasce d’Ela, os predestinados, que são os membros deste chefe, também devem nascer d’Ela inelutavelmente. Uma mesma mãe não dá ao mundo a cabeça ou o chefe sem os membros, nem os membros sem a cabeça; isto seria um monstro da natureza. Igualmente, na ordem da Graça, o chefe e os membros nascem da mesma mãe. E se um membro do Corpo Místico de Jesus Cristo, quer dizer, um predestinado, nascesse de outra mãe que não fosse Maria que produziu o chefe, não seria um predestinado, nem um membro de Jesus Cristo, mas um monstro na ordem da graça” (São Luís Maria Grignion de Montfort, La vraie dévotion, cap. 1, art. 1º, § 32).

    Assim, o devoto da Santíssima Virgem encontrará no Coração de Maria o próprio Coração de Jesus, naquilo que este Coração tem de mais amoroso, mais terno e mais compassivo. Ora, onde mais se manifestam as finezas do Coração de Jesus é na Santíssima Eucaristia. Desse modo, a devoção a Nossa Senhora leva natural e espontaneamente à devoção eucarística. E é aí que os membros da Ação Católica encontrarão o alimento de sua vida espiritual, em primeiro lugar na freqüência assídua à Santa Comunhão, depois na adoração também assídua ao Santíssimo Sacramento.

    Sem este culto fervoroso à Eucaristia que só pode ser verdadeiro com o culto mariano, pelo culto mariano e no culto mariano não é possível a vida espiritual, pois que esta é a assimilação deste sublime alimento, segundo as recomendações dadas. É no Santíssimo Sacramento que reside não só a Graça, mas o Autor de toda Graça, à cuja semelhança se fazem os eleitos, porque fora d’Ele não há bênção nem fruto, nem ressurreição bem-aventurada. A Ele, pois, sejam dadas honra, glória, louvor, adoração, ação de graças, por todos os séculos. Amém.

  • Dizei uma só palavra…

    Na Visitação de Nossa Senhora à sua prima Santa Isabel, vemos o poder da Mãe do Redentor: o eco de sua voz santifica um homem de um momento para o outro. É isto que devemos esperar de Nossa Senhora e pedir a Ela: que sua voz fale no íntimo de nossas almas e nos santifique, concedendo-nos uma virtude que às vezes anos de lutas e trabalhos não nos proporcionaram.

    Todos aqueles que tenham algum desânimo, tristeza ou perplexidade na vida espiritual podem dizer a Maria Santíssima: “Senhora, eu não sou digno de ouvir a vossa voz, mas dizei uma só palavra e a minha alma será transmudada de um momento para o outro se Vós assim o quiserdes”.

    Eis uma graça a pedir à Santíssima Virgem no dia da Visitação: que Ela fale em nossas almas e estas estremeçam de júbilo como estremeceu o Precursor no ventre materno, e que elas se santifiquem num instante, como a alma de São João Batista.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 2/7/1970)

  • Princípios da unidade

    Na segunda parte da conferência, cujo início transcrevemos no último número, Dr. Plinio continua a tratar de um princípio da escolástica, segundo o qual a beleza consiste na unidade posta na variedade. É fundamental para se compreender por que Deus imprimiu no universo um caráter hierárquico, com graus diversos de perfeição. Após haver estudado as leis da variedade, Dr. Plinio examina as da unidade.

     

    A unidade supõe uma ausência de interrupção que se pode verificar de duas maneiras: pela continuidade ou pela coesão.

    A continuidade é a simples ausência de vazios, para que, no ser uno, não haja hiatos.

    Muito mais profunda é a unidade que se verifica pela coesão: neste caso há uma articulação interna entre os elementos, de modo que eles ficam presos uns aos outros por vínculos íntimos e poderosos.

