Autor: Nelson

  • Florença e a perfeição das formas

    A arte florentina se caracteriza pela perfeição das formas e seu estilo despojado. Embora alguns monumentos de Florença causem respeito e admiração por seu grande valor artístico, a mania do despojado — hoje tão difundida — parece uma censura a Deus que não fez um universo sem ornatos.

     

    Em certo sentido, podem-se considerar como sendo três as metrópoles de irradiação do espírito renascentista a partir da Itália: Florença, Veneza e Roma. Cada uma delas teve um papel determinado na difusão desse espírito.

    Palácio da Senhoria: exemplar típico do espírito florentino

    Do ponto de vista artístico, enquanto Florença prima pela busca na perfeição das formas, Veneza procura realçar a supremacia das cores sobre o desenho. Roma, por sua vez, é a síntese dos vários aspectos da Renascença, onde os Papas procuraram recolher obras-primas de todas as fontes e formas de beleza.

    O espírito florentino é muito raciocinante e amigo de ver nas coisas principalmente o aspecto resultante do silogismo. Essa é uma posição quase ascética dos renascentistas, que recusa à imaginação muitas invenções, e ao sentimento um papel muito grande na elaboração do conjunto do pensamento humano. Pelo contrário, vive de cálculos, proporções, perspectivas realmente bem elaborados. Tendência da qual, a meu ver, nasceria o racionalismo.

    É o que principalmente notaremos nos edifícios florentinos que analisaremos a seguir.

    O palácio dito da Senhoria de Florença foi durante muito tempo a sede do governo de um pequeno Estado, que ocupou na cultura e no pensamento humano um lugar enorme, constituindo uma grande potência do pensamento.

    O Palácio da Senhoria de Florença é um exemplar típico do espírito florentino. O que há de cor neste palácio? Do lado de fora, nada. Um tijolo de um aspecto agradável, mas nada mais do que isso. Uma torre bonita com um relógio que lembra o de Siena(1). Notam-se em algumas das janelas ainda certo sentido ogival; outras, porém, constituem meros furos realizados na parede sem sentido de beleza especial nenhum.

    A torre não está no meio do edifício. Na ótica moderna, a torre deveria estar bem no centro, segundo um princípio elementar do traçado artístico razoável, desejável. Mas neste palácio a torre fica empurrada um pouco para o lado, e o relógio posto na raiz da torre, quando normalmente o colocaríamos na parte de cima daquelas ameias, para ser visto pelo maior número possível de pessoas.

    Há embaixo, nos dois ângulos do edifício, dois ornatos extrínsecos ao palácio, mas que ajudam a ter uma ideia da harmonia total dele. São duas estátuas monumentais, de estatura maior do que a de um homem. Não lembro bem o que as estátuas representam. Elas são de um mármore bem alvo, e contrastam bastante, portanto, com a cor do prédio.

    Edifício sério, altivo, lógico

    No meu modo de entender, esse edifício é lindo, extraordinário enquanto sério, altivo, lógico em tudo. O modo pelo qual essa torre se ergue altaneira no monumento é formidável.

    Mas não se pode negar que ele nos leva a perguntar se não poderia ser um pouco mais coerente em alguns de seus aspectos. Por exemplo, não vejo o objetivo funcional daquelas quatro janelinhas numa primeira fileira; depois uma embaixo da quarta, colocada ali, onde tudo levaria a crer serem necessárias pelo menos algumas das janelas do estilo das três que estão mais ou menos na mesma linha, continuando para a direita. Por que isso é assim? Não se entende.

    Por outro lado, um aspecto que exprime, no meu modo de entender, a secura do estilo é a repetição dessa disposição de janelas em baixo. Depois, surgem de repente duas ou três janelinhas muito mais curtas, sem arcos em cima, colocadas ali não se sabe por quê. Por fim, no andar térreo, duas portinhas.

    Dir-se-ia que são elementos de feiura. Entretanto, o conjunto agrada enormemente. Por quê? Porque a boa ordem da fachada — indiscutivelmente há uma bela boa ordem aí — faz esquecer os defeitos dessas janelinhas. Ou, pelo contrário, essas janelinhas entram meio subconscientemente no espírito como elementos dessa boa ordem. Sou mais propenso à segunda ideia.

    De uma dessas janelas parte um balcão. Não se diria que um palácio monumental comportaria um balcão mais bonito, mais elegante? Entretanto, é esticadinho e sequinho. Não obstante, o palácio é de uma beleza mundialmente elogiada. No mundo inteiro encontram-se estampas, postais, álbuns apresentando esse edifício deste ângulo.

