Autor: Nelson

  • Diante do Sagrado Coração de Jesus

    A devoção ao Sagrado Coração de Jesus, desde cedo se acendeu no interior do pequeno Plinio. Morando nas cercanias de Sua Igreja, sentia-se atraído por sua Bondade e Misericórdia, tal qual narraria mais tarde.

     

    Bondade e Nobreza do Sagrado Coração de Jesus

    Não me custou perceber que Nosso Senhor Jesus Cristo, especificamente enquanto fazendo ver seu Coração aos homens, era a fonte infinita da qual emanava todo o bem. E nele realizavam-se todas as perfeições e maravilhas de alma possíveis, de um modo que eu jamais poderia ter imaginado! E, ao discernir o bom espírito que havia em todas as coisas da Igreja, pensava: “Este ambiente é o reflexo d’Ele! A harmonia que encontro aqui é o próprio Deus. Ele é isso num grau supremo, extraordinário, perfeito e infinito”.

    Às vezes, permanecia diante da imagem do Sagrado Coração de Jesus que existe num altar lateral da igreja [do Sagrado Coração de Jesus]. Via-O em pé, muito nobre e com um sorriso ligeiramente triste, mas imensamente convidativo, tocando com a mão no Coração e olhando para quem estava embaixo, como se dissesse:

    “Queres um lugar aqui dentro? Não Me aceitas? Olha que tesouro! Isto é para ti!”.

    Eu olhava e pensava: “Bem sei que isto é uma imagem e não um homem, mas as pessoas que construíram a igreja querem que Deus seja visto assim e, por isso, representaram Nosso Senhor dessa forma. Ora, Deus, visto assim, é completo! Percebo que Ele é de fato assim.

    “Que fisionomia! A beleza de que ouço falar por aí não vale nada! Se um dia eu quisesse analisar a idéia de formosura, eu viria aqui para olhar a fisionomia d’Ele, pois só Ele é bonito! Esse é o padrão: uma beleza de alma, mais do que de corpo. Mas, que corpo…! E por detrás dele, que alma…! Que maravilha!

    “Dado que essa imagem coincide de um modo inteiramente satisfatório com o ambiente da igreja e com o que me ensinaram a respeito de Nosso Senhor, olhando a sua fisionomia, suas mãos, seu traje, seus cabelos e seu gesto, terei uma ideia global a respeito d’Ele, que posso tornar mais precisa e mais rica em contornos, se examinar cada ponto. Sobretudo seus divinos olhos e seu Sagrado Coração.”

    Começava, então, a fazer a análise psicológica d’Ele e assim O discernia. Hoje vejo o quanto eu “arquetipizava” a imagem por efeito da minha inocência, pois ela está realmente distante daquilo que a graça me fazia ver. Numa atitude de respeito e de adoração, eu compunha a mais alta das idéias que minha mente de criança podia formar. De maneira que, quando muito mais tarde conheci o Santo Sudário, exclamei: “É Ele!”.

    Posso dizer que aquilo que eu via na infância representava ainda mais fielmente a Nosso Senhor do que o próprio Santo Sudário, o que se compreende facilmente, pois este O mostra enquanto morto e vítima, e na imagem do Sagrado Coração Ele Se me apresentava vivo, acolhedor e afável.

    Eu via n’Ele algo de uma bondade insondável, e essa ideia era requintada pela impressão que me causava a cor vermelha de seu Coração. Encantavam-me também, em Nosso Senhor, o asseio e as boas maneiras, expressas no feitio da sua face e ainda mais no seu corpo, que parecia emitir luz. Sua túnica dava-me a ideia de uma pessoa perpetuamente limpíssima, sem mancha alguma na alma ou na própria indumentária. E havia no seu traje uma discreta bordadura dourada que me parecia indispensável à sua elevação. Essa consciência d’Ele a respeito da sua majestade me deixava encantado.

    Eu me dizia: “Como Ele está em pé com distinção! Como o modo de segurar o Coração é o de uma pessoa bem-educada! Como a impostação da cabeça é de alguém que recebeu boa formação! Como a barba está bem-arranjada, sem faceirice! Que supremo aristocratismo natural nos cabelos! Tem-se a impressão de que Ele nem pensa nisso, mas não há um cacho, nem um fio, que não estejam inteiramente no lugar apropriado, para dar uma ideia perfeita d’Ele mesmo!

    “Muita gente viveu em ambientes mais distintos dos que Ele frequentou. Mas… distinção é aquela! Os outros são todos insignificantes em comparação com Ele!”.