    Entre as classes sociais, numa civilização cristã, deve haver continuidade e coesão. Embora numerosas, e profundamente diferentes entre si, o todo que elas constituem é contínuo e coeso. É contínuo porque umas se explicam pelas outras, auxiliam-se mutuamente e formam um conjunto sem os hiatos que caracterizam a sociedade revolucionária. E é coeso porque as classes, embora distintas, estimam-se, defendem-se umas às outras, não se consideram estranhas ou inimigas entre si, mas se amam com o verdadeiro espírito de Nosso Senhor, que foi Príncipe e, ao mesmo tempo, artesão. Como tudo isso é diferente da luta de classes do mundo moderno!

    Transição harmônica, como as cores de um arco-íris

    Ao tratarmos das leis da variedade e ao examinarmos a lei da gradação, vimos que deve haver hierarquia na Criação.

    Estudando agora as leis da unidade, veremos que essa hierarquia, para ser autêntica, deve compor-se de graus que se sobreponham uns aos outros harmonicamente, e não de qualquer modo.

    Na hierarquia, a variedade se assegura pela multiplicidade dos graus intermediários, ao passo que a unidade se assegura pela suavidade da transição entre esses graus.

    É o que acontece com o arco-íris: as cores que o compõem se ordenam em uma transição suave. Vemos nisto a sabedoria de Deus, que criou o Universo com uma magnífica unidade, expressão de uma grande força, e ao mesmo tempo com uma magnifica variedade, expressão de um grande poder.

    Pensemos na coroação de um Imperador do Sacro Império Romano Alemão. No momento em que o Imperador recebia a coroa, bimbalhavam os sinos da capital do Império. Logo repicavam os sinos das cidades mais próximas; a seguir, os das cidades mais longínquas; e por fim, os de todas as Igrejas da Alemanha. Durante dias e dias os sinos repicavam, anunciando, de campanário em campanário, que o Imperador havia sido coroado.

    Consideremos esse tocar de sinos que se estendia por todas as Alemanhas: a Alemanha da Baviera, a da Saxônia, a de Dresden, a de todos os tipos de alemães, desde o tipicamente militar, até o burguês bonachão. Essa amplitude de repercussões da notícia da coroação do Imperador por vários mundos dá a impressão de algo forte e suave ao mesmo tempo. Que poder imenso é o do Imperador! Mas, ao mesmo tempo, quanta doçura há nesse Império! Como a força e a suavidade nele coexistem harmonicamente!

    São bem esses os valores que devemos amar do fundo de nossa alma, pois se relacionam com uma perfeição a perfeição da hierarquia em que a variedade e a unidade se encontram num grau excelente.

    Proporção: tudo feito com número, peso e medida

    A Sagrada Escritura nos diz que todas as coisas foram criadas por Deus com número, peso e medida. Vemos, com efeito, que em todos os corpos, a natureza, o movimento e a massa são proporcionais.

    Temos um expressivo exemplo dessa proporção na Igreja Católica. Sendo uma organização imensa, riquíssima e belíssima, Ela se personifica, por excelência, na pessoa do Papa. A pompa e a dignidade papais, a beleza de sua corte, enchem a todos de admiração. Mas, ao mesmo tempo, achamos tocante que a Igreja Católica também se personifique num pequeno cura de aldeia. Essa personificação é a mais proporcionada aos camponeses, está bem ao nível das suas almas, não os intimida nem os constrange. A representação do Sacerdócio de Nosso Senhor tem, nesses curas de aldeia, como que uma condição pequena, proporcionada àquela gente também pequena.

    Imaginemos agora um estadista coberto de glórias, que chega à velhice, e suponhamos que a Igreja, para cuidar de sua alma, delegue um monsenhor. É um fato que, aliás, tem se dado na História. Contemplemos o velho estadista e o monsenhor conversando de forma amena e respeitosa. Não agiu bem a Igreja Católica, reconhecendo e honrando a dignidade desse homem? É que a Igreja procura proporcionar a sua hierarquia à hierarquia civil. Seu amor é semelhante ao materno, pois uma mãe sabe dosar como ninguém a energia e a suavidade. Assim faz a Igreja.