    Se o comparamos com certos palácios de Veneza, que parecem descidos de um céu empíreo, das nuvens, notamos uma diferença colossal de psicologias. Esta é a psicologia florentina.

    Vê-se ali o emblema de Florença: a flor de lis vermelha que caracteriza, na heráldica, a cidade.

    Uma palavra sobre a arcada. São três arcos só, entretanto, pela suavidade deles — eu quase diria pela doçura séria, hierática, agradável dos arcos — a arcada completa e atenua um pouco o que o palácio tem de seco. São três arcos famosos, que constituem uma parte do “décor” da Praça do Palácio da Senhoria. 

    Duas atitudes de alma face ao Palácio da Senhoria

    Antes de passar adiante, eu queria apenas apanhar uma impressão que me vem de um prédio localizado ao fundo, em um dos lados da arcada. É um edifício comum, provavelmente construído no século XIX. Mas imaginem uma pessoa que tenha um escritório naquele prédio, onde ela exerce uma função muito absorvente. Vamos dizer que, por exemplo, no primeiro andar desse edifício, esteja instalada uma grande agência internacional de notícias, na qual informações chegam a toda hora e que precisam ser difundidas a cada instante. É necessária uma vigilância muito grande, para distinguir as notícias verdadeiras das falsas, da boataria, para condensar e enviá-las para o maior número de pessoas possível, responder às perguntas que vêm, etc.; é um contato com o mundo inteiro que se dá ali.

    Quando chega a hora de encerrar o expediente, a agência de notícias fecha e o indivíduo, que esteve ali o dia inteiro em contato com o que há de mais moderno no acontecer do mundo contemporâneo, sai. Ele deixou um automovelzinho qualquer encostado ao Palácio da Senhoria. Chove, ele sai com uma capa de chuva, fumando um cigarrinho, cansado, chega até lá e toma seu automóvel.

    Ele está com o pensamento, com o temperamento e todo o modo de ser dele completamente voltado para o mundo contemporâneo. O Palácio da Senhoria, com essa “loggia” e esses três arcos, ele vê todos os dias e não tem nenhuma providência a tomar a respeito disso.

    Podemos imaginar esse homem com dois modos de ser distintos: um é o indivíduo atolado no mundo moderno do qual gosta, e que passa perto disso como uma coisa importuna. Se ele olhar para ela, tira o espírito dele dos gonzos do seu ganha-pão para considerações com as quais ele não tem nada o que fazer. Então, o Palácio da Senhoria, para ele, é uma coisa com a qual ou sem a qual o mundo vai tal e qual.

    Se, pelo contrário, ele tem um grande espírito, distancia-se um pouco e, apesar da chuva, pensa: “Deixe-me descansar um pouco, olhando essa beleza. Vou tomar um “banho” de alma pensando nisso, contemplando um pouco isso”. Entra no automovelzinho, dá um giro, recua o veículo e, enquanto acaba de fumar o seu cigarro, ele fica olhando pela enésima vez em sua vida o Palácio da Senhoria. Aquilo entranha na alma dele, a qual fica rica de um depósito de arte que é uma coisa incomparável.

    Homens como este último são incomparavelmente mais raros do que os do primeiro tipo.

    A Ponte Vecchio

    Gostaria de chamar a atenção para a cor desse rio. Tem-se a impressão de um cristal colorido, de um verde um pouco dado a certo tipo de musgo, que se tornou líquido e está correndo lentamente. Trata-se do famoso Rio Arno de Florença, de águas lindas, e em cujas margens se sucederam fatos históricos extraordinários.

    Sobre ele passa a conhecidíssima Ponte Vecchio. Para compreender a constituição dessa ponte, precisamos nos reportar às condições militares da cidade de Florença na Idade Média, com muralhas de todos os lados para se defender contra as agressões de fora. Naturalmente, havia uma grande vantagem para os florentinos em morarem dentro do espaço protegido pelas muralhas, porque quando havia cercos, a família, com seus pertences, estava a salvo do incêndio e do saque dos adversários que, muitas vezes, a primeira coisa que fazem quando investem sobre uma cidade é arrasar as construções localizadas do lado de fora e tocar fogo, para as muralhas ficarem atingíveis de alto a baixo.

    Acontece que, sendo muito caro aumentar as muralhas, os habitantes se espremiam dentro da cidade. Assim, por falta de lugar onde colocar as pessoas, certas casas foram construídas em cima da ponte. E algumas até suspensas, meio com base na ponte, e meio no ar, com uma suspensão muito sólida, sem qualquer perigo de ruir. Compreendo que isso deixasse apreensivo a algum de nossos contemporâneos. Eu, entretanto, dormiria ali completamente despreocupado.