    E eu chegava à conclusão: “Como Ele é amigo da ordem universal! Como é coerente com essa ordem! Ele ama todas as coisas na sua ordenação própria e no mais belo aspecto que podem dar de si mesmas. E com quanto carinho! Ele gosta dessa rosa que foi posta em seu altar, assim como também gosta de mim que estou igualmente aos seus pés. Ele é afim com tudo o que é reto! A Igreja Católica é santa porque é como Ele; é um hífen entre Ele e nós; é a própria auréola que nimba a cabeça d’Ele e por isto eu a amo! A influência, a mentalidade e a presença d’Ele estão neste ambiente”.

    Essas graças foram de tal profundidade e alcance que não creio ter podido, naquela idade, conhecer d’Ele mais do que conheci. (…)

    “Aqui está o Plinio…”

    Eu tinha a impressão de que Ele me olhava, não com os olhos de vidro de uma imagem sem vida, mas, de algum modo, comunicando a essa imagem certa expressão. Não sabia como definir esse olhar, nem me preocupava em fazê-lo, pois, por outro lado, achava ser talvez uma ilusão de minha parte, em vista da distância entre Ele e os homens. Como Ele chegaria a ter uma manifestação assim a meu favor?

    De qualquer maneira, parecia-me que Ele realizava comigo o mesmo que eu fazia em relação a Ele: analisar. E eu imaginava que Ele me olhava pensando: “Aqui está o tal Plinio, o menino número ‘um trilhão quinhentos milhões e tanto’, de quem gosto e no qual Me comprazo em apreciar tais aspectos bons; de quem espero tal coisa. É uma criança boazinha, para a qual Me digno olhar com compaixão e com intenção de beneficiá-la. Uma vez que está aqui, tenho algo a dizer-lhe, do que ele deve tirar proveito”.

    Eu já considerava isso muito mais do que eu merecia e, então, diante da atitude d’Ele, refletia: “É um Pastor e um Rei que empreendeu de me governar, e Ele quer absolutamente a minha docilidade às suas indicações. Dar-me-á conselhos e ordens, preparando-me o caminho para voltar até Ele”.

    As consolações promovidas pelo Sagrado Coração de Jesus

    Eu refletia: “Antes de tudo, sinto-me elevado acima de mim mesmo, por ver a sua grandeza. De onde se abre em mim uma certa luz no cogitar e no ver, que me extasia, porque algo em mim é feito para admirar o que é mais do que eu. Quando saio das minhas ocupações normais de menino e vejo algo muito maior do que eu, tenho a impressão de fugir do bom para o ótimo! Ali eu me ponho ‘na ponta dos pés’ e me alegro. Isto é: vejo-O como Ele é e O adoro.

    “Eu noto que, ao mesmo tempo em que O contemplo, Ele me faz como que ‘tocar com as mãos’ no pensar, no querer e no sentir d’Ele. E isso me comunica uma retidão e uma santidade no meu pensar, no meu querer e no meu sentir, à maneira de uma bebida deliciosa que eu tomasse e me agradasse sobremaneira, mas ao mesmo tempo me corrigisse. Ou seja, adorando-O, vejo que os meus aspectos tortos e reprováveis endireitam-se e, com isso, Ele me cura de doenças cuja existência eu ignorava.”

    Sua seriedade me impressionava muito, e eu percebia que Ele queria manifestá-la no modo de segurar o Coração, rodeado de espinhos e tendo uma chama em cujo centro havia uma cruz. Esse Coração, retirado do peito e colocado à mostra, dava-me a ideia de uma certa violência, o que era acentuado pela cor vermelha, apesar de esta ser muito bonita. Isso me fazia lembrar da Paixão que Ele havia sofrido, e a carga desses símbolos tinha, para mim, o significado de uma pergunta feita por Ele: “Você se dá conta de que, em cada um dos seus atos maus, você feriu o meu Coração? Olhe como sou bom. Meça o mal que fez”.

    E eu pensava: “Quanta intransigência! Basta cometer uma falta para Ele ostentar o Coração ferido… Quanta pureza e sabedoria! Ele, no fundo, está mostrando o que eu fiz… As suas mãos estão chagadas e eu tenho parte nisso. Os pés, aparecendo sob o traje, também o estão… As minhas falhas concorreram para esses ferimentos. Sinto que em mim há defeitos potenciais não reprimidos, em relação aos quais, por enquanto, não sou um alheio, pois não os rejeitei ainda.

    “Também, estou vendo bem tudo quanto há de mal em mim… Se eu não aplicar atenção nisso, estou perdido, pois não sei até onde decairei…”. E concluía: “Como as coisas do homem tocam no infinito! Como é bonita a vida, ao considerar que cada pequeno fato tem relação com o Céu! Como tudo é grande!.”

    Essa era a primeira “mensagem” d’Ele para mim.

