Autor: Nelson

  • Assemelhar-se ao Varão de Dores

    Em mais uma exposição dedicada a comentar o opúsculo de São Luís Grignion de Montfort, Dr. Plinio ressalta a divina figura de Nosso Senhor Jesus Cristo como o “vir dolorum” — varão a cujas dores devemos estar associados, com veneração e gratidão profundas; a Ele nos unindo de modo crescente, ao aceitarmos os sofrimentos que a vida nos traz.

     

    No intuito de afervorar seus discípulos no amor à Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, assim prossegue São Luís Grignion de Montfort: 

    “Numquid et vos vultis abire” (Jo 6, 67)?

    Isto é: “quereis vós também retirar-vos?”. Foi a pergunta que Nosso Senhor dirigiu aos apóstolos, quando alguns começaram a abandoná-Lo após ouvi-Lo proclamar que sua carne era verdadeira comida, e seu sangue verdadeira bebida. Ou seja, quando Ele aludiu à Sagrada Eucaristia. Vários discípulos se escandalizaram e O deixaram. Ele, então, fez aos que ficaram essa pergunta, cheia de melancolia patética: “Vós também quereis ir?” Como quem dissesse: “Se quiserdes, ide também vós”.

    É uma pergunta de transpassar a alma de qualquer ouvinte que tenha um mínimo de sentimento. Nosso Senhor foi abandonado estúpida e ingratamente. Nessa ocasião, São Pedro pronunciou aquela frase magnífica: “Aonde iremos, Senhor, se só Vós tendes palavra de vida eterna?” (Jo 6, 68). Estava tudo dito, nada havia a acrescentar.

    Riquezas, prazeres e honras: causas de abandono da Cruz

    “Numquid et vos vultis abire?” (Jo 6, 67). Quereis vós também abandonar-me, fugindo de minha Cruz, como os mundanos, que nisto são outros tantos Anticristos; “Antichristi multi?” (1 Jo 2, 12)

    Por mundano devemos entender aquele que coloca as esperanças de sua felicidade apenas neste mundo e nesta vida, procurando tão-somente as coisas terrenas. Esse foge da Cruz de Nosso Senhor e, por isso, São Luís Grignion o compara ao Anticristo.

    Quereis, enfim, conformar-vos ao século presente, desprezar a pobreza de minha Cruz, para correr após as riquezas?

     Conforme o pensamento do santo autor, o apego às riquezas do século, ou seja, do mundo, seria um primeiro fator que inclina o homem a se recusar a seguir o Divino Mestre nas vias do sofrimento.

    Evitar a dor de minha Cruz para procurar os prazeres?

    O segundo motivo para a mesma recusa é a busca desordenada dos prazeres.

    Odiar as humilhações de minha Cruz, para ambicionar as honras?

    Estão, portanto, indicados os três grandes atrativos do mundo: as riquezas, os prazeres e as honras.

    Onde não está a Cruz, não está Nosso Senhor

    Tenho, na aparência, muitos amigos que me fazem protestos de amor, mas no fundo me odeiam, pois não amam a minha Cruz…

    Esse pensamento de São Luís Grignion nos leva a uma importante consideração. Com efeito, pessoas há que parecem ser muito devotas de Nosso Senhor, mas, na hora de aceitar o sofrimento, de provar seu amor à Cruz, não o fazem. Ora, diz o santo, no fundo tais pessoas odeiam o Redentor, pois rejeitam sua Cruz.

    A frase é dura, mas verdadeira. Interpretando-a, poder-se-ia apontar como ridícula a afirmação que se ouve aqui e ali: “cada um pratica a religião a seu modo; uns amam Nosso Senhor com a Cruz; outros O amam sem ela”. Pelo que nos ensina São Luís, essa postura de alma é equivocada. Onde não entra a Cruz, não se acha o Redentor. E o requinte de amor a Ele é o amor à sua Cruz. Cumpre ter espírito de sacrifício, pois sem isto não existe autêntica adoração ao nosso Salvador.

    Compreendemos assim quanto é adequada a expressão de que todo católico deve se assemelhar ao Redentor enquanto “vir dolorum, um varão de dores”. Parece-me que esse qualificativo descreve de modo magnífico o Divino Mestre ao longo de sua existência terrena: um varão repleto de dores, que sofre profunda e lucidamente, e faz do sofrer o seu viver. Donde o autêntico católico dever se conformar a esse augusto exemplo, e levar sua cruz como Nosso Senhor levou a d’Ele, varonilmente, peito aberto, sem olimpismo, mas sem fraquezas.

    Peçamos à Santíssima Virgem que nos alcance a inestimável graça de amarmos assim a Cruz de seu Divino Filho.

    Necessidade da graça para tomarmos a sério esses ensinamentos

    “Muitos [são] amigos de minha mesa, e pouquíssimos de minha Cruz. A este apelo amoroso de Jesus elevemo-nos acima de nós mesmos; não nos deixemos seduzir pelos nossos sentidos, como Eva; não olhemos senão o autor e consumador de nossa fé, Jesus crucificado. Fujamos da concupiscência do mundo corrompido; amemos Jesus Cristo da melhor maneira, isto é, através de toda sorte de cruzes. Meditemos bem estas admiráveis palavras de nosso amável Mestre, que encerram toda a perfeição da vida cristã: ‘Si quis vult venire post me, abneget semetipsum et tollat crucem suam, et sequatur me!’ (Se alguém quiser vir após Mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me)” (Mt 16, 24).

    Vemos, assim, qual é o convite feito para os genuínos amigos da Cruz. Nosso Senhor Jesus Cristo fez tudo por nós. Seria inteiramente lógico que, por retribuição, nós O seguíssemos. Porém, a maldade do homem é tal que precisamos pedir uma graça particular para tomarmos a sério esses ensinamentos, os quais entretanto são de molde a comover as pedras; devemos implorar o dom da fé capaz de mover montanhas, e termos os olhos sempre voltados para a Cruz.

    Pensemos: a morte de Cristo causou tanta perturbação no universo que o sol se toldou no firmamento, a terra tremeu e outros fenômenos do gênero se verificaram. Ora, se as próprias criaturas materiais como que se manifestaram diante da morte do Filho de Deus e Lhe preparam aquele funeral, como posso tomar conhecimento da Paixão e não me incomodar?

    Pois a maldade do homem decaído pelo pecado original o levará a ser indiferente aos padecimentos de Cristo e à sua Cruz, caso ele não seja auxiliado pela graça. A inclinação para essa indiferença, qualquer um pode sentir dentro de si: ouvirá diversos sermões a respeito dos sofrimentos de Nosso Senhor, os mais lógicos e atraentes; porém, sem uma assistência da graça, daria no mesmo se lhe narrassem a Guerra de Troia. Quer dizer, não o abalaria nem o moveria a nenhuma boa disposição.

    Daí adquirirem especial valor aquelas palavras singelas do cântico “Stabat Mater”, frutos da piedade popular, acessível e amável: Santa Mãe, fonte de amor, fazei-me sentir a intensidade de vossa dor, fazei-me chorar convosco. Quer dizer, depois de Nosso Senhor ter feito tudo por mim, preciso pedir a Maria Santíssima que me alcance graças para eu ter pena d’Ele, pois a Cruz, sem o socorro da graça, pode me parecer apenas um pedaço de madeira, e todo um ciclo de conferências sobre a beleza e riqueza do sofrimento não nos tocará a alma.

    Oferecer com alegria nossos sofrimentos e renúncias

    Ao concluir esses comentários, gostaria de frisar como é excelente nutrirmos em nós, de maneira constante, o desejo de um verdadeiro amor à Cruz, no seguinte sentido: se Nosso Senhor Jesus Cristo, se a Virgem Santíssima, minha Mãe e minha Senhora, pedirem-me alguma coisa, devo dá-la com alegria, sobretudo em se tratando de algo que me exija sacrifício, renúncia, sofrimento, de maneira que minha dor seja uma gota dentro do oceano das dores que Ambos padeceram por nós na Paixão. É por essa forma que melhor me unirei a Eles.