    A proporção existia em grau excelente na hierarquia feudal. A nação, que se personificava no rei, também se personificava no pequeno senhor feudal, colocado junto ao povinho miúdo. Ele, o menor grau da aristocracia, iluminava com a transcendentalidade da nobreza o último grau da escala social.

    Até com relação às bebidas podemos contemplar a proporção. Ao lado de vinhos do mais alto requinte, existem boas bebidas populares, feitas exatamente para o pequeno povo. Essa é a proporcionalidade das coisas boas. Na casa do rei, há móveis dourados; na do camponês, os há de carvalho trabalhado, como em algumas regiões da Europa. Na casa do rei, há ouro e prata; na do camponês, objetos toscos, mas que, por serem dignos e artísticos, às vezes valem o ouro e a prata.

    Esta é a proporção bela, leve, suave, razoável, que devemos, amar com todas as nossas forças.

    Simetria: não pode haver o risco de se perder a unidade

    Imaginemos um edifício com uma fachada tão extensa que corra o risco de perder a unidade. Se, entretanto, ele tiver nos dois extremos duas torres iguais, sua unidade estará, pela simetria, reconstituída.

    Na História do século XVI vamos encontrar uma cena que ilustra bem isso. Francisco I, rei da França, e Henrique VIII que ainda não se tinha feito protestante decidiram encontrar-se em Cambrai, no lugar que depois foi chamado “camp du drap d’or”, tal o luxo, tal a magnificência de que se revestiu o fato. Basta dizer que, no campo de Francisco I, as tendas eram douradas. O encontro entre os reis realizou-se em uma ponte. Imaginemos a beleza do encontro dos dois soberanos, e das duas cortes que chegavam. Na ponte inteiramente coberta de tapetes, um rei se inclina diante do outro rei, cumprimentando-se assim mutuamente, enquanto as trombetas soam. Quando os franceses querem descrever a atitude dominadora de um homem, dizem que ele tem o ar de um rei que recebe outro rei “l’air d’un roi recevant un roi”. Em que consiste a beleza de um soberano que recebe outro rei? É exatamente a beleza da simetria, em que dois princípios iguais se contemplam um ao outro e, de certo modo, se multiplicam um pelo outro.

    Na cristandade, a existência de muitos reis iguais em força, glória e poder, era exatamente uma expressão do princípio da simetria.

    Tudo se ordena em torno de um elemento supremo

    A quinta lei da unidade é a da monarquia. Ela é indispensável para a beleza da vida humana. Todas as coisas, para serem reduzidas à sua unidade, devem tender a se ordenar em torno de um elemento supremo, que será um símbolo, uma como que personificação do conjunto. E é esta personificação que dá perfeição à unidade

    A monarquia não é, como poderia talvez parecer, o oposto da hierarquia, mas, pelo contrário, é a sua consumação. Nela, a beleza de todas as diversas perspectivas como que se concentra.

    Ao lado da lei da monarquia, há a lei da sociedade. Ela consiste em que as coisas, postas juntas, se completam e se embelezam mutuamente.

    Analisamos embora de forma muito sucinta as leis da estética do Universo. Trataremos de mais um ponto, muito relacionado com este assunto.

    Atração pelo que melhor espelha a perfeição de Deus

    Tomemos as palavras: decente, excelente, nobre, majestoso, sagrado. Elas constituem uma gradação ascendente.

    De um determinado objeto, pode-se dizer primeiro, que ele é decente, o que significa que não tem nenhuma nódoa de vergonha. Além de decente, podemos dizer que ele é ótimo, excelente. Excelente já é mais que decente.

    Poder-se-ia, prosseguindo, apôr o adjetivo nobre, que é especificamente mais do que excelente e decente. Mais do que nobre, poderemos dizer que o objeto é majestoso, adjetivo que, não é, entretanto, especificamente diferente de nobre, pois dele difere somente em grau. Por fim, poderemos acrescentar que o objeto é sagrado, quando contém valores que superam a majestade humana.

