Autor: Nelson

  • AS VIRTUDES DE MARIA, remédio para nossa alma

    Tesoureira das dádivas do Senhor e Mãe de Misericórdia, Nossa Senhora pode obter para nós a graça da santificação, apesar de todas as nossas carências e debilidades. Ao  comentar uma bela oração escrita por São Luís Grignion de Montfort, dirigida a Maria, Dr. Plinio evidencia uma importante realidade: a devoção à Santíssima Virgem como  meio necessário para a nossa salvação.

    Atendendo o filial pedido que me fazem, passo a comentar um trecho da prece composta por São Luís Grignion de Montfort, “Oração a Maria para seus fiéis escravos”:

    Ó Maria, minha querida Mãe, (…) dou-me a vós todo inteiro na qualidade de escravo perpétuo, sem nada reservar para mim ou para outrem. Se vedes em mim qualquer coisa que não Vos pertença, eu Vos suplico de tirá-la agora e de Vos tornar Senhora absoluta de tudo o que possuo; de destruir e desarraigar e aniquilar em mim tudo o que desagrada a Deus; de implantar, promover e operar tudo o que Vos agrada. Que a luz de vossa fé dissipe as trevas de meu espírito; que vossa humildade profunda tome o lugar de meu orgulho; que vossa contemplação sublime suste as distrações de minha imaginação vadia; que a vossa vista contínua de Deus encha minha memória de sua presença; que o incêndio de vosso Coração dilate e abrase a tibieza e a frieza do meu; que vossas virtudes substituam meus pecados; que vossos méritos sejam meu ornamento e suplemento perante Deus.

    Enfim, mui querida e bem-aventurada Mãe, fazei, se for possível, que não tenha outro espírito senão o vosso para conhecer Jesus Cristo e suas divinas vontades; que não tenha outra alma senão a vossa para louvar e glorificar o Senhor; que não tenha outro coração senão o vosso para amar a Deus com um amor puro e ardente como Vós.

    Foco de virtudes que sanam nossos defeitos

    Nesse trecho transparece a unção e o fogo dos melhores textos de São Luís Grignion. Ele se apresenta e fala como se fosse uma alma pecadora, contendo em si inúmeros defeitos que deseja corrigir, e cuja solução se apóia no seguinte princípio: Sendo Nossa Senhora, por disposição divina, o receptáculo de todas as virtudes que possam reluzir numa criatura humana, Ela é o canal dessas excelências a serem distribuídas pelo universo. Dessa sorte, cada perfeição de Maria produz como que um efeito medicinal sobre a nossa lacuna moral oposta: sua pureza é dotada de uma capacidade de extinguir nossa impureza; sua humildade, de extirpar nosso orgulho; sua piedade, de erradicar nossa falta de devoção; seu recolhimento, de eliminar nossa dissipação.

    Portanto, Nossa Senhora se assemelha a um foco do qual se difundem graças invulgares e dons especiais, próprios a vencerem nossas mazelas. Então, é legítimo dirigirmos uma oração a Ela pedindo-Lhe infunda em nós suas virtudes, para que estas nos transformem.

    Como as curas do Divino Mestre no Evangelho

    Revela-se-nos aqui o princípio da atuação intensa e sanativa da graça nas almas.

    De fato, obedecendo aos desígnios de Deus, a graça pode descer sobre uma alma e num minuto modificá-la por completo, assim como, na expressão da Escritura, uma pedra é capaz de se tornar outro filho de Abraão. Quer dizer, pode tomar a pessoa mais radicada num defeito, mais tíbia, mais entregue a um vício, na situação mais aflitiva e miserável, e num momento livrá-la de todos esses males, desde que peça e seja ouvida por Nossa Senhora.

    Assim, desejosa de se corrigir, mas acovardada diante da imensidade de suas imperfeições, contra as quais se verificam vãos todos os seus esforços, ela se volta para Maria Santíssima, rogando o socorro de graças superabundantes e necessárias para a sua conversão.

    Daí São Luís Grignion formular essa prece pela qual o homem fraco, tíbio, pecador, em cujo fundo de alma lateja o anseio das mais altas virtudes, pode realmente resolver seu problema e encontrar os meios para galgar a elevada montanha da santidade.

    Devemos, pois, pedir a Nossa Senhora uma atuação d’Ela em nosso coração, como eram as de Nosso Senhor no Evangelho ao curar os doentes. Na verdade, cada milagre daqueles significava uma ação divina sobre um organismo que apresentava um defeito, uma disfunção ou algo do gênero, remediando-o num instante. E quando os evangelistas narram tais curas, deixam ver que Nosso Senhor, restabelecendo os corpos, fazia entender que Ele podia sanar as almas, sendo cada uma daquelas debilidades físicas o símbolo de uma carência moral.

    O socorro de Nossa Senhora, quando menos se espera

    Exemplo magnífico dessa influência do sobrenatural numa alma temos no fato da conversão de São Paulo Apóstolo. Ferrenho perseguidor da Igreja nascente, em determinado momento, na estrada de Damasco, é ofuscado por uma luz, cai ao chão e, recompondo-se, a primeira pergunta que brota de seus lábios é: “Senhor, que quereis que eu faça?”. Quer dizer, ele se pôs inteiramente às ordens da graça para operar de acordo com a vontade dela.

    Como este, inúmeros exemplos há na Igreja de pessoas que se convertem e mudam radicalmente, por uma ação fulminante da graça. Ouviram uma palavra, perceberam um gesto, tiveram um pensamento que as tocou e transformou por inteiro.

    Então, se confiarmos na oração, se compreendermos a sua necessidade e sua eficácia, temos a possibilidade de obter os frutos espirituais mais inesperados e magníficos. Sobretudo se nos compenetrarmos de que essa prece é dirigida a Deus por meio de Maria, nossa Mãe de misericórdia e nossa vida. Sem Ela não haveria valor, nem doçura nem esperança em nossa existência. Com Ela, nossa vida é plena de vida, nossas doçuras são repletas de doçura e nós, em qualquer situação na qual nos achemos, devemos ter esperanças superabundantes e imensas. Nossa Senhora se compadece de nós e nos atende, pois é nossa Mãe. Em dado momento, nos tomará pelos braços e nos conduzirá à santidade a que somos chamados.

    Cumpre considerar, entretanto, que o modo de Nossa Senhora exercer sua bondade para conosco é insondável. Assim, não raro as almas que recebem graças fulminantes são as mais provadas, depois de caminharem de provação em provação até um ponto onde não entendem mais o que se passa com elas, encontrando-se numa espécie de beco-sem-saída da perplexidade e do sofrimento. Nessas horas se dão as ações admiráveis de Maria em nosso favor.

    Quantas vezes tenho visto almas nessas encruzilhadas da vida espiritual, tão aflitas e atormentadas que chegam a chorar. Observando-as, sinto o desejo de dizer a cada um: “Meu caro, espere, Nossa Senhora virá quando você menos imagina e vai socorrê-lo”. E com freqüência, no momento em que se tem a impressão de não haver saída para mais nada, a pessoa recebe uma graça magnífica e tudo se resolve pelas mãos de Maria, de um modo mais esplêndido do que jamais se poderia esperar.

    Sacrossanta importunidade

    É necessário, pois, tomar em consideração essa preciosa verdade: podendo rezar e possuindo uma Mãe como Nossa Senhora, nunca, nunca, nunca se deve ter desespero nem sequer a menor dúvida a respeito do auxílio do Céu. A quem bate, se abrirá; a quem pede, se dará. A nós de sermos insistentes na oração.

    Lembremo-nos da célebre parábola do Evangelho, onde um homem se achava deitado na cama com seus filhos e aparece um vizinho importuno a lhe bater à porta, pedindo pão. O que já havia se recolhido não queria atender. Porém, o pedinte tanto insistiu que o pai de família se levantou, abriu a porta e lhe deu o pão. Comentário de Nosso Senhor: “Se esse homem não fosse importuno, não teria sido atendido”.

    Portanto, a virtude aconselhável ante essas palavras é a da sacrossanta importunidade. Precisamos fazer violência ao Céu: pedir, pedir, pedir; bater, bater, bater. Seremos ouvidos, por maiores que sejam nossas dificuldades.

    Pedir as graças próprias à nossa vocação

    E o seremos, de maneira especial, no tocante ao nosso desejo de corresponder à vocação de perfeitos servos de Nossa Senhora.

    Nesse sentido, poder-se-ia perguntar se caberia algum pequeno aditamento, repassado de enlevo, veneração e ternura, a essa prece de São Luís Grignion. Parece-me que sim, entendido nos seguintes termos.

    Em uma instituição ou movimento católico semelhante ao nosso, o conjunto apresenta mais virtudes do que a soma das qualidades morais de seus membros. Compreende-se, pois ele recebeu uma série de graças que costumam estar em nosso ambiente, pairar em  nosso meio, como patrimônio do grupo. Elas são o tesouro do qual vivemos, e não significam outra coisa senão a própria projeção da misericórdia de Maria Santíssima entre nós, comunicando-nos suas virtudes e nos convidando continuamente a pedir essas graças.

    Então, se Nossa Senhora nos chama para pertencer ao movimento, é natural que supliquemos a Ela nos obtenha os dons e dádivas celestiais específicos para o cumprimento dessa missão à qual fomos destinados. Dádivas e dons estes de que seu Coração Imaculado está repleto, aguardando nossa prece feita, como disse, com ternura, veneração e enlevo profundos.

    Essa seria, a meu ver, uma forma magnífica de completar essa linda oração de São Luís, de maneira a alcançarmos as graças para sermos conformes a Jesus Cristo e a Nossa Senhora, atingindo o auge da perfeição em fazer a sua sacrossanta vontade enquanto seus filhos e servos amorosos.

  • Santo Henrique, Imperador

    Comentando Santo Henrique, Dr. Plinio procura mostrar o contraste entre a figura deturpada que se formou da santidade,  e a personalidade varonil, sagaz, guerreira, humilde e combativa deste santo imperador.

     

    Em geral, as pessoas têm a respeito da santidade uma ideia unilateral. Pensam que a santidade consiste apenas em sorrir, em estar de acordo com tudo e a tudo perdoar. Porém, muitos não têm ideia do vulto completo e da fisionomia geral da santidade.

    Isso se deve, em parte, às imagens que se produziram nos últimos vinte anos, ou nos últimos trinta anos, em que apresentam os santos com umas carinhas lisinhas e um olharzinho meigo, quando, na realidade, se trata de santos que tiveram uma extraordinária personalidade, a ponto de marcar a sua época.

    A verdadeira face da santidade

    Quando eu estive na Itália, em Pádua, há alguns anos atrás, fui visitar o famoso santuário de Santo Antônio, onde se encontra o corpo do santo. Lá eu vi uma obra de um grande pintor, quase contemporâneo deste santo, chamado Giotto.