    Uma vez mais: não deixemos de implorar a graça de termos esse abrasado amor à Cruz, de nos tornarmos ardentes amigos dela, não querendo coisa mais elevada e mais cobiçada do que a Cruz de nosso Salvador.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira, (Extraído de conferência em 8/7/1967)

  • "Illuminans umbratica"

    “Illuminans umbratica” é uma bela invocação para antes de fazermos um exame de consciência, pois é Nossa Senhora quem ilumina as coisas que estão na sombra.

    Nós, como temos sombras em nossas almas, devemos pedir a Maria Santíssima que nos ilumine, para vermos bem o que existe em nosso interior e nos fazer discernir as tramas do demônio contra nossa vida espiritual.

    Plinio Corrêa de Oliveira, (Extraído de conferência de 18/8/1965)

  • Uma das facetas do Imaculado Coração de Maria

    Um dos meios bonitos de conhecermos o espírito e o Imaculado Coração de Maria consiste em estudar a vida de São João Batista. Por ter sido ele santificado no seio de Santa Isabel pela palavra de Nossa Senhora, vê-se que Ela comunicou-lhe ali, misteriosamente, o espírito d’Ela. E tudo quanto o Precursor realizou em sua vida era uma decorrência dessa graça inicial recebida e constantemente intensificada, pelos rogos d’Ela.

    Podemos, então, ver São João Batista enquanto asceta austero, pregador do Cordeiro de Deus que viria, e como herói que enfrenta Herodes e morre como mártir, sublime de grandeza e de serenidade. É uma das facetas do espírito de Nossa Senhora.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 11/7/1967)

  • Eucaristia

    Imaginemos uma pequena capela onde um sacerdote dá a algum de nós a Eucaristia.

    Visíveis apenas o padre, um de nós, e um discozinho de farinha e água. Porém, a fé nos ensina que todos os anjos e santos do Céu adoram cada partícula do Santíssimo Sacramento existente na Terra; e portanto presenciam aquela comunhão, cantando e louvando o Divino Redentor. Nossa Senhora, por sua vez, louva a Nosso Senhor porque Ele está Se dando a nós. De maneira que o Céu inteiro está olhando para aquela cena e pede a Nosso Senhor misericórdia por aquele que está recebendo a Eucaristia.

    Pode-se conjecturar algo mais alentador? Quanta alegria e que beleza nessa cena! Se antes de comungar pensássemos um pouco nisto, não é verdade que iríamos receber a Eucaristia com mais esperança, mais confiança, mais alegria? É evidente!

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de Conferência em 15 setembro de 1973)

  • Excelências do Coração de Jesus

    Graças a Dona Lucilia, desde muito criança Dr. Plinio desenvolveu uma profunda devoção ao Sagrado Coração de Jesus, faceta do Homem-Deus que ele procurou cada vez mais explicitar e amar durante toda a vida. Eis o excerto de uma de suas numerosas conferências sobre o tema.

     

    Estando no mês em que se celebra a festa do Sagrado Coração de Jesus, parece-me muito oportuno admirarmos a beleza de algumas das invocações com que O honramos na sua Ladainha. Esta é um verdadeiro tesouro de maravilhas e louvores, próprio a encher nossas almas de amor e adoração a Ele.

    Coração do Filho, Coração da Mãe

    Tomemos, por exemplo, essa belíssima invocação: Coração de Jesus, formado pelo Espírito Santo no seio da Virgem Mãe.

    Se considerarmos o Coração de Jesus em sua realidade material e carnal, objeto de nosso culto como símbolo da vontade de Nosso Senhor e, portanto, do seu amor para conosco; se o considerarmos enquanto formado no seio imaculado de Nossa Senhora, com a matéria que a Mãe fornece para a constituição do corpo do Filho, ligada à divindade d’Ele em união hipostática compreendemos que a carne de Jesus é a própria carne de Maria, o sangue de Jesus é o próprio sangue de Maria, e, portanto, o Coração de Jesus é de algum modo o Coração de Maria.

    Se nos detivermos na evocação desse processo de geração tão admirável, pelo qual Jesus foi assim formado do corpo de Maria, num oceano, num incêndio de amor e de adoração d’Ela para com esse filho que se modelava em suas entranhas, compreenderemos ainda mais como o Coração de Jesus está ligado ao Coração Imaculado de Maria, e como podemos ter uma confiança sem reserva na eficácia da intercessão de Nossa Senhora junto a Nosso Senhor.

    Com efeito, Ele jamais poderia recusar qualquer coisa a essa Mãe Santíssima, perfeitíssima, da qual Ele não tem nenhuma queixa, antes o mais superlativo e total contentamento que o Criador pode ter em relação à sua criatura. Mais ainda: de cuja carne virginal Ele sabe ter sido formada a sua própria carne, e cujo Coração pulsa em uníssono com aquele que lateja em seu sagrado peito.

    Creio que, para os devotos de Nossa Senhora, essa invocação se reveste de imenso significado, e merece ser recitada com especial fervor.

    Um céu de majestade

    Outra lindíssima invocação é esta: Coração de Jesus, de majestade infinita.

    Segundo o luminoso ensinamento de Santo Agostinho, onde está a majestade, ali se acha também a humildade. As duas são inseparáveis. Daí concluímos que o Coração de Jesus, abismo de humildade, é por isso mesmo um firmamento de majestade.

    Se dons artísticos eu tivesse, muito me alegraria representar a figura de Nosso Senhor, exprimindo não apenas a sua majestade ou somente a sua humildade, mas retratá-Lo numa dessas apresentações em que se vê, num só relance, aquilo que a majestade tem de comum com a humildade, ou vice-versa, e que é aquela esfera superior de virtude onde essas duas excelências particulares como que se encontram e se fundem.

    Algo dessa ligação da suma majestade com a suma humildade me parece existir numa imagem na qual não está visível o Sagrado Coração, mas nem por isso deixa de ser muita expressiva nesse sentido: trata-se do “Beau Dieu d’Amiens”. Ali O vemos como um rei digníssimo, um doutor nobilíssimo, mas ao mesmo tempo tão sereno, tão manso, tão senhor de si, que se percebe que Ele seria capaz de receber a pior injúria e de se conservar inteiramente quieto, pacífico, sem nenhuma reação de amor próprio, desde que fosse essa a atitude mais santa no momento.

    Foco de todo o amor de Deus

    Outra invocação: Coração de Jesus, fornalha ardente de caridade.

    Caridade é o amor de Deus. O fato de o Coração de Jesus ser essa fornalha  ardente ou seja, não só uma fornalha, que de si já traz a ideia do ardor, mas uma fornalha ardentíssima exprime bem a ideia de que Ele é o foco de todo o amor de Deus. E que a devoção ao Coração de Jesus, por intermédio do Coração Imaculado de Maria, é especificamente esplêndida para quem se lamenta de ser tíbio, de estar se arrastando de maneira vagarosa na vida espiritual. É a devoção mais indicada e mais excelente, capaz de comunicar o fogo e o fervor da caridade a essas almas que deploram sua estagnação nas vias da piedade.

    Modelo de verdadeira paciência

    Também me parece muito importante, para nossa época, a invocação com a qual louvamos o Coração de Jesus, paciente e misericordioso.

    “Paciente” significa aquele que sofre. É, portanto, o Coração de Jesus sofredor e misericordioso, pronto a padecer até mesmo as injúrias que Lhe fazem os homens. É o Coração d’Ele enquanto amando o sofrimento, compreendendo que é a grande lei da vida e que, sem isso, a existência não vale absolutamente nada. Pois, em última análise, consideradas as coisas sob certo ângulo, o valor de uma criatura humana se mede por sua capacidade de aceitar com coragem e resignação as dores que a Providência permite em seu caminho.

    E então temos o Coração de Jesus como nosso modelo de paciência. E uma das formas importantes de sermos pacientes, nesse sentido superior da palavra, diz respeito à atitude que tomamos em relação aos nossos próximos. Quer dizer, sabermos aturar os desaforos e provocações, sermos amáveis e bondosos para com aqueles que nos fazem sofrer pelo seu mau gênio, pelas dificuldades de trato, etc. Para isso, é necessário pedirmos ao Sagrado Coração de Jesus essa paciência de que Ele é a fonte.