    Nessa gradação de valores, um espírito muito religioso será atraído por aquilo que melhor espelha a perfeição de Deus: o majestoso e o sagrado. Ele procurará, em tudo, esses supremos valores, e terá sede deles.

    Tendo esse espírito, o homem desejará uma sociedade em que, ao lado de muitas coisas decentes, haja várias excelentes, nobres, majestosas, e sagradas.

    E então esse homem criará naturalmente uma sociedade que realiza, dentro dessa ordem quase fluida de coisas, uma admirável variedade e uma perfeita unidade

    Compreendemos, pois, que quando uma pessoa conhece e ama os princípios da variedade e da unidade do Universo, e quando essa pessoa é católica pois só o católico já tem os pressupostos para compreender inteiramente esses princípios , ela é de fato profundamente religiosa, no sentido mais verdadeiro da palavra.

    Este quadro que descrevemos da estética do Universo, com suas leis, os reflexos divinos colocados pelo Criador em todas as coisas, em última análise, tudo o que os católicos fervorosos amam, tudo aquilo de que têm sede, tudo isto a Revolução quer destruir, eliminar, apagar.

    E é nisso que consiste a questão religiosa, que não se restringe ao problema do laicismo. É uma questão que não se resolve fazendo uma concordata e declarando que a Igreja Católica é a oficial no país. Está em cena toda uma concepção da vida, todo um modo de ser do pensamento humano.

    Como católicos, pois, devemos amar profundamente a face de Deus refletida na ordem verdadeira das coisas. Mas, para que nosso amor chegue até onde deve ir, aprendamos a aplicar essas leis da variedade e da unidade.

    Assim, sempre que algo nos causar admiração e nos deleitar, saibamos perceber qual das leis da estética do Universo está aí aplicada. Agindo desse modo, faremos algo imensamente agradável a Nossa Senhora.

  • Prêmio à altura do afeto

    Mãe de Misericórdia, Nossa Senhora às vezes concede graças a pedido de quem não merece, como reza o “Lembrai-Vos”.

    Mas, Ela é também Mãe de Justiça. E a todo bem realizado por seus filhos, com quanta alegria Ela os favorece com uma justa recompensa! Como se dissesse a cada um deles: “Meu filho, a ti não darei uma graça porque te perdôo, e sim porque te premio.

    Que felicidade tu me proporcionas pelo fato de mereceres esse prêmio! Ei-lo, não à altura, mas muito maior do que teu mérito: à altura de meu maternal afeto…”

  • Auxiliadora onipotente

    A Santíssima Virgem segura no braço esquerdo o Menino Jesus, e na mão direita um cetro. Isso quer indicar que, pelo poder que Ela tem sobre seu Divino Filho, possui a onipotência sobre todo o universo. E por essa razão tem o poder de nos auxiliar em tudo quanto necessitarmos. É uma auxiliadora onipotente.

    Por outro lado, o semblante risonho e amável d’Ela nos fala da sua misericórdia.

    Estão presentes, portanto, os dois fatores para confiarmos no auxílio de Maria Santíssima, que quer e pode socorrer-nos inesgotavelmente, em tudo. Logo, se pedirmos, Ela socorrerá.

    Nossa Senhora Auxiliadora poder-se-ia chamar, debaixo de certo ponto de vista, Nossa Senhora dos Pedidos. Ela não nos auxilia só quando pedimos, mas sempre que o fazemos, Ela nos ajuda. Por causa disso, é invocada sob o título de “Auxílio dos Cristãos”.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 23/5/1968)

  • Poderoso auxílio em todas as dificuldades

    Continuamente devemos recorrer a Nossa Senhora, especialmente quando passamos por dificuldades. Ela sempre nos acolhe, pois nunca se ouviu dizer que a Mãe de Deus tenha abandonado alguém que pede seu socorro. Entretanto, às vezes nossa prece demora em ser atendida; isso significa que Ela nos dará graças com extraordinária abundância.