    Vemos, assim, de um lado e de outro, ao longo da ponte, prédios suspensos por meio de apoios fixados na própria ponte, o que indica uma falta de espaço tremenda! No andar térreo funciona algum comércio e, em cima, habitações.

    O “Lungarno degli Archibusieri”

    Lembro-me de que, em uma das vezes que estive em Florença, jantei em um restaurante instalado sobre um tablado posto sobre estacas no Rio Arno. E exatamente no lugar onde eu estava havia uma espécie de fresta na madeira — pedacinhos de madeira tinham caído no rio —, e pela fresta se via passar o Arno. Este é tão bonito, que para mim a atração do jantar foi ficar o tempo todo olhando pela fresta.

    Eu me recordo de que nos hospedamos em um hotel que era uma antiga torre talvez medieval, adaptada inteiramente para hotel, e dando para uma avenida ao longo do Arno, que se chamava “Lungarno degli Archibusieri”. O arcabuz é uma arma de fogo do período inicial desse tipo de armas ainda na Renascença. O arcabuzeiro era o soldado que portava essa arma. “Lungarno” quer dizer “ao longo do Arno”, e as várias partes ao longo do Arno chamavam-se “Lungarno” disso, “Lungarno” daquilo; o local onde eu estava era “Lungarno degli Archibusieri”, uma verdadeira beleza. O nome é lindo e, estando deitado na torre, tem-se a impressão de ouvir a marcha cadenciada dos arcabuzeiros que caminhavam para alguma guerra de conquista de um terreninho com quatro ou cinco galinheiros, que iam arrancar da cidade vizinha.

    O comércio existente no andar térreo dos prédios dessa ponte é riquíssimo, magnífico. Creio já ter contado que, numa das vezes em que estive aí, eu procurava uma lembrança para Dr. João Paulo e Da. Lucília e entrei numa loja de antiguidades, no andar térreo. Entrei um pouco para ver a loja e, entre os objetos expostos, observei um par de castiçais para se colocar em criado-mudo. Precisamente faltava arranjar uma peça bonita desse gênero para o quarto deles. Perguntei quanto custava. Era um preço fabuloso. Aí prestei mais atenção; os castiçais tinham me encantado, mas eu não tinha feito o raciocínio muito simples de que tudo que encanta é caro e, portanto, eu deveria desconfiar do preço. Mas era um cristal com tais e quais qualidades, cujo preço eu não podia pagar. Os castiçais, em vez de irem para a Rua Alagoas, 350, onde eu residia com meus pais, ficaram na Ponte Vecchio não sei por quanto tempo. Talvez ainda estejam lá…   

    (Continua)

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 23/11/1988)

     

    1) Ver Revista Dr. Plinio n. 219, p. 32.

     

  • Obra-prima da misericórdia divina

    Para honrar a Esposa do Espírito Santo e Mãe do Verbo Encarnado, a Santíssima Trindade coroou Nossa Senhora como Rainha do Universo: todos os Anjos e Santos, todos  os homens vivos, todas as almas do Purgatório, assim como todos os réprobos e demônios, devem obedecer à Celeste Soberana. De sorte que Maria, além de medianeira das graças, é igualmente a do poder de Deus. É por intermédio de sua Mãe que Ele executa todas as suas obras e realiza todos os seus desígnios.

    Mais ainda. Nossa Senhora não é somente o canal por onde o império divino passa e se manifesta na criação, mas é também a Rainha que decide por uma vontade própria,  consoante os desejos do Rei. Ela é, na verdade, uma obra-prima do que poderíamos chamar a habilidade de Deus de ter misericórdia em relação aos homens.

  • Imagem épica do Criador

    Que maravilhoso conglomerado de torres! Quanta força nessas torres, quanta solidez nesse conglomerado! Que harmonia misteriosa: uma delicadeza,  contrastando
    agradavelmente com o que têm de forte, de vigoroso, de guerreiro!

     

    Em geral, uma pessoa imbuída de elevados sentimentos encontra especial agrado na admiração por algo que seja verdadeiramente admirável. Ela possui o que podemos chamar de espírito épico, ou seja, um espírito propenso a desejar e a se entusiasmar por tudo o que é maravilhoso.

    Uma alma assim, impulsionada pelas graças que recebeu no batismo, e por aquelas que Deus derrama sobre todo católico, tende a ver as alturas épicas do pensamento. Mais ainda, as alturas épicas da ordem do universo, as alturas épicas da história, as alturas épicas quão mais sublimes e mais extraordinárias da Religião Católica e da Civilização Cristã.