    Além dessa forma preciosa de paciência, uma das expressões mais típicas da capacidade de sofrer é o espírito de iniciativa, pelo qual o homem vence a preguiça, a moleza, o tédio, o amor a si mesmo e se lança ao trabalho, à luta apostólica, e se joga até o mais grosso e ardoroso dessa luta, se necessário for, quites a deixá-la imediatamente se o interesse da Igreja conduzi-lo no sentido oposto.

    Eis a melhor forma de paciência que devemos rogar ao Coração de Jesus, é esse espírito de iniciativa e de combatividade, em virtude do qual renunciamos a todos os nossos relaxamentos.

    Paciente e misericordioso. É a misericórdia enquanto corolário da paciência, disposta a tudo aturar e a tudo perdoar. Sim, convençamo-nos dessa maravilhosa verdade: o Sagrado Coração de Jesus nos perdoa uma vez, duas vezes, duas mil vezes, e não quer que desanimemos de seu perdão.

    Assim, esta é a magnífica invocação que nos exorta a nunca perder a confiança na clemência de Nosso Senhor, pela intercessão do Coração Imaculado de Maria: Coração de Jesus, paciente e misericordioso. Paciente com os meus defeitos, com os meus pecados; misericordioso em relação às minhas lacunas. Pelos rogos do Coração de vossa Mãe Santíssima, tende pena de mim, ó Senhor.

    Vítima que pagou por nossos pecados

    Envolvendo idéias análogas à da invocação anterior, é a do Coração de Jesus, propiciação pelos nossos pecados.

    Às vezes acontece nos sentirmos fundamentalmente indignos e as almas mais puras e mais altas o podem sentir até com maior intensidade. E compreendemos que, diante da justiça infinita de Deus, não somos absolutamente nada. Donde essa invocação constituir inestimável motivo de tranqüilidade para nós. Ela significa que, se meus sacrifícios, sozinhos, não têm valor diante do Altíssimo, há entretanto uma Vítima que vale tudo: porque é uma Vítima sem mancha, sem jaça, ligada por união hipostática à própria divindade. E essa Vítima é Nosso Senhor Jesus Cristo, que se ofereceu por mim, de tal maneira que tudo aquilo que eu tenho receio de não conseguir, essa Vítima alcança.

    Ela carregou os meus pecados, por eles sofreu, e em virtude desse holocausto eu considero minhas faltas com vergonha, com contrição, pelo menos com atrição, mas em todo caso com imensa confiança, porque Alguém se imolou e derramou por mim, pela minha salvação, todas as gotas do seu sangue. Por isso eu devo ter confiança, não em mim, mas nesse sangue infinitamente precioso que por mim foi vertido à exaustão.

    Esse é o Sagrado Coração de Jesus, propiciação pelos nossos pecados.

    Fonte de toda consolação

    Consideremos uma última invocação: Coração de Jesus, fonte de toda consolação.

    A palavra “consolação” encerra dois sentidos: num deles quer dizer fortalecimento; no outro, alegria, suavidade, unção do Divino Espírito Santo na alma. E em ambos os sentidos o Sagrado Coração de Jesus é fonte de toda consolação.

    Sabemos quanto Ele enche de júbilo e de satisfação espiritual as almas que Lhe são devotas, os corações que se abrem para a sua bondade infinita. Mas importa compreendermos também que a nossa força vem d’Ele. E quando nos sentirmos fracos, tíbios, desorientados, sobretudo quando estivermos sem coragem diante de algum grande ato de generosidade, não devemos avançar sozinhos, imaginando que por nosso próprio mérito o conseguiremos. Não! O Coração de Jesus é a fonte de toda a força. Por meio do Coração Imaculado de Maria, canal único e necessário para nos aproximarmos do Coração de Jesus, temos de nos dirigir a Ele e implorar as forças de que carecemos.

    E seguramente não seremos frustrados em nosso pedido. Em determinado momento sentiremos a força de que precisamos, inclusive e acima de tudo, para realizarmos as coisas mais árduas e difíceis com relação à nossa vida espiritual.

    Aqui ficam, portanto, algumas considerações que nos podem ser úteis em nossa piedade. Por exemplo, quando comungarmos, procuremos nos lembrar dessas invocações, pensando que recebemos na alma, por presença real, física, verdadeira e viva, esse Coração no qual adoramos todas as perfeições expressas nessa Ladainha.

  • Sagrado Coração de Jesus

    Na imagem do Sagrado Coração de Jesus contemplamos a força, a varonilidade, a seriedade, a decisão do Rei e Mestre por excelência. Mas, ao lado disso, vemos n’Ele tanta doçura, tanta harmonia e um modo tão bondoso de tomar todas as coisas, que sentimos algo a nos dizer: “É feliz quem está com Ele, acerta na escolha do caminho da vida quem se põe afim com Ele, porque é objeto dessa bondade”. E Ele tem o poder de dar aquilo que o afeto d’Ele promete. Nosso Senhor Jesus Cristo não mente: de alguma maneira, custe o que custar, Ele nos concederá o prometido.

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • Nossa Senhora do Sagrado Coração

    Ao cantar as glórias de Nossa Senhora no seu relacionamento com o Sagrado Coração de Jesus, Dr. Plinio nos deixa ver o alto grau de contemplação ao qual, quando ainda muito jovem, chegou sua alma profundamente mariana.

     

    Se há uma época para cuja miséria só pode existir esperança de remédio no Sagrado Coração de Jesus, esta é a nossa.

    Inútil seria atenuar a enormidade dos crimes que por toda a parte pratica a humanidade em nossos dias. Disse Pio XI, em uma de suas Encíclicas, que a degradação moral do mundo contemporâneo é tal, que o coloca na iminência de se ver precipitado, de um momento para outro, em condições espirituais mais miseráveis do que aquelas em que se encontrava quando veio ao mundo o Salvador. (…)

    O sol da misericórdia divina

    Uma humanidade perseverante na sua impiedade tudo tem a esperar dos rigores de Deus.  Mas Deus, que é infinitamente misericordioso, não quer a morte desta humanidade pecadora, mas  sim “que ela se converta e viva”. E, por isto, sua graça procura insistentemente todos os homens, para que abandonem seus péssimos caminhos e voltem para o aprisco do Bom Pastor.

    Se não há catástrofes que não deva temer uma humanidade  impenitente, não há misericórdias que não possa esperar uma humanidade arrependida. E para tanto não é necessário que o arrependimento tenha consumado sua obra restauradora. Basta que o pecador, ainda que no fundo do abismo, se volte para Deus com um simples início de arrependimento eficaz, sério e profundo, que ele encontrará imediatamente o socorro de Deus, que nunca se esqueceu dele. Di-lo o Espírito Santo na Sagrada Escritura: ainda que teu pai e tua mãe te abandonassem, eu não me esqueceria de ti. Até nos casos extremos em que o paroxismo do mal chega a esgotar a própria indulgência materna, Deus não se  cansa.  Porque a misericórdia de Deus beneficia o pecador até mesmo quando a Justiça  divina o fere de  mil  desgraças  no  caminho da iniquidade.

    Estas duas imagens essenciais da justiça e da misericórdia divina devem ser constantemente postas diante dos olhos do homem contemporâneo. Da justiça, para que ele não suponha temerariamente salvar-se sem méritos. Da misericórdia, para que não desespere de sua salvação desde que deseje emendar-se. E, se as hecatombes de nossos dias já falam tão claramente da justiça de Deus, que melhor visão para completar este quadro, do que o sol da misericórdia, que é o Sagrado Coração de Jesus?

    Infinito amor para com os homens

    Deus é caridade. E por isto mesmo a simples enunciação do Nome Santíssimo de Jesus lembra a ideia do amor. O amor insondável e infinito que levou a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade a se encarnar! O amor expresso através dessa humilhação incompreensível de um Deus que se manifesta aos homens como um menino pobre, que acaba de nascer em uma gruta.

    O amor que transparece através daqueles trinta anos de vida recolhida, na humildade da mais estrita pobreza, e nas fadigas incessantes daqueles três anos de evangelização, em que o Filho do Homem percorreu estradas e atalhos, transpôs montes, rios e lagos, visitou cidades e aldeias, cortou desertos e povoados, falou a ricos e a pobres, espargindo amor e recolhendo na maior parte do tempo principalmente ingratidão.