     

    Eu gostaria de dizer uma palavra mais especialmente quanto a Nossa Senhora Auxílio dos Cristãos nas dificuldades da vida espiritual. Estas costumam ser de duas ordens. Umas dificuldades são as crises breves da vida espiritual, quando a pessoa se sente tentada e, portanto, hesitante ou abalada entre o bem e o mal, e com a possibilidade de ser arrojada no precipício do mal de um momento para o outro.

    As dificuldades do tipo clássico

    Essas são as dificuldades do tipo clássico, e quando falamos a respeito de dificuldade, naturalmente pensamos primeiro na do tipo clássico, quer dizer, no grande apuro da vida espiritual. Evidentemente Nossa Senhora é auxílio nessas circunstâncias. Não teria sentido Ela ser Auxílio dos Cristãos se não o fosse, sobretudo, para a vida espiritual, e é claro que o auxílio é principalmente para os mais necessitados. Então, para as pessoas que estão em crises agudas da vida espiritual e gravemente necessitadas, Maria Santíssima, na plenitude do termo, é o auxílio.

    Sendo Ela Mãe de Misericórdia, seu auxílio não é dado apenas para uma pessoa que diga: “Eu vou perfeitamente bem na vida espiritual, estou muito tentado, porém não cedi em nada. Tenho direito ao vosso auxílio; vinde e auxiliai-me!” Mas também para aquele que se encontre numa situação pior, e de apuro muito mais grave, e reze: “Eu estou muito tentado, pequei, andei mal. Receio me embrutecer no pecado, de me habituar a ele, de não sair da vida de pecado, e tenho uma vontade imensa de me regenerar. Não mereço vosso auxílio, mas porque sois Auxiliadora de todos os cristãos, até dos mais miseráveis e não apenas dos cristãos bons,  então Vos peço: vinde auxiliar-me!”

    Quer dizer, nessa visualização é a miséria da pessoa, o próprio fato de ela ter caído em pecado que é alegado diante de Nossa Senhora, como uma razão para obter o auxílio. É mais ou menos como quem se coloca diante da mãe e diz o seguinte: “Estou tão necessitado que até me aconteceu o pior. É verdade que foi por minha culpa. Pequei. E porque estou exatamente no sumo do desamparo, por ser um pecador, eu, enquanto abandonado, encontro no desamparo a razão pela qual primeiro devo pedir a vossa misericórdia.” Quer dizer, esta é uma consideração de fundo, que não fecha nunca as portas da esperança na vida espiritual, porque a Virgem Santíssima, sendo nossa Auxiliadora, é próprio,  inerente a Ela, é movimento profundo n’Ela, correspondente à sua missão, ao amor insondável que Ela tem a Deus, de nos auxiliar por esta forma.

    Há aqui uma esperança, um recomeçar sem fim de novos propósitos de emenda, que deve ser o fundo de nossa vida espiritual.

    Uma das crises da vida espiritual apresenta-se à maneira de alguém que, estando numa escada, encontra-se em perigo de cair em cima de uma fogueira: cai, não cai.

    Os que se atolam em alguma etapa da vida espiritual

    Existe um outro sistema de crise espiritual. É o da pessoa que está subindo uma escada e, no lugar onde deveria haver um patamar, tem o vazio, e mais adiante continuam outros degraus; de maneira que o indivíduo não sabe como faz para pular aquele vácuo. São as tais almas que atolam a alturas diferentes da vida espiritual.

    Há uns que atolam, por exemplo, num estado assim: levam anos no meio-termo entre a virtude e o pecado, ora no estado de graça, ora fora do estado de graça, e ficam naquele pêndulo do Inferno para o Céu e do Céu para o Inferno.

    Outros atolam numa espécie de mediocridade do estado de graça; não pecam mortalmente, mas cometem torrentes de pecados veniais — por exemplo, as tais mentirinhas ditas “inocentes” — à vontade.

