Autor: Nelson

  • O PODER DA FÉ E DA DEVOÇÃO

    Exposta aos luminosos ósculos do sol, envolta nas sombras de uma nublada atmosfera, ou emergindo numa certa penumbra prateada romana (que é preciso conhecer para compreender toda a sua beleza), a grande cúpula da Basílica de São Pedro se destaca no cenário da Cidade Eterna. No alto, uma espécie de pequeno mirante se adelgaça até se cobrir de uma esfera dourada, tendo por arremate o símbolo de nossa Redenção. É a glorificação festiva da Santa Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.

    O “Cupolone” (assim a chamam em italiano) é como que separado em gomos por largas estrias de pedra, todas elas de uma simetria perfeita, cobertas de uma camada azulada, tendente ao prateado e meio propensa a refletir o céu.

    Imenso, sob ele se poderia construir um edifício com várias dezenas de andares. Tal é o tamanho interno da Igreja de São Pedro.

    À esquerda e à direita da grande cúpula erguem-se duas menores, na aparência sem muita significação. Entretanto, quando queremos compreender a razão de ser de algo ou de alguém, não  devemos considerar apenas a impressão que causa por sua atuação e presença. Devemos igualmente imaginar como seriam as coisas se ele estivesse ausente ou se não existisse. Essa é a pergunta  que nos importa fazer, diante dessas duas cúpulas pequenas, diminutas imitações do “Cupolone”. Poderiam alegar que a função estética delas não passa de mero enfeite. Eu digo: são enfeites, mas por que possuem essa capacidade de adornar?

    Imaginemos que essas cúpulas menores não existissem. Teríamos logo a impressão de que o “Cupolone” esmaga a igreja. Portanto, para a ótica humana, elas como que suportam psicologicamente o  peso da cúpula gigantesca, e ajudam a tornar leve algo que, sem elas, tornar-se-ia por demais pesado.

    ***

    Abaixo da grande cúpula, surge o frontispício da Basílica, assinalado por vigorosas colunas. Nele encontra-se a “loggia”, isto é, o balcão de onde os papas costumam abençoar o povo reunido na Praça de São Pedro. Ato que se reveste de brilho e emoção particulares quando se dá logo após a eleição do Sumo Pontífice. Segundo a sapiencial tradição da Igreja, o Conclave se realiza no palácio o Vaticano, a portas fechadas. Os fiéis, conhecendo a hora em que os Cardeais se reúnem para as votações, dirigem-se para a praça e ali permanecem à espera do resultado. De uma pequena chaminé evola-se uma fumaça preta, quando o novo Papa ainda não foi eleito. O povo então se dispersa, desapontado e ansioso. Quando sai branca, uma estrondosa ovação ressoa pelos  ares: a Igreja já não está mais órfã.

    Após os rituais que se seguem a uma eleição pontifícia — como a escolha do nome adotado pelo sucessor de Pedro e a obediência que lhe é prestada pelos cardeais presentes —, o Papa se dirige para esse balcão. As portas se abrem ante o entusiasmo indescritível do povo: este conhecer á, finalmente, a fisionomia do atual Pai da Cristandade. Os carrilhões da Basílica começam a tocar,  acompanhados pouco a pouco pelos sinos de todas as igrejas de Roma. É a glória de São Pedro que se faz ouvir em toda a Cidade Eterna. Então o Sumo Pontífice dá a primeira bênção “urbi et orbi” —  para Roma e para o mundo inteiro.

    ***

    A “loggia” e o frontispício triangular, testemunhas de toda essa glória do Papado, olham para a praça, no meio da qual se levanta um enorme obelisco. É um tipo de pedra coberta de inscrições egípcias, que se encontrava originariamente na terra dos Faraós. Em monumentos semelhantes costumavam esses soberanos deixar gravados os fatos marcantes de seu reinado e outros acontecimentos do gênero.

    No alto do obelisco foi colocada uma cruz, que nos faz recordar, emocionados, o lema dos cartuxos: “Stat Crux dum volvitur orbis”— enquanto o mundo todo gira, a Cruz permanece de pé.

    É muito interessante observar que a arquitetura da Praça de São Pedro foi concebida de maneira a que ela representasse a forma da cabeça de uma chave, que toma contornos a partir das colunatas de Berninni, dispostas em semi-círculo. Habitualmente, no dia de “Corpus Christi”, o Papa realiza aí a procissão com o Santíssimo Sacramento, acompanhada por uma multidão de fiéis, sob o dobrar dos sinos da Basílica e das igrejas romanas.

    O corpo da chave é desenhado por uma avenida de linha retíssima — a Via della Conciliazione — que chega até as margens do rio Tibre. Assim ficam lembradas as chaves de São Pedro, a dos Céus e a  da Terra, quer dizer, o mando do reino celestial e, indiretamente, do terreno.

    ***

    Entre todos os eloquentes aspectos que enriquecem a Basílica do Vaticano, entre a fabulosa pluralidade das cores de seus mármores, o reluzimento de seus ouros e a beleza extraordinária de suas pratas, um objeto sobressai por seu maravilhoso simbolismo: é a famosa imagem de bronze de São Pedro. Antiquíssima, datada ainda do tempo anterior à Idade Média, e cujos pés os católicos do  undo inteiro vêm oscular. De tantos beijos depositados ao longo dos séculos, ficaram os dedos do pé completamente sem saliência. É o poder do amor e da dedicação sobre o poder do bronze. Os lábios dos fiéis, penetrados pela doçura da Fé, corroeram a dureza do metal…

    Revista Dr Plinio 35 (Junho de 2001)

  • Huysmans Apelo à conversão

    Ainda muito moço, Dr. Plinio despontara como notável orientador da juventude católica. Abordando com coragem temas às vezes espinhosos e polêmicos, ele utilizava as páginas do “Legionário” para proporcionar uma formação adequada aos jovens. Exemplo disso são os dois artigos publicados em janeiro de 1932, nos quais comenta as obras de um grande escritor católico francês.

     

    A literatura de nossos dias, acorrentada à sensualidade, está em franca crise de assuntos. Esta crise é, mesmo, o mais sério problema com que têm de lutar todos os literatos hodiernos. O cinema, o romance, a novela, a poesia, tudo enfim, está assolado por uma tremenda crise de temas. Os enredos giram eternamente em torno de casos amorosos.

    Ora, os aspectos amorosos da vida, por  mais que nos modernizemos, só podem dar lugar a quatro combinações: ou são duas pessoas casadas, que abandonam seus respectivos lares para constituírem juntas um terceiro sobre os escombros da felicidade de seus primeiros cônjuges; ou é uma pessoa casada, que se apaixona por uma solteira, culminando a paixão numa ruptura dos laços conjugais; ou a ruptura não se dá,  mas morre oportunamente o cônjuge embaraçoso, de sorte que o viúvo ou viúva pode, mal fechado o caixão do defunto, atirar-se nos braços da outra; ou são duas pessoas solteiras que se tributam  mutuamente um amor combatido barbaramente pelo “sogro” implacável.