    O amor demonstrado naquela Ceia suprema, precedida pela generosidade do lava-pés e coroada pela instituição da Eucaristia! O amor daquele último beijo dado a Judas, daquele olhar supremo posto em São Pedro, daquelas afrontas sofridas na paciência e na mansidão, daqueles sofrimentos suportados até a total consumação das últimas forças, daquele perdão medi-

    ante o qual o Bom Ladrão roubou o Céu, daquele dom extremo de uma  Mãe celestial à humanidade miserável.

    Cada um destes episódios foi meticulosamente estudado pelos sábios, piedosamente meditado pelos Santos, maravilhosamente reproduzido pelos artistas, e sobretudo inigualavelmente celebrado pela liturgia da Igreja. Para falar sobre o Sagrado Coração de Jesus, só há um meio: é recapitular devidamente cada um deles.

    Realmente, venerando o Sagrado Coração, outra coisa não quer a Santa Igreja, senão prestar um louvor especial ao amor infinito que Nosso Senhor Jesus Cristo dispensou aos homens. Como o coração simboliza o amor, cultuando o Coração, a Igreja celebra o Amor.

    Nossa Senhora, Advogada dos pecadores

    Por mais variadas e belas que sejam as invocações com que a Santa Igreja se refere a Nossa Senhora, em nenhuma delas deixaremos de encontrar uma relação entre Ela e o amor de Deus. Essas invocações, ou celebram um dom de Deus, ao qual Nossa Senhora soube ser perfeitamente fiel, ou um poder especial que Ela tem junto ao Seu Divino Filho. Ora, o que provam os dons do Deus, senão um amor especial do Criador? E o que prova o poder de Nossa Senhora junto a Deus, senão este mesmo amor?

    Assim, pois, é com toda a propriedade que Nossa Senhora pode ao mesmo tempo ser chamada “espelho de justiça” e “onipotência suplicante”. Espelho de Justiça, porque Deus a amou tanto, que n’Ela concentrou todas as perfeições que uma criatura pode ter, e por isto mesmo em nenhuma Ele se espelha tão perfeitamente como n’Ela. Onipotência suplicante, porque não há graça que se obtenha sem Nossa Senhora, e não há graça que Ela não obtenha para nós.

    Assim, pois, invocar Nossa Senhora sob o título do Sagrado Coração é fazer uma síntese belíssima de todas as outras invocações, é lembrar o reflexo mais puro e mais belo da Maternidade Divina, é fazer vibrar a um só tempo, harmonicamente, todas as cordas do amor, que tocamos uma a uma enunciando as várias invocações da ladainha lauretana, ou da Salve Rainha.

    Mas há uma invocação que quero lembrar especialmente. É a da advogada dos pecadores. Nosso Senhor é Juiz. E por maior que seja a sua misericórdia, não pode também deixar de exercer a sua função de juiz. Nossa Senhora, porém, é só advogada. E ninguém ignora que não é função do advogado outra coisa senão defender o réu. Assim, pois, dizer que Nossa Senhora do Sagrado Coração é nossa advogada implica em dizer que temos no Céu uma advogada onipotente, em cujas mãos se encontra a chave de um oceano infinito de misericórdia.

    O que de melhor para se mostrar a esta humanidade pecadora, a qual, se não se fala de justiça de Deus, se embota cada vez mais no pecado, e se dela se fala desespera de se salvar? Mostremos a justiça: é um dever cuja omissão tem produzido os mais lamentáveis frutos. Ao lado da justiça que fere os impenitentes, nunca nos esqueçamos,  entretanto, da misericórdia que ajuda o pecador seriamente arrependido a abandonar o pecado e, assim, a se salvar.

  • Contemplando o Sagrado Coração de Jesus

    Junho é o mês do Coração de Jesus. Dr Plino tinha essa devoção arraigada em sua alma desde a mais remota infância, e a desenvolveu ao longo de toda a sua vida, como se pode ver no texto da conferência que transcrevemos a seguir.

     

    A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é tão antiga em mim que — como já contei aos senhores — antes mesmo de eu saber dizer “papai” ou “mamãe”, quando minha mãe me perguntava: “Onde está o Sagrado Coração de Jesus?”, eu apontava para a imagem d’Ele.

    Conhecer uma devoção é, sem dúvida nenhuma, debaixo de certo ponto de vista, degustá-la. E o degustar alguma coisa, para o meu modo de ser, nunca é completo enquanto eu não conhecer essa coisa até ao fundo. Uma das razões que me empolgaram tanto no livro de São Luís Maria Grignion de Montfort, “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, é que ele toma o assunto central e vai até onde se pode e se deve ir para ter conhecimento da questão. Vendo a montagem racional desse assunto, em função da doutrina católica, eu o compreendi. E compreendi bem, como gosto de compreender.

    Entendendo desse modo, eu me sinto muito mais eu mesmo, sinto-me muito mais em casa para amar, porque a mente humana gosta de ver a insondabilidade das coisas, se com praz em de ver a força do raciocínio, se alegra em sondar palmo a palmo uma questão e ir até ao fundo dela.

    É assim que o homem ama. Ao menos é assim que eu sei amar. Não sou, nem um pouco, amigo desses espíritos cartesianos que pensam que tudo se resume em compreender e que, uma vez compreendido, está tudo acabado. Não. É preciso ter o raciocínio, mas também o sentimento. Por que fazer a escolha entre o raciocínio e o sentimento? Se Deus fez o homem capaz de raciocínio e sentimento, tenhamos ambas as coisas, para fazer a vontade de Deus e para sermos nós mesmos.

    O que se deve entender por “coração”?

    Tomo os elementos que me parecem fundamentais nesse grande e misterioso assunto que é a devoção ao Sagrado Coração de Jesus.

    Por “coração” os antigos entendiam não precisamente o que se entende hoje, mas algo que é ao mesmo tempo mais vasto e, em certo sentido, diferente.

    Em nossos dias, o coração é quase o símbolo do sentimento desacompanhado da razão. Diz-se que o coração de uma pessoa vibra quando ela sente um certo enternecimento, quando é alvo de um ato de bondade, ou quando tem uma condescendência com algo.

    Mas coração é só isso?

    Para os antigos, não era assim. Eles tomavam o coração como o órgão que nós conhecemos, que pulsa, que tem aurículas, ventrículos, faz sístoles e diástoles, e em razão de cujo funcionamento — uns mais solidamente na sua jovem idade, outros mais precariamente nas idades avançadas — todos estamos vivos. Mas coração significava para eles algo mais. Era o conjunto das coisas que o homem vê, ama e guarda na sua mente, por assim dizer, como se fossem “slides”, porque lhe falaram mais.

    A palavra coração representa esse conjunto de coisas enquanto amadas pelo homem com um amor que não é apenas uma conaturalidade ou uma simpatia, mas é um ato racional. As coisas que foram julgadas segundo certa doutrina verdadeira — que é o ponto de referência de tudo — e foram encontradas conformes a essa doutrina, e, por isso mesmo, amadas. A sensibilidade é um eco harmonioso, delicado e nobre, desse amor. Mas, é preciso ter compreendido bem e ter chegado bem até ao fim no julgamento, para amar inteiramente. É necessario compreender até ao fundo, para admirar e amar de corpo inteiro, de coração inteiro.

    O coração do católico. O Coração de Jesus

    O coração do católico representa, nesse sentido, a mentalidade dele, que inclui a sua sensibilidade, mas indica sobretudo aquilo que — estando de acordo com a doutrina católica, apostólica, romana — ele conhece pela Fé como verdadeiro. Aquilo que ele ama acima de tudo e toma como uma “linha rectrix” de todas as outras coisas, porque é conforme à verdade verdadeiríssima, à verdade soberana, à verdade padrão, segundo a qual todas as outras verdades são de fato verdades, e contra a qual todas as aparências de verdade não são senão erros enganosos.

    Em todo caso, tendo já como pressuposto que o coração é o símbolo da mentalidade, nós podemos nos perguntar como era a mentalidade de Nosso Senhor Jesus Cristo. É um tema audacioso, é uma navegação tão alta que o homem tem medo de chegar até lá. Mas, de outro lado, esse ar atrai. Quanto mais alto se voa nele, mais se tem vontade de subir, e medo de ser obrigado a descer. É o contrário da aviação terrena.

    O que nos é dado entrever daquilo que seria a mentalidade de Nosso Senhor Jesus Cristo em algum de seus aspectos?