    Existem ainda aqueles que vencem as tais mentirinhas, mas se atolam numa outra coisa. Quem está nessa situação diz: “Combati todos os pecados que eu tinha — os leves e os graves —, e percebo que não estou valendo grande coisa. Há algo que falta, mas não sei o que é. Só sinto que eu, apesar de toda a profilaxia, não valho nada. Pior seria se eu não tivesse feito a profilaxia… Eu, antes, estava sujo; agora fiquei vazio. Mas, daí para diante, como encher isto? Também não sei.” E fica parado nesse estado.

    Há outros que adquirem virtudes, progridem, e param já num certo grau de virtude, mas, de vez em quando, o carro encalha e não há meio de galgar o patamar de cima. O indivíduo fica assim um tempo enorme. Isso corresponde, em qualquer altura da escada, sempre a um ponto: é algo de que a pessoa deveria se desapegar e que, ao mesmo tempo, é a coisa mais clara e a mais confusa do mundo. Ela vê com toda a clareza que devia deixar aquilo, mas, concomitantemente, não vê de nenhum modo que é aquilo que ela precisaria abandonar.

    A necessidade de uma graça extraordinária

    E a Providência fica provando aquela pessoa até criar um momento em que haja um estalo em sua cabeça, o qual, em geral, representa uma graça grande que ela recebe, fazendo-a pensar: “Ah! Eu agora vejo, tem isto, aquilo e mais tal outra consequência. Estou compreendendo”. Então começa uma emenda, e ela vai mais um pouco para diante. Um, dois, três anos depois para de novo. Cada solução de um encalhe destes equivale verdadeiramente a uma espécie de conversão. E tanto é conversão — neste sentido da palavra — do indivíduo que deixa o zigue-zague entre o estado de pecado mortal e o estado de graça, como daquele que está vazio, embora não sujo, e sente a necessidade de se encher de virtudes que não possui.

    Então, no caso de quem estacionou a certa altura da vida espiritual, é mais uma conversão neste sentido: é preciso uma graça extraordinária, como Nosso Senhor dava a um paralítico que, de repente, começava a andar. Essa graça precisa ser pedida, e ela representa o desapego de algo de muito claro e muito obscuro, ao qual a pessoa estava apegada.

    É evidente que não podemos produzir essa graça por nosso próprio esforço, porque a graça é um dom criado e concedido por Deus, e não obtido por nós, mais ou menos como um isqueiro que tira de si mesmo a sua própria chama.

    É preciso pedir que Maria Santíssima nos obtenha de Nosso Senhor essa graça. Portanto, nesses estados Nossa Senhora quer deixar bem clara a necessidade do sobrenatural.

    Durante muito tempo, por nós mesmos, nada conseguimos. Pedimos para Ela e, de repente, obtemos. Quer dizer, Ela pode levar mais tempo ou menos para dar, mas quando Ela concede, o faz de uma vez, rapidamente, de um modo impressionante.

    Esse tipo de graça, como a cura que Nosso Senhor realizava nos paralíticos, ao dizer a um homem “levanta-te e anda”, e ele saía caminhando, Nossa Senhora também nos obtém, enquanto Auxílio dos Cristãos, para circunstâncias extraordinárias, para casos que não se resolvem de outro modo.

    Acho muito importante isto, porque conheço muitas almas boas que acabam desanimando na vida espiritual à força de rotina, de estagnação, petrificação e paralisação; ela se pergunta: “O que eu vou fazer daqui por diante?” Não se sabe.

    Pedindo a Nossa Senhora, Ela nos dá o auxílio

    Às vezes entra-se em alguma igreja e se vê certas beatas rezando. Tem-se a impressão de que podiam passar dois mil anos fazendo aquela oração, e não saíam daquele pouco de vida espiritual. Tudo direitinho, arranjadinho… Pode-se imaginar uma delas que, voltando para sua casa, ia ver um filho bêbado, ateu, cuidava dele; depois pegava uma imagenzinha de Nossa Senhora, fazia uma novenazinha, etc. Mas uma chama de uma virtude heroica, de algo de generoso, que convertesse, nada! E então, também nesse caso, desânimo, uma certa rotina, rodando no vácuo.