    Estes casos comportam evidentemente algumas variantes. Ou o crime corta o nó górdio de uma vida supérflua, que ameaçava durar demais; ou o adultério brutal põe termo a uma situação incômoda; ou o cônjuge supérfluo se suicida discretamente, para deixar o lugar a seu sucessor mais feliz. Evidentemente, porém, estas combinações também são limitadas e se esgotam ao cabo de  algum tempo. De tal sorte que, quem se entrega assiduamente à leitura de romance durante cinco anos, fica conhecedor de todo o estoque amoroso de nossas livrarias. E, com um pouco de  argúcia, poderá ver, logo ao ler as primeiras páginas, qual o desfecho da história, desfecho este que depende das inclinações do autor, e dos sentimentos e posição que atribui aos personagens do  romance.

    Um autor que combata este círculo vicioso, para ingressar em um campo novo, é, evidentemente, um Cristóvão Colombo do espírito, que abre para a inteligência continentes novos, mundos inexplorados. É o que se dá com Huysmans, um dos mais estranhos e admiráveis escritores do século passado (século XIX). Seu mérito foi o de ter sabido confeccionar as mais espantosas obras literárias que se possam imaginar, abstraindo totalmente de complicações amorosas.

    J. K. Huysmans, literato naturalista, residente em Paris, encontrou-se a certa altura de sua vida mergulhado em tremenda crise intelectual. Suficientemente lúcido para abominar seu século, mas  destituído de qualquer amparo sentimental em alguma amizade sólida ou afeição de família profunda, Huysmans, ao mesmo tempo que se isolava cada vez mais do convívio de todos, fazia dentro de si um vácuo tremendo.

    Tendo abandonado todos os seus amigos, destruído todas as suas antigas ilusões, perdido todos os seus parentes, vivia isolado em Paris, em pequeno quarto, onde passava dias infindáveis em companhia de um gato, a maldizer indefinidamente o século XIX. Foi então que conheceu um pseudo-médico, des Hermies, fidalgo “déclassé”, que frequentava rodas espíritas, de mágicos, astrólogos, etc. no “bas fonds” canceroso que existe em Paris. A princípio, seduziu-o no amigo o cunho original e misterioso de sua vida. Esta sedução se acentuava à medida em que ia privando com as pessoas mais chegadas a des Hermies, todas elas atacadas de um misticismo acatólico e doentio, que exalava os miasmas da mais absoluta putrefação espiritual. Levado por suas inclinações de  diletante, Huysmans não recuou à vista de tal ambiente.

    Sobreveio-lhe, nessa ocasião, em condições misteriosas, um convite para que assistisse a uma “missa negra”, celebrada em honra do demônio por um sacerdote privado de ordens sacras. Excitada  fortemente sua curiosidade, aceita o convite e é conduzido a um lugar estranho, em que se amontoam mulheres e homens carregados com o peso de todos os vícios e todas as baixezas. Sobre o  altar, um Cristo rindo, num “rictus” ignóbil, ultrajante.

    Toca uma sineta, entra o sacerdote. Começa a missa, entre contorções dos presentes. Quando chega no momento da consagração, o sacerdote pronuncia as palavras sacramentais banhado em suor, a voz repassada de ódio, o olhar carregado de estranhos eflúvios diabólicos. Distribui a Sagrada Eucaristia aos presentes, que a profanam abominavelmente.

    Gargalhadas satânicas, blasfêmias tremendas, insultos implacáveis, nada se poupa ao Corpo adorável de Nosso Senhor.

    Manifestações evidentemente diabólicas irrompem por todos os lados. É o triunfo de Satanás, glorificado pelos assistentes num delírio de abjeção e de infâmia. Enojado, ferido nos poucos sentimentos que ainda lhe restavam, Huysmans se esgueira pela porta e foge espavorido. Desde então, uma grande preocupação assaltou sua inteligência e acabou trazendo-o submisso aos pés da Igreja. Vira o demônio, vira o espírito das trevas urdindo contra a Sagrada Eucaristia as mais tremendas infâmias.

    Ora, — refletia ele —, se o demônio, de cuja existência já não posso duvidar, odeia a hóstia consagrada pelos sacerdotes católicos, é porque realmente ela é o Corpo de Cristo. Logo, a Igreja Católica é verdadeira.

    Daí uma conversão dolorosa, penosa, que se vai arrastando através de inúmeras lutas, de combates sem fim, travados contra a carne rebelde às injunções da vontade, e o espírito rebelde às exigências da Fé. Quando entra em uma igreja, extasia-se diante das belezas da liturgia católica. Sua alma se eleva até os pés de Deus, ao som do órgão, no desenrolar grave e compassado da  música sacra. Poucas almas sentiram como a sua as belezas do cantochão. Sua descrição do “De Profundis”, do “Miserere” e da Missa de defuntos são as mais belas páginas que tenha lido em minha vida.

    Frequentando assiduamente as igrejas de Paris, a todas surpreende nas suas horas de mais intensa sentimentalidade.

    Ora, é Notre Dame de Paris, detendo nas suas ogivas seculares uns restos de claridade coada através dos vitrais, enquanto some no céu, lentamente, tristemente, um sol crepuscular. Ora é uma igreja operária, na qual observa detidamente as mulheres paupérrimas, os mendigos, os operários exaustos, os miseráveis dos arrabaldes de Paris, que vêm dirigir a Deus, depois de um dia de intenso trabalho, preces infindáveis, enquanto, de dentro do tabernáculo, o Senhor invisível os consola repetindo mudamente o Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os que choram, os que sofrem, os que têm sede de justiça”…

    No entanto, Huysmans ainda não ousou aproximar-se dos sacramentos. Recai no pecado com tal facilidade que nem se atreve a aproximar-se do tremendo tribunal da Penitência.

    Resolve, então, ir fazer um retiro numa Trapa. Começa aí a parte culminante de seu segundo livro, “En Route” (“A caminho”), de que me ocuparei no próximo artigo.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Transcrito do “Legionário”, nº 93, 31-1-32. O segundo artigo da série será reproduzido no próximo número.)

    Revista Dr Plinio 39 (Junho 2001)

  • Visita a Santa Isabel

    Episódio sumamente rico em importantes aplicações para nossa vida espiritual, a Visitação de Nossa Senhora nos mostra como Santa Isabel, prima da futura Mãe de Deus, teve um conhecimento imediato de que o Messias se achava ali presente, encarnado no seio puríssimo de Maria. Ela o soube, não só por uma inspiração da graça, mas também por uma espécie de sentimento, de percepção do divino, excelentes, que a fizeram discernir a presença de Jesus.

    Essa percepção, esse sentimento, cada católico deveria ter — em grau proporcionado — para amar todas as coisas que sejam segundo Deus, e para rejeitar aquelas que Lhe são contrárias.

  • Desassombro, coragem e galhardia

    Ao contrário do que pretendem alguns espíritos exageradamente pacifistas, segundo os quais qualquer forma de perigo deve ser afastada da vida, o ser humano por sua natureza, a mais elevada e nobre das criaturas tem um certo gosto do risco. Essa afeição é um dos elementos que trazem felicidade para a existência. E, não raras vezes, afastar de alguém o risco pode causar-lhe grande prejuízo.