    É a imagem mais próxima da fisionomia de Santo Antônio que se conhece: homem alto, possante, com fisionomia severa e com uma atitude hercúlea.

    Eu comprei uma fotografia desse quadro e depois fui para a sacristia. Na sacristia vendiam ao povo santinhos representando Santo Antônio: um rapaz sem nada de varonil, imberbe, coradinho, dando a impressão que tinha usado carmim, sua fisionomia era a de quem diz: “Eu estou com medo”…

    Quer dizer, apresenta-se o santo sem personalidade, um ente sem arrojo e privado do conjunto das virtudes, sem as quais ninguém é santo. O santo é declarado herói nas três virtudes teologais e nas quatro virtudes cardeais. Virtudes teologais: fé, esperança, caridade. Virtudes cardeais: justiça, fortaleza, temperança, prudência. Uma das virtudes sem a qual ninguém é santo é, portanto, a virtude da fortaleza.

    No que consiste a virtude da fortaleza? Consiste em ser capaz de empregar toda a força necessária nas lutas que neste mundo devemos travar contra nós mesmos, contra os inimigos da fé e contra os inimigos da Igreja.

    É preciso restaurar, aos olhos das pessoas, a verdadeira fisionomia da santidade, que inclui exatamente essa coragem. E por essa razão escolhi, para comentar na reunião de hoje, um modelo de coragem masculina: Santo Henrique, Imperador do Sacro Império Romano Alemão.

    Vida repleta de fatos memoráveis

    Santo Henrique colocou seu exército sob as bênçãos especiais de Deus, valendo-se da proteção dos grandes santos preferidos do seu povo. Elegeu dentre eles Santo Adriano, oficial mártir, cuja espada se guardava ciosamente, como relíquia, desde antigos tempos, em Valbach.

     Assim armado, organizou um exército para reprimir as invasões bárbaras dos povos do Norte, vencendo-os na Polônia e na Boêmia. Quando defrontaram os eslavônios, muito superiores em força, Santo Henrique determinou preces coletivas e a comunhão geral do exército. Ao se apresentarem as primeiras tropas para o combate, verificou-se pânico súbito entre os inimigos que, desorganizados, fugiam em debandada. Os anjos combateram e derrotaram os eslavônios. Os inimigos se submeteram, ficando Boêmia, Morávia e Polônia tributárias do Sacro Império.

    Promoveu, a seguir, uma reunião de bispos em Frankfurt, com o objetivo de fomentar a disciplina eclesiástica nos seus estados.

    Por duas vezes teve que subjugar os lombardos, que ameaçavam os Estados Pontifícios. Na primeira vez, após submetê-los, foi coroado, em Pavia, Rei da Lombardia, cingindo a célebre coroa de ferro desse reino. Numa segunda vez, sua atuação foi além da pacificação dos lombardos, pois graves problemas afligiam a Igreja: o antipapa Gregório movia disputa contra o legítimo Papa Bento VIII. Por esses dias do ano de 1014, em plena Idade Média, portanto, recebeu ele e a Imperatriz uma das maiores homenagens de suas vidas: visitando o Papa, foram solenemente coroados Imperadores dos Romanos.

    O Pontífice presenteou o santo com um globo de ouro cravejado de pérolas, encimado de uma cruz, emblema de dignidade imperial. O monarca, dignificado por tantas honras e para perpetuar a lembrança dessas homenagens, transferiu o globo e a coroa às mãos de Santo Odilon para dotar o célebre mosteiro de Cluny, do qual este era abade.

    Outra oportunidade teve ainda o monarca de concorrer para o bem da Cristandade. Aproximou-se de Estevão, Rei da Hungria, príncipe ainda pagão e que carecia vir com seu povo ao grêmio das nações cristãs. Santo Henrique ofereceu-lhe aliança e sua piedosa irmã, Gisela, por esposa. Ganhou ele um Santo Estêvão, cuja conversão foi maravilhosa, um grande rei para a Igreja e um santo para o Céu.

    Teve de empenhar-se novamente em campanhas na Itália. Enquanto consolidava os estados no interior, e assegurava a paz com os vizinhos de Leste, os lombardos, associados aos gregos e normandos, assolavam as províncias da Itália. O monarca preparou-se para castigá-los. Derrotou-os em várias batalhas, repelindo uns e subjugando outros. Reintegrou a Igreja na posse das terras invadidas, ocupou Nápoles, Salerno e Benevento e restabeleceu a paz na península.

    Ao voltar para a Alemanha, teve com Ricardo, o Bom, Rei dos franceses, a célebre entrevista do rio Mosa na qual se entenderam amistosamente os dois príncipes acerca dos grandes problemas cristãos e políticos da Europa. Dispunha o cerimonial que o encontro se desse no meio do rio, cada um em seu barco. Santo Henrique, em atenção às virtudes do príncipe francês, resolveu quebrar os rigores do protocolo: atravessou o Mosa com seu séquito e foi saudar o Rei da França na margem oposta(1).

    Invasão dos bárbaros e início da Idade Média

    A ficha é um pouco longa, pois a vida desse santo é tão cheia de atos memoráveis, que dela não se poderia ter uma ideia sem que vários elementos de sua biografia fossem mencionados. Para compreendermos bem o conjunto desses fatos, é preciso situá-los em seu contexto histórico: plena Idade Média, no ano de 1014.

    Como é sabido, a Idade Média se iniciou com a queda do Império Romano do Ocidente. O Império Romano foi invadido por uma quantidade incalculável de bárbaros, completamente selvagens, os quais, estabelecendo-se no território do Império, sujeitaram os romanos ao seu domínio.

    Aos poucos, toda a antiga população romana foi caindo na barbárie também. Então, as estradas não tinham mais quem delas cuidasse; os aquedutos que levavam água às cidades se rompiam; as cidades afundavam na sujeira; os palácios eram agora habitados por bárbaros selvagens que se degradavam completamente; as obras de arte eram quebradas nas ruas. Em suma, tudo o que pudesse representar civilização e cultura era miseravelmente liquidado.

    Aos poucos, sob o bafejo da Igreja — a única organização que continuou a existir depois que tudo se dissolveu —, a Europa foi sendo reconduzida ao estado de civilização. Os bárbaros se converteram e, então, foram progredindo, à semelhança de uma tribo selvagem aonde chega um missionário.

    Desta maneira — por mais que ainda estivesse abaixo do que ela estaria duzentos ou trezentos anos depois —, por volta do ano 1000 a civilização já se encontrava bastante adiantada no que diz respeito ao estado originário dos bárbaros. Ou seja, trata-se de um estado semibárbaro.

    Ademais, alguns povos eram mais civilizados do que outros, havendo, portanto, dentro do continente europeu, ilhas de Cristandade, ilhas de Civilização Católica incipiente no meio de conglomerados de povos que, sendo bárbaros pagãos, estavam sempre atacando e lutando de maneira a tornar a vida dos católicos dificílima.

    Formação do Sacro Império Romano Alemão

    O povo germânico, que ocupava mais ou menos o território onde hoje se situa a Alemanha, a Áustria, parte da Checoslováquia e a Suíça, foi um dos primeiros a se converter. Após se civilizarem, os germanos constituíram uma entidade política chamada o Sacro Império Romano Alemão.

    No fundo, tratava-se de uma liga dos povos cristãos contra a barbárie. E, como essa liga abrangia uma extensão grande de território, chamavam-na Império; Romano, por ser uma reminiscência do antigo Império Romano, que tinha abrangido toda a Terra; e, por fim, Alemão, pois o núcleo do Império eram as nações alemãs. Porém, acima de tudo, era um Sacro Império, pois sua principal finalidade consistia em defender a Religião Católica contra a agressão dos pagãos.

    Deus é quem dá a vitória

    Santo Henrique foi eleito Imperador do Sacro Império Romano Alemão, sendo colocado numa situação onde nem sempre a hagiografia popular mostra os santos. Ele estava à testa de toda a organização política da Europa de seu tempo, era o homem mais poderoso do continente. Mas, ao mesmo tempo, ele tinha a obrigação de ser o melhor político e o melhor filho da Igreja.

    Ele era, por excelência, o filho da Igreja, aquele que devia protegê-la em suas necessidades contra a barbárie. E como acontece sempre com os santos, ele desempenhou magnificamente suas funções.

    Havendo hordas bárbaras que continuamente agrediam o seu povo, o santo monarca armou-se de força, constituiu um exército e o conduziu à guerra. Porém, por ser um herói católico, um homem de fé, ele sabia que não bastava lutar fazendo uso das forças humanas e naturais, mas era preciso contar com os recursos sobrenaturais. Por isso, ele pedia a Deus que lhe desse a força necessária para vencer.

    Então, para mostrar ao santo quanto suas orações Lhe eram gratas, em certa ocasião, Deus fez um grande milagre: no momento em que as tropas dos eslavônios, mais numerosas do que as germânicas, estavam prontas para o combate e os exércitos postos frente a frente, vê-se que os pagãos começam a fugir em debandada: os anjos haviam lhes aparecido, incutindo-lhes terror.

    Desse modo, Deus dava a entender como Ele considerava a oração: pela prece de Santo Henrique, Deus dispensou seus heróis do combate. Assim, a pressão pagã foi quebrada e uma das garras do paganismo, contra os católicos, liquidada.

    Reconhecimento pontifício dos serviços prestados

    Entre os inimigos da fé, havia também os lombardos, os quais tinham sua capital na cidade de Milão, hoje Itália, onde formavam um reino de hereges. Eles não eram propriamente pagãos, mas sim hereges arianos.

    Santo Henrique desceu, então, pela Lombardia, atacou os lombardos, quebrou-lhes o poder e foi depois até Roma, a fim de visitar o Papa. Foi nessa ocasião que o Romano Pontífice coroou-o, junto com sua esposa, Imperador do Sacro Império Romano Alemão, numa cerimônia realizada com grande esplendor. Deu-lhe também de presente uma esfera de ouro, cravejada de pérolas, representando seu poder sobre toda a Terra.

    Mas, para provar seu amor à Igreja, Santo Henrique não ficou com o tesouro: deu-o a Santo Odilon, Abade de Cluny, chefe da maior Ordem Religiosa da Europa naquele tempo.

    Voltando para a Alemanha, Santo Henrique derrotou novamente os lombardos, quebrando definitivamente seu poder.

    Insigne ato de apostolado e esplêndida manobra política

    Sendo um tão grande batalhador, Santo Henrique mostrou-se também um hábil político.

    Na Hungria, havia um rei que, apesar de ser pagão, era famoso por sua virtude. Compreendendo que, por demonstrar ser virtuoso, tal rei poderia ser atraído para a Religião Católica, ao invés de atacá-lo, Santo Henrique mandou pedir uma entrevista com ele, e ofereceu em casamento sua irmã, Gisela, de grande formosura e muito virtuosa.