    Imaginemos, à guisa de exemplificação, que essa pessoa seja colocada diante de uma das mais belas construções do século XVI: o castelo de Chambord, no Vale do Loire, França. Contemplando o magnífico monumento exposto a seus olhos, tomar-se-ia de entusiasmada admiração.

    Que maravilhoso conglomerado de torres! Quanta força nessas torres, quanta solidez nesse conglomerado! Que harmonia misteriosa naquilo que faz com que, ao mesmo tempo, elas pareçam estar colocadas um pouco ao acaso, mas deem, no seu conjunto, uma sensação de delicadeza, contrastando agradavelmente com o que têm de forte, de vigoroso, de guerreiro!

    Há qualquer coisa de nobre nesses tetos azulados, que descem tão harmonicamente até a parte de cantaria. Há algo de robusto nessas pedras atarrachadas, agarradas ao chão de tal maneira que parecem dizer: “Quem quiser derrubar-me se espatifa, quem quiser arrancar-me do solo tem que tirar o mundo dos seus próprios gonzos, porque eu sou uma torre do castelo de Chambord e ninguém me leva daqui”.

    Dessas análises ainda se poderia subir mais alto: como é bela a conexão entre a força e a delicadeza, entre o planejado do castelo e o aparente espontâneo da disposição daquelas torres! Como é belo, portanto, o ver juntas qualidades antitéticas.

    E por que oferecem uma beleza especial as qualidades antitéticas juntas?

    Porque o princípio de toda beleza é a unidade na variedade. E nada de mais variado do que a antítese completa entre a delicadeza e a força, e nada de mais belo do que ver os elementos dessa antítese se reunirem numa só harmonia. A unidade na variedade é bela porque é a melhor imagem de Deus na criação natural. É um dos princípios de perfeição e excelência que o Altíssimo pôs no universo. É uma das exigências da alma humana. Esta tende ao que é uno e bem-ordenado, mas também ao que é vário, diverso e movimentado.

    Ora, nesse castelo há a unidade na variedade, e minha alma ali repousa e ao mesmo tempo pensa em Deus.

    Sim, considerando os esplendores de Chambord, poder-se-ia fazer uma meditação que chegasse até Nosso Senhor. Admirando-os, vem-nos ao espírito este pensamento: “Que beleza, que elegância, que distinção, que nobreza, que grandeza, que “raffinnement”! Como isso nunca se conseguiu, a não ser na Civilização Cristã! Como, ó Senhor Jesus Cristo, vosso sangue é fecundo de toda graça e de todo bem, de maneira que mil e quinhentos anos depois de vossa morte, ainda nasce essa flor de beleza, ainda desabrocha esse encanto de civilização, porque ela é cristã nas suas raízes!

    “Ó Senhor Jesus Cristo, Vós sois a fonte de toda graça, de toda glória e de toda beleza! Eu Vos adoro!”

  • Confiança inabalável em Maria

    Uma carinhosa prece de São Bernardo de Claraval a Maria dá a Dr. Plinio ocasião para voltar a um tema predileto para esses dois varões: a bondade inestimável da Mãe de  Deus para com os homens e a confiança sem limites que n’Ela devemos ter.

     

    Inigualável cantor das glórias de Maria Santíssima, São Bernardo compôs tocantes e piedosas orações dirigidas a Ela. Entre outras, uma que me apraz comentar, porque repassada de sentido e admirável sob todos os pontos de vista. Ei-la:

    Ó doce Virgem Maria, minha augusta soberana, minha amável Senhora, minha Mãe amorosíssima! Ó doce Virgem, coloquei em Vós toda a minha esperança e não serei confundido. Doce Virgem Maria, eu creio tão firmemente que do alto do Céu Vós velais dia e noite sobre mim e sobre aqueles que esperam em Vós; estou tão intimamente convencido de que jamais pode faltar nada quando se espera tudo de Vós, que resolvi viver daqui para o futuro sem nenhuma apreensão, e me descarregar inteiramente sobre Vós em todas as minhas iniquidades.

    Doce Virgem Maria, Vós me estabelecestes na mais inabalável confiança. Mil vezes obrigado por uma graça tão preciosa! Ficarei daqui por diante em paz sob vosso coração tão puro. Não pensarei mais senão em Vos amar, em Vos obedecer, enquanto Vós gerireis, Vós mesma, minha boa Mãe, os meus mais caros interesses.