    Este princípio torna-se mais compreensível e aceitável quando se considera, por exemplo, as touradas ibéricas. Especialmente aquelas em que o toureiro se lança a cavalo na arena.

    É impossível não sentir a impressão de risco que transmite a marcha do cavaleiro e de sua montaria diante do perigo. Nota-se o prazer, uma espécie de alegria, de euforia mesmo, em se atirarem naquela situação desafiadora. E parece que o risco produz, psicologicamente, no cavalo e no cavaleiro, como um arejamento fresco e agradável. E que espetáculo! Cavalgar dentro da aventura e do imprevisto; improvisar as manobras que devem ser executadas; avançar, recuar, atacar, defender… tudo realizado de acordo com uma certa regra interior, que faz exatamente o esplendor da tourada!

    Em geral, o cavalo corre de modo extraordinário, com um passo lindo e audacioso. Dir-se-ia não é assim, pois trata-se de puro instinto que o animal possui uma noção raciocinada do que se está passando, e acha uma verdadeira beleza jogar-se para frente e raspar no perigo. Tem-se a impressão de um bem-estar do cavalo, no momento em que o touro avança, quase o toca, e ele se esquiva com donaire, como se dissesse: “Touro, tu não és senão touro; eu sou cavalo. Sou elegância, força e garbo. Você é massa bruta! E por causa disso, posso raspar-me em você, posso até permitir que seu chifre me risque, e eu ter a alegria de roçar pelo perigo e sair vitorioso!”

    Curiosamente, essas reações do cavalo lembram certas atitudes do espírito humano colocado diante do perigo, em várias circunstâncias do quotidiano nesta terra: não só quando a vida está ameaçada, mas numa jogada política, numa polêmica acirrada, num negócio arriscado, num empreendimento difícil, etc., há pessoas que se saem como o cavalo diante do touro.

    E se este segundo animal é a força bruta, sem expressão nem nada de humano em sua postura, já no primeiro há qualquer coisa de sobre-animal, parecendo transcender não o faz, claro está a mera condição de bicho e participar em algo do reino dos homens, pelas atitudes que demonstra na arena. Característica esta que nos leva a admirar outro interessante aspecto desse tipo de tourada.

    O autêntico cavaleiro sabe transmitir alguma coisa de sua personalidade à montaria. E vê-se que, ao enfrentar o touro, o cavalo compartilha do heroísmo do toureiro. Geralmente, este é esguio, destro, cheio de movimentos ágeis, e quando ele mesmo raspa pelo perigo, sente euforia. Quando executa a manobra para cravar a “banderilha” no touro, e quase é atingido pelos chifres de seu adversário, ele seria comparável a um homem que está tomando o melhor trago de rico licor. É o licor do risco! O delicioso licor que o pacifista exagerado de nossos dias não sabe compreender nem apreciar…

    Quando se esquivam do  oponente, a atitude do cavaleiro e do cavalo  não é a de dar as costas e se pôr a correr. Eles saem de lado, procurando contornar o touro para lhe fincar mais uma farpa. É a imagem da “distância psíquica”, de um inteiro domínio de si, calculado e ativo. Pode-se olhar para o toureiro e para o cavalo: ambos estão numa posição em que não têm medo. Não perderam a noção da realidade e só estão procurando dar uma volta, com elegância e distinção, para atacar com mais eficácia!

    É este um lado esplendoroso da luta entre cavaleiro e touro que nos faz considerar um outro aspecto da vida humana: o gosto que tem o homem justo, colocado na presença do mal, diante de ignomínias insuportáveis que se propagam e não podem ser contidas senão pela força, de enfrentá-las e de vencê-las, obedecendo aos altos desígnios de uma Fé sumamente equilibrada. Então ele, obrigado a atacar, avança e subjuga.

    É realmente belo que o homem,  em presença do mal, o goste de calcar aos pés. E a sensação do golpe atingindo o alvo, é uma experiência na qual o homem se realiza inteiro!

    Por fim, um outro aspecto a se contemplar nas touradas a cavalo. Durante todo o certame, não se vê nada de teatral no toureiro. Ele não presta uma atenção vaidosa em si. Mas está sempre vigilante, e por isso não tem receio de que a coragem lhe pregue alguma peça nos momentos decisivos. Naturalmente, conhece à saciedade o seu “métier”, está muito bem treinado, e, note-se, todas as sensações que nascem nele na aparência, impulsivas e até irrefletidas são na verdade enriquecedoras da razão.

    É o garbo, a galhardia, a coragem e o desassombro, o esplendor da “distância psíquica”, a vivacidade da inteligência e da varonilidade que enfrentam o perigo. São qualidades,  também elas, frutos da civilização cristã.

  • O maior tesouro de um povo

    Sob o influxo de todas as energias naturais e sobrenaturais entesouradas nas nações cristãs, foi emergindo lentamente do caos da barbárie na alta Idade Média, a sociedade civil cristã, a Cristandade. Sua beleza, de início indecisa e sutil, mais promessa e esperança que realidade, foi se afirmando à medida que, com o escoar dos séculos de vida cristã, a Europa batizada “crescia em graça e santidade”. Nasceram por essas energias humanas vitalizadas pela graça, os reinos e as estirpes fidalgas, os costumes corteses e as leis justas, as corporações e a cavalaria, a escolástica e as universidades, o estilo gótico e o canto dos menestréis.

    Os admiradores da Idade Média se exprimem mal quando sustentam que o mundo atingiu nessa época o maximum de seu desenvolvimento. Na linha em que caminhava a própria civilização medieval, muito ainda haveria que progredir. O encanto grandioso e delicado da Idade Média não provém tanto do que ela realizou, como da harmonia profunda e da veracidade cintilante dos princípios sobre os quais ela se construiu. Ninguém possuiu como ela o conhecimento profundo da ordem natural das coisas; ninguém teve como ela o senso vivo da insuficiência do natural — mesmo quando desenvolvido na plenitude de sua ordem própria — e da necessidade do sobrenatural; ninguém como ela, brilhou ao sol da influência sobrenatural com mais limpidez e na candura de uma maior sinceridade. Ela foi feita de homens que lutaram e sofreram na realização desse ideal, e que na sua caminhada muitas vezes recuaram ou desfaleceram ao longo do caminho; mas de homens que sempre continuaram fiéis ao seu ideal, ainda mesmo quando dele se afastavam por seus atos. E daí uma [grande] consonância de todas as instituições, de todos os costumes, de todas as tradições nascidas nessa época, não só com as circunstâncias contingentes e transitórias do tempo em que surgiram, mas com as exigências genéricas da alma humana “naturaliter christiana”(1) e as tendências espirituais peculiares aos povos do Ocidente.