    A segunda, porém, manifestava-se assim: “Entretanto, meu filho, Eu não lhe digo isso para perdê-lo, mas para perdoá-lo, pois existe em Mim o manancial de um afeto mais suave que o veludo, mais ameno do que qualquer brisa do mar e capaz de inundá-lo inteiramente, até o mais íntimo de seu ser”.

    E eu continuava refletindo: “Como é imensa a doçura d’Ele! Eu não seria capaz de medir sua grandeza, se não entendesse a dimensão dessa doçura! Sinto que Ele não quer cobrar algo de mim, nem castigar-me, nem vingar-se, pondo o seu pé chagado mas vencedor sobre minha cabeça desvairada e pecadora. Não! Ele quer dizer-me que está disposto a pagar o bem pelo mal, pois, apesar de tudo, tem pena de mim considerando a minha pequenez”.

    Aquele corretivo era delicioso, mas eu percebia que me seria difícil manter essa postura interior e que em certo momento, eu teria de sofrer e lutar muito. Mas, como criança, pensava: “Bem, ainda não chegou a hora! E isto é tão bom que deixarei esse problema para depois”.

    Eu tinha mais curiosidade em fixar minha atenção no que Deus estava me mostrando, do que em deduzir por mim mesmo a conseqüência futura daquilo. (…)

    A “Consecratio Mundi”, em seus desejos

    Entretanto, o meu desejo ia mais longe: eu queria morar n’Ele! E refletia: “Se pudesse estudar, rezar, conversar, enfim fazer tudo quanto faz um menino, aos pés da imagem do Sagrado Coração de Jesus, seria para mim uma explosão de alegria, pois sinto que Ele impregnaria tudo em mim e em torno de mim, inclusive os meus amigos”.

    Poder-se-ia pensar que eu desejava permanecer rezando lá, abandonando as brincadeiras, a comedoria, o leito bom e o conforto. Não era assim! A minha ideia era a seguinte: “Como seria bom se Ele pudesse presidir toda a minha vida!”.

    Eu gostaria de trazer às escondidas um éclair e dizer a Ele: “Senhor, aqui está este doce, tão afim convosco. Eu vou me unir a Vós comendo-o e pensando em Vós. Abençoai este éclair!”.

    Eu comeria aos pés d’Ele e ficaria contentíssimo! Depois diria: “Senhor, eu trouxe mais um… É de café, o éclair de minha preferência!”

    E se eu não pudesse permanecer ali, despedir-me-ia d’Ele assim: “Senhor, agradeço Vos pela boa companhia que me fizestes!”.

    E acho que não haveria nada de mau nisso. Ali estava, em raiz, o desejo da “Consecratio Mundi” [Consagração do Mundo] e da sacralização da ordem temporal.

    Oração Mental

    Hoje percebo que a minha atitude nesses momentos era de verdadeira oração, entretanto não vocal. Eu pensava sobre muitas coisas, encantando-me por ver que eram boas e relacionando-as implicitamente com o Sagrado Coração de Jesus, o que constituía portanto uma meditação profundamente religiosa. Nessas horas de silêncio, eu tinha uma paz e um contentamento muito intenso em sentir a minha virtude e minha união com Ele. E essa era a minha alegria de viver!

    Se alguém me afirmasse com provas de evidência que o Sagrado Coração de Jesus não existia, eu era capaz de ter uma convulsão e morrer. Pois se Ele não fosse verdadeiro, eu me desagregaria e não seria mais eu mesmo!

     

    (Transcrito da obra “Notas Autobiográficas” de Plinio Correa de Oliveira).

  • A Cátedra de Pedro é a coluna do mundo

    Vigário de Cristo na Terra sempre foi objeto do ardoroso enlevo de Dr. Plinio. Desde suas primeiras atividades públicas nas Congregações Marianas, ele defendeu nas páginas do Legionário, aquele a quem considerava “a coluna do mundo”: o Papa.

    Por ocasião da festa da Cátedra de Pedro, que se comemora a 22 de fevereiro, Dr. Plinio comentava seu enlevo pela instituição do Papado:

    “A festa da Cátedra de São Pedro é extremamente necessária, porque ela celebra o papado enquanto tendo uma cátedra infalível que se dirige ao mundo inteiro.

    “A cadeira de São Pedro cuja estrutura foi quase toda conservada nos é guardada na Basílica de São Pedro, em Roma, onde está a Glória de Bernini. Ali existe uma cadeira de bronze na qual há uma portinhola que é aberta e se retira um bancozinho, considerado como tendo sido de São Pedro.