    Devemos considerar essa mentalidade muito mais na sua Humanidade Santíssima do que na sua Divindade. Nesta última, o tema subiria tanto que não seria fácil, pelo menos a um leigo, tratar da questão. Mas a Humanidade santíssima d’Ele está mais perto de nós. Um “perto” cuja distância vai de uma ponta a outra do universo, porque a perfeição d’Ele não tem comparação com nada e com ninguém.

    A Fé nos ensina que o Verbo se encarnou e habitou entre nós. A natureza humana d’Ele está ligada pela união hipostática à natureza divina. A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade encarnou-se e desse acontecimento único resultou Nosso Senhor Jesus Cristo. Essa dualidade de naturezas numa só pessoa significa que a sua Humanidade santíssima tinha com a Divindade um contacto mais íntimo que que teria com Deus o Santo mais perfeito.

    Mistérios da união hipostática

    Essa união, porém, não deixa de ter aspectos misteriosos para nós. Por exemplo, na Oração do Horto das Oliveiras, parece que a natureza humana de Jesus teve uma como que treva, uma como que noite escura, em relação à natureza divina, de maneira que Ele se sentiu abandonado e rezou:

    — Meu Pai, se for possível afaste-se de Mim este cálice.

    E veio um Anjo que o consolou, e Ele se reanimou.

    Também, no alto da Cruz, Ele teve uma exclamação que parece lançar uma luz especial sobre o mistério das relações entre a sua natureza humana e a natureza divina. Ele bradou:

    —Meu Pai, meu Pai, porque Me abandonastes?

    É verdade que este é o primeiro versículo de um salmo que prenuncia a sua vitória, e, recitando-o, afirmava que ia ressuscitar. Mas, de qualquer forma, havia ali um brado de abandono.

    Foi tão grande esse abandono que pouco depois Ele disse: “Consummatum est!” E entregou o seu Espírito.

    Os senhores estão vendo, por aí, que havia mistérios, havia dores e padecimentos nesta humana natureza tão ligada à natureza divina. E como nesta vida há uma certa proporção entre os sofrimentos e as alegrias, que tremendos padecimentos devem ter sido os d’Ele, uma vez que devem ter sido tão extraordinárias suas alegrias! Os senhores podem imaginar, numa alma unida a Deus, formando com Deus uma só Pessoa, a alegria que isso pode dar! Nenhum Anjo do Céu tem essa alegria! Ele tinha e tem no Céu. Mas, de outro lado, se há uma proporção das alegrias com as dores, que dores, e que dores, e que dores Ele deveria sofrer!

    “Tudo está consumado”: a dor do inexplicável

    Poucas coisas fazem sofrer tanto o homem quanto a dor do inexplicável. Quando ele tem explicação para a sua dor, ele sofre menos. Mas, quando a dor é inexplicável e cai sobre ele como algo que ele não entende… Não é porque ele queira tomar satisfações de Deus, mas é que do não-entender lhe vem o medo de que aquilo seja um castigo por alguma culpa, que aquilo seja algo fora dos desígnios divinos.

    Nosso Senhor não podia ter culpa, e Ele sabia disso, e nada para ele era inexplicável. Porém, que misteriosos sofrimentos Ele teve? Nós não o sabemos. Só sabemos uma coisa: é que Ele passou pelos tormentos mais pasmosos que jamais um ser tenha padecido na História. Esses sofrimentos de alma eram tão extraordinários que deixariam qualquer homem com a saúde arrasada em poucas horas: poderiam sobrevir enfartes, derrames cerebrais, e tudo o que os senhores possam imaginar. Ele aguentou até o fim, e seu último ato foi um ato de lucidez: “Consummatum est — Tudo está consumado”.

    Depois de criar o universo, Deus o viu em seu conjunto e considerou que cada coisa era bela, boa e verdadeira, mas que o conjunto era mais belo do que cada uma das coisas em particular. Tem-se a impressão de que Nosso Senhor Jesus Cristo, ao morrer, considerou tudo o que sofreu e viu que tinha sofrido tudo o que devia padecer, e que era uma beleza, uma torrente de sangue e de dores, como nenhum oceano poderia conter. A última gota de sangue estava derramada, a última dor, a mais inexplicável, a mais pungente, estava sofrida. Estava tudo pronto. Ele contemplou a formosura deste horror e disse: “Está tudo oferecido pela Redenção do gênero humano: “Consummatum est”. Eu sofri tudo o que tinha que sofrer, e tudo o que se pode sofrer, Eu sofri de maneira a minha tarefa redentora estar inteiramente pronta: “Consummatum est”. Só me falta o último lance, que é a separação da alma do corpo. Depois disso, cessarei de sofrer. Mas esse último lance, Eu ainda tenho que dar: morrerei!”

    E morreu… Que coisa maravilhosa! Com que sensibilidade, mas com que compreensão profunda de sua missão, com que força e continuidade Ele sofreu aquilo tudo! É algo que não se pode medir suficientemente.

    Harmonia de perfeições

    Ora, devemos imaginar o Homem Deus com todas essas forças e grandezas implícitas na alma, imaginá-Lo assim, vivendo os vários aspectos de sua vida terrena.

    Por exemplo, quando Ele acariciou as crianças que vieram falar com Ele e disse: “Deixai vir a Mim os pequeninos, porque deles é o Reino do Céu”. Os senhores estão vendo o afeto, a bondade, a doçura… Não há homem de qualquer idade que vendo-O dizer: “Deixai vir a Mim os pequeninos”, não pense: “Bem, então há um lugarzinho para mim também, por mais que eu seja um pequenino, porque, em comparação com Ele, todo mundo é pequenino. Eu vou me aproximar”.

    Que doçura nessas palavras! Essa é a suavidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, o qual era ao mesmo tempo tão forte e, no sentido mais sublime da palavra, tão decidido. Resolveu sofrer, sofreu até ao fim e até ao ápice tudo, e de bom grado, sem excluir nada. Tão terrível e tão misericordioso, a ponto de dirigir-se ao bom ladrão e fazer a primeira canonização na Igreja Católica:

    — Tu hoje estarás comigo no Paraíso.

    Os senhores podem imaginar como o bom ladrão se sentiu reconfortado e animado com essa promessa. Ficasse com inveja dele. Cada um de nós que, na hora da morte, ouvisse essas palavras: “Hoje estarás comigo no Paraíso”, se levantaria da cama para glorificar a Deus e dizer: “Mas então, Senhor, o que esperais? Vamos! Vamos, levai-me!”

    Mas como pode uma alma humana compor esses quadros de conjunto, de maneira a, quando vir Nosso Senhor expulsando os vendilhões do templo, pensar n’Ele acariciando uma criancinha ou contando a parábola do Bom Samaritano; imaginá-Lo, com uma bondade indizível, curando este, aquele, e aquele outro, espargindo em torno de Si alegria, consolação, tranqüilidade, saúde; pensar n’Ele encantando os Apóstolos que O ouviam enlevadíssimos?

    Como conjugar essas duas visões: Ele tão forte, tão incomparável, tão único, e, ao mesmo tempo, tão misericordioso e tão acessível aos pequeninos?

    É preciso lembrar-se d’Ele como está no Santo Sudário, e aí se compreenderá como Ele era, no sentido mais nobre da palavra, o atleta de Deus, o herói de Deus! Siegfrid, Lohengrin, toda espécie de “heróis” dessa ordem, sublimados por Wagner, aqueles homens da mitologia antiga, tudo isso é quinquilharia em comparação com o Varão do Santo Sudário!

    Como imaginar no Menino Jesus, apenas nascido em Belém, como imaginar que nessa Criança, cuja alma contém todas as canduras e inocências imagináveis e excogitáveis, estava o Herói que iria sofrer de maneira a impressionar os homens até ao fim do mundo?!

    N’Ele todas essas perfeições se ajustavam de maneira a não se poder compreender. Ele é muito maior do que o campo de nossa visão. Ele é uma maravilha que, ou nós O consideramos por partes, ou não O conseguimos considerar.

    Adorar todas as perfeições do Sagrado Coração de Jesus

    Cada um adora Nosso Senhor como foi chamado a adorá-Lo. Como sou eu quem está falando, tenho de dizer o que me vai na alma. É meu modo de ser.