    Tocamos num ponto de importância fundamental. Todos os povos têm sua mentalidade coletiva e seus problemas regionais. (…) Os homens, como os cursos de água, poderão ir correndo para a eternidade. Mas as nações, como os rios, continuam sempre os mesmos nos dados essenciais de seu temperamento. Além destas circunstâncias psicológicas, há problemas peculiares à situação geográfica de cada região. (…) Toda civilização cristã há de ser inteiramente cristã, católica, universal, mas há de se ajustar, há de respeitar, há de desenvolver e estimular as características de cada região, e de cada povo. (…)

    Nos séculos de civilização cristã, cada povo teve, pois, suas características próprias, bem definidas. A alma nacional, em todas as suas aspirações universais e humanas, em todas as suas aspirações nacionais e locais, encontrou plena e ordenada expansão dentro da civilização cristã. Daí a enorme variedade de formas de governo e de organização social ou econômica, de expressões artísticas e de produções intelectuais, nas várias nações da Europa medieval.

    A expansão das tendências nacionais causa ao povo um grande bem-estar físico. A mentalidade nacional inspira a formação de símbolos, costumes, artes, nos quais ela se exprime, se define e se afirma, se contempla a si mesma e se solidifica. Esses símbolos são um patrimônio nacional, uma condição essencial para a sobrevivência e progresso espiritual da nação. Eles têm uma consonância indefinível e profunda com a mentalidade nacional, uma consonância que é natural e verídica, e não puramente fictícia e convencional. Por isto, em via de regra, cada povo elabora uma só arte, uma só cultura e nela caminha enquanto existe. O maior tesouro natural de um povo é a posse de sua própria cultura, isto é, quase a posse de sua própria mentalidade. 

     

    Plinio Corrêa de Oliveira, (Extraído do “Legionário”,  nº 666, de 13/5/1945)

    1 ) Naturalmente cristã.

  • Intercessora junto ao Divino Esposo

    Como Esposa do Divino Espírito Santo, Maria possui um título especial para nossa devoção a Ela. Com efeito, tudo quanto diz respeito à Fé católica, à ortodoxia e à manutenção da fidelidade à Igreja deve ser considerado como fruto e obra da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade em nós.

    Ora, enquanto Esposa do Espírito Santo, Nossa Senhora tem sobre Ele aquele poder que, no Antigo Testamento, tinha Ester sobre o rei Assuero. Assim como esta, por suas súplicas, tudo conseguiu do monarca em favor dos judeus, assim a Virgem Bendita pode nos alcançar de seu Divino Consorte um tal grau de união com Ele, uma tal abundância de graças das quais Ele é a fonte, que, sem a intercessão d’Ela, ser-nos-ia inteiramente impossível obter.

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • O PARAÍSO DO NOVO ADÃO

    Conforme disse certa vez um autor sagrado, os verdadeiros devotos de Maria se sentem irresistivelmente atraídos uns pelos outros. É o caso de Dr. Plinio em relação a São Luís Maria Grignion de Montfort, cujos escritos foram, para ele, contínua fonte de inspiração. Nestas páginas ele volta a comentar as riquezas aí encontradas.

     

    Uma das obras mais ricas e empolgantes sobre Nossa Senhora é, sem dúvida, o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luís Maria Grignion de Montfort. Nele encontramos sempre ensinamentos que nos convidam a crescer no amor e na devoção a Ela, além de se prestarem a valiosos desdobramentos acerca das insondáveis e maravilhosas perfeições da Mãe de Deus.

    Tomemos, por exemplo, um pequeno trecho desse magnífico Tratado, para comentá-lo passo a passo. Discorrendo sobre como devemos fazer todas as ações com Maria, em Maria e por Maria, explica o santo autor:

    “Para compreender cabalmente essa prática, é preciso saber que a Santíssima Virgem é o verdadeiro paraíso terrestre do novo Adão, de que o antigo paraíso terrestre é apenas a figura. Há, portanto, nesse paraíso terrestre riqueza, belezas, raridades e doçuras inexplicáveis que o novo Adão, Jesus Cristo, aí deixou”.

    Excelência interior de Nossa Senhora

    Como se sabe, Adão foi criado no Paraíso Terrestre. Era o lugar de maravilhas, de esplendores, de felicidade, do qual ele e Eva foram expulsos, depois de caírem na tentação do demônio e prevaricarem contra os preceitos divinos. Contudo, aquele era o paraíso do primeiro homem.

    Ora, Nosso Senhor Jesus Cristo é considerado, a justo título, o segundo Adão. Quer dizer, aquele que veio resgatar a humanidade, tirá-la das sombras da morte e restabelecê-la no estado de graça, através da imolação que Ele fez de si mesmo no alto da Cruz. E assim como o primeiro Adão foi criado num paraíso, o novo Adão deveria ser criado igualmente num lugar de delícias imaculadas. Esse segundo paraíso é Nossa Senhora. Ou seja, tudo o que Éden terrestre tinha de belo e de esplêndido na sua realidade material, Maria possuía ainda mais belo e esplêndido na sua realidade espiritual.

    E Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em Nossa Senhora, teve maior felicidade e contentamento do que Adão no seu paraíso, pois assim como o Filho de Deus era infinitamente superior a Adão, o paraíso d’Ele era insondavelmente mais precioso e excelente que o do primeiro homem. Por isso São Luís Grignion fala de “riquezas, belezas, raridades e doçuras” que existiam nele.

    Tratam-se de aspectos distintos. Riqueza é a abundância das coisas úteis, e nem sempre envolve a beleza. Por outro lado, algo pode ser muito belo sem ser necessariamente rico, e pode ser raro, sem representar riqueza ou beleza especiais. Nesse novo Paraíso havia, portanto, extraordinárias raridades, belezas e riquezas espirituais, além de incomparáveis doçuras.

    A doçura é uma qualidade que torna alguma coisa amena, agradável de trato, suave de contato. Por exemplo, o bem-estar que uma pessoa sente quando se encontra à sombra de determinadas árvores frondosas, a faz experimentar uma satisfação e uma harmonia que são diferentes da realidade da riqueza e da beleza. É o mesmo aconchego que se sente, aliás, à beira de um bonito lago, de um riacho ou, conforme o momento, à beira do mar. Enfim, há uma doçura que não se esgota nos termos de beleza, nem de riqueza, nem de raridade.

    Nossa Senhora e a Igreja, perfeições recíprocas

    E São Luís Grignion faz então um inventário desses quatro valores, para nos dizer que tudo isso existe em Nossa Senhora, e nos levar a compreender o que n’Ela há de riqueza, beleza, raridade e doçura. Desse modo, embora a Santíssima Virgem seja inesgotável, vamos adquirindo um conhecimento classificado das perfeições e magnificências contidas na sua alma. Por via de comparação, deveríamos proceder da mesma maneira em relação à Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Porque quase tudo que se diz de Nossa Senhora, se diz da Igreja; e, reciprocamente, quase tudo o que se diz da Igreja, se diz de Nossa Senhora. Maria é Mãe de Cristo, a Igreja é a Esposa Mística d’Ele, e entre a Mãe e a esposa existem essas correlações que facilmente podemos compreender.