    O Rei da Hungria, chamado Estêvão, aceitou. Gisela cumpriu a tal ponto sua missão de converter o rei que este se tornou um santo da Igreja Católica, o qual converteu toda a Hungria.

    Com isso, por uma manobra diplomática inteligente e muito bem sucedida, o Imperador estendeu os limites da Cristandade até além do Danúbio, conquistando um amigo onde ele tinha anteriormente apenas inimigos.

    Grande por ser católico

    Já naquele tempo havia uma secular rivalidade entre alemães e franceses: povos com índole e temperamento diferentes, e com questões de fronteira complicadas de resolver.

    Mas, nesse tempo, a França era governada por um muito bom rei, e o Sacro Império Romano Alemão por um santo imperador. Pelo que, um acordo entre ambos não foi difícil. Santo Henrique, muito bom diplomata, quis ter um encontro com esse rei para ajustarem todos os problemas políticos da Europa, porque os dois principais países da Europa cristã eram a Alemanha e a França. Então, foram encontrar-se junto ao rio Mosa.

    O protocolo mandava que, por serem dois soberanos importantes, nenhum fosse à terra do outro, pois aquele que fosse à terra do outro, por assim dizer, prestava homenagem à importância do outro. Então, deveria ser feito um encontro no meio do rio, em duas barcas. Trata-se de um rio de curso de água tranquilo, onde esse encontro comodamente podia ser feito. Preparou-se a barca do Imperador, assim como a do Rei da França.

    O Imperador, sendo mais importante que o Rei da França, embora esse fosse muito importante também, podia pretender que o rei fosse ao seu território. Mas sendo um homem cheio de espírito católico, e bom diplomata, Santo Henrique fez o contrário: entrou na barca e preparou uma surpresa ao Rei da França, atravessou o rio e desembarcou. Quer dizer, o que era mais foi prestar homenagem ao que era menos, fazendo sentir pela sua atitude cordial que ele estava cheio de boas disposições, de boas intenções. De fato, realizaram-se então conversações muito cordiais, que concorreram para a paz dos dois países e para regular todos os problemas da Europa daquele tempo.

    Essa é a história de Santo Henrique: Um grande católico e um grande santo, que por ser católico, foi grande rei, grande militar, grande guerreiro, grande diplomata, grande político, morrendo aureolado de toda espécie de êxitos e sucessos.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 14/1/1970)

     

    1) Não possuímos referência da ficha comentada por Dr. Plinio nessa ocasião.

    Errata: Por um erro na transcrição da conferência feita por Dr. Plinio em 25/6/1976, no artigo desta seção do mês passado (junho), registrou-se, nas páginas 10 e 11, o termo “hermetismo” ao invés de “eremismo”, o qual representa um neologismo criado por Dr. Plinio para significar a vida enclausurada, religiosa, eremítica.

     

  • São Francisco Solano, um apóstolo exímio!

    Para agradar o povo, São Francisco Solano costumava andar pela cidade tocando violino e cantando canções populares. Vendo-o, as crianças se interessavam e logo o seguiam. Ele, então, parava e ministrava-lhes um curso de Religião.

    Ora, como acorriam inúmeras crianças para esse gracioso catecismo, os mais velhos ficavam curiosos e também passavam a comparecer.

    Quando percebia que também os pais estavam bastante empenhados em assistir ao curso ministrado para os filhos, ele transformava a aula em sermão e increpava os maus hábitos renascentistas que se espalhavam em seu tempo, incutindo naquelas pessoas o desejo de praticar a virtude.

    Ou seja, pela candura dos inocentes ele formava uma roda de pessoas e fazia um apostolado exímio.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 18/8/1974)

  • O papel do belo sensível no conhecimento humano

    No ambiente medieval, iluminado pela luz da Igreja Católica, o “pulchrum” sentia-se em casa, como a lamparina no candelabro. Os primeiros sintomas da decadência da Idade Média se manifestam quando o belo, em vez de servir à pureza e à ortodoxia, começa a ser empregado nos romances de amor e coisas análogas.

     

    O  homem tem em comum com o anjo uma cognição intelectiva, a qual faz com que seja capaz de ver o “pulchrum” em certas coisas pelo raciocínio. Como considerar o “pulchrum”, na distinção entre a visão angélica e a humana?

    Necessidade da beleza sensível para o conhecimento humano

    Há no homem algo inferior ao anjo por onde essa cognição meramente intelectiva não lhe satisfaz, e precisa ser completada com a beleza sensível.

    O que falta na cognição do homem para o belo sensível ser necessário? O anjo conhece a essência da coisa, enquanto o homem precisa do “pulchrum” sensível para ter uma ideia exata. O ver dá um conhecimento direto que o espírito angélico possui, e a nossa inteligência não tem.

    Não se trata de um defeito do homem, mas é uma característica por onde ele é inferior ao anjo. “Minuisti eum paulo minus ab angelis… — Fizeste-o pouco menor do que os anjos…”(1). Mas o homem não é, por isso, um aleijado, um estropiado. 

    Há, contudo, uma coisa na influência do “pulchrum” sobre o homem que é especialmente interessante.

    Em nossa natureza concebida no pecado original, a capacidade que a vontade tem de se revoltar contra a razão — capacidade defectiva, má — é diminuída e, às vezes, como que congelada pelo “pulchrum”. Quando o homem se encontra diante de certas formas de beleza, ele fica como que paralisado, sem poder agir mal. Isso indica que esse modo inferior de conhecer dá à inteligência uma superior capacidade de controlar sua serva, a vontade.

    E aqui entra um ponto muito importante para a perseverança do homem: até onde o “pulchrum” pode ser levado, em todos os seus aspectos, de maneira a garantir uma estabilidade, a maior possível, secundando a ação da graça?

    É preciso notar que, a partir do Renascimento, certas formas mais ativas de beleza fugiram do acampamento católico e começaram a luzir no acampamento da Revolução.

    No ambiente medieval o “pulchrum” sentia-se em casa, como a lamparina no candelabro. Antes de a Idade Média começar a decair, o mal era feio. Os primeiros sintomas da decadência se dão quando o belo parece ter mudado ligeiramente de acampamento e, em vez de servir à pureza e à ortodoxia, começa a ser empregado nos romances de amor e coisas desse gênero.

    A beleza existente no Paraíso terrestre ajudava o homem a resistir à tentação

    Imaginemos um Paraíso terrestre do qual o ser humano não tivesse sido expulso. Pelo fato de tudo ali ser belo, o homem teria uma certa dificuldade para cometer alguma falta, reduzindo ao mínimo a probabilidade de pecado, pois as condições terrenas fariam com que o aspecto e o modo pelo qual as coisas atingiriam os sentidos, tornasse notório para o ser humano o absurdo que havia no uso não reto ou no conhecimento superficial das criaturas.

    O homem, no Paraíso, conhecia os animais pelo que havia mais de interno na natureza deles, e dava-lhes o nome. Como corolário disso, suponho que ele possuísse também um conhecimento, muito mais profundo do que tem hoje, de todo o resto da natureza. Esse conhecimento não podia ser uma mera notícia, mas um conhecimento analítico, ordenado a conhecer melhor a Deus, a ver a imagem e semelhança do Criador nas criaturas.

    Isso tornava a sabedoria natural sumamente apetecível pelo homem nos seus impulsos naturais. E o ser humano inteiro caminhava para a sabedoria natural, não só levado por sua inteligência, mas também pela atração, que fazia com que todo o jogo de sua personalidade se sentisse atraído para isso. Mas também o mau uso da coisa natural tornaria muito mais patente ao homem que ele estava violentando e prejudicando aquilo, agindo contra a natureza.

    Tomemos, por hipótese, um descendente de Adão que fosse tentado pelo demônio a agir irrefletidamente diante de uma ave bonita, digna, por exemplo, um faisão, e desse um pontapé no faisão e o machucasse. Tornar-se-ia muito mais sensível aos seus próprios olhos e de todos os outros homens, o horror da intemperança e o que esta deixou de feio nele.

    A beleza da temperança e o pânico de pecar contra a temperança protegeria muito esse homem contra o risco de tentação, embora ele estivesse em estado de prova. Quer dizer, ele podia ser tentado, mas seria muito protegido contra o risco de cair na tentação.

    Deus quis que o homem estivesse em estado de prova, e que no momento da tentação houvesse uma ilusão possível no espírito humano, como existiu no caso do fruto proibido. A tal ilusão maldita por onde o homem tem uma convicção de razão de que não deve fazer uma coisa, mas acompanhada de uma espécie de vivência por onde lhe parece que a razão está sendo desmentida por uma experiência imediata, e, por mais evidente que seja o fato de que aquilo é mal feito, alguma coisa lhe diz que, se ele fizer, age bem. Essa evidência é dada por um descolamento entre o mundo das realidades sensíveis exteriores e a realidade profunda.

    Minha impressão é de que, no Paraíso, isso se daria muito menos, pois talvez o homem só pudesse ter essa queda por uma tentação do demônio, porque sua natureza íntegra não estaria inclinada ao pecado.

    Devido ao pecado original rompeu-se o equilíbrio no homem

    Com o pecado original, quebrou-se o equilíbrio e o homem ficou habitualmente tentado a não ver o belo como corolário normal do” verum” e do “bonum”. E, por causa disso, sujeito a toda espécie de arbitrariedades: fazer o belo que não é “verum” nem “bonum”; ou, pelo contrário, optar pelo “verum” e “bonum” e rejeitar o belo.

    Com isso, ele conhece menos e está muito mais sujeito a uma revolta, porque fica propenso a amar um “pulchrum” que não é “verum” nem “bonum”, sujeitando-se, assim, a toda espécie de desordens.

    Põe-se, então, a pergunta: o que o conhecimento do “pulchrum” acrescenta ao conhecimento do “verum” e do “bonum”? Nos eclipses do “pulchrum”, a que o homem fica sujeito?

    Eu seria levado a dizer que a verdade só é cognoscível inteiramente quando se a conhece também bela. Há qualquer coisa no conhecimento puramente intelectivo da verdade, por onde falta algo.

    Daí vinha o interesse com que eu sustentava a conveniência do Céu Empíreo. É para que o homem pudesse ter algo na sua natureza por onde ela inteira fosse apta, orientada propriamente a degustar.

    Como temos uma natureza animal, embora nossa cognição intelectual seja inteiramente suficiente, a nossa natureza aspira por ter a notícia animal, a qual equivale, para a natureza animal, ao que para a natureza intelectual é o conhecimento racional. E essa notícia animal tem que estar em correlação com o conhecimento intelectual. Se faltar uma correlação nesse ponto, há qualquer coisa de psicologicamente rompido dentro do homem. E a notícia animal do “verum” e do “bonum” só pode ser o “pulchrum”.