    “Na nave central da Basílica de São Pedro, há uma imagem, de bronze escuro, que representa São Pedro, com as chaves nas mãos, sentado numa cátedra e com os pés à altura dos lábios dos fiéis. E os peregrinos que vão a Roma passam por lá e beijam um dos pés da imagem. O resultado é que, com o ósculo mil e mil vezes repetido, esse pé está desgastado. Parece-me ser o único exemplo da História em que ósculos destroem bronze.

    “E, fato bonito, no dia de São Pedro revestem essa imagem com os paramentos pontificais, inclusive a tiara, como se fosse um Papa vivo, para identificar a magnífica e evidente solidariedade e continuidade que vai de São Pedro até o Pontífice de nossos dias.

    “Devemos, em espírito, oscular o pé dessa imagem, para significar que osculamos o Papado, esse princípio de sabedoria ou de infalibilidade da autoridade que governa a Igreja Católica. E, por meio de Nossa Senhora, agradecer a Nosso Senhor Jesus Cristo a instituição desta cátedra infalível, que é propriamente a coluna do mundo, porque se não houvesse infalibilidade, a Igreja estaria destroçada e com ela o mundo ficaria perdido.

    “Ela é o caminho para o Céu, e os homens não o encontrariam se não houvesse uma autoridade infalível para governar a Igreja.

    “Não se pode ter uma fidelidade abstrata no papado. É preciso que ela seja concreta ao Papa atual, em toda medida em que ele é infalível, e tem o poder de governar e reger a Igreja Católica.”

     

     

    (Extraído de conferência de 22 de fevereiro de 1964.)

  • O papel da oração na Comunhão dos Santos

    No Mar Mediterrâneo, cruzados enfrentaram terrível tempestade e foram salvos em virtude das preces de monges.
    Esse fato mostra a prevalência da oração sobre todos os recursos humanos e comprova o dogma da Comunhão dos Santos.

     

    O episódio que vamos comentar é narrado por Montalembert(1), em sua obra “Les Moines d’Occident”. O texto é o seguinte:

    O Conde Raul de Chester(2), fundador da abadia cisterciense de Dieulacres, voltava da Cruzada durante a qual havia tomado Damieta e se cobrira de glória, quando uma violenta tempestade caiu sobre o navio em que ele viajava. Eram já dez horas da noite e, como o perigo aumentava a cada instante, o Conde exortou os que viajavam a redobrarem os esforços até mais um minuto, prometendo que então a tempestade cessaria. Ele próprio se pôs a manobrar e trabalhou mais do que qualquer um. Em seguida, o vento parou, o mar se acalmou e, tendo o piloto perguntado a Raul por que ele lhe tinha ordenado de trabalhar apenas um minuto a mais, o Conde respondeu: “Porque, a partir daquela hora, os monges e outros religiosos que meus ancestrais e eu estabelecemos em vários lugares se preparavam para cantar o Ofício. E nesse momento eu sabia que eles estariam rezando, e esperava do Céu, graças a eles, que a tempestade parasse”.

    Embora separados por enorme distância, estavam unidos em Deus

    Este é um lindíssimo episódio que, sendo ou não real, pouco importa, indica um princípio da Doutrina Católica.

    O fato nos apresenta a imagem poética de um grupo de cruzados atravessando o Mediterrâneo. Naquela época, sendo os meios de navegação tão insuficientes, cruzar o Mar Mediterrâneo — o qual, em última análise, é um grande lago — era uma façanha náutica.

    Podemos imaginar a situação aflitiva: a noite escura, o Mediterrâneo cheio de incógnitas para eles, a tempestade que sopra e os homens que se apavoram, a nau naturalmente cheia de cruzados, com suas pesadas armas, das quais não podem abrir mão jogando-as no fundo do mar, porque, abordando em terra firme, precisariam dessas armas para se defender. Uma cena que lembra, algum tanto, o episódio da tempestade no Lago de Tiberíades, e os Apóstolos em torno de Nosso Senhor.

    Não está ali Jesus, mas — “christianus alter Christus”(3) — um homem de Fé, que é o Conde de Chester. Ele sabe poder contar com as orações dos religiosos que viviam nas numerosas abadias fundadas por seus ancestrais. E que a gratidão dos verdadeiros religiosos jamais se desmente. Portanto, tinha confiança de que na hora certa o Ofício começaria e que logo no início aquelas orações se uniriam às dos descendentes dos fundadores e, principalmente, segundo as intenções de quem era, provavelmente, o primogênito na linha dos fundadores.

    Então, ele pede apenas mais um minuto de atenção, de paciência e de perseverança porque sabia que a tempestade iria amainar. A tempestade cessa e o Conde diz: “Os monges começaram a recitar o Ofício”.

    É o poder da prece, que ignora as distâncias. Naquele tempo, a distância entre a Inglaterra, o Norte da França e o Mediterrâneo se percorria devagar, atravessando povos muito diferentes, estradas incertas; eram espaços psicologicamente enormes que separavam o local da tragédia iminente e daquele onde a solução devia se operar.