    Podendo conhecer a Igreja Católica, no que ela tem de essencial, no seu esplendor copioso que atravessou os séculos, também nos é dado distinguir suas riquezas, suas belezas, suas raridades e doçuras…

    Dotada de graças indizíveis

    Concluindo seu pensamento, São Luís afirma que tais maravilhas foram deixadas nesse segundo paraíso pelo próprio novo Adão. É a ideia de que Nosso Senhor Jesus Cristo, durante o tempo sacratíssimo em que Ele se formou no ventre materno, cumulou-o de excelências de toda ordem. Depois, pelo convívio entre Filho e Mãe, desde o nascimento d’Ele até a Ascensão, enriqueceu-A ainda mais. Adão, no primeiro paraíso, parece ter sido apenas um consumidor; não consta que fosse um embelezador, embora, permanecendo fiel, provavelmente lhe coubesse a tarefa de construir ali uma civilização que aprimorasse tudo quanto recebera de Deus. Ao contrário dele, Nosso Senhor requintou e elevou o paraíso onde esteve, isto é, aprimorou e dotou Nossa Senhora de graças indizíveis, fazendo-o, segundo a expressão de São Luís Grignion, “com a magnificência de um Deus”.

    Analisemos. A magnificência de um Deus é a magnificência total. O autor lembra, de passagem, que ninguém pode realizar coisas tão magníficas quanto Deus. E se é verdade que o paraíso do novo Adão foi mais esplêndido do que o do primeiro, devemos deduzir que Nossa Senhora é incomparavelmente mais bela que todo o universo. Quer dizer, estrelas, sol, lua, água, lírios do campo, nada tem qualquer paralelo com a beleza espiritual e física da Santíssima Virgem.

    Terra imaculada para o corpo do novo Adão

    “Esse lugar santíssimo é formado de uma terra virgem e imaculada da qual se formou e nutriu o novo Adão, sem a menor mancha ou nódoa, por operação do Espírito Santo que aí habita. É nesse paraíso terrestre que está, em verdade, a árvore da Vida que produziu Jesus Cristo. Há, nesse lugar divino, árvores plantadas pela mão de Deus e orvalhadas por sua unção divina, arvores que produziram e produzem todos os dias frutos maravilhosos, de um sabor divino; há canteiros esmaltados de belas e variegadas flores de virtudes, cujo perfume delicia os próprios anjos.”

    São outras lindas comparações.

    Assim como Adão foi formado a partir do barro, e em seguida Deus lhe insuflou uma alma, assim também o novo Adão foi constituído da carne virginal de Nossa Senhora, por obra do Espírito Santo. Depois, havia uma árvore da vida no paraíso antigo, porém no paraíso novo existia outra, que produziu o mais precioso dos frutos, Jesus Cristo. É uma referência à fecundidade imaculada de Nossa Senhora.

    Os belos canteiros, flores e frutos variegados simbolizam os dons e virtudes de Maria Santíssima, que deixam os próprios Anjos tão santos e puros extasiados.

    Fortaleza invencível, caridade abrasadora

    “Há torres inexpugnáveis e fortes, habitações cheias de encanto e segurança”. Como em todo o texto de São Luís, temos aqui mais uma imagem muito bonita. Ela nos faz pensar num castelo com torres inexpugnáveis, cheias de encanto e segurança, com maravilhas dentro e robustíssimas por fora. Essa é a virtude da fortaleza que em Nossa Senhora protege todas as demais virtudes.

    “Ninguém, exceto o Espírito Santo, pode dar a conhecer a verdade oculta sob essas figuras de coisas materiais. Reina nesse lugar um ar puro, sem infecção, um ar de pureza; um belo dia sem noite, da humanidade santa; um belo sol sem sombras, da Divindade; uma fornalha ardente e contínua de caridade, na qual todo o ferro que aí se lança fica abrasado e se transforma em ouro.”

    São Luís Grignion, referindo-se aos elementos materiais que relacionou nesse paraíso, afirma que só com o auxílio da graça alguém pode fazer ideia do que eles significam enquanto aspectos físicos, espirituais e sobrenaturais de Nossa Senhora. Quer dizer, Ela é bela como o dia por sua natureza, mas Cristo, que habitou n’Ela, não é apenas o dia, mas é o sol, a fonte de todo o esplendor diurno. Então, Jesus é o astro soberano da divindade presente em Maria.

    Depois, a igualmente magnífica simbologia da fornalha ardente e abrasadora de caridade, de amor a Deus, que é a Santíssima Virgem. Uma pessoa pode ser dura e fria como o ferro, porém, lançada nessa fornalha, isto é, sendo muito devota de Nossa Senhora e n’Ela confiando, transforma-se não apenas em ferro incandescente, mas em ouro. O contato com Maria muda a alma por completo, a nobilita e santifica.

    Abundância de humildade e virtudes cardeais

    “Há um rio de humildade que surge da terra e que, dividindo-se em quatro braços, rega todo esse lugar encantado: são as quatro virtudes cardeais.”

    Por fim, um outro conceito muito bonito. As quatro virtudes cardeais são aquelas que regulam todas as ações do homem: a justiça, a temperança, a fortaleza e a prudência. Todas as outras virtudes decorrem dessas. Então, São Luís Grignion diz que em Nossa Senhora há como que um rio de humildade, que se abre em quatro braços e dá origem às mencionadas principais virtudes.

    Mas a imagem significa também que uma pessoa verdadeiramente humilde possui de modo torrencial as virtudes cardeais. E o que é ser verdadeiramente humilde?

    Antes e acima de tudo é ser humilde para com Deus, reconhecendo tudo o que devemos a Ele e retribuí-lo. Sermos, portanto, em relação a Deus, amorosos, fiéis, filiais, paladinos da causa d’Ele até o último ponto, vivendo num holocausto contínuo a serviço d’Ele. A autêntica humildade coloca uma alma nessa posição, e é dessa maneira que esta última adquire, abundantemente, as quatro virtudes cardeais.

    E assim era Nossa Senhora.

    Aqui temos, portanto, um pouco daquele bem-estar de que falamos atrás, proporcionado pelas doçuras da Santíssima Virgem. É impossível comentar-se algo a respeito d’Ela, sem se ter a impressão de que estamos junto a um rio ou a uma árvore sobrenatural, sentindo, num plano diferente, aquela satisfação particular que experimentamos à beira dos rios ou à sombra das árvores naturais.

    Acredito que, após um dia passado no corre-corre de uma cidade supermoderna, super trepidante, superdinâmica, deter-se um pouco na consideração desse panorama maravilhoso que é a alma de Nossa Senhora é algo que sempre nos fará bem…

  • A epopeia de Santa Joana d’Arc

    Há lendas tão parecidas com a realidade a ponto de suscitar a pergunta: “Será, de fato, simples lenda?” Em sentido contrário, certas narrações históricas revestem-se de tantos aspectos surpreendentes que provocam uma desconfiança: “Mas isto é mesmo real?” Um dos mais expressivos exemplos do segundo caso é a vida de Santa Joana d’Arc: uma das maiores epopeias da História.

     

    Se tomarmos em consideração tudo quanto os santos fizeram ao longo da História da Igreja, veremos quão superiores foram em relação a todos os homens que, habitualmente, são tomados por heróis.