    Eu nunca me contentaria de adorar só um desses aspectos sem procurar reuni-lo a todos os outros e, ao

    menos muito sumariamente, fazer a ideia de como seria o conjunto. Eu tenho a impressão de que, se eu O conhecesse nesta vida terrena, uma das coisas que eu mais gostaria era de admirar e de adorar as transições de estados de espírito d’Ele, o como Ele passava de uma disposição para outra. De modo que eu pudesse compreender como é que uma disposição se encaixava na outra. E nessas transições, adorar a harmonia desses estados de espírito tão diversos. Parece-me que, com isso, o meu desejo das correlações, das reversibilidades e das harmonias, das ordenações em tudo, encontraria algo que o saciasse.

    Há no teto da igreja do Coração de Jesus, em São Paulo, um afresco que é uma pintura boa, ao estilo do século

    XIX. Esses quadros habituais de Nosso Senhor, muito respeitáveis e veneráveis, satisfazem muito a piedade, mas em geral fixam a atenção do homem num determinado estado de espírito de Nosso Senhor. Nos quadros do Sagrado Coração de Jesus, os autores fixam sempre — e a justo título, muito fundadamente — a sua misericórdia infinita. Mas a sua misericórdia infinita era só uma de suas perfeições. Não podemos sustentar que Ele não tinha outras perfeições, uma vez que Ele as tinha todas.

    Como é belo esse afresco! Como é ótimo, como me tem feito bem ao longo de minha vida! Mas eu gostaria que outros quadros pintassem Jesus em outros estados de espírito.

    Por exemplo, Ele meditando. O olhar absorvido, enlevado e contemplativo d’Ele, sozinho no deserto, durante quarenta dias de jejum. Gostaria de imaginá-Lo junto de uma pedra, no deserto árido, ou com uma vegetaçãozinha ordinária e muito rasteira, que seria o contrário da sublimidade da cena. Ou com uma bonita areia que se estende ao longe. No fundo, um pôr-de-sol em brasa e seu divino perfil se recortando sobre ele… Jesus meditando e orando. Portanto, sua natureza humana, por assim dizer, fazendo filosofia e teologia. Como é que seria a sua expressão fisionômica nessas ocasiões?

    Se Ele já se tinha deleitado na contemplação do universo, quanto mais se deleitaria na contemplação daquilo que é mais do que todo o universo, Nossa Senhora! Gostaria de imaginá-Lo, então, na sua Humanidade e na sua Divindade juntas, olhando para dentro dos olhos de Nossa Senhora. Ela, enlevadíssima, num êxtase altíssimo. E Ele, enquanto Deus, pensando: “A minha obra-prima!”; e enquanto Filho e Homem pensando: “Minha Mãe! Que perfeição!”

    O que um de nós daria para estar do lado de fora da porta e olhar pelo buraco da fechadura? Se nos exigissem como preço disso fazer qualquer sacrifício depois, nós faríamos. Morrer depois, não nos importaria! Ter visto essa cena e morrer… para que viver mais? E, de fato, me pergunto: haveria ânimo para viver, depois de ter visto isso? De que adiantaria, por exemplo, depois disso ver a beleza do mar? Eu gosto tanto do mar, mas depois de ter visto Maria, o que é ver o mar?…

    Eis o Coração que amou tanto os homens!

    Voltando àquele afresco da igreja do Coração de Jesus. Está Ele aparecendo a Santa Margarida Maria. O lugar da aparição está todo iluminado. Ele fala a ela com uma expressão de muita bondade, muito comprazimento, muita misericórdia. E ela está muito enlevada, naturalmente. A cena é ainda completada com as palavras tocantes de Jesus. Ele aponta o seu próprio Coração e lhe diz: “Eis aqui o Coração que tanto amou os homens e foi por eles tão pouco amado!”

    Os senhores compreendem que é de cortar o coração! Que um tal Coração tenha amado tanto e tenha sido tão pouco amado, não se sabe o que dizer! Evidentemente, nós fomos amados por Ele muito mais do que nós O amamos, porque Ele é tão maior do que nós, que um ato de amor d’Ele deixa os nossos pobres amores muito atrás… Entretanto, o problema é que nós não O amamos até onde podemos, e era o que nós deveríamos fazer. Ele diz essas palavras com misericórdia e bondade. Mas eu gostaria de perceber ali todos os outros estados de espírito; gostaria de perceber essa correlação e de, por assim dizer, pela admiração, pela adoração — que é a palavra adequada quando se trata d’Ele — pela adesão, de algum modo tentar viver isso em mim. Enternecer-me como Ele, adorar como Ele, resistir como Ele, sofrer como Ele! Por que não?! Isso todos nós gostaríamos de fazer.

    Uma coleção fabulosa

    Se nós pudéssemos fazer uma coleção dos timbres de voz de Jesus ensinando como Mestre!… Ninguém foi mestre como Ele, que é o Divino Mestre! Explicando com clareza, com sabedoria, com profundidade, horizontes extraordinários, mas com uma simplicidade de desconcertar. Seu ensino é tão simples e, ao mesmo tempo, tão profundo! Santo Agostinho dizia que o ensinamento d’Ele era como um rio no qual um elefante se afogaria e um cordeiro passaria sem molhar senão os pés.

    Como nós gostaríamos também de, por exemplo, colecionar os seus sucessivos olhares! Para não falar senão em dois : o olhar para São Pedro, que o converteu e o fez chorar a vida inteira, e um olhar para Nossa Senhora. Escolham o momento. Talvez o momento do último olhar nesta vida. Com certeza, antes de morrer, Eles trocaram um olhar em que transpareciam o carinho e a adoração da parte d’Ela, e o amor indizível, o apreço extraordinário e o carinho da parte d’Ele, ao se separarem.

    Como seria a história de todos os seus olhares? E como seria o olhar d’Ele expulsando os vendilhões do Templo? Para Pilatos, desprezando toda a covardia do Procurador Romano? E o olhar de repreensão aguda e severa para Anás e Caifás?

    Tudo isso era um reflexo do seu Coração. Esse Coração pulsou, ora com mais, ora com menos intensidade, ao longo de todos esses acontecimentos.

    E por isso é belo pensar como a mente e o Coração d’Ele, numa união, viveram todos esses acontecimentos da sua vida terrena. Até ao fim do mundo haverá gente que adorará esses vários aspectos de Jesus.

    Oração a fazer ao Sagrado Coração de Jesus

    Que oração fazer a esse Divino Coração? Nós podemos repetir, olhando para Nosso Senhor crucificado, com seu Coração chagado pela lança do centurião, a jaculatória que está na Ladainha do Sagrado Coração de Jesus e que me encanta:

    “Cor Jesu lancea perforatum, miserere nobis. — Coração de Jesus perfurado por uma lança”, tende compaixão de nós. Vós que levastes a pena de mim a ponto de quererdes que, depois de morto, vosso Coração ainda recebesse essa ferida, e que o resto de água misturado com sangue saísse de vosso lado por meu amor, tende pena de mim!”

    E rezar também: “Anima Christi, sanctifica me. — Alma de Cristo, santificai-me”. Nada há de mais santo do que a Alma de Cristo… Que a Alma de Cristo, por assim dizer, toque em mim e me torne um Santo! Eu não quero outra coisa.

    “Corpus Christi, salva me. — Corpo de Cristo, salvai-me. Sangue de Cristo inebriai-me. Água do lado de Cristo, lavai-me… e lavai-me mais ainda! Paixão de Cristo, dai-me forças. Olhai para minha miséria, minha moleza e minhas insuficiências. Dai-me força na luta contra os vossos inimigos. Ó Bom Jesus, ouvi-me, pelos rogos de Maria. Escondei-me nas vossas feridas. Cobri-me, com vossas feridas, da justa cólera do Padre Eterno. Na hora de minha morte, chamai-me e mandai-me ir para junto de Vós, para que Vos louve com os vossos Santos, com a Santa das Santas, por todos os séculos dos séculos. Amém.”

  • Transbordante de dons celestiais

    Embora sempre cheia de graça, houve um determinado momento em que Maria Santíssima, por sua perfeitíssima fidelidade e gratuita predileção de Deus para com Ela, adquiriu a plenitude de dons celestiais correspondente: o instante em que Ela Se tornou Esposa do Espírito Santo e Mãe do Salvador.