    Por que às vezes se encontra um bom católico parado? Porque não lhe ensinaram que seu estado tem uma solução, um remédio, e que o fato dele não encontrar a solução é a prova de que Nossa Senhora quer mostrar-lhe que a solução é só Ela. Sem Maria Santíssima, ele de fato não vai para a frente, pois está apegado, entalou, enrascou em qualquer coisa.

    Então, Nossa Senhora quer deixar bem claro que é preciso pedir-Lhe essa graça, e, pedindo, Ela dá; o sobrenatural resolve as dificuldades, é uma questão de espírito de Fé. Rogando empenhadamente, afincadamente, nós conseguimos.

    O título de Nossa Senhora Auxílio dos Cristãos é um incentivo para que nós peçamos, porque compreendemos que o próprio d’Ela é auxiliar. Então, se eu preciso de auxílio e encontro a Auxiliadora dos Cristãos, estou certo de ser atendido, porque o necessitado encontra seu alívio junto à auxiliadora. Se considerar que a auxiliadora é Mãe, terei certeza de ser atendido. Então, àqueles dentre nós que se encontram nesse estado, em qualquer estágio da vida espiritual, eu sugiro — não vou além de uma sugestão — que rezem apenas três Ave-Marias por dia, pedindo a Ela isto: que tenha a bondade, a condescendência, a misericórdia de intervir nesse estado, e intervenha logo para nos socorrer. Ou, então, uma oração como o “Lembrai-Vos” pode ser sumamente útil para isso.

    Rezando essa prece, posso dizer: “Lembrai-Vos de que nunca se ouviu dizer que Vós abandonastes algum pecador. Ora, eu sou um pecador. Será que Vós ireis interromper dois mil anos de gloriosa assistência aos necessitados e abrir uma exceção para mim? Eu não acredito.” É uma linda expressão: “Lembrai-Vos”.

    Uma simples medalhinha amassada

    Quando nos lembramos de todo o rebotado que passou… E quanta coisa Nossa Senhora tem perdoado, de toda ordem, de todo jeito; uns judeus empedernidos como Ratisbonne(1), bêbados, sem-vergonhas, canalhas, gente de toda ordem que Ela converte. Dessa forma, posso pensar: “Nunca se ouviu dizer… Será que Vós permitireis que a primeira vez seja comigo? Não é possível!” Eu, então, crio alento e toco para a frente.

    Eu li uma vez, num livro de vida espiritual, uma coisa muito bonita a respeito do auxílio de Nossa Senhora. Uma senhora, se não me engano da nobreza de Paris, possuía uma casa muito bem arranjada, em cuja sala de visitas havia um quadro com uma moldura bonita e, dentro, uma almofada de veludo e uma medalhinha muito comum, amassada. Um ou outro visitante que aparecia lá perguntava, às vezes, o que era aquele objeto inteiramente sem valor artístico, até estragado, no meio daquela sala tão faustosa e de tanto gosto. E a senhora contava o seguinte: “A essa medalhinha devo a vida e a conversão do meu filho. Ele era ateu, estava saindo de um mau lugar — ou bebendo, ou fazendo qualquer outra coisa má; enfim, se encontrava em estado de pecado — e houve um crime na rua; o projétil desviou-se e bateu no peito dele, chocando-se contra essa medalhinha”.

    Sabemos como, em geral, as medalhas de Nossa Senhora são frágeis, ultra comerciais, de alumínio, etc.

    E ela continuou: “O projétil está guardado junto com a medalha. Entortou e estragou a medalha, mas miraculosamente não matou meu filho. Ele teve um tal golpe, que se converteu. E este grande milagre merece bem que eu tenha estes objetos expostos aqui”.

    Vemos, assim, a bondade de Nossa Senhora por um tipo que, sendo morto por um disparo, iria para o Inferno, pois estava ofendendo a Ela naquele momento. Para esse sujeito, Ela realiza um milagre esplêndido.