    A meu ver, essa distinção entre o conhecimento animal e intelectual no homem pode ser feita didaticamente, mas cada homem constitui uma pessoa integral, e não um anjo vivendo dentro de um animal, como a lâmina de uma espada no interior da bainha. Nós não estamos embainhados no animal. Deve haver, portanto, na nossa capacidade intelectual, um certo ponto por onde a notícia animal, enquanto tal, lhe acrescenta algo; como deve haver algo na notícia animal, susceptível de algum melhoramento pelo fato de ter sido compreendida.

    A riqueza do instinto materno

    Para exemplificar, eu mencionaria o seguinte: os Anjos têm entre si a relação maravilhosa que nós sabemos, mas não possuem a relação da paternidade e da maternidade, nem podem ter. Ora, esta relação acrescenta à nossa inter-relação uma beleza.

    O papel do Anjo da Guarda com cada um de nós é lindo. Mas, por algum lado, o amor materno é mais bonito enquanto causador, porque o Anjo não nos causou. E, no amor materno, é muito belo fazer a distinção entre o papel desse amor enquanto virtude, conhecida pela razão e seguida pela vontade, e enquanto instinto. O instinto materno faz parte da animalidade, mas acrescenta algo ao amor como é no homem, que faz com que Nosso Senhor tenha se comparado a uma galinha que quer reunir seus pintinhos sob as asas.

    No momento em que se percebe o instinto materno humano pôr-se junto com a razão para defender o filho, há uma riqueza que, por algum lado, é mais bonita do que o próprio Anjo da Guarda quando defende outra criatura. Então chegamos à conclusão de que, como o “pulchrum” é o deleitável da coisa, ele é indispensável ao instinto para que funcione.

    O que se passa, por exemplo, com o instinto materno?

    Ele conduz à tendência de imaginar o filho mais belo do que é; em atribuir-lhe qualidades mais altas para poder desenvolver-se inteiramente, enquanto instinto. De tal maneira as qualidades são necessárias num ser razoável, para que o próprio instinto possa exercer-se plenamente.

    Ademais, o instinto materno faz descobrir no filho algumas qualidades que outros não descobririam. Por outro lado, ao sublimar o filho, mas de um modo virtuoso, a mãe cria o ideal da educação.

    Poderíamos deduzir, então, que os símbolos, as pessoas, e tudo o que nos fala à nossa natureza humana integral, corpo e alma, devem fazê-lo, tanto quanto possível, consociados com a beleza e com o deleitável da coisa, de maneira a atrair a vontade inteira.

    Isso é um postulado do que a ordem natural das coisas tem de mais profundo, porque quando o “verum” e o “bonum” são vistos naquilo que é deleitável pela natureza humana, em virtude dos instintos, há um ato mais completo. E, debaixo de certo ponto de vista, poder-se-ia dizer mais inteiro do que o angélico.

    Temos uma melhor noção dessa realidade ao considerarmos, como acima fizemos, o modo pelo qual o amor angélico — em si, muito maior que o humano —, carece de qualidades que só o amor de mãe possui.

    Encarnando-Se, Deus quis honrar toda a Criação

    Uma pergunta muito bonita seria a seguinte: Tendo o Verbo de Deus, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Se feito carne para habitar entre os homens, não haverá conexo com isso um dizer de Deus aos homens que é, por alguns lados, mais alto do que o dizer de Deus aos Anjos?

    Fico muito na dúvida, porque não refleti ainda sobre isso e, infelizmente, não tive tempo de ler sobre a Encarnação do Verbo o suficiente para dar uma resposta. Mas acho que é possível haver aí um caminho muito fecundo para uma série de interpretações das relações Deus-homem, a partir da Encarnação, de que não se tenha uma ideia exata.

    Por exemplo, uma outra questão: Muita coisa que Nossa Senhora sabe a respeito de Deus não foi dada aos anjos conhecerem, em parte e a um título secundário, por causa da natureza humana d’Ela?

    Que Deus pode ter revelado a Ela coisas que não revelou aos anjos, isso eu dou por certo. Entretanto, algo disso teria sido em consideração à natureza humana d’Ela? Aí vem todo o mistério da Encarnação.

    Quem sabe se Lúcifer, ao tomar conhecimento da criação dos homens, e sendo-lhe revelada a Encarnação, revoltou-se ao saber que uma criatura tão inferior quanto o homem seria capaz de alguns conhecimentos que ele, anjo, não poderia ter…?

    A afirmação de que Deus, encarnando-Se, quis honrar toda a Criação, contém uma profundidade talvez meio inexplorada para um bom número de estudantes de Teologia. v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 7/3/1984)

    Revista Dr Plinio 196 (Julho de 2014)

     

    1) Sl 8, 6.

     

  • O temperamento medieval

    Pode-se falar em temperamento ideal, modelo para o homem contemporâneo? Partindo da descrição do ambiente de um castelo medieval, Dr. Plinio responde a esta pergunta ao expor o temperamento que caracterizava o homem e a sociedade durante a Idade Média, mostrando o que nele há de perene e válido para os povos de todos os tempos.

     

    Em primeiro lugar, devemos procurar definir o que entendemos por temperamento nesta exposição.

    Os diversos tipos de temperamento

    Sabemos que as espécies animais têm um temperamento coletivo, ou seja, próprio a toda a espécie.

    Chamamos de temperamento a uma certa nota fundamental que comanda e marca todas as manifestações de vida do animal. Assim nós podemos dizer que a águia tem um temperamento que não é o da pomba. O leão tem um temperamento que não é o do cordeiro. São entes irracionais nos quais o comportamento não decorre de nenhum modo de um pensamento, de uma reflexão, de uma doutrina, mas de algo que existe espontaneamente dentro deles.

    E toda espécie — os leões, por exemplo — tem um temperamento.

    Podemos dizer que o leão é feroz, majestoso e seguro. Não podemos afirmar, no mesmo sentido da palavra, que um gato é feroz, mas sim que ele tem sua ferocidade, suas seguranças, suas distinções; mas o gato é variável e tem um temperamento diferente do temperamento do leão.

    Podemos dizer que dentro de uma mesma espécie os indivíduos têm temperamentos diferentes. Assim, de águia para águia, de cordeiro para cordeiro, de pombo para pombo, de leão para leão, de gato para gato há diferenças temperamentais também.

    Transpondo isso para a escala humana, veremos que no homem o temperamento é algo ligado à biologia, ao corpo, à vida animal do ser humano, e que influencia, impregna, marca tudo aquilo que o homem faz. De maneira que todos os primeiros movimentos, as primeiras ações, as primeiras reações, os primeiros impulsos e, às vezes, muito mais do que os primeiros, são influenciados pelo que esse temperamento tem ou por aquilo que lhe falta, isto é, pelas carências desse temperamento também.

    Nesse sentido, podemos afirmar existir também temperamentos de países. Há países com temperamentos diferentes uns dos outros.

    Por exemplo, um prussiano e um italiano têm um temperamento marcadamente diverso. Muito menos diversos — porque na América do Sul as diferenças são menores —, mas também muito característicos, são os temperamentos do brasileiro, do argentino e do chileno.

    Se quiséssemos aprofundar, poderíamos dizer que há diversidade temperamental de região a região, de cidade a cidade, e de indivíduo a indivíduo.

    Tudo isso é conhecido, mas estou apenas lembrando para facilitar o desenvolvimento do que passarei a expor. 

    Assim como as nações, também as épocas históricas têm o que se poderia chamar “temperamento coletivo”.

    Quando vemos, por exemplo, fotografias de pessoas da “Belle Époque”(1), isto é, dos anos que se estendem mais ou menos das últimas décadas do século XIX até o começo da Primeira Guerra Mundial, notamos todos os homens com o peito erguido e posto para a frente, colarinhos e gravatas grandes, bigodões e umas fisionomias imponentes.

    Aquilo não é mera representação, mas entra muito do estilo de vitalidade que o ocidental tinha naquele tempo, e que é uma vitalidade um pouco à Kaiser.

    Se consultarmos um livro de gravuras do século XVIII, anterior à Revolução Francesa, compararmos com o período da Revolução Francesa, e depois com os anos de 1850, portanto, bem antes da “Belle Époque”, notaremos uma diversidade enorme de temperamento, que corresponde até a uma diferença de estrutura física.

    Essas notas temperamentais, no homem, não ficam reduzidas puramente ao animal. Os reflexos da alma são condicionados pelo corpo, mas a ação dos princípios, das condições, dos hábitos modela, por sua vez, o físico. Há, portanto, o que se chama uma interação, uma ação recíproca alma-corpo, corpo-alma, que faz com que as coisas se componham e o temperamento de uma determinada época seja a resultante de determinadas condições biológicas e fisiológicas, mas também de um certo estilo de vida e de pensamento, de um certo gênero de atividades que as circunstâncias da época impõem. Assim, são muitos os elementos que modelam o temperamento da época.

    Se explicitarmos estas ideias, chegaremos à conclusão de que há um temperamento pró-revolucionário e outro contrarrevolucionário.

    O temperamento contrarrevolucionário é o do homem medieval, quando a Idade Média chegou à sua plena expressão.

    O temperamento que é pró-revolucionário ou, se preferirem, o temperamento revolucionário é o que foi entrando no modo de ser do homem a partir do momento em que a Revolução começou.

    Quando vemos gravuras, iluminuras, vitrais, castelos, tapeçarias, armas da Idade Média, somos introduzidos pelo espírito para um ambiente que forma um temperamento muito diferente do que se constituiu nas épocas posteriores da Renascença, do protestantismo, do “Ancien Régime”(2) ou de nossos dias.

    Haveria, para o homem contemporâneo, um modelo de temperamento segundo o qual ele se deve adequar?

    O temperamento medieval

    A meu ver, esse modelo se encontra — não ponto por ponto, para ser copiado exatamente, mas ao menos nas suas linhas gerais — na Idade Média.

    Vou tentar descrever o temperamento medieval para depois mostrar que consonância isso tem com a Doutrina Católica. Por esta forma compreenderemos o que há de perene nisso, válido para todos os povos de todos os tempos.

    Creio que poderíamos ter um pouco a ideia disso fazendo o seguinte trabalho interior, de ordem psicológica.

    Tomemos qualquer castelo medieval e imaginemos que devêssemos viver, não trancados nele, mas envoltos em sua atmosfera a vida inteira.

    Torres altas, portas com ponte levadiça suspensa, fosso do lado de fora. Quando entramos no castelo, aparece um guarda no alto da torre, olha e, conforme for, baixa a ponte. Atravessamos uma espécie de corredor entre duas portas, formado por duas torres enormes, sombrias. Olhamos para cima e vemos buracos feitos para descerem barras de ferro em caso de batalhas, e impedir o inimigo de entrar.