    Os monges não sabiam que os descendentes de seus benfeitores estavam em perigo; tudo os separava, exceto uma coisa que os unia: o vértice. Os religiosos e os cruzados olham para Deus. Nele se encontram a oração daquele que pede e a necessidade de quem precisa. E a oração de uns liberta os outros.

    O mais bonito é considerar o seguinte: a tomar a narração ao pé da letra, os monges naquela mesma hora teriam começado a cantar. Deveria haver uma decalagem de horário, e a hora não poderia ser exatamente a mesma no relógio do Conde e no da abadia. Mas Deus, que não se atrapalha com a Ciência e não se deixa prender por esses pequenos pormenores, operou essa maravilha. E quis fazer jogar algo à maneira de uma coincidência de horários que, na realidade, não existia.

    Duas formas de heroísmo se encontram: a do cruzado no alto mar e a do monge na capela

    Desse belo fato podemos tirar algumas lições.

    A primeira delas, e a mais importante, é a prevalência da oração sobre todos os outros recursos humanos. Leão XIII escreveu uma frase num de seus documentos, que nunca mais me saiu do espírito. Afirmava ele que em seu tempo havia muitos homens que agiam para promover a Causa Católica. Entretanto, eles agiam mais do que rezavam. E que se rezassem tanto quanto agissem, eles obteriam muito mais do que simplesmente pela ação. Porque o grande meio de vitória do homem é a oração. É um meio que não dispensa a ação, mas prepara para ela e a torna fecunda. Mas é um meio indispensável e supereminente em relação à ação.

    Vemos aqui essa tese perfeitamente ilustrada. O Conde de Chester foi um cruzado. Atraído pela graça de Deus, ele fora até o Oriente. Ação. E para a luta, a mais bela e mais nobre forma de ação. No Oriente ele arranca ao poder dos maometanos uma cidade importante: Damieta. Êxito na ação. Entretanto, vemos a necessidade da oração. Ele tem a sua vida exposta a um perigo enorme, frente ao qual quase não lhe adiantaria nenhuma indústria humana: uma tempestade, açoitando o mar onde ele se encontrava. Oração. E sua prece assegura a preservação da vida dele e de seus bravos. Muito mais do que isso: ele dá um exemplo de como Deus atende a oração e vela por aqueles que confiam na prece dos outros. Mostra-nos o dogma da Comunhão dos Santos, por assim dizer, funcionando e fazendo com que essas duas formas de heroísmo se encontrem: o do cruzado no alto mar, e o do monge pontual na capela, rezando com Fé por aqueles que estão expostos a riscos.

    A oração tem um valor maior do que a ação

    Daí nós deduzimos a importância de nossa oração, do nosso Rosário, do Ofício recitado ou cantado. Precisamos ter Fé de que, para o êxito da causa da Contra-Revolução, este esforço de oração tem um valor maior do que o próprio esforço nobre e indispensável da ação. Mesmo quando se trata de grandes guerreiros, que realizaram grandes feitos e conseguiram grandes vitórias para a Igreja, o papel da oração é preponderante. Essa é a grande lição que devemos tirar desse episódio.

    Mas há uma outra: por que Deus permitiu terem eles chegado ao extremo da aflição, para só depois intervir? Exatamente para provar a confiança n’Ele. As horas de extrema aflição são as horas da Providência, as horas da misericórdia. O verdadeiro católico, quando vê que tudo parece perdido, reza e confia mais do que nunca, porque sabe que é a hora do sorriso de Nossa Senhora. Nesse fato vemos o sorriso de Maria Santíssima, que intervém e resolve a situação desses guerreiros.  v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de Conferência de 3/8/1973)

     

    1) Charles de Montalembert, Les Moines d’Occident. Paris: Lecoffre, 1860, vol. VI, p. 35

    2) Raul de Blondeville, Conde de Chester (1172-1232). Participou da quinta Cruzada, durante a qual Jean de Brienne conquistou Damieta, em 1218.

    3) O cristão é outro Cristo.

  • Prece ao Imaculado Coração de Maria

    Dai-nos, ó Mãe, uma união com vosso Sapiencial e Imaculado Coração, de maneira tal que sejamos para convosco como uma gota d’água lançada no mar.

    Nós Vos pedimos que nos concedais uma devoção intensa à Sagrada Eucaristia, ao Sagrado Coração de Jesus, ao vosso Sapiencial e Imaculado Coração e, ó Mãe, em meio às tristezas de todas as crises contemporâneas, dai-nos cada vez mais devoção ao Papado, à Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, com seu caráter hierárquico, ordenado por vosso Divino Filho, sem as abominações com as quais seus inimigos procuram desfigurá-la.