    Ó doce  Virgem  Maria,  que entre os filhos dos homens, uns esperem sua felicidade de sua riqueza, outros a procurem em seus talentos; que outros se apoiem sobre a inocência de sua vida ou sobre o rigor de sua penitência, ou sobre o fervor de suas orações, ou sobre o grande número de suas boas obras. Por mim, ó Mãe, eu esperarei só em Vós, só em Vós depois de Deus. E todo o fundamento de minha esperança será minha confiança mesmo em vossa bondade materna.

    Doce Virgem Maria, os maus poderão me roubar a reputação e o pouco de bem que possuo. As doenças poderão me tirar as forças e a faculdade exterior de Vos servir. Eu poderei mesmo, infelizmente, minha terna Mãe, perder vossas boas graças pelo pecado. Mas minha amorosa confiança em vossas maternais bondades, esta jamais eu perderei. Eu a conservarei, essa confiança inabalável, até o meu último suspiro.

    Todos os esforços do inferno não ma roubarão. Eu morrerei repetindo mil vezes vosso nome bendito e fazendo repousar sobre vosso Imaculado Coração toda a minha esperança.

    E por que estou eu tão firmemente seguro de esperar sempre em Vós, se não é porque Vós me ensinastes, Vós mesma, ó doce Virgem, que Vós sois toda misericórdia e que não sois senão misericórdia?

    Estou, portanto, seguro, ó boa e amorosa Mãe, de que Vos invocarei sempre e estou seguro de que Vós me consolareis. Eu Vos agradecerei sempre porque Vós sempre me aliviareis. Eu Vos servirei sempre porque Vós sempre me ajudareis. Eu Vos amarei sempre porque Vós sempre me amareis. Eu obterei tudo de Vós porque vosso amor, sempre generoso, irá além de minha esperança.

    Sim, é de Vós só, ó doce Virgem, que, apesar de minhas faltas, eu espero o único bem que desejo, o meu Jesus, no tempo e na eternidade. É de Vós só, porque Vós é que meu Divino Salvador escolheu para me dispensar todos os favores, para me conduzir seguramente até Ele. Sim, é de Vós, Mãe, que, depois de ter aprendido a participar das humilhações e sofrimentos de vosso Divino Filho, espero ser introduzido na glória e nas delícias, para O louvar e bendizer, junto a Vós e convosco, nos séculos dos séculos. Assim seja.

    Eis a minha maior confiança e toda a razão da minha esperança. “Ecce mea maxima fiducia et tota ratio spei meae”.

    Confiança sem limites em Nossa Senhora

    A oração é verdadeiramente maravilhosa, e possui as características da eloquência de São Bernardo. Quer dizer, uma prece com misto de humildade e de arrojo, de ternura e de fogo, de doçura e varonilidade, difícil de encontrar reunidas nas expressões de um só homem.

    De um lado, a ternura para com Nossa Senhora chega ao último limite a que se pode chegar. Sobretudo, chega ao ápice a persuasão da ternura d’Ela para conosco.

    Mas, de outro lado, no modo de cantar o carinho d’Ela, nada há de efeminado, nada há de indigno de um varão. Pelo contrário, existe uma espécie de audácia, de arrojo encorajado e estimulado por essa ternura, que faz da oração uma obra-prima, porque reúne a suavidade própria à uma pomba e o voo extraordinário da águia.

    Em sua prece, o Santo penetra diretamente no Coração Imaculado de Maria. E com uma liberdade, um desembaraço ousaria dizer, com uma familiaridade cheios de veneração, mas de intimidade, que verdadeiramente nos espanta.

    Ele fala da virtude da confiança, e mostra no que esta consiste. Depois, determina as razões dessa virtude. Para São Bernardo, a confiança consiste fundamentalmente em saber que Nossa Senhora é toda ternura, e n’Ela não há severidade. E como é essa a disposição d’Ela em relação a todos os homens, torna-se lógico, forçoso, inevitável que cada homem conhecedor disso deposite em Maria uma confiança sem limites. O autor da oração estabelece essa confiança em duas gamas: primeiro, quanto à vida terrena; em segundo lugar, quanto à vida eterna.

    São Bernardo exprime sua certeza de que Nossa Senhora vai gerir os interesses dele nesta existência, e interesses terrenos propriamente ditos. É verdade que ele era religioso e não tinha preocupações materiais, pois eram todas atendidas no mosteiro. Porém, ele compôs essa oração para ser rezada por qualquer fiel, e não apenas pelos monges. Então se entende que nós, nos nossos interesses terrenos, naquilo que eles têm de legítimo, de santificante, devemos confiar em Nossa Senhora.