    Transpondo esse longo corredor, temos a sensação de estar calcando aos pés a base do castelo, na qual nós sabemos que há armazéns, depósitos e também prisões sombrias onde se encontram homens acorrentados, às vezes acorrentados junto à parede, e que recebem a luz do dia por uma réstia de sol vinda através de uma seteira.

    No pátio do castelo tem um poço, e a presença do poço nos sugere uma profundidade enorme da qual a água é tirada. Em alguns desses poços joga-se uma pedrinha, e até a pedrinha bater na água e fazer barulho, pode-se acompanhar no relógio, tal é o percurso que a pedra tem a fazer.

    Não há água encanada nos quartos nem todas as comodidades daí decorrentes.

    Olhamos para cima, muralhas altas. De repente detemos a atenção sobre a estrutura de ferro que encima o poço, com a roldana e o balde, e é uma peça graciosíssima, um ferro delicado terminando em cima por uma flor de lis sobre a qual está um passarinho se sacudindo, todo alegre.

    Um pouco mais à frente está uma capela. Do lado de fora do pórtico, uma Madona risonha com o Menino Jesus no colo. Entramos na capela, é uma joia: vitrais, santos austeros no alto dos altares, candelabros grossos com velas grossas, bancos de carvalho, o assento do senhor feudal colocado junto a um trono; tudo leva a uma espécie de recolhimento, de sacralidade.

    Fazemos uma oração diante do Santíssimo Sacramento presente na capela, saímos e olhamos para a casa do senhor feudal.

    Na pracinha pública interna do castelo ouvem-se vários ruídos: é o ferreiro trabalhando, outro que trabalha em couro, o carpinteiro que, cantando, está fazendo um móvel. Sente-se um cheiro de comida que sai da cozinha da habitação do senhor feudal.

    Do lado de fora do terraço de sua residência, o senhor feudal sentado num trono de pedra e, a seus pés, pessoas discutindo. Ele está julgando causas, por vezes triviais, de súditos em litígio: é a propriedade de um boi, quando não de um porco… E a coisa é discutida, às vezes, calorosamente, de camponês a camponês.

    O senhor feudal, que é um guerreiro, mas também um camponesão, ordena: “Cale a boca!” E, dirigindo-se ao outro súdito, diz: “Agora é você quem fala”. Se o sujeito não obedece, ele chama um alabardeiro. Este vem portando na cabeça um capacete de ferro, revestido de uma cota de malhas, cingindo uma espada e, com uma alabarda, ameaça o rebelde que, por fim, fica quieto.

    Se entrarmos na casa do senhor feudal, encontraremos um ambiente bonito, tapeçarias vindas do Oriente, novamente vitrais majestosos, lindos móveis de carvalho, ouve-se uma voz melodiosa, e é a castelã que canta acompanhada de um alaúde, e a castelã tem cabelos louros e que estão trançados com pérolas ou com pedras vindas de não sei onde, seda vinda de não sei onde, e os filhos do senhor feudal estão num outro quarto aprendendo a ler e a escrever. É a vida cotidiana do castelo.

    Imaginemo-nos chamados a viver um ano nesse ambiente pomposo, enorme, forte, onde os aspectos mais graciosos, mais mimosos contrastam com os aspectos mais guerreiros e sombrios.

    Quem de nós garante que, ao cabo de um ano, não estaria com saudades da respectiva capital onde mora? E de onde vem a incerteza de que conseguiríamos viver no castelo?

    Estou certo de que, ao transpormos os umbrais do castelo, ficaríamos encantados. Não se trata, portanto, de uma objeção doutrinária, mas de uma falta de integridade na adesão temperamental.

    Nisso vemos bem um choque entre o temperamento medieval e o nosso. E enquanto não conhecermos a razão desse choque e não tratarmos de tender para esse temperamento, não estaremos modelando nosso temperamento segundo a sã doutrina, e haverá um conflito entre nossos princípios, que são conformes àquilo, e nosso temperamento, contrário àquilo. Isso provoca uma ruptura interna.

    O que parece contrariar o homem contemporâneo

    Caberia aqui descrever quais são os traços do temperamento medieval, e no que esses traços me parecem contrariar o homem contemporâneo, dando-lhe uma sensação de claustrofobia. Esses traços são próprios a qualquer civilização cristã, pois defluem da Doutrina Católica.

    O fundo do temperamento medieval é uma certa estabilidade, por onde o medieval é animado pela noção de que tudo aquilo quanto ele faz é destinado a uma longa duração, porque o normal é que todas as coisas durem muito, e até indefinidamente. E que as coisas novas não sejam o contrário, mas sejam um desdobramento harmônico das antigas.

    Tomemos uma catedral medieval como Notre-Dame, por exemplo. Quem a construiu teve a intenção de edificar uma igreja que devia durar até o fim do mundo. Assim, o intuito de quem fez aqueles castelos, muralhas, mosteiros, etc., era o de realizar obras perenes.

    Em cada século medieval há uma modificação na arte, mas sempre seguindo uma certa continuidade, por onde a enorme estabilidade não prejudica a mobilidade, porque esta se faz na linha do que já foi feito. É uma linha reta, coerente com o passado, e que se desenvolve indefinidamente.

    Isso tem uma repercussão no modo de ser das pessoas. Como o medieval é no que ele constrói, assim também é ele na direção de sua própria vida. Em geral um casal que se constitui na Idade Média, se muda de casa uma vez na vida é muito. Ele é mais pobre no começo da vida, a certa altura está mais rico e faz uma casa nova. Nesta casa ele fica até o fim de seus dias. Se a casa é grande, os filhos vão viver nela, e uma família inteira vai passar séculos naquela residência, considerando a hipótese de uma mudança como a coisa mais absurda.

    Se possui uma propriedade rural, a família se fixa ali. Eventualmente, pode até adquirir outra, mas não deixa aquela, e sempre haverá membros daquela família morando naquela propriedade rural, séculos e séculos. Naquele campo plantarão árvores que deverão tomar seu tamanho normal dali a cem anos, para os descendentes se beneficiarem, porque estão certos de que a família nunca sairá de lá. Tudo o que se faz é estável, sólido, durável.

    Também os hábitos familiares tendem a ser estáveis. As gerações de sucedem e vão se fixando no modo de ser da família que tende a ficar definitivo. É uma prodigiosa tendência ao estável, porém não ao imóvel.

    Notamos essa tendência nos gestos do homem medieval representados nas iluminuras. Se não está combatendo — única cena em que o homem da Idade Média avança com velocidade —, o medieval nunca aparece correndo. Ao vermos aquelas iluminuras, não temos a sensação da pressa.

    As pessoas pintadas num vitral, se estão em pé, dir-se-ia que criaram raízes no chão. Quando sentadas, tem-se a impressão de fazerem um só todo com a cadeira. As pessoas que estão trabalhando executam seu trabalho sem pressa e sem relaxamento, com normalidade e continuidade. E se estão se divertindo, são representadas com um aspecto mais leve e gracioso do que o da vida de todos os dias, e com uma nota de parêntesis de diversão em meio ao trabalho e à luta, convictas de estarem fazendo algo que é bom, na medida em que não seja feito sempre.

    Estabilidade, sabedoria, lógica e sublimidade

    A razão profunda dessa estabilidade é a virtude da sabedoria.

    Como a natureza humana é uma só, enquanto um todo, mas dotada de peculiaridades, conforme os povos, é razoável que as nações sejam organizadas de um determinado modo, as casas dispostas de um determinado jeito, a arte realizada de uma determinada forma e o progresso siga uma determinada linha. A razão iluminada pela Fé encontrou a fórmula. Trata-se de seguir nessa fórmula até o fim. Isto é um dos traços do espírito medieval.

    Esse traço tem o seguinte corolário.

    O homem medieval é amigo de levar todas as coisas sem afobação, sem ímpetos temperamentais, sem explosões. A explosão, o ímpeto, é um vício. Ele é legítimo na guerra, e explicável na diversão; fora disso, é considerado uma desordem.

    Por isso, na mentalidade, no espírito do medievo não há lugar para a contradição. Tudo se faz segundo imensas concatenações de raciocínios, imensos desdobramentos de ideias, fazendo com que no seu procedimento tudo seja uníssono e seu temperamento seja apetente de coerência, de harmonia, de uniformidade, de lógica.

    Essa apetência da lógica é um dos traços mais marcantes do temperamento medieval. Mais uma vez, a virtude da sabedoria, mas no que ela tem de mais alto.

    Pelo fato de ser lógico assim, o medieval tem uma alma profundamente feita para ser modelada pela Igreja, fonte da verdade e de toda a lógica. E por ser modelado pela Igreja, ele é movido por uma certa noção de que a linha-mestra do pensamento humano, o fim da contemplação e da apetência humana é o maravilhoso, o sublime, o elevado.

    Em qualquer coisa que o medieval faça, por pequena que seja, pode-se notar a presença de algo de sublime. O vulgar, se existe, é contrariamente ao espírito medieval. É como o crime ou a sujeira numa cidade: não estão de acordo com as regras da cidade; antes, são o contrário do que ela deve ser.

    Encontramos, então, mesmo no ambiente da vida medieval mais miúda, uma nota de seriedade, uma apetência de sublimidade que ladeia e coroa essa coerência, e faz com que tudo na Idade Média tenha um aspecto cerimonioso, protocolar, religioso, sacral, do qual o mundo de hoje está completamente despido.

    A vida familiar de um trabalhador manual

    Para exemplificar, não falarei das cortes dos reis, mas sim da vida e da família de um trabalhador manual.

    Na vida familiar de um trabalhador manual, o pai é um rei. Ele é tratado pela esposa com veneração, e pelos filhos com arqui-veneração. A sua palavra faz lei e o ambiente que o cerca é de verdadeiro respeito religioso. Este respeito se estende aos filhos maiores de idade, aos filhos casados, aos netos e aos netos casados, e ninguém ousaria tomar profissão, casar-se ou mudar de vida sem ouvir o parecer do patriarca e, em geral, sem pedir seu consentimento, pois sua vontade é absolutamente lei.

    Vemos, então, a vida medieval organizada em torno de homens respeitáveis, sólidos, sérios, que encontram uma espécie de glória em atingir a idade madura e até a sabedoria da velhice; que não têm, como o homem moderno, a preocupação de estar continuamente bancando o mais moço; nimbados pela experiência da vida, pelos grandes sacrifícios feitos, pelas lutas, pelas incertezas que tiveram ao longo da vida, e cujas palavras são recebidas como oráculo que afina sempre com a Doutrina Católica, suprema lei do pensamento e suma regra do procedimento humano.

    A chave de cúpula do temperamento medieval

    Naturalmente, subindo de classe social iremos encontrando isso mais requintado. Compreendemos, então, que tudo na Idade Média visava o sublime, o maravilhoso, visava o celeste, o angélico.