    Nesse sentido, comentaremos a vida de Santa Joana d’Arc, a famosa virgem de Domrémy, na Lorena.

    Suscitada num momento providencial…

    No início do século XV ainda não havia eclodido a Revolução protestante, e toda a Europa era católica. Porém, no século seguinte, a Inglaterra se tornaria protestante.

    Naquele tempo, a França estava ocupada, em grande parte, pelos ingleses. Portanto, encontrava-se em jogo um ponto muito importante da História da Igreja: se os franceses não conseguissem expulsar os ingleses de seu território, no século seguinte a França corria o risco de ficar protestante; a filha primogênita da Igreja, a nação que deu tantos grandes personagens para a Esposa de Cristo, a França, teria sucumbido na decadência religiosa do protestantismo.

    Prevendo isso, a Providência suscitou no vilarejo de Domrémy, ducado da Lorena, uma jovem pastorazinha, muito piedosa e santa, a qual era estimulada por vozes celestes para se apresentar ao Rei da França, a fim de reconquistar o território que os ingleses haviam tomado, e reintegrar à filha primogênita da Igreja os limites que historicamente lhe eram próprios.

    Rei disfarçado de simples nobre

    Para provar a autenticidade da missão providencial de Santa Joana, as pessoas da corte fizeram o seguinte:

    Quando a jovem pastora se encontrou com o Rei pela primeira vez, ela entrou numa sala onde estava o monarca acompanhado de vários fidalgos.

    Propositadamente, alguns fidalgos estavam muito bem vestidos, com roupas bastante caras; e o Rei, para disfarçar, usava trajes de um fidalgo mais pobre, secundário, para ver se ela, olhando os mais ricamente vestidos, achasse que um deles fosse o soberano. Se ela de fato tivesse uma missão divina, não se enganaria e reconheceria o Rei.

    Ela entrou na sala e, instintivamente, foi em direção do fidalgo pobremente vestido, que, entretanto, era o próprio Rei. Ela adivinhou porque uma luz do Céu explicou-lhe quem era o monarca.

    Uma frágil virgem com espada na mão!

    A partir desse momento, Santa Joana d’Arc convenceu o Rei, que a nomeou chefe dos seus exércitos, colocando-a à testa dos seus melhores guerreiros. Ela, uma frágil virgem usando armadura, precedeu as tropas nos combates, e os franceses, que até então apanhavam dos ingleses, começaram a surrá-los. E os ingleses foram recuando diante das tropas a cuja frente estava a donzela de Domrémy. Santa Joana d’Arc lutava enfrentando homens enormes, com couraças formidáveis, naquele tipo de guerra em que a força pessoal do guerreiro era decisiva.

    Imaginemos num combate de cavalaria um homenzarrão com uma lança, investindo com toda a força contra ela, querendo dar-lhe uma estocada no peito. E ela, frágil, derruba o homem.

    Coroação do Rei

    Naquele tempo, a França estava tão por baixo que o Rei não tinha tido coragem de ser coroado, porque achava, com certeza, meio ridículo promover uma coroação quando a maior parte do seu território estava em mãos dos ingleses. Mas, foram tais as vitórias de Santa Joana d’Arc que, antes mesmo de os ingleses estarem inteiramente expulsos da França, chegou o momento de ela ir com o monarca para Reims. Nessa cidade há uma catedral prodigiosa, com rendas de pedras e vitrais, onde os Reis da França, por um sacramental da Igreja, eram ungidos com o óleo contido numa ampola trazida por uma pomba na noite do batismo de Clóvis, primeiro Rei dos francos.

    Santa Joana d’Arc, com os guerreiros do monarca, teve, então, a alegria de assistir à coroação do Rei da França, numa glória indizível. Ocupou ela um lugar de honra, numa das primeiras fileiras, e estava com o seu estandarte. Junto a ela havia as eternas sombras que vão atrás de cada pessoa: os invejosos. E um invejoso disse-lhe:

    — O que faz aqui o vosso estandarte? É o estandarte de combate, e esta é uma festa…

    Ela respondeu:

    — Uma vez que ele esteve comigo na luta, bom é que esteja também na glória!

    Devido a uma traição, Santa Joana é presa e entregue aos ingleses

    Quando ainda restava uma parte da França para ser recomposta, a traição, imunda como uma serpente, se enroscou nela. O Rei tinha como aliado o Duque da Borgonha, cujo feudo era muitíssimo rico. Esse senhor feudal era um homem sem caráter, mas entrava com muito dinheiro para a guerra.

    Em certo momento, as tropas começaram a combater e esse Duque foi dirigindo as coisas de tal maneira que Santa Joana d’Arc ficou cercada exclusivamente pelos guerreiros dele. Então, o Duque deu ordem de a prenderem e seus vassalos a venderam aos ingleses.

    Processo da Inquisição

    Como naquele tempo ainda não tinham caído em heresia, os ingleses entraram em entendimento com o Arcebispo de uma diocese francesa onde eles ainda dominavam, e acusaram-na de pacto com o demônio. Diziam que por essa razão ela havia conseguido tantas vitórias.

    Realizaram, então, um processo cheio de mentiras, com o intuito de queimá-la viva.

    Embora fosse analfabeta, durante o processo ela se defendeu como um advogado brilhante se defenderia. Mas, no fim das contas, Santa Joana d’Arc foi condenada à morte pelo tribunal da Inquisição por ter seguido vozes vindas do Inferno.

    Tal era a Fé existente naquela época, que o problema todo não era de saber se ela tinha ouvido vozes — esta seria a questão que se levantaria hoje —, mas sim se as vozes vinham do Céu ou do Inferno.

    Inútil tentativa de fugir

    De tal maneira a santa queria ainda viver para realizar seu plano de salvar a França, que ela chegou, com risco de vida, a se jogar de uma torre, onde estava presa, para fugir e montar num cavalo a fim de continuar a luta contra os ingleses, julgando que com isso ela fazia a vontade de Deus. Ela se espatifou no chão! Deus não fez o milagre de ajudá‑la, nem as vozes a socorreram. Os ingleses a reconduziram à prisão.

    Na hora suprema, uma prova atroz

    Chega, afinal, a hora de sua morte. O carrasco entra no local onde ela estava presa, põe-lhe uma túnica infamante, toda embebida em matéria combustível para que o fogo ateasse logo nela, amarra-a numa carreta, aonde ela vai de pé, com as mãos atadas por trás, como malfeitora e para não poder fugir; através de ruas cheias de povo, Santa Joana d’Arc é conduzida ao lugar onde deveria ser queimada viva.

    E, contra sua expectativa, a carretinha chegou à praça, tendo ela que descer e caminhar em direção à fogueira que ali estava. Deus, que estivera tão presente em todos os combates da santa e ajudou-a a defender-se no processo, nesta hora se fazia ausente.

    Foi lida diante dela uma acusação cheia de falsidades, de misérias e de infâmias que ela não tinha cometido. É trágico o momento: ela é posta na fogueira, diante do tribunal que está ali assistindo.

    Ela, a santa que tinha cumprido a missão dada por Deus de salvar o povo francês, por ordem de um Arcebispo, Cauchon, presidente de um tribunal, ia ser queimada com o infamante epíteto de bruxa.