    A santificação de Nossa Senhora continuou até o momento em que, depois da Ascensão de Jesus Cristo, recebeu o Espírito Santo para distribuí-Lo a toda a Igreja, pois em Pentecostes o Paráclito desceu sobre Ela na forma de uma chama que se derramou sobre todos os Apóstolos.

    Por fim, quando Lhe era como que impossível crescer em santidade, de tal maneira sua alma estava repleta de celestiais dons, a Mãe de Deus teve a sua “dormição”, como é chamada sua morte, por uma linguagem teológica muito apropriada e poética.

    Com efeito, foi da plenitude recebida por Maria que todas as graças vieram para os homens. Assim, a humanidade inteira se beneficia do transbordamento das graças da Santíssima Virgem.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 4/8/1965)

    Revista Dr Plinio 255 (Junho de 2019)

  • Cerimônia de investidura do cavaleiro medieval

    Quando um jovem era armado cavaleiro, o senhor de seu pai lhe entregava sua própria espada, dizendo: “Não a conquistei de um chefe sarraceno. Eu mesmo mandei forjá-la, e durante muito tempo a usei. Cabe-vos agora ser digno dela”. Na Idade Média todo mundo tinha um senhor, o qual era para com seu vassalo como um pai em relação a seu filho.

     

    Vamos comentar a descrição que Léon Gautier, em seu livro “A Cavalaria”(1), faz da investidura do cavaleiro.

    As portas do heroísmo cristão, do martírio e do holocausto se abrem

    A noite desce sobre o velho “donjon”, e o mosteiro mais próximo encontra-se a uma légua. Rodeado por seus jovens pajens, o jovem que vai ser armado cavaleiro despede-se de sua mãe e de seus irmãos […]. O caminho se faz alegremente, mas sem desordens […]. A viagem não é longa, e eis que, de um momento para outro, percebe-se na penumbra o portal da igreja […]. Os jovens entram alegres e recolhidos.

    Léon Gautier é um grande especialista em matéria de Idade Média, e por isso merece que se preste muita atenção a cada uma de suas palavras. Ele vai descrevendo a investidura do cavaleiro a partir dos seus mais remotos começos.

    O jovem deixa seu castelo para fazer a vigília de armas no mosteiro mais próximo. Ele vai acompanhado pelos seus pajens, jovens como ele e da mesma classe social, que mais tarde serão, eles próprios, cavaleiros também. Vão alegres para a vigília, mas, assinala o autor, sem barulho. Quer dizer, não é uma alegria estúrdia, tola, mas é um júbilo no qual se manifesta a admiração, o respeito pela ação que vai ser feita e, por causa disso, uma alegria cheia de recolhimento.

    O que quer dizer recolhimento neste caso? Uma alegria sem dissipação, na qual a pessoa tem em mente a alta razão pela qual está alegre: “Meu amigo vai receber a condição de cavaleiro pelo sacramental da Cavalaria, que um dia eu devo receber também. As portas do heroísmo cristão, do martírio, do holocausto se abrem, portanto, para ele. Que coisa linda! Eu admiro, respeito isso! Alegro-me em que meu companheiro vá receber esta graça”.

    Combatente na defesa da Civilização Cristã e para a expansão do Reino de Maria

    Esta alegria é verdadeira na medida em que ela conserve sempre a recordação dos seus próprios motivos. É diferente do gáudio do tonto que começa a se alegrar por uma razão boa e daqui a pouco está se regozijando por uma asneira e se alegra como um asno. A alegria recolhida é diferente. É o júbilo da posse ou da expectativa da posse iminente daquilo que é superior. É esta a alegria que leva, pelas tranquilidades das serranias e dos campos da Idade Média, o grupo de jovens ao mosteiro que os espera.

    Não se distingue mais nada a não ser um grande foco luminoso, ao fundo, em uma das capelas. É lá que se realizará a vigília de armas, nessa capela consagrada a São Martinho, como indica um vitral que representa o Santo em trajes de cavaleiro, dando a um mendigo a metade de sua capa.

    Por uma dessas sínteses muito felizes em que aparece o gênio, a santidade e a sabedoria da Igreja Católica, o cavaleiro não é apenas combatente; é glorioso sê-lo na defesa da Civilização Cristã e para a expansão do Reino de Maria na Terra. E porque é terrível no combate, odiando o erro, mas sem ódio àquele que errou, ao mesmo tempo em que ele é um herói formidável, é um homem cheio de caridade. E por isso ele luta pelas viúvas, pelos órfãos, pelos pobres, é altamente esmoler. Não possui muito dinheiro consigo, porque não tem ocasião para fazer riqueza; ele não é um burguês, dono de uma padaria ou de uma casa onde se vendem tecidos, e que vai tirando e acumulando lucros, mas um homem desprendido, que sem outros interesses percorre a Terra para defender o Reino de Cristo. Então, ele tem pouco dinheiro, mas é esmoler.

    O vitral representa o episódio em que São Martinho de Tours, grande cavaleiro, ao mesmo tempo um símbolo da nação francesa, passando durante o inverno por um lugar onde há um pobre tiritando de frio, divide sua capa e dá metade dela ao indigente. Esse ato de amor ao próximo por amor de Deus deve ser praticado por aquele que, também por amor de Deus, vai combater e até odiar o próximo quando este se transforma num fautor, propagandista, baluarte do erro ou do mal.

    Eram as vésperas de Pentecostes.

    Foi escolhida, portanto, para receber a investidura da Cavalaria a lindíssima festa em que a Igreja celebra a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos e a transformação completa da mentalidade deles, de homens que tinham mostrado um espírito tão diferente do cavaleiro, fugindo quando Nosso Senhor foi preso, e que recebendo o Espírito Santo se tornaram os primeiros cavaleiros de Nosso Senhor Jesus Cristo, que foram sem dúvida os Apóstolos, verdadeiros heróis da Fé.

    Ao mesmo tempo em que mata o herege, o cavaleiro reza para que ele se salve

    Os futuros cavaleiros começam sua vigília invocando a Mãe de Deus. A noite será longa. É-lhes proibido sentar-se por um só instante.

    Por que “os futuros cavaleiros”? Porque os pajens do jovem um dia também serão cavaleiros e fazem junto a vigília.

    Um dos traços lindos da Idade Média é a devoção a Nossa Senhora. A vigília começa pedindo o auxílio da Medianeira de todas as graças, por meio da qual tudo se consegue e sem a qual coisíssima nenhuma se obtém.

    Proibido sentar-se um só momento; fica-se em pé ou ajoelhado a noite inteira. Alguém me dirá: “Mas é duro!” Esta é uma dureza minúscula em comparação com as outras agruras que deverá enfrentar o cavaleiro ao longo de sua vida. Ele entra na vida dura. E a razão de ser de todas essas festas é que é dura a via para a qual ele entrou. Se entrasse para uma via mole, tais festas seriam uma tolice. O motivo é que ele, por amor a Deus e a Nossa Senhora, ingressou na via dura.

    Eles rezam por si e pelos seus […]. Pensam nos rudes golpes de lança que eles darão, talvez também naqueles que receberão.

    Oram provavelmente por aqueles que receberão seus golpes de lança. Aqui vemos caracterizado o amor ao próximo, por amor de Deus. Eles dão uma estocada no maometano ou no herege albigense e o derruba por terra, mas desejam a salvação eterna do homem que estão abatendo. Jogam no chão, mas não querem lançá-lo no Inferno. Ao mesmo tempo em que o matam, rezam para que ele se salve. São Bernardo chega a dizer que o guerreiro que luta com ódio pessoal é como um assassino, mas quem combate por um ódio doutrinário, porque aquele indivíduo adotou o erro e por isso deve ser combatido, este serve a Deus.

    Missa especial para armar o cavaleiro

    Eles pensam no grande dia que se levanta para eles, no elmo, […] no gume de sua espada; rezam mais uma vez. Enfim uma pequena luz branca penetra no santuário que pouco a pouco vai se tornando claro. Não há dúvida, é a aurora.