    A meu ver, esta é a verdadeira chave de cúpula do temperamento medieval. Esse horror ao vulgar, esse desejo do maravilhoso de maneira tal que na alma medieval há uma apetência de encontrar algo que nesta vida não se encontra. A arte medieval tende mais a pintar o Céu do que a Terra, colocando nossas almas diante de panoramas mais celestes do que terrestres.

    Um vitral banhado de luz, por exemplo, é muito mais um pedaço do Céu do que uma representação terrena.

    A atmosfera que banha os personagens de Fra Angélico é uma atmosfera celeste. A pompa de que se cerca um rei não é uma pompa grã-fina, não é uma exibição de dinheiro nem de força brutal. É a ostentação de uma finura sacral e de uma grandeza celeste. Quer dizer, o medieval está continuamente tendendo para o mais alto, para o mais sublime, para o celeste.

    Havia um equilíbrio extraordinário dentro disso. Não se trata do pomposo meio engomado do século XIX, no qual se tinha a impressão de que aquelas pessoas, se sorrissem, desmanchar-se-iam inteiras.

    O medieval não era assim. Ele compreendia e praticava o sorriso. Sorria com as coisas da natureza próprias a provocar o sorriso. Por exemplo, em catedrais medievais, em uma daquelas nobilíssimas colunas que se elevam até o começo de ogivas que vão até o teto, veem-se, de repente, um, dois, três esquilos de pedra “correndo” um atrás do outro. É uma brincadeira que o próprio escultor pôs naquela coluna tão séria. É um sorriso para esse lado risonho e aprazível da vida.

    Ou então, em um vitral, a figura de um santo ou de um rei sentado no seu trono, e junto dele um cachorrinho. O que faz ali esse cachorrinho? É o sorriso do artista. Tornou-se célebre o fato de tal duque, que esteve nas Cruzadas e realizou tal feito heroico, ter tido um cachorrinho. Então, na hora de pintar um vitral representando o duque como benfeitor da igreja, ou como senhor feudal do lugar, põe-se o cachorrinho ao lado do duque. É uma forma de seriedade, porém não engomada, como a do século XIX. É uma seriedade angélica, que vê o gracioso, o pequeno e se encanta, numa ascensão contínua para o angélico.

    Esse contínuo remeter para o celeste, para o religioso, repito, é a chave de cúpula da atmosfera da Idade Média; está presente em tudo e sem isso a Idade Média não se explicaria.

    Essa coerência medieval é feita de exclusões, de rejeições e de certezas. Tanta força de fé, tanta estabilidade, tanta coerência, fá-la capaz de grandes movimentos de alma.  Sai de dentro dessa grande estabilidade um grande “não” como um grande “sim”. Por isso, nessa época, a meditação da Via Sacra, por exemplo, tem por correlato o espírito guerreiro do medieval que vai para o combate libertar o Santo Sepulcro. Isso nasce da força do seu ato de Fé. Isso explica também como o medievo, tão estável, se deslocava, paradoxalmente, para imensas peregrinações a pé, de ponta a ponta da Europa.

    Tudo o que vimos como característica da Idade Média, na Religião Católica, constitui um matiz. E, a meu ver, Nosso Senhor Jesus Cristo foi assim, como também os Apóstolos. Na Europa medieval isso refulgiu com uma intensidade particular, tomando tal plenitude, a partir de Cluny(3), de maneira a conquistar o mundo inteiro. v

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 12/2/1971)

    Revista Dr Plinio 196 (Julho de 2014)

     

    1) Do francês: Bela Época. Período entre 1871 e 1914, durante o qual a Europa experimentou profundas transformações culturais, dentro de um clima de alegria e brilho social. Ver Dr. Plinio n. 172, p. 29-31.

    2) Sistema social e político aristocrático em vigor na França entre os séculos XVI e XVIII.

    3) Abadia beneditina francesa que deu início a um importante movimento de reforma espiritual e cultural da Europa.

  • Equilíbrio, força e obediência

    Além de precisas, lógicas e claras, as exposições de Dr. Plinio frequentemente eram ricas em reversibilidades. Comentando um belo salto realizado por um cavaleiro em Andaluzia, ele analisa o céu, o campo, o cavalo, o cavaleiro, comparando este com o marinheiro e o aeronauta. E afirma que as qualidades do animal equino, transpostas para a natureza humana, definem o autêntico membro do Movimento por ele fundado.

     

    A figura que vamos comentar caracteriza uma pessoa dando um salto a cavalo. É uma das mais belas, fiéis e expressivas manifestações da coragem humana, naquilo que ela tem de mais bonito, que é a capacidade de ousar e de avançar.

    Sempre mais cristãos atrevimentos

    O ápice da posição da alma humana consiste em crer, não em qualquer religião, mas na única Religião verdadeira que é a pregada pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Quando o homem acredita nas verdades ensinadas pela Igreja, elas projetam uma luz sobre sua alma que o ilumina e o torna capaz, por amor àquelas verdades, de empreendimentos extraordinários. É aquilo que o nosso grande Camões chamava “cristãos atrevimentos”(1).

    No tempo desse autor português, as esquadras de Portugal cobriam os mares que levavam até a Índia, Japão e China, ou chegavam a pontos ainda ignorados do Brasil. Essas naus eram impulsionadas, em parte, pelo desejo de lucro dos mercadores, que fretavam e organizavam as esquadras; mas eram movidas principalmente pelo anseio de expandir a Fé Católica.

    Então, Camões desejava que as naus navegassem para sempre mais “cristãos atrevimentos”.

    Quando se está em Portugal, é uma beleza contemplar a Torre de Belém, de onde partiam as esquadras, e os reis iam ver, na foz do Tejo, os navios prontos se encherem das respectivas tripulações e partirem para lugares, por vezes inteiramente ignotos, para sempre mais cristãos atrevimentos.

    É bonito ver o espírito humano posto nesta impostação da Fé, diante do tremendo desconhecido que era o mar naquele tempo, utilizando uns barquinhos que eram umas cascas de noz, em comparação com os navios mercantes de nossos dias. É belo contemplar o homem neste arrojo, no momento em que ele ousa, empreende e parte.

    O cavaleiro, o marinheiro e o aeronauta

    Nota-se muito menos essa beleza do espírito, na aeronáutica. Por quê? Porque na aeronáutica, com a parte material do avião e da técnica, devido a certo determinismo que há na máquina, mede-se perfeitamente e limita-se o grau de risco, que passa a ser muito menor do que o dos barquinhos de Colombo ou de Pedro Álvares Cabral.

    No barco, é uma beleza ver o homem flutuar sobre as incertezas dos mares e rumar para um alto ponto distante. E esta também é a pulcritude do cavaleiro, quando dá um grande salto a cavalo.

    Mas o cavaleiro tem uma vantagem sobre o marinheiro: aquele orienta uma coisa viva, mutável, cuja vitalidade e mutabilidade são governadas por ele. A vitalidade do cavalo depende de uma espécie de domínio, que eu chamaria de psicológico, do cavaleiro sobre o cavalo.

    O cavaleiro muito ousado dá ousadia ao cavalo; ele pesa sobre o cavalo, mas ajuda-o a carregar o peso. O cavaleiro e o cavalo formam, por assim dizer, uma só ousadia, uma só força, e participam de um só voo.

    Nessa fotografia, vemos o que é este voo do cavalo e, por cima dele, o voo do cavaleiro, de onde vem a impressão de que quase tudo ali é a alma do cavaleiro.

    O cavalo constitui uma massa viva maior do que o cavaleiro, mas este, porque tem vida humana, possui mais domínio do que o cavalo. Também o corpo do cavaleiro ocupa uma matéria viva maior do que sua cabeça, mas esta tem a direção e, por causa disso, vale mais do que o corpo. Assim, a parte menor, onde cintila a inteligência, tem a responsabilidade e a glória pelo todo.

    Duas ascensões simultâneas

    Faço notar alguns pormenores realmente admiráveis.

    Temos três elementos: dois que constituem o cenário, e um representado pelo cavalo e cavaleiro. Poder-se-ia dizer que são o contexto e o texto.

    O céu da Andaluzia(2) é exatamente assim. Não há, portanto, embelezamento por meio de efeitos fotográficos. Se devêssemos imaginar o céu da eternidade, uma das ideias mais próximas seria essa.

    Considerem o campo, a terra. É curioso, mas todas as coisas têm uma adequação própria. Sou entusiasta da grama inglesa, cor de esmeralda. Realmente é uma coisa admirável! Entretanto, se aqui houvesse essa grama, não daria certo. Essa vegetaçãozinha tem exatamente a altura que deveria ter; não deveria ser um chão raso, mas também não poderia ser uma grande vegetação. Precisava ser assim, para que, entre este solo e este céu azul, se realizasse este grande feito, fruto da força de alma.

    Analisemos o cavalo. Ele está numa posição em que a luz bate nele com uma beleza perfeita, e o ilumina como talvez um artista não pudesse ter imaginado a iluminação. Notem como as formas do animal ficam evidenciadas, a musculatura, toda a força de corpo que faz dele uma espécie de avião de vida, posto nos ares.

    À vista dessa luz, pergunta-se: este é um céu matutino ou vespertino? A indagação tem certo interesse, porque em função da resposta pode-se interpretar melhor a cena. Esta fica mais bonita imaginada de manhã ou à tarde?

    Tenho a impressão de que é o céu da manhã. Há uma vitalidade matutina, uma alegria da natureza toda que desperta, causando a impressão de existir qualquer coisa de um desígnio de Deus realizado, no momento em que o Sol acaba de nascer, as luzes enxotaram as trevas da noite e o dia começa a dominar tudo. Então o Sol sobe, o cavalo e o cavaleiro sobem também. Há, portanto, duas ascensões simultâneas. Dir-se-ia que o cavaleiro está radiante nessa subida de todas as coisas, e de ser o rei da natureza, elevando-se no meio dessa ascensão. É uma coisa bonita.

    Alegria de vencer o risco

    Outro aspecto a considerar é o risco, porque o salto pode dar errado, e o cavaleiro quebrar a espinha, tornando-se um homem liquidado. Mas ele não está pensando no erro nem no risco. Vê-se que ele previu tudo e sabe perfeitamente o que precisa fazer com o cavalo; possui a alegria de vencer o perigo para o qual já tem a vitória assegurada. Por isso, não tem o medo do risco, mas a embriaguez da vitória.

    O cavaleiro tem amarrado ao pescoço um lenço que o vento movimenta. Observem a forma heroica que o lenço toma. A ideia da confrontação com o vento que, por sua vez, faz levantar o lenço como o homem faz erguer o cavalo, o lenço tremulando atrás do cavaleiro; tudo isso dá a impressão do heroísmo, da vitória, da palpitação da glória.

    O chapelão dele indica que é um de homem disposto a qualquer aventura.

    Observem, agora, a crina do cavalo. Dir-se-ia que ela está tomada por um incêndio frio; a crina suspensa pelo vento parece uma labareda.