    Que se cumpra, minha Mãe, tudo quanto previstes em Fátima. E, sobretudo, que venha o vosso Reino, no qual desejamos ser os vossos escravos mais atentos, humildes e amorosos.

    Estes pedidos nós Vos apresentamos por meio de nossos Anjos da Guarda, ó Sapiencial e Imaculado Coração de Maria!

  • Arca da Esperança

    Com sua Fé inabalável e íntegra, Nossa Senhora foi a Arca da Esperança do futuro. Todas as expectativas do Antigo Testamento acerca do Messias, todas as promessas e certezas contidas no  Evangelho de que Ele seria o Rei da Glória e o centro da História, todas as realizações do Novo Testamento, toda a grandeza que a Igreja haveria de atingir ao longo dos séculos e todas as virtudes que ela haveria de semear sobre a face da Terra inteira, tudo isso viveu dentro de uma só alma — a alma mil vezes bendita de Maria Santíssima!

     

    Plinio Corrêa de Oliveira

    Revista Dr Plinio 75 (Junho de 2004)

  • Lamparinas de Deus…

    Dr. Plinio, arauto da Eucaristia, teve sempre especial apreço pelo valor simbólico das lamparinas que, junto ao tabernáculo, indicam a Presença Real de Jesus nas Sagradas Espécies. Acompanhemos uma analogia feita por ele, ao recordar o dia de seu próprio Batismo.

     

    A lamparina acesa durante a noite diante do tabernáculo, até o momento em que raie o sol é a luz! E, quem passa toda a noite em adoração tem naquela fagulha um elemento de esperança do sol que vai nascer!

    Em algumas almas percebemos a chama da graça que arde. De certo modo, cada alma humana é uma lamparina para a vida espiritual.

    Imaginem uma igreja com uma lamparina em cada um de seus vários altares. Em algumas delas as chamas sobem, engrandecem, depois diminuem; parecem mover-se dentro da escuridão. Em outras são fixas, calmas, serenas, como que se imolam sem nenhuma excitação, até o ponto final. Às vezes crescem de um lado e parecem querer subir ao céu por uma via própria.

    Imaginemos o universo das lamparinas de todas as igrejas! Como seria encantador, no silêncio da noite, observarmos a história de cada uma. Se tivéssemos o dom do discernimento dos espíritos, perceberíamos em cada alma como a lamparina da graça de Deus se move: ora se acende, ora pelo contrário enlanguesce, helas, às vezes toma vento, deita fumaça, suja o teto… E estende-se a mão meiga de Nossa Senhora que a limpa e, a lamparina continua a brilhar.

    Se tivéssemos os olhos voltados para isso, compreenderíamos o que o Batismo deu a cada um de nós: ser algo à maneira de uma lamparina dentro da casa de Deus, mas com pavio aceso e não apagado; pavio que brilha e não pavio morto! E a história da alma de cada de um de nós poderia ser comparada à de uma lamparina.

    Aqui está uma lamparina que, tendo demorado seis meses para acender-se , deveria arder pelo menos até setenta anos.

    Quanto ao resto do tempo, Deus o saberá.

    Se eu fosse estudar a história dessa lamparina, diria que no meio de mil provações e desventuras, uma alegria a manteve ereta como um gládio. E a alegria provinha deste fato: sou lamparina na casa de meu Deus, aos olhos de minha Mãe! De minha Mãe celeste e também aos olhos, tão insondavelmente menores, mas tão insondavelmente carinhosos, de minha mãe terrena.

    Na presença deles ardi, procurando o teto o tempo inteiro e dessa maneira procurando dar a glória que dei! Sei que não foi o que deveria, Ela que perdoe; mas, algo está feito, algo está dado, algo resta para dar. 

     

    (Extraído de conversa em 7 de junho de 1979)

  • Obra-prima da Inocência

    Nascida de um conjunto de circunstâncias e, sobretudo, de graças especiais, a Sainte Chapelle não foi concebida apenas por um artista, mas por um ambiente e um modo de ser que caracterizou a alma medieval.

     

    Lembro-me de quando, há muitos anos atrás, visitei por primeira vez a Sainte Chapelle, edificada por São Luís Rei a fim de abrigar uma preciosa relíquia: espinhos da coroa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ao entrar, fiquei encantado!

    O recinto sagrado possuía dois patamares, sendo o inferior reservado aos servidores e empregados da corte.

    Zeloso pelo bem espiritual de seus súditos, o Rei se comprazia em assistir à Santa Missa em presença de todos eles. Celebrava-se, então, o Santo Sacrifício na parte superior da capela para a corte, e, concomitantemente, na inferior para os criados.