    Pode-se entrever a perplexidade no espírito dela:

    “Como? Aquelas vozes não eram verdadeiras? Elas teriam mentido? A ajuda que Vós me destes, ó meu Deus, teria sido uma ilusão? É a Inquisição que me condena? Um tribunal eclesiástico, dirigido por um Arcebispo, composto por teólogos e homens de lei… Será que eu não me enganei, ó meu Deus?”

    Há um mistério, mas as vozes não mentiram…

    O fogo ainda não foi aceso, a santa está amarrada a uma pilha de lenha toda induzida em azeite para que o fogo arda depressa. Ela espera o momento último, no qual não haveria mais dúvida nenhuma de que compareceria perante o tribunal de Deus.

    Foi ateado o fogo, o qual com certeza já atacava as carnes dela; as chamas vinham de baixo para cima e, portanto, a parte vital ainda não estava atingida. Quando Santa Joana d’Arc começou a sentir os estertores da morte, ela não deu um gemido de dor, pedindo misericórdia. Ao contrário, primeiro clamou por São Miguel e depois, como Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz, bradou com “voce magna”, com grande voz, que, com certeza, se ouviu pela praça inteira: “As vozes não mentiram! As vozes não mentiram!” Era mais uma manifestação de convicção da santidade de sua causa.

    O fogo tomou conta do seu corpo e ela morreu com todas as dores de quem é queimado vivo. Mas até o último momento, ela bradava: “As vozes não mentiram! As vozes não mentiram!” Ou seja: “Há um mistério, mas eu morro contente porque faço a vontade de Deus!” O mistério se explicou.

    Santa Joana d’Arc estava morta, mas as vozes não tinham mentido. E, lutadora até o fim, ela morreu batalhando, não simplesmente deixando-se matar, mas dando um brado que era um desafio, um protesto e o prolongamento da resistência francesa. Como quem dissesse aos franceses: “Continuai a lutar, porque as vozes, em cujo nome eu vos conduzi à vitória, vinham do Céu. O Céu vos dará, portanto, a vitória total”.

    Esse testemunho, dado na hora da morte, é um supremo lance de heroísmo que vale mais do que a entrada triunfal em Reims, ao lado do Rei que ia ser coroado, a entrada gloriosa e heroica em Orléans, ou tudo o mais quanto ela realizou.

    Um coração que vigia e proclama

    Conta Monsenhor Delassus que as chamas devoraram o corpo de Santa Joana d’Arc, mas pouparam o seu coração. “Ter coração” não é ser sentimental, e sim ter fibra, têmpera, alma, amor das coisas elevadas e da missão sobrenatural que se possui. E se há alguém que teve coração foi Santa Joana d’Arc. Então houve o bonito fato: o corpo foi todo queimado, mas não o coração. Isso significava ainda um modo de dizer: “Eu morro, mas meu coração vigia e proclama: As vozes vieram do Céu”.

    Vitória post mortem

    A ofensiva que Santa Joana d’Arc tinha conduzido contra os invasores ingleses era tão tremenda, que eles não ousaram resistir ao pequeno exército francês que restara. Os franceses foram expulsando os invasores, a Inglaterra estava liquidada. Era o ímpeto dela que tinha derrubado o poderio inglês na França. Ela morreu antes de ver a muralha cair, mas “as vozes não mentiram!”

    Em 1909, portanto 478 anos após a sua morte, os sinos da Basílica de São Pedro badalavam, anunciando uma magnífica cerimônia: São Pio X, afinal, ia beatificar Santa Joana d’Arc, e com ela proclamar que “as vozes não mentiram!”

    Santa Joana d’Arc ficou o próprio símbolo da glória da França, um símbolo magnífico da glória da Igreja!

    Coruscação do ideal

    Fazer a vontade de Deus dando-Lhe glória de qualquer modo, decapitado ou queimado, pouco importa ao homem de ideal que expira; para ele o importante é que Deus esteja sendo glorificado.

    Ideal! Que coruscação, que beleza de palavra!

    Qual é o prêmio do idealista?

    Os véus da morte descem sobre isto. Nosso Senhor fez promessas incríveis, carregadas de mistérios paradoxalmente luminosos. Por exemplo: “O irmão que salva seu irmão, salva sua própria alma e brilhará no Céu como um sol por toda eternidade”. Isso por salvar um! Quem, como Santa Joana d’Arc, evita que a França inteira caia na heresia, como brilhará no Céu? Como será esse sol em toda a eternidade?

    Não se tem ideia de qual é a glória dos santos. Podemos imaginar com que afeto Deus se volta para uma Santa Joana d’Arc, a qual está com as marcas do sofrimento que a fogueira causou à sua alma e se apresenta, por assim dizer, pegando fogo diante d’Ele… E Ele lhe diz: “Vem minha eleita, minha escolhida, minha dileta! Goza, agora, de minha presença cheia de amor durante toda a eternidade!”

    Nossa Senhora lhe sorri, a afaga, os anjos cantam, todas as almas do Paraíso se rejubilam porque aquela alma santa, portanto a alma com o mais alto dos ideais, o único ideal pleno e verdadeiro, chegou até o Céu. 

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 29/5/1972, 20/10/1984 e 2/11/1991)

     

  • Confiança plena em Maria

    Ao comentar uma célebre passagem de São Luís Grignion de Montfort em sua obra consagrada à devoção a Nossa Senhora, Dr. Plinio nos dá a conhecer a valiosa lição de confiança contida nos primeiros milagres operados por Maria Santíssima, na ordem da graça e na ordem da natureza.

     

    No seu Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, São Luís Grignion de Montfort nos lembra uma importante passagem do Evangelho: Nossa Senhora praticando seu primeiro milagre, na ordem da graça, quando visitou Santa Isabel, a qual trazia em seu seio São João Batista.

    Protótipo do devoto de Nossa Senhora

    Esse acontecimento é, para nós, de muita significação. Tendo a Rainha do Céu dirigido a palavra à sua prima, São João Batista estremeceu de gozo no claustro materno, a tal ponto que ela o declarou a Nossa Senhora. Como homem predestinado que era, ao ouvir a voz da Santíssima Virgem, o Precursor sentiu frêmitos de alegria, e — conforme o parecer de abalizados teólogos — tornou-se livre do pecado original.

    Se considerarmos quem foi São João Batista, e quais os traços característicos de sua alma, compreenderemos o efeito que a voz de Nossa Senhora operou nele.

    Grande asceta, foi por excelência o homem da pureza, dando-nos a ideia de possuir extremo domínio sobre si mesmo. Além disso, levou o desassombro e o espírito de combatividade ao último ponto, não recuando diante do mal, invectivando e censurando os erros dos importantes de seu tempo, sem se acovardar, a ponto de ser o mártir que se deixa decapitar para manter-se fiel à sua pregação.

    Todas essas graças de pureza e de fortaleza podemos supor que ele as tenha alcançado pelos rogos da Santíssima Virgem, e, portanto, não é despropositado considerarmos São João Batista como o protótipo do devoto de Nossa Senhora.