    Os olhos do cavalo, um pouco arregalados diante do perigo, por ter menos segurança do que aquele que o dirige — o animal só tem o instinto —, entretanto como que está devorando o perigo. Sua boca está meio aberta. Dir-se-ia que ele está com fome de mastigar o risco. Vejam o movimento delicado das patas dianteiras! Ele todo está voando.

    Distância psíquica

    Em certo sentido, essa foto emoldurada constituiria um quadro que se poderia chamar: “Distância psíquica”(3).

    Uma pessoa entendida em equitação disse-me que para o cavalo estar em condições de realizar este salto, exige-se dele equilíbrio, boa musculatura e flexibilidade.

    Em termos humanos, flexibilidade quer dizer obediência, ou seja, fazer o que o cavaleiro manda. Equilíbrio poder-se-ia traduzir por equilíbrio nervoso; e musculatura por força. Equilíbrio, força e obediência é a definição do perfeito membro de nosso Movimento.

    O cavalo obstinado, com “vontade própria” e que encrenca, é de pouco valor, empurra-se de lado; o de categoria é o que “sabe” obedecer. O cavalo nervoso, agitado, incapaz de fazer o que o seu dono manda não vale nada; mas o que executa as ordens do seu dono, porque tem equilíbrio nervoso e força, este é o cavalo autêntico.

    São símbolos que Deus põe na natureza para a formação do homem. v

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 3/11/1990)

    Revista Dr Plinio 196 (Julho de 2014)

     

    1) Cf. Lusíadas, VII, 14.

    2) Região situada no Sul da Espanha.

    3) Expressão utilizada por Dr. Plinio para significar uma calma fundamental, temperante, que confere ao homem a capacidade de tomar distância dos acontecimentos que o cercam.

  • A mais nobre e elevada das alegrias

    Estamos numa época em que existe apenas contentamento pelas coisas do mundo. Quase ninguém tem a alegria da virtude. São Francisco Solano foi chamado por Deus para comunicar essa alegria, que não consiste em contar piadas, fazer brincadeiras, ser palhaço, mas em ter seriedade e procurar em tudo servir a Nosso Senhor Jesus Cristo.

    A ficha que vamos comentar refere-se à biografia de um Santo espanhol, São Francisco Solano, que foi apóstolo da América do Sul. Os dados dessa ficha são tirados de um livro escrito por um franciscano do Peru(1).

    Nobreza de sangue e de virtude

    São Francisco Solano foi uma figura suscitada pela Providência para fazer parte da Contra-Reforma espanhola. Ele nasceu em Montilla, na Andaluzia, em 1549, de família nobre. Seu pai foi duas vezes governador de Montilla, capital do marquesado de Priemo. Sua mãe, tanto pela nobreza do sangue quanto pela nobreza da virtude, era conhecida como “a nobre” no lugar.

    Esta conjugação da nobreza de sangue e da nobreza de virtude nos leva a evocar certo tipo de senhoras extraordinariamente virtuosas e dignas ao mesmo tempo, que houve no passado, em quem havia uma aliança maravilhosa entre a elevação de alma e a de maneiras. De forma que a elevação de maneiras não aparecia simplesmente como um adorno externo quase mecânico dos gestos e das atitudes, mas era a própria expressão da nobreza de alma da pessoa. E é grato ao homem encontrar formas exteriores elevadas que correspondam às interiores.

    Vemos, assim, a mãe de São Francisco Solano ser chamada “a nobre” por excelência, pela nobreza conjugada da virtude, do sangue e das maneiras. Esta era aquela a quem a Providência deu a missão de formar quem? O missionário dos índios mais botocudos da América do Sul.

    Esses são os contrastes dos desígnios da Providência. Quantas vezes ele teria se lembrado da “nobre”, atravessando as ruas da capital do pequeno marquesado de Priemo? Tudo isso tem a sua beleza e o seu sentido, e vale a pena registrar de passagem.

    Quando ela esperava o futuro Santo, o consagrou a São Francisco de Assis, donde o seu nome. São Francisco Solano recebeu uma formação sumamente cristã dos pais e a completou no colégio dos padres jesuítas de sua cidade. Ele mesmo era uma pessoa de bom porte, agradável conversação, bela voz e um raro senso musical.

    Como veremos, esses dotes foram todos previstos pela Providência para o esplendor de seu apostolado.

    Comunicar a alegria pelas coisas santas 

    Por influência do rei católico, para compensar o dano que a Religião sofria pela apostasia de muitos povos, houve um verdadeiro renascimento religioso na Espanha. Pelo seu zelo, brilhava entre as figuras desse renascimento religioso, na Ordem de São Francisco de Assis, o grande São Pedro de Alcântara. São Francisco Solano, atraído pelo exemplo e pelo prestígio de São Pedro de Alcântara e da Ordem Franciscana, saiu do colégio dos jesuítas e tomou o burel franciscano. Pelas suas virtudes e capacidades foi ele sendo designado logo para cargos diretivos. Caracterizou-se a virtude dele por uma nota: não tolerar que ninguém manifestasse em torno dele tristeza por estar servindo a Deus.

    Nada de caras compridas, aborrecidas, porque é dura a vida, pensando como sofre um pobre religioso… Quando a pessoa começa a ter pena de si mesma e ficar com cara comprida, entra num caminho em cujo fim está a apostasia. Então, é preciso dar a alegria do serviço de Deus, comunicar o júbilo das coisas santas.

    São Francisco Solano recebeu essa graça, quão rara e quão preciosa em nossos dias, de comunicar o gosto, a alegria pelas coisas santas. Hoje estamos numa época em que existe apenas contentamento pelas coisas do mundo. Quase ninguém tem a alegria da virtude, de estar servindo a Nosso Senhor. São Francisco Solano foi chamado por Deus para comunicar essa alegria. Não se trata de uma alegria tonta, de piada, de brincadeira, própria de um palhaço.

    Trata-se de ter a alegria da seriedade, que é a mais nobre e elevada das alegrias. Veremos São Francisco Solano dar o exemplo disso por toda parte, e fazer este apostolado da alegria na luta, na seriedade, no sofrimento.

    Movimento rítmico de grande candura, nobreza, elevação e pureza

    Ele tomou o hábito de, quando viajasse, incluir em sua minúscula bagagem, junto com o cilício e disciplinas, um violino, que era o seu grande instrumento de apostolado.

    Exatamente essa justaposição me parece querer dizer bem tudo: o violino sem o cilício é o caminho aberto para a apostasia. O cilício sem o violino perde algumas de suas expressões; porque o normal do cilício bem usado é dar alegria. Mais ou menos como o soldado que vai para a luta, ele parte alegre. Um soldado que vai chorando e pensando: “Ó pátria, como me dói deixar-te… Ó família querida, que mágoa… Ó pobres membros que as balas podem estraçalhar…” Ele recua, não vale dois caracóis.

    O bonito é o soldado que avança por cima do perigo e até da morte, alegre no sacrifício e na dor. Assim também o religioso. É a alegria de carregar as obrigações, de arcar eventualmente com os votos, de pertencer inteiramente a Nossa Senhora, de não ter nada de próprio e de, por causa disso, ter tudo. Violino e cilícios. A fórmula parece-me tão magnífica que se poderia fazer dela um motivo de decoração, numa capela, lembrando esse apóstolo do continente onde existe o Brasil.

    A alegria de São Francisco Solano era tão singular que quando ele estava diante do Santíssimo Sacramento, ou via uma imagem do Menino Jesus nos braços de Nossa Senhora, tinha tanta alegria que muitas vezes ia para o interior do convento e chamava os padres: “Padre venha ver, o senhor não se alegrou ainda? Olhe aqui como o Menino Jesus está tão bem aqui com Nossa Senhora nessa imagem! Assim vivamos na Terra; vamos nos alegrar!” E quando ele se tomava de muito entusiasmo, puxava o violino, tocava, cantava e dançava diante da imagem ou do Santíssimo Sacramento.

    Era um movimento rítmico de grande candura, nobreza, elevação e pureza, evidentemente. Os sentimentos da alma podem se exprimir pelos ritmos da música e também pelos do corpo.

    Aliás, antigamente havia danças diante do Santíssimo Sacramento. Eu acho isso um encanto. Imaginem qual seria nossa sensação entrando numa igreja e encontrando um Santo em êxtase, tocando violino diante do Santíssimo Sacramento ou de uma imagem de Nossa Senhora, cantando e dançando. Ficaríamos extasiadíssimos!

    São Francisco Solano era muito zeloso da sagrada Liturgia. Por isso tinha um empenho enorme em que os frades aprendessem bem as rubricas e o cantochão, para dar todo o esplendor possível aos santos mistérios.

    Exprobava os maus hábitos renascentistas 

    Esses contrastes harmônicos me maravilham. Ele cantava e tocava canções religiosas populares para agradar ao povo, mas era um espírito elevadíssimo que compreendia a superior beleza da Liturgia, com todo o pensamento teológico, toda a piedade, todo o sobrenatural que há na Liturgia, portanto, também na arte, na música litúrgica, e que exigem esse esplendor. Quer dizer, o esplendor enorme abarca os dois extremos. Eu gosto de ver almas assim: largas, abertas, capazes de se entusiasmar pelos opostos, não contraditórios, mas extremos. Isso é categoria; assim era São Francisco Solano.

    Muitas vezes acontecia que ele andava pelas ruas da Espanha tocando o violino e a criançada saía correndo atrás dele para ver, porque se interessava. Aí ele parava e dava um cursinho de Religião para os meninos.

    Pode-se imaginar que curso gracioso, interessante. Como o curso atraía muitas crianças, os mais velhos iam assistir também. Quando percebia que os mais velhos estavam bem empenhados, ele transformava o curso de catecismo em sermão, e exprobava, increpava nos mais velhos os maus costumes e incutia a virtude. Os mais velhos estavam cativados pela candura dos inocentes e formavam uma roda. O menino ia ver o frade, o adulto ia olhar o menino, o frade falava para o adulto. Era um circuito perfeito. E aí ele caía em cima dos maus hábitos renascentistas espalhados em seu tempo. Um apóstolo exímio.

    Como São Francisco Solano estava se tornando muito célebre na Espanha, seus superiores resolveram mandá-lo, a pedido dele, para a América. Então ele começou a percorrer a América espanhola a pé, estando no Panamá, Colômbia, Paraguai e Bolívia. Imaginem percorrer tudo isso a pé, nas estradas daquele tempo – quando as havia –, numa topografia torturada pelos Andes, subindo e descendo, escorregando… Depois, navegar por aqueles rios nas embarcações daquele tempo! Pois bem, ele foi até o Paraguai, chegou a descer à Argentina e fazer apostolado em Tucumán. O trajeto Panamá-Tucumán é próprio de um bandeirante!