    Chamaram-me a atenção as proporções da parte inferior, que são inteiramente diversas do que encontramos habitualmente. Quando nos indagamos se o ambiente é alto, logo chegamos a uma conclusão negativa; porém, se nos perguntamos se ele é baixo, percebemos que tal afirmação seria exagerada. Esse ambiente possui uma proporção especial para quem nele se detenha a rezar, que poderia ser definido assim: um ambiente elevado, porém muito íntimo, como que o mais íntimo gabinete de Deus, ou sua mais interna sala. Esta atmosfera produz na alma uma perspectiva que concilia a elevação com a intimidade.

    Como se consegue produzir essa sensação? É possível notar que todas as colunas são muito esguias e tênues, não demonstrando força rústica. Elas desabrocham como palmeiras, cujas folhas se encontram no teto. Abrem-se de modo tão harmonioso, gradual e perfeito, que causam a impressão de que o teto está a uma grande altura, onde acabam as folhas das palmeiras, ao mesmo tempo em que esta altura pode ser alcançada pelo homem. Fica-se assim misteriosamente elevado. Na intimidade sente-se uma grande elevação, e na elevação uma grande intimidade. O homem mede toda a grandeza de Deus, mas se sente atraído até Deus. Afetuosamente e carinhosamente elevado.

    Doce e suave penumbra

    Ao subir ao andar superior, vemos que a iluminação do ambiente emana dos belos vitrais, de tal forma que uma doce e suave penumbra era o elemento dominante desse recinto. Havia um presbitério com o altar para as celebrações litúrgicas, e as naves laterais onde permaneciam os fiéis. O ambiente fora feito para receber muitas pessoas em um pequeno espaço, ou ao menos causar a ideia de que o local era pequeno.

    Porém o conjunto era melhor…

    As ogivas exercem o seu incomparável fascínio sobre os espíritos. Nota-se como são belas; entretanto, vistas em conjunto, são mais bonitas do que cada uma em particular, à semelhança da Escritura quando diz que Deus, ao criar o universo, repousou no sétimo dia, considerando a obra que tinha realizado. E que se Lhe tornou patente que cada coisa era bela, entretanto o conjunto era superior a cada coisa em particular. Bem se pode aplicar esse princípio à Sainte Chapelle. Todas as colunas são belas, as pinturas as tornam ainda mais belas, mas o conjunto é muito superior a tudo. O mais belo é o conjunto.

    Toda a leveza, delicadeza e elevação da Sainte Chapelle fazem-se notar não apenas no teto ou na torre, mas também num detalhe: um florão, no qual pousou um anjo. A figura do anjo está numa tal proporção com o florão, que se diria que, ao menor movimento dele, o florão vergava e ele perderia o equilíbrio. É semelhante a um pássaro que pousasse sobre uma flor

    O ângulo formado por ambas as partes das ogivas causam a impressão de que o teto está apertado. Entretanto, essa forma esguia aumenta o efeito de leveza. Pois quanto mais o teto é espaçoso, tanto mais causa a impressão de rude, enquanto que, tanto mais estreito, maior é a impressão de que vai atirar-se ao céu. Também a torre do campanário é como um gráfico do desejo do homem medieval de subir até Deus. O próprio colorido do céu aumenta a beleza da Sainte Chapelle, pois ela seria mais bonita imaginada no meio das nuvens e construída no céu, do que nesse vale de lágrimas.

    Monarca guerreiro para um reino de paz

    A imagem de São Luís proporciona uma ideia real do que poderia ter sido esse santo rei. Vê-se nele uma indiscutível majestade real. Não a majestade de um rei agressor e anexador de terras que não lhe pertencem, mas de um monarca defensor, firme e tranquilo de seus direitos, seguro de terras que recebeu e sobre as quais tem o direito de mandar. Um rei guerreiro, que combate se necessário, por ser o seu dever, para manter a integridade do seu reino. Sua fisionomia traduz uma determinação e uma decisão admiráveis.

    A atitude e a fisionomia de São Luís causam a impressão de calma, segurança, e de uma determinação a qualquer extremo, no caso de ter de lutar, que demonstram bem o rei cruzado e batalhador que teve guerras para sustentar, mas que soube orientar essas guerras de tal modo que não só saiu-se vitorioso, mas proporcionou a seu povo um reinado de paz.

    O irrealizável feito realidade

    Poder-se-ia afirmar que a Sainte Chapelle é feita de vitral, de tal forma o que há de pedra é o estrito necessário para sustentar os vitrais e escorar o teto. O restante é todo feito de cristal ou de vidro tão bem trabalhado na diversidade de cores, na precisão dos desenhos e na elegância das formas, que chega a tocar no inimaginável.