    No auge das provações, confiança ainda maior

    Mais. Devemos pedir que Ela faça por nós aquilo que não somos capazes de fazer.

    Sabemos todos que a Providência tem desígnios insondáveis, e que pode, portanto, querer nos sujeitar de um momento para outro a sofrimentos que não prevemos. Sabemos também que a Providência quer, genericamente, daqueles a quem Ela ama, que passem por muitas provações. Nós sabemos, portanto, que nesta vida temos de sofrer. Sem embargo disso, por um movimento interno da graça, por um certo senso das proporções, etc., nós vemos que, em relação a outros interesses terrenos, muito provavelmente a Providência não quer que se percam e sejam imolados. Estes interesses nós devemos entregar aos maternais cuidados de Nossa Senhora. Ela velará por eles, os apoiará, os protegerá, de tal maneira que não precisamos nos deixar tomar de ansiedades, nem de torcidas, nem de sofreguidões.

    Mas, no pior das nossas angústias e das nossas preocupações, devemos nos lembrar daquilo que diz o Pe. Saint Laurent no seu “Livro da Confiança”: quando a tormenta tenha chegado ao auge, é hora de preparar o incenso e todo o necessário para cantar o Magnificat, porque nesse momento Nossa Senhora intervirá e nos salvará. Quer dizer, essa é uma confiança inabalável. E confiança que cresce de ponto quando não se trata apenas de nossos interesses terrenos individuais, mas das questões de apostolado. A Santíssima Virgem deseja que procuremos o maior bem para as almas, e multiplica seu infalível socorro para que nossa missão evangelizadora seja coroada de sucesso. E mesmo quando nossos problemas apostólicos pareçam por demais complicados e comprometidos, devemos ter inteira certeza de que Ela tudo resolverá. Numa palavra, como Medianeira onipotente junto a Deus, Nossa Senhora nos alcança a solução para todas as nossas dificuldades, sejam grandes ou pequenas, corriqueiras ou imensas.

    Se desconfiarmos de Nossa Senhora, tudo se perde

    Essa verdade se aplica ainda mais à nossa vida espiritual. Nossa Senhora chama cada um de nós para a santidade. Se Ela assim nos atrai, não interromperá a obra que iniciou e nos conduzirá, se soubermos confiar, até o extremo da perfeição a que fomos convidados. Alguém dirá: “Dr. Plinio, belas palavras… Na realidade, elas são vácuas e não correspondem a nada, porque se eu pecar, estou criando obstáculos à ação de Nossa Senhora. E se procedo dessa maneira, não posso supor que Ela vá me santificar. Quer dizer, o senhor está afirmando algo muito bonito, mas vazio, sem consistência. É uma quimera.” A resposta está na própria oração composta por São Bernardo. Ainda que tenhamos a dor enorme de ter ofendido a Nossa Senhora, ainda que tenhamos o pesar de A ter ofendido gravemente, é preciso continuar a confiar n’Ela. Porque se desconfiarmos de Maria, então está tudo perdido. A porta do Céu é Ela. E se, pela nossa falta de confiança, fecharmos essa porta, nós mesmos nos condenamos.

    Pelo contrário, se continuarmos a confiar n’Ela contra toda confiança, Nossa Senhora pelo menos receberá de nós essa forma de glória, que é a do pecador que continua a confiar n’Ela. É a homenagem da confiança daquele que A ofendeu e, nesse sentido, uma categoria de louvor que nenhum justo Lhe poderá dar.

    Então, esperemos contra toda esperança, mesmo dentro das dificuldades e da buraqueira da nossa vida espiritual. É o que São Bernardo recomenda intensamente, fazendo-nos recordar aquela palavra de São Francisco Xavier, que o pior do pecado ainda o mais horroroso não é tanto a falta em si, mas o fato de o pecador, depois da queda, perder a confiança em Deus. Porque enquanto confia, o caminho permanece aberto. Tudo é possível.

    Na hora da morte, a suprema proteção de Maria

    Após falar dos interesses nesta vida, São Bernardo se refere aos da vida eterna. E manifesta este pensamento admirável: quando chegar a hora da morte dele, espera que a sua confiança seja tal que morra com o seu coração recostado sobre o Imaculado Coração de Maria.