    Quando, pois, rezamos ao Precursor, não lhe devemos pedir graças vagas, mas que também possamos — ao ouvir interiormente a voz da Mãe de Deus — ter ímpetos de alegria e imitar as virtudes por ele praticadas.

    De outro lado, quando oramos pela conversão de alguém, nada melhor do que pedir a Maria Santíssima falar-lhe palavras ricas em dons celestiais, como fez com São João Batista. A esse propósito, cumpre nos lembrarmos de que não se consegue a conversão ou o afervoramento de uma pessoa apenas pelos raciocínios a ela apresentados. Seria bazófia presumir: “Dei-lhe um argumento poderoso e a converti”. Diferente deve ser nossa afirmação: “Dei-lhe um forte argumento, e Deus a fecundou com sua graça de tal maneira que ela mudou de vida”.

    Quer dizer, a conversão é produto da graça divina, e os argumentos que eventualmente saibamos aplicar não passam de simples veículo ou ocasião para que ela atue numa alma. Assim, devemos desejar que em nossa voz jamais entrem acentos meramente humanos, e sim que Nossa Senhora fale por nós, pois só através d’Ela se obtém a graça de Deus.

    É também oportuno salientar que os efeitos das palavras de Maria formando um justo, fazendo-o estremecer desde o ventre materno — por lhe ter sido apagada a mancha original —, devem ser um incentivo para confiarmos n’Ela quanto ao êxito de nosso apostolado.

    As bodas de Caná

    Já na ordem da natureza, pode-se considerar como sendo o primeiro milagre realizado pela intercessão de Nossa Senhora, a transformação da água em vinho nas bodas de Caná, uma vez que a intervenção e o pedido d’Ela junto a seu Filho foram determinantes para tal acontecimento.

    Embora o episódio seja muito conhecido, gostaria de ressaltar um aspecto. O Evangelho recomenda que o verdadeiro fiel tenha uma fé capaz de transportar montanhas. É desta fé que ali nos dá exemplo a Santíssima Virgem. Colocada numa situação onde Jesus poderia fazer um milagre, não tem dúvida alguma quanto ao poder do Redentor, nem de que Ele atenderá sua oração. Limita-se simplesmente a falar àqueles servidores: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2, 5). O Mestre ordena e, ato contínuo, o milagre se opera. Nossa Senhora nos mostra, portanto, que, pela virtude da fé, verdadeiras maravilhas são realizadas.

    Falta de fé, falta de milagres

    Cabe aqui uma pergunta: por que vemos hoje tão poucos milagres? Na Idade Média, por exemplo, quantas manifestações do sobrenatural! Atualmente, quão raras são as que podemos contemplar! Outrora havia quem enfrentava potentados, filósofos e reis ímpios, dirigindo-lhes a palavra e operando suas conversões, o que em nossos dias parece impossível. Em diversas situações nas quais os católicos corriam graves riscos de sobrevivência e liberdade, saíam vitoriosos porque lhes apareciam Nosso Senhor, Nossa Senhora ou algum Santo para socorrê-los.

    Coisas semelhantes quase não mais acontecem, porque o homem contemporâneo não procura imitar a Virgem Santíssima, modelo de fé que move montanhas. Ele não tem a convicção absoluta de que, de fato, o Criador está presente em sua vida, vai ajudá-lo e, se pedir, o atenderá efetivamente. Considera Deus quase como um ser de razão, perdido num céu muito alto, sem nenhum contato nem interesse para com ele. A doutrina católica a respeito da Providência Divina, da sua intervenção na existência de cada um e da Igreja são ensinamentos aceitos, porém não com espírito de fé bastante para se ter, face às dificuldades, a certeza de que Deus agirá no momento preciso.

    Total confiança em Nossa Senhora

    A respeito dessas virtudes de Nossa Senhora, devemos conservar em nossa mente sobretudo esta ideia: se, ao longo de nosso apostolado, nos encontrarmos em situações de apuro tal que se faça necessário um milagre de primeira grandeza, devemos esperá-lo. E confiarmos na Santíssima Virgem como Ela — à vista do apuro daqueles esposos em Caná — confiou que a água seria transformada em vinho. É desta ordem a confiança que precisamos ter em Nossa Senhora.

    Insisto nessa confiança total em Maria, devido a uma nota característica de nossa obra e de tantos movimentos semelhantes. Refiro-me à desproporção flagrante, cruel, entre o que se deseja realizar e os meios disponíveis para isso. Por exemplo, almejamos a construção de uma nova civilização católica, ou seja, a restauração do reinado de Jesus Cristo no mundo, alicerçados na promessa feita por Nossa Senhora em Fátima de que, por fim, seu Imaculado Coração triunfará. Nossos meios, entretanto, são tão ridiculamente insuficientes que, se não contássemos com o sobrenatural, seria o caso de duvidarmos de nossa sanidade mental. Nossos ideais se deparam com tanta dificuldade de frutificar que, embora contemos apenas dezoito pessoas, quando nos reunimos e nos entreolhamos, somos tentados a achar que constituímos um grupo já numeroso!

    Através desse fato, podemos avaliar qual a nossa fraqueza, do ponto de vista humano. Nossa situação poderia ser comparada à de um paralítico que quisesse transportar o Pão de Açúcar com o polegar, e um dia exclamasse: “Hoje consegui me mexer na cama! Estou, portanto, a caminho de me levantar, e, quando me erguer, transmudarei o Pão de Açúcar”. A desproporção de forças é verdadeiramente chocante.

    Por isso há momentos em que nos colhe o desânimo e tudo parece remoto. Sobretudo, há ocasiões nas quais, após pressentirmos o advento de muitas coisas boas, ficamos afinal decepcionados, como se tivéssemos na mão uma série de bilhetes de loteria sem valor, porque não foram sorteados. Algo semelhante a uma viagem de automóvel: ao lado de horas agradáveis, de conversa animada, existem outras em que a estrada parece interminável; temos a impressão de estarmos viajando há vários dias, de ainda faltar outro tanto, e até mesmo de que a viagem deverá prolongar-se indefinidamente…

    Assim é a vida de apostolado. Há ocasiões em que se está eufórico e outras nas quais tudo se nos afigura caminhar mal, lento, emperrado, e não conseguimos remover os obstáculos. Pois bem, esta é a fase áurea, se soubermos sempre manter o ânimo.

  • Paciente e misericordioso

    Mais do que nunca, faz-se necessária na época em que vivemos a invocação ao Coração de Jesus paciente e misericordioso. Paciente, porque sofredor, porque disposto a suportar as injúrias que Lhe fazemos, porque modelo e consolação para os que enfrentam com resignação as inevitáveis dores desta vida. E porque paciente, é também misericordioso: perdoa-nos uma vez, duas vezes, duas mil vezes, desejando apenas que não desanimemos do seu perdão.

    Ó Sagrado Coração de Jesus, pelos rogos do Imaculado Coração de Maria, sede paciente com meus defeitos, com meus pecados, misericordioso para com minhas lacunas — tende pena de mim.

    Amém.