    É muito bonita esta ideia: uma noite inteira de vigília, e depois uma pequena luz que entra aqui, lá, acolá, e as primeiras claridades da manhã penetram pelos vitrais do santuário onde estão os futuros cavaleiros que vão lutar pela glória de Deus, de sua Igreja e da Civilização Cristã.

    Então um barulho de passos se faz ouvir na igreja. Um sacerdote chega e se prepara para celebrar a Missa […]. Essa Missa é muito solene e de muito remota origem. Ela é muito anterior à vigília de armas que os antigos não conheciam […]. Mais tarde o noviço fará uma confissão geral e se aproximará do Sacramento da Eucaristia. No século XII ainda não se faz alusão a esta Comunhão. Enfim a última bênção do padre libera o jovem e seus companheiros que se dirigem para o portal da igreja. São seis horas da manhã. O ar é fresco e eles têm fome.

    Notem com que naturalidade isso é apresentado. Depois de uma coisa tão sublime, este pormenor: eles têm fome. Eis a naturalidade da Igreja que, tendo elevado os espíritos às mais altas considerações, cuida também do mais comum, porque tudo está dentro da ordem posta por Deus, harmonizado. O Criador quis que os homens tivessem fome de oração, mas também fome de pão. E a Igreja, ao mesmo tempo, estimula à oração e abençoa o pão. Tudo está numa sequência em que a harmonia incomparável do espírito católico se faz sentir.

    Aparentes oposições são próprias do gênio e do espírito da Igreja

    A volta para casa se faz novamente com alegria. Mas desta vez uma alegria mais vivaz. É bastante natural, depois de dez horas de meditação e de oração.

    O recolhimento deu-lhes certa necessidade de se expandirem. Voltam mais alegres porque suas almas estão penetradas de Deus. Depois de uma longa oração não se deve imaginar que o próprio é regressar para casa cansado, dizendo: “Puxa! Onde está a cama para eu ir correndo deitar-me?” Não. A alma que aproveitou bem a oração volta animada para a vida diária, e não preguiçosa.

    No castelo a mesa está posta. O futuro cavaleiro faz honra ao pão branco e às peças de caça que estão colocadas na mesa.

    É, portanto, um desjejum vigoroso, com carnes, etc. Ele está alegre, comungou, encontra-se em estado de graça, prevê a festa e a cruz que se segue àquela.

    É preciso tomar forças para a solenidade que está próxima. O dia será duro e belo […]. Logo depois desta refeição matinal, a cerimônia de investidura do cavaleiro começa.

    O autor passa a descrever lentamente todas as partes da cerimônia na qual se arma o cavaleiro. É muito curioso ver como a Igreja vai aos poucos civilizando os povos. Aqueles eram tempos bárbaros nos quais o banho não era uma preocupação da pessoa. Como a Igreja promove o bem em tudo quanto faz e de todos os modos possíveis, mesmo naquilo que não está diretamente na sua missão, ela estabelece na cerimônia da investidura do cavaleiro um banho: o futuro cavaleiro tem que se banhar. Precaução altamente útil naquele tempo, ainda mais que não havia água encanada e o banho não era simples como em nossos dias.

    O banho era realizado numa tina com água de rosas. E aqui está mais um desses paradoxos magníficos da Igreja: o homem vai ser armado de aço da cabeça aos pés; pois bem, esse homem é preparado pela prece, depois por um banquete e, em seguida, um banho de água de rosas para chegar todo perfumado dentro da armadura. Essas aparentes oposições são próprias do gênio e do espírito da Igreja que faz tudo assim.

    Cerimônia de sua investidura

    Chega, então, o momento solene da investidura:

    O senhor de seu pai se dirige direto rumo a ele segurando a espada. A famosa espada tão ardentemente desejada, suspensa num rico talabarte.

    Por que o senhor do pai dele? Isso é muito bonito. Nós estamos numa sociedade feudal onde todo mundo tem um senhor. Houve um rei da França que fez um decreto dando ordem a todos os homens que ainda não tinham senhores que escolhessem um, mas todos deveriam ter um senhor. E o senhor era para com seu vassalo como um pai em relação a seu filho. Assim como numa festa em família, estando presente o avô, a presidência caberia naturalmente a ele, também o senhor do pai do neo-cavaleiro foi convidado para presidir essa grande festa. É ele, então, que vai armar o cavaleiro. É a presença do vínculo feudal, misturando a autoridade familiar com a do Estado.

    Dizia-se de um modo muito belo no “Ancien Régime”, continuador de tantas tradições medievais: o pai é o rei de seus filhos e o rei é o pai dos pais. Este era o pensamento, que vemos expresso nessa cerimônia.

    Quando o rapaz vê aproximar-se a espada com o talabarte, fecha os olhos e se recolhe. E o senhor do pai dele faz um discurso: “Esta espada, eu não a conquistei de um chefe sarraceno. Fiz forjá-la eu mesmo, durante muito tempo a usei. Cabe-vos agora ser digno dela”.

    Que coisa bonita! O indivíduo recebe, portanto, a própria espada daquele que é suserano de seu pai, o qual diz: “Isso vale muito mais do que se fosse de um sarraceno; usou-a um herói católico. Agora você vai utilizá-la, torne-se digno dela. Tenha respeito por essa espada que foi empregada dignamente no serviço de Deus. Seja ela, nas suas mãos, utilizada do mesmo modo”.

    O jovem oscula respeitosamente o pomo da espada, que é oco e contém habitualmente augustas relíquias.

    Honra, delicadeza e força

    Enfim, o pai do novo cavaleiro se aproxima por sua vez: “Curva a cabeça que eu te vou dar a ‘colée’”.

    É um golpe que o pai dá no filho para torná-lo cavaleiro. Não é uma coisa puramente protocolar.

    Não é um golpe ligeiro que ele acena sobre a nuca de seu filho, mas sim um formidável golpe com a sua palma direita. O jovem quase cambaleia. Diz o pai: “Cavaleiro sejas, ó meu belo filho, e corajoso em face de teus inimigos!”

    Essa tapona é como quem diz: “Muitas virão, muitas receberás; seja a primeira a de teu pai para te ensinar a reagir como herói”. Eu acho isso perfeito. Não há nada mais que replicar.

    “Eu o serei, se Deus me ajudar”, responde o novo cavaleiro.

    Nada, portanto, de presunção: “Ó, meu pai, deixe comigo…” Não! Humildade: “Sem o auxílio de Deus, não serei; mas se Ele me ajudar, eu serei, ó meu pai”.

    Ouvem-se barulhos e gritos. As pessoas se afastam. Um relinchar claro se distingue. É a entrada dos cavalos. São cavalos enormes, magníficos. Eles chegam conduzidos pelos escudeiros. O cavalo de nosso barão é um presente de seu senhor. Ele é jovem, mas de raça e tem o nome de Veillantif, como o cavalo de Roland. Assim que o animal é trazido, o novo cavaleiro o abarca com um só olhar e dá alguns tapinhas amigáveis no pescoço; depois, de um salto só, ele se põe na sela, sem tocar no estribo.

    Para mostrar que a coisa é séria, para valer. Portanto, mais uma vez, delicadeza e força.

    Então lhe trazem suas duas últimas armas, as quais não se dão a não ser quando o cavaleiro está na sela: o imenso escudo que cobre um homem inteiro, e a lança que tem oito pés de altura.

    É muito bonito receber ali essas armas!

    Sobre o escudo está pintado o brasão da família.

    O símbolo da família nem sempre é pintado, mas em relevo no próprio metal, lembrando ao cavaleiro que a partir daquele momento toda a honra da família está relacionada com a coragem que ele tenha no campo de batalha. Se for valente, ele continua aquele rio de virtude, de coragem, que é o curso de sua família através da História; se for um poltrão, pelo contrário, vai envergonhar a sua família e todo o seu passado; mais ainda, transmitirá a seus filhos um nome desonrado, maculado.

    No alto da lança flutua um estreito e longo gonfalão com três faixas de pano. Não resta mais ao nosso barão senão provar que ele é bom cavaleiro.

    Está um final bem francês, elegante, bem-apanhado.

    (Continua no próximo número)

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 11/2/1977)

    Revista Dr Plinio 255 (Junho de 2019)

     

    1) Cf. GAUTIER, Léon. La Chevalerie. Cholet: Edition Pays & Terrois, 1999. p. 314-330.