    É expressão, naturalmente, simbólica, mas revestida de um imenso valor, porque revela uma esperança muito grande em que Nossa Senhora, na hora da morte, nos ajude de modo particularíssimo. Que Ela diminua os horrores desse transe, e nos dê até uma passagem cheia dos sentimentos da presença d’Ela, se isso for para a sua maior glória e bem de nossa alma. E se, pelos superiores desígnios de Deus, devamos falecer em meio a grande aridez, tenhamos completa confiança de que Nossa Senhora fará redundar essa derradeira provação em maior benefício para nós. Ela se valerá desse sofrimento para abreviar nosso Purgatório, para salvar muitas outras almas, e para, afinal, nos levar ao mais alto do Céu, bem junto ao seu trono de Rainha e de Mãe  indizivelmente amorosa.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • Santa Maria Goretti, um exemplo para a Igreja e para o mundo

    Quando a impudicícia já ia fazendo estragos pelo mundo, Deus fez de uma menina de onze anos uma heroína da pureza. Dr. Plinio mostra o que o exemplo dela significa para nós.

     

    O contraste entre os acontecimentos dolorosos no terreno da pureza, ocorridos em nossos dias, de um lado e, de outro, o exemplo dado por Santa Maria Goretti é tão flagrante que não podemos deixar de fazer um comentário sobre o tema.

    Basta lembrarmos que enquanto a Igreja venera no dia de hoje uma santa a qual, ainda na infância, foi vítima de um atentado brutal, bárbaro, bestial, e sacrificou sua vida por amor à pureza, se introduzem atualmente costumes escandalosos, obscenos a tal ponto que não convém serem mencionados em nosso ambiente. A degradação moral não se detém, exceto quando já tenha destruído tudo aquilo que tende a destruir. E o último passo será o nudismo mais anarquista e completo.

    Devemos dar glória à Igreja que continua, em meio à decadência geral, a apresentar aos homens um modelo contrário àquilo para o qual o mundo contemporâneo caminhe.

    De maneira que isso é para nós uma fonte de alegria, de consolação, uma inspiração para a luta em defesa desses valores, por maior que seja a desolação reinante em certos meios a respeito desse assunto.

    Santa Maria Goretti se nos apresenta como um incitamento ao zelo da Igreja pela pureza, ao valor dessa virtude que Ela sempre inculcou. De tal maneira que mais vale a pena à pessoa sacrificar sua vida do que perder sua castidade. Precisamos compreender que foi sobrenatural a virtude de nossa santa , e toda a desolação do mundo de hoje pode ser dominada e transformada em motivo de alegria, pela ação da graça divina.

    Assim, não podemos desanimar na luta. Lembremo-nos de que a pureza foi restabelecida e elevada a um grau até então desconhecido no mundo antigo, pela introdução da religião católica entre os romanos. Esta continua sempre a mesma e o precioso Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, presente na Eucaristia, pode ser chamado em nosso dias, como o era no passado, o vinho que gera virgens. Portanto, possuímos entre nós o fermento de todas as vitórias e a causa de todos os sucessos. Basta termos fé, piedade, sabermos rezar, fazer penitência e reparação pelos pecadores, que conseguiremos vencer essa onda imensa de impiedade .

    Eu gostaria de acentuar um ponto.

    Em toda essa questão social de que tanto se fala hoje em dia, o problema da pureza ocupa um lugar preponderante. Não pode haver verdadeira ordem social sem autêntica ordem familiar; e esta não existe sem a virtude cujo nome enche os homens de respeito humano. Essa virtude precisa ser conhecida, admirada e praticada pelos católicos até a última perfeição. Sobre ela pouco se ousa falar: é a virtude da castidade conforme o estado da pessoa, ou a castidade perfeita, ou a matrimonial. Duas formas santas de virtude, que precisam ser adotadas e defendidas.

    A ordem política e social rui inevitavelmente nos lugares onde a pureza não é observada. Não se pode construir seriamente a Civilização Cristã sem que, entre outras virtudes, a da castidade esteja na base. Dessa virtude Santa Maria Goretti nos deu belíssimo exemplo.

    Há um princípio de Paul Bourget, muito verdadeiro, que é o seguinte: quando a pessoa não age de acordo com suas idéias, acaba pensando de acordo com seus atos.

    Nossa sociedade, antes mesmo de adotar as idéias anárquicas, vai infelizmente caminhando para elas por meio dos costumes anárquicos.

    Uma palavra sobre o homem que a assassinou.

    Condenado à prisão, reconheceu em toda a extensão o mal por ele praticado e tornou-se um prisioneiro modelar. Após cumprir a pena, foi recebido como humílimo irmão leigo capuchinho, e solicitou à mãe de Santa Maria Goretti que o atendesse, pois queria pedir-lhe perdão.

    Esta o perdoou e depois ambos combinaram comungar lado a lado num dia marcado, em uma determinada igreja.