    Se fosse um bandeirante leigo, com certeza se falaria muito dele. Aqui está um que fez isso por amor a Nosso Senhor; provavelmente se fala menos dele do que dos bandeirantes…

    Música acompanhando o gorjeio dos passarinhos e o murmúrio das águas

    Ele se fixou uma boa parte da vida dele em Lima, então chamada Cidade dos Santos Reis, onde florescia a Ordem Franciscana, com 180 membros, naquele tempo tão ilustres pela sua virtude, que tornavam Lima famosa nos ambientes franciscanos da Europa, por causa da santidade que florescia lá. No tempo em que ele morou naquela cidade, era Arcebispo de Lima São Turíbio de Mongrovejo, e começava a sua carreira de santidade Santa Rosa de Lima.

    Vemos, por esses dados, o que a América do Sul poderia ter sido. Porque quando esse é o ponto de partida, qual deveria ser o ponto de chegada?!

    Depois de uma estadia em Lima, onde suas virtudes foram granjeando estima e cargos, ele mais uma vez fugiu.

    São Bernardo dizia que a glória é como a sombra: quando fugimos dela, ela corre atrás; quando corremos atrás dela, ela foge.

    Na região de Tucumán, ele procurou aproximação com os índios mais temíveis. Certo dia, ele estava já cansado, andando em plena floresta e sentindo-se vigiado de longe.

    Os índios faziam muito isso: quando desconfiavam de uma pessoa, seguiam-na de longe, vigiando-a para ver onde ia; em certo momento, matavam-na.

    Embora se sentisse observado, como estava muito cansado de andar e com sede, parou perto de uma fonte e curvou-se para beber.

    A cena é linda, daria para uma iluminura medieval. Uma floresta virgem, um frade franciscano com aquele burel, que para junto a uma fonte borbulhante, se persigna e bebe aquela água. Depois sentou-se e descansou um pouco. Enquanto ele descansava, ouviu o cântico dos passarinhos, em grande número na floresta, e o murmúrio da água. E como ele tinha um gênio altamente musical, resolveu acompanhar com o violino o murmúrio das águas e o cântico dos passarinhos. Quer dizer, ele compôs. Notem a tranquilidade de consciência! Ele sabia que podia morrer durante aquela composição. Mas compreendia também que iria para o Céu tocando música, e os Anjos se encantariam com isso.

    Quem de nós não teria um empenho enorme em conhecer a música com que ele acompanhou o gorjeio dos passarinhos e o murmúrio das águas?

    Enquanto tocava, São Francisco sentiu uma seta passar perto de sua orelha e cravar-se numa árvore. Ele continuou. De repente, viu um carão emergir do meio da vegetação: era o cacique da tribo de índios ferozes que o Santo procurava. Ele deixou o violino e, todo irradiante de amor de Deus, dirigiu-se ao índio para o abraçar.

    O cacique se comoveu, deixou-se tocar, levou-o para a tribo, e São Francisco Solano começou a evangelização dessa nação índia.

    São Francisco de Assis, com que termos cantaria o irmão Francisco como ele, que converteu assim uma nação infiel!

    Mas restava conversar. Como falar com aqueles índios? Ele começou a falar castelhano e se deu conta de que o dom das línguas tinha entrado nele, e os índios entendiam o castelhano com toda a simplicidade. Assim se faz apostolado!

    Castidade: a única virtude que não se esconde

    Durante treze anos ele esteve nessa região, empregando todos os recursos para apaziguar brancos e índios, resolver dissensões, cativar uns e outros para a Religião. São Francisco Solano, êmulo de São Francisco Xavier, ressuscitou mortos, curou doenças mortais, amansou feras bravias, fez surgir fontes em lugares áridos, de tal maneira que era veneradíssimo pelos brancos e índios com quem tinha contato.

    É um fundador de uma nação! Homem que ressuscita mortos, fala em sua própria língua e os outros entendem nos seus respectivos idiomas! Assim se funda uma nação. Quantas coisas bonitas haveria para contar de Anchieta também, nesse sentido, o fundador do Brasil!

    Certa vez, quando uma nuvem de gafanhotos devastava uma plantação dos índios, o Santo ordenou-lhes que se dirigissem para uma floresta vizinha.

    Assim com essa facilidade: “Vão embora para a floresta!” E eles foram.

    Então os colonos perguntaram por que ele de uma vez não exterminava os gafanhotos. E ele deu duas razões: primeira, porque gafanhotos daquela espécie tinham servido de alimento a São João Batista, no deserto.

    Portanto, por amor a São João Batista, ele não mandava exterminar os gafanhotos.

    Em segundo lugar, porque também os índios comiam gafanhotos e era bom que os irmãos índios não ficassem privados de sua alimentação.

    Acho isso um encanto!

    Esse homem tão extraordinariamente suave era imensamente austero.

    Eu falei dos violinos, deixem-me dizer algo sobre os cilícios.

    Ele não só era casto, mas era a única virtude que ele timbrava que o vissem possuir.

    O que é altamente bem pensado, porque é a única virtude que não se esconde. Tem-se que mostrar.

    E, por causa disso, ele nunca permitiu que mulher alguma chegasse a cem passos de distância de sua moradia, em todo o círculo em volta.

    Será que compreendemos a responsabilidade individual de cada um de nós? De que história somos a continuação? Que promessas estão nas nossas mãos? E também que desilusões podem cair sob nossa responsabilidade, se não correspondermos à graça?

    Aqui é uma tarefa individual, porque do bom procedimento e da dedicação de cada um de nós pode decorrer uma notável melhora ou piora em todo o conjunto.

    Entregou sua alma a Deus, enquanto se cantava o Credo

    Quando podia, mandava construir uma choupana ao lado do coro, na igreja, para ter sempre a presença do Santíssimo. Quando não conseguia, levava ao coro uma esteira e deitava-se no próprio coro, onde, depois de alguns momentos de descanso, inflamava-se de amor de Deus que traduzia nos famosos cantos e danças, acompanhados de violino.

    Estando para morrer, no último momento, para traduzir seu amor e reconhecimento para com a Santíssima Virgem, pediu que lhe cantassem o Magnificat.

    É sempre a alegria.

    Lembrando-se em seguida de que era missionário, isto é, propagador da Fé, pediu que lhe cantassem também o Credo. E às palavras “Et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine”, expirou precisamente naquele instante, quando os sinos do convento anunciavam o momento da elevação na Missa conventual.

    Tudo ao mesmo tempo. Não pode ser mais bonito. Quer dizer, no convento, quando havia a elevação do cálice durante a Missa, se tocava o sino. Na cela dele, cantavam o Credo. Ao entoarem as palavras que acabo de citar, por coincidência fazia-se a elevação, os sinos tocavam e a santa alma de São Francisco Solano subiu ao Céu.

    Isso é morrer! Ou, por outra, isso é nascer.

    Depois de morto, tendo procurado certificar-se do rejuvenescimento que apresentava seu corpo, tão maltratado durante a vida pelos jejuns e penitências, um médico primeiro apalpou-lhe os pés e as mãos. Quando tentou apalpar-lhe uma das pernas, o Santo encolheu-a, dobrando o joelho. E é assim que é representado no retrato que foi feito dele no dia seguinte ao de seu enterro.

    Quer dizer foi mais um milagre que ele fez. Para mostrar a presença de Deus pela sua graça, ele encolheu a perna a fim de manifestar quanto a Providência o tinha amado em vida e dava-lhe a possibilidade de fazer esse prodígio. Ele não se auto ressuscitou, mas o cadáver se moveu. Aquele que tinha ressuscitado tanta gente dava essa manifestação de vida.

    O Vice-Rei, estando ausente da cidade, mandou que se adiasse o enterro para poder estar presente. E tanto o Arcebispo quanto o Vice-Rei entraram no cortejo para oscular humildemente os pés do Santo. Tendo o Vice-Rei visto que a almofada que sustentava a cabeça do Santo, no caixão, era de um tecido muito ordinário, ou pelo menos alegando isso, fê-la trocar pela de veludo bordado a ouro que tinha consigo. A outra, levou-a como relíquia.

    São Francisco Solano foi beatificado em 1675 e canonizado em 1726. Mesmo antes de sua beatificação, já fora escolhido como patrono pelas cidades de Lima, Buenos Aires, Cartagena da Colômbia, Panamá e Santiago do Chile.

    Com isto está apresentada a vida de São Francisco Solano.

     

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 16/8/1974)

     

    1) Não dispomos dos dados bibliográficos.

     

  • Prece a Nossa Senhora do Carmo

    Meus olhos e minha alma se voltam hoje para Vós, Senhora do Carmo:

    Vós que fostes a inspiradora de um grande veio de profetas, desde Elias até o carisma profético da Santa Igreja no Novo Testamento; Vós que ensinastes antes mesmo de existir, e fostes o modelo daqueles que creram no Salvador prometido pelas Escrituras; Vós que representastes o apogeu da esperança desses varões de Deus, pois fostes a nuvem da qual choveu o Redentor — Vós sois hoje a Arca da Aliança da qual há de vir a vitória para o mundo, conforme anunciastes em Fátima: “Por fim, meu Imaculado Coração triunfará!”

    Inundai minha alma, ó Mãe, da certeza deste triunfo, e da coragem de estar de pé na derrota, na adversidade, esperando o dia de vossa glória.
    Assim seja.

    (Proferida por Dr. Plinio em 16/7/1971, Festa de Nossa Senhora do Carmo)

  • Santa Veronica

    Além da dor física, os sofrimentos de Nosso Senhor provocavam n’Ele uma dor moral que nenhum homem pode calcular, pois transcende todo o entendimento humano.

    Verônica, contemplando-O assim, teve pena. Ela teve coragem de ver a dor d’Ele, olhou de frente, e disse: “Meu Senhor e meu Deus”! Lancinada pela pena, ela foi correndo de encontro a Ele,  enfrentou o risco que isso constituía, e teve o famoso gesto de enxugar o rosto de Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 20/3/1982)

  • Zelo pelo esplendor da Liturgia

    São Francisco Solano era muito zeloso da Sagrada Liturgia, e por causa disso tinha um empenho enorme em que os frades aprendessem bem todas as rubricas e o cantochão, para dar todo o esplendor possível aos Santos Mistérios. Não obstante, ele cantava e tocava canções populares para agradar o povo.

    Esses contrastes harmônicos me  maravilham: para agradar o povo, canta canções religiosas populares; mas é um espírito elevadíssimo que compreende a superior beleza da Liturgia, com todo o pensamento teológico, toda a piedade, todo o sobrenatural que nela existe, e também a arte litúrgica para o esplendor da Liturgia.

    São Francisco Solano era, portanto, uma dessas almas largas, abertas, capazes de se entusiasmar pelos opostos não contraditórios, mas extremos.

    Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 16/8/1974)