    Então: “Lembrai-Vos de mim também que não estou fazendo uma coisa horrorosa, não estou pecando, mas vilmente encalhado, bestamente encalhado, e não há o que me desencalhe. Disto eu estou farto de saber e compreendo que só Vós me podeis desencalhar; fazei-me este favor, desencalhai-me!” É um pensamento que só pode nos alentar e ser um incentivo para nossa novena de Nossa Senhora Auxiliadora.

    Tardando em nos atender, Maria Santíssima nos concede superiores benefícios

    Quando consideramos os auxílios da Virgem Maria, vemos que é uma verdadeira graça o fato de Ela dignar-Se estabelecer conosco relações pelas quais atende pequenos pedidos, quase que diríamos pequenas intenções, como se fossem pequenos carinhos maternos da parte d’Ela. Sem dúvida, é uma graça que devemos reputar como muito preciosa.

    Entretanto, não devemos nos espantar quando o auxílio de Nossa Senhora tarda. Muitas vezes Ela demora a atender exatamente nas grandes graças, que Ela quer que peçamos muito.

    Em geral, em toda a vida de uma pessoa muito devota de Maria Santíssima, assim como existem as graças que Ela dá logo, há também umas duas, três, quatro ou cinco que Ela concede demorando enormemente, e essas são as almas que Nossa Senhora mais ama, pelas quais, dentro de um rosário de graças facilmente concedidas, Ela coloca algumas muito difíceis. E em geral as graças que Ela ama mais são as de caráter espiritual. Às vezes, é uma graça de caráter temporal cujo retardamento vai ter um sentido espiritual.

    Contaram-me o caso de uma senhora protestante, convertida à Religião Católica, a qual tinha muita vontade de ser devota de Nossa Senhora. Leu São Luís Maria Grignion de Montfort, convenceu-se de ser aquela a verdadeira devoção, mas não conseguia ter uma devoção que não fosse puramente teórica em relação à Santíssima Virgem.

    Ela passou dez anos rezando todos os dias afincadamente, para ter uma devoção viva a Nossa Senhora. Ao cabo desse tempo, ela a obteve de modo supereminente.

    Quer dizer, há certos retardamentos da providência de Nossa Senhora, enquanto Auxílio dos Cristãos, em que Ela concede mais tardando do que dando logo. E isso em parte porque se Maria Santíssima atendesse todos os nossos pedidos imediatamente, a Terra se transformava num paraíso e os sofrimentos desapareciam. Ora, umas das maiores graças que Nossa Senhora nos dá são as cruzes, os sofrimentos. E muitas vezes Ela tarda para nos dar a graça e o mérito do sofrimento.

    É preciso também acrescentar que algumas vezes a Santíssima Virgem tarda para provar a nossa Fé, quer dizer, para nos desenvolvermos na Fé e na confiança; e depois Ela nos dá essas graças de modo supereminente.

    Por isso, se há alguma alma que esteja esperando muito tempo para receber uma graça, ela não deve considerar isso como uma recusa de Nossa Senhora, mas como uma promessa de que, se pedir muito, essa graça lhe será dada com uma abundância extraordinária.

    Na novena de Nossa Senhora Auxiliadora, que, enquanto Auxiliadora, é dadivosa e distribuidora de graças, devemos pedir que, assim como Ela tem pena das almas do Purgatório e abrevia seus tormentos, na medida em que convenha às nossas almas, condescenda em abreviar também essas grandes demoras, e nos dê aquilo que nós queremos, sobretudo para a nossa vida espiritual.

     

    (Extraído de conferências de 21/5/1964,
     17/5/1966 e 18/5/1966)

    1) Afonso Tobias Ratisbonne, convertido milagrosamente à Religião Católica ao presenciar uma aparição de Nossa Senhora. Ver Revista Dr. Plinio, n. 46, p. 6-9; n. 94, p. 24-29.