    Vemos aqui um exemplo de contrição verdadeira, num mundo onde esta é cada vez menos conhecida: uma cabeça que se humilha, um peito no qual se bate reconhecendo ter pecado, dizendo “mea culpa”.

    Esses fatos nos ajudam a compreender que Santa Maria Goretti é nossa patrona, para nos preservar na virtude da pureza; e, se tivermos a desgraça de nos afastarmos desse caminho, para nos reconduzir a uma verdadeira penitência e sincera conversão.

    É altamente oportuno pedir seu auxílio no dia de sua festa. Se ela chegou a perdoar, por essa forma sublime, seu assassino e conseguiu para um homem tão depravado uma forma tão alta de virtude, que ele se tornou um religioso; quem pode o mais, pode o menos. Compreendamos assim quanta confiança podemos depositar em sua intercessão.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 6/7/1965)

  • Oração: Pedindo graças que fazem parte do segredo de Maria

    Ó Maria Santíssima, Esposa do Espírito Santo, obtende-me d’Ele a graça necessária para que eu olhe de frente a minha alma, fazendo um exame implacável e verdadeiro de tudo quanto nela se contém. Obtende-me amar o que ali puseste de bom e odiar o que há de mau. De sorte que, expulso dela o mal, triunfe o bem, e comece em mim aquela aurora do Reino de Maria, pelo qual devemos viver, lutar e morrer. E se tal for a minha fraqueza e falta de generosidade que eu não consiga corresponder às vossas graças, dai-me graças ainda maiores, aquelas que fazem parte do vosso segredo e das quais diz São Luís Grignion que o homem, como que, não lhes pode resistir.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Composta em 25/7/1970)

  • Santa Maria Goretti, alma verdadeiramente eucarística

    Santa Maria Goretti manifestou a lucidez com que a virgem católica compreende e ama a sua pureza, sem necessidade de aulas, e que leva uma menina a enfrentar qualquer brutamonte, resistindo até quando está por morrer.

    Aquela figura angélica entregou a sua vida com toda a resolução, para não perder o que ela amava mais do que a luz de seus olhos e a própria existência: a virgindade, a qual se aprende a amar como o dom mais precioso da vida, quando se tem uma alma verdadeiramente eucarística.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 23/4/1955 e 24/7/1981)

  • CLEMÊNCIA INDIZÍVEL

    A realeza que Nossa Senhora exerce sobre o gênero humano não é a do juiz, mas a da advogada, isto é, d’Aquela que não tem por missão julgar e punir os pecadores, mas a de os defender.

    Por isso tem Ela para conosco toda sorte de predisposições favoráveis, e sempre nos atende com inefável bondade.

    Entretanto, a alma moderna, muito atribulada e tratada com terrível dureza pela atual tirania do demônio, encontra certa dificuldade em compreender o verdadeiro sentido da clemência de Nossa Senhora.

    Tanto mais quanto uma falsa piedade apresenta esta misericórdia de modo alvar e adocicado, como se ela fosse uma espécie de cumplicidade com o erro. Ora, a ternura e a bondade de Maria não consistem numa vil condescendência para com quem praticou o mal, e sim na materna e invariável disposição de lhe conceder as graças necessárias para abandonar o erro e o pecado.

    É nesse sentido que se deve entender a clemência de Nossa Senhora. E enquanto tal, ela é única, suprema e indizível.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • Gloriosa Santidade

    A Providência concedeu a Nossa Senhora a glória de se encontrar no píncaro da Criação, tendo acima d’Ela apenas o Homem-Deus, seu adorável Filho. Quem recebesse a suprema graça de comtemplá-La, teria, num só golpe de vista, a noção de toda a sabedoria e santidade da Igreja, da beleza de toda a sua liturgia em todas as épocas, do esplendor de todos os Santos, do talento de todos os doutores, do heroísmo de todos os cruzados e de todos os mártires. Porque não há virtude, qualidade e beleza que a Igreja tenha engendrado, e que não brilhe completamente em Nossa Senhora, com fulgor extraordinário.

    Por isso, nosso louvor à Santíssima Virgem, além de ser um cântico à grandeza e bondade d’Ela, deve ser um reconhecimento efetivo dessa bondado e dessa grandeza, traduzido em atos concretos: ou seja, na imitação de todas as virtudes e predicados que Ela, numa perfeita correspondência à graça, possuiu e praticou no mais alto grau.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira

  • Confiança

    “A confiança é uma espécie de fina ponta da esperança. Quando esperamos alguma coisa, temos alegria e a convicção de que algo de bom nos virá. É essa confiança que dá força a nossas almas e as fazem caminhar para a frente.”