    Ao entrar nessa capela, tem-se a impressão de que o irrealizável tornou-se realidade, e o que surge à mente é a seguinte ideia: “Não pensava que fosse possível, com os elementos desta terra, realizar uma coisa tão semelhante ao Céu.” Realmente, isso se tornou possível devido à Fé.

    Caso esse edifício não fosse concebido por almas elevadas à vida sobrenatural pela graça — remidas e resgatadas pelo sangue preciosíssimo de Nosso Senhor Jesus Cristo, que lhes abriu as portas do Céu e lhes infundiu a abundância da graça —, e construído em séculos de Fé, por sua própria capacidade o homem jamais cogitaria uma maravilha como essa.

    Extraordinária inocência

    A Sainte Chapelle deixa entrever uma extraordinária inocência de alma, o que permitiria chamá-la a Capela da Inocência. Para conceber algo assim, a alma precisa ser profundamente inocente. A Sainte Chapelle é a obra-prima da temperança, nela tudo é lindo, magnífico e arrebatador. Porém, com um equilíbrio que permite à inocência atingir o auge de seu entusiasmo. Auge sereno, calmo, refletido, o qual frutifica em meditação e contemplação.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira, (Extraído de conferência de 12/4/1989)

  • Devoção da aurora do Reino de Maria

    Poder-se-ia perguntar se depois de São Luís Maria Grignion de Mont­fort houve mais algum progresso na devoção à Santíssima Virgem.

    Foi o progresso da devoção ao Imaculado Coração de Maria, que é uma espécie de quintessência da devoção a Nossa Senhora, assim como a devoção ao Sagrado Coração de Jesus é uma quintessência da devoção a Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Afirmo isso baseado nas mensagens de Fátima, nas quais é impressionante o número de vezes em que Nossa Senhora se refere ao Coração d’Ela, muito mais do que às outras devoções. Vê-se ser esta a devoção da aurora do Reino de Maria.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 28/4/1967)

  • INCOMPARÁVEL MAJESTADE

    NUNCA HAVERÁ UMA SIMPLES CRIATURA QUE MEREÇA TANTO A NOSSA ADMIRAÇÃO QUANTO MARIA SANTÍSSIMA, PORQUE N’ELA HABITAM, DE MODO SINGULAR E ÚNICO, A GRANDEZA E A MAJESTADE DE DEUS. MAIS DO QUE TODOS OS ANJOS E SANTOS, É ELA O PERFEITÍSSIMO ESPELHO DA MAGNIFICÊNCIA DIVINA.

    NOSSA SENHORA POSSUI INCOMPARÁVEL MAJESTADE, INTEIRAMENTE HARMÔNICA COM SUA MISERICÓRDIA, E PERTO DA QUAL EMPALIDECEM TODAS AS DEMAIS GRANDEZAS.

    QUE SÃO AS MAJESTADES DO SOL, DOS OCEANOS, DO MAIOR DOS REIS, DO MAIS INTELIGENTE DOS SÁBIOS, EM CONFRONTO COM A DE MARIA?

    A MAJESTADE DA MÃE DE DEUS É SOBERANA, ÚNICA, SUPERIOR, NA QUAL SE FUNDEM TODAS AS FORMAS DE GRANDEZA. POR ISSO, IMENSA SERÁ A FELICIDADE DAQUELES QUE PUDEREM ADMIRÁ-LA, ETERNAMENTE, EM SEU TRONO DE GLÓRIA NO MAIS ALTO DOS CÉUS!

     

    PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA

  • Superexcelente misericórdia

    Nossa Senhora, sendo Mãe, seu Coração Imaculado não é mais misericordioso do que o Sagrado Coração de Jesus — seria um absurdo imaginar isso —, porém seu Imaculado Coração faz ver mais a misericórdia do Sagrado Coração de Jesus do que Ele próprio.

    Seria mais ou menos como quando os raios do Sol se concentram através de uma lente e põem fogo numa folha seca. A lente é tão pouco em comparação com o Sol, mas sem ela esse fogo não pegaria.

    Portanto, o Imaculado Coração de Maria seria, por assim dizer, uma lente do Sagrado Coração de Jesus, uma como que concentração da misericórdia do Sagrado Coração de Jesus. Então, Ela, debaixo desse aspecto, tem uma superexcelente misericórdia.

    Ademais, Maria Santíssima é especialmente nossa advogada, pois sendo mera criatura é mais plenamente conatural conosco do que o seu Divino Filho que, enquanto Homem Deus, é juiz. Por essas razões, dir-se-ia que o Imaculado Coração de Maria representa, num largo e glorioso sentido, muito especialmente a bondade e a misericórdia do Sagrado Coração de Jesus.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 26/10/1980)